Sinto-me qual D. Pedro IV

Seguro, inseguro, não está aqui por ele, diz. Está aqui – ou ali – por Portugal. Está contra as cortes de Lisboa, essas que tudo decidem, essa capital vencedora nas autárquicas com a maior maioria de sempre. O candidato foi António Costa.

Nessa data, Seguro, inseguro, saudava o resultado das eleições ampliadíssimos pelo resultado de Lisboa, a terra das cortes.

As declarações de Seguro são graves, são a negação da política, a negação de um líder agregador, são a apolítica.

Custa perder mais tempo com elas, mas rir ajuda, sobretudo quando se está aqui, sem advérbios, acreditando que a palavra de ordem perante o histórico de Seguro e perante uma direita inaceitável é a palavra alternativa.

Para isso faz-se política, lê-se o país real, tira-se conclusões das eleições, elabora-se uma proposta estratégica a dez anos e não se perde tempo com tiradas, afinal, tão reveladoras da essência insegura de Seguro.

O problema da insegurança de Seguro é que ela não é apenas intelectual ou de personalidade – há inseguranças saudáveis e altamente motivadoras.

O problema da insegurança de Seguro é que ela não se interroga a si própria para saber por onde andar mais firme e/ou com mais utilidade; ela reconhece a causa da sua existência no outro que diverge, que contesta, que arrisca.

A insegurança de Seguro persegue terra firme no ataque pessoal e na tática das ratoeiras. A insegurança de Seguro é orgulhosa, não perde um minuto consigo mesma; não, é orgulhosa e faz terra queimada até ao ilusório dia em que, derrubados todos os socialistas que discordem da cor de uma gravata de Seguro, a insegurança deixe de ser notada.

Acontece que mesmo nesse dia sempre teríamos os adversários e o povo, incluindo o povo de Lisboa: é a desgraça de se sair por aí com uma insegurança orgulhosa. Uma solidão, no caso merecida.

Sou portuguesa, nascida no Brasil, chegada às cortes aos 2 anos de idade. Como dizia hoje um colega meu, com Seguro, estou quase um Pedro IV.

É normal rir de declarações graves.

É uma espécie de instinto quando nos enchemos de vergonha alheia.

 

Educação para Pulidos

Só para poder dizer mal de António Costa, Vasco Pulido Valente dá, no Público, uma volta pela história, afunilando-a à maneira, e acabando por passar, já na reta final, por uma entrevista dada há dias por Marçal Grilo, que já foi Ministro da Educação. Um grande looping, como veem. Em resumo, teoriza que o Estado não tem que alfabetizar nem educar a população. É um desperdício de recursos, porque, se bem percebi – o que não é garantido – os “qualificados” fugirão sempre para o estrangeiro, ou permanecem sem grande utilidade, por falta de condições propícias.

Ora bem, concluo, assim, que, como há que educar alguém, Portugal só tem direito a que as elites se cultivem e se perpetuem, na certeza de que não serão desafiadas por, literalmente, falta de educação. Uma excelente maneira de mudar e reformar o Estado, como VPV parece, apesar de tudo, desejar. Sai um whisky on the rocks para a elite.

A meta  é cortada com esta tirada (o link para o artigo completo está mais acima):

[...]“Uma espécie de beato como Marçal Grilo não se rala com certeza com o capital, a justiça, a fiscalidade e a reorganização do Estado de que a educação precisa para ser de alguma utilidade aos portugueses. Mas que António Costa partilhe com amor esse velho erro não o recomenda a ninguém.

Escolhe o teu nível de inteligência

Pegas nas propostas de António Costa. Lês aquilo, reflectes sobre o que lá está proposto, qual é a estratégia, quais as prioridades, qual as ideias de fundo. Ou seja, usas a cabeça.

Agora podes parar. A que conclusão chegaste?

1 - Doi-me a cabeça, são muitas coisas incompreensíveis e não percebi rigorosamente nada das propostas dele. Então e a dívida? Não fala da dívida? E as contas públicas? Não sabe que não existe mais nada? Não sabe que não há dinheiro? Vou mas é ler a Caras, isso percebo.

2 - Não sei se concordo com tudo, mas sim,  percebo perfeitamente a ideia e a estratégia. Vamos discutir isso então.

Boa escolha.

A resiliência e a incidência

 

Definitivamente, a utilização da língua portuguesa por Passos Coelho e quem o assessora é vergonhosa. Que raio será uma «incidência protocolar»? Será um incidente protocolar em caldo agitado de resiliência?

Vejamos o recente emprego destes termos:

(sobre a adesão da Guiné Equatorial à CPLP)

E seria, penso eu, muito negativo que Portugal permanecesse de forma resiliente opondo-se a esse alargamento. Creio que isso conduziria Portugal a um isolamento no seio da comunidade de língua portuguesa que não é aquilo que Portugal deseja com certeza”, defendeu.

Homem, «resiliente» costuma ter conotação positiva e aplica-se, com essa conotação, a materiais, redes de comunicações, economia, banca, etc.

(sobre o alegado rompimento do protocolo pelo representante da Guiné Equatorial)

O Presidente da República e o primeiro-ministro declararam hoje que foram “surpreendidos” pelo anúncio antecipado da adesão da Guiné Equatorial à CPLP e que desvalorizaram essa “incidência protocolar” em nome do sucesso da Cimeira de Díli.

Uma incidência? E protocolar?

Este post, antes que mo lembrem, refere-se à questão formal do uso da língua. Neste caso, mau e ridículo. O problema de Passos é mais aterrador do que a forma como se exprime. No entanto, não é errado dizer que governa como fala. Alguém lhe soprou uns conceitos, umas teorias, umas palavras modernas ao ouvido e o homem não teve ainda tempo de os absorver e enquadrar. E assim rodeia-se de consultores tipo Moedas e Maçães, que são, na prática, quem dita a linha da governação e siga o circo. O urso não sabe falar, mas está bem amestrado. É o que importa.

Declaração de voto

A objectividade é a qualidade da relação com uma qualquer realidade que se mantenha conceptual ou observavelmente idêntica a si própria independentemente da subjectividade dos agentes. Assim, temos um objecto quando o reconhecemos distinto do sujeito gnoseológico, de todos os sujeitos cognoscentes individuais. “1+1=2″ é um exemplo iniciático do modelo da objectividade porque se reconhece imediata e universalmente que essa operação aritmética conduz sempre ao mesmo resultado seja qual for a idade, sexo, local de nascimento, cor da pele, estado emocional, adesão ideológica, crença religiosa, escolaridade, orientação sexual, condições financeiras, estatuto social, clube desportivo, estilista favorito ou preferências gastronómicas do sujeito que fizer o cálculo. A ciência é a procura incessante da objectividade, a política não.

Façamos o exercício de procurar a objectividade na relação com o excerto acima, recolhido no programa Quadratura do Círculo de 10 de Julho de 2014. Objectivamente, o que é que ele nos mostra além e aquém de qualquer dúvida, aquém e além de qualquer idiossincrasia do ocasional espectador?

Isto:

- António Costa a discorrer sobre o “alinhamento estratégico” dos Governos com algumas entidades empresariais, o que considera legítimo, e a diferença desta prática face à “promiscuidade de interesses“, que considera inaceitável e gravíssima, apresentando exemplos concretos de ambos os casos.

- Lobo Xavier a desafiar António Costa para falar da “comunicação social“, ficando entendido que já antecipa o que vai ser dito ou, a nada ser dito, que esse silêncio confirmará o que o próprio Lobo Xavier teria a dizer sobre o assunto.

- António Costa a dar como exemplo concreto de uma promiscuidade de interesses a tentativa de um Governo levar um grupo económico a comprar ou vender um órgão de comunicação social só para determinar a sua linha editorial. De seguida, faz equivaler essa situação com a da imprensa económica na mão de grupos económicos que por essa via espalham uma doutrina económica do seu interesse.

- Pacheco Pereira a declarar que António Costa está a falar de Sócrates quando refere a tentativa de compra ou venda de órgãos de comunicação social só para lhes mudar a linha editorial, o que não é desmentido.

- Lobo Xavier a elogiar enfaticamente a referência à comunicação social feita por António Costa, cujo subtexto confirma que entende o primeiro exemplo como sendo relativo a Sócrates e ao caso “Face Oculta”, e nada dizendo a respeito do segundo exemplo relativo à imprensa económica e sua agenda.

- António Costa a teorizar sobre a diferença entre o tratamento que a direita dá aos seus no meio empresarial e o que reserva para quem venha da área do PS para as empresas. Aqui, Armando Vara é atacado por Lobo Xavier e Pacheco Pereira e António Costa não o defende.

- Lobo Xavier a voltar ao assunto da “promiscuidade de interesses” para o agravar e expandir. Diz que Seguro faz as mesmas acusações que António Costa acabou de fazer, tendo como alvo exclusivo os Governos do PS entre 2005 e 2011. Diz que “boa parte” dos apoiantes de Costa são cúmplices, ou autores, de múltiplas e constantes operações que visavam controlar a banca, a PT e os jornais, pelo menos, no tempo em que Sócrates foi primeiro-ministro. Perante estas acusações, António Costa fica calado.

Programa terminado, dir-se-ia que um furação estava a poucas horas de entrar pela barra do Tejo. António Costa, dito socrático ou testa-de-ferro dos socráticos, tinha confirmado tudo o que a direita havia dito que Sócrates fizera ou mandara fazer a respeito da eventual compra da TVI pela PT – portanto, tinha dado como fundada em factos indesmentíveis a tese do procurador e do juiz de Aveiro, os quais alegaram ter descoberto um atentado ao Estado de direito graças à espionagem feita a Sócrates, Vara e outros. Se até este figurão socialista o admitia, ainda para mais sendo o novo íman dos “socráticos”, então era a prova provada da culpa de Sócrates. Bomba antónia!

Só que, para espanto dos ingénuos, apenas uma levíssima e efémera brisa agitou o espaço público, com o i a ser a única voz da imprensa (que eu saiba) a ter dado atenção ao episódio: António Costa demarca-se de Sócrates, desta vez no Face Oculta. Na entrevista feita pelo Público a Costa, saída neste domingo, não se toca nele. E no regresso de Sócrates à RTP, nele não se tocou. Para a surpresa, já perplexidade, ser ainda maior, o circuito do ranho (Correio da Manhã, Blasfémias, 31 da Armada, Insurgente e tutti quanti) não explorou esta oportunidade de ouro para voltar a crucificar Sócrates e o PS. Nunca se viu no Entroncamento fenómeno parecido. Que se está a passar?

Continuar a ler

DN, o “Correio da Manhã” do jornalismo de referência

A tentativa de implementação dessa medida [a avaliação] por Maria de Lurdes Rodrigues, que nem sugestões, relevantes mas moderadas, de alteração ao seu projeto acolheu, acabou por redundar na sua própria fragilização. Seguindo a terceira lei de Newton, a ação da então ministra da Educação provocou a inevitável reação - expressa numa condenação generalizada por parte dos professores e simbolizada em gigantescas manifestações. A ministra acabou por sair.

Editorial do DN, Julho de 2014

*

Em conferência de imprensa, ao lado do ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, Maria de Lurdes Rodrigues começou por explicar que «foram ouvidas todas as escolas». «Identificámos três grandes áreas de problemas para as quais propomos medidas», disse.

O primeiro desses problemas apontados, sobre os quais vão incidir as alterações ao actual modelo, foi «a existência de avaliadores de áreas disciplinares diferentes entre avaliadores e avaliados». A segunda é a existência de burocracia excessiva. Finalmente, foi identificada uma sobrecarga de trabalho no processo de avaliação para os professores.

Este conjunto de medidas, segundo a Maria de Lurdes Rodrigues, «visa prosseguir com a avaliação, melhorando em muito as suas condições» e não significa um recuo no actual modelo de avaliação.

Ministra da Educação apresentou versão simplificada

Promessas de Seguro (Actualização)

814663

“Muitas pessoas perguntarão: Será que, quando o Seguro diz que não promete o que não pode cumprir, não é só conversa? Não é mais uma conversa de político? Pois vocês que estão aqui – e conhecem-me desde pequenino – sabem que são palavras sérias sentidas e verdadeiras. Foi aqui que aprendi o valor da palavra. Foi aqui que aprendi que um aperto de mão sela um compromisso.”

António José Seguro

Lista de promessas actualizada. Em itálico, contribuições dos leitores na página de registo de promessas. A todos muito obrigado, e continuamos o trabalho que, por sinal, tinha sido uma promessa de Seguro. Cumprimos nós.

Redução do numero de deputados Fonte
Plano de desenvolvimento para o interior Fonte
Reorganizar a reorganização administrativa Fonte
Reindustrialização do país Fonte
Eleitores escolherem o seu deputado Fonte
Separar a política e os negócios Fonte
Não aumentar impostos Fonte
Aumento Salário Mínimo Fonte
Acabar com a CES Fonte
Pagar todas as dívidas do estado Fonte
Reduzir IVA restauração para 13% Fonte
Dinamizar economia com investimento publico Fonte
Repor pensões e reformas no imediato Fonte
Manter o helicóptero do INEM em Macedo de Cavaleiros Fonte
Contratualizar serviços públicos com autarquias Fonte
Reactivação da ligação aérea entre Bragança e Lisboa Fonte
Menos impostos para as empresas no interior que criem empregos Fonte
Acabar com os sem-abrigo no país, numa legislatura. Fonte
Reabrir tribunais no interior Fonte
Baixar o IMI Fonte
Criar tribunais especiais para investidores estrangeiros Fonte
Igualdade salarial entre homens e mulheres Fonte
Criar espaço no site do ps.pt para registo de promessas Fonte
Governo de coligação, mesmo com maioria absoluta Fonte
Pagar a dívida até ao último cêntimo Fonte
Manter o espólio de Siza Vieira no país Fonte
Restituir o Tribunal de Resende Fonte
Contrato de desenvolvimento com o interior do Portugal Fonte

 

Faltam 68 dias para as primárias.

O que se vê e não vê

“É verdade, eu vi o António Costa hoje a um jornal, numa entrevista, dizer que apoia António Guterres para Presidente da República, mas eu acho que a notícia é que o António Costa não é candidato a Presidente da República”, disse António José Seguro aos jornalistas.

 

Para além de todas as insuficiências já sobejamente apontadas, a raiva também não ajuda. O comentário de A. J. Seguro à declaração de António Costa começa por não se entender a profundidade e acaba na confirmação de uma obsessão – Seguro só pensa em Costa. Nem Guterres, em cujo governo participou, lhe merece a mais pequena atenção, para já não falar em apoio, solidariedade, ó deus dos simples e bons provincianos, simpatia. É que a questão é esta: e Seguro, não apoia Guterres? Querem lá ver que apoiaria Costa, não se desse o caso de este ser o futuro líder do PS?

 

Mas isto foi o que Seguro viu. O que não viu foi toda a excelente entrevista dada pelo seu rival ao Público. Talvez a raiva que lhe embacia os óculos venha daí.

Louvor das Cortes de Lisboa

cortes_constit21

Não estamos aqui por minha causa. Estamos aqui por Portugal. Precisamos de vós para combater aquilo que certas cortes de Lisboa acham melhor para o País. É inaceitável que a corte de Lisboa decida nos gabinetes, a régua e esquadro, como o país deve ser administrado.
António José Seguro

 

Ouvi, ó gentes do meu país, a história e percursos de um dos nossos mais ilustres cortesãos de Lisboa.

No ano da graça de 1962 nascia na Vila de Penamacor António José Martins Seguro. Jovem de muitos e variados talentos, rapidamente percebeu que não seria na terra que o viu nascer que essas inúmeras qualidades seriam melhor aproveitadas, pelo que assim que atingiu a maioridade rumou alegremente a Lisboa, a capital. Não a Coimbra, onde pautaria os seus estudos na mais velha Universidade da Europa ao ritmo da lendária Cabra, relativamente perto da sua amada terra, não ao Porto, com as suas excelentes instituições  nortenhas de ensino junto ao mundialmente reconhecido Douro, mas para Lisboa, para junto das Cortes. Ingressou no ISCTE, onde frequentou Gestão de Empresas, sem duvida com o intuito inicial de mais tarde regressar e aplicar os ensinamentos para melhorar as empresas na sua região. Mas todos sabeis quão sedutora é a vida de Lisboa, e quão facilmente as Cortes e a vida mundana das elites seduzem um inocente e puro rapaz da província, lhe pegam pelo braço e lhe dizem: “vem, esquece as tuas origens e os teus toscos conterrâneos e junta-te à nossa doce decadência regada a mel e construída à custa do suor dessas bestas da província, que aliás para mais não servem, e serás bastamente recompensado. Até te deixaremos regressar a casa uma vez por ano, por alturas do madeiro, desde que disso não faças alarde”. E eis que assim o nosso rapaz, certamente sem perceber bem como, se vê Dirigente Associativo do ISCTE para logo a seguir, em 1985, ser eleito Presidente do Conselho Nacional da Juventude. Presidente aos 23 anos de idade, eis o poder da Corte de Lisboa, na qual o nosso rapaz estava agora bem lançado. Já lhe começavam a ser familiares por esta altura os meandros, os corredores, as mesas de café onde se conspirava noite fora. E tornava-se um dos seus mais talentosos membros, sendo eleito Secretário-Geral da Juventude Socialista em 1990, e fazendo questão de ser membro da Comissão Política Nacional da Recandidatura de Mário Soares a Presidente da República. Eis o nosso rapaz no centro do poder lisboeta, conselheiro do próprio Rei. A Corte recompensaria os seus inegáveis talentos com um cargo de Deputado à Assembleia da Republica a partir de 1991. O nosso rapaz, por esta altura já homem feito e experiente nas lides politicas lisboetas, tornava-se assim parte integrante das elites que a partir da Capital governam o país, para nunca mais sair, tirando em breves expedições à província, com uns part-times na Assembleia Municipal da sua terra e um cargo federativo algures na forte, farta, fria, fiel e formosa Guarda, que durou no entanto apenas uns meses. A Corte lisboeta não permite grandes ausências nem distracções, sob pena de se perder as ultimas intrigas e conspirações. E eis assim António José Seguro, nesta altura já destacado cortesão, a ser eleito para o círculo mais elevado e restrito da Corte: o governo de António Guterres. primeiro como Secretário de Estado da Juventude, depois como Secretário de Estado adjunto do próprio Primeiro-Ministro. Ambos os cargos com direito a gabinete, régua e esquadro. E um mapa de Portugal na parede. Continuando a aproveitar as oportunidades oferecidas por Lisboa,  em 1999 e 2001 foi ainda enviado como representante da Corte portuguesa junto das Cortes Europeias em Bruxelas, onde foi presidente da delegação e Vice-Presidente do Grupo Socialista a essas mesmas Cortes.

Regressaria em 2001 ao governo da capital, desta vez já como Ministro adjunto do Primeiro-Ministro, e nunca mais sairia de junto das Cortes de Lisboa, sempre como Deputado à Assembleia de República e um dos seus mais destacados membros, tendo sido líder da bancada parlamentar, ou seja, líder dos cortesãos, e sendo ainda, entre 2006 e 2011,  Presidente da Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura e Presidente da Comissão Parlamentar de Assuntos Económicos, Inovação e Energia. E apesar de estar afastado do circulo mais elevado da Corte, não tendo sido convidado a funções governativas entre 2005 e 2011, esses anos deram-lhe o tempo e a disponibilidade para, pacientemente, urdir a sua teia de contactos, cumplicidades e intrigas que lhe permitiram, em 2011, ser facilmente eleito Secretário-Geral do partido Socialista. Ou seja, Cortesão-Mor. O reconhecimento máximo do seu talento pelos seus pares e pelo povo.

Eis aqui por isso a justa, embora breve e muito incompleta, homenagem que as Cortes de Lisboa fazem a este seu distinto membro. Mas que nenhum de entre vós  se engane: António José Seguro não é um mero cortesão. Como o seu percurso e a sua imparável subida claramente demonstram, não será certamente exagero da nossa parte dizer que António José Seguro, por seu inteiro mérito, é a própria personificação das Cortes de Lisboa.

A nova política de Seguro já tem uns aninhos

Nós temos de derrotar a velha política e substituí-la pela nova, que é falar verdade aos portugueses e dizer que só podemos prometer aquilo que temos a certeza de podermos cumprir.

Seguro, 2014

É fundamental falar verdade aos portugueses, porque falando verdade eles têm comportamentos que são consistentes com os objectivos que queremos alcançar. Tendo uma boa informação, cada um comporta-se e tem uma atitude coerente.

Cavaco, 2010

Eu acho que aquilo que falta efectivamente é falar verdade às pessoas. Provavelmente, o engenheiro Sócrates, neste momento, não fala verdade nem com ele próprio.

Manela, 2009

Não faço promessas que não tenciono cumprir.

Manela, 2009

Uma badalhoquice

António Araújo, do blogue Malomil, é um rapaz culto, inteligente e tem ironia para dar e vender. Entre os seus inúmeros afazeres políticos, jurídico-profissionais, intelectuais e familiares, encontrou tempo para manter um blogue onde já publicou textos com valor. Mas o seu pezinho, afinal, revela tendência para a chinela do José Agostinho de Macedo, que há duzentos anos também não era nada burro nem falho de sarcasmo.

Vem isto a propósito de uma soez crítica que Araújo publicou há dias no seu blogue.  O alvo da sanha corcunda do Araújo, a fazer inveja ao tal José Agostinho, é um livro de Isabel Moreira, Apátrida, que eu não li. Também não conheço pessoalmente a Isabel, que escreve por estas paragens, apenas sei dela o que todos sabemos, via televisão e jornais, mais o Aspirina.

Não é necessário ler o livro da Isabel Moreira para se perceber que a “crítica” do Araújo é um exercício impassível de desonestidade intelectual e moral. Não vou aqui perder tempo a tentar prová-lo. No seu próprio blogue, alguns dos comentadores já lho explicaram, se ele precisasse.

Há, porém, um ponto no post do Araújo em que a badalhoqueira excede os limites da tolerância que se costuma ter com incontinentes, qualquer que seja a sua cor política. Diz a dada altura o Araújo, sobre a autora de Apátrida, que ela…

…vem confirmando uma postura política, mas sobretudo ética, de rejeição estridente do alinhamento à direita, em confronto furioso, mas nem sempre coerente, com o fascismo das consciências e dos afectos, outrora presente em instituições sinistras como a PIDE ou o campo de concentração do Chão Bom do Tarrafal (reaberto por portaria ministerial de 17 de Junho de 1961).

É vilíssima esta última alusão ao Tarrafal, com que o Araújo, fingindo-se liberal, pretende amesquinhar, de forma despropositada, tortuosa e cobarde, não o ministro em causa, que reverencialmente não nomeia, mas o desalinhamento à direita de Isabel Moreira – esse sim, o grande e órrível crime que enfurece o blogueiro. Que me conste, até a PIDE sabia distinguir, por vezes, entre pais e filhos. Só estalinistas é que nunca quiseram saber disso, nem o lobo da fábula do carneiro. Nem o Araújo, pelos vistos.

A esquerda demasiado grande

O que se está a passar no BE teve a primeira manifestação pública no Verão de 2009, quando Louçã reagiu descontroladamente ao rumor de que o PS tinha convidado Joana Amaral Dias para entrar nas listas de candidatos socialistas às legislativas desse ano. O Napoleão da “esquerda grande” apareceu transtornado frente aos jornalistas a garantir que tinha sido Sócrates – em carne e osso – quem tinha tentado seduzir a miúda para o inferno burguês e capitalista do Rato. Não tinha, foi Paulo Campos quem levou com a tampa. O essencial do episódio, porém, não está na manobra do PS, antes na exibição dos traços megalómanos e paranóides de Louçã. Só não viu quem não quis ver, e a Joana viu.

Entende-se sem esforço o processo que leva Louçã para o cárcere do ressentimento e do rancor. Este homem acreditou piamente que ia chegar lá, aos amanhãs que dançam. No discurso triunfal proporcionado pelos resultados eleitorais de 27 de Setembro de 2009, indiferente às causas circunstanciais de tal fenómeno, foi anunciada uma revolução em curso:

"Começa um novo dia para a Esquerda portuguesa. Retirar a maioria absoluta ao PS é muito importante e é importante que isso faça uma grande diferença na política nacional."
Fonte

Viu-se bem, oh como se viu, a grande diferença que a retirada da maioria absoluta ao PS trouxe para a política nacional. Um ano e meio depois, o novíssimo dia da esquerda portuguesa atingiu o zénite precisamente a 23 de Março de 2011. Foi o dia em que os deputados do BE e PCP viabilizaram a entrega do poder a Passos e Relvas. As diferenças, as disparidades e os desequilíbrios em Portugal não têm parado de aumentar desde essa data, de facto.

Joana Amaral Dias, Rui Tavares, Daniel Oliveira e Ana Drago foram ao longo de vários anos, de diferentes formas, os rostos mediáticos do sucesso de Louçã. Falta só nesse grupo o Miguel Portas, que talvez ninguém saiba o que estaria agora a dizer e a fazer perante a desagregação do Bloco. O que é certo é que eles protagonizaram uma estratégia que convinha à esquerda pura e verdadeira e à direita, a do desgaste do PS nos segmentos jovens e urbanos. Louçã imaginou-se o sultão dos jovens turcos e, depois da manipulação dos professores numa campanha de ódio, já tinha a espada afiada para decapitar o PS e levar a sua cabeça numa travessa ao PCP. Acaba abandonado pelas suas estrelas de outrora e a projectar nelas o que, no fundo, sempre foi neste país de pouco líderes com o seu carisma: um ogre narcísico com mais barriga do que visão.

Lavoisier sim, Sócrates não

Ainda continuando a vasculhar o debate sobre o estado da Nação do passado dia 2, nele se encontra uma boa intervenção de Alberto Martins, onde lista os efeitos reais das opções do Governo. Mas nesse discurso há um momento caricato que simboliza a aberração em que se encontra o PS – portanto, em que se encontra a oposição. Ocorre quando Alberto Martins se limita a registar uma evidência, a de que o propalado sucesso das exportações na actualidade se funda, principalmente, nos investimentos feitos na governação de Sócrates. Perante esta verdade, a malta da Política de Verdade reage como aprendeu em casa e nos colégios finos: ri à gargalhada. O riso como arma de agressão é quase sempre eficaz, pois está a desqualificar, em simultâneo, a questão e o questionador. Terá Seguro, um homem que se orgulha de ter aplaudido o comício de Cavaco na Assembleia da República onde se pediu a cabeça de um primeiro-ministro socialista através da rua, ido em socorro do seu prestigiado apoiante e líder da sua bancada? Ver para ouvir.

FMI na Troika – sociedade (quase) inútil

Os técnicos do FMI insistem em publicar relatórios sobre a situação na Europa. Muitos deles têm dito o óbvio, ou seja, que a austeridade não pode ser um fim em si mesma e que não dispensa uma análise dos efeitos que vai tendo. Por outras palavras, não pode ser cega. E precisamente a análise da evolução dos países sujeitos a um tal regime, e também dos outros que em certa medida o aplicam, mostra claramente que a austeridade é tudo menos expansionista, como nos faziam crer, e que, basicamente, os países que a aplicam como política única continuam em apuros, se não pior, e sem qualquer perspetiva de crescimento (antigamente chamava-se desenvolvimento). Portugal secou e não foi por perda de gorduras, mas de seiva.

Embora o FMI também aceite elaborar relatórios por encomenda e baseados em dados “por medida” dos governantes, como aconteceu em Portugal no mandato de Vítor Gaspar, o relatório hoje referido nesta notícia insere-se na linha acima mencionada. Dizem os técnicos que, se o crescimento for inferior ao previsto ou desejável, haverá que suspender os cortes. E que o BCE deveria intervir com medidas que não temam a inflação.

Isto dito, falta saber o que diz Christine Lagarde, a própria. Até agora, e no que respeita aos países individualmente, tem dito exatamente o contrário quanto aos cortes e repetido, e feito coro com os seus parceiros da Troika, que a “consolidação orçamental” é a grande prioridade. Por isso, ou aqueles técnicos tomam o poder no Fundo ou Christine Lagarde assume as conclusões dos seus relatórios ou os desautoriza e demite de vez. O mais certo, porém, é fazer “cherry-picking” e aproveitar a parte que pressiona o BCE, abstendo-se de comentar a restante…

De qualquer modo, se Portugal tivesse um governo de jeito, todos estes relatórios seriam explorados e esfregados nas ventas do Eurogrupo (e, na primeira ocasião, também de Lagarde – Tipo “You’re talking to me?”, pronunciado à de Niro). Mas, tratando-se de Passos e companhia, estes técnicos são a ala esquerdista e esbanjadora do FMI, incapazes de perceber as virtudes do empobrecimento generalizado e do reforço financeiro das elites, as verdadeiras criadoras de empregos (vamos rir e, já agora, ler o muito que se tem escrito sobre essa ilusão). Uns burros, em suma.

A participação do FMI na Troika deu-lhes uns dinheiros a ganhar com os juros do empréstimo e aliviou a Europa, no imediato, de uns milhões. Mais nada. Não têm direito à última palavra.

Sim, é possível a unidade da esquerda

Estes 6 minutos do último debate sobre o estado da Nação são iguais a dezenas, se não forem centenas, de outros ocorridos no Parlamento na presente legislatura. Nele vemos Passos, um tribuno de 4ª categoria, a despachar Seguro como quem vira mais um frango. As imagens mostram que esse achincalhamento é tanto do agrado de Passos como de Seguro, ambos expressando o seu prazer através de genuínos sorrisos de cumplicidade e satisfação. Eles chegaram lá, são comparsas de geração e estilo. E mandam nisto.

Qual o motivo para o gozo mútuo? O estado da Nação. Isto é, o empobrecimento de milhões de portugueses, a emigração de centenas de milhares de jovens portugueses, o desemprego de mais de 1 milhão de portugueses, as incontáveis desgraças que as crises económicas, financeiras e políticas causam em Portugal desde 2008. Perante essa paisagem devastada, Passos e Seguro entretêm-se a preparar o seu futuro imediato enquanto brincam à política.

Uma parte das legislativas de 2015 pode ser já antecipada sem medo de falhar. PSD e CDS vão repetir à exaustão durante a campanha eleitoral exactamente o que Passos nestes 6 minutos diz na cara de Seguro:

- Que o PS levou o País à bancarrota.
- Que foi Sócrates quem chamou a Troika.
- Que os sofrimentos causados pelo resgate são da responsabilidade do PS.
- Que PSD e CDS conseguiram salvar Portugal.
- Que todos os indicadores positivos da economia no presente são da exclusiva responsabilidade do PSD e do CDS.
- Que Seguro concorda com a culpa de Sócrates e do PS pelo que aconteceu, acontece e aconteça de negativo em Portugal.

O facto de esta cassete andar a ser repetida diariamente no Parlamento desde princípios de 2012 – excepção para a adesão entusiasmada de Seguro à tese da culpa socrática, que só depois de recentemente ter saído da gaiola foi verbalizada – diz mais do actual PS do que do Governo e da direita. Porque é o PS que permite a Passos continuar a rir só por meter Seguro no bolso e emporcalhar os socialistas e a sua História sem sofrer consequências. Bastaria que alguém na bancada do secretário-geral lembrasse a Passos, de cada vez que se imagina a bater em mortos, que ele é o maior mentiroso de longe e de sempre na democracia portuguesa, e que foi ele quem traiu o interesse nacional ao esconder que dependia da vinda da Troika para aplicar o seu plano de ataque ao Estado social, para que o traste ambulante começasse a ter de encontrar outra forma de ocupar o seu tempo quando vai ao Parlamento matar saudades do amigo Seguro.

Na verdade, nem teria de ser alguém do PS, poderia ser um valente do PCP, do BE ou mesmo a Heloísa Augusta Baião de Brito Apolónia. Como ninguém o faz, concluí-se que a esquerda está finalmente unida à volta de uma posição comum: o apreço, quiçá respeito, pela cassete da culpa socrática e do heroísmo de Pedro&Paulo.

Arte do engano

«Daquilo que tenho mais ouvido, desde camaradas do PS até cidadãos que me abordam na rua, é dizer que isto [candidatura de António Costa à liderança do partido] não é justo, isto não pode ser aceitável num partido democrático», disse o dirigente socialista.

O dirigente socialista lembrou que só promete aquilo que tem a «certeza absoluta» de poder cumprir porque, disse, «alguns confundem a política com a arte do engano».

«Foi por causa de terem feito no passado promessas que sabiam que não podiam cumprir que hoje há centenas de milhares de portugueses descontentes e que não acreditam na política e nos políticos em Portugal», considerou.

Seguro diz que PS devia estar «exclusivamente» concentrado a combater Governo

__

Seguro não pára nem descansa, qual barata tonta. Aqui o temos a dizer que Costa é injusto e não é democrático, como se não houvesse amanhã após as primárias. Aqui o temos a falar de “certezas absolutas” em política, e logo a respeito de promessas a cumprir num futuro indefinido. Aqui o temos a disparar contra alvos não nomeados, os quais acusa de serem mestres do engano.

Pensemos um bocadinho nisto. Que leva Seguro a não nomear a malandragem que (não) denuncia? Não seria melhor, por todas as razões e mais algumas, que o rei da transparência e da ética chamasse os bois pelos nomes?

Acontece que há muitas vantagens na retórica difamatória e caluniosa genérica, como qualquer taxista sabe de ginjeira. Uma delas é a de ninguém se poder defender, pois quem o fizesse estaria a enfiar o barrete. Uma outra é a de Seguro nada ter de explicar ou provar, continuando a alimentar o seu culto de personalidade onde pretende ser reverenciado como um santo. Ainda uma outra é a de cavalgar manobras caluniosas recentes na memória pública cuja lógica aviltante fosse igual. Assim, a figura que imediatamente ocorre é Sócrates, sujeito a campanhas de ofensa à honra como nunca se tinham visto em Portugal sob o pretexto de ser corrupto, mentiroso e de não cumprir promessas. Este nexo tem sido explorado por Seguro e os seus, com o aplauso febril dos direitolas, na colagem que fazem entre Costa e Sócrates.

Mas talvez o mais extraordinário da sonsice de Seguro no seu afã de destruir o PS seja o facto de poupar Passos. Alguém que atira em todas as direcções com munição calibre “arte do engano” e não acerta no elefante laranja mesmo à sua frente tem de ser um grande habilidoso. Precisa é de ir mostrar as suas habilidades para o circo e entregar o partido a quem o respeite.