Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Alegria mesoatlântica

Só descobri esta pérola recentemente, embora tenha ocorrido em 2013. E provando o dito bíblico, ou fundamento capitalista, de que a quem muito tem muito será dado, eis que Caetano Veloso tem isto a dizer sobre o que se passou naquele palco naquele momento: Carminho e o nosso passarinho

Conhecer a história da canção, incluindo o diferendo de género entre Tom Jobim e Chico Buarque e as raízes da letra que vão dar a um poema onde se celebra a independência do Brasil pela mão de um poeta brasileiro nascido de um português e de uma mestiça em 1823, só acrescenta sentido, profundidade e beleza ao que ouvimos dos nossos compatriotas e ao que lemos do nosso irmão Caetano.

Saudades do Oriente romântico por nós inventado

O Oriente violento está agora mais próximo. Na Turquia, as dezenas de milhares de pessoas que, no âmbito de um golpe de Estado desta vez não falhado, estão a ser expulsas dos serviços públicos por suposta traição – professores, reitores de universidades, governadores civis, militares, polícias, magistrados, funcionários – vão fazer o quê, vão pensar e sentir o quê, vão viver do quê e vão viver onde? Como pensará Erdogan manter a paz no país? Fuzilando estas dezenas de milhares de pessoas? Abrindo-lhes as portas para a Europa, quer dizer, para a Grécia (olha quem) e a Bulgária, esperando que prossigam para bem mais longe? E se estas pessoas encontrarem muros (ou armas), que cada vez mais se erguem e erguerão, à medida que o número de atentados executados por muçulmanos e o sentimento anti-imigração forem aumentando na Europa?

É claro que o risco é grande de alguém disparar sobre Erdogan ainda antes. Mas, dado o apoio de que goza, não faltava mais nada à Europa do que uma Turquia em guerra civil. Se não acontecer, tenho um receio igualmente grande: uma vez o país islamizado, com as mesquitas a comandarem a rua, como parece já estar a acontecer, será muito difícil reverter a situação, como vemos nos países da chamada «primavera árabe». E assim ficaremos paredes meias com a barbárie e o obscurantismo, que pensávamos um pouco mais distantes. E, se o Ocidente se mostrar hostil, o que impedirá uma população islamizada de simpatizar com o DAESH? Há quem diga que já não antipatizam muito, nem a nível oficial.

Se alguém tiver uma solução para o problema que a neo-selvajaria, seduzida por – e inspirada na – violência gratuita de muitos filmes de Hollywood (basta ver a propaganda do EI), coloca à paz no mundo, que a anuncie. Por mim, coroá-lo ou coroá-la-ei rei ou rainha do universo. A tarefa exige grandes dotes intelectuais e estratégicos. E não vale estar constantemente, e sempre de modo incompleto, a falar nas causas e nas responsabilidades do Ocidente. O que está feito, está feito e a violência existe mesmo entre correntes do islão e data de há séculos. O Ocidente tem jogado com os antagonismos intrarreligiosos para defender os seus interesses em cada caso. O caso mais recente foi na Síria. Mas não esteve só. Os seus aliados árabes e muçulmanos (mesmo os pontuais) estabeleceram acordos e pactos com o Ocidente. Uma solução para o futuro é o que se precisa. Possivelmente não bastará a paciência (apostando que esta onda passará) e os milhões gastos em reforço da segurança, aliás, muito fácil de contornar por quem não tem problema nenhum em morrer. Estarão para breve ditaduras violentas também no Ocidente?

Uma péssima notícia a caminho

A hipótese de que Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, o autor da carnificina em Nice, não tenha sido treinado, sequer instruído, pelo “Estado Islâmico” não é uma boa notícia. Significa que para as autoridades poderá haver agora um perfil terrorista completamente imprevisível e potencialmente indetectável a não ser posteriormente ao ataque, durante ou na sua iminência. Lá se vai a prevenção e a contra-espionagem para o galheiro. Esse perfil corresponder a um contexto de psicose em qualquer grau e de qualquer tipologia só aumenta o elemento imprevisível, como se vê por este caso e pelo que se sabe da planificação efectuada.

Mas a hipótese, a confirmar-se, corresponderá a um ainda maior triunfo do “Estado Islâmico” enquanto organização criminosa, porque seria a evidência de estarem a fazer um excelente trabalho de promoção da sua marca. Uma marca cuja força mediatizada estabelece uma dinâmica bipolar – acabando por aparecer tão fascinante para quem a defende e segue como para quem a abomina e teme – que chega e sobra para gerar ataques devastadores contra alvos civis aleatórios sem carência de logística nem sequer de financiamento.

Para quem dirige esta onda de terror, o facto de os seus agentes espontâneos poderem ser doentes mentais que passaram a vida alheados do Islão, ou até a dizer mal do mesmo, é absolutamente indiferente. Melhor, será algo que agradecerão pois permite acrescentar à retórica do martírio a da redenção. Perfeito para quem está a instituir uma forma de domínio político tão violenta e potencialmente destrutiva como a do nazismo. E perfeito numa cultura religiosa onde não existe um centro doutrinário a unificar interpretações do Corão, antes essa autoridade está atomizada e consente todas as intenções que se queiram atribuir aos textos considerados sagrados.

Revolution through evolution

Truth is in danger as new techniques used to stop journalists covering the news
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The moral tipping point: Why it’s hard to shake a bad impression
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Study Shows Stark Differences in How Conservatives, Liberals Value Empirical Data
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New Book Explores Correlation Between Pornography, Violence Against Women
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Faking to Finish – Women Feign Sexual Pleasure to End ‘Bad’ Sex
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É um terrorista, não era?

Driver of truck in Nice attacks not known terrorist

 

Esta frase, lida no canal France24 em inglês, está a tornar-se demasiado comum. No entanto, “não era um terrorista conhecido” (ou “não era conhecido como terrorista”)  é uma frase um bocado estúpida de se ouvir, na minha modesta opinião. Hoje em dia, a estirpe “terrorista” nasce e morre extremamente depressa para o género humano. É terrorista, não era? – é uma observação cada vez mais plausível. Já se percebeu que muitos indivíduos aparentemente inofensivos não precisam de mais do que dois dias para cometerem loucuras como as de Nice ou de Paris (ou de Orlando). O que torna a estratégia de combate a este fenómeno muito mais complicada. O Estado Islâmico fez soltar muita loucura escondida. Ou muita confusão de valores.

Terrorismo e criatividade, segundo Marcelo

Há duas semanas, José Manuel Coelho desfraldou uma bandeira do auto-denominado “Estado Islâmico” no Parlamento da Madeira e na presença do Presidente da República. Qual era a intenção? Qual foi a mensagem? O homem tinha alguma razão para tal? Ou não passa de um infeliz, mais um chanfrado dos cornos com palco político e mediático? Não faço ideia nem pretendo gastar meia caloria à procura dessas respostas. Fiquei foi cheio de curiosidade a respeito de qual seria a reacção do sistema partidário, da imprensa, dos publicistas e da sociedade em geral. Apenas consegui encontrar uma posição pública, a de Marcelo:

“Este parlamento [da Madeira] é porventura o mais plural, mais diversificado do ponto de vista de opiniões em Portugal. Ainda mais que o parlamento nacional, mais que o parlamento regional açoriano.

Quando votei a Constituição em 1976, votei uma Constituição para ser aberta e ecuménica, [e com] as manifestações mais criativas. Portanto, a nossa democracia tem acompanhado essa criatividade, o que quer dizer que valeu a pena votar a Constituição.”

Usar uma ocasião solene num órgão de soberania onde se expressa a vontade popular de uma dada Região, e na presença do símbolo máximo da hierarquia do Estado, para publicitar uma organização criminosa cuja prática intencional consiste em matar e ferir civis, e ainda em cometer genocídios de invocação religiosa, equivale, para o actual Presidente da República, a expressar legitimamente a criatividade inscrita na Constituição. Como esta pessoa acumula com o seu estatuto presidencial o de principal jurisconsulto do Reino, estamos perante a produção de doutrina. Significa, se a ideia for a de respeitarmos Marcelo como ser supostamente na posse da totalidade das suas capacidades cognitivas e como agente político que fez um dado juramento prévio à assunção do cargo, que o mesmo José Manuel Coelho, ou outro deputado qualquer em qualquer Parlamento português, pode passar a desfraldar onde e quantas vezes quiser essa mesma bandeira, ou outra qualquer de alucinados iguais ou parecidos, e o mais que der na mona e que caiba na categoria “manifestação criativa”.

Na verdade, Marcelo representou na perfeição a comunidade onde exerce o seu magistério. Como se constatou, a ninguém incomodou que o maluco da Madeira fizesse mais uma das suas maluquices. A expressão “Mas já chegámos à Madeira?” não nasceu ontem, nem sequer neste século. São muitos anos de bananal, pelo que agora ninguém levanta sequer o sobrolho ao ver na mesma sala o Presidente da República, defensor juramentado da Constituição, e a bandeira que representa a maior ameaça à segurança e modo de vida das sociedades livres e democráticas. Assim, chutando para canto com uma banalidade de ocasião, escusando-se a sequer simular um módico incómodo, Marcelo levou o País inteiro para uma cumplicidade moral com este tipo de criminosos e seus crimes. Uma cumplicidade feita de complacência, evasão e medo.

Marcelo, que na sua anterior encarnação como “Professor” também se notabilizou por promover a complacência face à degradação e violação do Estado de direito, veio dizer à malta que a simbólica do “Estado Islâmico” tem em Portugal um país de acolhimento ao mais alto nível. Até nos órgãos de soberania ela é não só bem-vinda como fica valorizada enquanto expressão sublime da criatividade inscrita no nosso texto fundamental. E a malta concordou, aliviada.

Temos PSD: manifesta-se pela mudez e tem sede em Bruxelas

A política única do diretório europeu tem uma delegação no parlamento português.

A delegação é o PSD que tem ouvido de muitos que não faz oposição, que desapareceu.

É verdade que o PSD não apresenta uma proposta política que seja, é verdade que o PSD vive da miséria de casos mediáticos, é verdade que nesse sentido desapareceu para o lugar que o populismo ainda não cavou.

Simplesmente, o PSD faz oposição todos os dias, o PSD faz oposição em cada debate temático.

Sempre que fica mudo diz da sua proposta.

A cada mudez, uma diminuição do salário mínimo.

A cada mudez, a não retribuição dos rendimentos constitucionalmente devidos às famílias.

A cada mudez, a defesa de um modelo de crescimento assente em baixos salários.

A cada mudez, a defesa da sobretaxa do IRS.

A cada mudez, a penhora das casas de família.

A cada mudez, a manutenção dos cortes nas prestações sociais.

A cada mudez, um corte de 600ME nas pensões.

A cada mudez, um sim à alteração do tempo de trabalho sem compensação.

A cada mudez, a certeza de que continuaria a ser o garante do desinteresse nacional, sempre incumprindo todas as metas previstas no tratado orçamental, mas vassalos do protetorado e da política única que nos custou décadas de regressão.

E ainda dizem que não há oposição. Está aqui. Chama-se PSD. Manifesta-se pela mudez e tem sede em Bruxelas.

 

 

Dito e feito

Num telejornal da France 24, à hora de almoço de hoje, um francês em estúdio dizia que Ronaldo iria ser alvo de faltas violentas de forma a que ficasse inibido e, com sorte, lesionado. Era o único perigo para a França e, se anulado, a vitória estava no papo. A jornalista sorria de aprovação e terminou a conversa desejando que essas faltas não levassem a cartões nem a grandes penalidades. Os dois riram de satisfação e esperança.