Janus

Uma coincidência temporal juntou a morte de António Feio com o casamento de Jorge Neves e Eduardo Pitta. A um, o tempo impediu a consumação de um talento ainda com décadas para se realizar. Aos dois, foi o tempo que permitiu a união que os realiza enquanto casal, após décadas sem que tal lhes fosse permitido.

Duas faces do tempo, destruidor e criador. Dois acontecimentos que merecem ser celebrados pelo que também dizem de nós, de Portugal.

Vinte Linhas 517

«Ele foi extremamente desagradável» – disse Rui Patrício de Mário Crespo

No livro «A vida conta-se inteira» de Leonor Xavier (edição Círculo de Leitores – Temas e Debates) Rui Patrício (n. 1932) afirma: «Há dias fui entrevistado por um senhor Mário Crespo e ele achou de muito bom gosto projectar a sala das Nações Unidas meio vazia quando eu lá estive. Ele foi extremamente desagradável. Mostrou a sala meio vazia e perguntou como é que eu reagi. Respondi-lhe que fiz o discurso que tinha que fazer, discurso que teve até uma certa repercussão aqui em Portugal.

Esse Mário Crespo, ainda por cima, é de Moçambique e disse que me conhecia porque tinha ido à cidade do Cabo levar uns mapas que o general Kaúlza de Arriaga me mandava. Falou nisso…

A princípio foi muito cordial. Sobre a questão da sala estar vazia, faz-me lembrar uma história que, infelizmente, o Mário Crespo não me deu tempo de contar. Em 1973 a nossa embaixada em Viena convidou uma equipa da TV austríaca para fazer propaganda da barragem de Cahora Bassa, em construção. A equipa foi à barragem, viu os trabalhos em curso, filmou tudo. O governador do distrito ofereceu um jantar seguido de danças nativas. Correu tudo bem mas dias depois recebi um telefonema do nosso embaixador em Viena a dizer que o programa tinha sido horrível com os jornalistas a dizerem que chegaram à barragem no meio do maior perigo, tendo eles filmado uma parte da batalha…»

Desconfia dos jornalistas em geral? (Leonor Xavier) Sim, muito. (Rui Patrício)

Ataque à diligência

Se os procuradores do Freeport pediram o adiamento da conclusão do processo e lhes foi recusado, tal teria sido – no mínimo – referido no despacho, já para não falar nos jornalistas amigos que poriam de imediato essa história no ar. Como não consta que o tenham feito, de acordo com o que entretanto foi sendo conhecido, só há um corolário: o prazo foi aceite por Paes de Faria e Vítor Magalhães. Nem estrebucharam. Ora, se quem aceita um prazo judicial para terminar uma tarefa à sua responsabilidade vem depois a queixar-se de falta de tempo, e resulta dessa falha dano grave na reputação e direitos de alguém, estamos a lidar com trafulhas ou com alimárias.

Esta é mais uma situação em que vemos figuras gradas da sociedade a provarem que idade cronológica e idade mental não são irmãs gémeas. A defesa do que estes dois procuradores fizeram já está a permitir identificar facínoras, seres que habitam num mundo cujas regras são eles que as fazem de acordo com as conveniências do momento. Como é o caso de Paulo Pinto de Albuquerque, um alucinado que foi para o Expresso da Meia-Noite falar em nome dos Procuradores para elogiar a sua irresponsabilidade e que se recusou a comentar o processo em tudo o que punha em causa as tangas que ia despejando. O sofisma que martelou à exaustão foi o da impotência dos magistrados perante a fixação de um prazo pela hierarquia. Pelos vistos, na cachimónia do Albuquerque, existem Procuradores da República que deixam de efectuar diligências consideradas necessárias para o apuramento da verdade por falta de tempo e nem sequer mexem uma palha para obter mais uns meses – ainda por cima, logo neste processo, onde a última coisa que se esperava era a continuação da suspeição à volta do Primeiro-Ministro após 6 anos de investigação e no acto mesmo de encerrar o inquérito. Não há memória de nada igual na Justiça portuguesa, nem de nada tão infame.

Enquanto o Albuquerque é um debochado cultor da erística, Rui Cardoso, secretário-geral do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, é uma aflição. Sabê-lo a passear-se num qualquer corredor do edifício da Justiça é motivo para nos deixar em cuidados. Pois este amigo, no meio de enroladas divagações, conseguiu partilhar a visão do seu sindicato acerca do imbróglio. E reza assim: Cândida Almeida, por razões misteriosas, decide acabar com o processo à revelia dos Procuradores e despacha uma data para o Vice-Procurador-Geral da República, este ricocheteia-a para os titulares do processo, sem lhes ter perguntado se estavam de acordo, e nasceu o monstro. Eis, agora, a melhor parte: os Procuradores, face a estes achaques, terão amuado, desistindo de obter mais tempo, e resolveram vingar-se, chapando com as perguntas e insinuando que Sócrates continua na berlinda. São estas as conclusões do que este Cardoso proferiu num estúdio de televisão, embora o próprio dê sinais de ignorar o alcance das suas palavras.

O Ministério Público, como se vê pela amostra, é mais perigoso do que o Oeste Selvagem.

Parabéns, PSD

Conseguiram ficar 4 pontos percentuais acima de um Governo que não existe, de Ministros que todos os dias afundam o País na miséria e de um Primeiro-Ministro que devia estar preso há anos e anos. Sem dúvida, um excelente resultado – e só possível graças à vossa espantosa coragem e magnífica inteligência. Agora, já sabem, é continuarem por esse caminho. Continuem a dizer as verdades; essas, as vossas. Portugal não vos irá esquecer.

Noticiário desportivo

O Sporting anunciou esta sexta-feira à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) um princípio de acordo com o Génova para a transferência de Miguel Veloso

É a melhor notícia para o Sporting desde a contratação de Acosta.
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«Yannick é desejado em Inglaterra», garante empresário

A esperança é verde.

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Os presidentes das ligas de futebol de Portugal e Espanha já iniciaram conversações para a criação de uma Taça Ibérica, que junte os campeões dos dois países e até mesmo os vencedores das taças.

Eis uma boa ideia, cruzando rivalidades clubísticas e nacionais.

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Não sou atrasado mental, nem demente, nem alcoólico, nem esquizófrénico.

Declaração onde Carlos Queiroz admite não ter vocação para o mundo do futebol.
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Sporting: Golo de Vukcevic (0-1)
Grande lançamento/assistência de Maniche, por trás da defesa da equipa dinamarquesa, com Vukcevic, no limite do fora-de-jogo, a contornar o guarda-redes Hansen e a rematar tranquilamente para o fundo das redes.

A verdade vem sempre ao de cima.

Vinte Linhas 61

Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés

Meu pai não tinha sandálias de vento. No ano de 1956 meu pai tinha uma bicicleta cor de cinza e eu sempre soube distinguir, na pequena descida da Várzea do Lameirão, o som inconfundível da roda pedaleira em descanso. Para os outros era penas mais uma bicicleta; para mim era a bicicleta. Não havia outra. Foi nessa bicicleta que ele fez viagens repetidas entre Santa Catarina e Santarém para tirar a carta de condução de pesados. Eram noventa quilómetros por semana, por estradas péssimas, debaixo de chuva, levando batatas e azeite de casa para comprar todos os dias o peixe mais barato no mercado da cidade. Pedalou sacrifícios, suores, poupanças, vento agreste e o mais que natural desejo de fugir ao seu destino traçado de cavador. Ou como dizia o senhor padre Castelão na missa de domingo anunciando futuros casamentos: profissão «jornaleiro». Porque viviam, fingiam que viviam, da jorna paga aos domingos de manhã no largo maior da terra depois da missa e antes da ida à taberna. Quando meu pai voltou orgulhoso da sua carta de pesados e de serviço público, o patrão resolveu contratar um motorista nascido numa aldeia perto de Alcobaça. Vingou-se assim do seu analfabetismo total: como não conseguia tirar a carta de condução pagou uma fortuna a uns aldrabões que o receberam num café das Caldas da Rainha. Saíram pelas traseiras e deixaram-no só, sem dinheiro e sem carta de condução. Foi assim, na trilogia Deus/Pátria/ Autoridade, numa aldeia da Estremadura que aprendi o sentido exacto e total da palavra fascismo. Afinal uma palavra ainda desconhecida para mim nesse já distante ano de 1956. Bastaram dez palavras assim pronunciadas: «Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés».

Afinal

Afinal, rechina Cerejo babando-se para cima da página 100 do despacho assinado pelos procuradores Paes de Faria e Vítor Magalhães, o processo Freeport não acabou, está é prestes a começar. Consta que o Ministério Público impediu o Ministério Público de concluir o seu trabalho ao ter imposto uma data de conclusão após 6 anos de investigação e da entrega do relatório final da Polícia Judiciária. O resultado é inovador: cria-se a figura do não-interrogado. O não-interrogado não é testemunha nem suspeito de coisa alguma, pois nenhum indício justificou a sua inquirição em tempo útil, fica é condenado a arrastar as interrogações consigo para o resto da sua vida. Em alternativa, pode sempre esperar que o processo seja reaberto; ou que apareça um novo processo, com sorte ainda mais escabroso para fazer esquecer o anterior.

Outro dado curioso da peça, se não curiosíssimo, respeita a Rui Gonçalves. Diz-se que ficou a dever 10 respostas aos magistrados. Ora, não consta que este senhor seja Primeiro-Ministro, pelo que o argumento da autorização do Conselho de Estado não se aplica. Que impediu a sua chamada? Aliás, que impediu a sua segunda chamada?

Estes dois procuradores não se atrapalharam nada para criar um dos episódios politicamente mais graves no período eleitoral de 2009, queimando um colega e amigo por causa de conversas, e agora não conseguem fazer perguntas a dois cidadãos? Afinal, perceber como é que se chegou a uma situação onde a Justiça introduz injustiça que atinge instituições, comunidade e pessoas é que seria o Cerejo no cimo desta bola feita com a carne dos portugueses.

Vinte Linhas 516

Com que então, entre delírio e alucinação, querias a caderneta militar?

Esta onda suja de disparates que por aqui (aspirinab) chafurdou sete vezes como as ondas do mar (as verdadeiras) a propósito de uma frase minha no «post» dos girassóis abatidos pela CML frente à livraria Fábula Urbis merece uma clarificação.

De facto parece-me ser já da ordem do delírio e da alucinação esta peregrina ideia de alguém (que não conheço nem estou interessado em conhecer) se permitir dizer, mais ou menos isto: já que você diz que tem um louvor na caderneta militar, mostre!

Era o que faltava… Se não acredita passe em frente e esqueça. Eu não deixarei de ser quem sou e o palonço (ou palonça) que se atreveu a refilar não deixará de ser quem é. A vida continua.

Mas se por absurdo eu descesse ao ponto de indicar os nomes, as datas e as circunstâncias do tal louvor na caderneta militar (ou seja conteúdo e autoria, palavras e nome do comandante do regimento) também outro alguém se poderia lembrar de por sua vez perguntar: se você é juiz social desde 1993 diga lá em que juízo e secção trabalha quando participa nas audiências do Tribunal de Menores?

Era o que faltava… Se quer acreditar, muito bem, se não quer, siga o seu caminho mas não aborreça a malta. No espaço da Net existem vários CV meus que se difundiram ainda mais depois de ter participado na Bienal do Livro do Estado do Ceará na cidade de Fortaleza. Então no Brasil e noutros países da América do Sul foi mesmo uma multiplicação. Que cada um trate do seu CV e faça os possíveis por o melhorar e ampliar mas sem atropelar os outros. É esta a minha sugestão. Podem aceitar ou não.

Facilidade e felicidade

Um aspecto incontornável da conspiração que tentou abater Sócrates – e afastar o PS da governação – através do Freeport remete para a cumplicidade do BE e PCP com os mandantes da coisa. Os seus publicistas, por meias palavras ou à descarada, alinharam na campanha de assassinato de carácter e na calúnia sem limite. Também para os imbecis dava jeito uma caldeirada que fosse queimando os socialistas, especialmente estes que conseguiram a maioria absoluta e ousaram afrontar corporações com décadas de privilégios, disfunções e inércias; o que muito enfureceu os camaradas, ufanos e sonoros proprietários da História.

Para esta esquerda que se alia à direita, a democracia não passa de uma anomalia burguesa e o Estado de direito está ao serviço do capital. Quem não for dos seus partidos, é corrupto e fascista até prova em contrário. Daí a facilidade, e felicidade, com que reduzem os socialistas a um bando de escroques.

Vinte Linhas 515

Os 40 mártires do Brasil afinal aqui tão perto

Há 440 anos exactos, no dia 15 de Julho de 1570, a tripulação dum navio francês comandado pelo calvinista Jacques Sourie abordou em Tazacorte (La Palma) uma embarcação portuguesa que levava a bordo a caminho do Brasil 40 jesuítas – 32 portugueses e 8 espanhóis. Foram atacados e atirados ao mar, eram jovens entre os 20 e os 30 anos de idade integrando este grupo sacerdotes, diáconos, estudantes e irmãos. Tinham passado por uma preparação na Caparica durante cinco meses e pararam na Madeira em 12 de Junho de 1570 para reabastecimento.

De todos os 40 missionários mortos em 1570 o mais conhecido é Inácio de Azevedo que chefiava a missão e no conjunto havia 32 portugueses de 25 localidades diferentes. Começando por Alcácer do Sal e Alcochete temos gente originária de Borba, Braga, Bragança, Celorico da Beira, Ceuta, Chacim, Chaves, Covilhã, Elvas, Entre Douro e Minho, Évora, Estremoz, Fronteira, Lisboa, Marco de Canavezes, Montemor-o-Novo, Niza, Ourém, Pedrógão Grande, Porto, Santa Maria da Feira, Trancoso e Viana do Alentejo.

Esta nota procura apenas interpelar tal como eu fui interpelado na Rua de São Nicolau na manhã do passado domingo. Todos os dias nos entram pela casa dentro através da TV imagens de grande violência com actos de intolerância religiosa mas o mais curioso é que são muitas vezes apresentados como se de uma realidade nova se tratasse. Afinal já em 1570 havia perseguições deste tipo em que uma embarcação a caminho do Brasil podia ser atacada perto das Ilhas Canárias e os seus tripulantes atirados ao mar.

A porqueira não se rende

Crespo, por volta das 9.22, acusou Sócrates de ter acesso ilegal a documentos na posse da Justiça. Só isso explicaria a declaração onde se congratulou com o fim do processo Freeport, concluiu irado. Também informou a audiência de estarmos perante uma gigantesca fraude do Ministério Público, o qual não tinha meios de investigação e não respeitou as provas que incriminavam Sócrates – provas essas que Crespo identificou e repetiu a cada 5 minutos.

Mas nem tudo foram mágoas para o porcalhão. Os seus olhos brilharam de esperança, a sua voz elevou-se pujante, com a possibilidade de o processo ser reaberto por requerimento dos variados assistentes. O sonho de voltar a ter Sócrates no corredor da morte encheu-lhe o peito de alegria. Foi o único momento em que sorriu embevecido.

Um livro por semana 192

«Rui Patrício – A vida conta-se inteira» de Leonor Xavier

Neto paterno de Alice d´Espiney e de António Patrício (embaixador, poeta, contista, dramaturgo) Rui Patrício (n. 1932) teve como avós maternos Augusto Goulart de Medeiros e Maria Júlia Loureiro de Macedo. Uma das tias tornou-se Campos e Sousa pelo casamento, outra ficou Tito de Morais – o mesmo é dizer direita e esquerda com o avô Goulart ao centro. Aos 9 anos R.P. vive com o pai, diplomata em Vichy na França ocupada. Lá tem como médico o irmão do escritor Jean Giraudoux e conhece Danielle Darrieux e Porfírio Rubirosa. Teve dois padrinhos ligados às letras (João de Barros e Urbano Rodrigues) e um primo – Gustavo Soromenho. Leu muito na juventude: Eça, Oliveira Martins, Camilo, Alexandre Herculano, Fialho de Almeida, Stendhal, Dostoiewski, Shakespeare. Ex-aluno do Colégio Moderno, Rui Patrício recorda as férias em S. Martinho do Porto: «Um dia alguém pôs um disco com a música Chiquita Bacana e um dos Hipólito Raposo disse: «Eu não posso deixar que as minhas irmãs oiçam isto!» E partiu o disco.».

Este livro de Leonor Xavier lê-se ora em relativa alegria («no Tribunal declarei que o Ramos de Almeida tinha as suas ideias mas que nunca o vira entrar numa conspiração política») ora em relativa amargura quando R.P. recorda o ministro Correia de Oliveira: «Depois do 25 de Abril não resistiu à queda do regime. Todos nós, que sofremos por ver o país destruído e o Ultramar abandonado, percebemos o seu desespero.» Tal como o livro, o título é um achado e vem de Drummond de Andrade: «A vida conta-se inteira / em letras de conclusão».

(Editora: Círculo de Leitores / Temas e Debates, Notas: Ana Gomes, António Pinto da França, Francisco Seixas da Costa, João Diogo Nunes Barata e Marcello Duarte Mathias)

Freeport

O caso Freeport está na origem do caso PT/TVI e da espionagem política feita em Aveiro e no Parlamento. Muitas pessoas, em lugares de cimeira responsabilidade social, fizeram os possíveis para usar estes casos com vista à obtenção de ganhos políticos através da injúria, difamação e calúnia.

Quais serão as consequências para os envolvidos e para o futuro da política portuguesa?