Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Interrogatórios imperdíveis da Operação Marquês

Onde Carlos Alexandre fica a saber que o engenheiro Carlos Santos Silva também andava a fazer obras na Polícia Judiciária e lhe dá conta de que um elevador estava avariado…

Carlos Santos Silva: E nós fazemos isso. Ainda agora, portanto, no edifício da Policia Judiciária, fomos nós que fizemos a revisão toda do projecto, portanto, e encontrámos também soluções, portanto, para o cliente; o cliente que era o Ministério da Justiça e, portanto, como havia a necessidade por determinação, portanto, da senhora ministra, portanto, reduzir o valor da obra em 15%, não é, e portanto…

Carlos Alexandre: Na… no Palácio, ali na Polícia Judiciária?

Carlos Santos Silva: Sim.

Carlos Alexandre: E embelezou aquilo também com umas soluções optimizadoras poupadoras de recursos?

Carlos Santos Silva: Certo. Não, ainda falta neste momento… só falta o Laboratório de Polícia Científica.

(…)
Carlos Alexandre: Sim, mas encontrou soluções optimizadoras.

Carlos Santos Silva: Sim, sim.

Carlos Alexandre:… luminárias e…

Carlos Santos Silva: Sim, sim e em conjunto.

Carlos Alexandre: … e elevadores. Um há dias foi lá, desceu demais e coiso.

Carlos Santos Silva: Não me diga que há problemas.

Carlos Alexandre: Houve lá um problema, houve, o elevador desceu de repente e tal. Mas pronto, depois
está parado… Parou naquela altura, acho que ainda não levou nada.

Carlos Santos Silva: E com… como sempre com a colaboração também das pessoas, portanto, nomeadamente o eng. Nelson…

Carlos Alexandre: Isso é uma coisa que aconteceu… O eng. quê?

Carlos Santos Silva: Nelson da Polícia Judiciária.

Carlos Alexandre: Ah, sim, sim… O engenheiro Nelson tem lá um gabinete e tal. Eu conheço.

Fonte: Observador

Longe da Dinamarca

Em matéria de escândalos, o maior de 2017 (até agora, mas ainda há tempo para superar a marca) na categoria imprensa é o da publicação de excertos de um suposto relatório de um suposto serviço de informação militar pelo Expresso. Tudo no episódio tresanda a golpada política, uma repetição da “Inventona de Belém” no que ao intento de ataque político e promoção de alarme público diz respeito. Primeiro, não compete a qualquer serviço de informação, militar ou civil, estar a coligir e tratar opiniões estritamente políticas e de natureza subjectiva. Segundo, mesmo que elas sejam inclusas nalgum relatório, serão sempre como apêndice de contexto e sujeitas ao sigilo institucional que justificará a sua recolha. Terceiro, a decisão de fazer chegar a jornalistas um relatório secreto que vai ser explorado sensacionalmente como arma de arremesso contra o ministro da Defesa configura um crime. Se não for crime já com moldura penal aplicável, de certeza que ficaremos a precisar de uma. Porque quem tal fez expôs material relativo à segurança nacional a quem não tinha autorização para o consultar, pode-se até esquecer o uso que depois foi feito do mesmo embora seja uma agravante.

As explicações dadas pelos responsáveis do Expresso ficam como um monumento à desonestidade intelectual, expõem impante aversão ao código deontológico da profissão. Agarraram-se à prova de terem na sua posse 63 páginas escritas por alguém, e que nelas estavam realmente as passagens que resolveram publicar e destacar. Assumiram a postura mental de uma criança de 7 anos que foi apanhada a meter as mãos no bolo de aniversário às escondidas antes da festa e que depois se desculpa repetindo que o bolo estava ali em cima da mesa, pelo que a culpa era de quem o lá tinha deixado. Mas nada quiserem assumir em resultado de todos os serviços de informação militar terem declarado oficialmente não terem produzido essa resma de folhas. Ou seja, perante a resposta estatal ao mais alto nível que colocava esse documento, no máximo, como uma peça cujo âmbito e resultados não tinham sequer entrado nas operações formais dos serviços secretos militares, e ainda menos tinha chegado aos órgãos institucionais servidos pelas secretas, os responsáveis por uma escabrosa e indigna notícia falsa optaram pela absoluta irresponsabilidade.

A coisa tem relação com outra coisa, chamada “Operação Zeus”. O que nela surge gravado na acusação, mas com provas que parecem indiscutíveis, será, por sua vez, o maior escândalo nas Forças Armadas até onde a minha memória alcança. Um escândalo em que os valores pecuniários envolvidos são a parte que menos gravidade tem. É o esquema, a sua extensão e a sua duração que mais importa legal, cívica e, acima de tudo, politicamente. Porque quando se põe como hipótese, nascida de testemunhos, que esse tipo de corrupção possa ocorrer há pelo menos 30 anos, e quando se olha para as patentes dos arguidos, então é perfeitamente legítima a suspeita de estarmos, apesar do choque, apenas a olhar para a ponta do icebergue. Isto também se liga, fundamentalmente, com a nossa imprensa (ou falta dela).

No caso do desaparecimento das armas em Tancos houve logo ao começo um aspecto que sobressaiu, tendo ficado ocultado no fluxo noticioso e opinativo seguinte – o da tensão, e mesmo conflito, entre as judiciárias militar e civil. Essa disfunção, posto que era suposto termos os dois corpos policiais a colaborarem exemplarmente, rebentou num novo escândalo, igualmente de imediato abafado, aquando da recuperação do material na Chamusca; onde a Polícia Judiciária Militar esteve no local durante um tempo indeterminado antes de ter chamado a PJ. Que se está a passar? Por mais jornalistas e jornaleiros que consultemos de nada de nada ficaremos a saber. O caudal noticioso e opinativo produzido tem sido um exercício clássico de baixa política e assassinato de carácter. Nesta autêntica campanha pela demissão de Azeredo Lopes, liderada pelo Expresso e pelo DN, a figura de Marcelo tem sido instrumental. Embora as suas declarações sobre o caso de Tancos sejam, literalmente, de um rigor institucional sem mácula – posto que se limita a dizer que se tem de investigar, e só depois apurar responsabilidades judiciais e políticas – elas são invariavelmente apresentadas como se fossem uma forma de crítica e pressão sobre o ministro da Defesa. Como se competisse ao Governo fazer o trabalho das polícias, é o que a imprensa portuguesa tem vendido desde que se tornou público o desaparecimento do armamento. Marcelo poderia pôr na ordem a comunicação social, mas também aqui está a fazer uma gestão política cuja lógica é similar à dos jornalistas: aproveitar os casos que apareçam para avançar com a sua agenda. Mas qual é a agenda dos jornalistas que fizeram uma jura para abater o Azeredo, antigo par com quem talvez tenham contas a acertar ou a quem não suportam o estilo por ser demasiado independente da pressão mediática para o que estão habituados?

A resposta, qualquer que ela seja, está ligada com esta evidência: nunca ninguém leu no Expresso, no DN, ou viu na SIC, ou ouviu na TSF, ou noutro órgão à escolha, uma reportagem, uma mísera notícia, que permitisse começar a desvendar o que se passa nas Forças Armadas; lá onde a corrupção, como se deixa indiciado pela “Operação Zeus”, criou um verdadeiro Estado militar. Em contrapartida, Azeredo Lopes tem mostrado conseguir enfrentar as pressões castrenses sem vacilar no respeito pelo interesse público e pela Lei, como se viu no caso do Colégio Militar. Quando vemos jornalistas a aceitar e publicar documentos apócrifos com ataques políticos canalhas, ou quando vemos jornalistas a perverterem declarações numa entrevista para criarem desgaste político e o abate de um governante, a única conclusão é a de que algo cheira a podre. E essa podridão está muito longe da Dinamarca.

Observando o Pedro Marques Lopes

Sou fã do Pedro, por isso segue um responso pelas palavras acima exibidas. Palavras que colocam a seguinte interrogação: como é possível, ó pá?

Como é possível carimbares de “referência” esse canal de um radicalismo ideológico serôdio que já nem na Soeiro Pereira Gomes se pratica?

Como é possível considerares de “referência” um canal de redistribuição do Correio da Manhã e de qualquer outro órgão da indústria da calúnia?

Como é possível dizeres que o “jornalismo” do Observador é “equilibrado” quando tanto nas opções editoriais como no corpo dos textos “noticiosos” o viés fanático e persecutório é ostensivo?

Não dou qualquer atenção ao assunto do financiamento do Observador, pouco me importando quem está a pagar as contas. A sua existência como órgão de comunicação é algo positivo, enchendo os bolsos de uns quantos com mais ou menos dinheiro e dando à direita decadente mais um espaço onde se pode rever e procurar alimento. Igualmente me deixa sonolento a questão da violência retórica praticada tanto nos textos de opinião como na cultura narrativa noticiosa. É lá com eles, que se fodam juntos. A quem dou valor é ao Pedro Marques Lopes, porque ele é um exemplo de como é possível usar um palco mediático para tornar mais salubre o espaço público. Este homem, em 2011 (foi ontem), votou em Cavaco, primeiro, e em Passos, pouco depois. Votou neles, fez campanha por eles, apesar de saber o que Cavaco tinha feito na “Inventona de Belém” e o que Passos fez a Portugal com o chumbo do PEC IV. O voto tem razões que a razão desconhece, é sabido. Mas depois, e rapidamente, conseguiu resgatar a sua lucidez e passou a dar nomes aos bois. Isso deixa-o como alguém que coloca a sua integridade intelectual e moral acima dos tribalismos. Virou socialista, comuna ou socrático? Só para os imbecis e os pulhas, para os restantes é uma voz que engrandeceu a sua autoridade. E é esse, exactamente, o busílis nesta opinião acerca do Observador, na qual volta a exibir a mesma cegueira afectiva que lhe manchou o currículo eleitoral em 2011.

Pedro, se fizeres uma busca por “Tecnoforma” nessa coisa onde dizes encontrar “jornalismo equilibrado e de referência”, o único resultado recente é relativo a uma declaração de Ana Gomes. Como é possível, ó pá?

Devíamos ir todos para o Panteão

Gostava de jantar no Panteão, esse monumento completamente desprezado na cultura e sociedade do rectângulo peninsular até há dias. Ou almoçar. Lanchar. Qualquer coisa menos tomar o pequeno-almoço, por causa do horário antipático. Fascinam-me espaços com um pé-direito de arrebimbomalho. Há nesse efeito arquitectónico uma estética do sagrado, ou uma consagração da estética, que provoca uma alteração de consciência, uma expansão da sensibilidade e da intuição. Para além desta experiência meramente subjectiva, encontro várias razões objectivas para defender o uso do Panteão, entre outros monumentos, para iniciativas festivas particulares. No caso dos jantares, essa é até uma supina homenagem dada a intimidade e o estatuto de uma refeição com aparato solene. Ir comer ao Panteão é tranquilamente uma das mais poderosas e populares formas de celebrar o seu simbolismo e a sua função cívica. Comemos de preferência onde e com quem nos sentimos melhor, esta é a lei universal. Se for perto de mortos, é porque esse mortos estão a fazer parte da nossa comunidade – e não é outra a intenção de se construir e manter algo como um Panteão. Isto liga-se com outro efeito objectivo, o da promoção do monumento, do seu legado histórico e cultural, da cidade de Lisboa e, por fim, de Portugal, que a realização de eventos particulares gera espontaneamente. Pelo que o único ponto a merecer alguma e distraída discussão é o preçário. Duas posições, antagónicas, aparecem legítimas: a daqueles que gostariam que se pedisse muito mais, de forma a ir ao encontro da especial qualidade do espaço, e a daqueles (grupo de que serei eventualmente o único representante) que aceitariam que se pedisse ainda menos, de forma a democratizar o acesso e permitir a mais pessoas desfrutarem do que ficaria como uma maravilhosa recordação: estar a despachar um cherne grelhado e a virar garrafas de vinho num cenário operático com aquela grandeza. Quem diz cherne grelhado diz bacalhau com broa ou bochechas de porco, não quero ferir susceptibilidades.

O que há de interessante nesta polémica esgota-se na figura de António Costa. O primeiro-ministro dos “nervos de aço” correu em ceroulas para o meio da rua a berrar que o último aluguer do Panteão para uma comezaina era uma cena “absolutamente indigna”. Rapidamente ficámos a saber da volumosa borrada que tinha despejado sobre a própria cabeça. Não só a lei que permitia as tais maiores indignidades tinha sido cumprida com absoluto rigor no episódio em que se alvoroçou como ficava no ar a ideia de não ser assim a modos que muito digno estar a reclamar contra algo que desde finais de 2015 já poderia ter alterado centenas de vezes. E a partir daqui só piorou, tendo de vir alegar desconhecimento do programa oficial do Websummit onde foi um dos principais participantes, e alegando desconhecer um jantar do Turismo de Lisboa realizado em 2013 no mesmo sítio e numa altura em que era Costa o principal responsável pela Câmara e pelo próprio Turismo de Lisboa. Isto para não falar nas restantes nove ocasiões anteriores em que os jantares e eventos particulares no Panteão se fizeram para gáudio dos presentes e absoluta indiferença dos ausentes – governantes, políticos e comentadores que apareceram agora aos gritos.

As reacções do PCP e BE são inanes, não merecem o gasto das calorias a falar delas. As reacções do PSD e CDS são desinteressantes, pois limitam-se a serem coerentes com a decadência onde medram. Essas são as mesmas pessoas que demoliram dois monumentos feitos de tempo, os feriados onde adoramos no calendário a instauração da República e a reconquista da Independência. Fizeram-no como instrumento de violência ideológica. Fizeram-no para mostrarem aos estrangeiros do Norte da Europa que estavam dispostos a tudo para castigar os madraços e estróinas do Sul que na sua existência secular de miseráveis e pobretanas tinham vivido “acima das suas possibilidades”. Fizeram-no a salivar de fúria e gozo. Apenas na figura de António Costa é que topamos com algo interessante. Na dele e na do seu Governo e do seu partido. Que significa este destrambelhamento, esta estupidez política?

Significa que Costa pode ser o que de melhor havia para acontecer na política nacional, como o acordo com a esquerda do PS e os resultados económicos e sociais comprovam, mas que, concomitantemente, ele é um líder com inconsistências estruturais. O espanto, talvez fingido, de alguns comentadores por a sua propalada experiência e habilidade política não o proteger de casos tão facilmente evitáveis, e outros onde se deixou cair sem qualquer laivo de inteligência ou sequer esforço para os evitar, só é possível para quem não quis ver o processo de conquista do PS a Seguro em 2014. Está lá tudo, e esse tudo é a imagem de alguém que daria sempre o melhor dos tenentes, mas que tropeça sob o peso da patente de general.

Interrogatórios que ficam para a História

Não posso deixar de voltar a fazer referência, aqui, a mais um artigo do Observador sobre interrogatórios a suspeitos da Operação Marquês. Estes artigos são um bocado deprimentes, por serem de paupérrima substância (finda a leitura, começa a ser regra perguntar-me “So what“?), mas ao mesmo tempo divertem-me ao darem-me testemunho das grandes preocupações do Ministério Público. Hoje trata-se da momentosa questão do blogue Câmara Corporativa e do seu principal blogger, António Costa Peixoto, conhecido pelo pseudónimo Miguel Abrantes. Pelo que se lê, o Ministério Público considera que o blogue não passava de um instrumento de propaganda e, só por isso, já condenável. Mesmo não o sendo (muito menos por encomenda, como confirma o seu principal autor, quando interrogado), eu gostaria muito de saber de onde surgiu a ideia daqueles procuradores de que, em política, não pode haver propaganda. E que toda a propaganda é má, se for favorável a determinado político. De onde raios vem esta ideia? Receio bem que nem eu queira saber a resposta. Mais uma vez, recomendo que leiam. Estas várias transcrições têm a vantagem de nos deixarem perceber a paranóia do  Ministério Público com tudo o que tivesse uma ligação, por ínfima ou marginal que fosse, ao agora acusado.

António Peixoto, além de defender as políticas do governo Sócrates e dar guerra (sempre com fundamento e muitas vezes documentadamente) à miserável oposição, escrevia num português impecável, estava bem informado e atento, tinha sentido de humor, tinha colaboradores de igual excelência, punha a cabeça à roda à direita, enfim, era o que se considera a lâmpada mais brilhante do candelabro em blogger político. Não seria natural que, mais tarde ou mais cedo, amigos comuns o apresentassem a Sócrates? Há alguma coisa de anormal no facto de um primeiro-ministro saber da existência de um blogue de apoiantes e de os querer conhecer? Há alguma coisa de anormal em querer a colaboração de um apoiante com a sua qualidade, experiência e formação para a revisão das suas teses académicas ?

Eu escrevo aqui no Aspirina B desde o tempo em que Sócrates ainda era primeiro-ministro. Defendi as suas políticas como muita gente que conheço. E como milhares de pessoas que desconheço, já que mais de um milhão de portugueses votou nele para as legislativas. Não o conheço de lado nenhum, nunca falei com ele, não conheço nenhum elemento do seu círculo de amigos, nunca fui contactada por ninguém, em suma, sou uma espontânea, uma patega, e, pelos vistos, também uma cúmplice de um terrível crime. O Ministério Público, quer por razões de ignorância quer por má fé, parece entender que deveria ser impossível, se não proibido, alguém estar de acordo com as políticas seguidas por Sócrates. Ora, este é um muito mau princípio para quem se dispõe a lançar um processo da envergadura da Operação Marquês e revela perceber tão pouco do processo político. Estes interrogatórios, e a sua publicação, contribuem enormemente e apesar deles para nos fazer duvidar dos grandes princípios em que assenta toda a tese da acusação.

 

Uma coisa é a investigação sobre a origem do dinheiro e sobre a relação de Sócrates com Carlos Santos Silva. Investiguem, façam-lhes as perguntas que quiserem e eles que se expliquem: se eram empréstimos, se eram adiantamentos, se havia uma sociedade não convencional, enfim, averigúem. E averigúem se de alguma maneira as relações de amizade de um ex-primeiro-ministro com um empresário amigo prejudicaram o erário público, evidentemente. Agora, que se queiram misturar nessa cassarola as relações normais entre pessoas com a mesma filiação política e respectivas práticas correntes (como a associação de pessoas em blogues) e considerá-las como altamente suspeitas e intrigar nos jornais acerca delas é outra coisa bem diferente, que não devia acontecer.

 

Repare-se neste extraordinário comentário ao mesmo artigo do Observador:

maria perry

Ficámos a saber, sem dúvida alguma:

1) João Galamba e Pedro Adão e Silva fazem parte da máquina dissimulada de propaganda do PS. Muito provavelmente eram colaboradores da Câmara Corporativa, pois se não fossem este Peixoto teria logo respondido que não eram.

2) A máquina de propaganda envolve blogues, artigos de jornais e livros sendo este Peixoto um dos revisores/escritores.”

Que horror! Ó João Miguel do Público, não queres escandalizar-te com esta pouca vergonha?

Relações banais entre actores políticos ou simplesmente amigos e instrumentos banais de influência política passam a ser automaticamente vistos como grandes canalhices ou até crimes. Basta saírem no Correio da Manhã e quejandos. Lembre-se que este mesmo comentário é escrito num diário digital que mais não é do que um órgão de propaganda política da direita passista, propaganda, esta sim, remunerada desde a criação deste blogue gigante. Neste caso já não interessa saber por quem, não é?

 

Revolution through evolution

Boys could benefit from greater numbers of girls in schools
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Love actually: Americans agree on what makes people ‘feel the love’
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Hearing an opinion spoken aloud humanizes the person behind it
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Archaeologists unearth ‘masterpiece’ sealstone in Greek tomb
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Why do we believe in gods? Religious belief ‘not linked to intuition or rational thinking’
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Are Politicians Smarter Than CEOs?
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How to Be Cool
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Continuar a lerRevolution through evolution

Apit’o comboio, lá vai à apitar

Meu caro Eric e Yo, onde foram buscar a ideia que os 149 milhões é para pagar um projeto, nomeadamente o da elaboração da proposta ao concurso público?

Os 149 milhões, de acordo com a decisão do tribunal arbitral, foi para pagar os custos incorridos pela ELOS (empresa vencedora) entre a data de adjudicação do TGV (maio de 2010) e a data em que o Tribunal de Contas chumbou o contrato (Março de 2012) mais os custos de elaboração da proposta (cerca de 14 milhões).

Nestes custos incluem-se:
– Cerca de 60 milhões com os custos incorridos com os bancos financiadores, nomeadamente juros sobre os empréstimos realizados e os custos fixos de estruturação e montagem do financiamento contratualizado (entre Maio de 2010 e março de 2012);
– Cerca de 68 milhões de despesas ocorridas com o contrato de empreitada (entre Maio de 2010 e março de 2012);
– Cerca de 9 milhões com despesas diversas, advogados, contabilistas, sede, seguros e outras despesas de funcionamento (entre Maio de 2010 e março de 2012);
– e os já citados 14 milhões de custos com a elaboração da proposta.

Mas já que este tema é debatido com pouca informação disponibilizada publicamente não deixo de notar algumas curiosidades.

Primeira curiosidade: o contrato celebrado com a ELOS não foi executado por decisão política do governo de Passos Coelho, ver programa de governo, aprovado na AR em Julho de 2011, declarações públicas e vários outros documentos estratégicos, nomeadamente Plano Estratégico de Transportes (2011). No entanto, o contrato caiu não por decisão política mas por chumbo do Tribunal de Contas (em março de 2012).

Porque se optou por essa estratégia, usar o estado-jurisdição (Tribunal de Contas) para chumbar um contrato que o estado-administração (governo) já tinha decidido chumbar?

Será que essa decisão, de usar o Tribunal de Contas para chumbar o contrato foi premeditada para possibilitar o acesso mais fácil ao ressarcimento das despesas? Note-se que se se recorresse às vias comuns para ressarcimento de despesas o processo teria ainda muitos anos para ser discutido judicialmente.

Segunda curiosidade: Quais as razões do chumbo do Tribunal de Contas?
O TC elencou várias razões, mas não deixa de ser curioso que entre elas estavam algumas que são responsabilidade do estado-administração pós Julho de 2011. Por exemplo, o TC, aponta no seu acordão que o facto de, ao contrario do verificado no governo anterior, não existir em Orçamento verbas para o TGV (Comportabilidade Orçamental) é razão suficiente para não atribuição de visto e consequente chumbo. Por outro lado, a ultrapassagem de todos os prazos para fornecimento de informação junto do TC também é razão para que a execução material do contrato fosse suspensa o que não aconteceu. Isto é, o estado administração que já tinha tomada a decisão de suspender o TGV usou o estado-jurisdição para obter uma decisão de chumbo (por exemplo, o não envio da comportabilidade orçamental, da responsabilidade do estado-administração, é razão suficiente para o chumbo). Por outro lado o estado administração ao deixar ultrapassar todos os prazos junto do estado jurisdição e ao não suspender a execução material do contrato incorreu em que custos que facilmente não teria incorrido.

Daqui resulta a terceira curiosidade: Porque razão a Secretaria de Estado das Infraestruturas (Sérgio Monteiro) adiou e adiou o envio dos documentos necessários para que o TC procedesse à tomada de decisão?

Na decisão do Tribunal Arbitral fica claro que a REFER insistiu por diversas ocasiões junto do Secretário de Estado Sérgio Monteiro (que detinha a tutela do caso) para que o processo fosse enviado para o Tribunal de Contas. O Tribunal Arbitral cita mesmo uma carta em que a REFER dá um prazo ao Secretário de Estado para enviar o processo para o Tribunal de Contas ou a própria REFER o faria na ausência de ação por parte do Secretário de Estado.

Depois de várias insistências nomeadamente da REFER, que duraram meses, depois da decisão política de suspender o TGV, tomada em Julho de 2011, apenas em 7 de Março de 2012 o Secretário de Estado enviou o processo para o tribunal de Contas, tendo o TC tomado decisão passado cerca de 15 dias.

Quarta curiosidade: Tendo tomada a decisão política em Julho de 11, tendo ultrapassado os prazos de resposta ao TC que obrigam, de imediato à suspensão da execução material dos contratos, porque é que o governo de Passos Coelho não mandou, em Julho de 2011, suspender todos os atos da concessionária. e evitou o acumular diário de custos da Elos?
Porque deixou arrastar o processo e só em Março de 2012 respondeu ao TC?

Quinta curiosidade: Porque é que em cima de cerca de 60 milhões de custos com os Bancos, incorridos, em sede de Tribunal Arbitral, o estado, por sua livre iniciativa e decisão, transferiu para a Parpública contratos de financiamento da ELOS que tinham associados 4 Swaps, que de acordo com o Relatório de Contas da Parpública (2016) trouxe para o estado mais de 200 milhões de euros de prejuízo (os 200 milhões apenas se referem a 3 swaps, os custos do 4º não estão quantificados porque entretanto foi transformado num contrato a taxa fixa de mais de 8% ao ano!!!!…
Quem tomou esta decisão de transferir este contrato de financiamento ruinoso?

Sexta curiosidade: Porque razão no meio disto tudo andam pessoas que ora representam os interesses dos privado ora representam os interesses do estado?
Recorde-se que:
– Sérgio Monteiro era o homem que estruturou o financiamento à ELOS, tendo assumido mesmo as funções de administrador da ELOS e aparentemente foi o homem decisivo que, em nome do estado, esteve envolvido em todas as curiosidades acima apontadas?

– Ribeiro dos Santos, arguido na operação marquês, foi parceiro do Grupo Lena desde os anos 90, foi nomeado para a RAVE (empresa que geria pelo estado o processo da Alta Velocidade) pelo governo de Durão Barroso, mais tarde, foi demitido pelo governo de José Sócrates e assumiu a administração do Grupo Lena (acionista da Elos) e, depois, voltou a ser nomeado, por Sérgio Monteiro, para a REFER e IP, empresas que absorveram a RAVE e tratam do processo da Alta Velocidade.

– João Grave, citado na operação marquês, nomeado para a Estradas de Portugal pelo governo de Santana Lopes, mais tarde, foi demitido pelo governo de José Sócrates e assumiu a administração do Grupo Lena (acionista da Elos) e em nome deste Grupo foi eleito administrador da ELOS, onde foi colega de Sérgio Monteiro. Depois, voltou a ser nomeado, por Sérgio Monteiro, para a administração da Estradas de Portugal.

Pedro Gonçalves – Presidente da Soares da Costa (maior acionista da Elos), foi nomeado por Sergio Monteiro para elaborar o Plano Estratégico de Transportes e constituiu o Fundo Valis, que absorveu varias empresas de construção, nomeadamente a Edifer (acionista da Elos) através da cedência de créditos de instituições financeiras (nomeadamente BCP e CGD (também acionistas da Elos) à época geridos por António Ramalho e Sérgio Monteiro).

António Ramalho – Nomeado pelo governo de Durão Barroso para a Rave, onde foi colega de Ribeiro dos Santos, e para a CP. Não foi reconduzido por José Socrates e, entre outras funções, assumiu a administração da Soares da Costa com Pedro Gonçalves. Á época da constituição da ELOS e do concurso da Alta Velocidade, António Ramalho era administrador da Soares da Costa. mais tarde saí da SC e vai para o BCP (também acionista da ELOS) onde constitui, através da cedência de créditos do banco, o fundo Valis, presidido por Pedro Gonçalves, que inclui a Edifer (acionista da Elos). Finalmente, a partir de 2012, por nomeação de SM passou a ser presidente da Estradas de Portugal e da IP (que absorveu as funções da RAVE e da REFER) tendo como colegas de administração, Ribeiro dos Santos, João Grave e como Fiscal único Vitor Almeida.

– Vitor Almeida – Fiscal único da Elos em simultâneo com a participação de SM no Conselho de Administração da Elos, mais tarde foi nomeado, por Sérgio Monteiro fiscal único da IP, empresa que absorveu a RAVE e a REFER.


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Oferta do nosso amigo João Santos

O que querem os homens?

Num ano sem eleições presidenciais na fabulosa e hollywoodesca América, a October surprise foi protagonizada pelas mulheres que denunciaram a conduta sexual de Harvey Weinstein. O próprio reconheceu a veracidade dos relatos, iniciando-se com a queda desse gigante da indústria cinematográfica uma avalanche de casos similares envolvendo outras figuras dos meandros do espectáculo. Corrente que não se sabe quando nem onde irá parar. Aliás, a dimensão do fenómeno é tal que a perspectiva de se descobrirem “oficialmente” os “podres” da maioria das estrelas consagradas seja qual for a sua área de actividade profissional, obrigando ao seu ostracismo e ao apagamento da sua memória, já não surge como um cenário de desvairada ficção à luz do que se está a fazer com Weinstein e Kevin Spacey.

Estamos a assistir a um momento de mudança de paradigma? Foda-se, claro que sim. Basta analisar o caso inicial, o qual era do conhecimento generalizado do meio durante décadas e que só foi denunciado no final de 2017 – apesar de tantas mulheres, e tão poderosas no seu estatuto e recursos financeiros, terem sido vítimas ou saberem dos abusos. Apenas uma coerção social tácita, nascida de um calculismo dominante, explica o prolongamento e extensão dos actos de alguém tão exposto pela sua notoriedade e descontrolo. Portanto, independentemente do imprevisível desfecho judicial e das voláteis convulsões morais, a dimensão social parece suficientemente alterada para levar a uma mudança cultural.

Seguir-se-á uma nova era, sendo que por agora a sexualidade masculina é o novíssimo continente desconhecido. Como se pode constatar neste artigo – Why men use masturbation to harass women – os especialistas consultados não fazem sequer a mínima ideia do que poderá estar a gerar comportamentos como os atribuídos ao hilariante Louis C. K. Porém, a resposta encontra-se à vista dos curiosos, basta assistir aos seus números em palco para tropeçar em conteúdos retintamente pessoais. E pode-se logo agarrar numa primeira questão: será possível separar a qualidade do seu humor, a eficácia dos seus quadros teatrais, do drama em gente onde o material criativo é arrancado da sua privacidade? Teremos de inverter a vexata questio freudiana, “O que querem as mulheres?”, e darmos atenção a estoutra, potencialmente ainda mais enigmática, “O que querem, afinal, os homens famosos e poderosos que batem pívias à frente do mulherio?”

Todos os homens são sexualmente predadores. Se não o forem, algo de errado se estará a passar. Não há moral nesta realidade, apenas biologia. Uma mulher não poderá jamais saber em que consiste esse estado – ou seja, a mulher não sabe o que é ter “tesão” – tal como um homem não poderá jamais saber o que seja ter o período ou estar grávido. Assim, as mulheres não compreendem o desejo masculino, embora se adaptem com maior ou menor facilidade a ele. Igualmente, os homens não entendem o desejo feminino, e, acima e antes de tudo, não concebem que a mulher possa ter uma radicalmente diferente motivação e dinâmica sexual. Era aqui que o tio Freud patinava, projectando na fêmea o seu masculino e, portanto, redutor e erróneo entendimento do que seja a experiência feminina. Este estado predatório nos homens não é uma escolha, antes uma condição que a biologia e a cultura têm ambas reforçado. O falocentrismo que origina nasce tanto da exterioridade anatómica do pénis como da procura das recompensas químicas geradas nos cérebros masculinos com a fácil ejaculação e, por fim, cristaliza-se numa celebração simbólica inserida numa “luta de géneros” muito parecida com uma luta de classes.

Há uma história imensa por contar. É a história do homem como sexo fraco. E ridículo. Por isso, violento. Por isso, violentador por exigência mecânica. E tão periclitante e efémero na sua erecção sempre triunfal. Que seria deste mundo se as mulheres contassem tudo o que sabem desses seres a quem suportam a fragilidade logo na família, tantas vezes, e ao longo de toda a vida, invariavelmente? Elas ainda não estão capazes de contar o que testemunham directa e indirectamente. Na família, nos amigos, nas festas, no emprego, nas férias, nos consultórios, nas saídas, nas conversas, nos quartos. Mas tinha de se começar por algum lado. Começou-se por um celebérrimo ogre. Só que esse, paradoxalmente, era um alvo fácil. Venham os mais difíceis, os ogres que as mulheres amam. Os ogres que as mulheres perdoam. Os ogres que as mulheres protegem.

Nunca ouviram falar em infecções hospitalares?

Uma coisa é ver o Hugo Soares, cuja única especialidade é a de usar vítimas mortais como arma de arremesso político, a culpar o Estado pelo surto de Legionella. Outra coisa é ver os jornalistas a mostrarem a sua ignorância em relação às infecções hospitalares. O Paulo Tavares, por exemplo, que até critica o PSD por estar a “cavalgar o momento”, faz igual ou pior. Para este jornalista, é incompreensível que os cidadãos que procuram tratamentos de rotina num hospital público acabem infectados com uma bactéria potencialmente mortal. Compreende-se, ainda por cima, como revela aos leitores, esteve há dias com o filho num grande hospital público. Aparentemente, o que o choca é que este surto tenha surgido num hospital, como se nunca tivesse ouvido falar em infecções hospitalares. Mas elas existem, são um gravíssimo problema, são causadas por inúmeras bactérias, algumas resistentes aos antibióticos, e são responsáveis por milhares de mortes por ano. Em 2013, por dia, 12 pessoas morreram com infecções hospitalares. Um número sete vezes superior ao das vítimas de acidentes de viação. Não se percebe, portanto, por que raio os jornalistas só se preocupam com a Legionella.

Mas se é para provar que, mais uma vez, o Governo está a falhar, façam-no em grande. Ponham-se à porta dos hospitais e abram os noticiários diariamente com o número de vítimas e o nome das bactérias responsáveis pelas infecções. De caminho, chamam a atenção para um problema que é global e cuja resolução, nada fácil, depende de todos. E talvez deixem de pensar que sem Legionella os hospitais são locais seguros para levarmos os nossos filhos.

Há jornalistas mas não temos imprensa em Portugal

Depois da leitura deste texto – Sócrates: quem ficou refém de quem – do episodicamente interessante João Pedro Henriques, gostava que o autor arranjasse uns minutos para responder às seguintes perguntas:

– Qual é o problema de se ter acrescentado no contrato a norma relativa aos 149 milhões de euros? Essa inclusão foi ilegal? Tem a certeza de que o consórcio ELOS não gastou dinheiro, nesse valor ou aproximado ou superior, em preparação da obra numa fase prévia ao do visto do Tribunal de Contas?

– Admitindo que JPH é um jornalista conhecedor dos processos relativos a essa adjudicação, estará em condições de explicar qual a relação de algum membro do Governo de então, e para essa decisão específica, com esse júri na berlinda? Se está, porque não incluiu no seu texto essa causalidade? Se não está, como se atreve a estabelecer um nexo difamatório e calunioso?

– Supondo que JPH é um jornalista na posse de todas as suas faculdades mentais e direitos inerentes à sua carteira profissional, que explicação dá para não se ter constituído arguido no “Processo Marquês” qualquer outro elemento do Executivo de Sócrates nem qualquer outro elemento do júri a quem atribui a entrega de 149 milhões de euros a entidades que os meteram ao bolso “sem construir um centímetro de linha”? Não tendo, não achará necessário ir à procura dessa explicação recorrendo à sua autoridade profissional e demais recursos da empresa onde trabalha? Ou também partilha da convicção de que Sócrates, talvez por telepatia ou artes mágicas, levou o júri a dar essa montanha de dinheiro aos bandidos?

– Crendo que JPH é não só um jornalista maturo e reputado (escreve num órgão da chamada “imprensa de referência”) como também um cidadão decente e preocupado com a qualidade da Justiça, donde lhe vem a baixeza de estar a falar em modo justiceiro de taberna sobre factos colados com cuspo e que não fazem qualquer sentido assim que se dissipa a fumarada da pulsão linchadora? Ou, então, que sentido achará que faz opinar sobre suspeitas de corrupção que atingem tantas empresas e indivíduos sem ter prova de coisa alguma mas feliz da vida por ter ocasião de teclar a sua impotência e paranóia?

Estes textos de “opinião”, de jornalistas com décadas de profissão e ocupando lugares de grande destaque mediático, onde se repete o discurso taxista do “andam todos a roubar”, não se limitam a espelhar o mundo subjectivo dos seus autores. São igualmente, por inerência sociológica, o retrato de uma classe mediaticamente inútil e civicamente tóxica – salvo honrosas excepções.

Revolution through evolution

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A direita não sai do seu velho ciclo

Para desespero da direita, ainda não foi desta que Bloco e PCP roeram a corda do Orçamento. O resultado das Autárquicas alimentou-lhes a esperança da vinda do tão esperado novo ciclo, como não aconteceu, alguns atacam o documento agora aprovado, enquanto outros usam como única arma de arremesso político a tragédia dos incêndios. E há ainda os que misturam tudo como faz o Pedro Marques Lopes, esta semana, na sua crónica no DN.

Diz ele que “o Orçamento do Estado para 2018 é uma espécie de documento de “depois logo se vê”.” Confesso que demorei um bocadinho, mas acabei por concordar. Afinal, há aqui uma diferença, os orçamentos da direita eram mais do tipo “vê-se logo”. Via-se logo que eram inconstitucionais, via-se logo que as contas estavam aldrabadas e que seriam necessários vários orçamentos rectificativos e, sobretudo, via-se logo que o País continuaria a marcar passo. Mas fiquei a pensar e o “depois logo se vê” deve ter sido inspirado na campanha dos candidatos à liderança do PSD. É que, tirando o campeonato dos afectos, não se lhes conhece ideia alguma para o futuro do País. Aliás, “depois logo se vê” podia ser o lema do velho ciclo da direita. Adiante.

Mais abaixo, o Pedro Marques Lopes, informa-nos que “a grande questão é que este Orçamento revela o labirinto sem saída desta solução governativa”, e que “o Orçamento grita isso, está bem à vista que os entendimentos em aspectos fulcrais para o país são impossíveis com esta solução governativa”. Até aqui, os aspectos fulcrais para o País têm sido o défice, a dívida, o crescimento da economia, o desemprego, etc.. Como esses aspectos estão bem encaminhados, e o Orçamento assim o prova, no entender de PML, e se calhar bem, os aspectos fulcrais passaram a ser “as mudanças na Segurança Social, prioridades para o investimento público, reformas no ordenamento do território, acordos para reformar a Justiça, entre outros.” E que os mesmos “são impossíveis de obter no quadro da geringonça.” Não sei se é impossível o Governo realizar essas reformas com o apoio do BE e do PCP, mas sei, e o PML também, que sem o acordo do PSD, pelo menos, são reformas com muito pouco alcance. Ou seja, não são reformas, são apenas umas medidas que o governo seguinte revogará assim que tiver oportunidade.

O que me leva ao tal labirinto. Ao contrário do que diz o PML, os labirintos normalmente têm uma saída e o PS, o BE e o PCP têm conseguido encontrá-la. Já no PSD não se movem num labirinto, isso implica percorrer caminhos, sendo que alguns até os poderiam levar ao entendimento com a esquerda para os tais aspectos fulcrais. Movem-se em campo aberto, mas, tendo em conta as coisas sem nexo que gritam, devem andar todos de olhos vendados.

Oscar da hipocrisia para a Netflix

Será que a Netflix não vê as próprias séries que encomenda? Acaso Kevin Spacey não andou desde o primeiro episódio de House of Cards a exibir em frente às câmaras o monstro de perfídia que é, onde se inclui a oculta paneleiragem e um extenso rol de crimes ao longo de 6 temporadas? Porquê só agora a reacção?

A moca de pregos do Chico Mota

Francisco Teixeira da Mota teve recentemente ocasião de publicar o seu entusiasmo pela existência de uma acusação contra Sócrates, a qual antecipa ir gerar condenações porque os “circuitos do dinheiro” chegam e sobram para engaiolar a bandidagem, é limpinho. Logo de seguida, expôs o seu êxtase resultante do excelente trabalho que o Correio da Manhã fez na recolha dos sinais exteriores da corrupção socrática, o qual carimba como jornalismo exemplar. Hoje, junta-se ao coro dos que pretendem que os juízes portugueses se dêem ao respeito e ponham na ordem Neto de Moura, um juiz cujos fundamentos para atenuar uma pena por violência sobre uma mulher causaram justo escândalo – a decisão e os fundamentos.

Que têm estes três artigos em comum? A temática das decisões judiciais e dos direitos dos arguidos e das vítimas de crime, para começar. E o Chico Mota e o jornal Público, para acabar ou recomeçar. Ficamos a saber que há juízes que não podem mijar fora do penico calhando a matéria envolver mulheres como vítimas de homens. Algo que não oferece dificuldade de maior para perceber e aceitar. Todavia, se um juiz apanhar certos arguidos envolvidos em suspeitas de corrupção, então não só pode fazer o que lhe der na gana como até deverá facilitar práticas criminosas que facilitem a condenação na opinião pública do arguido, haja ou não haja condenação em tribunal. O Chico não identifica qual seja a origem na sua pessoa da vigência do duplo critério, mas desconfio que não valha o gasto de calorias para dela tomar conhecimento.

O seu caso é apenas um de uma enorme maioria na imprensa dita de referência. Em colunas e espaços de opinião, de forma festiva, e nas linhas editoriais, de forma tácita, celebra-se o triunfo da imediata condenação de Sócrates num auto-de-fé jubilatório. Os abusos e crimes da Justiça, de que Sócrates é factual vítima, são silenciados, ou justificados ou aplaudidos. E até o espectáculo de vermos um juiz de instrução a dar uma entrevista onde goza com um arguido, sobre o qual tinha já tomado decisões judicias e outras mais teria de tomar, foi desfrutado com prazer infinito pela turba do linchamento. Carlos Alexandre, na entrevista à SIC, esforçou-se – ao ponto de repetir as alusões – em publicitar a sua convicção da culpabilidade de um cidadão na altura sem sequer ter acusação formada. Pelos vistos, e tal como os seus pares e demais decisores deliberaram, tal não chegou para pôr em causa as suas condições para ser “imparcial”, para “fazer justiça”. Uma justiça, portanto, feita pelas próprias mãos. Umas mãos isentas, limpas, probas, nascidas para apanhar a malandragem dos políticos e ricalhaços corruptos, como teve demorados minutos a explicar com detalhe biográfico ao povo.

A violência do Chico Mota ao usar o seu palco na comunicação social, e o seu estatuto de jurista, para se substituir à Justiça não é menor do que aquela que marido e amante exerceram com uma moca de pregos sobre uma mulher a partir da entusiasmada e extasiante convicção de culpabilidade desses dois valentes.