Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Dizer coisas sobre o terrorismo

O terrorismo também violenta e destrói os terroristas e suas famílias e amigos.

O terrorismo é todo igual. Não há terrorismo bom, menos mal, assim-assim, justo, justificável.

O terrorismo não se pode impedir. Só prevenir, só acautelar, só remediar.

O terrorismo não pode vencer. E sabe que não vai vencer. É por isso que se satisfaz em atacar os mais fracos e desprotegidos. Ou em apagar a alteridade e a beleza.

O terrorismo alimenta-se da sua mediatização, é uma procura suicida por uma celebridade alucinada.

O terrorismo combate-se com a liberdade, a democracia e a inteligência, servidas pela coragem.

O sr. procurador-adjunto

Na sua edição de hoje, o diário da Sonae dedica as primeiras 11 páginas, com parangonas à la Correio da Manha, e ainda um editorial do Carvalho na secção respectiva, ao processo jornalístico que o mesmo jornal move (e julga) há dez anos contra o suposto roubo da PT aos seus justos donos, isto é, os donos da Sonae. Em suma, um modelo de jornalismo honesto, isento e independente.

É mais um episódio da longa vingança do clã Azevedo contra Sócrates, por este ter supostamente mandado chumbar em 2007 a OPA da Sonae sobre a PT. O jornaleco servil da Sonae insiste nessa velha alegação mentirosa dos Azevedos, apoiando-se agora em provas ridículas, como o “medo” (sic) que o ministro Mário Lino terá metido a um administrador da PT para o forçar a alinhar com o dito chumbo ‒ questão decidida, como se sabe, não por administradores, mas em assembleia de accionistas da PT. E volta também a velha “prova” de Sócrates ter instruído a CGD a votar com o núcleo duro accionista contra a desblindagem dos estatutos da PT, que permitiria à Sonae comprá-la. Quem quer que o tenha inspirado, o voto da accionista CGD (abstenção) não decidiu a votação, como também se sabe há muito. Mas o jornal da Sonae conclui imperturbável: “E foi assim que a Sonae perdeu a guerra”. Jornalismo abjecto.

O título garrafal da primeira página começa “JUSTIÇA SUSPEITA DE…”, mas toda a reportagem assenta na certeza de que as suspeitas do procurador Rosário Fernandes e as acusações dos Azevedos estão provadas e passadas em julgado. Ao fim de três ou quatro páginas já a minha opinião estava formada sobre este merdoso julgamento jornalístico em causa própria. Não li todas as 11 páginas e meia, onde também se pretende associar Sócrates a Ricardo Salgado e ao caso do BES (o próximo deverá ser António Costa), mas deu para perceber que na grande conspiração para “destruir a PT” estiveram implicados os suspeitos do costume, como Mário Soares e a maçonaria. Uma oportuna fotografia de Soares com Lula e Sócrates, no lançamento do livro deste último, serve de prova irrefutável a essa fantástica acusação ao pai da democracia portuguesa.

No seu afã bacoco de incensar os bons da fita, isto é, os Azevedos seus patrões, a jornalista Cristina Ferreira chega candidamente a admitir que terão sido “as ‘pistas’ levadas ao DCIAP por Paulo Azevedo [em 2015] que ajudaram Rosário Teixeira a virar o destino das investigações ao ex-primeiro ministro [Operação Marquês], até aí orientadas para as conexões ao Grupo Lena”. O actual patrão da Sonae deverá, pois, ser promovido brevemente a procurador-adjunto, pelos relevantes serviços prestados (a si mesmo) em matéria de virar investigações.

Resumindo: um procurador oficiosamente coadjuvado por quem há dez anos pretende dar cabo de Sócrates e um jornalismo vingativo que julga desinibidamente em causa própria. É o que há.

Da excepcionalidade americana

A chegada de Trump ao posto mais alto na mais importante democracia planetária foi um momento de tristeza e aflição para quem se reveja nos valores clássicos que estruturam as noções de humanismo e liberdade na origem e desenvolvimento daquilo a que chamamos civilização liberal. Esta tradição liberal abarca todas as inovações intelectuais, políticas e sociais que estabeleceram, ou contribuíram para estabelecer, um reconhecimento universal da dignidade e direitos políticos de todos os seres humanos sem necessidade de outra qualificação. Num certo sentido, tem-se tratado de uma elaboração positiva com a intenção de reconhecer uma condição natural: se és humano, és naturalmente livre, cabendo aos restantes poderes adaptarem-se a essa tua natureza primeva. Nesse trajecto, tem-se lutado com as concepções naturalistas acerca do poder, as quais o colocaram ou ainda colocam do lado do mais forte e/ou do divino, da etnia ou da ancestralidade. E blá, blá, blá do melhor que este planeta já criou.

Ao mesmo tempo, aquilo a que temos assistido, desde uma campanha eleitoral que pulverizou todas as regras conhecidas da comunicação política até ao caos instalado na Casa Branca logo a partir do primeiro dia em que Trump lá pôs os presidenciais pés, é incrivelmente fascinante. Mais, é um privilégio, para cientistas sociais e meros curiosos, poder observar o edifício da governação e democracia norte-americana a ser levado para águas nunca dantes navegadas, pelo menos na memória dos vivos e dos que estudam os canhenhos de História. Não fosse tudo isto poder acabar horrivelmente mal, seria ocasião para gáudio inesgotável.

Mas será que devemos temer o pior ou, pelo contrário, Trump servirá para provar a robustez do sistema político norte-americano? Veja-se a actual situação que deixou centenas ou milhares de milhões em estado de choque: estamos confrontados com um presidente dos EUA que defende racistas, fascistas e nazis e que despreza as vítimas da sua violência e crimes. Nunca tal tinha acontecido e podemos apostar tudo o que tivermos no banco e nos bolsos em como não voltará a acontecer. Ao tempo em que escrevo, a ênfase mediática está concentrada na abjecção moral e civilizacional da sua atitude. Porém, a situação revela algo muito mais grave. Um presidente dos EUA que não tem a noção dos efeitos políticos, sociais e culturais do que está a dizer a respeito destes assuntos não está igualmente capacitado para tomar decisões em qualquer outra matéria de importância para o Estado e a segurança do seu país. Neste momento, no Pentágono, na CIA, no FBI, nas universidades e no mundo empresarial americano o sentimento deve ser de pânico caso se rejam pelo realismo. Essa gente toda não vai ficar de braços cruzados a ver um completo taralhouco, patologicamente narcisista, a tornar a América miserável outra vez.

Os gostos discutem-se

Gostei de ler ontem no Público a entrevista ao dono da Taberna da Rua das Flores, André Magalhães. Sobretudo a parte em que diz que a cenoura ralada nas saladas, tão habitual nos restaurantes portugueses, não faz sentido nenhum (chama-lhe “a coisa mais parva”). Para mim também não faz. Em minha opinião, usa-se e abusa-se da cenoura ralada, talvez porque dê mais colorido ao prato (mas se é para ser cenoura, porque não assada, caramelizada, grelhada? E se é para ser amarelo, porque não pimento assado?), enquanto, digo eu, se desprezam outros tipos de legumes e tubérculos (igualmente existentes no nosso território e clima), que poderiam introduzir uma maior variedade, que já tarda e seria mais do que bem vinda, nas nossas saladas. Regra geral, nos restaurantes de gama média e baixa, que são a maioria, a componente “saládica” resume-se à alface e ao tomate, com ou sem cebola, e normalmente com a bendita da cenoura crua ralada.

Os meus aplausos, pois, para o senhor Magalhães, que parece ser alguém autorizado, por ter falado nesta problemática de urgente resolução.

Sem querer, recuei ao Paleolítico

Fiquei hoje a saber que o meu regime alimentar, ao qual fui chegando através de experiências e tentativas de eliminação de reacções estranhas e incomodativas no meu corpo, anda muito perto do que se chama “a dieta do Paleolítico”. Eis a lista do que se deve e não deve comer ao abrigo deste regime (vai em inglês, foi retirada do Daily Mail):

DO EAT

Fruit

Apples, bananas, oranges, avocados, pears, strawberries, blueberries etc

Vegetables

Broccoli, kale, peppers, onions, carrots, tomatoes etc

Lean meat

Beef, lamb, chicken, turkey, pork, veal etc

Seafood

Salmon, trout, haddock, shrimp, shellfish etc

Nuts and seeds

Almonds, walnuts, hazelnuts etc

Natural healthy fats

Lard, coconut oil, olive oil etc

DO NOT EAT

Dairy

Milk, cheese, ice cream, butter, milk and white chocolate

Grains

Bread, pasta, rice, wheat, spelt, rye, barley

Processed food

Burgers, hot dogs, pizza, donuts, breakfast cereals, chips

Processed sugar

Soda, fruit juice, table sugar, candy, cake, ice cream

Legumes

Beans, lentils etc

Alcohol

Unless it’s distilled liquor – but no mi

Aí está. No fundo, nunca me dei bem com a civilização que põe milhões de vacas indolentes a deteriorar a camada de ozono para nos causarem artrites e que adoça e faz inchar o trigo com o reforço ilimitado do glúten.

Obviamente, a ideia que os promotores deste regime têm do paleolítico é totalmente mítica. Como muito bem dizem os cientistas seus críticos, o regime alimentar dos homens das cavernas era basicamente o que se podia arranjar e sobretudo variava conforme a geografia. Para se chegar ao regime constante da lista seria preciso tomar como modelo hominídeos que vivessem em locais paradisíacos, com animais de caça, peixes, florestas, vegetação variada, água abundante, etc. Assim, é para mim também evidente que a designação dada a este regime alimentar, algo apelativa, é mais um apelo ao regresso à natureza pré-industrial e pré-agrícola (uma quimera) e ao repúdio dos alimentos processados, a maior parte dos quais faz comprovadamente mal, do que a recuperação de um regime saudável, cientificamente comprovado, que terá sido seguido há milhares de anos e que foi lamentavelmente abandonado graças à maldita da agricultura. Na verdade, o que acontecia naquela altura, quando os conhecimentos eram escassos e os medicamentos inexistentes, era que a esperança média de vida não passava dos 40 anos (e, mesmo assim, há provas de que já havia artrites e tendinites) e que a maior parte das crianças efectivamente nascidas não passava dos 5, máximo 15 anos. Por mais que fossem as nozes e os veados consumidos e por menos que se cultivasse a terra. E que a situação assim continuou durante milhares de anos e até há bem pouco tempo.

No entanto, dito isto, homens das cavernas idealizados à parte e plenamente consciente de que quase ninguém hoje em dia tem o privilégio de comer carne de animais que vivam saltitando ou cirandando pelos bosques e prados, e com base na minha experiência, os alimentos que constam da lista do permitido têm boas razões para lá estarem, assim como os proibidos. No meu caso, tornei-me pré-histórica por acaso e sem saber do que alguns crânios de nutricionistas andavam a inventar e a aconselhar a gente como manequins e celebridades de Hollywood. Não pretendi emagrecer. Simplesmente fui eliminando alimentos que percebi me faziam mal (chegada aos cinquenta, claro) – na forma de inflamações musculares, dores de cabeça, reacções alérgicas – e, verifico agora, acabei a eliminar precisamente os que constam da lista dos “Do Not”, excepção feita ao arroz e às batatas (mesmo assim raramente no meu prato, para não perder a linha), e dos cereais, que consumo sem glúten.

Sei que o processo evolutivo da espécie humana não se faz uniformemente, que há organismos mais receptivos do que outros às mudanças alimentares, que há pessoas mais alerta ou menos resistentes do que outras, e sei também que há milhões de homens e mulheres no planeta que vivem muito bem e longamente sem nunca se preocuparem com o que comem. Mais: muitos milhões não sabem sequer se comem, pouco importa o quê. A possibilidade de escolha de regimes alimentares é um luxo incompreensível aos olhos de boa parte da humanidade. Mas não é por isso que cada um, onde quer que se encontre e com os meios de que disponha, deixará de procurar o bem-estar, com dietas páleo ou sem gorduras ou sem hidratos de carbono ou sem nada disso e com tudo. Até com cenoura ralada na alface.

A discussão dos gostos começa por ser uma discussão a sós. Connosco.

 

Como defender Passos

Um dos modos é o do José Manuel Fernandes, infeliz. Juro que o ouvi dizer, ontem, na RTP3, nos cinco minutos que lá parei, que o discurso do homem no Pontal tinha sido cheio de substância e, ao mesmo tempo, que a única frase que verdadeiramente fica é a da comparação do SIRESP com a cara de António Costa. Isto enquanto sorria, desculpabilizador, por Passos se recusar a escrever os discursos (o que tem implícito serem uma desgraça). Ou seja, Passos disse coisas importantíssimas, embora mal enjorcadas, que não deu para reter, possivelmente nem para compreender – caso contrário seriam abundantemente citadas pelo JMF, para que não ficassem esquecidas. Mas houve imensa substância naquela intervenção comicieira. O pico dessa substância terá sido atingido com o SIRESP, que é “a cara de Costa”, uma comparação que, essa sim, todos compreendem. Esteve a um passo de dizer que o SIRESP é um sistema chamuscado. Mas ainda não chegou o tempo do André Ventura. Foi isto. A defesa.

Revolution through evolution

Women have more active brains than men
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Media portrayals of pregnant women, new moms unrealistic
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Supportive relationships linked to willingness to pursue opportunities
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Sitting in the Sun Is Linked to Days When People Lived in Caves, Scientists Believe
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‘Resilience-in-Action’ Is Key to Team Success, Whether in Backwoods or Business
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Englishness and Theatre in Revolutionary America
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Where is everybody? The implications of cosmic silence
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Dâmaso Sal&Sede

Nos bastidores da maioria parlamentar já há quem faça contas ao mandato da procuradora-geral da República, que acaba em outubro de 2018. O desconforto em alguns setores do PS, BE e PCP com Joana Marques Vidal é evidente. O círculo dos amigos de Sócrates, que inclui figuras como Francisco Louçã mas já não António Costa, não perdoa o processo ao ex-primeiro-ministro. Não é a acusação que há de chegar em setembro que os incomoda, mas o facto de o processo ter existido.


O mandato da PGR – O desconforto em alguns setores do PS, BE e PCP é evidente.

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Quem se atrever a questionar a ilegalidade e imoralidade reinantes na parte da Justiça que quer fazer política e/ou dinheiro cometendo crimes passa a cúmplice de Sócrates, do Sócrates devassado e diabolizado pelos esgotos a céu aberto, vem dizer-nos um dos mais notáveis representantes e agentes desta corrupção institucional. O seu sentimento de inatacabilidade é tão obscenamente grande que ele se permite escrever publicamente que há não sei quem no BE e no PCP que “não perdoa o processo ao ex-primeiro-ministro“.

Não se trata de uma alucinação, natural ou causada por drogas (ou falta delas). É outra coisa. O gajo acredita que pode gozar com esta merda toda, como quiser e pelo tempo que lhe apetecer. E pode, né?

Já entrado Agosto

Vejo que já recomeçou o futebol. Quero dizer, o campeonato nacional. Tem graça que a pausa futebolística estival quase não é perceptível. Há sempre futebol e assuntos futebolísticos candentes a discutir em qualquer ecrã para onde se olhe. Horas e horas dedicadas ao tema, role a bola nos estádios portugueses ou não. Horas que poderiam ser empregues na divulgação das últimas descobertas científicas ou na transmissão de programas que expliquem a falta que o iluminismo fez, e faz, nas sociedades árabes e muçulmanas, habitantes de uma boa parte do planeta.

Há uma overdose de futebol nas televisões portuguesas. É demais, é um abuso e é também, no campo do desporto, que pratico e cuja importância reconheço, um desrespeito por todas as outras modalidades desportivas que também são praticadas por milhares de pessoas. Mas vejo que há pessoas, comentadores, alguns de quem gosto, que ficam nervosos e ansiosos com a abertura da época. Não compreendo, são apenas uns rapazes saudáveis a jogar à bola. Salvo alteração das leis da física e da constante universal, ganham os clubes que tenham comprado os melhores jogadores e contratado os melhores treinadores. Aqui em Portugal não há grandes dúvidas. Que hipóteses tem o Tondela? E o Sporting? (calma, é provocação) Desejo boas sensações a quem assim sofre, mas é demais.

E por falar em abusos, também no ecrã volto a ver o José Rodrigues dos Santos. Aquele das grandes ênfases na abertura do Telejornal. Pois a alarvidade continua. Noticiou ele (às 20h02), com toda a artilharia sonora, que a ministra da Administração Interna “acusou a GNR de não ter enviado ninguém para a 236 [no incêndio de Pedrógão], onde morreram dezenas de pessoas“. Ouvi bem: “acusou”. Presume-se de “não ter mandado ninguém para fechar a estrada”, claro, pois se não tivesse mandado ninguém para a estrada – civis – como que para morrer, seria toda uma outra problemática e o verbo “acusar” não faria qualquer sentido. Acusou?

Logo de seguida entra a peça que resume e transmite o que a ministra disse na conferência de imprensa. E o que disse foi que, a partir das 20h00, aquela via foi transitada por viaturas dos bombeiros e da GNR, do INEM e até de civis. Que ninguém considerou haver um risco potencial para quem ali passasse. “Por essa razão não foi ordenado o encerramento da via“, disse a ministra. Onde é que nestas palavras o jornalista foi descobrir a tal acusação à GNR? Ouviu sequer a peça antes de escrever a notícia?

Indignei-me, feita intelectual. Quando as imagens voltaram ao estúdio, cheguei a pensar ir assistir a uma reformulação, uma correcção, um pigarro, até um piscar de olho do José acompanhado de um “estava a brincar; não acusou nada“. Não aconteceu. Seguiu alegremente para a notícia seguinte, depois de confundir as velhinhas, e levou a figura de parvo por aquela hora fora.

Vai uma musiquinha?

 

 

Marcelo por Rui Ramos, a agonia da direita decadente

Não é só na esquerda que está em curso um movimento de placas tectónicas como não conhecemos nos quarenta anos anteriores, nesta experiência de termos PCP e BE a aceitarem ser parte (mesmo que periférica, mas concomitantemente estrutural e, por isso mesmo, radicalmente cultural) da governação. Na direita, no deserto causado pela saída de Portas e pela continuação de Passos, igualmente se contempla o fim de um paradigma (no caso, marcado pela decadência) sem que se vislumbre qual será o seguinte (podendo até vir a ser pior). Exemplo maior deste trânsito, Marcelo está no olho do furacão da crise que tem demolido a direita partidária e ideológica.

Ninguém melhor do que o folclórico Rui Ramos para ilustrar o drama. Eis o que ele escreveu nas vésperas da vitória de Marcelo nas presidenciais:

Marcelo Rebelo de Sousa é mesmo um candidato livre e independente, e é disso que os oligarcas não gostam.

[...]

Ao regime convém um presidente com força própria, que lhe permita nomeadamente ser flexível. Marcelo Rebelo de Sousa tem essa força. Tem a força de um dos mais longos percursos públicos da democracia. Tem a força de quem avançou sem precisar de avales de panteão. Tem a força de quem aceitou o apoio de partidos, mas não o pediu. Tem a força de quem fala para todos, sem clubismos ideológicos. Não é apenas o melhor dos candidatos que se apresentaram. É o melhor de todos os candidatos que se poderiam ter apresentado, desde logo porque teve a coragem de se apresentar. Desculpem, mas nunca houve eleições em que a escolha fosse mais óbvia. Se mesmo assim há um problema, não é Marcelo Rebelo de Sousa.

Marcelo Rebelo de Sousa, obviamente

Nesta ode desvairada, Rui Ramos tenta entrar em diálogo com os fanáticos à direita que queriam outro Cavaco Silva para fazer a folha ao Costa e que lamentavam essa perda por antecipação, pois Marcelo não lhes estava a dar os sinais de querer ir por esse caminho de guerrilha sórdida e boicote institucional. A sua mensagem é “Calma, pessoal! O Marcelo é cá dos nossos e não deixará de os foder quando for a altura. Só que vai fodê-los ao seu estilo, um bocadinho mais elegante e charmoso do que o golpista anterior.” De lá para cá, o vento mudou e ela não voltou. Passou um ano e meio de marcelite aguda. Eis-nos em Pedrógão, um feliz acontecimento na vida publica do Rui. Tomai e comei um pedaço do seu entusiasmo:

Pedrógão-Grande é a maior vergonha do actual regime. Morreram dezenas de pessoas, por falhanço de um Estado que continua a falhar: passado mais de um mês, ninguém desfez as incertezas mais básicas, ninguém explicou, ninguém pediu desculpa, ninguém se demitiu, e parece que o dinheiro da solidariedade ainda está para chegar a quem precisa.

A ignorância de Estado

Notavelmente – aliás, misteriosamente – num texto onde denuncia “a maior vergonha do actual regime“, o nome Marcelo Rebelo de Sousa e as palavras Presidente da República não aparecem. Vamos recapitular: Rui Ramos, licenciado em História e doutorado em Ciência Política (Oxford), consegue dissociar o maior escândalo do regime e o Chefe de Estado nesse mesmo regime, como se habitasse numa ilha sem vivalma e já não se importasse de passar por maluco. Para lá dos aspectos cognitivos fascinantes nessa operação, o que podemos concluir, recorrendo ao bom senso tão bem espalhado pelo vulgo, remete para um regicídio simbólico. O seu herói a 19 de Janeiro de 2016 desaparece do palco e encontra-se agora, em 25 de Julho de 2017, em parte muito incerta, provavelmente no Inferno. Incapaz de o reconhecer no plano consciente, pois tal estilhaçaria a sua identidade tal como ele a constrói publicamente, o choque leva-o para o estalinismo: apaga-se o traidor da fotografia. Porém, o Rui tem uma poção mágica onde vai buscar a sua força argumentativa sobre-humana: o termo “oligarquia”. Cá está ele em acção:

A oligarquia no poder não é a melhor fonte para percebermos o que é lícito e moral. Esta semana, os oligarcas deram-nos a boa nova de que vivemos em democracia, isto é, num regime em que podemos perguntar e discutir tudo livremente, ao contrário do que acontece em ditadura. Ao mesmo tempo, porém, disseram-nos esperar que não fizéssemos perguntas nem discutíssemos a tragédia de Pedrogão-Grande, como alguns políticos e jornalistas, porque isso seria “aproveitamento político”, o que é “imoral” e portanto inaceitável. Em que ficamos? Pode-se ou não discutir tudo? Até onde chega a democracia em Portugal?

Pedrógão Grande: quem tem medo da “politização”?

É isto. É simples. Acossado e ressabiado perante as declarações do Presidente da República onde este deu dois tabefes na violência da direita fanática, a solução do Sr. Ramos passa por considerar Marcelo, o candidato presidencial que atestou ser detestado pelos oligarcas, como mais um deles, igual, provavelmente pior dada a desilusão amorosa causada. Chega ao ponto de conseguir chamar salazarista a Marcelo por carambola com o obsessivo ataque a Costa. Sendo então mais um dos oligarcas, o texto diz-nos que Marcelo quer destruir a liberdade e acabar com a democracia. Porque é isso que o bom povo faz, pela voz dos iluminados com cursos de História e doutoramentos em Ciência Política, quando se cavalga desenfreadamente uma tragédia como a de Pedrógão e se largam os cães de guerra sobre as suas vítimas. O povo quer linchamentos, fogueiras, sangue – desde que devidamente conduzido para os alvos que os iluminados anti-elites escolham do alto do seu superior discernimento. Quem se opõe ao povo livre, que pulsa e respira nos textos libertadores do Rui Ramos, está ao serviço dos oligarcas situacionistas que defendem um Governo de tiranos.

A lição, sem moral, é esta: a direita decadente, do ódio e do fanatismo, tem parasitado o espírito do tempo; a direita criativa, que traga inteligência e coragem, terá de nascer do espírito do lugar. Que lugar é este onde vivemos uns com os outros?

Nicolau, larga o vinho

Apenas hoje vi a situação que levou Nicolau Santos a escrever o seguinte, a 18 de Junho:

Constança Urbano de Sousa só apareceu no sábado à noite, quando o Presidente da República se deslocou ao local. Debitou algumas banalidades. Mas o mais notável que fez, quando Marcelo Rebelo de Sousa se encontrava a falar aos jornalistas tendo ao seu lado Jorge Gomes, foi pedir ao seu secretário de Estado para se chegar para o lado e passar para trás para ficar ela ao lado do Presidente da República (é ver as imagens televisivas para confirmar o que escrevo).

Quando, no meio de uma tragédia destas, numa área sob a sua tutela, a ministra mostra estar preocupada é com a sua visibilidade na comunicação social ou o seu lugar na hierarquia governamental, a única hipótese que resta é a sua demissão. Pelo seu pé, para ser uma saída honrosa. Ou por decisão do primeiro-ministro, porque Constança Urbano de Sousa não merece nem dignifica o cargo que ocupa.

Porque é que a ministra da Administração Interna se deve demitir

O Nicolau não é um desses broncos que fazem o grosso da presença opinativa da direita portuguesa, nem sequer à direita pertence, pelo que podemos excluir o sectarismo e o tribalismo como causas do fenómeno. Provavelmente, foi a comoção pela perda de tantas vidas e a violência do incêndio – amplificada mediática e mimeticamente pela dramatização afectiva de Marcelo in situ – que o levou para a injustiça de atacar a ministra da Administração Interna por uma atitude que não tinha a conotação que ele lhe deu. Também Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, repetiu a distorção, como se fosse uma evidência estarmos perante algum tipo de erro político ou moral na conduta de Constança Urbano de Sousa.

Ora, não estamos. Primeiro, tudo se passa no reino do ofegante e confuso improviso. Há jornalistas a entrevistarem o Presidente da República, há um secretário de Estado ao seu lado, e há uma ministra que, por razões que desconhecemos e que são irrelevantes para a avaliação do que vemos, não pôde estar ao lado do Presidente quando ele começou a falar com os jornalistas. À volta, há uma catástrofe em curso e uma operação logística de alta complexidade e transbordante intensidade emocional. Depois, Constança toma a decisão de também participar na comunicação aos jornalistas por ser absurda a decisão contrária. O facto de não ter apanhado o começo da conferência de imprensa informal não era razão para se escusar de comparecer para benefício da imprensa e da população. Ela estava obrigada, dadas as suas responsabilidades governativas, a ir juntar-se a Marcelo. Por fim, não partiu dela a iniciativa de trocar de posição com Jorge Gomes, antes de alguém que avisa o secretário de Estado. Este cumprimenta Constança e tem um gesto ternurento enquanto cede a posição. Ainda assim, a ministra não se coloca mesmo ao lado de Marcelo, ficando mais recuada em relação à anterior posição de Jorge Gomes.

Podemos interpretar o episódio de muitas e desvairadas maneiras, obviamente, mas convém respeitar a inteligência dos leitores se a ideia for a de passar módico profissionalismo jornalístico – e mesmo que no caso o género seja jornalismo de opinião, pois jamais tais exercícios se reduzem ao estatuto de mera opinião dado estarem a representar, de alguma forma ou até de várias, a autoridade editorial do jornal, rádio ou TV onde se publiquem. Assim, dizer que “a ministra mostra estar preocupada é com a sua visibilidade na comunicação social ou o seu lugar na hierarquia governamental” só é possível quando se desiste da objectividade, da honestidade intelectual e da empatia. Mesmo que tal aparecesse na forma de uma fortíssima hipótese, por hipótese, escrevinhar a suspeita em forma de certeza e pedir por causa disso a demissão da ministra é um registo de taberna.

De lá para cá, o Nicolau tem mantido a coerência com esta posição inicial nascida nas labaredas da sua subjectividade. Uma irritação que se transformou em orgulho. E preconceito.

Cineterapia


Paterson_Jim Jarmusch

Preferias ser peixe? Se fosses um peixe talvez também escrevesses poemas que não rimam. Com as barbatanas, escritos na areia do mar ou no vazio cheio de água salgada. Tão ou mais poéticos, parecidíssimos. E talvez também te chamasses Oceano, ou Lago, ou Rio, ou Aquário, calhando morares num oceano, num lago, num rio ou num aquário.

Mas se fosses um peixe não poderias conduzir autocarros. Nem ir passear o cão e ir beber a cerveja. Não viverias com uma peixa especialista em fazer queques, elogiar os teus poemas, gastar o teu dinheiro, sorrir e encher a vossa casa de maníacos padrões a preto e branco (não necessariamente por esta ordem).

E depois temos os gémeos. O problema dos gémeos. Gémeos. Duplicações. Paterson com Paterson. Driver com driver. Rimas. Metáforas das rimas que não prestam para fazer poemas na cidade do William Carlos Williams? Consta que Jarmusch escreveu o guião sem gémeos. Por acaso, a mãe de uma miúda que foi escolhida como extra para uma cena no autocarro foi buscá-la às filmagens com a sua irmã gémea. A partir daí, porque sim, decidiu que o filme iria ter gémeos aos magotes. E explica: “É um elemento anti-significativo”. ‘Tá explicado, Jim.

O mais provável, se o filme te percorrer as veias, será concordares que o realizador quis muito deixar-te com a ideia de que a poesia está espalhada à nossa volta, em tudo, nas pequenas coisas, no quotidiano, ao longo da monótona semana. Um condutor de autocarro pode ser um poeta e viver com uma pessoa do sexo feminino sem discussões nem sexo. Um cão pode embirrar sofisticadamente com um fulano e ter actos de crueldade abjecta contra a poesia. As palavras podem juntar-se às palavras, as frases podem suceder-se quais orações, e assistirmos ao divinal processo criativo num ecrã gigante. E esta ideia, ou aquela, ou até a outra, se misturada com personagens que assumem serem actores provocando riso a outros actores armados em personagens, se temperada com um japonês que não se perde em traduções, se embrulhada em folhas que caem e águas que voam, vai deixar-te a gostar mais de ti. Só que não sabes porquê.

Nem tens de saber. O próprio Jarmusch ainda está a aprender o que seja o cinema. Eis o segredo de um dos melhores filme do ano, seja lá qual for o ano em que vejas este exaltante aborrecimento.

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How Central Are Female Characters to a Movie?
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Age of First Exposure to Pornography Shapes Men’s Attitudes Toward Women
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Psychopaths are better at learning to lie, say researchers
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Intuitive, extraverted and spontaneous women are the best choice for leading creative people
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Yoga effective at reducing symptoms of depression
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Origin of human genus may have occurred by chance
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Why humans find faulty robots more likeable
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Marcelo e a lua nova

A entrevista de Marcelo ao DN gerou uma curiosa polémica negativa. Negativa no sentido em que se está a discutir algo que apenas se consegue definir negativamente, descrevendo a sua ausência. No caso, é a ausência do que alguns comentadores gostariam de ter encontrado e não encontraram e do que outros dizem ter encontrado e não se encontra: alguma declaração para usar como arma de arremesso contra o Governo.

Estamos no período mais intenso do dolce fare niente. O País está a banhos. Condições óptimas para uma típica discussão bizantina. Mas será só isso? Será apenas mais uma crise de azia naqueles que desesperam com a gestão paciente e teatral do calendário eleitoral por parte de um actor que poderá estar a aprender um papel novo no acto mesmo de representar uma peça cujo enredo está desactualizado e para que foi outrora escolhido precisamente pela sua popularidade e dotes histriónicos?

Paulo Baldaia, protagonista principal desta polémica, já despachou dois textos sobre o assunto. No primeiro, O “momento” de Marcelo, declara o seu alinhamento com Vítor Costa, uma das vítimas azoadas pela falta de combustível conspirante nas frases saídas da boca de Marcelo. No segundo, O que se disse sobre o que disse e não disse Marcelo, embirra com Sousa Tavares e Louçã e apresenta-se com o orgulho ferido. O registo é de tertúlia, Baldaia tenta ripostar imaginando que existe uma audiência interessada na sua defesa perante o que lhe parecem críticas ao seu trabalho como entrevistador, editor e director – ou talvez estado-se a marimbar para a putativa audiência, servido o jornal onde escreve tão-só como meio para o jogo de espelhos em que se concebe como figura pública.

Espremendo o que o director do DN diz e repete, a sua mensagem resume-se a esta brilhante ideia: Marcelo, por agora, não vai fazer nada contra os interesses do Governo; mas, atenção, Marcelo, num destes dias, poderá fazer alguma coisa contra os interesses do Governo. Este simplismo interpretativo, nascido da auto-infligida necessidade de dizer coisas só porque assim o dita a convenção e a vaidade, transforma-se em hermenêutica pirata na ênfase dada a estas tautologias: “É grave. Não desdramatizo, é grave.” e “Se há responsabilidades, tem de haver responsáveis.” Para o entrevistador, estão aqui os sinais de que Marcelo está a pedir cabeças de governantes servidas em travessas, com ou sem molho. Para quem estime os humildes mas nada modestos preceitos da lógica e da gramática, Marcelo está é a dizer que não se pode desdramatizar aquilo que se calhe considerar grave, num caso, e a explicar que incluso no conceito de responsabilidade, atributo exclusivamente dos seres conscientes e dotados de vontade ou de entidades onde esses seres exerçam funções, está o conceito de responsável, no outro.

Marcelo não exibe a pulsão odiosa e golpista para onde Cavaco foi empurrado pela oligarquia quando o império bancário desta começou a ruir em 2007 e 2008. Marcelo também não precisava de ser Presidente da República para se sentir feliz da vida. Pelo que aquilo que começou por ser apenas uma luxúria e um oportunismo, a sua candidatura presidencial tantos anos em preparação na TV, pode levá-lo para um percurso de verdadeiro estadista. Por agora, ainda é cedo para o sabermos, embora tudo aquilo que tem deixado a direita fanática em polvorosa seja a expressão de um exercício do cargo onde o interesse nacional está a ser respeitado como primeiro e principal critério de intervenção e decisão. No entanto, a futilidade dos exercícios como os de Vítor Costa, Marques Mendes e Paulo Baldaia apenas se foca na intriga. São como meteorologistas que se limitam a observar o tamanho da Lua para descobrirem se vai chover ou fazer sol.

Estava aqui a pensar no mesmo

«O que Marcelo e Costa perceberam, cada um à sua maneira, é que o modo da sua política deve estabelecer uma diferença marcada com o passado recente. Marcelo separa-se de Cavaco, que interpretava a austeridade melhor do que ninguém (e por isso se perdeu, com a lamúria sobre a sua pensão) e Costa separa-se do tempo da troika e do PSD e CDS (e por isso se perderam, com a sua gula de empobrecerem o país). Isso é totalmente óbvio na sua linguagem: ao contrário de Passos, que se passeia como se fora um primeiro-ministro no exílio e à espera de poder desembarcar no Terreiro do Paço, zangado com o mundo que o esqueceu, Costa sorri e é uma pessoa normal, enquanto Marcelo corre o país a acarinhar o povo.

De facto, ambos perceberam um segredo que pouco mais gente partilha: é que na política há dois mundos e dois tempos bem separados. Um é o frenesim de políticos e jornalistas, das grandes intrigas e das grandes frases (os suicidados de Pedrógão, ou que vivemos sob um governo totalitário porque o Ministério Público não juntou a senhora atropelada à outra lista das vítimas directas da tragédia!), outro é o da gente normal, que prefere que lhe garantam que não vão ser reduzidas as pensões dos nossos pais e que quer ver esforço para resolver as muitas dificuldades da sua vida.»


A chave da política