Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

De maus a péssimos

Visto no Twitter:

Afinal morreram 64 pessoas e não 64 como diziam.

Quanto ao facto de alguns jornais e sites, como o Observador, publicarem as fotografias dos falecidos, parece-me, no mínimo, mau gosto e desrespeito, mas pode chegar à morbidez e à pulhice. Para quem não conhecia aquelas pessoas, é um apelo ao voyeurismo, que, de facto, de nada serve; para quem as conhecia, bem, nem sei que diga.

Chega de badalhoquice!

Dá simplesmente vómitos a badalhoqueira que o PSD anda a propagar em relação com o número de vítimas dos incêndios. Não me recordo de ter jamais presenciado, em Portugal ou fora dele, politiqueirice tão porca, tão baixa, tão nauseabunda.

Primeiro foi a macabra invenção dos suicídios, aproveitada para declarações incendiárias por esse miserável Passos Coelho. Agora é uma asquerosa “empresária da região”, certamente com motivações políticas, se não com cartão laranja, a inventar uma lista de mortos com nomes repetidos. E, novamente, Passos Coelho, Hugo Soares e outros badalhocos vieram repetir a ignomínia e tentar lançar a confusão com a exigência de o governo revelar a suposta “lista completa” das vítimas. Na esteira da centelha lançada pelo título principal do Expresso de sábado passado, os noticiários das 20h de hoje, em todos os canais, dedicaram a essas invenções e mentiras cerca de vinte minutos a meia hora. Isto apesar de todos os presidentes de câmara da região terem vindo pessoalmente desmentir as aldrabices patrocinadas pela direcção do PSD. A única coisa de que as televisões se esqueceram foi de entrevistar a “empresária da região” ou, pelo menos, revelar o nome dessa responsável pela hedionda aldrabice, que, pelos vistos, deve andar na clandestinidade.*

Esta corja toda, desde a “empresária” até ao Passos Coelho, anda a brincar com o fogo, porque ao politizarem desta maneira abjecta uma tragédia, estão na prática a incentivar terrorismo incendiário, certamente com o fim de criar as por eles tão apetecidas “más notícias”.  A necessidade de responsabilizar os disseminadores de mentiras incendiárias foi hoje defendida pelo presidente da câmara de Pedrógão. Quando é que esses malfeitores todos vão ser responsabilizados pelo que andam a fazer? A PJ, o MP, o PR não intervêm?

A que novos patamares de baixeza moral descerá o PSD de Passos Coelho, Montenegro, Hugo Soares, Rangel & Cia?

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* Não pude ver tudo o que estava a dar em seis canais ao mesmo tempo. Sobre este assunto, ver aqui os comentários.

Pacheco e a ciganice

Pacheco Pereira escreveu um artigo didáctico onde despacha o populismo de Trump e a questão cigana de uma forma não só razoável, não só convincente, mas também interpelante – Trump e os ciganos. A eficácia argumentativa vem da exposição do inegável. É inegável que os ciganos – tomados como etnia – ainda não aceitaram incluir na sua antropologia, ou que fosse só na sua axiologia, essa maravilha civilizacional chamada Estado de direito democrático. O Pacheco compraz-se em registar que tal fenómeno gera silêncios à esquerda e na militância a favor das minorias que são fácticas cumplicidades com as vítimas ciganas e não ciganas daí resultantes, igualmente contribuindo para o aproveitamento populista do Ventura. O texto está destinado a ser aplaudido como consensual.

Porém, como em tudo o que nasce desta impante figura, o viés ganha à lucidez. O seu alvo são os “nossos mais vocais grupos feministas e anti-racistas e muita gente à esquerda que abraça causas de género” com que encerra o exercício. É a partir deste epílogo que começa o nosso pensamento. Duas são as perguntas a fazer:

– A esquerdalhada que abafa a questão cigana faz mal em ocupar o seu tempo com as carências doutras minorias?
– A esquerdalhada que abafa a questão cigana é responsável pelo abafamento geral da questão cigana?

Para responder com honestidade intelectual à primeira pergunta, há que estar munido de um diagnóstico acerca do problema. Serão as questões tratadas pelos “grupos feministas e anti-racistas” da mesma ordem, complexidade e viabilidade legislativa do que aquelas inerentes à questão cigana? O Pacheco simula ser esse o caso, pois só dessa forma pode deixar o seu ferrete persecutório. Mas é mentira. Enquanto se pode facilmente legislar contra as descriminações de género e raciais, e essa legislação passar a ter aplicação universal sem dificuldade de maior, já não se pode legislar contra a identidade cultural de um grupo. Não se pode por limitações também culturais da entidade legisladora, a nossa comunidade política, e não se pode porque a problemática não se resolve pela produção de mais ou melhores leis. São os próprios envolvidos em práticas que rejeitamos que começam por se considerar politicamente separados, indiferentes ao que o Estado decida a seu respeito.

E este contexto leva-nos para a segunda pergunta. Curiosamente, o mesmo Pacheco tropeça na boa resposta quando regista que “alguns professores, alguns militantes católicos e um infelizmente muito pequeno grupo de ciganos” enfrentam heroicamente a adversidade na defesa dos direitos individuais das raparigas ciganas. Ora, neste passo o autor trava a sua análise e salta para a sacanice de apontar o dedo a quem luta social e politicamente para acabar com injustiças, as mais variadas. Mas podia ter optado por questionar antes a indústria onde vai buscar aquilo com que se compram os melões. Por que razão a nossa comunicação social não trata como “heróis” esses que o Pacheco descreve serem heróicos na tentativa de mudarem mentalidades na comunidade cigana? Não está aqui a chave social e política da questão, o silêncio na imprensa e o papel que pode e deve assumir? Por que razão o marmeleiro prefere atacar pessoas que corajosa e altruisticamente têm defendido diversos grupos minoritários prejudicados pelas maiorias em vez de atacar os partidos e sua inércia na questão? Aliás, por que razão o Pacheco não assume pessoalmente o combate e se vai juntar aos heróis que lhe serviram para compor a prosa?

Para que o veneno lançado pelo texto lhe caia em cima, basta soprarmos suavemente na sua direcção.

Revolution through evolution

Screening Those at Risk of Psychosis May Help Prevent Violence, Reduce Stigma
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When sizing up potential friends and mates, the eyes of men and women move differently
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Devotion to National, Religious Symbol Alleviates Stress of Immigration
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Messages with Moral-Emotional Words Are More Likely to Go Viral on Social Media
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Can Journalists Help Readers Navigate the Changing Media Landscape?
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Generous people live happier lives
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Case Grows for Link Between Happiness and Health
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Pensamento marado

Embora não apareça referido, é muito provável que António Guerreiro estivesse inspirado irritado pelo circense Quintino Aires quando escreveu Os psi, modelo de luxo. Para o que me interessa, só tenho a agradecer-lhe ter deixado no espaço público uma denúncia que apenas peca por vir com muitos anos de atraso. É que a coisa existe desde 2009, pelo menos: Pensamento Cruzado

Não sei em que ano deixei de os ouvir, mas sei que foi pela mesma falta de vocação para ser vazadouro de confusa sermonária vendida como “psicologia” que o texto do Guerreiro ilustra expondo a granel a inanidade da parelha. O que leva a TSF do Fernando Alves a ter este programa, agravado pela tonteira de durar só três minutos e ter dois oradores que querem muito dar lições de vida ao povinho, é um mistério. Adorava conhecer os números das audiências e algum estudo qualitativo, em nada me importando se viesse a descobrir que estamos perante um sucesso pois tudo é possível no gosto dos outros. Mas aposto os 10 euros que tenho no bolso em como o programa não consegue ter mais do que dois ouvintes fiéis, os próprios que vão para lá falar de tudo menos de psicologia e psiquiatria.

É desconcertante, até triste, porque a TSF, ou outro canal qualquer de prestígio, poderia ter um papel decisivo na educação para a saúde mental e no combate ao estigma da doença mental. Há tanto na área da psicologia e psiquiatria que pode ser divulgado com imediato impacto nos problemas de milhões de pessoas que este desperdício de espaço mediático aparece quase como um escândalo. Azar o nosso.

Isto agora é o da Joana

Felizmente, foi fazendo o seu caminho em Portugal uma cultura de intransigência social face à corrupção, que está atenta e não aceita a promiscuidade na política e as relações ambíguas entre ocupantes de cargos públicos e agentes económicos. Uma nova cultura de intransigência que, felizmente, tem eco no Ministério Público desde que Joana Marques Vidal está à frente da Procuradoria-Geral da República, dando um imenso contributo para a dignificação da Justiça, das instituições e da sociedade. Felizmente, o Ministério Público passou a estar atento ao comportamento dos políticos.

[…]

A actual remodelação de secretários de Estado tem assim um lado simbólico. Esperemos não seja só isso e, daqui para a frente, surja uma cultura de exigência ética quanto ao comportamento dos ocupantes de cargos políticos. Isso seria mais do que o início de novo ciclo do Governo concreto de Costa. Seria um novo ciclo na actuação política e, por consequência, na governação do país.


A diferença de Joana Marques Vidal

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São José Almeida, jornalista com importante produção no campo do activismo homossexual, situa-se politicamente entre o BE e o PCP (ou coisa parecida, ou para lá do PCP, ou nada disto, sei lá eu). Na sua opinião publicada não se encontram rasgos proféticos, nem iluminações súbitas, a respeito do devir político nacional. Bem pelo contrário, a previsibilidade e banal sectarismo dos seus raciocínios rivaliza com a pontualidade de Kant nos seus passeios diários de outrora em Königsberg. O mundo apresenta-se bem arrumadinho e pronto a entender na sua cabeça. Há bons e maus. Os bons são quem ela decide que são, os maus os restantes. Por exemplo, os políticos são maus. Pelo menos, todos aqueles que a São José não considerar bons, o que resulta numa enormíssima maioria. São maus porque são corruptos, e são corruptos porque não são bons. É simples de explicar e ninguém contesta sob pena de ser acusado de cumplicidade com a corrupção dos políticos. Num outro e congénere exemplo, o PS também é mau. E, dentro desse mal encardido e venenoso, o pior vem de Sócrates e de quem esteve ao seu lado. Ora, Sócrates teve o partido todo a seu lado durante anos, e parte dos seus mais próximos continuam politicamente relevantes, e até próximos de Costa. Resultado, esta senhora não perde uma ocasião para denunciar a profunda corrupção que grassa entre os socialistas.

Dentro deste quadro maniqueísta, o populismo e o moralismo fazem lei. Não espanta, então, encontrar uma arrebatada, lunática e pacóvia glorificação de Joana Marques Vidal com a sua assinatura. O texto que cito é típico nisso de ser completamente falho de fundamentação. Como avaliar a seguinte frase “Felizmente, foi fazendo o seu caminho em Portugal uma cultura de intransigência social face à corrupção, que está atenta e não aceita a promiscuidade na política e as relações ambíguas entre ocupantes de cargos públicos e agentes económicos.“? De que “caminho” está a falar? Quais são as manifestações da suposta “intransigência social face à corrupção“? Como definir o que sejam “relações ambíguas entre ocupantes de cargos públicos e agentes económicos“? Nada explicitando, sequer pela rama, não podemos saber do que está a falar. E, portanto, o discurso fica blindado contra a crítica pois se furta à mera análise da sua veracidade e sentido. Qual o seu valor? Nada mais, nem menos, do que ao passar na rua ouvir-se um “Viva a Joana!” caído de uma janela.

Seria fascinante ler ou ouvir esta jornalista a discorrer sobre um tema que lhe é tão querido mas agora estando obrigada (voluntariamente) à objectividade. Que sabe ela da corrupção em Portugal com base nas informações disponíveis nos diferentes organismos do Estado, nas universidades e em organizações relacionadas com o fenómeno? Que tipo de dados e qual o seu tratamento que conseguiria organizar e divulgar? E, indo directamente para o âmago da sua paixão messiânica, como é que a incensada “cultura de intransigência” deste Ministério Público desinfectado da porcaria dos socialistas se saiu no caso dos submarinos e de Dias Loureiro, por exemplo? É que, se correu tudo bem, o seu entusiasmo com a prisão de Sócrates e a demissão destes secretários de Estado será assim um bocadinho a modos que prematuro. Ou suspeito. Onde não há suspeição, e podíamos espremer todos os seus textos, é na convicção de que os seus conhecimentos factuais a respeito da corrupção não diferem dos que são partilhados gratuitamente pelos taxistas.

A ideia de que a eventual corrupção que aflige a Nação diz respeito a viagens e hotéis para isto e aquilo, e que podemos ficar tranquilos desde que esses malandros passem a pagar do seu bolso esses luxos caso os queiram usufruir fora do horário de trabalho, não é apenas estupidamente estúpida. É algo muito pior, é o culto de uma hipocrisia de Estado que conhecemos dos totalitarismos e ditaduras. São José Almeida gostava de ver os políticos acorrentados nos seus gabinetes e a trabalharem sob as ordens de um capataz de chicote, porque não confia em quase nenhum dado conhecê-los tão bem na sua natureza maligna. No final do dia, receberiam uma malga de água e um pedacito de pão. Tudo em nome da “exigência ética” que vai pôr os “comportamentos dos políticos” na ordem. Ou na prisa.

Porquê? Porque ele adora

Passos testa em Loures as hipóteses de um Geert Wilders português.

Em 2011, Passos apresentou-se a eleições com um discurso por muitos considerado novo e fresco: ia acabar com a preguiça, com a dependência do Estado, com a intromissão do Estado na Economia, com as gorduras do Estado, com a ditadura do ensino público e da saúde pública e demais “frescuras” que, a par com mentiras descaradas como a não necessidade de cortar salários nem pensões face a um pedido de resgate por ele desejado, apesar da situação financeira nacional bem conhecida, convenceu demasiados incautos a votarem nele. Acresceu a esta estratégia o desgaste do adversário através da campanha ad hominem mais agressiva de que há memória, aqui com a ajuda dos amigos do CDS e da Justiça. Pois bem, ganhou. Manteve depois, no governo, a linguagem acusatória da preguiça (esquecendo e fazendo demasiada gente esquecer que ele próprio é um exemplo de chupismo que o deveria manter tímido, no mínimo, no desafio aos portugueses para que se desenvencilhassem, trabalhando mais, de preferência indo embora). Enfim. Quanto ao Estado na economia, viram-se e veem-se cada vez mais os extraordinários benefícios para os clientes das vendas que fez das maiores empresas e o parco contributo dessas vendas para a resolução dos problemas financeiros do país. As gorduras foram afinal um colossal aumento de impostos. Além disso, por alegadamente não querer saber dos bancos (sendo ele o Estado), nem dos privados nem do público, passou várias pesadas facturas aos portugueses cujo interesse dizia defender.

Foi corrido por intermédio de uma coligação adversa, aliás nunca por cá vista, que só mesmo um grande descalabro governativo como o amargamente constatado conseguiria pôr de pé e manter.

Mas continua por aí, o Passos.

Acusado, e bem, de ser, uns dias, zombie, outros dias uma triste Cassandra agoirenta ou um decadente profeta da desgraça, descobriu na recente tragédia dos incêndios e na vetustez comprovada das instalações militares (que pelos vistos desconhecia) uma poção energética milagrosa e bebeu-a, andando desde então a falar mais do que seria sempre aconselhável, pois não é raro estender-se ao comprido com frases incompreensíveis, grotescas, popularucho-atamancadas ou simplesmente mentirosas e falhadas. E a coisa andava assim. Pseudo-aguerrida a direita, mas triste como sempre.

Mas eis que entra em cena André Ventura, o candidato à Câmara de Loures. André Ventura representa a nova frescura por que Passos desesperava. É a sua fuga para a frente. Onde Cristas viu um potencial criador de ódios e problemas com vantagens políticas duvidosas, retirando-se, Passos viu um provocador corajoso, populista até mais não, mas que, falando melhor do que ele (parece que tem mais estudos), é talvez capaz de lhe abrir um caminho de oportunidade. O raciocínio deve ser o seguinte: Ventura começa pelos ciganos (tema que não interessa assim tanto, pois são poucos e há sempre uma maneira airosa de o artista recuar um pouco), faz-se notado, Passos adora, dá-lhe o seu total apoio (no fundo, é o seu ídolo, o seu balão de oxigénio) e rapidamente ali está um aliado para ressuscitar o discurso dos preguiçosos, o único que conhece, mas que lamentavelmente nunca dirige a si mesmo. Muito em breve lá virão todos os subsídio-dependentes, os funcionários públicos e etc. Ventura é bem capaz de dizer o que nem o Passos ousa. Aliás, já começou: acusou António Costa de se imiscuir na campanha de um candidato autárquico, quando na realidade Costa o que fez foi acusar Passos Coelho de apoiar candidatos racistas. Impante com o sucesso junto das hordas passistas, Ventura aconselhou Costa a ir-se embora. Como é possível Passos não o adorar? Como seria possível retirar-lhe o apoio? Ventura é o seu alter-ego mais refinado e ousado.

O holandês lá acima referido não se deu particularmente bem nas últimas eleições com o seu discurso xenófobo e de incitamento ao ódio, o que é de assinalar tendo em conta o peso da imigração muçulmana nos Países Baixos. Por cá, exceptuando os ciganos, há as pessoas de origem africana, que ninguém ousará, penso eu, ofender. Não vejo, pois, que desenvolvimentos ou alvos poderá vir a ter este tipo de discurso. Mas, a nível nacional, Passos, para cujo peditório já demos, pode aproveitar o Ventura para criar uma extrema-direita toda fresca e acompanhar assim os tempos. É a única saída que lhe resta. Uma fuga em frente para fora do PSD. Ou será que o PSD acha tudo isto muito fresco e também adora?

Vergonha, modos de usar

O desfecho da comissão parlamentar de inquérito à CGD gerou um episódio que começa por ser inacreditável, e que acabará por ser carimbado como burlesco ou trágico. Inacreditável porque não se acredita que o PS fosse para a votação do relatório – ainda por cima, e antes de tudo, dadas as questões em causa e sua notoriedade – sem saber onde estavam os deputados envolvidos, suplente incluído. Burlesco se a causa tiver sido a incompetência do grupo parlamentar. Trágico se tivermos assistido a uma encenação dos socialistas para obterem exactamente este resultado, o chumbo do relatório. Para clarificar esta última hipótese teremos de esperar pela conclusão das investigações judiciais à Caixa, algo que pode demorar meses ou anos. Neste contexto, a notícia da saída de Alberto Martins do Parlamento pode ser um sinal de que algo profundamente errado aconteceu nesta história ou tratar-se somente de uma coincidência.

Factualmente, quais as informações novas geradas pela iniciativa parlamentar que colocou sob juramento os principais responsáveis pelo banco nos períodos investigados? Para o leitor e espectador interessado nos assuntos políticos, a resposta é nada, zero, nicles. PSD e CDS foram para a comissão cheios de suspeitas e essas suspeitas continuam intactas, na sua retórica, ou esvaziaram-se, de acordo com as declarações dos inquiridos. Resta a esperança de os colossais crimes estarem guardadinhos na papelada do banco à espera do olhar aquilino de um Ministério Público onde acabou a impunidade graças ao heroísmo e santidade de Joana d’Arc Vidal. Ou seja, se nos cingirmos às posições e declarações dos partidos, o inquérito serviu para reforçar a ideia de que a direita explora hipocritamente uma situação onde não tem qualquer prova para apresentar, limitando-se a mandar atoardas por ser essa a sua cultura política, um estado de decadência onde a calúnia aparece como a principal arma de arremesso.

Esta seria uma situação onde a imprensa poderia vir em nosso auxílio. Do que se trata é de tentar saber o seguinte:

– PS, PCP e BE encobriram ou adulteraram algum dado, ou dados, nos trabalhos da comissão?
– Alguma informação substantiva que indicie ilegalidades ficou registada nas declarações dos inquiridos? Se sim, qual ou quais? Se sim, em quê e porquê?
– A versão do PSD e CDS – a qual implica que não só Sócrates como também Teixeira dos Santos (na prática, todo um Executivo, ou dois) e vários dirigentes máximos da CGD cometeram inauditos e homéricos crimes de corrupção – merece algum crédito, sequer módico respeito?

Portugal é pequenino e a nossa imprensa é minúscula. Um dos primeiros a opinar foi o David Dinis – A honra do convento – e o que escreve deixa-nos um retrato de anomia, uma visão onde o jornalismo não passa de uma câmara baixíssima que serve apenas para destilar maus fígados. Se lermos o seu texto 10 vezes não conseguiremos extrair qualquer dado objectivo sobre o que realmente esteve e está em causa, seja na comissão de inquérito ou no seu acto final. Pelo contrário, o autor prolonga o discurso da direita, largado suspeições que não fundamenta para poder colocar todo o entusiasmo teclado na difamação. A frase “Salvou-se a comissão de uma vergonha” não quer dizer absolutamente nada para além do seu desejo de insinuar que estamos perante uma farsa gigantesca. Uma farsa que ele topa muito bem, claro, apenas não se dando o caso de ter tempo para nos explicar em que consiste e por que sortilégio ainda se mantém apesar deste bacano estar por dentro da cena e ter um jornal e não sei quantos canais de TV e rádio à disposição para expor a “vergonha”.

É que acabar com as vergonhas políticas que este tipo de jornalistas vão coleccionado pode não dar jeito nenhum, né? Se acabassem, falavam do quê?

Serviço público

Num bairro que se habituou a ter medo da polícia, a ouvir "para dentro, caralho", a revistas sem motivo, a portas partidas, a balas perdidas, a ser tratado por tu, a não protestar "porque é pior" e a não fazer queixa "porque não serve de nada", a acusação do MP à esquadra de Alfragide é como uma esmola demasiado boa: o pobre quer acreditar mas desconfia. É muito tempo sem justiça nem lei, de "preto vai para a tua terra", de "cala-te se não queres levar". A sede de uma espera só se estanca na torrente. Virá ela?


“Os polícias eram deuses, agora são como nós”

Há demasiados jornalistas a precisarem de ir de férias

Hoje o Público lança-se numa campanha de ataque à Câmara Municipal de Lisboa, insinuando que praticamente toda a obra feita, aprovada ou a concurso está sob investigação judicial. O PSD está, como é óbvio, por trás desta campanha. Está a tornar-se um padrão de actuação: sem argumentos, candidatos ou propostas melhores que os dos seus adversários, lançam uma nuvem de suspeição, que pode dar no que der, tipicamente em nada, mas o que interessa mesmo é deixar pairar a dúvida. O jornalista (na realidade, dois, pois assina também uma jornalista) do referido jornal faz então o trabalho de divulgação em forma de notícia. Notícia mal apresentada, diga-se, porque nem sequer ouve as partes acusadas, nomeadamente a Associação de Turismo de Lisboa. Não querendo ir de férias, estes jornalistas escrevem sem tino. Irão ser acusados de fretes e de mau jornalismo. Eu já comecei.

No DN, vários jornalistas-comentadores continuam decididamente a ver uma realidade totalmente diferente da esmagadora maioria da população. Lendo alguns deles, parece que o Governo anda a atear os incêndios. Sobre o SIRESP, jamais uma palavra sobre o que o governo anterior devia ter feito e não fez para corrigir as falhas identificadas durante o seu mandato e o que já foi feito entretanto . É dito alto e bom som, nas televisões, por quem anda hoje no terreno a acompanhar ou a combater os incêndios, que as recentes interrupções do SIRESP foram de imediato compensadas por sistemas de comunicações alternativos, não tendo havido qualquer problema de falhas, muito menos de falhas que agravassem a situação em Alijó ou Mangualde, mas estas criaturas continuam a falar na vergonha das falhas e mais não sei o quê que o Abreu Amorim, o tanque de combate e insídia do PSD, anda por aí a dizer. Também no mesmo jornal, João Pedro Henriques, para não perder a onda, e a propósito dos ciganos caluniosamente acusados por um troglodita qualquer que concorre a Loures pela coligação PSD/CDS, disserta sobre racismo  e acha que é racismo os trabalhadores de origem africana terem ido viver para uma zona recuada de Cascais onde tem, ao longo dos anos, havido necessidade de mão de obra para a construção civil.

Isto sem evidentemente cuidarem de saber que aquela gente toda tinha ido viver para Cascais não por causa dos gelados Santini mas porque a construção civil dava emprego a toda a mão-de-obra barata (negra, portanto) que pudesse agarrar. O racismo era isto: os brancos, upstairs, no litoral; os negros, downstairs, no interior.

Racismo, isto, porquê? Anda por aí um conceito de racismo muito bizarro. O facto de as pessoas com interesses, locais de trabalho e possivelmente hábitos comuns se agregarem em determinados sítios não configura racismo por parte de quem lhes dá emprego. O racismo infelizmente existe, mas é melhor não dizer patacoadas e procurar noutro lado, noutras atitudes, noutros contextos, para não dar a ideia de que se fala nele só porque virou agenda.

Revolution through evolution

Study Finds ‘Sexism’ in Sexual Assault Research, but This Time Men Are the Target
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Cannibalism: A new way to stop the spread of disease
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Cognitive behavioral therapy improves functioning for people with chronic pain, study shows
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Handshaking viewed more positively by Westerners than by East Asians
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Banks hired risk officers to mitigate risk in years before collapse. It didn’t go so well
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A Purpose in Life by Day Results in Better Sleep at Night
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Study Reveals the Hidden Ways Math Helps Us in Everyday Life
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Ladies and gentlemen

O metro de Londres acabou nos seus altifalantes com a saudação “ladies and gentlemen”, por esta ter sido considerada “fora de moda” e sentida como “ofensiva” por utentes que não se consideram nem ladies nem gentlemen. Trata-se, aparentemente, de lesbians, gays, bisexuals e transgenders.

É mais um avanço da luta pela igualdade ou neutralidade de género, causa que vai progredindo irresistivelmente através de uma multidão de “pequenos passos”, até à vitória final.

Não sei onde estaremos quando chegarmos à vitória final, mas imagino que, do ponto de vista linguístico, será assim:

– Os pronomes pessoais de dois géneros, nas línguas em que os houver, serão substituídos por um pronome pessoal neutral, como já está a ser experimentado por militantes sueco(a)s na(o) Suécia(o). Em português, por exemplo, ele e ela poderão ceder o lugar ao neutral eli. Criar-se-á assim uma saudável incerteza acerca de quem falamos. Por exemplo, quando dissermos “Eli deu à luz”, ninguém saberá se estamos a falar de uma parturiente ou de um electricista barbudo, se ainda não tiver sido proibido o uso de barba.

– Os artigos definidos e indefinidos dos dois géneros (em português o, a, um e uma) serão implacavelmente eliminados. Há línguas que não têm artigos definidos e os seus falantes, como é bem sabido, são muito mais felizes. Os artigos indefinidos, quando muito, poderão ser substituídos por pequenos grunhidos neutrais, tipo oink, hein, uh, ahn, etc.

– Os pronomes possessivos serão neutralizados. Em português, meu/minha darão lugar a, simplesmente, me.

– Os substantivos com género, onde os houver, serão impiedosamente neutralizados. Os que têm o mesmo radical e apenas diferem pela vogal final, como menino/menina, senhor/senhora, etc. poderão ser substituídos por excelentes neutrais como menine, senhori, etc. No caso de terráqueo/terráquea, a óbvia solução seria terráque, mas é melhor procurar outra coisa, para não se confundir com traque quando pronunciado com dois rr.

– Os outros substantivos, como cão/cadela, cavalo/égua, pai/mãe, etc. oferecem porventura maior dificuldade. Em princípio, os mais neutrais canídeo, equídeo e progenitor seriam bons. O problema é que, em português, essas palavras ainda são do género masculino. Por isso talvez fosse melhor optar por canide, equide e progenite.

– Assim, quando se quiser dizer: “Vou andar a cavalo com o meu pai enquanto a minha mãe passeia o cão”, passaria a dizer-se: “Vou andar a equide com me progenite enquanto me progenite passeia canide”. É simplesmente linde e bué neutral!

– Há ainda palavras de género neutral, como isso, mas que parecem masculinas, pelo que isso passará a isse.

Vamos a isse?

Suspeito, não sabe do quê, até prova em contrário

Em mais um 14 de Julho, aniversário da Revolução Francesa, vem a propósito recordar o que se passou há 11 dias com Manuel Pinho. Segundo o seu advogado, Pinho foi constituído arguido no caso das rendas da EDP sem ter sido ouvido e, principalmente, sem ter conhecimento do que estava na origem da acção judicial sobre a sua pessoa. No dia seguinte, a PGR enviou para a Lusa uma declaração onde se lia que “no momento da constituição, o arguido foi informado dos factos que lhe são imputados”. Mais um dia passado e Ricardo Sá Fernandes apareceu a desmentir a PGR e a anunciar uma queixa à Ordem dos Advogados para refutar o que considerou como falsidade. De lá para cá, no meu radar, nada mais aflorou a respeito. Não sabemos quem mente, mas sabemos que alguém mente.

Será este episódio algo sem importância cívica, política ou social? Não, impossível. O silêncio que o encobre revela uma sociedade que já transitou em julgado a culpa de um grupo de cidadãos. Nesse grupo está Manuel Pinho, figura que é fácil de ridicularizar e ofender. Saber que foi constituído arguido sem saber porquê, sem se poder defender e, como também apareceu publicado, apenas para evitar a prescrição de um inquérito, não causa escândalo, sequer solidariedade ou mínima preocupação. Na prática, testemunhamos um ostracismo generalizado que foi e é desejado por este Ministério Público de Joana Marques Vidal. Acham, e com toda a razão, que é meio caminho andado para prolongarem um exercício de poder que, a confirmar-se a versão de Sá Fernandes, corresponde a uma prática despótica. Saber como chegámos a este estado não é operação cognitivamente exigente, pois existe uma campanha intensa para linchar publicamente todos os alvos que possam contribuir para a exploração caluniosa de Sócrates com objectivos comerciais e/ou políticos. Pinho alia a ligação a Sócrates à ligação ao BES, transportando uma nuvem de culpabilidade que não passará nunca, nem mesmo que saia ilibado dos imbróglios legais onde está metido. Ainda por cima é rico, logo, fogueira com ele.

228 anos passaram desde a Tomada da Bastilha. Incontáveis e radicalmente decisivas as alterações políticas e sociais resultantes desse evento na França, na Europa, no Ocidente. Qual a relação desse pilar da História Moderna e Contemporânea com esta nanohistória de um fulano mal-afamado que foi constituído arguido no meio de um bate-boca sobre questões formais a que ninguém liga, muito menos tratando-se da rês em questão? A relação é a que cada um quiser – e puder – estabelecer. Na verdade, podemos recuar mais anos, mais séculos, até milénios, e continuar a estabelecer nexos fundamentais. Trata-se de reconhecer o papel do conhecimento histórico na formação da consciência política, primeiro, e na formação da actividade cívica, depois. Quem não souber explicar a si próprio o que aconteceu na Revolução Francesa igualmente não conseguirá sequer perceber qual seja a importância de vivermos num Estado de direito democrático. Porque não irá entender o que seja uma democracia, uma constituição, um direito. Nesse caso, qual será a origem das suas convicções ou opções políticas? Quais os mecanismos através dos quais toma decisões eleitorais? Como se gera na sua consciência os gostos e aversões pelas figuras públicas ligadas ao poder político, económico e social? Não é um acaso que, neste País vítima de décadas de analfabetismo e iliteracia, décadas de ignorância intelectual e atrofio cívico, o Correio da Manhã seja o grande educador do povo.

Como escreve Sócrates – Arguido por prevenção – o Código Penal não contempla a figura de arguido por fezada e arbítrio de algum procurador que esteja para aí virado. Porém, talvez o devesse fazer. Talvez o melhor seja regularizarmos a situação. Pormos em letra de lei que se pode constituir arguido qualquer cidadão sem carência de factos que o sustentem, sem que seja ouvido pelas autoridades judiciais, e ficando a partir daí ao dispor do Ministério Público e do seu aparelho mediático para o que lhes apetecer. É que coisas destas já aconteceram, eram a norma no tal passado registado na História. Os poderosos de então não conheciam outra forma de exercer o poder que não passasse pela lei do mais forte. Foi preciso que muita e muita gente verdadeiramente heróica morresse, ou perdesse tudo de seu e ficasse na miséria ou encarcerada, antes de se conseguir criar neste planeta uma outra forma de convivência onde a liberdade, a igualdade e a fraternidade substituíssem a tirania, o privilégio e a opressão.

Nesta terra de liberais de pacotilha, temos de perguntar aos valentões que apanham corruptos pelo cheiro, não precisando que qualquer investigação se conclua nem de conhecer a defesa dos envolvidos, se estão de acordo com a tal mudança do Código Penal – se isto de tratar cidadãos como suspeitos não sabem do quê até prova em contrário é só para ser usado contra alguns tipos que eles não gramam ou se também querem ver a sua família, amigos e colegas de carreira sujeitos ao mesmo remédio. Conseguir levá-los a responder a esta questão seria verdadeiramente revolucionário.

A CGD e a telepatia

O PSD, e muito bem, pretende que o Parlamento investigue até à última gota a CGD. Perante um inquérito parlamentar que não encontrou provas de pressões políticas sobre a Caixa, tendo os principais dirigentes do banco declarado sob juramento que sempre agiram sem condicionalismos dos diferentes Governos, os sociais-democratas estão em combate para que não se aprove as suas conclusões. Na berlinda está o levantamento do sigilo bancário da CGD, do Banco de Portugal e do Ministério das Finanças. A suspeita que justifica o interesse é da maior importância para a direita partidária e mediática, dizendo respeito a certos empréstimos, a certas pessoas, para certos negócios. É uma suspeita que tem sido explorada a outrance vai para 10 anos, coincidindo com a implosão do BCP por exclusiva responsabilidade de Jardim Gonçalves e do seu delfim, Paulo Teixeira Pinto. Ambos criaram uma situação de ruptura que abriu uma crise institucional no banco. Nesse contexto, diferentes accionistas aliaram-se para encontrar uma nova solução de gestão, e é neste âmbito que nasce a teoria da conspiração predilecta da oligarquia: Sócrates deu ordens à CGD para emprestar dinheiro àqueles que depois iriam conseguir controlar o BCP e meter Santos Ferreira e Vara no comando das operações. A teoria implica ainda que Sócrates dominava o BES e seu DDT. Ou então que era dominado pelo Ricardo, pois a teoria dá para os dois lados com igual eficácia argumentativa posto que nada tem de ser provado, sendo usada nas duas versões consoante as ocasiões e a direcção do vento. Mas o interesse da direita e seu império mediático não se esgota no BCP, pois qualquer empréstimo que possa ser associado, seja de que forma for, a Sócrates é alvo da suspeição máxima, quando não de certezas prévias às eventuais investigações. Existem milhares de declarações de políticos, directores de imprensa, jornalistas e comentadores em “órgãos de referência” a propagar estas ideias num qualquer grau ou modalidade. Se o PSD tiver razão, se os tais documentos em falta forem disponibilizados aos deputados e revelarem o esquema dos bandidos, ficaremos penhorados aos bravos da Lapa porque algo historicamente importante para a Justiça, a política, a sociedade, e até para a cultura, em Portugal terá acontecido ao apanharmos criminosos desse calibre.

Curiosamente, o PSD não pretende que se investigue até à ultima gota o caso do apagão no Fisco de 10 mil milhões de euros transferidos para paraísos fiscais. O que está em causa são transferências ocorridas em 2012, 2013 e 2014, exclusivamente do BES e Montepio nos três anos consecutivos – e correspondendo no caso do BES ao volume de 7917 milhões de euros omissos na base de dados. Perante a auditoria da Inspeção-geral de Finanças que concluiu pela inexistência de responsabilidade humana nessas anomalias, os sociais-democratas de imediato reclamaram que o Governo devia um pedido de desculpas a Passos Coelho, ao Governo anterior e ao PSD. No entanto, não é preciso ser técnico das finanças ou de informática para suspeitar que tamanha coincidência talvez seja mais improvável do que ganhar o Euromilhões 3 vezes de seguida. É que o programa do Fisco envolvido só teve problemas no registo das transferências para offshores. E só em 2012, 2013 e 2014. E só para o BES e Montepio nos três anos consecutivos. E permitindo que o BES, na altura crítica em que pairava sobre os seus donos o descalabro total, pudesse mover para fora do País aquela quantidade de dinheiro ocultamente. Pode ser uma coincidência, claro e sei lá eu. Todavia, porque está o PSD cheio de pressa para arrumar o assunto apesar das evidências que suscitam a maior perplexidade? Ainda por cima, a ter existido mãozinha, ela abrirá um novo capítulo na história da criminalidade em Portugal graças à sofisticação da operação. Dir-se-ia que este material jornalístico seria capaz de deixar a imprensa nacional a salivar de apetite e com ganas de revolver os calhaus da estrada, mas, como não mete socialistas, reina o marasmo na produção de títulos e falatório.

O caso da CGD é fascinante para os apaixonados por política. Estamos a falar de um banco que teve e tem nos seus quadros dirigentes – portanto, ou seja, isto é, nas pessoas que conhecem perfeitamente bem o que se passou com os tais empréstimos, dispondo de toda a documentação a respeito para ler e reler caso sofram de insónias – dezenas de bacanos ligados ao PSD e ao CDS ao mais alto nível. Faria de Oliveira, presidente do Conselho de Administração e CEO de 2008 a 2011, foi uma figura grada do Cavaquistão. José de Matos, o presidente da CGD que se seguiu, foi escolhido pelo Governo do PSD-CDS. Paulo Macedo e Rui Vilar não carecem de apresentações nem de explicações sobre os seus percursos. E estas referências dizem apenas respeito ao pináculo da pirâmide, logo abaixo os níveis directivos estão repletos de imitações. Donde, não há nada que se possa descobrir nos tais documentos em falta que eles não tenham descoberto directa ou indirectamente. A comissão de inquérito parlamentar à CGD foi anunciada pelo PSD com pompa e excitação dada a promessa de se ir, finalmente, confirmar o faduncho que andavam a cantar nas esquinas. Lá chegados, só um indivíduo deixou no ar suspeições que não provou e que foram de imediato desmentidas pelos terceiros que referiu. Esse indivíduo dá pelo nome de Campos e Cunha e a sua obsessão com Sócrates e com o PS não passa de um caso de ódio até prova em contrário. Os restantes desmentiram, sob palavra de honra, o discurso calunioso da direita. Em suma, se a CDG foi um pardieiro do “bloco central”, como PCP e BE não se têm cansado de repetir ao longo de décadas, essa paridade tornava impossível a sua manipulação para a luta política por um dos lados em desfavor do outro. Pura e simplesmente, tal seria denunciado com todas as provas suficientes para interromper as manobras na hora. Ora, as suspeitas nunca passaram de munição caluniosa, apesar da facilidade em expor os eventuais actos legal ou politicamente ilícitos.

Entretanto, o Ministério Público de Joana Marques Vidal entrou numa guerra de vida ou de morte com Sócrates ao abrir o “Processo Marquês” e ao seguir por uma linha de violação de direitos e abuso de poder. O enredo que seguem é o da direita e corresponde, ao milímetro, a uma operação gigantesca de investigação aos Governos do PS de 2005 a 2011. Neste momento, temos investigações a correr sobre as PPP, os gastos com cartões de crédito desses governantes e sobre qualquer contrato com a assinatura de Sócrates que possa ser usado para alimentar suspeitas e acabar referenciado na eventual acusação a Sócrates. Até negócios de privados poderão ter utilidade desde que se estabeleçam esquemas de ligações entre protagonistas. E quais os grandes negócios, num país minúsculo, que não têm qualquer ligação entre terceiros com o poder político do tempo? Pois. Em jogo não estão apenas factos, outrossim percepções – dado que com percepções também se condena em tribunal ou, pelo menos, na opinião pública. E o fascínio da questão consiste em observar até onde é que a Justiça e a direita vão levar a farsa de ter existido um primeiro-ministro que dominou um banco público para cometer crimes de regime – e impossíveis de esconder, no acto mesmo de se realizarem – apenas recorrendo aos seus poderes telepáticos.

Deliciosa desgraça

Os mortos de Pedrógão e o aparente assalto em Tancos foram festejados exuberantemente pela actual direita partidária, pela indústria da calúnia e pela classe dos jornalistas vulgares. A uni-los a mesma satisfação na expressão descontrolada da agressividade e da violência verbal. Uma questão de adrenalina, mas também de dopamina e serotonina. A depressão causada pelas boas notícias para o País e para os portugueses foi substituída pela euforia resultante da catástrofe, da tragédia e do pânico. O caudal de acusações, centradas na abstracção do “Estado” e na indefinível “resposta” do actual Governo, permitiu reunir no mesmo festim os pulhas do costume, os fanáticos profissionais e, para surpresa dos incautos, certas vozes que tomamos como ponderadas e activas no acrescento de salubridade para o espaço público. Podemos usar como exemplo paradigmático este texto: Estado de desgraça

Anselmo Crespo recreia-se a colar com cuspo banalidade atrás de banalidade, caricatura atrás de caricatura, numa juliana de vacuidades que foi registando ao longo dos dias nas leituras dos colegas de comentariado. A retórica escolhida, muito provavelmente num automatismo insciente, é um misto de registo coitadinho a rasar o lamechas com o desvario hiperbólico do tabloidismo e da demagogia mais básica. Exemplos:

«E foi quando se começou a perceber que a demissão de um ministro, por si só, não resolvia os problemas, que se começou a aplicar a velha estratégia do "empurra com a barriga"."»

«Aquilo a que assistimos nas últimas semanas, quer no caso de Pedrógão quer no de Tancos, foi a dois ministros completamente desorientados, a cumprir ordens do primeiro-ministro, do Presidente da República e dos assessores de imprensa, sem a menor noção do que fazer.»

«No caso de Pedrógão Grande, continua o jogo do passa-culpas, tocam-se uns requiens com a presença do Presidente da República, mas continua-se sem dar resposta à pergunta mais importante: aquelas 64 pessoas tinham que morrer? Tinham, senhora ministra?»

É a cassete dos “malandros dos políticos”, bando de corruptos e incompetentes que muito aborrecem os santos e geniais jornalistas que têm de relatar as suas actividades e ainda opinar a respeito. Mas é mais. É também a exploração, aqui consciente, do ódio larvar nas audiências a quem estas peças se dirigem, não hesitando em apontar para uma governante e dizer que ela foi responsável pelas mortes do incêndio de Pedrógão. Como é que o valente Anselmo consegue estabelecer esse nexo? É o próprio que o explica ao abrir as cortesias:

«A tragédia de Pedrógão Grande e o assalto aos paióis em Tancos são dois casos completamente diferentes, apenas com uma semelhança: o falhanço do Estado. E não, não é preciso esperar pela investigação da Polícia Judiciária ou pelas conclusões da comissão independente - que nunca mais ata nem desata - para chegar a esta conclusão.»

E não, não, não e não. De facto, não é preciso gastar mais do que meia caloria para concluir que a velocidade a que o autor chega às conclusões que lhe dão jeito tem como consequência o despiste da sua inteligência pela ribanceira do sensacionalismo abaixo. Donde, a questão: qual a finalidade de exercícios como este, neste meio? Sendo o resultado prático da leitura do texto o encontro com a decadência intelectual e cívica a que ele nos conduz feliz da vida, podemos igualmente concluir que estes jornalistas de uma opinião que se contenta em chafurdar na impotência são parte da tal desgraça que os alimenta e embriaga.

Respeitinho, menina

  1. Três secretários de Estado do Governo PS esperaram um ano para serem constituídos arguidos num caso que, desde o início, era claro, transparente e, por isso, comprovável, embora sem qualquer gravidade. Não é, pelo menos, considerado grave pelo MP quando os amantes de bola são deputados e líderes de bancada do PSD que beneficiaram de viagens pagas por empresas como a Olivedesportos, dona da Sportv e accionista da Global Media. Ninguém os incomodou.

Mera coincidência, é o que é: a atribuição do estatuto de arguidos aos secretários de Estado ocorre numa altura em que a oposição de direita se excita com uns incêndios e um furto de armamento e, sem nada que fazer até agora a não ser morrer de vergonha, pede a cabeça de ministros. Os secretários de Estado apenas se vinham juntar à festa. Nada de mais. O entusiasmo é contagiante. Passado um ano, exactamente.

  1. Veio a público que o Ministério Público recebera há uns meses uma denúncia de que estaria iminente um assalto a instalações militares com vista ao roubo de armamento. Que abrira até um investigação. A notícia não foi desmentida. Ontem, interrogada por Fátima Campos Ferreira, no programa Prós e Contras, sobre este facto e sobre as diligências tomadas pelo MP na sequência da denúncia, e sobretudo sobre as diligências não tomadas, a procuradora Maria José Morgado meteu os pés pelas mãos, enveredou por um palavreado de juridiquês confuso e nada esclareceu (sugiro que vão ver; nunca fico a apreciar o MP depois de ouvir esta senhora). Uns minutos depois, chutava a bola para os serviços de informações. Até ao momento em que mudei de canal, não lhe tinha sido perguntado se a PGR comunicara alguma informação sobre esta matéria ao ministro da tutela e, se não o fizera, qual a razão. Fiquei sem saber. O argumento de que, havendo suspeitas de envolvimento de militares, não seria aconselhável informar o CEME, atabalhoadamente invocado para a não informação do general Rovisco Duarte, colhe e não colhe. Se colhe, então o caso deveria ser considerado gravíssimo. Não havia como não ser atabalhoado, o argumento.

 

  1. Segundo o jornal oficial do Ministério Público, chamado Correio da Manhã, os procuradores responsáveis pela Operação Marquês estão muito preocupados (e já chamaram a atenção da Procuradora-Geral) com a possibilidade séria de a acusação a Sócrates sair na altura das eleições autárquicas, ou seja, finais de Setembro.

“A equipa de procuradores destinados para a elaboração do despacho final já comunicou à hierarquia que a investigação poderá ficar fechada em cima das eleições autárquicas. Certo é que a situação poderá não ser muito confortável para o Ministério Público por estar em causa um período eleitoral.”

Acreditamos. O Ministério Público sempre se preocupou com questões como essa. Acreditamos também que a senhora procuradora-geral vai ordenar que se espere mais 15 dias para evitar tal contratempo. Possivelmente mais três meses. Ou dois anos. Ou melhor ainda, pelo contrário: alegando a necessidade de rapidez, vai exigir que a acusação saia antes, durante a campanha.