Um livro por semana 191

«Contos de Shakespeare» de Charles & Mary Lamb

Os irmãos Charles Lamb (n.1773) e Mary Lamb (n. 1763) foram convidados em 1807 a colaborar na Juvenile Library com a transcrição das obras de Shakespeare de teatro para conto. Charles trabalhou nas tragédias e Mary nas comédias. Os 20 contos («Tales from Shakespeare») foram a sua consagração literária com aceitação crítica e sucessivas edições. «Romeu e Julieta» começa por referir as desavenças entre as famílias Capuleto e Montague e a ceia dada pelo velho Capuleto quando Romeu (mascarado) vem a conhecer Julieta. Convidamos à leitura com a transcrição dum excerto: «As más noticias voam sempre mais céleres que as boas. Romeu soube em Mântua do lutuoso acontecimento, antes da chegada do mensageiro enviado por Frei Lourenço para o informar de que aqueles funerais eram fingidos, apenas a sombra e a aparência da morte e que a sua querida esposa jazia no túmulo apenas um curto lapso, à espera de que Romeu a viesse libertar daquela fúnebre mansão». Mais à frente, surge a moral da história: «Frei Lourenço referiu a história do fatal amor dos dois inditosos jovens. Explicou que Romeu, ali morto, era marido de Julieta e Julieta, ali morta, a fiel esposa de Romeu. Finalmente o príncipe de Verona, voltando-se para os velhos senhores Montague e Capuleto, increpou-os pelas suas rixas absurdas e brutais e mostrou-lhes como Deus se servira do amor de seus filhos para os punir pelo seu ódio desnaturado».

(Editora: Bonecos Rebeldes, Tradução: Januário Leite)

A um lápis do Museu Abílio em V. F. Xira

Faço a lápis a primeira agricultura

Mais tarde com colheita no ecran

Perto da terra mais fria e mais pura

A sementeira dura toda a manhã

Lápis antigo sempre na velha mala

Das aulas a correr sítios diferentes

Caído muita vez no soalho da sala

Entre Matadouro e Combatentes

Faço a lápis a primeira agricultura

Do poema semeado numa mesa

Com sangue pisado e com amargura

Segue o lápis a caminho da certeza

Que é saber que este lápis continua

Nos cadernos da memória anterior

Traz ao meu candeeiro a luz da lua

Cria no grande caos um novo amor

Bengaladas nos conhecidos

O João Távora disponibilizou-se galhardamente para um encontro comigo e ele ocorreu hoje a meio da manhã, não muito longe do Marquês de Pombal. Esgrimimos as nossas bengalas e descobrimos que a argumentação respectiva, de facto, era coxa ou fraca das canetas, pelo que concordámos em discordar. Ganhei um café e uma boa conversa à conta da sua gentileza.

Há uma onda de irracionalidade, se não for atitude intencional, nas acusações de anonimato dirigidas a pseudónimos ou, quiçá, pseudo-pseudónimos. O anonimato é a situação em que alguém se furta à identificação, não a situação em que alguém se torna famoso num dado grupo precisamente por ter expressado facetas da sua identidade de forma constante, coerente e acessível à interacção com terceiros. Usando o meu caso como exemplo, é aberrante descrever como anónimo quem é identificado pela assinatura, pelo blogue, pela escrita, pelos testemunhos de terceiros e pelos dados biográficos revelados. Sem mais informações identificadoras, em que é que se distingue o pseudónimo de dois nomes próprios que poderão ser de dezenas ou centenas de pessoas? E qual o problema de se fazer reserva de identidade, ou ser discreto, num canal de comunicação que é privado, como o são os blogues? Acima de tudo, estamos no campo da deslealdade e do insulto quando se fazem acusações de carácter sem ter previamente tentado contactar o suposto anónimo em causa para lhe pedir informações relativas à sua identidade. Isso é o equivalente a andar pelas ruas a chamar anónimo a quem passa.
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Vinte Linhas 499

Câmara de V. F. Xira ou Estradas de Portugal não podem tapar uma memória

Faz hoje 26-6-2010 sessenta anos que Carlos Pato morreu em Caxias vítima do desgaste de muitas horas de «estátua». Tendo nascido em São João dos Montes em 21-12-1920, aderiu ao PCP em 1937, foi atleta e dirigente desportivo, foi empregado do Banco Nacional Ultramarino e desenvolveu larga actividade política e associativa tendo chegado a presidente do Ateneu Artístico Vila-franquense de 1945 a 1949.

A sua morte pela PIDE nada teve de acidental pois tratou-se de um homicídio preparado ao longo de 13 meses de prisão, passou por largas dezenas de horas de «estátua» e concluiu-se com a recusa de lhe ser prestado qualquer tratamento médico.

Na sua morte Carlos de Oliveira escreveu: «Mais vivo porque sofreste / a morte não veio, foi-se / A eternidade constrói-se / na beleza com que viveste». José Gomes Ferreira, por sua vez, escreveu: «Volta-te e olha para a terra / – a carne da tua sombra / de flores acesa. / Céu para quê? / O céu é para os que esperam / E tu morreste por uma certeza!» Já Sidónio Muralha tinha escrito: «Largos versos irrompem do teu silêncio de granito / e tu vives inteiro em cada grito / tu que foste maior que todas as poesia».

A homenagem da família e dos muitos amigos realizou-se no Clube Vila-franquense tendo a Comissão Concelhia do PCP promovido uma romagem ao cemitério para colocação da coroa de flores no jazigo onde repousam seus restos mortais. Foi guardado um minuto de silêncio seguido por uma calorosa salva de palmas. Antes de regressar a Lisboa passei pelo Largo Carlos Pato e fiquei revoltado com a Câmara por autorizar placas indicativas (Arruda, Torres Vedras) que tapam o seu nome e a sua memória.

O longo braço da máfia socrática

O SIMplex foi elogiado pela ONU. Não, não se trata do famigerado blogue, mas também com ele se relaciona, afinal. É que isto anda tudo ligado. Aparentemente, o Governo de Sócrates não se limita a levar o País à bancarrota enquanto enche os bolsos aos amigos, tese que tem sido amplamente divulgada pela oposição e comunicação social não situacionista, igualmente lhe dá para levar a cabo reformas e lutar por uma sociedade inovadora. Este aspecto marginal de uma actividade que é essencialmente corrupta e corruptora, esta bizarra preocupação com o futuro da população por parte de quem saca milhões e milhões para as suas contas na estranja, aparece agoira realçado pela ONU, vejam só o desplante a que se chega.

Qualquer dia teremos investigadores a estudar este forma tão pouco lusitana de roubar o Estado, a qual passa por fazer reformas na Segurança Social, Saúde, Educação, pela política de energia vanguardista, pelo investimento na ciência e na tecnologia, pelo integral respeito da liberdade de expressão até ao ponto de se suportarem sucessivas vagas de assassinato de carácter como nunca antes se tinha visto fazer em Portugal.

Estes corruptos do Governo e do PS são muita burros, fosga-se.

Arco de pedra

Ao terceiro arco de pedra o teu olhar

É um volume nas estantes da livraria

Livro por abrir a tua idade é um lugar

A convocar um clarim que te anuncia

Aos trinta e sete anos a idade só existe

Para quem vive de costas para os dias

O teu tempo não é um relógio triste

A marcar uma sucessão de nostalgias

O tempo é o teu olhar, o teu sorriso

Que dá títulos a livros numa estante

O tempo é o teu perfil, belo e preciso

Definido pelo teu olhar de viajante

Viagens sem sair do mesmo espaço

Livraria que é também para navegar

Ao fim do dia não mostras o cansaço

Cada livro recebe a luz do teu olhar

Queiroz quântico

Queiroz reúne várias características que só se explicam através dos conceitos fundamentais da física quântica. De facto, ele não é nem um bom treinador, nem um mau treinador, mas as duas coisas ao mesmo tempo. É um bom treinador porque fez milagres na formação em Portugal e conseguiu ser campeão do Mundo com uns miúdos. Esse balanço inicial na sua carreira levou-o para grandes clubes, sendo a longa permanência no Manchester a prova de que tem qualidades para treinar as melhores equipas internacionais – pelo menos, em situação de complementaridade com uma liderança técnica. Não é um bom treinador porque tem fracassado nesse lugar por onde tem passado, incluindo no presente cargo de seleccionador nacional. O apuramento para o Mundial foi um inesperado sofrimento, tanto pelos maus resultados como pela qualidade do futebol. O jogo com a Costa do Marfim, anunciado como o mais importante dos 3 com meses de distância, aquele que teria de ser ganho obrigatoriamente, revelou uma equipa que não perdeu por acaso e que não sabia atacar. E os jogos com a Coreia do Norte e o Brasil deram para todas as opiniões.

Estamos em presença, pois, de várias facetas da mecânica quântica: a dualidade partícula-onda, o entrelaçamento e o princípio da incerteza. São boas notícias para o Portugal-Espanha, um jogo que estaríamos condenados a perder no paradigma da física clássica.

Cenário, por agora, impossível

Alegre está em grande forma e numa situação ainda melhor do que em 2006: tem um Cavaco debilitado pela frente, sem se vislumbrar qual possa ser a sua estratégia de recuperação da credibilidade. A oratória tonitruante e vácua do bardo chega e sobeja para um incumbente que deixa uma Presidência desastrada, mesmo indigna, para os registos da História. Qualquer coisa que Cavaco faça ou diga, não faça ou não diga, se poderá facilmente virar contra si, tamanha a sua perda de sentido de Estado, isenção partidária e ligação à comunidade.

Não aparecendo outro candidato agregador, a erosão que Alegre e Cavaco causam no centro vai reforçar Nobre. Caso este se convença de que não lhe interessa passar por Madre Teresa de Calculará, e se deixe da retórica do seu passado para assumir a visão do nosso futuro, poderíamos chegar a um ponto em que passassem à 2ª volta Alegre e… Nobre. Seria o pesadelo de Alegre.

Cenário impossível, por agora. Mas não impensável.

Para além de cobarde, serei gay?

Dou por mim a fugir de encontros com gajas boas como o milho transgénico, ou até melhores, e a tentar marcar blind dates com marmanjos a transbordar de testosterona. Se não for gay, sou a vergonha da heterossexualidade nacional. E cá estou para mais um convite a um cidadão que declara querer conhecer-me na intimidade.

João Távora, manda-me um email com o local, o dia e a hora dessa sessão de bengaladas. Levarei o BI no bolso, fica descansado, juntamente com o número de contribuinte e o NIB. Só te peço que – antes ou depois de começares à bengalada, escolhe a sequência que mais te agradar – me expliques a parte do conspurca a blogosfera. Será que leste no Aspirina B algum autor a violar a correspondência privada, a difamar dezenas de ex-colegas de escrita e a caluniar indivíduos, famílias e relações pessoais? Se sim, depois não te esqueças de me dizer quem foi o pulha que fez isso, por favor, para ver se descubro quem foi o pulha que o permitiu.

Vamos a elas, Távora.

Vinte Linhas 498

De Almeida Garrett a José Saramago – a maldição da «gralha»

Na página 19 do livro «Viagens na minha terra» de Almeida Garrett, a propósito de se saber já nesse tempo romântico que cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis, surge a seguinte pergunta:

«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico».

Na página entre as dedicatórias e o arranque do livro «Levantado do chão» de José Saramago com a célebre frase «O que mais há na terra, é paisagem», surge a transcrição desta pergunta de Almeida Garrett mas com um problema que se verifica desde a primeira edição: em vez de «condenar à infâmia» aparece «condenar à infância».

O livro já passou por tantas mãos, tem edições na Editorial Caminho e no Círculo de Leitores e acabo de ver na Livraria Sá da Costa uma edição especial e comemorativa a cargo de José Cruz Santos com trabalhos gráficos qualificados de Armando Alves e nem assim a maldita gralha foi atirada ao chão. Lá continua indiferente a tudo e a todos, ao arrepio do que Almeida Garrett disse por escrito e por extenso e daquilo que José Saramago quis tomar e transcrever de Almeida Garrett como exemplar para o seu «Levantado do chão».

«Infância» não é «infâmia» mas a frase de Almeida Garrett no livro de Saramago ainda não foi emendada tantas edições passadas desde a primeira datada de 1980.