Em Fitna - II, apareceu uma ligação para este poste. Trata-se de nova contextualização do filme de Wilders, agora a partir dessa estupidez chamada Schism. Mas o que mais importa está ao lado, lá na página. Estamos no meio de um dos vários movimentos que procuram introduzir racionalidade na religião e cultura islâmicas. A vitalidade destes grupos e personalidades parecerá chocante àqueles que permanecem apavorados — e, portanto, enlouquecidos — pelo terror islamita. Mas é verdade: afinal, há muitos que arriscam combater a patologia e a maldade apenas com palavras de paz. A sua coragem rivaliza com a sua lucidez.
O comentário de robito, o último ao tempo em que escrevo, é lapidar. Porque expressa, sumária e simplicissimamente, uma visão democrática e secular sobre o fenómeno religioso; naquilo que se constitui como exemplo de uma posição que representa o actual paradigma civilizacional, onde as religiões têm de se circunscrever à esfera individual e submeter ao primado da liberdade. Só por ele, vale a viagem.
(poema - autógrafo para Domingos Matos)
Muitas vezes vou cedo chego primeiro
Com a fábrica de sonhos inda fechada
Ainda a relva tem a água do nevoeiro
Ainda a terra tem a frescura da geada
Chego cedo para ter tempo e perceber
A voz da terra que sobe com lentidão
Para respirar a sua postura de mulher
Em sementeiras de ternura e de paixão
Muitas vezes vou cedo chego primeiro
Aqui tudo tem mais peso, mais verdade
Nesta terra nascida dum gesto pioneiro
Secar pântanos para fazer uma herdade
Aqui se fazem as melhores sementeiras
De tudo o que é grande e é mais puro
A escola não tem muros ou fronteiras
Os alunos conjugam verbos no futuro
A revista PARQ ainda só vai no quarto número. A estultícia da sua juventude explica o fenómeno: estreia de Valupi fora da blogosfera, e até em papel. A ocasião (singular) é relativa ao Festival OFFF, o qual começou hoje.
Quem sabe, pode ser que descubram um excelente veículo editorial, a revista, e conheçam um pouco mais da vanguarda digital, o festival. Ou, pelo menos, que apreciem a ideia brilhante, que os amigos da PARQ tiveram, para usar a Internet na promoção da revista: basta entrar no website e ficamos a vê-la, as páginas a passar, mas sem nada se ver afinal, mesmo que tudo esteja à mostra. Tão simples, tão inteligente, tão chato não ter sido eu a ter essa ideia.
![]()
Nick Gray* assina a peça. E um imbecil qualquer assassina-a sem piedade, com o seu tag imbecil. Um caso em que o pixelated é fodido pelo pixilated.
[clientes que gostam desta obra também se deleitaram com esta]
* Graças à investigação da Susana, impõe-se correcção.
Desenhas devagar um quadro no relvado
Com toda a geometria que te fôr precisa
Para levar o som da tua voz a todo o lado
E a bola a entrar tão veloz na outra baliza
No corpo da equipa tu és um forte pulmão
Não tens anidrido mas sim oxigénio puro
Nos teus pés nasce um projecto de canção
Escrita na pauta para ser cantada no futuro
Chamar canção à festa não é nada exagerado
Nos abraços de cada golo nasce uma melodia
Que chega ao meu ouvido onde estou sentado
Que toca quem ouve o resultado na telefonia
Se esta equipa fôr um comboio de passageiros
Tu só podes ser o seu mais activo maquinista
Que não quer ver comboios lentos e ronceiros
Nesta planície onde os sonhos estão ali à vista
Já lhe chamam, no éter, o poeta do futebol. O nosso José do Carmo Francisco é uma espécie de arquivo falante do futebol português e faz gala disso. Autor de um livro com um título maravilhoso, Os Guarda-redes Morrem ao Domingo, jornalista desportivo, peca por uma certíssima parcialidade no respeito ao amor clubístico: o Sporting.
Aqui no Aspirina tem-nos deliciado com os seus poemas: insólitos na métrica e na temática. Cobre, sem dúvida, um nicho de mercado com muita cache e cachet. Ali abaixo o entusiasmo foi grande. Compareceram machos fadistas e a desgarrada é viciante. Contagia, e não fiquei imune. Deixo agora, aqui, o meu agradecimento pela animação que tem gerado.
Nos juniores tu eras sempre o capitão
Depois na equipa B tinhas a braçadeira
Hoje sei que jogas futebol em Portimão
Porque leio A BOLA de segunda-feira
Corri o país para escrever no meu jornal
Fazia as crónicas e a notícia pequenina
Eras tu que me falavas sempre no final
Mas em nome de toda a equipa leonina
Foste o melhor em campo várias vezes
Tal como já tinhas sido vestido de leão
Em Santarém nos Sub-21 portugueses
Fazias toda a ala direita dessa selecção
Ainda hoje não percebo este mistério
Que te afastou para longe de Alvalade
Tu continuas a jogar e sempre a sério
A encher os teus domingos de verdade
Como seria a vidinha se começássemos o dia a rir uns com os outros? Seria uma bebedeira de inteligência. É que isto de rir é assunto sério.
Passa o dia a viajar como um cigano
Entre a Lezíria e a Estrada de Pegões
Respira o verde todos os dias do ano
Entre a casa e a Escola de Campeões
Chega a esquecer-se das suas lesões
No esforço de curar quem o procura
No relvado eles correm como leões
Na marquesa sofrem com amargura
Passa o dia a viajar como um cigano
De terra em terra a fazer tratamentos
Os olhos são Atlas do corpo humano
Percebe uma lesão em dois momentos
Tudo o que diz é genuíno e verdadeiro
Tudo o que faz tem o toque dum artista
A sua vida não se esgota no enfermeiro
A sua alma está para lá do massagista
O Daniel saiu do blogue com estas palavras. De comum com a saída do Fernando, e para além da proximidade temporal dos eventos, temos a surpresa causada, a ausência de comunicação interna, o laconismo críptico da justificação. Quanto às razões silenciadas, ou tão-só esboçadas, não nos dizem respeito por não terem sido explicadas. Já o lado público do acontecimento permite uma breve reflexão. Entretanto, assino por baixo o que o meu primo disse aqui e aqui, igualmente me sintonizando com a declaração da Susana.
Só há 5 anos é que os blogues apareceram em força em Portugal. Sabemos como utilizá-los e para que servem, mas ainda não estamos imunizados contra a sua ilusão. Isso leva a que alguns imaginem vir a ser lidos por milhões, ou pela elite que influencia o gosto institucional, quando começam a escrever num blogue. A verdade pede água geladamente gelada na ambição: um blogue é lido por umas poucas dezenas de indivíduos, se correr muito bem. Em casos raros de popularidade, é lido por centenas. E será preciso algo de extraordinário para ser lido por milhares. 99,999% dos blogues não têm um único leitor para além dos autores. Os números que se apresentam relativos ao tráfego são isso mesmo: passagens. Mas passar não é ler, é partir.
Ainda mais relevante do que a quantidade, para a higiene e ecologia autoral em blogues, é a qualidade dos leitores. Nos blogues que permitem comentários, em especial nos que fazem moderação mínima e retroactiva, os leitores podem interagir sem mediação temporal ou de conteúdo. Isso confere-lhes um poder de recontextualização que ultrapassa o do autor, por causa do acrescento de interpretações. As caixas de comentários são selvagens e tempestuosas, as temáticas intencionadas nos postes poderão ser completamente ignoradas, deturpadas, fragmentadas. Não se controla o ambiente, a menos que se entre nele abdicando dos poderes inerentes à administração do espaço: de censuras, inconfidências e ameaças. E deste caldo caótico, onde qualquer um pode expressar livremente qualquer coisa, desde que não seja ilegal, nasce vida.
Que têm estes considerandos, que deveriam ser óbvios para todos os que optam por gastar o seu irrecuperável tempo nos blogues, a ver com a saída do Daniel? É que o Daniel saiu a conversar. Deixou o seu email e anda por cá a discutir o que lhe dá na gana. Ou seja, tornou-se um bloguista completo, finalmente aceitando que os blogues também podem ser tertúlias de arruaceiros — e que a barulheira é sinal de alegria. Eis um caso de blogodrama propedêutico.
Apesar de toda a gente reconhecer a autêntica revolução que o YouTube representou para a web 2.0, nem todos terão reparado na sua influência na criação de novos conteúdos audiovisuais. Não é por acaso que videófilos e audiófilos abominam o YouTube: as suas limitações de upload e streaming (resoluções de 320×240 ou 480×360 a 314 kbits/s para as imagens e compressão a 64 kbits/s para a faixa sonora) são um verdadeiro pesadelo para quem venera a alta fidelidade. O vídeo de «Water Curses» dos Animal Collective realizado por Andrew Kuo e Snejina Latev, consegue a proeza de transpor aquilo que são aparentemente as limitações do YouTube (e de outros programas semelhantes) para o interior do próprio processo criativo de uma forma que, para além de ser absolutamente inovadora, possui resultados estéticos que me deixam num estado entre o transe e a levitação. Ou muito me engano ou temos aqui, se não o melhor, pelo menos o mais importante vídeo musical desse admirável mundo novo que é o HTML.
O nosso amigo Rui Vasco Neto junta-se ao nosso amigo Shark no fértil pantanal Sapo. O Sete Vidas Como Os Gatos está com um ar todo catita, ostentando veludo granadino (ou assim me aparece no monitor) num fundo donde saltam os saborosos textos do patrão — e a que se junta a presença assídua do Daniel de Sá, neste momento com uma imponente resenha histórica acerca da ópera em Portugal.
É de lá ir e voltar para mais.
Tenho cá em casa um gato muito giro chamado Xavier, que tem uma fixação doentia por fitas de cabelo. Apesar de ter as mãos todas arranhadas pelo bichano, é óbvio que me divirto imenso com essa sua fixação. Inspirado por essas andanças felinas, resolvi fazer um mash-up de duas bandas desenhadas que adoro: os Bunny Suicides de Andy Riley (vénia) e os Mutts do Patrick McDonnell (tripla vénia, amén). O Mooch faz de Xavier e o coelho usa a fita à Rambo. Ai ai, as merdas que me passam pela puta da cabeça.
Se um dos elementos da rapaziada aspirínica tivesse colocado aqui um post com uma vulva exposta na maior descontracção, teria sido um malandreco. Como fui eu, devassidão. Não admira; apesar do andar dos tempos, à mulher continua a ser consignada uma dicotomia entre a santa e a flausina. Mulheres-putas só no uso privado.
A intrusão da temática é tão poderosa que se impuseram as discussões em torno da eventual carga erótica da imagem, como se o erotismo, ou o estímulo sexual, fossem os propósitos quer da pintura quer do post. Outro aspecto curioso foi cada um ter presumido na pintura um objectivo correlativo à provocação exercida: o de chocar, o de seduzir, o de vender, o de banalizar o sexo numa corrupção dos costumes. Com a evidência de se tratar de um sujeito de interpretação individual articula-se o contra-senso: quanto mais a temática interfere com as nossas dificuldades, mais difícil se torna separar representação e realidade representada.
Mas já não é politicamente correcto ser-se moralista nas temáticas sexuais e, por mais que esticasse a corda, os defensores e as defensoras dos bons costumes femininos foram escudando as suas posições por detrás da esquiva definição do artístico–ou não. Foi preciso dizer-se «cona» para se dar o salto para a verdade, pela mão de um comentador: as boquinhas das senhoras sérias não devem conspurcar-se com vernáculo, nem os seus olhos com visões perniciosas das suas próprias anatomias. Todavia a palavra não me saiu da boca, chegou sem voz. Eu posso nem ser uma mulher. Quem sabe a Susana é apenas o João Pedro, ou o José do Carmo Francisco, mas com bigode. Que importava aqui – a autoria, ou o conteúdo? Para mim, sem dúvida alguma, contou a discussão e o seu subtexto.
Por isso, irei voltar ao tema. Para já, no entanto, faço uma concessão às retinas sensíveis no que respeita à exibição de alegadas cruezas. Agora, quem quiser ver a imagem terá que se sujeitar à ignomínia perversa do peep-show, e clicar no link abaixo. Assim, passamos a obedecer às leis da pornografia, escondendo o distrito vermelho suave e felpudo debaixo do lençol.

O cinema King devia fechar, e abrir noutro lado. Num lado onde não se ouvisse a sala do lado ou o Metro a poucos. Mas fui lá ver este filme com 84 anos, a idade do realizador ao tempo. É filme de puto. Surpreendente? Para quem tem Manoel de Oliveira na cinematografia nacional, inevitável. Quando Douro, Faina Fluvial foi estreado, Resnais tinha 9 anos. Um puto então; então, e agora?
Coisas horríveis podem acontecer a quem veja o filme. Como a de nunca ter estado em Paris. Fica o aviso.
Esta é uma obra onde se deve contar o fim. Cá vai: não acontece nada. O realizador filmou um final onde não acontece nada, e as cenas que o antecedem são a meticulosa preparação para esse fim que, por ser nada, pode acolher aquilo que tu queres. Claro, estou aqui a ser alucinadamente optimista, pressupondo que tu queres. Mas faz-me este favor: bate em quem te contar o começo. Se te contarem o começo, perdes o filme. É tão complicado quanto isto. Mas se bateres naquele que te contou o começo, bateres com força, nem tudo estará perdido. E é para isso que vamos ao cinema, para que alguma coisa se salve.
Não, não, não. Isso que se diz ser isto e aquilo, que se repete, não importa para nada. O quê? Isso? Não, não penses nisso. Não ligues a isso. Nem àquilo. Quão mais vale aqueloutro. Oh, muito mais!
Teatro.
A minha cena preferida é discutível. Eis o critério da preferência.
BnF (e podes bater-me com força).
Sou eu que tenho a chave deste espaço
Onde guardo os sonhos mais fagueiros
De quem faz desta equipa um abraço
Num mundo de caminhos traiçoeiros
Nas vitórias o vendaval é de euforia
Nas derrotas chuva de palavras feias
Custam como o duche de água fria
Ao lado das camisolas e das meias
Pela minha parte tenho a psicologia
Do resgate da sua tristeza neste lugar
Lembrando que amanhã é outro dia
E no sábado há outro jogo para jogar
Depois é um quadrado de marmelada
À espera que ele vá activar a insulina
Para que a equipa não fique cansada
E viva os sonhos fechados na cabina
Ontem um comentador que tudo faz para vir para a nossa montra, e por tanto fazer merece-o, escreveu que são os comentadores quem comanda o aspirina. Diz que nós ainda não o percebemos. Mas engana-se: nós sabemos dessa grande verdade. É o povo quem comanda os elevados desígnios do aspirina e nós somos apenas os agentes eleitos (por boletim divino) para intermediar essa vontade.
Por ser verdade, e em sinal de reconhecimento, proponho um slogan abrilino: o Aspirina a quem o trabalha. Faz todo o sentido uma reforma. Se for como a nossa agrária, comentadores como este são valiosos, porque dão grande ajuda no enchimento de chouriços. Juntando a amabilidade gastronómica de nos mandarem à fava.
A culpa é da liberdade e suas sequelas. Porque, convenhamos, se não fosse o 25 de Abril, nunca teríamos chegado ao 26. É sempre do 26 que se faz balanços.

No último almoço com Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, neste domingo que passou, éramos apenas 5 convivas. Ele, eu e outros três. Calhou ficar a seu lado, mas costumo ficar de frente, prefiro. Começámos com Carpaccio de Atum Fresco Albardado com Coentros Regado com Vinagrete de Pimentos, o qual suscitou genuíno entusiasmo. Seguiu-se Peito de Pato Lacado com Mel Sobre Batata Gratinada com Queijo da Ilha, provocando polémica precisamente por causa do Queijo da Ilha. A paz aterrou sob a forma de Pastéis de Toucinho do Convento da Esperança. E foi por me ter recordado da conversa sobre o Queijo da Ilha com sabor a pato, e ainda com meio pastel na boca e perdigotos kamikaze prontos para levantar voo na direcção do pulôver amarelo do anfitrião, que me virei para ele e disse Olha lá, ó Cavaco, mas para que é que os jovens se hão-de interessar por política e por História de Portugal, e o camandro que para lá disseste na Assembleia, quando o seu Presidente vai à Madeira, leva bailinho dum merdas que só diz merda, e volta com o rabo entre as pernas? Ficou tudo a olhar para mim, atónitos, porque se davam conta de ter eu comido o último pastel. E foi então que Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, aparentemente imune à crise dos postres, me perguntou com oportuno sentido do meu estado, Cafezinho?
«Fia-te na Virgem e não corras, vais ver o tombo que levas…»
Esta tempestade num copo de água que por aqui passou no «aspirinab» a propósito dos «posts» sobre a dedicatória rasurada pelo Nobel 98 e o poema «Rosa Luz» leva-me a lembrar duas ou três coisas essenciais nesta matéria. É preciso olhar com distanciação para estas coisas e saber separar bem o percurso das margens. Alguns não perceberam nada e como não estão a par do assunto mas gostam de te opinião, tentaram ver na crítica ao gesto da rasura dos nomes do «Levantado do chão» uma guerra pessoal. Não preciso de dizer que a pessoa em causa não me interessa absolutamente nada. No poema «Rosa Luz» tentaram arranjar um problema sem perceber que eu nunca iria alterar um poema meu por causa da métrica ou das sílabas. Basta pensar que os professores universitários Clara Rocha, Silvina Rodrigues Lopes e António Cândido Franco não perderam nenhum tempo com isso quando discutiram a tese de mestrado sobre a minha obra. Falaram apenas de coisas substanciais e importantes que integram a tese de mestrado do escritor Ruy Ventura. Daniel de Sá apenas propôs uma nova redacção para uns versos, nada mais. Não é um drama. Eu naturalmente não a segui porque se a seguisse o poema já era outro. O azar foi ter havido entradas à margem das leis, como se diz no futebol. Mas ele já estava farto depois de incidentes anteriores. Aprendi com o Agostinho da Silva que as críticas ou os louvores são apenas opiniões; quem tem um caminho segue o seu caminho. A malta aqui no Bairro Alto diz de outra maneira: «Fia-te na Virgem e não corras, vais ver o tombo que levas…»



