Thank you very muito

Nestas tele-tertúlias que são os blogues, 2009 foi um ano memorável para quem quer ser parte da Cidade. O Aspirina B nasceu em 2005 com uma arreigada vocação política, a qual se tem mantido apesar da redução drástica do elenco. Essa gana de realizar a cidadania tem possibilitado o encontro com consciências, intelectos e vontades que aumentam o meu orgulho de ter nascido português em Portugal. Para além dos pessimismos e optimismos, a lucidez impõe-se na sua glória: se conseguirmos estancar a actual hemorragia da inteligência, onde o combate político se faz contra o bem comum, iremos crescer e descobrir o que fazer a tanto potencial que espera há décadas, ou séculos, numa resignação letal.

Sem qualquer critério de ordenação, tirando a primazia dada ao meu primo por afinidade electiva, o qual é também fundador e membro vitalício da casa, muito obrigado por existirem e terem partilhado connosco a vossa liberdade:

João Pedro da Costa
&
claudia
Nik
Tereza
Shark
Maria João Freitas
dina
Ana Paula Fitas
Leocardo
ARMANDO RAMALHO
reis
Carlos Santos
A. Moura Pinto
Maria da Guia
Aristes
Rogério da Costa Pereira
Adolfo Contreiras
aires bustorff
João Galamba
António P.
Miguel Abrantes
mdsol
Francisco
João Pinto e Castro
Anti-Tretas
jrrc
Eduardo Pitta
fblourido
Paulo Ferreira
maiquelnaite
Fernanda Câncio
tra.quinas
MARGARIDO TEIXEIRA
baladupovo
Chessplayer
Filipe Nunes Vicente
Silver
Jose Nunes
Francisco José Viegas
Paulo Querido
Sinhã
Manuel Pacheco
Soledade Martinho Costa
Ricardo Sardo
Ocasional
guida
jafonso
Marco Alberto Alves
Edie
Manolo Heredia
Eduardo
mf
K
antonio manso
joão viegas
MFerrer
Mário
jv
Carmim
mct
Luís Novaes Tito
Carmen Maria
Francisco Clamote
assis
Sofia Loureiro dos Santos
Tomás Vasques
Björn Pål
Pedro Rolo Duarte
luis eme
*Jnascimento
*pedro oliveira
*AL´Garvio
*Ana Matos Pires
*João Branco
*Luís Lavoura
*Blondewithaphd
*aix
*Nuno Salgado
*Tiago Taron
*José Chamusco
*Paulo Gorjão
*Nicolae
*cidadão presente
*ESTACA
*j.coelho
*Ricardo Shiappa
*magia
*Zeca Diabo
*João Tordo
*Helder Guégués

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Faltarão aqui outros nomes, muitos outros do conjunto que animou e promoveu o debate (pouco) e a brincadeira (muita). Aceitem as minhas desculpas, mas também é verdade que só me pagam para defender o Engenheiro e afundar o País na bancarrota, não para fazer listas exaustivas de tanta gente melhor do que eu em tantos aspectos e por tantas razões. Sim, estou a tentar dar-te graxa, a ti que não viste o teu nome recordado por esta cabeça-de-alho-chocho e agora já nem tens vontade de entrar em 2010 nem nada.
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* À partida, já estava condenado. A homérica tarefa de listar os nomes dos que, ao longo de 2009, interagiram positivamente com o blogue ficaria sempre incompleta, causando injustiças menores e maiores. Para agravar, estar a fazê-lo na tarde do último dia do ano não foi propriamente uma decisão genial. Não tenho mais desculpas, mas tenho asteriscos.

Ego sum

A Fernanda Câncio é, na minha soberba consideração, a blogger mais importante em Portugal. Tal decorre do que se percepciona da sua relação com Sócrates (seja essa relação qual for, que eu não faço a mínima ideia qual seja, nem quero saber), e que a torna um alvo preferencial dos ranhosos e imbecis. Mas a notoriedade também vem do erotismo associado à sua imagem e presença, de ser uma jornalista de causas, da qualidade da sua escrita, do seu génio fogoso e, acima e antes de tudo, da generosidade intelectual. É essa generosidade ingénua, como tem de ser para que continue fecunda, que a leva a partilhar o seu horizonte de realização e a não desistir de chegar a acordo com quem dialoga, desde que haja sinais de valer a pena o esforço. Como neste caso, onde vai ao encontro do João Miguel Tavares para lhe entregar um testemunho honesto, frontal, nu – portanto, amoroso.

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O umbigo dos educadores

manifestação professores

O PSD, com Ferreira Leite e Pacheco Pereira, deixou de fazer política. Apostaram tudo na calúnia de Sócrates e difamação do Governo, os fins justificando qualquer meio. E foram muitos os meios utilizados, mas nenhum que contribuísse para o eleitorado encontrar uma alternativa. A derrota foi mais do que merecida, foi um castigo para a perversão moral e inanidade intelectual da estratégia.

Repare-se na narrativa delirante: Sócrates é um bandido, falsifica o percurso escolar e profissional, recebe dinheiro em envelopes dos empresários mais rasteiros, quer acabar com a imprensa livre, só faz negócios com quem lhe vende a alma, persegue os puros que ainda resistem, tem um projecto pessoal de poder e… não cede à chantagem dos professores mesmo que tal conflito lhe custe 500 mil votos e a maioria. É isto, não é Pacheco?

Entretanto, os sindicatos querem provar que o problema não está na pessoa que assume a pasta da Educação. O problema é esta bizarrice de ainda haver quem insista que Portugal pode ser governado.

Nem uma asfixia democrática de jeito conseguem fazer

Marcelo Rebelo de Sousa, Pacheco Pereira, Mário Crespo, Constança Cunha e Sá, Nuno Rogeiro, João Miguel Tavares, Helena Matos, Pedro Lomba, Francisco José Viegas, João Pereira Coutinho, Rui Ramos, Carlos Abreu Amorim, João César das Neves, Vasco Graça Moura, Maria José Nogueira Pinto, Maria João Avillez, Alberto Gonçalves e sei lá quem mais. Estes cidadãos são colunistas na imprensa, rádio, TV, Internet, telefone e papel pardo. Todos eles são pagos pela opinião emitida, e todos têm a atenção da comunicação social assim que o desejarem. São figuras públicas. Ocupam o palco, sobem à tribuna, vêem mais longe porque estão mais alto.

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Vinte Linhas 437

O Nobel da Paz para Barack Obama ou a memória de Panduru

O absurdo que constitui a atribuição de um prémio internacional (o Nobel da Paz) ao presidente dos EUA no momento, quase em cima do momento, em que ele acaba de reforçar a aposta militar no Afeganistão com mais 30 mil soldados americanos a caminho do Oriente, lembrou-me uma situação muito curiosa por mim vivida nos anos 80 no meu local de trabalho. O presidente foi premiado por aquilo que se espera que ele faça e eu fui preterido numa promoção porque era preciso dar ânimo a um «rapaz» que por sistema faltava ao trabalho umas vezes na sexta e outras na segunda-feira. Fazia sempre fins-de-semana prolongados mas era considerado recuperável e precisava de estímulo. Para ele ser estimulado eu não podia ser promovido. Uma questão de vagas por cada secção e por cada departamento. Isso me foi explicado por um «rapaz» do meu tempo que era director e que gostava de falar comigo sobre temas do futebol. Como benfiquista ferrenho, esse «rapaz» perguntava-me muitas vezes o que pensava eu da qualidade de futebolista do romeno Panduru. «Percebe-se que tem escola mas nada nem ninguém nos garante que consiga a integração» – era isto mais ou menos que eu dizia à porta do seu gabinete. Outro «rapaz» do meu tempo era o meu chefe de secção que em diálogo com o director, bem apertado por este, lá desembuchou essa história da promoção como estímulo em vez da promoção como prémio. Já morreram dois – o «rapaz» director e o «rapaz» promovido. O outro anda por aí e deu em tratar a neta por «você». Nunca recuperou e está a enlouquecer lentamente pelos jardins da cidade que a «quadrilha selvagem» da CML ainda não destruiu.

aixpressões

Em meu entender a expressão ‘bispo vermelho’ nunca assentou bem em D. Manuel Martins. De facto ele não aderiu nem praticou a chamada ‘teologia da libertação’, criticada e condenada pelo então sr. Ratzinger. As palavras, como as pessoas, são elas e a sua circunstância. Ora a opinião (legítima) do bispo insere-se na campanha da ICAR contra a proposta do governo sobre os casamentos homossexuais. Na missa a que hoje assisti (e pressuponho que em todas, pelo menos na diocese pois foi invocada carta do cardeal patriarca) o sr. padre afirmou que a lei é contra a natureza e acrescentou que esta castiga os que a contrariam (ideia do crime-castigo). Mas o sr. bispo vai mais longe, como aliás sempre foi seu timbre meter foice em ceara alheia, e cito o que disse à RR: «tenho uma pena imensa que determinadas propostas se façam e se façam nesta altura. É uma provocação premeditada à consciência cristã de Portugal». Não é a «altura» que irrita o octogenário, porque antes diz «se façam». A sua expressão final: «tenham juizo» é de um auto-convencimento irritante. Como eu há-de haver muitos portugueses e cristãos que não vêem qualquer ‘provocação premeditada’. Não ficava mal ao sr. bispo, antes de dizer o que disse, ter lembrado o princípio, esse sim evangélico, “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”.
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Oferta do nosso amigo aix

Vinte Linhas 436

«O jogo de Salazar» ou as distracções imperdoáveis de um «mestre»

Como co-autor do livro «Glória e Vida de Três Gigantes» (edição de A BOLA) não posso deixar de manifestar a minha surpresa perante as afirmações de um senhor de nome Ricardo Serrado, «mestre» em História pela Universidade Nova à revista do Diário de Notícias deste domingo. Autor do livro «O jogo de Salazar – a Política e o Futebol no Estado Novo» (editora Casa das Letras), o jovem «mestre» começa por fingir desconhecer que antes das duas Taças dos Campeões ganhas pelo Benfica em 1961 e 1962 já o Sporting tinha sido convidado a inaugurar a Taça dos Campeões Europeus em 1955 num jogo com o Partizan disputado no Estádio Nacional. O jogador «leonino» José Travassos foi seleccionado para alinhar na equipa representativa da UEFA contra o «resto do Mundo». A sua frase infeliz é esta: «O país esquecido que até então nunca tinha tido qualquer expressão internacional nas lides do futebol, vê-se no topo da Europa e nas bocas do Mundo». Mas tão grave como esquecer os antecedentes a 1961-62 é fingir que no ano de 1964 o Sporting não ganhou a Taça dos Vencedores das Taças da Europa depois de um brilhante percurso desportivo. Bateu os frágeis cipriotas do Apoel por 16-1-e 2-0 mas teve árduo trabalho para vencer o italiano Atalanta de Domenghini (0-2, 3-1 e 3-1 no desempate), o inglês Manchester United de Charlton, Law e Best (1-4 e 5-0), o francês Lyon de Combin (0-0, 1-1 e 1-0 no desempate) e por fim o húngaro MTK de Sandor e Kuti em dois jogos terríveis – Bruxelas (3-3) e Antuérpia (1-0) com o golo de Morais em canto directo. Mas não; o «mestre» não sabe isto porque isto não tem a ver com o Benfica. Assim não se faz a História, só a lenda.

No mundo do Mascarenhas

Paulo Pinto Mascarenhas considera elevada a probabilidade de eu ser o mais cobarde dos anónimos. É uma afirmação legítima no que à cobardia diz respeito (somos todos cobardes até prova em contrário, como qualquer herói poderá atestar), mas problemática no que ao anonimato concerne.

Da última vez que pensei no assunto, o anonimato era aquela condição em que não se podia nomear um autor ou indivíduo. Como Valupi cumpre essa função identificadora, o anonimato que o Mascarenhas invoca remete para o nome que consta no meu BI, pelo menos. Ora, acontece que esse nome não é secreto, e os meus familiares, amigos, colegas e conhecidos sabem qual é. Sendo assim, tenho é um excesso nominativo, pois aos nomes de baptismo vieram acrescentar-se alcunhas e pseudónimos.

Então, porque raio se gastam caracteres a deturpar o sentido da utilização de um pseudónimo? A resposta só pode ser uma: porque este Mascarenhas nem sequer o meu nome é capaz de me perguntar – ele não quer saber quem eu sou, gosta mais dos meus textos se puder catalogá-los como anónimos. Obviamente, se quisesse descobrir algo acerca do autor, falaria comigo. Por escrito, pelo telefone ou ao vivo. Ou será que no teu mundo, Mascarenhas, saem todos à rua com placa identificadora pendurada no pescoço, código de barras na lombada e matrícula na peidola?

Os Avieiros

A Cultura dos Avieiros candidata a Património Nacional

No passado dia 10-9-2009 a candidatura da Cultura Avieira a Património Nacional foi apresentada no Palácio da Ajuda onde funciona o Ministério da Cultura. Estiveram presentes João Serrano (projecto dos Avieiros), Luís Vidigal (Instituto Politécnico de Santarém), Luís Marques (Director Regional de Cultura) e Nelson Quico, assessor do Ministério da Cultura. Depois de formalizado o pedido, ficou marcado o 1º Congresso Nacional da Cultura Avieira para 7/8/9 de Maio de 2010 em Santarém. Além da homenagem nacional a Maria Micaela Soares, outro ponto da agenda será a edição popular do livro «Avieiros» de Alves Redol, há muito esgotado no mercado livreiro português. Não sendo antropólogo ou historiador, tive alguma convivência com a realidade dos Avieiros em Vila Franca de Xira entre os anos de 1961 e 1966. Vivia no Bairro do Bom Retiro, estudava na Escola Técnica e tinha aulas nos «Combatentes» e no «Matadouro» além de «Trabalhos Manuais» num armazém perto da estação da CP. Guardo desses tempos a imagem do garrido dos seus trajes, o seu falar típico e a percepção de que eles viviam num espaço diferente. Não só pelas «casas-barco» mas também pelo precário que tudo aquilo prenunciava perante as longas chuvas do Inverno daquele tempo. Continuar a lerOs Avieiros

A velhice do Bispo Vermelho

Manuel da Silva Martins fará em Janeiro 83 anos. Faculdades cognitivas à parte, que poderão estar intactas ou capazes, temos de respeitar a sua idade; a qual é uma vida inteira, mesmo que viva mais 100 anos. Por isso, assistir ao seu etnocentrismo, esse sentimento de ofensa nascido de se sentir atacado enquanto pertencente à religião católica, não merece mais do que um bocejo. O senhor tem todo o direito a barafustar com a proposta e a disparatar com a data, a nossa misericórdia acolhe e ama a sua tão imperfeita natureza.

Outra conversa é aquela onde D. Manuel Martins repete a retórica de Cavaco e da oposição à direita. Dizer que o Governo avançou agora com a proposta de legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo porque está com dificuldades na governação, e pretende desviar as atenções, não é apenas idiota e desonesto, é também o sintoma de um mal que está a tolher o desenvolvimento económico por via da sua influência política: a intoxicação geriátrica. Temos sofrido, desde finais de 2007, com a manobra que levou à demissão de Correia de Campos, os malefícios da inércia e conservadorismo próprios de um grupo de indivíduos que já não é capaz de aprender línguas. Eles estão em todas as áreas políticas e sociais. Enchem as caixas de comentários dos jornais e participam em manifestações. Se forem apanhados por uma câmara de televisão, já têm o discurso pronto e o sai-lhes um comício catastrofista de 30 segundos. Como se vê pelo exemplo do Bispo Emérito de Setúbal, são facilmente manipuláveis por ausência de autocrítica e reducionismo egóico. As crises de instabilidade emocional na terceira idade têm várias origens e tipologias, sendo bastante frequentes, acrescendo uma eventual incontinência verbal resultante da diminuição da inibições.

Que os velhos sejam velhos, nada de mais natural e neutro. Que haja partidos e comunicação social que explorem a velhice dos velhos, nada de mais repugnante e contrário ao sentido de vida do Bispo Vermelho.

Medricas

Portugal é um país de cobardes. O medo bebe-se no berço pelas palavras das mulheres e silêncios dos homens. O povo tem medo dos senhores, as oligarquias têm medo do povoléu. Medo de existir, disse alguém que anos depois estava do lado dos apavorados. Medo de Salazar, medo dos comunas, medo do patrão, medo do vizinho, medo de errar, medo de perder. Portugal só se liberta no exílio, só se encontra na terra estrangeira; nesse ultramar e nesses trópicos onde, finalmente, vive à solta.

Em 2009, 35 anos depois do 25 de Abril, um partido político com ambição de governar fez da promoção do medo a sua estratégia principal para as eleições. Os chefes deste partido chegaram ao ponto de lançar a suspeita de estarem a ser escutados pelas autoridades só porque eram da oposição. Foram mais longe: disseram que os portugueses já não podiam confiar no Estado, pois este podia estar a violar a sua correspondência, a persegui-los no trabalho e nos negócios, a tirar-lhes o direito à manifestação e reivindicação. Isto foi feito enquanto esse difamado Estado violava as comunicações privadas do Primeiro-Ministro e o acusava de um crime inexistente com base nessa inaudita violação. Os mesmos que exultaram com as pulhices criadas para atacar Sócrates, Governo e PS são os mesmos que continuam a promover a irracionalidade do medo como manifestação do seu ressabiamento ou da sua cobardia; talvez das duas condições em simultâneo.

Veja-se o ridículo a que a união nacional dos ranhosos com os imbecis consegue chegar. Contudo, isto de ter medo da liberdade de expressão, vindo de quem vem, faz todo o sentido. Uma coisa é certa: não foi com este sangue, aguado e anémico, que Portugal se valeu nos primeiros séculos da sua História.

Crispação dialéctica

Louçã, no seu estilo reitor de seminário, aquando do último debate quinzenal no Parlamento, veio exigir o fim da crispação entre Governo e Presidência. Deu a entender que essa crispação o incomodava, que ele já estava farto e que a culpa era do Governo. Por isso, devia acabar. Louçã, para além de ser o mais crispado dos líderes políticos, tem a mania de que é o maior em palco, e essa soberba nada nem ninguém lha conseguirá tirar. É por isso que os picanços com Sócrates o deixam tão excitado, ele adora reduzir a política a um torneio medieval. Isto é simples de entender.

O que já não se consegue entender é a utilidade do BE. A sua recusa em ser parte de uma solução governativa até pode ser o que de mais coerente tenha para apresentar. Nisso, sem surpresa, sendo exactamente igual ao PCP, ambos obrigados a manter uma pureza ideológica que tem tanto de identitária como de imagem de marca. Até agora, tal estratégia tem justificado o gasto: o PCP continua a ser uma força relevante na Assembleia e nos sindicatos, e o BE é um caso de extraordinário sucesso mediático e eleitoral. O resultado, porém, é o presente impasse à esquerda, onde BE e PCP odeiam o PS e não se suportam um ao outro.

É fácil ver o prejuízo decorrente do sectarismo e alucinação destes dois partidos; nem sendo parte da solução, nem deixando que outros solucionem. Daí, a pergunta: quantos dos que votaram BE e PCP pretendiam este desfecho? Melhor pergunta ainda: quantos dos que votaram na extrema-esquerda têm um qualquer vislumbre do que ela irá fazer com o seu voto? Aposto que dois terços desses votos são uma mistela de ignorância dos ideários e programas, votos de protesto das mais desvairadas proveniências e fenómenos maria-vai-com-elas. Assim, o que faz falta é informar a malta. O povo devia conhecer o que, no fundo, estes dois partidos pretendem instaurar, avaliar as suas concepções políticas na plenitude das suas consequências e olhar com demorada atenção para essas pessoas que cultivam a ditadura da crispação dialéctica.

O crime compensa

O que se passa com as escutas a Sócrates é transparente e vexante. Ao contrário do que os pulhas dizem, a existência de certidões não tem valor político. O sofisma a que se agarram põe em causa toda a lógica do edifício judicial e os princípios que é suposto defender. Para além de existir erro na actuação dos agentes da Justiça portuguesa – tal como há no das polícias, militares e médicos, para dar exemplos de gravidade similar, em qualquer parte do Mundo – também há situações cuja ambiguidade carece de ulterior e superior decisão para se aferir do seu estatuto judicial. É nesse pressuposto que se institui a 1ª instância e se admite o recurso para tribunais superiores, pagando-se com a demora na aplicação final da Lei o intento de fazer justiça.

O que tem valor político é a decisão de arquivamento das certidões em causa, pois deixa claro não se encontrarem nas escutas razões para alarme político. E basta pensar que não é concebível o Procurador-Geral e o Presidente do Supremo encobrirem seja o que for com valor criminal numa situação em que as escutas são do conhecimento de terceiros no Ministério Público em Aveiro – e sabe-se lá de quem mais. Ora, o PSD não aceita que a Justiça funcione e quer explorar a própria ilegalidade que está na origem das escutas. A possibilidade de usar as gravações para causar danos a Sócrates é o que motiva a perseguição às certidões, vistos elas conterem as passagens polémicas e demais informações que permitem o voyeurismo almejado.

O PSD é um partido feito em cacos, nas mãos de uma geração serôdia que não tem qualquer proposta para o País que o eleitorado sequer reconheça, e o qual tenta por todos os meios chegar ao Poder através de calúnias, alarmismos e armadilhas nunca antes vistas em Portugal. De Marcelo a Santana, passando pela aberração chamada Ferreira Leite, ninguém suscita a mais ténue esperança. E tirando o Passos Coelho, que é uma incógnita, não existe renovação alguma dentro de um partido que reclama representar os sectores mais inovadores e empreendedores da sociedade. Os exemplos de Pedro Duarte e José Eduardo Martins, dois velhos caducos com menos de 40 anos, são desse deserto a prova acabada. Portanto, ver este partido, que é o 2º maior em Portugal e se diz democrata, a liderar o ataque à privacidade de Sócrates, eis um indigno espectáculo que Sá Carneiro jamais poderia ter imaginado possível.

Falar verdade aos portugueses

Para além da curiosidade relativa à coincidência da situação, um Governo de minoria, esta passagem das memórias de Cavaco expõe um calculismo vaidoso que tira as dúvidas a quem ainda as tiver: o actual Presidente da República está apostado no derrube do Governo e na destruição política de Sócrates.

Temos de ler a sua actuação no conflito dos Açores, nas declarações avulsas ou discursos solenes, na inventona de Belém e na tragicomédia dos emails, à luz da normalidade comportamental que a passagem recorda. Cavaco antecipa os efeitos das suas intervenções e joga com as percepções amplificadas na comunicação social para obter ganhos políticos. Nada de nada de nadinha de nada é inocente nas suas acções, então.

Muito bem. O eleitorado encarregar-se-á de julgar o seu mérito, caso se recandidate. Entretanto, convém também lembrar que este mesmo Cavaco, sempre a invocar a sua superioridade moral e intelectual, é o mesmo que não assumiu a ligação ao BPN através dos ganhos inexplicáveis na SLN, e é o mesmo que nunca se pronunciou, porque nunca sobre tal foi interrogado, a respeito da inexplicável escolha de Dias Loureiro para o Conselho de Estado, e ainda a sua inexplicável protecção ao mesmo quando já era público estarmos perante uma equívoca e sinistra figura.

O pior, contudo, não está na paupérrimo patriotismo do actual Presidente da República. Já não poderá fazer muito mais mal a Portugal, a sua carreira está no fim da linha. O pior, o perigo maior, diz respeito aos que se calam e encobrem o inacreditável escândalo protagonizado por Cavaco e amigos, preferindo a devassa da privacidade de Sócrates e a violação do Estado de direito. Acerca destes hipócritas dispostos a tudo, os portugueses precisam de conhecer a verdade.

Festas boas

O Natal é a festa da família por herança da tradição cristã. Acontece que muitas famílias são incapazes de festejar. Eis a origem do incómodo, da dor, mesmo do terror, que muitos sofrem ano após ano em Dezembro – seja porque não têm família, seja porque vão estar com ela. O verdadeiro espírito cristão, se conhecido e seguido, levaria a renegar esses que não fazem a festa. E a procurar aqueles que nos querem bem.

Nos Evangelhos, em vários passos e diferentes situações, lemos que Jesus era implacável no trato com os seus de sangue, ensinando que o crescimento de cada um passava pelo corte com as amarras familiares, sociais e étnicas. É algo que os diferentes credos cristãos não costumam enaltecer, por razões demasiado humanas, o que levou ao esquecimento do que é a sempre intempestiva encarnação do Espírito. Com a progressiva decadência das festas populares, diluídas pelo avanço urbano e económico, resta o futebol para que os nativos saboreiem o êxtase da ancestral alegria.

Se celebras o Natal, sejas crente ou descrente, faz a festa. Ou admite que não celebras o Natal.

Livraria do Simão

A mais pequena livraria do Mundo

Fica nas Escadinhas de S. Cristóvão nº 18 (à Rua da Madalena) na Baixa, tem o telefone 211106666 e o código postal 1100-512 Lisboa. O seu proprietário Simão Carneiro tem 37 anos de idade, uma licenciatura e uma pós-graduação em Enologia mas o seu mundo é este: livros usados, raridades bibliográficas, discos, papéis antigos, gravuras, manuscritos e banda desenhada. A casa tem um metro de largura e 3,80 metros de comprimentos – o que perfaz 3,80 metros quadrados. De tal modo é maneirinha a livraria que quando o cliente curioso entra, o seu proprietário tem de sair. Não há espaço para dois seres humanos lá dentro. O espaço foi arrendado há quatro anos e tem uma frequência interminável de gente que vem do Castelo para a Baixa a pé. Ouve-se falar inglês, castelhano, francês, italiano, russo. Os turistas acham graça e às vezes compram. Há aqui um pequeno «stock» de livros estrangeiros.

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