Estes dois minutos de Fernando Alves falam-nos de vários milagres: o milagre da inteligência, o milagre da voz, o milagre da crónica.
Arquivo mensal: Janeiro 2010
Olhando para os nossos 867 anos
Coisas que se dizem
Palavras
(de um tema de Valle-Inclan in La Lámpara Maravilhosa)
As palavras são humildes como a vida
Na Primavera, carro de mato, carrada
Futuro estrume da caruma distribuída
Dos currais aos passadiços da entrada
Na gramática da lavoura e da colheita
As palavras são a semente e o animal
Crescem na terra. são máquina perfeita
No Inverno, na salgadeira plena de sal
As palavras são humildes como a vida
Dobradiças dum celeiro hoje fechado
Já o pão não vem da fornada aquecida
Chega em carros de noite a todo o lado
Hoje a palavra mais triste e a mais pura
Andam perdidas na notícia em alta voz
No telemóvel, mensagens de amargura
Que se apagam no ecran de todos nós
Viva o Sporting!
Justíssima, e bonita, vitória do Braga. Os deuses ofereceram-lhe o golo e a burrice dos leões. Mas é uma burrice com mérito, por vir do Carvalhal, um génio. Este génio insiste no Veloso, pé canhão e pólvora seca. Veloso a médio direito é o equivalente a participar no Dakkar com uma Famel Zundapp. Mas Carvalhal prefere a dificuldade, senão perde o interesse e começa a chegar atrasado aos treinos.
Uma coisinha é certa: depois deste jogo, o Sporting continua à frente e cada vez mais perto de ser campeão.
Que caralho de dicionário é este?

Não, caralho. Não queria dizer baralho, caralho. Queria era dizer caralho, por isso o disse. Mas porque caralho haveria de querer dizer baralho quando o que havia a dizer era caralho? Oh, cum caralho… Baralho, caralho?!
Este dicionário, não contente com a exclusão do vernáculo, ainda tem o topete de pôr em causa a literacia do utilizador, insinuando que há algum engano da nossa parte (já agora, faz o teste com punheta para descobrir mais uma genial associação). Desde a crise do Pato com Laranja que não via uma acção tão frontal contra a obscenidade, essa força maligna que nos reduz a seres com liberdade de expressão.
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Como sequela, ou prequela, do acima exposto, lê um texto do caralho.
Comprem fraldas
Tudo o que Teixeira dos Santos diz das agências de rating, explicando aos distraídos que elas não devem ser confundidas com a Santa Casa da Misericórdia, seria dito pela direita mais vezes, mais alto e mais demoradamente se estivesse no Poder. Nesse caso, apareceriam inchados de nacionalismo bacoco, garantindo que a independência da Grei iria resistir aos algozes da alta finança internacional. Diriam que em Portugal mandam os portugueses, e que para governar existe o Governo.
Como não presta para nada, esta direita faz cocó nas calças e queixa-se da qualidade do ar.
Não, não têm
A saída de José Manuel Fernandes foi lida como cedência da Sonae ao Governo…
– Errado. Não houve cedência, mas sim uma guerra entre jornalistas, com culpas para as partes. Um director pode sentir-se cansado. Terá sido uma das razões, pois José Manuel Fernandes deixou de lutar para liderar. Ele era acusado – e bem acusado – de não criar climas de consenso no jornal. Deixou-se desautorizar.
– As razões de saída foram então internas e não propriamente políticas?
– Cansaço, se quiser. Provavelmente, concluiu, com o andar do tempo – e ele reconhece – que podia ter feito melhor. Perdeu poder. E quando um director, seja de que empresa for, deixa de mandar com alguma firmeza, cada dia que passa é pior. Ele concluiu que se tinha esgotado o seu tempo. Continua a colaborar, agora na qualidade de comentador. Escreve mais ou menos da mesma maneira, mas já não tem responsabilidade na linha editorial.
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Durante meses e meses, passarões de muito alimento político e mediático garantiram-nos que a saída do Zé Manel era uma prova da asfixia democrática e da existência de um projecto de poder pessoal qualquer; o qual levaria à entronização de Sócrates e subsequente fecho do Parlamento, e das fronteiras, para mais 48 anos de orgulho solitário. Foram os mesmos que também usaram o João Miguel Tavares como prova da fúria persecutória contra a imprensa livre, mas só até ao dia em que o coitadinho viu o mercado recompensar a estratégia de ocultamento seguida. Então, e também para reposicionar a sua marca após as eleições legislativas, contou uma versão dos acontecimentos que os cães de fila da Política de Verdade comeram e calaram. Os mesmos, sempre os mesmos, que berraram histéricos contra uma empresa privada por esta ter acabado com um peculiar jornalismo fundado na esperança de que uma potência estrangeira aterrasse na Portela com um mandado de captura para o Primeiro-Ministro.
Não têm vergonha?
Ruy Belo
Orçamentos grátis
Quando for eu a mandar nesta merda toda, obrigo os partidos da oposição a apresentarem os seus orçamentos alternativos. Adorava ver o que aquelas inteligências elaboravam no fogo da responsabilidade.
Como é que o BE e o PCP fariam a divisão dos recursos, sabendo-se que iriam aumentar e dar subsídios de desemprego a qualquer marmanjo sem vocação para o trabalho, proibiriam os despedimentos, prenderiam os patrões, fariam chegar os cuidados de saúde ao cu do mundo e transformariam as pensões de miséria em pensões de fartura? Qual seria o défice resultante das propostas eleitorais desses partidos?
E como é que o PSD e CDS diminuiriam o défice, sabendo que também pretendem baixar impostos, acabar com taxas, diminuir os pagamentos ao Estado? Como é que eles fariam o emagrecimento da Função Pública, onde e quanto cortariam? Como é que diminuiriam o desemprego se o actual desemprego é causado por factores externos?
Venham daí esses orçamentos. Não custa nada.
Much ado about nothing
PSD e CDS começaram a nova legislatura com a cassete da maioria parlamentar e de como o Governo tinha de se sujeitar às novas regras. Entretanto, o Governo preparava a elaboração e aprovação do Orçamento desde a primeira hora após ter tomado posse. Chegada a hora da verdade, PSD e CDS tiveram juizinho.
Fica como um dos maiores enigmas da política nacional isto destes dois partidos só terem juízo uma vez por ano, ou menos.
Vamos com os cães
Um casal de bifes começou a fazer contas à carne necessária para alimentar um cão. Resultado: dois Pastores Alemães consomem mais durante um ano do que a média de um habitante no Bangladesh. Não contentes, continuaram a irritar os amigos dos animais, agora fazendo contas à pegada ecológica. Resultado: ter um rafeiro qualquer gasta mais recursos do que ter um carro de alta cilindrada. Os que prefiram gatos não têm motivos para ronronar, bem pelo contrário. Até possuir um cágado é razão para nos borrarmos de medo com os cálculos deste casalinho que não começou hoje a pensar na saúde do Planeta.
A população humana duplicou nos últimos 50 anos, mas a exploração de recursos naturais quadruplicou. E a China só há pouquíssimos anos começou a ter classe média, hoje é o maior mercado automóvel do Mundo. A Índia também acelera os seus níveis de consumo, assim como todos os países em desenvolvimento. A meta são os padrões de consumo dos EUA e Europa. Mas a menos que se comece a plantar trigo na Lua, algo de completamente errado está a passar-se neste pintelho da galáxia. O animal em nós está a devorar o seu próprio corpo.
Vinte Linhas 445
Para a FIFA Thierry Henry não vai ser punido
A comissão disciplinar da FIFA decidiu não punir o jogador francês Thierry Henry pelo lance em que, por duas vezes, ajeitou a bola com a mão para a servir a um colega, Gallas de seu nome, que rubricou o 1-1. Com este golo duas vezes ilegal, a equipa de futebol da República da Irlanda foi afastada do Mundial de 2010 na África do Sul. Não deixa de ser repugnante que a decisão tenha por base um argumento falacioso: «nenhum texto jurídico suporta uma sanção». Para além da péssima tradução – «support» não é o mesmo que «suporte» mas sim «apoio ou base» – a grande verdade ninguém da FIFA a afirma: foi o árbitro que não escreveu no relatório aquilo que se passou de facto e que milhões de pessoas viram em todo o Mundo.
Há muitos anos, no clássico Good Companions, Priestley explicou a razão pela qual o público inglês adora o futebol. A razão, segundo ele, é esta: «O futebol reúne arte e conflito, duas fortes motivações humanas desde que o Mundo é Mundo». O presidente da Federação Francesa de Futebol ficou feliz com a frase da FIFA («não se trata de uma ofensa grave») e até já se saiu, ingénuo e parvo, com um desejo («Só espero que seja o fim da história») mas a verdade é que, se para a FIFA Thierry Henry não vai ser punido, para milhões de amantes do futebol em tudo o mundo ele nunca vai ser perdoado. Tal como, 43 anos depois, ninguém perdoou ao árbitro suíço e ao fiscal de linha soviético que sancionaram um golo fantasma na decisiva Inglaterra-Alemanha Ocidental de 1966. Thierry Henry também não vai ser perdoado no coração de todos os que amam o futebol. Pode a FIFA fazer o que quiser em nome do Direito; a Justiça já foi feita.
Tu e eu em cada golo
Uma beleza nascida do amor de pai e filho pelo Benfica. Uma beleza nascida do amor de um filho pelo pai. Uma beleza nascida do amor e do Benfica.
Um livro por semana 166

«A luz fraterna» – poesia reunida – de António Osório
António Osório tanto cita dois trabalhadores rurais que lhe oferecem um copo («um vinho transparente e ácido, vinho dos pobres, o da poesia») como abre poemas com epígrafes de Camões, Quevedo, Dante, Octávio Paz, Jorge Luís Borges, Vivaldi, Mozart ou dos mestres pintores: «Impossível confessar todas as influências. E no entanto um poeta é filho de si mesmo». A luz fraterna do título pode ser a raiz de toda a Poesia.
Entre a Natureza e a Cultura, a sua escrita proclama um princípio: «Pela vida fora a poesia pode chegar a ser tão indispensável como o colostro, quando se nasce». A vida é um lugar povoado por homens, animais («Gato não sofre, existe. / Para o sol, ratos / militante das suas unhas. / Crente no seu motor / de ronronar / em que se embala / vigilante») e pela Pintura: «Van Gogh queria algo / tão consolador como a música.»
O poeta pode ser o vedor («Porque vê emanações, / veias da terra. / Porque tem nas mãos / uma haste de oliveira. / Porque procura encontrar / água dentro de si. / Porque levanta uma laje / e deixa uma janela») mas pode ser também o calceteiro: «Escrevem nas ruas: / juntam / cuidadosamente / palavras. / Pegam-lhes / sílaba a sílaba / escolhem, unem / completam/ tocam / ao de leve por cima / e continuam.»
Com o animal há a matança: «Alegria do massacre familiar / da oferta aos vizinhos. E o resto na salgadeira / túmulo que as mulheres / abrem para a boca dos filhos». Mas só o poeta pode relatar essa festa: «Armazenar sofrimento. / Distribuí-lo depois / límpido».
(Editora: Assírio & Alvim, Capa: óleo de Miguel Ângelo Lupi, Foto: Luísa Ferreira)
Minority Report
Junto a minha indignação à do Paulo Ferreira perante esta notícia. A ser uma transcrição válida do que o Tribunal declarou para fundamentar a sua decisão, estamos perante uma aberração judicial. Estes juízes devem ser investigados, os seus processos anteriores reavaliados, porque são um perigo público.
Os pedófilos são reincidentes. Este médico, tendo a oportunidade, vai voltar a atacar. Não a tendo, vai procurá-la. E só parará quando encontrar a nova vítima. Ora, como estamos perante um médico, e de clínica geral, as oportunidades não faltarão. Os familiares das futuras vítimas talvez venham a poder processar estes juízes, pois, e mesmo que não dê em nada, a simples censura do facto e a ameaça da prisão realizarão de forma adequada e suficiente as finalidades da punição.
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Nota: a notícia remonta a Março de 2009
Estado da direita
João Pinto e Castro fez um retrato da direita portuguesa que é tão cru quanto exacto. De todas as maleitas de que sofre – tão mais inesperadas quanto dispõe dos melhores recursos educativos, financeiros e sociais – nada se compara à falta de talento. Não há talento político no PSD e CDS, o poder tem estado entregue a figuras medianas e medíocres, como Durão Barroso, Marques Mendes e Portas, nalguns casos más, como Manuel Monteiro, Filipe Menezes e Ribeiro e Castro, e até péssimas, como Santana e Ferreira Leite. Onde estão os craques?
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Balada para Carlos Paredes

Na mais teimosa vontade
Entre as cordas e os dedos
Nasce um rumor na cidade
A empurrar velhos medos
Era o mundo a duas cores
Dentro dumas fotografias
Meia dúzia de senhores
Confiscavam nossos dias
Se para uns era a SACOR
E bons empregos escassos
Para outros era a MABOR
E o pior para nossos braços
A guitarra é uma bandeira
Que juntou esta multidão
Entre o Rossio e a Ribeira
A água azul dum camião
De autocarro muitas vezes
Entre Benfica e Sete Rios
A música dos portugueses
Não precisava dos fios
Nem rádio nem televisão
Davam a exacta medida
O esplendor duma paixão
Mais forte do que a vida
Os sons desta melodia
Resistem a toda a usura
Se os oiço hoje em dia
Envolvidos em ternura
A força da qualidade
Bateu um acorde triste
Na luz da posteridade
Carlos Paredes resiste
Obrigado, Santana
A condecoração de Santana com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo gerou silêncio na direita e escárnio na esquerda. Para cúmulo, ver a má moeda agraciada pela mão do pior Presidente da III República é por si um espectáculo trágico-cómico imperdível ou descoroçoante.
Contudo, há um outro lado neste episódio. Aquele onde Santana, de facto, merece a condecoração. Não pelo que ela valha simbolicamente, mas pelo reconhecimento que o Estado outorga a quem o serve. Independentemente da avaliação que se faça do Governo de Santana, sendo até indiferente o modo como acabou, a verdade é a de que ele se ofereceu para servir Portugal num dos cargos de maior responsabilidade para todos nós. Quantos se recusariam? Muitos mais do que aqueles que aceitariam, não é?
O discurso contra os políticos, típico dos populismos e das tiranias, e que se encontra do PNR ao BE e PCP, perverte a democracia. Passamos bem sem essa legião de egocêntricos furibundos, inúteis ou perigosos. E talvez um dia aceitemos a evidência: não há força mais poderosa do que essa que consiste em esperar o melhor do governante, dando-lhe todo o apoio para que o exercício das suas capacidades não tenha a menor desculpa. E só depois, com implacável lucidez, julgar os seus méritos.
Santana foi demitido porque não tinha legitimidade eleitoral, por um lado, e porque causava crescente perturbação no Regime, naquela que parecia uma espiral imparável de decadência. Apesar disso, que teve um justíssimo desfecho, agradeço-lhe a disponibilidade para me servir. Eis uma generosidade e coragem, essência da cidadania, que se pode enaltecer até mesmo quando se trata do desastrado e ridículo Menino Guerreiro.


