Darwin, always

Falhas inacreditáveis na segurança que permitiram o 11 de Setembro, apesar da informação ter chegado à CIA tempos antes. Falhas inacreditáveis na logística que levaram o caos à caótica Nova Orleães devastada pelo Katrina, apesar do Governo Federal ter uma máquina gigante à disposição. Falhas inacreditáveis na regulação do sistema financeiro que permitiram a maior crise económica dos último 80 anos, apesar de toda a inteligência acumulada pelos analistas. Falhas inacreditáveis na fiscalização da exploração petrolífera da BP no Golfo do México e inacreditável insucesso tecnológico para reparar a fuga de petróleo, apesar dos recursos materiais e científicos reunidos.

Nem as superpotências estão imunes aos erros que causam prejuízos irrecuperáveis e catastróficos. E se os americanos falham desta maneira, vivendo numa das mais sólidas e amplas democracias na Terra, então é porque o problema é inerente à complexidade dos actuais sistemas que suportam a vida em sociedade, não o fruto podre da preguiça ou má-vontade.

Precisamos de inteligências mais complexas se vamos continuar a evoluir, é a simples conclusão.

Avancem os independentes

Que eu saiba, nunca se explicou publicamente a tonteira colectiva que levou o PS a apoiar Soares para as Presidenciais de 2006. Na altura, surgiu-me como um grandioso exemplo da disfunção a que pode chegar um partido. Soares não tinha já as condições físicas, muito menos as políticas, para avançar em direcção ao terceiro mandato. Que foi aquilo? Uma imposição feudal? Uma tara a que ninguém se quis opor? Uma inércia displicente? Ainda por cima, ironia das ironias, se o PS tivesse apoiado Alegre – como se afigurava lógico vendo de fora do partido – poderia conseguir uma imprevisível segunda volta, no mínimo reduzindo a vitória de Cavaco e equilibrando a balança das percepções simbólicas. Alegre em 2006 era apenas um saco de promessas líricas, não o saco de vento em que se tornou passados 4 anos. Se tivesse sido escolhido pelo PS, talvez nem viesse a atacar o Governo logo dois anos depois, num crescendo de boicotes e chantagens que fizeram o jogo dos que mais apostam na derrocada dos socialistas: BE. É extraordinário que uma figura responsável por dificuldades acrescidas na governação e perda de votos no partido, a qual chegou a ameaçar criar um movimento eleitoral concorrente só para perseguir uma patética vanglória, seja eleita como modelo que merece ser o Supremo Magistrado da Nação. Extraordinário e inaceitável para quem não deve fidelidade de voto.
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Intermitência

Na igreja, e na missa que já decorre, pela primeira vez na minha vida. “Graças a Deus”, ouço, em coro, no momento em que entro. “Ok ok. Já sei que estou atrasado. Mas – fogo – não é motivo para ironizarem dessa maneira, é”, replico, bem alto, aborrecimento latente.

Balada do licor da quarta classe

Mal chegado de Lisboa

Bebi sem que esperasse

Num balcão de Foz Côa

O licor da quarta classe

Com amêndoas e figos

Entre pipas de vinho fino

Desenha mapa de amigos

Num coração de menino

Que todos vão guardar

Dentro da adulta idade

Os rios foram para o mar ´

Essa é a única verdade

Quarta classe data sabida

Na vida feita caminho

Há uma frase sentida

Já és um homenzinho

Nesse licor de Foz Côa

Que nunca tinha bebido

Há a marca duma pessoa

E um espaço percorrido

Disse adeus a Trancoso

Deixei na Meda verdades

Num comboio vagaroso

Desenho duas saudades

A Menina de Vilarouco

Princesa nesta paisagem

O sorriso nunca é pouco

No calor duma viagem

O licor da quarta classe

Memória, fim da infância

Entra sem que o sonhasse

No mistério e na distância

Pináculos da estupidez

Consta que Sócrates levou para o Brasil o plano de enganar os portugueses através da manipulação de Chico Buarque. Contudo, parece que o plano falhou porque não conseguiu isolar o cantor a tempo, impedindo que usasse telefones e proibindo os jornalistas de lhe fazerem perguntas.

Há quem acredite nisto. E há quem escreva a declarar que acredita nisto. De facto, a estupidez não conhece qualquer limite.

Desconfia da desconfiança

Sou amigo do João Maurício Brás. E fomos colegas de curso. No passado dia 21, fui ao lançamento do seu terceiro livro, A Importância de Desconfiar. No vetusto salão nobre do Liceu Maria Amália, estavam na plateia umas 10 pessoas, mais 4 na mesa.

Embora o livro se recomende pela inusitada temática e raridade editorial, vou limitar-me a enaltecer o convidado cuja missão era a de apresentar a obra, o Professor Carmo Ferreira. Na Católica, foi o terror na cadeira de Filosofia Contemporânea, desmontando Hegel a uma velocidade superior à da luz. Com um bocadinho mais de atenção, também dava para ir fazendo um curso de alemão só com o que deixava escrito no quadro. Assombro e pânico, era o que via nos rostos à sua frente.

Teve muito melhor recepção nesta sexta-feira de Maio, aceitando o convite para analisar, e avaliar, a obra de um antigo aluno. E fê-lo com o mesmo rigor com que dava as aulas, respeitando o texto no acto de o criticar sem favor, mas favorecendo o acesso a ele, dando a pensar. A clarividência do seu discurso, a erudição servida como degrau, a frontalidade de um olhar inquiridor, são características típicas de um filósofo de vocação e consagração. Para quem se sintonizar num destes seres quando dá uma aula, ou uma qualquer palestra, a experiência é de embriaguez e ascensão intelectual. O espaço e o tempo alteram-se pelo pensamento; mas esta experiência não é para explicar, é para descobrir.

Que Portugal não saiba quem é o meu amigo João, eis o que é natural e não traz mal ao quotidiano dos cidadãos pagadores de impostos. Mas que Portugal não aproveite o poder transformador do logos de Manuel do Carmo Ferreira, eis o que prejudica a comunidade por a privar do convívio com os seus melhores. E como ele, há muitos outros que passam pela academia, e poisos variegados, sem conhecerem as luzes da ribalta e o alvoroço da multidão.

Quem procura, encontra, como se ensina na sapiência. E até aqueles que não procuram podem encontrar. Estamos rodeados de amigos que nunca vimos antes nem iremos ver alguma vez. Por isso, é sábio aquele que desconfia da sua própria desconfiança.

Vinte Linhas 487

Mêda, Trancoso e Foz Côa – As gaforinas de Susana e os selos da Lituânia

O barco vai de saída do cais do Pocinho até à foz do rio Côa. Ouve-se a música de Fausto a empurrar a bandeira verde do município de Foz Côa. Afinal Vila Franca das Naves e Escalhão ficam a poucos quilómetros por este rio acima. No usufruto da velocidade, as gaforinas de Susana dançam com o vento que liga o pó da pedra dos socalcos à humidade da massa líquida do rio. Na cadeira ao lado, Amadeu Baptista procura que não se percam na espuma breve os selos da Lituânia, os mais difíceis de juntar. Vinho fino, amêndoas e figos secos dão forma alegre à mesa das palavras. João d´Ávila trouxe Mário Cesariny, Almada Negreiros, Fernando Pessoa e há-de convocar Pedro Homem de Melo à noite no Clube Trancosense. Fernando Castro Branco, Jorge Velhote, Maria Estela Guedes, Nuno Dempster e Aurelino Costa trazem nas suas vozes e poemas a geografia e as memórias dos seus lugares de origem e de pertença: Porto, Bragança, Britiande, Ilha de São Miguel, Viseu, Lamego, Póvoa de Varzim, Trondheim. Amadeu Baptista guarda, cioso e atento, os selos da Lituânia para que o vento do Douro não os espalhe na água acabada de acordar pelo barco da poesia e das artes plásticas.

Jorge Maximino é o capitão desta nau de sonhos onde cabe sempre o inesperado: seja a música de Simão Mimoso, sejam as leituras de Carlos Pedro. Nos próximos dias 4 e 5 de Junho chegam aqui os filmes. Partem os poetas e aparecem os realizadores: Manuel Mozos, Jorge Murteira, Jorge Pelicano e Rosa Silva. No comboio entre Celorico da Beira e Santa Apolónia às memórias da fraternidade entre os livros e as pessoas juntam-se as imagens das gaforinas de Susana e dos selos da Lituânia de Amadeu Baptista.

Na porqueira

Nesta sexta, o Crespo pediu a Vítor Ramalho uma explicação para o facto de a TVI ter acabado com o alguidar da Moura Guedes, assim como para o facto de Moniz ter saído. Esta insinuação conspirativa é recorrente, obsessiva, para nada contando a completa ausência de provas nem o que os diversos responsáveis já disseram na Comissão de Ética e na Comissão de Inquérito. Na versão completa, ainda acrescenta ao rol o Zé Manel, Marcelo e, claro, a sua magnífica pessoa, todos vítimas da perseguição do Engenheiro e suas manobras mafiosas.

Num dia próximo ou longínquo, fatalmente, Sócrates dedicará o seu tempo a outra actividade qualquer. Outros serão os governantes. Uma coisinha é certa: se Crespo se permitir difamar uma figura ligada ao PSD, acaba-se logo o regabofe. Voltará para a situação em que estava quando foi pedir trabalho ao Emídio Rangel, que o ajudou.

A sua perseguição a Sócrates é de cão de fila, sabe-se protegido pelo dono. Quando lhe faltar este osso, vai ter de se portar bem ou escolher outro igual para roer. Os barões não toleram indisciplinas nos animais da quinta.

A pseudo-direita não se enxerga

Mal lhe pergunte, mas o Senhor Deputado pensa que está em que Regime?

Isabel Moreira

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Pedro Duarte, o deputado visado, não terá respondido. Mas Pedro Duarte, o deputado visor, revela pela sua acção e declarações que o Regime por si preferido é aquele onde se fazem escutas ilegais, onde se abrem processos judiciais sem fundamento contra o Primeiro-Ministro num ano triplamente eleitoral, onde as escutas chegam a jornalistas seleccionados violando o segredo de Justiça, onde a devassa da privacidade é arma de combate político e ataque pessoal, onde magistrados entram ressabiados na arena política ao arrepio da Constituição.

Veja-se o episódio com o SMS que Vara enviou em Setembro. O facto de o Sol noticiar agora, e só agora, esse acontecimento liga-se com uma das perguntas que foi feita a Sócrates na CPI. Pergunta-se algo ao Primeiro-Ministro, ataca-se o cidadão. Não há travão nem remorso, Sócrates é um alvo a abater por todos os meios. E eis o supremo desencanto da merenda: pessoas que representam papéis de superioridade moral – como Ana Margarida Craveiro, primeira subscritora da petição TODOS PELA LIBERDADE e porta-voz do grupo dos 30 castiços que almoçaram mais tarde num certo dia de Fevereiro – não percebem, sequer entendem, e muito menos compreendem, a perversão para a nossa liberdade que resulta da utilização da intimidade para calúnias e baixa política. Falência da liberdade seja de quem for, miserável ou poderoso, quando se recorre à captação, e exposição, da privacidade fora do âmbito judicial mais restrito e justificado. Vara até podia ter por hábito só conseguir adormecer depois de enviar mensagens a Sócrates em que descrevia a fantasia de matar o Papa com uma colher de pau, isso continuaria a ser algo que a mais ninguém dizia respeito.

Este tipo de violência atinge toda a comunidade. Vindo de quem reclama que se respeite e cumpra o Estado de direito, o aproveitamento do mal que outros fazem – para obter desforço e amplificar o seu efeito destrutivo – é bem o retrato de uma pseudo-direita que se reduz à ganância.

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O Miguel apresenta o lado cronológico do episódio. De referir que a edição digital do Expresso publicou a notícia às 12h55.
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Entretanto, o João acrescentou outros exemplos: já vai nas 12h43 a publicação da 1ª notícia. O que significa que os jornalistas souberam ainda mais cedo.

Sobre um tema de Vitorino Nemésio

Viver nas ilhas pequenas

É comprar paz com desconto (Vitorino Nemésio)

*

Viver nas ilhas pequenas

É ter mais tempo nos dias

Entre manhãs tão serenas

E as noites longas e frias

O dia tem horas cheias

Passam os vários vapores

E na sombra das baleias

Há vozes de trancadores

O vinho das cepas velhas

Desce com a neve do Pico

Desde a porta até às telhas

É nesta adega que eu fico

No sossego das lagoas

Na distância das fajãs

Perdi a voz das pessoas

Na gramática das manhãs

Viver nas ilhas pequenas

É comprar paz com desconto

Ter numa factura apenas

A vida ponto por ponto

Até tu, Cavaco?

Ao que o Diário Económico apurou, o facto de não poder usar as escutas, impediu o partido de avançar com três diligências que podiam trazer factos novos: o pedido de uma alegada carta enviada por Isaltino Morais, autarca de Oeiras, a Zeinal Bava questionando-o sobre o interesse do Taguspark na TVI; a suspeição levantada pelo facto de existirem alegadamente 144 chamadas feitas por Armando Vara em apenas 15 dias com a estação como tema; e ainda o requerimento a São Bento do registo de entradas e videograma que permitia provar se Granadeiro esteve em S. Bento a 23 de Junho.

Fonte

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O PSD adensou, e agravou, a posição dos magistrados de Aveiro, a qual afirma ter existido crime de atentado contra o Estado de direito envolvendo Primeiro-Ministro, PT, BCP, BES e Taguspark, pelo menos. Na sequência da extracção das certidões, as suspeitas de envolvimento aumentaram, passando a incluir o Procurador-Geral, o Presidente do Supremo e, agora, o Presidente da Comissão de Inquérito ao caso PT/TVI, todos acusados, com maior ou menor desplante, de serem cúmplices no encobrimento das provas e na defesa de Sócrates. Como esta posição é mantida após meses de audições e interrogatórios, o PSD está a validar a tese de Aveiro, sendo que Aveiro legitima a tese do PSD.

Para além de ficarmos a saber que o Pacheco está aborrecido por não ter apanhado Granadeiro no Isto Só Vídeo, e que Zeinal Bava é uma triste e corrupta figura que o insigne Isaltino Morais põe no seu lugar por carta, espero ardentemente pelo momento em que o grupo parlamentar do PSD suspeite de Cavaco por estar em silêncio perante as evidências que o deputado-espião espalha aos quatro ventos. Não vale a pena negar: tanto encontro semanal, e a sós, só se explicava por um pacto secreto.

Um livro por semana 136

«Casas do Espírito Santo» de Carlos Lobão (coordenação)

Carlos Lobão é o grande entusiasta das edições do Clube de Filatelia O Ilhéu da Escola Secundária Manuel de Arriaga na Horta. Este livro sobre o Espírito Santo é resultado desse labor. São 120 páginas com muitas fotografias e um título feliz – «Casas do Espírito Santo». Na verdade as casas do Espírito Santo em Santa Maria e São Miguel chamam-se teatros, na Graciosa e na Terceira são impérios, em São Jorge, Pico e Faial são ermidas ou capela e nas Flores e Corvo são casas. Muitos impérios têm anexos (local onde se preparam as sopas além de espaço onde se guardam as varas, os lampiões, os estandartes, as bandeiras e os utensílios de cozinha) que ganham nomes diferentes de Ilha para Ilha: casa das sopas (São Jorge), talho (Flores), copa (Faial), despensa (Terceira) e copeira (Santa Maria e Flores). Página a página cada fotografia com as suas cores e as suas mensagens («Deus é Caridade, União e Caridade») ou as suas abreviaturas (DES – Divino Espírito Santo) vai comovendo o leitor. Todas são especiais e diferentes entre si (há umas que até são amovíveis) mas o Império dos Outeiros na Agualva apresenta uma pauta musical gigante nas suas paredes. Convite óbvio a que das paredes saltem as notas para serem cantadas na alegria convocada dum encontro feliz. Em Santa Maria o Império do Santo Espírito tem a particularidade de o azulejo referir «Triato de Nossa Senhora da Piedade construído em 2002 pela Junta de Freguesia do Santo Espírito». Esta aliteração prova a ingénua diferença entre língua e linguagem, entre cânone e prática. Para fechar com chave de ouro fica a quadra da contracapa do livro: «Império é casa serena / Onde se entra por bem / Em tamanho a mais pequena / E a maior que o mundo tem».

(Edição: Clube de Filatelia «O Ilhéu» Escola Secundária Manuel de Arriaga – Horta)

Manual de Cidadania

Só para dizer uma coisa sobre o Saldanha Sanches. Era um homem muito difícil. Como algumas pessoas da sua geração, que é a minha, embora ele fosse mais velho do que eu, são muito difíceis de meter em caixinhas. Era muito engraçado a dificuldade de pôr títulos. O fiscalista Saldanha Sanches. Não lhe passava pela cabeça ser classificado, na hora da morte, como fiscalista. O revolucionário desiludido Saldanha Sanches. E esse aspecto, esta dificuldade de meter aquele homem numa caixinha qualquer, que corresponde às caixinhas com que nós somos todos metidos, todos os dias, pela comunicação social, mostra, de facto, que aquela biografia, como algumas biografias daquela geração, são, de facto, muito difíceis de meter em caixinhas.

Deputado-espião

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Lobo Xavier tinha decidido fazer uma referência a Saldanha Sanches, dizendo algumas palavras de homenagem. Seguiu-se o Pacheco, que relembrou ser seu amigo há muitos anos, mas escusando-se a dizer mais naquela ocasião. E António Costa teceu-lhe rasgados elogios, realçando a exigência e a coerência com que foi seu mandatário da candidatura à Câmara de Lisboa. Estava a desenvolver o fascinante tópico da sua independência com exemplos concretos, pessoais, quando foi interrompido a mata-cavalos para despejo do auto-panegírico supra. A morte de Saldanha Sanches, de repente, era só mais uma ocasião para o Pacheco falar de si e do seu complexo de superioridade. A mensagem fica como um pleonasmo tautológico: também eu não me deixo enfiar em caixinhas, também eu venci a comunicação social, também eu sou da tal geração, eu posso, eu quero, eu sou, eu.

Malhar no Pacheco devia ser obrigação cívica explanada num capítulo inteiro do manual de cidadania contemporânea ainda por escrever. Não por lhe querermos mal – físico ou psicológico, e bem pelo contrário – mas por ele nos fazer mal. Esta super-estrela da política-espectáculo, que ganha fortunas a mentir à descarada, e sem nunca se retractar, ainda conseguiu envenenar um partido ao ponto de ser mentor de uma estratégia política asinina e degradante. Como se fosse pouco, é ao Pacheco que deverá ser creditada, seja em que percentagem for, a exclusão do futuro líder social-democrata das listas de deputados. Finalmente, deixam-no andar pelo Parlamento a emporcalhar a instituição, criando uma situação de infâmia generalizada que atinge indivíduos, empresas, PS e Governo. Será este o seu principal legado à cultura e sociedade portuguesas? É que tudo o resto ficou ofuscado pelo que fez, e não fez, desde que Ferreira Leite tomou conta do asilo da Lapa.

E nem as Escrituras escapam. Ir buscar uma passagem bíblica para fazer ameaças oblíquas cujo contexto, subtexto e pretexto são as escutas a que teve acesso na Comissão de Inquérito, é soberba só possível àqueles que já se elevaram misticamente ao deboche sagrado. Daí as crises de acédia, pois tudo o que sobe acaba por descer.

De facto, somos obrigados a concordar: os biógrafos do Pacheco nem sequer perderão um minuto a tentar enfiá-lo em caixinhas, vai logo directo para um saco de plástico preto.

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A Ana, em boa hora, republicou a carta de Maria José Morgado para Saldanha Sanches. É uma despedida que será causa de muitos encontros pelos anos afora.