Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Basta de drama sobre «o interior abandonado»

Como foi possível constatar no desenrolar dos últimos incêndios, há, em geral, vantagens incontestáveis em habitar aglomerações maiores, por oposição a pequenos povoados dispersos, razão pela qual eu tendo a repudiar o tom dramático com que se costuma afirmar que o interior do país está desertificado. Não só a evolução da estrutura do povoamento não é nenhum drama, sendo praticamente inevitável, como também o país não está propriamente deserto. Cidades como Lamego, Castelo Branco, Guarda ou Viseu (as que conheço melhor) e numerosas outras pequenas cidades ou vilas do interior do país que também conheço bem ou pelas quais tenho passado conheceram um notável desenvolvimento nas últimas quatro décadas. As pessoas das aldeias, as que não emigraram, aproximaram-se dos centros populacionais maiores. É normal. A agricultura tradicional, de subsistência, rendia muito pouco, as novas gerações tornaram-se mais exigentes e é mais do que compreensível que procurem oportunidades noutras actividades e locais. Mas, mesmo nas muitas (ou muitíssimas, como se viu nas serranias atingidas pelos incêndios) aldeias que restam, hoje em dia já não podemos dizer que os seus habitantes são uns infelizes, abandonados à sua triste sorte. Nem sequer são todos idosos, ao contrário do que as televisões nos querem fazer crer, a nós e aos próprios habitantes (gerando situações caricatas, como pessoas de 52 anos a dizerem que são os mais novos, mas que há também uma vizinha com 24 e outra com 47 e até uma garotinha com 4).

Primeiro aspecto a salientar: as pessoas que ali vivem gostam de ali viver. Vimos até estrangeiros radiantes com o local e a vizinhança. A paisagem é linda. A qualidade do ar invejável. A qualidade das casas melhorou a olhos vistos. Não se trata pois de nenhum fim do mundo. A melhoria dos acessos, a melhoria dos transportes, a melhoria das comunicações e a melhoria das habitações são visíveis até nas minúsculas aldeias. A distância à vila mais próxima não é intransponível e a assistência médica nunca está muito longe. Fiquei agradavelmente surpreendida com aquele lar de idosos. Que bonito. Depois, há indústrias – fiações, serrações, etc. Não vi, mas devia e pode vir a haver centrais de biomassa. Seria importante.

Em suma, a chamada «dinâmica populacional» e as alterações climáticas obrigam, isso sim, a reprogramar as políticas rural e florestal, assim como a política económica regional. Com pragmatismo e sem drama. Sobretudo sem demagogia barata. Mas as pessoas que vivem naqueles locais são tão ou mais felizes do que as que vivem nas grandes metrópoles. Ainda que sejam poucas, ou talvez por serem poucas. E isso é o mais importante.

Bom senso

Emmanuel Macron apresenta-se com uma perspectiva diferente da do anterior governo em relação à Síria e a Bashar al-Assad. Não há sucessor legítimo à vista naquele país. Logo, a sua partida não pode ser uma condição prévia para a resolução do conflito.

Notícia aqui.

Miséria de Judite

Ponto prévio: quando ainda não tinha as respostas a todas as perguntas que colocara na véspera às diferentes entidades envolvidas no combate ao incêndios do centro do país, não percebi ainda bem o que levou António Costa a ir ontem à TVI deixar-se entrevistar pela Judite de Sousa. Essa. A que resolvera ir para o terreno dos incêndios, no dia anterior, fazer directos ao lado de um cadáver.

Mas foi, está ido. Não foi tempo totalmente perdido, porque o seu tom é sempre apaziguador e a preocupação com o pragmatismo prevalece. Acontece, porém, que, do princípio ao fim, a única coisa que a Judite queria saber com aquela entrevista era verdadeiramente se o primeiro-ministro ia ou não ia demitir a ministra da Administração Interna ou o comandante da Protecção Civil. Pouco mais lhe interessava, por muito que Costa explicasse. Uns minutinhos de conversa e lá voltava à carga. Para ela era limpinho. Impunha-se sangue (ainda mais) e decapitações. O colega que tinha ao lado foi um mero elemento decorativo, insuficiente para lhe roubar o protagonismo que teimou em assumir. Não se percebe porque não estava sozinha.

Sem saber se algo correu mal ou o que correu mal no sistema de comunicações, sem perceber nada de fenómenos atmosféricos raros, sem estar minimamente informada sobre a processo de chegada de reforços estrangeiros, sem justificar o falso alarme criado pelos jornalistas da sua estação (correcção: parece que foram copiados) sobre a queda de um avião Canadair, baseando-se apenas em impressões próprias totalmente discutíveis e rebatíveis e arvorando-se em porta-voz de todos os portugueses (“os portugueses querem saber”), a pirosa da Judite queria ali deter o exclusivo da demissão de toda a gente em directo. Depois ia para o Marquês festejar esta derradeira e irrefutável prova de qualidade jornalística. Esse era o plano. Correu-lhe mal. Terá que recomeçar, voltar atrás, desta vez um directo da morgue em Coimbra, porque não?

Note-se que era toda a gente demitida menos ela, claro. O porquê de isto ainda não ter acontecido é o que os portugueses querem efectivamente saber. Ouviste, Judite? São demasiados anos de pouca seriedade e isenção e de busca de sensacionalismo ao som de “erres” (r) finais pronunciados como “dês” (d) .

E que mais?

Os temas da habitação e da floresta irão ter presença obrigatória na próxima campanha eleitoral para as legislativas, aconteçam estas em 2019 ou antes. Consoante o desfecho da Operação Marquês, o tema da justiça também poderá entrar, embora com muito menor probabilidade dada a impotência do sistema partidário, e/ou cumplicidade, para lidar com as corporações e os criminosos no sistema judicial.

E que mais?

O grande investimento da direita

Compreendem-se bem estes gemidos de indignação de António Barreto. A direita sente-se enrabada e AB assume, voluntarioso, a sua quota-parte das dores.

O maior investimento estratégico da direita portuguesa de 2004 até hoje foi a tentativa de assassinato de carácter de Sócrates, o ganhador de duas eleições e da única maioria absoluta socialista desde que Soares fundou o PS. O comentador “independente” AB colaborou pressurosamente nessa tentativa desde os seus alvores. Releiam-se os seus “retratos da semana” repletos de ódio, publicados no jornal do Belmiro em 2007 e 2008, quando ainda não havia uma crise financeira internacional cujas culpas se pudessem atirar para Sócrates. Usando de pulhices saloias, AB chegava a interrogar-se se Sócrates não seria fascista: “Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei.” Fosse ou não fascista, Sócrates era então, para AB, “a mais séria ameaça contra a liberdade” que Portugal conhecera desde os anos 70 (Público, 6 de Janeiro de 2008). O carapetão da “asfixia democrática”, espalhado pelo PSD em 2009, também colheu ali inspiração. Veio, então, a crise financeira e a direita mudou completamente de registo: fora Sócrates o seu autor.

O alvo último da longa campanha negra da direita – que desde 2014 conta com a desavergonhada assessoria jurídica do Ministério Público – nunca foi exactamente Sócrates, mas sim o PS. A direita presumiu erradamente que, linchando Sócrates, arredaria o PS do poder durante uma década ou duas. Essa gente vê hoje o seu logro, que o ódio cego de antanho não lhe permitiu vislumbrar. Investiram tudo num papel marado, que em 2015 se desvalorizou completamente. Sentem-se enrabados, mas a culpa é deles próprios, que investiram as suas poupanças e esperanças num pacote de patranhas.

Com efeito, a derrota da direita nas últimas eleições legislativas, a formação do governo de Costa e o balanço francamente positivo de um ano e meio de governação socialista vieram pôr totalmente em causa a racionalidade do maior investimento estratégico da direita no presente século – a diabolização de Sócrates e, por tabela, o aniquilamento do PS e o esmagamento da esquerda.  A campanha anti-Sócrates  já não rende – a não ser, talvez, como mera e triste vingança pela vingança – e não se vê quem poderia substituir Sócrates no papel de bode expiatório e bombo da festa.

A desorientação e o desespero grassam nas fileiras e estados maiores da direita raivosa. O maná da diabolização de Sócrates faliu, é chão que já deu uvas. Continuam a odiar Sócrates com todas as suas forças, mas já não sabem porquê nem, sobretudo, para quê. O grande investimento, que até já tinha granjeado alguns dividendos na bolsa eleitoral, parece agora perdido. Há, porém, saudosos que sonham ainda recuperá-lo. AB dá eloquentes sinais disso mesmo, exibindo em cambalhotas retóricas uma desesperada tentativa de conotar Costa com o “nefando” governo de de Sócrates.

Note-se que, para AB, António Costa teria sido em 2007, quando saiu do governo para a câmara de Lisboa, uma vítima da limpeza que o déspota Sócrates teria levado a cabo no governo, com o objectivo de ficar “enfim só” no poder (Público, 27 de maio de 2007). As lágrimas de crocodilo que AB então verteu por Costa aparecem agora transformadas em libelo acusatório contra o mesmo Costa, a quem acusa de branqueamento e complacência criminosa com o “nefando”. Os objectivos últimos são sempre exactamente os mesmos: atacar um governo de esquerda, atacar o PS e, se possível, apagá-lo do mapa.

Vou fugir de casa porque está muito calor

“É difícil, por isso, não admitir a hipótese de ter havido uma falha da protecção civil. Não se previu o risco de incêndio florestal, não se pôs a população em alerta para a possibilidade do fogo, não se prepararam meios para uma eventualidade, e quando o incêndio rebentou, não se tomaram todas as providências, como, por exemplo, controlar a circulação automóvel. Ao contrário do que disse o Presidente da República, não parece ter-se feito tudo o que se pôde.”

Rui Ramos, no site «Observador»

A quantidade de imbecis que resolve pronunciar-se sobre o drama de Pedrógão culpabilizando o Governo e a Protecção Civil não é surpresa, mas lá que revolta, revolta. Para além do descontrolo inédito do Nicolau Santos, que resolveu acusar a ministra, não se fizeram esperar os disparos vindos de uma das grandes concentrações de biltres que habita, como se sabe, o site «Observador». Rui Ramos, por exemplo, compara este incêndio ao da torre Grenfell, em Londres, onde se pediram imediatamente responsabilidades políticas (este o aspecto da tragédia que mais lhe interessa), e alvitra que, por cá, se deve fazer o mesmo – como se ele precisasse de pretextos para exigir demissões ao actual governo -, pois, como toda a gente vê, apesar do fumo, as duas situações são absolutamente idênticas, iguaizinhas. Um edifício de habitação social cuja manutenção está a cargo de uma autarquia ou dos serviços sociais (sujeitos da e à austeridade), mas sobre cujas obras os próprios moradores também se pronunciam, muitas vezes em seu próprio desfavor, é em tudo comparável a florestas imensas cuja propriedade se encontra dividida por um sem número de particulares obviamente avessos a delas fazerem doação ao Estado. Igual.

Mas igual mesmo só a austeridade de que o Rui Ramos foi grande defensor. E essa é claramente um obstáculo às intervenções do Estado, que Ramos repudia.

Sendo certo que o fim dos serviços florestais e, já antes, dos guardas florestais (como diz este senhor, no Público), foi prejudicial para a prevenção dos incêndios, é evidente que será muito difícil, num regime não ditatorial, que um qualquer governo chegue e confisque toda a floresta interior pertencente a privados, a desbaste, a substitua, a reconverta ou a limpe. Difícil, impossível nestes termos e excessivamente caro. Quem paga tal empreendimento? Além de que os incêndios do Verão não deixariam de acontecer. Aliás, bastaria um primeiro para provocar a queda de tão bem intencionado governo. Por isso, calma. Há coisas a fazer, como a abertura de caminhos, a sensibilização para a diversificação florestal (eu já estou sensibilizada) ou a concessão de incentivos aos proprietários, mas é preciso ver quem paga. O Rui Ramos podia dizer-nos.

Voltando à Protecção Civil, diz-nos o escriba que a mesma devia ter avisado as pessoas para o perigo que representavam as altas temperaturas esperadas. Ah bom! Só que esse aviso foi feito, é sempre feito! Além de que as pessoas não são desprovidas de pele nem de glândulas sudoríparas, e também de raciocínio. Assim, deduzo que o que a Protecção Civil deveria ter feito era ou colocar um carro de bombeiros em cada aldeia ou organizar uma operação gigantesca de evacuação de todos os habitantes do interior do sobre-aquecido país, que assim abandonariam as suas casas, animais e pertences e viriam passar uns dias ao litoral ou à casa lisboeta do Rui Ramos. Eram apenas três ou quatro milhões. Nada de mais. Tudo exequível e muito útil.

Ainda ontem atravessei de comboio a Beira Alta. Vi paisagens lindas, planícies, montanhas, pinhais, eucaliptais, florestas de espécies variadas, muitas delas nascidas em áreas há poucos anos ardidas, e também um rio, uma albufeira, enfim, tudo exposto aos quase 50 º C que bem senti no corpo no fim de semana. Parecia estranho, mas nada ardia. Nem o comboio foi tomado de assalto pelas populações avisadas. Deveriam as pessoas das aldeias da Beira Alta ter todas abandonado as suas casas perante a forte possibilidade de incêndio e a ministra que tal ordem não deu demitir-se? Basta de imbecilidades.

Que história essa a do fim do pluralismo em França

O novo partido/movimento de Emmanuel Macron prepara-se para conquistar, amanhã, cerca de 80% dos lugares do Parlamento francês («L’Assemblée»*), nos dias de hoje um feito estratosférico. Escândalo! Acabou-se a democracia! – gritam à esquerda e à direita, e ao centro-direita, os restantes partidos franceses. Para além de a Marine Le Pen alardear, apatetadamente, pois é grande amiga de Putin, que será como na Rússia, a direita pensa que o problema é não ter tido propostas ainda mais à direita e a esquerda pensa que o problema do PS é não ter tido políticas ainda mais à esquerda, isso enquanto Mélanchon se afunda nesse tal lugar “mais à esquerda” que alimenta as quimeras socialistas.

Este artigo – Le vide politique derrière le procès en démocratie – explica bem a razão das preferências por Macron. Por mim, desejo-lhe, a ele e à França, o maior dos sucessos.

 

*Sorry, tinha-me escapado o “l”em Assemblée.

Tadeu enfia o Barreto

Mas a verdadeira obra de arte do primeiro-ministro é outra! Foi ter conseguido desvincular-se, ele e os seus ministros, do governo de Sócrates. Foi ter desligado este Partido Socialista salvador daquele outro Partido Socialista cangalheiro. Foi ter conseguido refazer a sua virgindade, suavemente, sem ruptura aparente, sem obrigar ninguém a desdizer-se ou a pedir desculpa, sem criar incómodos a ministros e sem dar argumentos a quem disser que o Partido tem duas caras. Foi ainda ter conseguido associar o Bloco e o PCP a este branqueamento inédito.

Os seis anos do mandato de José Sócrates constituíram uma espécie de peste negra que se abateu sobre o país. Aquele governo, apoiado nalguma banca pública e privada, ajudado por um bando de empresários sem escrúpulos e assessorado por consultoras internacionais complacentes, atingiu níveis de endividamento único na história de Portugal, assim como de corrupção, de desperdício de recursos, de destruição de empresas públicas, de favoritismo em concursos e nomeações... Foi provavelmente o mais nefasto governo de Portugal durante décadas. Sem criticar os seus feitos, sem partilhar os erros de Sócrates, sem assumir responsabilidades relativamente aos piores anos de governo de Portugal, António Costa e seus ministros conseguiram, sem nunca o ter feito explicitamente, distanciar-se daquele nefando governo e daquele execrável período. Esse, sim, é um feito histórico.

António Barreto

No domingo, um dos derrotados pelos êxitos da "geringonça", António Barreto, escrevia aqui no DN que a verdadeira "obra-prima" (sic) de António Costa foi ter conseguido desassociar-se de José Sócrates e do seu governo que "apoiado nalguma banca pública e privada, ajudado por um bando de empresários sem escrúpulos e assessorado por consultoras internacionais complacentes, atingiu níveis de endividamento único na história de Portugal, assim como de corrupção, de desperdício de recursos, de destruição de empresas públicas, de favoritismo em concursos e nomeações..."

Pois é este capital político que António Costa coloca em perigo com a nomeação de figuras do antigo "arco da governação" para liderar instituições como a Caixa Geral de Depósitos ou a TAP, dando o sinal de que o "bloco de interesses", que sempre originou a corrupção no país, está, afinal, de boa saúde e operacional.

É este capital político que António Costa coloca em perigo quando nomeia um amigo para o conselho de administração da TAP ou quando uma sobrinha do líder parlamentar do PS aparece contratada por uma empresa da Câmara de Lisboa.

É este capital político que António Costa coloca em perigo quando "deixa acontecer" o acordo "por debaixo da mesa" com António Domingues na CGD ou o ridículo bilhete e viagem para um jogo de futebol ofertado pela Galp e aceite por um secretário de Estado.

Este é também capital político do PCP e do Bloco de Esquerda, que estiveram sempre fora destas negociatas que beneficiaram também, muitas e muitas vezes, o PSD e o CDS.

E se PCP e Bloco podem, por enquanto, ceder alguma coisa ao PS e à União Europeia em matérias económicas - em nome do bom senso e da melhor solução possível, no curto prazo, para os mais desfavorecidos - não podem é ceder em matérias de promiscuidade política/financeira e em matérias de corrupção, pois a sua própria sobrevivência política seria, dessa forma, posta em causa.

Por isso, pela primeira vez desde 24 de novembro de 2015, a "geringonça" corre o perigo de avariar.

Pedro Tadeu

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Barreto diz que o Governo de Sócrates era um antro de corruptos. A corrupção é crime, e gravíssimo. Não existe ninguém condenado por corrupção, sequer ainda acusado de tal, que tenha pertencido aos Governos chefiados por Sócrates. Nada disso atrapalha Barreto, o qual terá recebido alguma maquia para caluniar no DN um número indeterminado de cidadãos.

Tadeu usa Barreto para dizer o mesmo. Exactamente o mesmo. Também Tadeu recebeu dinheiro pelo exercício de caluniar no DN um número indeterminado de cidadãos; eventualmente todos os que pertenceram aos Executivos socialistas de 2005 a 2011, a que se deve acrescentar os deputados socialistas desse mesmo período como inevitáveis cúmplices.

Os Governos de Sócrates tinham um núcleo duro constituído pelo próprio, Teixeira dos Santos, Augusto Santos Silva, Pedro Silva Pereira, Vieira da Silva e Luís Amado. Costa fazia parte do núcleo, mas foi dispensado do Governo para candidatar-se à câmara de Lisboa. Para além deste núcleo duro, variegadas figuras ligadas ao PS, e também independentes, deixaram o seu nome nas actas que registaram as acções da governação de Sócrates como primeiro-ministro.

No discurso de Barreto, nascido do ódio fulanizado, e no de Tadeu, uma réplica automática nascida do sectarismo ideológico, das duas uma: Sócrates fez a tal monstruosa corrupção sozinho, imitando Deus quando criou o universo do nada, ou Sócrates fez esse lençol de crimes através daqueles que levou para o Governo, e esses bué da muitos continuam a ser protegidos por magistrados e partidos corruptos, todos eles, daí não aparecerem nas capas do esgoto a céu aberto.

Acaso o Barreto ou o Tadeu perdem uma caloria a pensar se o que escrevem faz o mínimo sentido quando confrontado com a realidade? Não perdem. É a quem lhes paga por estas cagadas que devemos perguntar se estão satisfeitos com o servicinho.

É pena, Costa

Sabemos que os direitolas estão a sofrer quando se calam. Costa foi entrevistado por José Gomes Ferreira na quarta-feira e os direitolas ficaram calados. Portanto, ficaram em sofrimento. Não gostaram de ver a facilidade com que o socialista limpou o rabinho ao palhaço pago pelo Balsemão.

Não há nada de errado nisto de existir um império de comunicação, o Grupo Impresa, que serve os interesses políticos do seu dono. É a iniciativa privada, é a democracia, é a liberdade. Mas, então, que comam todos posto que não há moralidade. A gestão das linhas editoriais da SIC e do Expresso fez de Mário Crespo e do Zé Gomes, para dar exemplos notáveis na sua completa e caricatural distorção do código deontológico dos jornalistas, dois operacionais de uma estratégia reles, maníaca, de propaganda política a favor do PSD e contra o PS. Por extensão, e de acordo com a mesmíssima lógica, o papel político de Ricardo Costa e de Pedro Santos Guerreiro – o qual até pode estar a ser exercido de forma natural; isto é, genuína, porque eles serão isso e sempre o seriam mesmo que não trabalhassem para o militante nº 1 do PSD – é o de orientar a leitura noticiosa oficial para aquela perspectiva que promova os interesses de uma certa direita e que denigra ou apague os interesses de uma certa esquerda. Nenhuma novidade nisto, obviamente, apenas se lamentando que tal não seja assumido frontalmente.

A novidade que importa chama-se António Costa. Estava destinado há muito a ser primeiro-ministro, mas ninguém conseguiu antecipar, sequer imaginar, a pedrada no charco que constitui a actual solução de Governo. Fruto de várias circunstâncias felizes, desde a chegada de Marcelo à manutenção de Passos, da recuperação do poder de compra aos ganhos nas exportações, Costa vai com um ano e meio de sucessos ininterruptos e crescentes. Se conseguir levar as agências de notação financeira a retirar Portugal da categoria “lixo”, não haverá champanhe suficiente em Lisboa para acudir aos brindes no Rato. Este o contexto do seu confronto com o cão de fila da SIC, o qual decorreu sem qualquer laivo de agressividade, sem a mínima acrimónia. De um lado, o pseudo-jornalista que explora a iliteracia económica generalizada e o populismo do tempo para disparar contra o PS com fanatismo circense, do outro, o líder do partido mais importante do sistema partidário e actual chefe de um Governo que promete inaugurar uma nova era na cultura política portuguesa – caso os dirigentes do PS, PCP e BE reproduzam nas próximas décadas a inteligência ideológica que levou ao acordo de 2015. Dois mundos sem qualquer contacto entre eles, pelo que a entrevista serviu apenas para vermos como a famigerada displicência de Costa chegou e sobrou para a vacuidade e deboche do Zé que nos toma por muito parvos.

Porém, Costa merece que se diga algo mais a seu respeito. Ele tem gosto em exibir a sua capacidade para meter no bolso os profissionais da caça aos socialistas que pululam no ecossistema mediático ao serviço da direita. Com isso igualmente transmite a ideia de que não há mal nenhum neste aspecto da nossa vida social e política, de que é errado estar a protestar, a indignar-se. Pelo contrário, há que cobri-los de sorrisos, risinhos e até oferecer-se para tomar conta dos seus filhos nas instalações do Governo caso precisem de ajuda. Foi assim que terminou a entrevista com o grande especialista em acções do BES, satisfeito da vida pelo “debate” que tinha ganhado por KO. É verdade, como escreve a Isabel, que valeu a pena vermos Costa esmagar os sofismas do palhacito, mas não há nada de admirável num chefe político que sente a necessidade de recorrer à adulação para lidar com a escória da indústria da calúnia.

Revolution through evolution

Are friends better for us than family?
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Study of sisters helps explain dad’s influence on risky sexual behavior
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Children of separated parents not on speaking terms more likely to develop colds as adults
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Starving prostate cancer with what you eat: Apple peels, red grapes, turmeric
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Take a coffee or tea break to protect your liver
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Emotions expressed by the dying are unexpectedly positive
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Regular Brisk Walk May Help Reduce the Risk of Dying From Cancer: Study
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Continuar a lerRevolution through evolution

A Irlanda do Norte, a sério?

O apoio que Theresa May vai negociar com os membros do DUP, partido unionista da Irlanda do Norte, em ordem a poder governar arrisca-se a desestabilizar o acordo de paz alcançado pelo Governo de Tony Blair em 1998 para aquela parte do Reino Unido (ver aqui e aqui, ou aqui, sobre o Good Friday Agreement e o Acordo de St. Andrews, que o alterou em 2006).

Há pouco, ouvi o antigo secretário de Estado de Blair, Jonathan Powell, que foi também o principal negociador para a Irlanda do Norte, lembrar, na Sky News, que ficou consagrada no acordo a neutralidade do Governo de Londres em relação aos partidos políticos e ao governo da Irlanda do Norte. Powell, que afirma que todos perderam nestas últimas eleições (o que é objectivamente verdade), não vê possibilidades de um governo estável ou sequer viável com base numa tal coligação, que ameaça agitar de novo a Irlanda do Norte, já que o partido que irá apoiar o Governo de May não deixará de exigir  contrapartidas que defendam os seus interesses.

Neste momento, é difícil vislumbrar uma (outra) solução para a situação criada por estas eleições. Tudo indica que o Reino Unido vai continuar agitado e com poucas condições para negociar a saída da União Europeia. Deviam deixar a Irlanda do Norte sossegada. Os LibDem seriam uma alternativa, caso quisessem, claro.

A ideologia dos troika-tintas

João Pedro Henriques, jornalista do Diário de Notícias, passa por opinador ponderado e justo. Tem os seus gostos e inclinações, como humano que o supomos ser, e, por exemplo, foi notório que não gramava um tal Sócrates que andava para aí a governar a coisa pública há uns anos. Porém, essa sua discordância, que tenha reparado, não fez dele um fanático e muito menos um pulha. Os seus textos são informados e sensatos, a higiénica cama onde depois deita o seu ponto de vista. Qual a influência dos seus artigos de opinião sobre qualquer aspecto tangível, mensurável, aferível nas dimensões políticas, sociais ou tão-só mediáticas do país que somos? Não se sabe, nunca se saberá e talvez a resposta mais aproximada à verdade seja “influência nenhuma”.

Apesar da inerente irrelevância da sua produção intelectual enquanto jornalismo de opinião, no sentido em que ninguém invoca as suas ideias para justificar seja o que for nem há quem perca tempo a criticá-las (tirando aqui o pilas, et pour cause), há uma dimensão onde esta figura é absolutamente relevante: enquanto representante de um grupo maior, no caso o dos jornalistas com presença publicista em meios de comunicação social “de referência”. Por aqui, é significativo o modo como é tratado o tema Sócrates nos seus exercícios comentaristas, pois podemos inferir algo mais do que apenas a sua opinião individual. De algum modo, e seria facílimo ir buscar dezenas e mesmo centenas de exemplos em poucas horas de pesquisa, a forma como inscreve no discurso a sua ideia do que foi e é Sócrates igualmente abre um acesso ao modo como a elite jornalística usa a figura de Sócrates para a produção de uma ideologia. Trata-se não só de uma ideologia difusa, ecléctica, antes é uma ideologia que depende da superficialidade, da ambiguidade e da distorção para se manter eficaz. E é realmente eficaz como fenómeno produzido organicamente por um colectivo.

Veja-se o caso de Costa e o fantasma de Sócrates, de 23 de Maio. JPH resolveu criticar António Costa e não encontrou nada melhor para compor o argumento de que ir buscar Sócrates. Porquê e para quê? No campo do porquê, a resposta é: porque a origem da sua oposição é emocional, gerando uma cegueira cognitiva. Costa jamais poderia filiar os resultados do seu Governo num Executivo que nasceu do maior logro eleitoralista da democracia portuguesa e que assumiu sem qualquer pudor, até com vaidade e luxúria, o discurso do castigo e da humilhação sobre a classe média e os pobres. Os números a que o Governo de Passos chegou não passam disso mesmo, números, para mais obtidos num contexto de extraordinária perda de soberania. Ora, JHP talvez não ignore que em qualquer parte do mundo onde haja governos democráticos todos os números apresentados são alvo de interpretação, de disputa. Não se trata de haver à partida erros com os números, essa outra questão, mas a de ser inevitável precisarmos de um exercício de interpretação política para dar sentido aos números que os governantes apresentem. Como é óbvio, ter conseguido reduzir o défice público da maneira celerada e odienta como Passos, Portas e Gaspar optaram por alcançar comporta uma dupla ponderação, abstracta e concreta. JPH ataca Costa agarrado à dimensão abstracta, protestando por não ver o actual primeiro-ministro a fazer o branqueamento das opções pafiosas que afundaram o País logo a partir do chumbo do PEC IV e levaram à destruição insensata na economia e na vida dos cidadãos do que poderia ter sido salvado ou mitigado. Isto é simples, né?

Menos simples, mas ainda assim transparente, surge o intento. Para quê ir buscar Sócrates? Resposta: para o alimento, quiçá pulsional, da ideologia que este colectivo vai espalhando sem interrupção. Nessa ideologia simula-se um conhecimento exacto, uma verdade, acerca da história recente e não tão recente de Portugal. Parece, dizem estes arautos, que fomos obrigados a um resgate de emergência em 2011 só por causa de Sócrates, que era muito maluco e gastador. E parece que, continuam estes bravos “explicadores”, havia muita corrupção nos Governos passados, antes da Troika ter vindo pôr ordem nisto, mas que nos basta apanhar e enforcar Sócrates para que o problema possa ficar resolvido. Isto também é simples, e admite mil e uma variações sobre o mesmo tema. O colectivo de jornalistas e de “jornalistas” não precisa, adentro desta ideologia, de justificar como é que andaram décadas a conviver com tanto e tão magnífico corrupto e incompetente sem terem conseguido provar fosse o que fosse dessas monstruosas actividades. Basta-lhes ir buscar, citanto JPH, “o que foram os anos finais da governação de José Sócrates” para se poder enviar o texto e esperar pelo pagamento. Não há Europa, Mundo, crises internacionais como não se viam há 80 anos, Governos minoritários, baixa política, golpadas judicais-mediáticas, golpadas presidenciais, coligações negativas, BCE a só reagir a partir de 2012 à crise das dívidas soberanas, sectarismo da esquerda portuguesa. Não há mais nada, basta juntar “Sócrates” e está pronto a servir.

O “Estado Islâmico” como hipertrofia consumista

O “Estado Islâmico” está à beira de perder Mosul e Raqqa. Quando isso acontecer, e vai acontecer nas próximas semanas, ficarão a dominar apenas uma faixa ao longo do Eufrates e algumas bolsas de terreno dispersas no Iraque e na Síria. O completo aniquilamento do controlo do EI nas cidades e povoações exigirá mais uns meses, mas o seu desfecho é inevitável. Que vai ficar? Uma marca, no sentido capitalista do termo. Uma marca que pode ser utilizada de acordo com o modelo da franquia (franchising), tal como começámos por ver em África, depois no Afeganistão, Paquistão e agora nas Filipinas, fora os casos sem organização militar que somados cobrem 29 países, podendo aparecer em qualquer lugar onde exista mercado para tal.

O marketing, mais do que a religião, é o que melhor permite interpretar a dinâmica do EI enquanto objecto de criação de afectos e simbolismo. O apelo homicida que desperta e alimenta pretende ser de consumo instantâneo, não carecendo de qualquer mediação verbal, temporal ou litúrgica. Um desorientado mental que se arrasta numa vida de marginalidade e pequenos crimes numa qualquer urbe ocidental, o qual nunca entrou numa mesquita nem leu uma linha do Corão, pode saltar directamente para uma fantasia onde se embriaga de um heroísmo alucinado e, por isso mesmo, doador de identidade. Esta nova identidade traz um preço colado à facilidade com que pode ser consumida: um tipo de suicídio através do terrorismo ou de combates militares impossíveis de evitar a mais impiedosa derrota.

Daí o investimento do grupo na sofisticação das suas peças de comunicação, desde as coreografias grotescas das carnificinas cuja principal finalidade é a popularidade mediática até aos códigos estéticos reproduzindo com eficácia profissional as convenções publicitárias de Hollywood e da indústria dos jogos digitais. O efeito é similar ao do consumo da pornografia, gerando uma crescente abstracção que acaba por cortar todos os laços que ainda restassem na capacidade empática e cognitiva das vítimas. Quando os que encontram no EI a fase seguinte da sua alienação existencial partem para os actos de terrorismo, ou de combate, estão invariavelmente encharcados em drogas e reduzidos à espessura mental de um vídeo. Este um retrato típico dos arregimentados ocidentais fora das geografias do Iraque e da Síria, pois aqui os laços tribais e familiares são os que, embrulhados na fratricida religião, explicam o suicídio colectivo. Quanto aos que vêm das comunidades muçulmanas do Leste europeu e do Médio Oriente, os processos de fanatismo terão variegada origem e tipologia, também em muitos casos como consequência de contextos de conflitos anteriores que causam estados psicóticos promotores da adesão à proposta suicidária, psicadélica, do EI.

Donde, o bordão que lemos e ouvimos invariavelmente a cada ataque terrorista nas democracias ocidentais, o de que estes criminosos querem mudar o nosso “modo de vida”, não encontra fundamentação no que conhecemos dos indivíduos envolvidos. Por exemplo, os operacionais que desviaram os aviões no 11 de Setembro estavam perfeitamente adaptados ao nosso “modo de vida” e aproveitaram-no, literalmente, até ao último dia. Num plano lateral, o que sabemos das classes dirigentes árabes ou da classe média iraniana, para dar dois exemplos complementares e anedóticos, revela exactamente o mesmo: o nosso “modo de vida” é aquele que mais os atrai e serve de referência aspiracional. Outra parece ser a lógica, a de que os infelizes que escolhem morrer matando indiscriminadamente quem puderem apanhar na sua violência estão, no fundo, a provar a sua absoluta fidelização ao nosso “modo de vida”, um modo de vida onde celebramos quem faz alguma coisa, seja lá o que for, capaz de dominar as notícias. Capaz de encher os ecrãs.

Exactissimamente

Corrupções
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Alberto Gonçalves, mal, muito mal,

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Há uma deliciosa ironia nesta sugestão dupla de leitura, a qual pede que sejamos fãs do Plúvio (como é o meu caso) para ser devidamente desfrutada. É que ele adora o Alberto Gonçalves e passou, nos últimos dois ou três anos (para a minha percepção e memória), a embirrar com o Pedro Marques Lopes. No entanto, o Alberto Gonçalves é um pulha, como o Plúvio finalmente reconhece, e o Pedro Marques Lopes é um chafariz de decência, patriotismo e cívica bonomia. Melhor, e para irritar o Plúvio: o Pedro espalha salubridade na comunidade, o Alberto espalha veneno na comunidade.

O facto é este e ainda não encontrei qualquer análise ou reflexão a respeito no comentariado ou na academia: há uma indústria da calúnia à direita, mas não a encontramos à esquerda. Tal fenómeno não pode ser separado de certos condicionalismos antropológicos e cognitivos, talvez genéticos, que promovem na direita a fulanização, a paranóia e o recurso ao ódio palaciano como modo de assimilação e reacção ao devir político. Porém, igualmente tal indústria implica um poderio fáctico na comunicação social e na cultura dos actuais PSD e CDS. Por actuais, refiro-me ao PSD que começa com Cavaco e ao CDS que acaba com a saída de Freitas do Amaral em 1991. O mesmo poderemos dizer do poder da direita na cultura empresarial, nos maiores escritórios de advogados e no fundo católico que alimenta pulsões e proto-ideologias. Finalmente, as oligarquias são sempre de direita, no sentido em que se tornam conservadoras e temem perder o que conquistaram e sonham conquistar, pelo que influenciam estruturalmente a qualidade da vida social e política. Essa influência explica o poder de fogo que exibem.

A indústria da calúnia é uma arma política, não apenas um negócio. Mas, pelos vistos, a esquerda portuguesa está perfeitamente adaptada a esse status quo.