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Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Lapidar

Na análise do putativo crime de enriquecimento injustificado, o Tribunal Constitucional veio, mais uma vez, recordar o princípio da presunção de inocência. Num Estado de Direito, é um princípio absoluto, que não consente exceções nem se pode conjugar entre o sim e o não. Se assim é no espaço público, deveria ser também um imperativo ético no espaço privado. Não deixou de me surpreender que um eventual candidato presidencial, Rui Rio, não se tivesse coibido de considerar Sócrates culpado, ainda que temesse que tal convicção pudesse estar viciada pela manipulação comunicacional.


Presunção de inocência

Falemos do que não sabemos

Sérgio Figueiredo publica hoje no DN um artigo em que explica o “despedimento” de Augusto Santos Silva (ASS) da TVI24. Do que li, os factos parecem ser os seguintes: desagradado com a mudança constante de programação do canal (era notória), ASS escreve um e-mail ao diretor de informação a pedir esclarecimentos. Este responde-lhe cordatamente (a carta é reproduzida no artigo do DN) e propõe-lhe um encontro. ASS aceita conversar. No mesmo dia, escreve um desabafo numa rede social, tornando pública a contenda e deixando o diretor embaraçado e furioso.

O que se terá passado nesse dia para que ASS não esperasse pela conversa? Não sabemos. Mas gostaríamos de saber. Também não sabemos quanto tempo demorou Sérgio Figueiredo a responder ao primeiro e-mail. Sabemos, sim, que ASS se queixou durante algum tempo de não ter explicações.

O artigo de Sérgio Figueiredo é violento. Eventualmente tem razão. No entanto, a justificação dada para o saltitar do programa colhe muito pouco. Convém lembrar que o programa trata de política.

«Entendo que um canal de informação deve ser ágil e reagir a factos relevantes da atualidade. Se editorialmente a TVI entende que algo de inesperado e impactante aconteceu nesse dia ou se uma notícia que a estação deu e provocou ondas de choque na vida política e nacional (como sucedeu nesta semana com a reportagem Negócios do Plasma) é nossa obrigação não ficarmos a contemplar uma grelha de programação, seguramente interessante, mas estática e desajustada aos factos noticiosos que a maioria das pessoas nesse dia procura.

É evidente que isso introduz maior instabilidade nas rubricas fixas, nomeadamente no espaço de comentário premium do canal, como é esse o seu caso.[…]

[…] Se há uma operação de resgate dos bens pessoais da família mais importante dos últimos 50/60 anos de Portugal, se esse momento marca simbolicamente o fim de um império que dominou grande parte da economia portuguesa, e também da política, é meu entendimento que a TVI 24 tem o dever de ajustar e responder em prime-time a esse imponderável.»

Por que razão um acontecimento político ou social importante de um dado dia não pode ser integrado como tema no programa de comentário desse dia?

Pergunto-me se essa mobilidade do programa fixo também é imposta a outros programas de comentário. Assim de repente, não me parece. A questão do futebol também não é sequer mencionada.

Independentemente da sinceridade do que diz Sérgio Figueiredo e da sua boa fé, parece-me que há, no mínimo, algum amadorismo na organização da programação. E algum desrespeito, sim. Algum melindre da outra parte também me parece compreensível.

Falta agora a resposta de ASS.

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Adenda

Resposta já anunciada:

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=993638134002117&id=100000678188420

Revolution through evolution

Keep fears at bay by learning something new
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Resolving social conflict is key to survival of bacterial communities
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First evidence of farming in Mideast 23,000 years ago
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Acupuncture Impacts Same Biologic Pathways in Rats that Pain Drugs Target in Humans
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College social life can predict well-being at midlife
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Online symptom-checkers are often wrong
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Computer security tools for journalists lacking in a post-Snowden world

Pride

Nairobi, Kenya, Africa - Barack Obama Jr on his first visit to Kenya in 1987. In this Obama Family photo are: (bottom row, from left) half-sister Auma, her mother Kezia Obama, Obama's step-grandmother Sarah Hussein Onyango Obama and unknown; (top row, from left) unknown, Barack Obama, half-brother Abongo (Roy) Obama, and three unknowns.  (Credit Image: © Solo/ZUMAPRESS.com)
Nairobi, Kenya, Africa – Barack Obama Jr on his first visit to Kenya in 1987. In this Obama Family photo are: (bottom row, from left) half-sister Auma, her mother Kezia Obama, Obama’s step-grandmother Sarah Hussein Onyango Obama and unknown; (top row, from left) unknown, Barack Obama, half-brother Abongo (Roy) Obama, and three unknowns.
(Credit Image: © Solo/ZUMAPRESS.com)

Da meia-verdade à meia-estratégia

Junker contou que Portugal, Espanha e Irlanda afastaram do acordo com a Grécia a temática da reestruturação, pois estão os três num ciclo eleitoral e tal seria visto como uma derrota para as suas posições a favor da austeridade à alemã. Esta declaração do presidente da Comissão Europeia apenas sela com voz testemunhal o que já se sabia desde que o Syriza chegou ao poder. Qualquer alívio dado aos gregos espelharia a cumplicidade dos Governos português e espanhol, em especial estes, com a estratégia do empobrecimento violento e irracional seguida na Europa como resposta falhada à crise das dívidas soberanas. Na praia lusitana, de uma forma tão estouvada que ameaça tornar-se num caso de psiquiatria, Cavaco Silva tem assumido o papel de carrasco oficial da Grécia, desdobrando-se em declarações onde aparece como castigador implacável das pretensões de Tsipras e do povo grego. A actual direita chafurda neste ódio soberbo e parolo.

Para Passos é decisivo continuar a mentir e a praticar uma duplicidade obscenamente hipócrita, lá fora boicotando a resolução da tragédia grega e cá dentro dizendo que foi ele que salvou a Grécia com uma ideia da sua cachimónia lançada como quem não quer a coisa para cima da mesa das negociações. Esta palhaçada pode ser feita, e resulta, porque estamos em Portugal. É a política reduzida à gestão de eleitores com uma idade mental de 7 anos, embrulhados num ecossistema mediático onde um populismo de precisão é cultivado na indústria da calúnia com extrema eficácia. Mas por isto mesmo tem relevância o modo como Passos reagiu a Junker. Ele não o desmentiu, antes confirmou ser verdade o que ficou dito. E lançou-se para mais uma tanga só possível porque não existe imprensa por cá: substituiu a lógica eleitoral pela suposta lógica da confiança, onde a Grécia teria primeiro de ser avaliada adentro deste acordo antes de se tocar no assunto da reestruturação.

Há várias formas de analisar o episódio, mas vou escolher aquela que passa pelo editorial não assinado do PúblicoA “meia verdade” e “meio mal-entendido” – em ordem a matar dois ou três coelhos (salvo seja) com o mesmo texto. Nele, o autor trata com bonomia e superficialidade a mentira de Passos, não retirando daí nenhuma ilação ou consequência. Não mostra preocupação com a dimensão moral das sistemáticas mentiras do primeiro-ministro e, o que é ainda mais grave, ignora a dimensão política do que está em jogo. É que há votos para perder no caso de a opinião pública interiorizar que a coligação PSD-CDS concebe a política como mera luta do poder pelo poder, dispondo-se a contribuir para o sofrimento de milhões de europeus habitantes na Grécia se preciso for para salvarem as suas regalias e benesses. Este editorial bonacheirão, ou sonolento, não se pode sequer enquadrar numa qualquer agenda política, antes ficando como transparência para um estado de depressão colectiva.

O PS também não se pronunciou sobre a troca de galhardetes entre Junker, Passos e Cavaco. O facto de ter calhado em cima da discussão final para as listas de deputados não é uma justificação válida, sequer uma atenuante. Os socialistas têm uma estratégia de oposição espantosa, é o que é – ou talvez não passe de uma “meia-estratégia”, deixando-nos com a boca aberta de espanto ao vermos como desperdiçam oportunidades atrás de oportunidades para definirem a sua diferença cultural face à decadência reinante.

Os para quês da política

O caso Augusto Santos Silva-TVI parece estar agora definitivamente encerrado, após se ter acrescentado à rescisão do contrato a antecipação do fim das presenças do comentador no espaço “Os Porquês da Política” na TVI24 – as previstas edições até ao fim de Julho já não terão lugar. Ocasião favorável a um balanço como mero espectador, nada mais sabendo para além daquilo que é público.

Aparentemente, o que causou a decisão para terminar com a ligação de 3 anos estará relacionado com as seguintes palavras, saídas do seu teclado a 18 de Junho:

Ora bem, o horário dos meus 'Porquês da política' na TVI24 deixou de estar condicionado apenas pelo futebol. Ontem andou em bolandas e na semana passada foi interrompido abruptamente a meio por razões que manifestamente nada têm a ver com essa distinta atividade humana. É, pois, tempo, antes que se faça tarde, para aplicar os ensinamentos de Popper e avançar umas tantas conjeturas, à espera de refutação. Assim, as frequentes mudanças de horário, muitas delas clandestinas, ocorrem:
1. Porque sim.
2. Porque esse é mesmo o verdadeiro poder da bola: condicionar tudo o resto mesmo quando não existe.
3. Porque a TVI já estará farta de comentadores inscritos em partidos políticos e, como já lá tem fartura que chegue de inscritos no PSD, não precisa de um inscrito no PS.
4. Porque eu digo disparates e ninguém me vê e todas as informações em contrário que recebo da própria TVI24 são mentiras piedosas que, como tudo na vida, também um dia terão de ter o seu fim.
5. Porque a minha voz se está a tornar muito incómoda neste clima de sufoco que vivemos.

Esta não foi a primeira vez que se queixou em voz alta das alterações de horário, mesmo interrupção do seu espaço, por causa do futebol. Mas como se lê nas palavras citadas, o actual desabafo indica que outros conteúdos para além do futebol estiveram na origem de mais perturbações que o prejudicaram mediaticamente. Daí a virulência do seu protesto, presume-se sem esforço, construído com a intenção de politizar as ocorrências disfuncionais através de uma suspeição: a TVI estaria a afastar comentadores do PS para favorecer os do PSD neste preciso contexto eleitoral. Convenhamos, é uma acusação de arrebimbomalho para quem está a ser remunerado por aqueles cuja deontologia, até a honra, acaba de ser posta em causa.

Qual poderia ter sido a resposta da TVI? Uma qualquer. Aquilo é deles. Optaram por despedir sem nada explicar, secos e frios. Isto despertou em Santos Silva uma reacção furiosa, onde se declarou vítima de censura e carimbou como cobardes os responsáveis da estação, embora não tenha nomeado a quem se dirigia. Ao mesmo tempo, apelou abertamente a que terceiros assumissem as suas dores, tentando amplificar e espalhar a sua indignação. Reptos esses entremeados com alusões desafiadoras a alguns aspectos da correspondência entre ele e alguém da TVI responsável pelo processo. Chegou ao ponto de contar ter recebido vários convites de uma outra estação, os quais teria então recusado dado pretender cumprir o contrato com a TVI. Em suma, deu parte de fraco. E fracassou na intenção de angariar aliados que lhe dessem o gosto de uma vitória moral.

Ver Santos Silva a fraquejar tem tanto de raro como de espectacular. Só encontro um exemplo parecido, mutatis mutandis, quando lhe deu para se justificar a propósito da expressão “malhar na direita”, verbalizada em 2009; a qual ganhou notoriedade por ser inspiradora, por um lado, e por se constituir como munição que essa mesma direita não iria desperdiçar, por outro. Apenas recordando um episódio desse tempo, na própria RTP se fez grosseira manipulação com ela – colocando a gravação da sua expressão captada numa reunião partidária sobre imagens suas captadas na Assembleia da República – num registo sistemático de apelo ao ódio contra os governantes socialistas e o PS que nem uma maioria no Parlamento conseguiu evitar numa estação pública. Pois Santos Silva, por mais de uma vez ao longo dos anos, sentiu necessidade de se desculpar, recorrendo a uma explicação do foro semântico tão pueril e tão falha de convicção que acaba a despertar compaixão. Azar o nosso, dado que estamos perante uma das figuras mais acutilantes e sugestivas do socialismo democrático em Portugal.

Nosso o azar ao constatarmos que o legado do seu saber e experiência, tanto como académico como político, a que se junta uma paixão pelo debate, não esteja a servir da melhor maneira a melhor das causas. Ter a sua tribuna numa TV será agradável para a sua natural vaidade, e útil à comunidade, vai sem discussão. Mas é também poucochinho, convencional e preguiçoso. É-o porque estamos a falar de Augusto Santos Silva, um dos mais próximos de Sócrates ao longo de toda a governação anterior. O seu papel nesta fase da política nacional poderia ser outro que apenas esse de ficar satisfeito por dizer umas coisas para militante socialista concordar. Poderia, outrossim, ser o da peleja directa, olhos nos olhos, contra os populistas, os demagogos, os hipócritas e os cínicos. Ou poderia ser o de Platão do regime, teorizando a prisão de Sócrates e o seu processo por corrupção da religião vigente e da juventude. Tudo actividades que requerem outro cenário alheio ao conforto de um estúdio de televisão e seu jornalista simpático. Aliás, é para mim um absurdo – ou talvez faça todo o sentido – ter-se Jorge Coelho a debitar vacuidades na “Quadratura do Círculo” quando só Santos Silva ou Pedro Silva Pereira mereceriam lá estar para, finalmente, se atingir algum equilíbrio naquele histórico triângulo do comentarismo político.

Santos Silva sentiu-se ultrajado pelo tratamento despótico, ou desprezativo, recebido na TVI. Respondeu a partir do orgulho com que concebe o seu estatuto, procurando fazer da rejeição algo que não conseguiu demonstrar. Creio que nessa tempestade emocional se esqueceu dos para quês da política. A política é para a comunidade. E a comunidade, mesmo que não o saiba, precisa que o brilhantismo e coragem deste augusto cidadão venha em nosso socorro.

Apanhado, mente

Juncker revelou, numa entrevista ao jornal belga Le Soir, hoje publicada, em que relata os bastidores da negociação sobre a Grécia, que Portugal se opôs a que um alívio da dívida pública grega fosse discutido antes das eleições legislativas. Mais exactamente, segundo o DN: “alguns países, Irlanda, Portugal, Espanha, não o desejavam antes das eleições”.

Apanhado com a mão na massa, Passos Coelho mente: “Deve haver alguma confusão do presidente da Comissão Europeia.

O suposto autor da sugestão miraculosa que permitiu chegar-se a um acordo, afinal não queria sequer negociações antes das eleiçõezinhas em casa.

 

 

Os da retaguarda te saúdam, Hollande!

L’esprit européen a prévalu. Mais nous ne pouvons en rester là. J’ai proposé de reprendre l’idée de Jacques Delors du gouvernement de la zone euro et d’y ajouter un budget spécifique ainsi qu’un Parlement pour en assurer le contrôle démocratique. Partager une monnaie, c’est bien plus que vouloir une convergence. C’est un choix que 19 pays ont fait parce que c’était leur intérêt. Nul gouvernement d’ailleurs depuis quinze ans n’a pris la responsabilité d’en sortir. Ce choix appelle une organisation renforcée et avec les pays qui en décideront, une avant-garde. La France y est prête parce que, comme Jacques Delors nous l’a montré, elle se grandit toujours quand elle est à l’initiative de l’Europe.

Declarações de François Hollande, ontem, em carta publicada no JDD, a propósito do 90.º aniversário de Jacques Delors.

A ideia da «vanguarda», desenvolvida depois pelo primeiro-ministro Manuel Valls, é gira, extremamente oportuna e vem mesmo na linha do «apaziguamento» promovido pela França na recente crise grega. E é uma ideia conciliadora como mais nenhuma. Pois haveria lá maior harmonia do que oficializar uma fratura, após o triste espetáculo a que o mundo assistiu? Ainda por cima, reparem, não seria sequer a fratura observada nas últimas semanas, ou seja, Alemanha, Holanda, Finlândia, Áustria e Bálticos de um lado, contra França, Itália, Chipre e Grécia do outro. Não. É que a primeira seria liderada pela Alemanha. E isso não pode ser. A segunda já nem tanto. Mas, em termos de zona euro, corresponderia a quê exatamente esta vanguarda selecionada? Aos países menos endividados e em melhor situação económica, autorizados assim a ditar as regras e as rédeas? É que a situação da Itália não é melhor, neste momento, do que a da Espanha.

Segundo Valls, seis países – os seis fundadores da CEE – elegeriam um governo para a zona euro e os restantes 13 (dos atuais 19) ficariam a ser governados por ele. Nesta «retaguarda» ficariam países tão sintonizados como a Áustria, Portugal, a Irlanda ou a Finlândia. Estamos a ver. Resta saber o que fariam da Espanha, com uma dívida bem inferior a alguns dos seis.

Era o aniversário de Delors e fica bem a Hollande recordar e enobrecer o passado. Mas, sessenta anos depois, muita coisa mudou. Para pior. Afinal, Hollande também quer expulsar a Grécia da moeda única, só que acompanhada de outros 12. Uma autêntica proposta de paz para a Europa. A que faltava.

Ao cuidado do 19-1

The research team warns that a tendency to overclaim, especially in self-perceived experts, may actually discourage individuals from educating themselves in precisely those areas in which they consider themselves knowledgeable - leading to potentially disastrous outcomes.

For example, failure to recognize or admit one's knowledge gaps in the realm of finance or medicine could easily lead to uninformed decisions with devastating consequences for individuals.

"Continuing to explore when and why individuals overclaim may prove important in battling that great menace - not ignorance, but the illusion of knowledge," the research team concludes.


Self-proclaimed experts more vulnerable to the illusion of knowledge

IVG: ainda não foi tudo dito. Ainda há um Tribunal Constitucional

Ainda não foi tudo dito. Vou passar à análise de duas questões que devem ser tidas em conta pelo eleitorado no que toca à IVG: 1) o oportunismo imoral da direita; 2) a inconstitucionalidade das suas propostas.

  • A direita apresentou um projeto de lei por arrastamento (adoro) da já conhecida iniciativa dos cidadãos (PLC), aplicando taxas moderadoras à IVG. A meio da legislatura, foi apresentada uma petição reivindicando isso mesmo e a direita votou contra. À época sabia que as taxas moderadoras aplicam-se por categorias e não por actos médicos isolados, como bem explica o Ministro da Saúde. À época sabia que uma taxa moderadora é o fim de uma decisão individual e sigilosa. Agora, para eleitorado ver, aparecem comparando pernas partidas com uma IVG, cai bem, e dormem na sua terrível imoralidade.
  • Pior: no dia da votação na generalidade na PLC e da proposta de lei PSD/CDS sobre taxas moderadoras, recusaram a votação, remetendo para o escurinho da especialidade, não rejeitando alto e a bom som a PLC do direito a nascer, do dever da mulher revelar o progenitor e da eco esfregada na cara da delinquente. As palavras são para ser ditas: eis uma direita cobarde.
  • Passamos à especialidade e temos um prazo até ao meio-dia de um dia x para apresentarmos propostas de alteração à PLC. A direita não cumpriu. Entrei na primeira comissão e sou confrontada com a atual PL da maioria em versão papel. Tudo normal. Adiado para o dia seguinte. Audições para quê?
  • Ainda assim, conseguiu-se numa noite em que pouca gente dormiu de indignação, reunir pareceres da UMAR, da Sociedade Portuguesa da Contraceção, da Plataforma Portuguesa para os direitos das Mulheres, da P & D factor, da APMJ, da MDM, da Ordem dos Psicólogos, da Professora Inês Ferreira Leite.
  • Antes disso tínhamos dados da DGS, foram ouvidas diversas entidades, como o conselho de administração da MAC.
  • Pergunta-se: se todos foram unânimes em explicar que a lei de 2007 está a ser bem aplicada, por quê mudar a lei? É que o princípio básico do legislador revogador é o de que a lei não funciona. Perante audições de quem está no terreno e explica que a lei está a ser bem aplicada, quer no que toca às consultas pré-IVG, nas quais o Estado tem que proporcionar às mulheres o conhecimento do previsto no nº 3 do artigo 2º da lei nº 16/ 2007 e depois presumir que as mulheres sabem decidir, quer no que toca aos números de IVG´s e de repetições (em 2011, chegou-se a 0 mortes), quer no que toca ao aumento brutal (voluntário, claro) de consultas de planeamento familiar e de aumento de uso de contracetivos, o que deu à direita?
  • Eleitoralismo mal pensado.
  • E por acaso inconstitucional. Nos termos do direito constitucional ao livre desenvolvimento da personalidade, as mulheres são autónomas e conscientes para decidirem sobre as suas vidas sem necessidade de tutela de apoio de psicológico e de serviços sociais no período de reflexão. Mais, essa infâmia sempre violaria o princípio da proporcionalidade.
  • Mesmo que se desse o caso de um “acompanhamento”, teria sempre de ser por escolha da mulher, esse ser totalmente menorizado pela direita que não imagina períodos de reflexão médica masculina tutelados.
  • A vontade da mulher é, neste projeto, totalmente rejeitada, quando é ela que está grávida, contrariando-se assim a jurisprudência conhecida do TC.
  • Depois entram, sorrateiramente as IPSS.. (artigo 16º) com o poder de “informar”… apesar de não serem em geral prestadores de cuidados de saúde, de saúde pública e de saúde sexual e reprodutiva… estarão aqui para evangelizar ou para preencher formulários do RSI “porque só as pobres abortam”?
  • Estrondosamente inconstitucional é transformar o objetor de consciência num direito absoluto: a mulher não sabe se quem fala com ela na consulta pré-IV é contra qualquer tipo de IVG. Vale a pena estudar os resultados desastrosos nos EUA de coação e de mentira sobre mulheres confrontadas com objetores de consciência não registados. Isto é um abuso. É um risco para serem dadas informações falsas e tendenciosas ou de coação sobre a mulher grávida.
  • Finalmente, depois da IVG, um acto médico-legal, a mulher é obrigada a ir a uma consulta. Perdão? Qual é a base jurídica desta limitação à liberdade das mulheres? Vão ser “aconselhadas “ sobre o quê se recorrem à IVG por motivos que não revelam, como uma violação? E como se efetiva? Vão de algemas?
  • Leiam o artigo 41º da CRP, e ganhem juízo e vergonha.

15)  Ainda há um Tribunal Constitucional.

 

 

Aquele momento em que

Aquele momento em que estou a ouvir Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, despejar a mais funda indignação contra quem trouxe a doença de Laura Ferreira para o combate político a propósito da viagem a Cabo Verde, sem nunca nomear o alvo ou alvos do seu nojo, e depois a ouvi-la recusar-se comentar o tratamento da mesma situação de doença na biografia de Passos Coelho lançada em período eleitoral, por fim a ouvi-la passados minutos a dizer que Passos é um político que cultiva a imagem de português de classe média para obter ganhos eleitorais, é um momento de iluminação sobre a dinâmica das emoções na deformação cognitiva.

Não só o que está em causa não remete para a decisão pessoal de aparecer em público com sinais visíveis do tratamento oncológico, como o que está em causa ficou ainda mais reforçado com a exploração hipócrita que os direitolas fizeram da denúncia de objectiva manipulação política. Porque se fez, faz e fará aproveitamento político da doença do cônjuge do primeiro-ministro. Quem trouxe a doença para a esfera mediática, logo política pelo contexto das suas responsabilidades, foi Passos Coelho. E quem decide fazer uma parangona com a sua mulher rodeada de três ministros não está a dar uma informação acerca da pessoa Laura e do modo como lida com a sua doença. Há nisto uma outra doença, moral, que torna o espaço público infecto e que atinge até aqueles que pareciam imunes.

Maria de Belém, não em Belém

Em 2010 manifestei a minha convicção de ser Maria de Belém uma candidata presidencial muito melhor do que Alegre para tentar derrotar Cavaco. Muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito melhor. E só parei de repetir “muito” na frase anterior por cansaço, não por ter chegado ao fim dessa ideia. Melhor do que Alegre porque qualquer cidadão maior de 35 anos, sem cadastro criminal ou até com ele, o seria. E melhor do que qualquer outro candidato na área socialista porque não havia mais nenhum candidato na área socialista. Assim, teria bastado a Maria de Belém ter aparecido, dizer o óbvio e, com isso, talvez garantisse uma segunda volta pois iria buscar votos ao centro e às mulheres. Se lá chegasse, logo se veria como terminar a faena.

Agora, em 2015, temos o 2014 entalado entre a senhora e uma candidatura ao palácio que ostenta no apelido. É que lhe aconteceu o Seguro. Ao não ter compreendido o momento do partido quando Costa avançou a seguir às europeias, Maria de Belém revelou não possuir profundidade política suficiente para a Presidência da República que Portugal precisa de ter para resgatar essa instituição à degradação provocada por Cavaco.

Se avançar, assim dando a Seguro o gozo dessa vingançazinha, terá apenas um ponto a seu favor: não sofre da mania de grandeza que Sampaio da Nóvoa, com as melhores das intenções, cultiva de cada vez que abre a boca para se ouvir a si próprio.