Rugido

Uma bizarra Associação de Adeptos Sportinguistas invocou o conhecimento de escutas a Pinto da Costa de forma a apelar à hostilidade para com o Futebol Clube do Porto em Alvalade.

Acontece que esta associação foi criada em 2008, e acontece que pago as quotas do Sporting, ininterruptamente, desde 1980. Isso faz com que eu tenha um balanço de 28 anos para dizer o seguinte aos gajos da AAS: na parte do estádio que me couber, esse cm quadrado, prefiro ter sentado o Pinto da Costa a suportar a peidola de quem finge ser Leão.

Vinte Linhas 454

O maloio, o lapão, o saloio, o labrego, o lapuz e outros malcriados

Utilizo com muita frequência o Dicionário da Língua Portuguesa da Sociedade de Língua Portuguesa, edição de 1986 coordenada por José Pedro Machado.

A propósito do termo «lapão» que utilizei em anterior comentário a uma nota de leitura, o mesmo dicionário refere-o como «Termo de Leiria». De facto em Leiria era usual chamar-se «lapão» a um trabalhador rural no sentido em que este, vindo à cidade, não dominava a gramática daquela civilização. Como tal não sabia sequer como dirigir-se às pessoas dos diversos serviços (Finanças, Câmara Municipal, Grémio da Lavoura e outros) havendo mesmo quem na cidade de Leiria utilizasse um termo mais forte – lapãozão. Explica o dicionário acima referido que «lapão» é labrego, campónio e lanzudo. Mas então «labrego» é rude, rústico, camponês, aldeão, malcriado, grosseiro e ordinário. Já «lapuz» surge como bruto, campónio, labrego, rude e grosseiro. E «saloio» é aldeão, grosseiro e rústico. Mas há um segundo sentido no termo «saloio»: pode ser ardiloso, manhoso, finório e velhaco.

Quanto a «maloio» o termo é definido no dicionário como saloio, campónio, labrego e lapuz. Assim sendo, quando escrevo «maloio», estou a acertar em cheio pois este termo acumula o sentido de quase todos os outros da mesma família.

Recordo muitas vezes uma frase da minha avó em Santa Catarina nos meus tempos de férias grandes entre 1957 e 1961: «Nunca dês parte de fraco, não sejas maloio!» Ora tendo eu nascido no distrito de Leiria, cidade onde fiz as admissões à Escola Técnica e ao Liceu, esta frase prova que o termo não é só de Leiria mas sim de todo o distrito.

Being Earnest

Tudo é mais complexo, e mais simples, do que nós imaginamos. No caso do Pacheco Pereira, é mais simples. A mitologia à volta deste homem conta que estamos perante um intelectual influente no curso político dos últimos anos. Admito que sim, tendo em conta o seu currículo, a sua ubiquidade mediática e o seu poder partidário no consulado de Ferreira Leite. A ser assim, então a política nacional é passível de ser influenciada por um desavergonhado irresponsável. Quando ele escreveu que no Aspirina B pululam empregados do Governo, e incluiu o blogue numa frente da calúnia da qual nunca exibiu um só exemplo das ditas, eu (pelo menos eu, mas admito que muitos outros) fiquei a saber algo a respeito do Pacheco que não iria descobrir enquanto mero espectador das suas actividades. Desafiado a provar a acusação, saiu-se com mais um jorro de petulantes e desvairadas indirectas, incapaz de assumir a responsabilidade por uma opinião vendida.
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Guerra Civil – II

Portugal divide-se entre aqueles que se vão lembrar de Sócrates ter sido o primeiro chefe de Governo a depor na Assembleia da República e aqueles que não se vão esquecer de Sócrates ter sido o primeiro chefe de Governo a ser alvo de espionagem política a coberto de uma investigação judicial.

Ser do PS aumenta a inteligência

Quem não é do PS não precisa de se esforçar. Todas as suspeições contra Sócrates são acolhidas e festejadas. Os boatos chegam para ter certezas acerca do seu carácter, responsabilidade, honradez.

Quem é do PS, militante ou simpatizante, está sempre na berlinda. Tem de lidar com as sucessivas campanhas e manobras de destituição de Sócrates. O resultado é um permanente exercício analítico e reflexivo onde se interpretam notícias, declarações e comportamentos.

Conclusão: qualquer estúpido repete uma calúnia e ataca sem provas, mas é preciso ter uma inteligência robusta para defender a Cidade da invasão dos bárbaros.

A Última Famel

Fui ontem assistir à estreia, em Lisboa, do filme de Jorge Montereal. Uma produção a custo zero, feita com a generosidade e entusiasmo da equipa e de quem lhe deu os apoios.

A palavra despautério foi inventada já a pensar nesta obra. Entra directamente para o top do burlesco nacional. E com uns pequenos toques até ficaria parecido com um filme para levar muito a sério.

Vais gostar. Mas não é possível antecipar porquê nem do quê.

Génio de Carvalhal

Coitadinhos dos bifes. Caíram na genial armadilha do genial Carvalhal. Tudo começou em 20 de Janeiro. Sá Pinto e Liedson representam uma farsa onde simulam ofensas e agressões. Ninguém suspeitou de nada ao tempo. Seguiram-se as desgraçadas derrotas e humilhantes empates. Todos acreditaram que a equipa estava acabada, incluindo o próprio Carvalhal que era o autor deste plano. Por fim, um 1º jogo com o Everton onde se deixa no ar que eles poderiam vir até Lisboa a passeio. E assim foi: entraram no jogo com a clarividência de duas cabeleireiras de Brighton depois de três garrafas de Mateus Rosé. E pronto. Veloso, Saleiro, Djaló, Moutinho e Pedro Mendes resolveram a coisa em 30 minutos.

Segue-se o plano para esmagar o Atlético de Madrid. Coitados dos espanholitos.

Guerra Civil

A Sábado publicou aquele que pode ser um casus foederis para, finalmente, se abanar o sistema de Justiça para além da sua capacidade de reequilíbrio. A notícia expõe a interpretação de Aveiro acerca dos acontecimentos que levaram às decisões de Pinto Monteiro. E diz isto: o Procurador-Geral é cúmplice de uma conspiração criminosa destinada a proteger o Primeiro-Ministro, sendo este também responsável por outra conspiração criminosa. A partir daqui, há vários corolários:

– Magistrados e Judiciária em Aveiro consideram lícita a utilização da comunicação social para atacarem o Governo, a Procuradoria-Geral, colegas e cidadãos através da divulgação de escutas não sujeitas a defesa legal, sequer a contraditório dos visados.

– A gravidade desta suspeição, caso não seja desmentida pelas autoridades nela mencionadas, é matéria para comissão parlamentar de inquérito, obviamente, mas também para Conselho de Estado. Se o Presidente da República aparece alvoraçado a pedir transparência e ética por causa de um negócio entre privados que nunca chegou a acontecer, e se faz declarações solenes para falar dos Açores e dos seus emails, está política e moralmente obrigado a pronunciar-se sobre a notícia da Sábado.

– Não pode haver empate neste confronto Aveiro-Lisboa. A radicalidade da suspeição é fatal tanto no caso em que se confirme como no caso em que se infirme.

A Justiça é unanimemente apontada como um dos principais problemas de Portugal, tanto pela sua morosidade como pela sua ineficácia. Tem sido também um sistema cheio de vícios antidemocráticos, onde os magistrados se sabem blindados com protecções e vantagens exclusivas – acima da sociedade, dos partidos e até do Governo. Neste conflito onde uma comarca judical abriu uma investigação contra o Primeiro-Ministro em ano eleitoral, temos visto esta ferida sistémica infectar cada vez mais, os tecidos corroídos até ao osso. Só que o osso não é uma entidade abstracta chamada Regime. O osso é o Povo, o Soberano.

Aveiro, ao lançar estas suspeições, declara guerra aos fundamentos do Estado de direito. Seja por manobra política de alta escala ou peçonha vaidosa de uns quantos, está posta em causa a legitimidade do edifício da Justiça e sua hierarquia. Presidente da República e partidos têm de tomar posição. Este não é tempo para limpar armas, embora seja sempre bom conselho que se faça pontaria com calma.

Um livro por semana 172

«O Primeiro Marquês de Alorna» de Filipe do Carmo Francisco

No seu primeiro trabalho publicado em volume autónomo, o jovem investigador Filipe do Carmo Francisco (n. 1981) aborda a carreira de D. Pedro Miguel de Almeida Portugal (1688-1756) que foi Vice-Rei da Índia entre 1744 e 1750. Conforme o subtítulo indica o Conde de Assumar (1733), Marquês de Castelo-Novo (1744) e Marquês de Alorna (1748) foi o restaurador do Estado Português da Índia. A partir do massacre de Aldoná (1737) no qual perderam a vida quatro companhias de granadeiros, D. Pedro reorganiza, aos poucos, a força militar portuguesa na Índia e empreende as diversas campanhas com ataques navais e expedições terrestres contra os vizinhos mas sempre sob a ameaça do Marata e da pirataria, quer do Angriá quer do Bounsuló.

Os panegíricos publicados em Lisboa, Paris e Roma entre 1715 e 1759 em louvor dos Vice-Reis Setecentistas da Índia, mostram que só para D. Pedro são escritas 43% das obras mas, curiosamente, o texto impresso que vai perdurar até 1961 é a célebre Instrucção que D. Pedro escreveu para o seu sucessor, o Marquês de Távora. Estranhos são os caminhos da posteridade: esquecidas as centenas de páginas escritas em seu louvor, o contributo de D. Pedro para a história de Goa, Damão e Diu está nas sucessivas reimpressões do seu relatório de 1750 sobre a realidade física e humana, geográfica e social, política e religiosa da Índia Portuguesa.

(Editora: Tribuna da História, Capa: Maia Moura Design, Revisão: Manuel Amaral, Editor: Pedro de Avillez, Patrocínio: Fundação das Casas de Fronteira e Alorna / Comissão Portuguesa de História Militar)

Asfixia alvar

O grupo de expedicionários que foi para a frente da Assembleia da República fazer número (um número à volta do algarismo 30), num protesto contra o plano de Sócrates para comprar televisões, jornais, rádios e castanhas assadas com dinheiros das empresas públicas, continua activo? Trocam inflamados emails? Estará na calha um blogue para denunciar o engenheiro? Já marcam presença no Facebook? Vão fazer novas manifestações? Irão juntar-se num lauto e festivo almoço em 2011 para comemorarem o 1º ano do movimento que libertou Portugal?

Será uma pena se essa união nacional deixar aburguesar-se e desmobilizar.

Quando o telefone toca

Henrique Monteiro, na Comissão de Ética, repetiu o que andamos a ouvir há três anos dos guardiões da Verdade, e o que ele próprio já tinha contado na altura: que Sócrates, em certas situações, ligou para directores de jornais. Pelos vistos, com o Henrique só aconteceu uma vez; ou teria contado mais histórias. E o episódio diz respeito a uma suspeição que visava apenas atacar o carácter do Primeiro-Ministro, não a tópicos de política partidária ou governativos.

Estamos perante uma pressão? Estamos. Mas do género baixa pressão, daquelas onde se mete muita água. Para começar, o telefonema relatado foi privado, o que também pode sugerir intimidade, ou confiança, ou respeito, ou hombridade. E eis o extraordinário: terá durado hora e meia. Hora e meia, mais coisa menos coisa, são 90 minutos. 90 minutos para fazer um pedido manhoso? 90 minutos para fazer uma ameaça? 90 minutos para fazer uma chantagem? Que tipo de pressão telefónica demora 90 minutos a ser realizada? Diria que Monteiro não pode servir a Deus e ao Diabo: se a conversa era para o pressionar de qualquer forma ilegítima, teria tido curta duração; se a conversa se arrastou por hora e meia, foi do interesse do pressionado.

Não têm conta as bocas de notáveis acerca da normalidade das pressões sobre jornalistas. É matéria de manual escolar. E nem vale a pena tocar na promiscuidade das relações entre a política e a comunicação social, monumento à simbiose. No entanto, Henrique Monteiro elegeu uma conversa com Sócrates como exemplo de uma grave intromissão na liberdade de imprensa. Fica provado que é um incorruptível, mesmo quando o fazem falar ao telefone durante hora e meia.

Why The Media Seems Biased When You Care About The Issue

Este artigo recorda um estudo dos anos 80 que expõe o mecanismo pelo qual nascem polémicas à volta da cobertura noticiosa dos assuntos que mais nos importam. A conclusão é a seguinte:

– Quando estamos envolvidos numa questão, tendemos a radicalizar a nossa posição de forma a vermos o assunto a preto e branco.

– Uma cobertura equilibrada, isenta, dessa questão irá parecer cinzenta; logo, iremos reparar no que falta e no que se opõe, não no que lá está e com o qual concordamos.

Enfim, só vemos o que queremos ver, não o todo que está à vista.

Sócrates fan club

Não existem socráticos. Ou melhor, os socráticos são os que detestam Sócrates. São eles que passam os dias em exaltada obsessão com o engenheiro. Os dias? As horas. A quantidade de textos produzidos contra Sócrates é avassaladora. Nada mais existe para estes infelizes a não ser a magnífica presença do Primeiro-Ministro, motor imóvel da sua fúria.

Sócrates não tem um discurso messiânico, não gosta de se ouvir, não tenta sequer agradar à multidão. O seu discurso é simples e energético, mas nasce de factos, de números, da realidade. Claro, será apenas uma versão da realidade, como é inevitável para seres humanos, mas não se furta ao confronto com outras versões e luta para defender a sua. Há mal nisto? O único mal é não conhecermos melhor as versões concorrentes, entretanto esquecidas na voragem do culto a Sócrates, o Grande Satã.

O PS gosta de Sócrates, mas não lhe presta culto algum. Se ele sair, ou quando ele sair, muitos socialistas sentirão alívio, outros desforra. A maior parte, a enorme parte, contudo, ficará agradecida por ter estado ao lado de alguém que despertou tanta raiva nos adversários – inequívoco sinal de impotência.

É no que dá não saber perder, fica-se escravo do vencedor.

No teu deserto

Uma vez que as conhecemos não podemos fingir que não conhecemos. Eu, pelo menos, não posso.

[…]

Uma vez que aquilo veio a público, não há como esconder a cabeça na areia…

Miguel Sousa Tavares

*

Este argumento beneficia o infractor. E se ninguém o admitiria se dele fosse a vítima, vendo a sua privacidade exposta e deturpada criminosamente, que falência da inteligência leva tantos a serem cúmplices da publicação de escutas que não devíamos conhecer, ou que não deviam publicar-se de forma incompleta e insidiosa?

Há que o dizer cada vez mais alto e mais vezes: quem viola os direitos dos governantes, ou dos políticos, mais facilmente violará os direitos dos cidadãos comuns. Aqueles que, à esquerda e à direita, não controlam a ambição e o ódio, aceitando que os fins justificam todos os meios, são declarados inimigos da democracia.

O Miguel não admitirá ser inimigo da democracia, antes um seu paladino. Contudo, não é capaz de reconhecer que uma notícia criminosa não pode ser usada contra a sua vítima. Mais valia que enfiasse a cabeça na areia do que dar este espectáculo onde é a areia que se enfia na sua cabeça.

Enfiar o Barreto

Hoje em dia haverá 2.500 a três mil pessoas cuja função, no aparelho de Estado, é organizar a informação e fazer a agenda política. Na televisão, nos jornais, na rádio, há uma verdadeira agenda política feita à volta do Governo, pelas agências e gabinetes de comunicação. Isto chama-se condicionar a opinião pública.

António Barreto

*

Alguém é capaz de explicar esta declaração?

Já agora, não andarão os professores também a condicionar a opinião pública através dos programas escolares? E existirá alguma forma de comunicação que não vise condicionar a audiência? É proibido condicionar? Devo desligar o ar condicionado?

Um livro por semana 171

«Humanidade» de Fernando Nobre

Fernando Nobre (n. Luanda, 1951) juntou em livro as suas reflexões e pensamentos sobre os desafios, as ameaças e as esperanças globais que o interpelam enquanto português e enquanto cidadão do Mundo sob o subtítulo de «Despertar para a cidadania global solidária». Com data de 4-1-2009 escreve sobre a chacina de Israel em Gaza, estranha guerra em que os «agressores», os Palestinianos, têm cem vezes mais baixas e mortos em mortos e feridos do que os «agredidos». Nunca antes visto nos anais militares! Vejamos um excerto:

«Os jovens palestinianos que, desesperados e humilhados, actuam e reagem hoje em Gaza, são os netos daquele que fugiram espavoridos do que é hoje Israel, quando o então movimento «terrorista» Irgun liderado pelo seu chefe Menahem Begin, futuro primeiro-ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou com armas brancas durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Yassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos arquivos históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos arquivos os actos genocidas perpetrados pelos nazis no gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio) horrorizou o próprio Bem Gurion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e para a Cisjordânia…»

(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Capa: Marta Claro, Foto: Teresa Champalimaud)