Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Diz tudo, como os malucos

É importante os partidos, ainda para mais em ano eleitoral, terem a transparência de dizerem ao que vêm, definirem com clareza a sua estratégia para futuro. Isso deve ser saudado.

Passos Coelho, Abril de 2015

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O responsável máximo pela campanha eleitoral do PSD em 2011 discursa em público como um amnésico. Tratar-se-á de uma amnésia colectiva, pois à sua volta as reacções são de assentimento, tranquilidade, apatia. Não importa o calibre da enormidade que o Pedro largue na via pública; jornalistas, políticos e cidadãos desviam-se imperturbáveis e seguem o seu caminho. Ou talvez não seja amnésia (não é, pois não?), talvez tenha outro nome.

Sendo justo, reconheço que alguns verbalizam alguma indignação perante o desplante com que Passos mente e nos trata como borregos. Mas mesmo esses logo aliviam as suas dores acrescentando que o outro, o que lá estava antes, era igual. “Passos igual a Sócrates” é uma receita que neste tópico acaba por proteger o Pedro dada a radical diferença entre eles: Sócrates foi leal com o eleitorado até ao limite das suas capacidades, Passos planeou trair o eleitorado até à plenitude das suas incapacidades. Para falar de promessas falsas de Sócrates apenas se consegue ir buscar a questão dos impostos, e mesmo aí há factores atenuantes, enquanto em Passos estamos perante um chumbo do PEC, consequente crise política e queda do Governo e uma campanha eleitoral onde todas as principais mensagens, de todos os dirigentes do PSD, foram intencionais mentiras. Já abraçados ao pote, quem fizer o levantamento do que foi sendo dito a cada medida além-Troika e acerca das responsabilidades pelo Memorando vai encontrar o mesmo padrão.

Aparentemente, um fulano que nos enganou tragicamente, causando com as suas acções sectárias e fanáticas desgraças incontáveis, não poderia ficar impune se abrisse a boca para se armar em político decente. Aparentemente, isto devia ser simples. Mas talvez Portugal seja um país que já tenha desistido de se respeitar a si próprio.

Revolution through evolution

Polarization in US Congress is worsening, and it stifles policy innovation
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Strontium atomic clock accurate to the second — over 15 billion years
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Google, Apple, Amazon spend record amounts on lobbying
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Four-dimensional printing unfolding as technology that takes 3D printing to an entirely new level
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We think better on our feet, literally
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60 = 50: New Study Reveals Increases in Life Expectancy Reflect Slower Population Aging
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Caloric Restriction: A Fountain of Youth for Aging Muscles?

A irrelevância de Cavaco

Um Presidente tem por funções defender a Constituição, garantir, sobretudo em cenários de maioria absoluta, a defesa dos direitos fundamentais, garantir o regular funcionamento das instituições democráticas e elevado sentido de patriotismo constitucional quando fala dentro e, especialmente, fora do país. E tem de ser isento, o que não quer dizer neutro, porque tem de saber ler a realidade do país e não ser um boneco alienado da mesma.

Hoje, nas comemorações que tiveram lugar na AR, a única alegria que podemos retirar de um dos discursos mais pobres de Cavaco é o facto de ter sido o último 25 de Abril em que a casa da democracia acolheu este Presidente.

Não vale a pena reproduzir toda a pobreza do discurso, mas vale a pena assinalar o topete de um Presidente que apela à apresentação de propostas para depois ter por absolutamente exigível o consenso, mais dizendo que é para isso – mentira – que o nosso “sistema” aponta.

Nesta contradição insanável, Cavaco sustenta a tese da indiferenciação política e do repúdio pelo debate “fundado em ideologias” no perigo do surgimento de movimentos extremistas.

Não houve um assessor que aconselhasse Cavaco no sentido de não tomar o Povo por ignorante, esse Povo que já percebeu que os movimentos extremistas que vão nascendo pela Europa fora ganham força precisamente à conta da indiferenciação política, da falta de alternativas, daquilo que gera a frase descontente, essa frase – são todos iguais.

Este Cavaco dos consensos que tudo fez para inviabilizar acordos de estabilidade política no passado, o homem da inventona de Belém, o homem que afirmava que os portugueses não suportavam mais sacrifícios, hoje deu vivas à visão laranja do crescimento e da retoma.

Sem legitimidade e sem credibilidade nas palavras, Cavaco é irrelevante.

 

Detenção de um administrador do Grupo Lena

Citação (retirada do JN):

«Os advogados Pedro Dellile e João Araújo consideram que “esta iniciativa do MP, tendo em conta o momento em que ocorre e o conjunto de factos referenciados, (…) conduz à conclusão que serviu sobretudo para alimentar a campanha de difamação que tem marcado este processo e que visivelmente começava a perder alento e entusiasmo“.

Pedro Delille lamentou o “clima de aceitação que se ache normal” que a José Sócrates, enquanto arguido, não lhe tenha sido feita a dedução de acusação e os seus fundamentos.

Ao fim de cinco meses de prisão do sr. engenheiro José Sócrates, apesar da proclamada solidez dos factos que a teriam justificado, continuam sem se conhecer que factos seriam esses, mantendo-se sem justificação mínima a continuação da aludida situação processual“, leia-se detenção preventiva.»

Colunistas

Antes de mais, viva a Revolução dos Cravos, devidamente expurgada dos comunistas! Abaixo o salazarismo, o fascismo, o comunismo e o neoliberalismo!

Há um sujeito espanhol do mais direitista e neoliberal que há que tem direito a uma coluna regular de opinião no DN. Tudo bem. O vento que sopra de Leste pode trazer tanta coisa, porque não missionários e fanáticos da doutrina de Schumpeter? Miguel Angel Belloso propõe-se evangelizar os Tugas que ainda não viram a luz do neoliberalismo como ele. Declarações do próprio. [ainda ontem, no artigo intitulado «Porque não são iguais Sócrates e Rato»: «Deploro mais do que ninguém as consequências de tanta inércia (da direita de Rajoy), desta renúncia à luta intelectual porque é a ela que dedico neste momento a minha vida, inclusive, aqui em Portugal»].

Para este senhor, os socialistas (uns seres a exterminar) são uma espécie de ratazanas com pulgas, que espalham a peste negra por onde passam, deixando milhões de vítimas. Algumas bem próximas dele. Há dias, tinha uma coluna tão ridícula quanto hilariante, em que atribuía os desejos de pizza dos dois filhos (hoje com pouco mais de 20 anos, pelos vistos saudáveis sobreviventes da peste), numa viagem que fizeram a Roma com ele, e em visita à Capela Sistina à hora de almoço, atribuía, dizia eu, tais desejos insistente e “incompreensivelmente” manifestados sob tão famoso teto à educação pública que tiveram na era socialista… Já o desejo declarado de ambos de se tornarem empresários era atribuído à educação que ele próprio lhes dera… Só lido, porque, dito assim, parece impossível de acreditar.

Escrevendo para os portugueses, nada o inibe, nem o respeito pelo Estado de Direito, de vir ao território vizinho caluniar um antigo primeiro-ministro detido preventivamente, baseando-se nas notícias que, pelos vistos, lhe chegam do Correio da Manhã. Assim aconteceu há uns tempos (e na altura reagi) e assim aconteceu ontem, no já citado artigo, quando, a propósito da detenção, em Espanha, do ex-vice do governo de Aznar, acusa Sócrates de ser corrupto como esse senhor Rodrigo Rato (que também não foi ainda julgado), e de, pior do que Rato, nem sequer, ao menos, ter, como atenuante, implantado uma política de direita, perfeita e frutuosa como ele fizera sob as ordens de Aznar. Ainda se o tivesse feito…, mas, lá está, Sócrates era um agente bubónico socialista. As masmorras estão duplamente justificadas. O artigo é isto.

Escusado será dizer que, no seu mais «patriótico» ódio a Zapatero, causador de todas as desgraças atuais de Espanha, lhe passa totalmente despercebida, como sempre acontece, a crise internacional de 2008 decorrente das liberdades financeiras totais que ele próprio defende. Surpresa? Não. Este homem é um propagandista, em campanha permanente. Como os que conhecemos cá do burgo. Não percebo é a necessidade de se convidar um espanhol deste baixo calibre e do mais tendencioso/sectário que há a colaborar num jornal português de grande tiragem numa altura destas. Como se praticamente toda a imprensa em Portugal não fosse já de direita. Ainda se o espanhol fosse um neoliberalão respeitador do Direito e com nível! Mas nem isso. Acusar os socialistas de menosprezarem a cultura (como no referido artigo sobre a visita a Roma) não lembra ao diabo, sendo mesmo a última acusação de que os direitolas (e ignorantes) cá do burgo se lembrariam.

Ao André Macedo proponho a seguinte meditação: seria aceitável que, por exemplo, Wolfgang Munchau, Paul Krugman ou Nicolas Sarkozy, tivessem uma coluna regular num jornal português em que acusassem sistematicamente o ex-primeiro-ministro português, que nem foi ainda acusado de nada, de ser corrupto? Sem qualquer preocupação em citar os prováveis delírios do Ministério Público, nem pondo umas aspas no que se diz? Acusando direta e assumidamente, como nem os de cá fazem? Seria isso ético? Esses não o fariam. Então porquê este homem?

Bem esgalhado

A ‘troika’ em Portugal agora chama-se Portas, Passos e Cavaco

Vai ser interessante observar se Costa mantém, campanha eleitoral a chegar e adentro, a pressão sobre Cavaco. Visto aqui da janela, todas as razões e mais algumas recomendam essa táctica. Por um lado, tem o condão de unir a esquerda, o centro e até parte da direita numa repulsa comum. Por outro, é de elementar justiça não ter qualquer tipo de misericórdia com quem tanto mal fez à democracia portuguesa e quem conspurcou os dois mandatos presidenciais.

Costa, porém, é imprevisível naquilo que parece ser o mais previsível, pelo que temos de esperar.

Na rotunda do Marquês

Não é uma beleza esta sincronia entre as fugas ao segredo de justiça, e as acções públicas de Rosário Teixeira e Carlos Alexandre gerando parangonas, com os momentos de afirmação do PS de António Costa? Começou em Julho de 2014, e na altura a lógica dessa primeira fuga favorecia Seguro contra o socrático de Lisboa. Seguiu-se um tumular silêncio. Costa ganhou. E esperou. Quando se preparava para, solenemente, lançar o seu ciclo de afirmação política, o Ministério Público ofuscou e condicionou a ocasião com a prisão de Sócrates a dias do evento. Agora, em cima do lançamento de um importante documento económico que servirá de base à elaboração do programa e que prestigia o PS, alguém decidiu chamar de novo à ribalta a Operação Marquês. Porquê agora? As autoridades não estão obrigadas a dar essa explicação ao público. Talvez a ninguém. E, mesmo que fosse prática corrente, poderiam invocar o que bem entendessem para terem o calendário justificado sem direito a contraditório. Isso implica, por cima do poder judicial, um poder político de vastas consequências quando estão em causa acusações de corrupção dirigidas a um ex-primeiro-ministro e num ano eleitoral.

Mas não só. Os esgotos a céu aberto, onde se inclui o Observador, aproveitaram para espalhar que teriam sido apanhadas “provas” de corrupção no computador do gestor ontem detido, e que as casas de Paulo Campos e Mário Lino já tinham sido revistadas, ficando sugerido que eles serão os detidos seguintes e que novos processos serão abertos respeitando a outros casos de corrupção envolvendo governantes dos Governos de Sócrates. Serão? E se o forem, quando? Vai ser por alturas da apresentação do programa socialista, em Junho? Ou estará a investigação à Operação Marquês a obedecer ao pedido de Marcelo Rebelo de Sousa para que se lavre acusação antes do Verão, em ordem a que os prejuízos para o PS sejam os maiores possíveis? E por que razão a investigação demorou tanto tempo para ir vasculhar o computador de Joaquim Barroca? Não tinham medo que, passado quase um ano desde as primeiras notícias, ele apagasse as cenas, trocasse de máquina, derretesse em ácido o hardware ou mudasse os números no Excel? E como é que um jornal e seus jornalistas se permitem veicular as suspeições de algum agente do Estado a respeito do que está ou não está, vale ou não vale, na posse de um detido em cima do momento da sua detenção? Ou essas suspeições não nasceram nalgum agente do Estado, daqueles com nome e responsabilidade criminal, sendo tão-só puras invenções de certos jornais e de certos jornalistas?

Sócrates poderá ser culpado de corrupção. Ou poderá ter recebido prémios que, não configurando actos de corrupção, sejam infracções fiscais. Ou poderá ter mesmo pedido dinheiro emprestado, ou até emprestadado, a um amigo que o tinha para emprestar ou dar. Nada disso, que só se poderá aferir caso haja acusação, primeiro, e julgamento, depois, impede a presente constatação de que esta é uma prisão política como nunca se conheceu outra igual em democracia.

O «da freguesa» em campanha

Nuno Melo é quiçá o mais demagógico/malcriado/trauliteiro político a ocupar o espaço público. Dele é sempre de esperar uma brejeirice qualquer, invariavelmente sobre os socialistas. Se há coisa que o diverte, é bolçar baboseiras, trivialidades ou aldrabices para fazer rir a audiência. É, pois, sem surpresa que lemos a sua leviana crónica de hoje («Lá vamos nós outra vez»)  no JN, alusiva às propostas políticas e económicas apresentadas por um grupo de economistas para servirem de base ao futuro programa de governo do PS. E que diz ele? Sendo ele quem lá vem outra vez, as seguintes não surpresas que, de tão debitadas, já enjoam.

  1. Que os socialistas sempre levaram o país à bancarrota. Crises internacionais? Quais crises? Sócrates, que conseguiu um défice de 2,8 antes do eclodir da crise, foi, para Melo, o grande responsável pelo pedido de ajuda externa, dados os desvarios despesistas dos seus governos. Quais desvarios? Não diz. Quais as verdadeiras razões para o aumento da despesa pública, também não diz. Qual a responsabilidade dos governos do PSD e do CDS (nomeadamente enquanto partidos da oposição a um governo minoritário) na situação das contas públicas também não interessa. Os jornais e a televisão são, para este homem, uma espécie de camioneta de caixa aberta, de onde vende ao Zé Povinho maledicência e o seu produto.

  1. Que os socialistas prometem tudo em períodos eleitorais e nada cumprem, porque o que interessa são os votos. Isto é giro, porque basta ver os vídeos da última campanha eleitoral da direita e recordar o que se seguiu às eleições para termos a medida exata dos mentirosos. Também é interessante rever as intervenções de Paulo Portas na oposição sobre os contribuintes e os pensionistas.

  1. Que os economistas do PS não fizeram contas. Ora bem. Quem as fez foi o CDS, que, só pela boca de três dos seus militantes, já apresentou três números diferentes para a despesa que as propostas do PS implicam, nenhuma acompanhada de fundamento. Milhões atirados para o ar, para escandalizar a parvónia.

  1. Que a dívida que os socialistas deixaram era astronómica. Ora bem, é conhecida. 94% do PIB em 2010, já sob os efeitos da crise internacional. Em quanto é que já vai com a salvífica austeridade? 130%? E que benefícios para o país?

  1. Que houve obras faraónicas. Esta tecla já gasta devia dispensar comentários, mas deixo aqui alguns. Nem foram faraónicas, nem algumas delas se concretizaram, nem Nuno Melo tem em conta as orientações da Comissão até 2010 nem os incentivos e as condições dos empréstimos do BEI, nem a história da maior parte das PPP, nem a continuação das PPP noutros domínios com este governo, e por aí fora.

  1. Que, com este governo, o país voltou aos mercados e recuperou credibilidade. Nuno, és um pantomineiro. Isso aconteceu porque o BCE finalmente fez o que já devia ter feito há muito desde que a crise rebentou, acabando com a especulação em torno das dívidas soberanas, e porque este governo, com tudo a correr mal, se comportou como um cachorro acocorado junto de Angela Merkel, à espera de compreensão e de ser exibido como exemplo. Até Vítor Gaspar deu de frosques, ó Melo.

  1. Que a equipa de Costa é a mesma de Sócrates. Ou seja, que os «criminosos» serão, portanto, os mesmos, só um pouco mais velhos. Costa não é Sócrates e a equipa não é a mesma, mas mesmo que fosse, o passado foi um período de esperança, de orgulho, de confiança e de incentivo às capacidades dos portugueses. Não fora a crise internacional e teria sido um período verdadeiramente transformador – a nível económico, estrutural, administrativo, educativo e de mentalidades, como aliás já se sentia e verificava, motivo pelo qual a direita espumava de raiva e urdia campanhas demolidoras com a ajuda de Cavaco. O passado não era mau, era bom, e não foi Sócrates o responsável pelo pedido de ajuda externa. Muito pelo contrário. Foi a direita e a coligação negativa. O presente, esse sim, é mau, é péssimo, humilhante e, passe o paradoxo, sem futuro algum. E o que quer o CDS-PP? Mais do mesmo. Resultou tão bem.

Justiça do arco da velha

Atente-se nesta notícia e nos sublinhados (meus):

 

O Ministério Público (MP) arquivou a participação por denúncia caluniosa apresentada por dois ex-funcionários do instituto (IGFEJ) que gere o sistema informático CITIUS contra a ministra da Justiça, segundo o despacho a que a agência Lusa teve acesso.

A queixa de Hugo Tavares e Paulo Queirós assentava no facto de Paula Teixeira da Cruz ter efetuado participação criminal contra ambos com base em documentos onde não constava qualquer elemento que pudesse levar a concluir que tivesse sido praticado o crime de sabotagem informática a que se aludia no despacho assinado pela ministra a propósito do “Relatório de Avaliação do Processo de adaptação do Citius à Lei da Organização do Sistema Judiciário”.

Analisada a queixa em sede de inquérito, a procuradora Fernanda Tomé, da Comarca de Lisboa Norte, concluiu que no despacho proferido pela ministra da Justiça “não se nomeiam ou individualizam quaisquer entidades ou sujeitos, não se particularizam, omitem ou destacam quaisquer factos, nem se formulam quaisquer juízos de valor” suscetíveis de configurar o denúncia caluniosa ou algum outro ilícito.

Segundo o Ministério Público, o contexto em que foi produzido e “a literalidade do despacho ministerial sobre todo o enunciado no Relatório (…) não se adequa a suportar a suspeita de ter a ministra da Justiça prolatado tal despacho movida por outro propósito que não o de perseguir o exigível esclarecimento dos factos e a circunstâncias ali vertidos”.

O despacho de arquivamento salienta ainda que “pese embora a profusão de notícias e opiniões geradas em torno da temática, não se encontra referência objetiva” da ministra da Justiça à pessoa de qualquer dos assistentes (Hugo Tavares e Paulo Queirós) ou a alguma outra, e “não se deteta, também nos concretos elementos e referências noticiosas trazidas aos autos, a menção ao público” por parte da ministra a “específico ilícito penal, sabotagem informático ou outro“.

Refere igualmente que Hugo Tavares e Paulo Queirós “não são os únicos nomeados no Relatório“, nem os intervenientes únicos no desenvolvimento do processo de adaptação do Citius à nova organização judiciária, que entrou em vigor a 1 de setembro de 2014.”

Se bem entendi, Hugo Tavares e Paulo Queirós foram constituídos arguidos por suspeita de sabotagem informática, na sequência de participação criminal da ministra da Justiça. Isto depois de conhecido o relatório do Ministério *da Inspecção Geral da Justiça. Cessaram, nomeadamente, as funções que exerciam. No entanto, no despacho de arquivamento, a procuradora afirma, por um lado, que não se encontra, no relatório, referência objetiva a estas duas pessoas, e, por outro, que não são os únicos nomeados no relatório. Afinal são nomeados ou não são nomeados? E por que razão foram os dois constituídos arguidos, se a ministra se queixava de «incertos»? Bate isto certo com «o facto de a ministra ter efetuado participação criminal contra ambos»?

A vontade de ilibar a ministra passa por cima de todas estas contradições.

A ministra da Justiça é a Justiça. Ponto.

++++++++++

*Agradeço ao David Crisóstomo a correção. Afinal o relatório da IGJ, no qual se baseou a acusação da Ministra, menciona os dois técnicos, mas a Ministra não os nomeia no seu despacho. Posso também concluir que a notícia está algo confusa.

Ricardo in the sky with diamonds

Deixo a análise profunda das medidas apresentadas esta terça-feira pelo PS aos especialistas em economia. Há ali, felizmente, muita coisa para se discutir, o que é meio caminho andado para deixarmos a política de casos e podermos falar do futuro do país. É um bom ponto de partida para a oposição e para o governo. E um passo que o PS levou demasiado tempo (anos!) a dar: só agora é que o maior partido da oposição esqueceu os lamentos do PEC IV e de chorar os idos de 2011.


Mano do mano

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Ricardo Costa garante que só agora é que o PS se está a libertar do PEC IV e de 2011. Ricardo Costa acumula com a autoria desta ideia a responsabilidade de dirigir o Expresso. Ora, gostava de saber se o Ricardo Costa quando está a dar ordens no Expresso se encontra no estado lastimoso em que damos por ele ao garantir que o PS andou desde 2011 a chorar e a lamentar-se à pala do PEC IV e dos idos de 2011. Não seria rápido a concluir pela intoxicação alcoólica ou de outra origem, mas alguma forma de alucinação se abateu sobre a sua cachimónia.

Até finais de 2014, o secretário-geral do PS era aquela figurinha que jamais gastou uma caloria a defender o PS que em 2011 tentou livrar Portugal da Troika e do casal Passos-Relvas. Pelo contrário, Seguro estava alinhado com os permanentes insultos, ofensas e calúnias e com o discurso da punição que a direita martelava diariamente, tanto no aspecto das causas da crise (culpa de Sócrates), como no aspecto da moral da crise (PS de Sócrates era corrupto, daí Seguro ter como missão desinfectar a casa com a sua imaculada pureza). Em Setembro de 2014, aparece um novo secretário-geral. Ninguém lhe ouviu qualquer lamento ou choro a respeito do PEC IV ou de 2011. Aliás, nas pouquíssimas ocasiões em que se refere a esse período, mostra-se invariavelmente com pressa para sair do assunto e faz questão de frisar que tem críticas a apontar ao Governo socialista de então. Ainda mais espectacularmente para esta análise do que o aquilino Ricardo afiança, temos tido um António Costa calado desde a sua chegada à liderança do PS. Esse silêncio de meses exasperou muito boa gente, o que não provocou em ninguém foi a peculiar “trip” que o mano partilhou com os leitores do Expresso.

Esta é uma boa ocasião para lembrar que Sócrates não tinha em Março de 2011 condições políticas para continuar a governar. Não tinha porque não podia ter, porque Cavaco queria que ele caísse o mais rapidamente possível, porque não existia maioria no Parlamento e, acima de tudo, porque o PSD estava convencido de que a aprovação do PEC IV iria levar a que o Governo socialista conseguisse evitar o resgate. Então, não quiseram dar a mínima oportunidade a que tal pudesse acontecer e afundaram o País sem qualquer remorso. A lógica do poder pelo poder é a única a que obedecem.

Ricardo, quem não larga o PEC IV e os idos de 2011 é a direita decadente que tu apoias e para quem trabalhas. Bem podes limpar as mãos à parede.

Festina lente, Costa

António Costa começou o discurso no Pavilhão Rosa Mota, neste domingo, acelerado. Acelerado continuou. E ainda mais acelerado terminou. É preciso que alguém lhe diga para se acalmar se a ideia for a de acelerar o eleitorado.

Há características psicológicas em Costa que prejudicam a sua afirmação como líder e, muito provavelmente, estão também na origem da surpreendente inépcia estratégica que tem revelado. Por exemplo, no primeiro debate com Seguro a sua prestação foi comedida, tendo procurado passar uma imagem conciliadora, quiçá amistosa, no trato público com o então secretário-geral. Após o debate, todos os comentadores de direita aproveitaram a oportunidade para fingirem que Costa tinha perdido o páreo, que nem sequer se teria preparado. Tudo conversa da treta face à inanidade de Seguro, mas treta permitida pelo amadorismo ou sobranceria de Costa. O segundo debate levou-o para um urgente exercício de intensa pressão sobre Seguro, não deixando dúvidas quanto à percepção geral produzida. E o terceiro foi um misto dos dois anteriores, tendo esse debate acabado por ficar marcado pelo descontrolo emocional de Seguro. O ponto que realço é este: Costa mostra-se desconfortável em situações de antagonismo, parecendo não saber qual é a medida certa para a sua agressividade. Esta hipótese também radica na por si mesmo admitida imagem de ser alguém dado a provocar, ou a não impedir, explosões de violência emocional para com os seus subordinados. Exemplos vários poderiam ser dados, inclusive o modo ambíguo e passivo como lidou com a prisão de Sócrates, e ainda antes na forma como se exibia perante os ataques de carácter a Sócrates por parte do Pacheco e Lobo Xavier na Quadratura – marcas de um desequilíbrio entre dois extremos, a afirmação e a abstenção.

Referir estes aspectos da sua pessoa pública não pretende ser uma avaliação da sua capacidade como político. Costa é Costa é Costa, e assim será. Os factores que estão a prejudicá-lo são parte de um todo onde têm uma função que não pode ser desligada dos factores que lhe têm dado o sucesso político que obteve até agora, a sua reputação incluída. Todavia, algo poderá ser melhorado. E pode ser algo tão simples, aparentemente, como a alteração do quadro psicológico associado às suas intervenções tribunícias. Porque, como o exemplo da “Festa da Democracia” revela, ter um líder afectado pela ansiedade não é benéfico para si, para os seus e para a cidade.

Conselhos:

- Não querer imitar Fulano, Beltrano ou Sicrano.
– Começar devagar.
– Não gritar por convenção, gritar só por paixão.
– Falar para alguém, não falar para ninguém.
– Quando há algo para dizer a Passos, Portas ou Jerónimo, imaginar que Jerónimo, Portas e Passos estão ali, mesmo em frente, e dizer o que há para dizer como se.
– Nunca, mas nunca, gritar “PS, PS, PS” ao ritmo de uma metralhadora.

E prontos. Por hoje é tudo.

Revolution through evolution

Teaching children in schools about sexual abuse may help them report abuse
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Should a political party form a coalition? Voters and math decide
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Civic engagement may stave off brain atrophy, improve memory
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Faculty in doctoral programs more responsive to white male prospective students, research finds
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Nothing beats a good night’s sleep for helping people absorb new information, new research reveals
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Why Everything You’Ve Heard About Women and Negotiation Might Be Wrong
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Professional golfers live a lonely life in the midst of rivalries on a meager income
Continuar a lerRevolution through evolution

Verdade com sabor a laranja

Já em 2009, às portas das eleições mas com o País em pré-bancarrota, o PS de Sócrates usara da mesma estratégia. Aumentou os salários na função pública e reduziu a taxa normal do IVA e, pelo caminho, prometeu TGV's e cheques bébé.


Francisca Almeida

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Tendo convocado Yourcenar para um exercício que se esgota em tratar os socialistas como mentirosos, esta deputada do PSD introduz um acrescento refrescante na cassete da “bancarrota”: em Setembro de 2009 já estávamos em “pré-bancarrota”. Porquê? Não terá tido tempo, ou caracteres, para explicar. Aliás, talvez convenha nada explicar para não tirar encanto literário à imagem. O talento romanesco não carece do zelo e aridez da racionalidade demonstrável.

Acontece que o conceito “pré-bancarrota” é de irresistível utilidade. Pode ser aplicado sem limite lógico por ser desvairadamente plástico. Podemos até perguntar se haverá algum período na História onde os Governos, nacionais e internacionais, não tenham estado em “pré-bancarrota”; exclusão para os que, de facto, entraram em bancarrota e só durante essa altura. Por aqui, a Francisca está a representar com garbo a “política de verdade”, outro conceito que conhece muito bem posto ter sido eleita para o Parlamento sob a sua égide. A chatice começa quando nos recordamos do que não ouvimos nem lemos nesses idos de 2009. E não ouvimos nem lemos ninguém do PSD ou CDS a falar em bancarrota, pré-bancarrota ou ante-quase-pré-bancarrota. Do que se falava era das contas que as “gerações futuras” teriam de pagar por causa de umas estradas algures. E também se falava muito da “asfixia democrática”, do “Freeport”, “da PT e da TVI”, da “Manuela Moura Guedes”, do “clima de medo” e de uma malandragem que andava a espiar o correio electrónico do Sr. Cavaco. Pode dar-se o caso de essa asfixia ter reduzido drasticamente o oxigénio a circular pela mioleira dos estrategas da direita ao tempo, eventual razão pela qual deixaram escapar o tema da franciscana “pré-bancarrota”. Enfim, um dia o Pacheco revelará em livro o que realmente se passou.

A “bancarrota” está connosco desde meados de 2011 e não tem tido um dia de descanso. A campanha eleitoral da direita não terá muito mais para berrar do que esse estribilho. Se tudo se mantiver igual, e vai manter, não teremos direito a qualquer explicação acerca do que causou a tal festejada “bancarrota”. Terá sido causada pelo TGV que não chegou a ser construído e para o qual havia fundos comunitários, sendo que o projecto tinha nascido num Governo PSD onde contemplava 4 linhas? Terá sido causada pelo novo aeroporto que não chegou a ser construído? Terá sido causada pelas PPP cujos custos só iriam ser pagos pelas gerações futuras? Terá a “bancarrota” nascido do gasto em combustível de avião para carregar os computadores Magalhães daqui para fora? Terá a “bancarrota” aparecido como consequência do investimento em energias renováveis e consequente diminuição das importações de petróleo que originaram? Será que a “bancarrota” foi o resultado inevitável da instauração do Simplex? A lista é fastidiosa, pelo que nos daria muito jeito ter os arautos da “bancarrota” a fazerem uma pausa no estado de êxtase com que celebram a chegada da mesma e dignarem-se apresentar alguns dados carnudos para mastigarmos.

Claro que o problema se torna ainda mais bicudo quando olhamos para o que literalmente se passava em 2011 até à “bancarrota”. Tendo o Governo socialista apresentado um plano que continuava e alargava as políticas iniciadas em 2010, por imposição europeia, para diminuir as despesas do Estado, vimos a direita a chumbá-lo e a levar o País para uma crise política que de imediato o afundou nos mercados de financiamento, acabando por obrigar ao resgate em poucas semanas. Até parecia que a direita não queria mais medidas de austeridade e que assim anunciava aos portugueses e ao Mundo que vinha aí o fim dos sacrifícios.

Não sei se a Francisca Almeida se lembra desta história. Não sei se tem uma memória de Adriano. Mas lá que ela e o tempo são dois grandes escultores, isso fica patente na extraordinária capacidade para moldar o passado segundo o seu gosto e fantasias. Fantasias verdadeiras, obviamente, e com sabor a laranja.

Zeitgeist – A era dos liberais à portuguesa

Mariano Gago?!... Mas esse tipo não foi um socrático do pior, tendo andado a esbanjar o rico dinheirinho dos meus impostos em ciência, educação, tecnologia e inutilidades dessas só para o dar aos xuxas em vez de ir a correr guardá-lo para encher os nossos cofres? E a corrupção toda que ele andou a esconder e de que é cúmplice? Querem ver que não sabia dos milhões na Suíça que o cabrão andou a roubar com o amigo... LOL!! Ninguém fala nisso porquê? Por medo dos serviços secretos, e do Noronha e do Pinto Monteiro, né? Só pode... FILHOS DA PUTA. Ainda por cima era gago!!! LOLOLOLOLOLOLOLOL!!!!!!!!!!

A festa e a festança

Voltando a 2011, Pedro Passos Coelho considerou que, "mesmo quem não votou no PSD, sabe que a 'festa' não podia continuar e que era preciso ajustar".

Abril, 2015

"Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro", afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento do fórum de discussão "Mais Sociedade", no Centro de Congressos de Lisboa.

O PSD quis "vasculhar tudo" para ter contas bem feitas e, "relativamente a tudo aquilo que o Governo não elucidou bem", procurou "estimar", preferindo fazê-lo "por excesso do que por defeito", referiu.

Para Passos Coelho, a solução é "austeridade para o Estado" e quem lidera deve dar o exemplo, "porque isso tem um efeito multiplicador muito importante em toda a sociedade", o que só pode ser feito "mudando a liderança em Portugal".

Abril, 2011

“A nosso ver, o último pacote de austeridade não iria potenciar o crescimento mas impor sacrifícios inaceitáveis aos membros mais vulneráveis da sociedade. Eram demasiados impostos e uma redução de despesa insuficiente”, refere, num artigo que será publicado na quarta-feira na edição impressa do Wall Street Journal.

Março, 2011

Oposição: esqueçam a palavra austeridade

Nota-se mais pelo Governo do que pela oposição, mas, meninos e meninas, estamos em campanha eleitoral. Trata-se de uma altura em que as palavras importam. A palavra austeridade já cansa e, pior do que isso, não é nem nunca foi palavra que assuste. Se alguém disser «vem aí a austeridade» ninguém foge apavorado nem ninguém se revolta. Como, aliás, se tem visto. Assim, acusar o Governo de querer continuar a austeridade, dito assim nestes termos, é como fazer-lhe cócegas. Ser-se austero em matéria económica e outras não é necessariamente mau. A palavra austero significa, segundo o dicionário, “que é muito rigoroso nos seus princípios”, “sério e grave” ou ainda “que exige muito esforço”. A palavra austeridade com que se apelidam as medidas de saque fiscal e salarial em nome da contenção da despesa pública, mas na prática para recapitalizar bancos estrangeiros, não foi escolhida por acaso. O conceito de austeridade não é mal visto pela grande maioria das pessoas.

Parece-me, assim, pouco eficaz para quem quer denunciar a política de sangria do país levada a cabo entusiasticamente por este governo, apoiado no diretório europeu, acusá-lo de “querer continuar a política de austeridade”, caso ganhe as eleições. Não adianta nada. Não conquista um só voto. Não me parece que a ideia de rigor nas contas, de contenção dos gastos públicos e privados e de «dieta», literal ou figurada, associada à palavra austeridade seja algo de que as pessoas entendam dever libertar-se sem se sentirem esbanjadoras. Muito menos neste país ex- e neo-salazarento e algo beato. Facilmente, como aliás se vê, o Governo lhe contrapõe os alegados gastos excessivos dos socialistas, sem ter que demonstrar coisa nenhuma. Muito por causa da palavra austeridade.

É evidente que, na prática, a apregoada austeridade não é só isso (o rigor) ou até nem é isso. Na prática, é o empobrecimento geral da população, alegadamente para tornar o país mais atraente para os potenciais investidores. Como já se viu e sabe, esse empobrecimento, o pouco investimento que atrai (se atrai algum na indústria) é enquanto ainda subsistem trabalhadores formados e qualificados. Quando grande parte da população voltar a não ter educação suficiente nem qualificações, ou já tiver emigrado, vai-se investir em quê, sabendo-se da existência de Chinas, Vietnames, Índias e Marrocos neste mundo globalizado?

Esqueçam, pois, a austeridade. Falem em roubo, em expiação exigida a inocentes, em políticas de punição, em vergasta, em destruição do orgulho nacional. O que quiserem nesta linha. As palavras importam.