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Das vantagens de Ventura ficar em 2º

Sem pandemia, seria impossível a Ventura ficar em 2º lugar nas presidenciais. Com ela, e com o estado de factual catástrofe de saúde pública e de crescente pânico social a afastarem eleitores acima dos 50 anos, a que talvez ainda se junte o mau tempo no dia das eleições, os resultados são completamente imprevisíveis. As sondagens não vão ser capazes de acertar. É um cenário análogo, mas para muito pior no campo da previsibilidade, ao do primeiro referendo ao aborto.

Contudo, há uma ponderação que pode já ser feita com segurança: ter Ventura em 3º lugar, colado a Ana Gomes ou a uma pequena distância, é um triunfo para ele e uma derrota para ela e restantes candidatos. Servirá todos os propósitos de uma candidatura que foi levada ao colo pelos jornalistas, os quais condicionaram disfuncionalmente aquilo a que se resumiu a campanha: os debates.

Ontem, um artigo de Vasco Rato avisava a falange para abandonar o barco. Ventura tinha-se entusiasmado e borrado a pintura, lamenta-se o autor, assim deitando a perder um projecto lindo que estava tão bem encaminhado. O limite tinha sido ultrapassado na bestialidade e baixeza dos ataques a Marisa e Jerónimo, explicou. Defender Salazar, enfiar Nossa Senhora de Fátima no bolso, atacar um papa, abraçar evangélicos, perseguir minorias, brincar aos racistas, alimentar aberrações morais e políticas, prometer prender democratas, isso um Vasco Rato aceita e até curte em nome do castigo à esquerdalha. Agora, vê-lo em Guimarães a exibir-se inane e ridículo, perceber que o Ventura se tornou pestífero e se rodeou de alimárias, pede medidas preventivas. João Miguel Tavares, sempre sintonizado com movimentações tectónicas que possam afectar os seus rendimentos, veio logo copiar, ipsis verbis, o Rato que viu a fugir.

Para mim, o desfecho político mais esclarecedor para estas presidenciais consiste em contemplar Ventura a celebrar o 2º lugar, de preferência com uma segunda volta. Sei que é pedir de mais mas convoco Torres e peço para me deixarem sonhar. Com o coiso doidão a celebrar o feito e a despachar ameaças, exigências, delírios, desceria sobre a Grei uma nova consciência. Finalmente, poderíamos juntar Rio, Cavaco e Passos numa sala para lhes fazermos uma singela pergunta: “Já Chega?”

Declaração de voto

Isabel Moreira declarou em Setembro o seu apoio a João Ferreira, explicitando que o fazia contra o populismo e em nome do Estado de direito. Desde essa data, por sua influência, que também tenho o meu voto decidido.

O PCP não é um paladino do Estado de direito, no sentido em que não se preocupa com as violações ao mesmo dado estar focado no marxismo-leninismo e desprezar os valores burgueses (leia-se, liberais). Porém, o PCP sempre quis reclamar a Constituição como monopólio ideológico, como prova da legitimidade do projecto comunista e dos especiais direitos daqueles que foram os mais perseguidos pela ditadura. Isso levou a uma anfibologia onde o termo “Constituição” passou a representar duas entidades bem diversas, consoante se estava dentro ou fora do universo semântico da Soeiro Pereira Gomes: para os comunistas, a “Constituição” é fundamentalmente o seu Preâmbulo mais uns artigos avulsos; para o resto da malta, a Constituição é o conjunto do texto fundamental para a República, o qual se renova como matriz da democracia a cada revisão, não passando o Preâmbulo de um elemento memorial, decorativo, folclórico. Os comunistas consideram todas as revisões constitucionais como machadadas do imperialismo capitalista nos amanhãs que cantam.

Nestas eleições presidenciais, as duas concepções – que conservam antagonismos radicais entre si – podem finalmente fundir-se num paradoxo útil para quem queira votar numa ideia de democracia que transcenda as divisões ideológicas. João Ferreira, sem medo de aborrecer e como comuna típico, pôs a tocar a cassete da “defesa da Constituição” e fez dessa bandeira o centro da sua estratégia de campanha. Dessa forma, e em simultâneo, pôde falar para a identidade do seu partido e para as preocupações e aspirações de largas fatias de eleitores que votam PS, mais uma mão cheia dos que vota BE – e quiçá também para algumas almas penadas do PSD, caso haja laranjas com alergia ao populismo de Marcelo e com genuína costela conservadora.

Nestes quase 47 anos de regime democrático, o PCP adaptou-se ao triunfo dos exploradores da classe operária, tal como manda fazer o materialismo histórico, e aceitou adiar a revolução por uns séculos. A direita, vendo que o tigre pós-Cunhal não tinha dentes, afeiçoou-se ao seu rugido e passou a contar com ele para manter o proletariado na ordem. Daí a preocupação, à mistura com nostalgia, perante o definhamento demográfico deste, afinal, tão simpático e castiço partido – à exacta imagem do patriarca Jerónimo, o qual espalha bondade e bonomia. Votar em João Ferreira, então, implica assumir uma ironia. A de precisarmos de um populista bom para combatermos os populistas maus. O PCP é um partido populista, nisso em que se arroga o delírio de pretender ser proprietário do “povo”, mas tem décadas de sã convivência com a liberdade dos outros. Mais: a liberdade de todos deve muito ao heroísmo de milhares de militantes e simpatizantes comunistas.

Nos militantes do PCP – representados no João Ferreira, o qual é um candidato “do partido” – há uma decência e um humanismo que são património comum da civilização. Partilhamos causas e valores que estão sob ameaça da vertigem e do caos do tempo. Se lhe juntarmos a jura da defesa da Constituição, é ouro sobre vermelho para decidir em quem votar nestas presidenciais das pandemias.

Ana Gomes, um desastre anunciado

«Por exemplo, uma outra área onde eu tenho uma demarcação do Sr. Professor é a área da Justiça, da transparência, da corrupção. [...] Por exemplo, eu sei que o Sr. Professor, até pela sua relação de amizade com o Dr. Ricardo Salgado, é certamente das pessoas com mais interesse em que o caso BES já tivesse sido esclarecido, que já se tivessem apurado as responsabilidades desse senhor e de muitas outras pessoas em julgamento. E o caso BES está ligado, por exemplo, ao caso Sócrates, está ligado ao caso do "apagão fiscal", a questão das transferências para "offshore"...»


Ana Gomes para Marcelo Rebelo de Sousa – 26:50

🕳️

Portanto, Sr. Professor, cheira-me que o Sr. Professor, para além do conúbio com os queques da Comporta, também andou embrulhado com o diabólico Sócrates e ainda tem algo a dizer a respeito de uma curiosíssima “singularidade estatística” ocorrida debaixo dos olhinhos do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais do Governo Passos Coelho, Paulo Núncio, durante a qual desapareceram 10 mil milhões de euros do radar do Estado com origem no BES. Ana Gomes vinha de 10 minutos sob constante e demolidor contra-ataque de Marcelo, que não só tinha rebatido com estrondo as suas últimas críticas como acabou a inverter os papéis e parecia ele o candidato que disputava o lugar à incumbente. Talvez sem esse sofrimento, visível no seu rosto, ela tivesse resistido a lançar aquilo que não carece lhe expliquem ficar como um acto canalha de difamação e chicana: colar Marcelo a casos de Justiça onde não é tido nem achado. É que, foda-se senhores ouvintes, se a Sr.ª Diplomata não consegue medir o peso de certas palavras com um grau de prudência já observável em crianças de 12 anos teremos de reescrever a História da diplomacia mundial.

Ana Gomes quis ripostar e usou o chiqueiro das calúnias. Isto, em si mesmo, é o que é. Cada qual define-se na avaliação que fizer da sua escolha. Chamo antes a atenção para outro aspecto, o qual é infinitamente mais importante do que o carácter da candidata presidencial. Refiro-me à matéria mesma dos tais casos, a que se acrescentam as declarações que continuou a fazer nos dias seguintes sobre os megaprocessos. Assim, para ela, os megaprocessos (a “Operação Marquês” é o mais importante deles no campo político e o mais mediaticamente explorado pela indústria da calúnia) são estratagemas organizados pela Justiça sob a influência ou pressão “dos ricos” com o objectivo de impedir os julgamentos e as respectivas condenações (que dá como certas, não precisa do paleio dos advogados e juízes), levando a que os acusados se safem através da prescrição dos crimes. Ainda nesta segunda-feira, no debate das rádios, repetiu a sórdida cassete e declarou que a corrupção precisa de “penas exemplares”. Horas depois, num espaço da candidatura, tomou o partido do Ministério Público para voltar a martelar a relação de Sócrates com o BES, utilizando politicamente o que neste momento não passa de uma acusação – e acusação embrulhada em abusos inauditos de magistrados, de politização de altas figuras do Estado e de crimes com origem na Justiça contra quem, mais de 6 anos passados sobre a sua detenção intencionalmente espectacular, permanece cidadão inocente. Sim, e não é notícia: o Estado de direito democrático e seus princípios não entram no conjunto de valores que moldam a identidade da cidadã Ana Gomes.

Mas pensemos. Imaginemos. O que se passará na cabeça da ilustre diplomata? Ela anda a ouvir, desde 2008, figuras gradas da direita a berrarem que o PS controlou politicamente o Ministério Público e o Supremo Tribunal de Justiça, utilizando Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento para evitar que um colossal corrupto a ocupar o cargo de primeiro-ministro fosse sequer investigado de tanta ilegalidade ao dispor na indústria da calúnia. O PS conseguiu isto, atente-se, sem que o Presidente da República Cavaco Silva, o PSD e o CDS, o Conselho Superior do Ministério Público, o Conselho Superior da Magistratura, e demais órgãos sindicais e corporativos das duas magistraturas, tivessem conseguido impedir, detectar, denunciar e castigar aquilo que terá de ficar como o crime do milénio pela sua gravidade para o regime. Este discurso é tão voluntariamente alucinado como o de Trump ao dizer que ganhou as eleições contra Biden. E tem permanente eco na “imprensa de referência”, tomada pelo editorialismo e comentariado aliados. Pois face a este cenário, já com 12 anos contínuos de ataque à confiança nos pilares soberanos da República, vemos uma candidata presidencial – que reclama representar os eleitores do PS – a aproveitar o embalo e juntar-lhe um nó cego onde a própria “Operação Marquês” teria sido pensada para que os supostos crimes prescrevessem antes de vermos o Engenheiro de novo na choldra, agora para uma estadia mais completa. Que desvairo é este? O que pretende alcançar? Para quem fala?

O que é trágico não é vermos a decadência desta figura, de uma irresponsabilidade política e cívica que ofende a moral das pedras da calçada. Trágico é vermos tantos, e tão meritórios, que arrasta para a irracionalidade onde se fantasia justiceira. Que ninguém se espante, então, com os 74 milhões de votos em Trump. O populismo tem razões que a razão tão bem conhece e tão mal rejeita.

Estado de guerra – 10 meses depois

Há vários tipos de catástrofe. Esta pandemia é uma catástrofe diferente de um terramoto, de um maremoto, de um furação, de um vulcão, de um acidente químico ou nuclear de larga escala. Diferente pela extensão no tempo da sua força activa e pela mutação na dinâmica da sua actividade.

Num terramoto há abalos severos nas estruturas físicas durante alguns segundos ou minutos, seguem-se réplicas cada vez mais fracas, e depois acabou. Num furacão há ventos e chuva avassaladores durante um par de dias, e depois acabou. Num maremoto há inundações destruidoras no espaço de horas, e depois acabou. Num acidente nuclear há efeitos contínuos que podem permanecer durantes décadas, séculos e até milénios, mas não estão (geralmente) sujeitos a alterações que os agravem ou aumentem o seu raio de acção.

Com as pandemias há um agente que é um autêntico morto-vivo, um vírus, tendo a capacidade de se reproduzir e evoluir, de ganhar rapidez, de ocupar cada vez mais terreno, de aumentar a intensidade e gravidade dos seus ataques. É uma entidade que não tem cérebro nem vontade mas que tem a inteligência e a finalidade da biologia.

Usar a metáfora do “inimigo” para lidar com a actual catástrofe em que nos encontramos, em que se encontra a humanidade, não é apenas um recurso útil para orientar comportamentos colectivos e individuais em prol da segurança e da prevenção. É também ser humilde, preferir a realidade onde há uma guerra para vencer com as armas da responsabilização comunitária e da consciência guerreira.

Revolution through evolution

The richer you are, the more likely you’ll social distance, study finds
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Wives bore the brunt of child care during the shutdown
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Higher coffee intake may be linked to lower prostate cancer risk
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No limit to cardiovascular benefits of exercise, study finds
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Robot displays a glimmer of empathy to a partner robot
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Computer scientists: We wouldn’t be able to control super intelligent machines
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Could we harness energy from black holes?
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Continuar a lerRevolution through evolution

Ventura, tens razão

«Se é fascismo querer que os corruptos não voltem ao poder, então somos fascistas.»

Fulano que Rui Rio, Manuela Ferreira Leite, Cavaco Silva e Passos Coelho aceitam como aliado do PSD

🙋‍♂️

Ventura já desfilou de braço no ar, já prometeu prender quem defenda o 25 de Abril e acaba de fazer da luta contra a corrupção uma bandeira do fascismo. «Though this be madness, yet there is method in’t» pois ele apenas leva às últimas consequências o que a direita partidária e presidencial começou a fazer desde 2004, e de forma estratégica e sistemática desde 2009: judicializar a política e politizar a Justiça – usar todos os instrumentos subterrâneos e criminosos para tentar causar danos no PS e obter ganhos eleitorais. A lógica desse caminho, ao violentar o Estado de direito democrático, é evidentemente a de explorar uma nostalgia e um aparato ditatoriais atraentes para uma juliana de indivíduos politicamente alienados.

Nunca saberemos como é que a esquerda iria reagir numa posição simétrica, estando na oposição com impérios de comunicação ao seu dispor, com uma ubíqua indústria da calúnia como arma de arremesso, e com um alvo icónico da direita na linha de fogo por ter cometido inegáveis erros morais e cívicos na sua esfera pessoal (no mínimo dos mínimos). Provavelmente, o discurso contra a corrupção continuaria presente no espaço público, teria era outro sentido e outros protagonistas, pois a política é animalesca nessa fúria de querer destruir os adversários recorrendo às figuras da culpa e da condenação. Porém, olhando para a forma como o PCP e o BE nunca quiseram ao longo da sua história fazer da corrupção um terreno de combate, é também provável que o PS jamais caísse na decadência de trocar o respeito pela Constituição – portanto, pelos valores liberais e da social-democracia tomada em espectro largo – pelo emporcalhamento e atrofio das responsabilidades institucionais e de representação soberana. A Ciência Política tem vasta literatura sobre as diferenças antropológicas e cognitivas na origem dessa diferença de atitude na concepção da moral entre a esquerda e a direita.

Quem usa a corrupção na procura de ganhos políticos nunca a trata com factos, dados, fontes de informação, estudos, objectividade. Pelo contrário, vão buscar as técnicas do sensacionalismo, do boato, da caricatura, da distorção, do apelo ao medo, da exploração da crendice ignara. Modo Octávio Machado, todos sabem do que eles estão a falar, e eles falam de Sócrates, falam do PS, falam do Diabo. Quem ouve, quem lê, também não pretende qualquer objectividade; pretende é foguetório calunioso, circo, autos-de-fé, linchamentos. Se o preço a pagar por esse espectáculo for o aplauso a quem se assuma como inimigo da democracia, dos direitos humanos e da liberdade – ou simplesmente a quem faça campanhas pela prisão de políticos por razões políticas ou com provas indirectas e penas exemplares – há um vasto público disponível para essa compra de impulso. As falhas cognitivas que alimentam as alucinações conspirativas e o ódio irracional são a ideologia neuronal desta turbamulta.

Ventura tem um modo de “fazer política” que foi aprendido no PSD de Passos Coelho, esse mítico líder que conseguiu afundar Portugal para ir com o seu sócio Relvas fazer negócios da China durante uma legislatura. Ventura tem também um acordo com a elite cavaquista e passista que lhe dará o que procura se a direita obtiver maioria no Parlamento. Todos os votos que recolher, nas presidenciais e nas legislativas, serão votos neste projecto. Um projecto que consiste em destruir a Constituição de Abril e em boicotar a racionalidade civilizacional.

Sim, pá, isso é uma boa beca parecido com o fascismo.
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O jornalista

O jornalista tinha despachado um tríptico sobre o tribalismo. Magnífico. Três sovas três na malvada esquerda. Culpada de tudo e, em especial, do triunfo de Trump e da erupção do Ventura. A esquerda, com o seu fanatismo religioso, reinventou a inquisição para castigar os deploráveis, noticiou o jornalista.

Depois desse homérico esforço, o jornalista sentiu falta de prestar um serviço à sua tribo. Pelo que foi a correr alistar-se na milícia que persegue a ministra da Justiça. Contradição? Nenhuma. Para ensinar o povo acerca dos malefícios do tribalismo dos outros é necessário ser-se especialista no tribalismo dos seus. E o jornalista teve engenho e arte para escolher o bom tribalismo, aquele que odeia o mau tribalismo. Numa feliz coincidência, o bom tribalismo tem bom dinheiro para gastar com caluniadores profissionais. Pelo que no dia 5 de Janeiro lá deu notícias frescas sobre o plano de Costa para meter a sua bandidagem a controlar a Justiça.

O dia 6 de Janeiro costuma seguir-se ao dia 5 do mesmo mês, e neste ano não foi diferente. Pois o jornalista passou grande parte desse tal dia 6 a olhar para o televisor. Havia cegada no Capitólio, vidros partidos e chatices. A consequência de a esquerda dizer coisas feias dirigidas aos deploráveis tinha provocado aquele sarilho, concluía o jornalista agastado. Que mais é que eles podiam fazer, coitados? Quem é que, sentindo-se perseguido pela esquerda e suas “palavras-cianeto”, não sente um irreprimível desejo de fazer 300 km para ir defecar num corredor da sede do poder democrático dos Estados Unidos da América? É que, enfim. Nisto, o jornalista olhou para o relógio e assustou-se. Já eram onze da noite e ainda não tinha enviado o texto para o jornal. Saltou para o computador e teclou furioso sobre o assunto mais importante do dia que estava prestes a acabar, um artigo de António Cluny.

Os dias continuaram a passar, numa monotonia implacável. Aquilo na América, causado “pelos autoproclamados progressistas” e a sua “obsessão pela pureza da alma”, continuou a entreter o Mundo e a dar conteúdo a historiadores. Nada que impressionasse o jornalista. Ele não tinha escolhido a heróica vocação jornalística para se deixar levar pelos diabólicos truques da esquerda, useira e vezeira na “sacralização de certos valores “. O jornalista faz como os deploráveis vítimas dos “justos” e da Hillary Clinton, igualmente caga nesses valores. Daí ter continuado impávido e valente a dar notícias preciosas a respeito dos temas da actualidade em que nos devemos concentrar. No dia 9 de Janeiro, cuidado com o Sócrates. No dia 12 de Janeiro, a culpa não é do Ventura. No dia 14 de Janeiro, não sei quê das vacinas.

Não é para qualquer um ser como o jornalista. É preciso estar disposto a radicais sacrifícios. E, como se vê, o jornalista não teme passar por marciano distraído. Alguém tem de denunciar os planos da esquerda que nos quer tiranizar, roubar as pratas e engravidar as filhas. Ainda não chegámos à América, informa o jornalista.

Marcelo infecto

«Confrontado com uma foto consigo no Bairro da Jamaica e várias pessoas negras, incluindo uma criança, sendo acusado de ter ali ido confraternizar com a "bandidagem", e ao não reagir à calúnia racista, assim como ao dizer que a sua direita não é a mesma do contendor sem no entanto definir essa direita como deve ser definida, Marcelo falhou na defesa dos valores essenciais da democracia e do Estado de direito. Falhou no que não podia falhar - e menos ainda quando do outro lado do Atlântico, naquele mesmo dia e àquela mesma hora, se tentava, em nome de um dos modelos daquele homem ali à sua frente, derrubar uma das democracias mais antigas do mundo.»


Quando lutas com um porco

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Qualquer um pode fazer a experiência, calhando estar esquecido do que viu ou não o tendo visto. A experiência de rever o debate entre Marcelo e Ventura para constatar como o segundo esteve sempre ao ataque e o primeiro nunca conseguiu sequer perturbar a empáfia da escolha de Deus para fundador da Quarta República Portuguesa. Na verdade, o contrário aconteceu, tendo Ventura tido sucesso no arrastar de Marcelo para o bate-boca feirante em que o ilustre Professor se deixou nivelar por baixo e acabou a perder o controlo da pose e das suas responsabilidades institucionais. Num dos casos, chegando ao ponto de violar o sigilo das audiências em Belém. Num outro caso, de uma gravidade distinta mas tão ou mais grave, ao ter concedido ao presidente do partido Chega o estatuto de líder da oposição. Fê-lo quando concordou com Ventura que a ministra da Justiça devia pedir a exoneração ou ser demitida. Repare-se na cena: o solitário deputado de um partido que congrega salazaristas, nazis, racistas, xenófobos e “portugueses de bem” consegue levar o Presidente da República, em cima do início da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, a fazer uma declaração pública de apoio à campanha do PSD para explorar o caso do Procurador Europeu até ao limite possível da chicana. Não foi Rio que obteve esse trunfo, foi Ventura.

No dia seguinte, António Costa acusou três passarões do PSD de estarem em campanha para conseguir chutar a inútil polémica para um palco europeu – portanto, acusou esse trio de pretender denegrir a imagem de Portugal, posto ser esse o único objectivo tangível das suas declarações e acções. Podemos ver nas palavras de Costa um erro político, ou um excesso retórico que devia ter evitado. Porém, prefiro vê-las como a resposta do primeiro-ministro à posição assumida na noite anterior pelo Presidente da República, o qual tinha optado por voltar a quebrar a lealdade institucional e emporcalhar a responsabilidade constitucional apoiando ataques políticos contra o Governo e interferindo com a autoridade do primeiro-ministro. Tudo isto numa questão simultaneamente escabrosa e pífia que apenas serviu para Rui Rio acabar com os seus “tweets” sobre sondagens e o aeroporto Humberto “Força nisso!” Delgado. Costa defendeu o prestígio de Portugal, sabendo que iria agitar o vespeiro, enquanto o inteligentíssimo e experienciadíssimo Marcelo se deixava manipular por um perigoso tachista que alimenta ódios e arregimenta ignorâncias e desesperos.

Saltemos para a visão pan-óptica, sem a qual a política é uma narrativa incoerente contada por um louco. A posição de força de Costa, e as reacções que tal provocou na direita, começam a compreender-se com o que Ângela Silva, uma jornalista do Expresso que não ambiciona ser mais do que um pé de microfone de Belém, escreveu um dia antes quando mergulhou de cabeça na infâmia de Marcelo com este estouvado título: O baile de Marcelo a Ventura: “Você nunca me disse em Belém que eu era manipulado pelo Governo”. Trago este exemplo para dar conta do maremoto de dissonâncias cognitivas que o império do militante nº 1 do PSD serviu ao público para salvar a imagem de Marcelo e fazer-lhe a papinha e a propaganda. As avaliações ao debate – O melhor Marcelo deixou Ventura KO. Eis as notas dos comentadores do Expresso e SIC – inevitavelmente provocam espasmos de riso logo no relance sobre a tabela da pontuação e ainda antes de lermos a primeira justificação. Tendo em conta que no júri se encontra o admirável Pedro Adão e Silva, vou admitir que não foi só o sectarismo, a hipocrisia e o cinismo a explicarem as avaliações, o asco também foi um factor a influenciar a cognição. O que pretendo realçar, contudo, é que o registo ditirâmbico é a prova mesma do fracasso de Marcelo frente a Ventura.

Espanto? Nenhum. Marcelo foi para o debate com Ventura na intenção de ficar no fundo do corte, devolvendo as bolas sem se mexer muito, sem se aproximar da rede, esperando que fosse o adversário a falhar as jogadas – precisamente ao contrário do que fez no debate com Ana Gomes, para o qual levou munição poderosa e com a qual foi implacável depois da cartada Salgado ter sido usada, não fazendo prisioneiros. Marcelo não queria desvitalizar Ventura e denunciá-lo como o oportunista abjecto que é porque Marcelo quer o mesmo que Rio, Passos e Cavaco: que o próximo Governo seja de direita. Para tal ser possível, o Chega vai ter necessariamente de entrar na equação, restando só saber com que peso. Ventura aparece nas presidenciais para isso mesmo, fazer crescer a sua fatia de mercado e depois negociar nas melhores condições possíveis os tachos à disposição. A actual direita decadente não tem medo nenhum do Ventura porque um aldrabão é um aldrabão, e nada mais, têm disso aos montes à sua volta (como lembrou Salgado, por exemplo). Ou seja, dali não vem qualquer surpresa, pelo que o deixam andar a criar o seu exército de lumpendireitolas na certeza de que o conseguem controlar, e mesmo destruir se ameaçar algum dos seus interesses. A isto esta direita chama “fazer política” e isso não passa da aplicação da ancestral cultura do poder pelo poder que se bebe desde o berço na oligarquia.

A Marcelo bastou dizer que a sua direita é diferente da do coiso para que a claque declarasse KO. Acontece que quem ficou KO foi a cultura democrática e o património republicano ao vermos o Presidente da República a recorrer à sua batina de católico para conseguir verbalizar uma oposição argumentativa contra a prisão perpétua. O mesmo nível indigente no plano intelectual e moral para responder à agenda subversiva e incendiária de quem se declara inimigo do regime nascido do 25 de Abril. Nem sequer, como regista acima a Fernanda Câncio, o momento histórico da invasão do Capitólio inspirou Marcelo para o serviço público de mostrar que Ventura, assumido epígono de Trump, ofende a causa do Estado de direito democrático e o ideal da liberdade.

Os tempos de antena do candidato Marcelo Rebelo de Sousa estão vazios. Ele alega que é para ser justo com os outros candidatos, por causa da sua intensa exposição mediática de 5 anos como Presidente da República e demais actos públicos até às eleições. Não temos de perder uma caloria a tentar encontrar qual seja o mérito ou a bondade do raciocínio porque não existe. Em vez de aproveitar essas ocasiões de comunicação para nos ajudar a lidar com os medos, os apelos ao ódio, as distorções e deturpações sociais, a iliteracia política, a confusão e a depressão que crescem imparavelmente, Marcelo caça no mesmo território do desprezo pelos políticos e pela política. Temos até de reconhecer, vencidos e banzos, que os seus tempos de antena são espectacularmente virais. É que uma pandemia nunca vem só, e Marcelo e Ventura partilham o mesmo vírus populista.

Bute criar um programa de televisão

Acabados os debates para as presidenciais (os do Porto Canal com o Tino são excedentários mesmo que tenham algum eventual mérito) está na altura de preparar o futuro da televisão em Portugal. E esse futuro ficaria enriquecido com um programa de debate político que continuasse uma das mais gratas descobertas da série que ontem terminou com um sacrifício colectivo: a química entre Marisa Matias e Tiago Mayan. A meia hora que eles tiveram deixou água na boca, se tivesse durado uma hora continuaria a parecer 15 minutos, sendo uma fortíssima candidatura à medalha de ouro do certame.

Como actual autor e também virtual produtor executivo desse programa, deixo o racional, conceito e nome do que me parece um inevitável sucesso.

RACIONAL

– Marisa e Tiago representam visões luminosamente diferentes, em muitos aspectos antagónicas, para as políticas públicas, para o desenvolvimento económico e para o modelo social. Estamos perante uma (ou até mais do que uma) polaridade.
– Tiago e Marisa são pedagógicos na exposição, falando com calma sem perderem a convicção e o entusiasmo. Mostram respeitar o interlocutor, sabendo ouvir sem terem (ou tendo muito menos do que o comum em debates políticos) o descontrolo emocional de querer reagir com interrupções avulsas a argumentação do adversário.
– Marisa tem uma experiência e uma personalidade política que estão abafadas pela actual liderança do seu partido, prometendo outros voos agora que acabou o seu ciclo como “simpática” para gasto em campanhas presidenciais. O Tiago começou o ciclo televisivo como anedota, erro de elenco, e transformou-se numa revelação aplaudida à direita e à esquerda. Embora a sua curva de crescimento tenha sido covídica, está ainda muito verde na preparação teórica, no traquejo político e na postura mediática. Porém, também ele promete outros voos, e este programa com a Marisa seria um palco propício para o seu crescimento ou para se descobrir que não passa de um bluff.

CONCEITO

– Ambos iriam discutir entre si assuntos da actualidade, uns, e da ideologia, outros; agora com mais tempo, mais preparação e acesso a fontes de informação que permitam rigorosa análise e frutuoso debate. Por exemplo, aquando da discussão sobre a TAP divergiram sobre a posição da empresa na lista dos exportadores nacionais. É um tópico interessante para quem se interessa, vai sem discussão, sendo igualmente interessante a existência dessa diferença de perspectiva. Ficou a faltar, então, o confronto com os dados e as interpretações mútuas respectivas (as quais não têm necessariamente de gerar um consenso ou uma capitulação, a ideia não é a de que tenha de ser um jogo de soma positiva ou nula).
– O programa teria, sem calendário nem aviso, um terceiro participante. A sua escolha resultaria das candidaturas espontâneas de políticos profissionais ou amadores, acabados de entrar na universidade ou na reforma, com bom ou mau feitio. Enfim, qualquer um poderia participar desde que enviasse uma candidatura onde expunha a sua motivação e as razões principais de discórdia com a parelha residente no programa neste ou naquele assunto. A dupla escolheria arbitrariamente, agora por consenso, com quem iriam debater.

NOME

“Bloco Liberal”

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Chocante, ó Tavares: eu, por exemplo, só espero que continue a haver “um eleitorado profundamente insatisfeito”

Sem noção de que está a imitar os trumpistas, o Tavares João Miguel prossegue hoje a sua caminhada rumo à normalização do Chega. Diz ele:

[…] Continuarmos com esta conversa [de que os potenciais 10% de votantes no Ventura são deploráveis] é não perceber nada do que está em jogo, nem a insatisfação profunda do eleitorado, como António Barreto explicou admiravelmente no artigo “Perceber”. O nosso regime democrático e a nossa cultura política estão a deixar demasiada gente para  trás. Ventura não é o bólide dos fascistas — é o carro-vassoura dos abandonados pelo sistema.

A ideia de que essa insatisfação se combate com cercas sanitárias, ilegalizações partidárias ou caras de ai-que-nojo é de uma ingenuidade absurda. Ventura combate-se com melhores ideias — como Marcelo ou Tiago Mayan provaram nos debates — e com melhores políticas do que aquelas que temos visto em Portugal. Quem vota em Ventura não está a dizer que gosta do Chega. Está a dizer que não gosta do estado a que a política portuguesa chegou.

É fulcral perceber a diferença entre uma coisa e outra.

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Se virem bem, é todo um rol de “déjà-entendus”, estribilhos hoje na moda entre os neo-populistas, proto-fascistas, fascistas assumidos, oportunistas e gente sem escrúpulos em geral em alguns países ocidentais, entre os quais a América. Ele é os “abandonados pelo sistema” – que alegadamente votam no Ventura (também no Trump. É igual. Coitadinhos dos abandonados); ele é “a profunda insatisfação do eleitorado” – razão do sucesso do Ventura (olhe-se para aquele eleitorado do Trump que invadiu o Capitólio “profundamente insatisfeito com o sistema”, não é? Há que lhes dar voz, então não é?); ele é a “gente que fica para trás” devido ao regime democrático (mas quem? Os saudosistas do Salazar e das ditaduras? Os vigaristas vários que acolitam o Ventura? Os alucinados da QAnon? Os racistas? O regime democrático deixa-os para trás e isso é uma pena?); ele é ainda “o estado a que a política portuguesa chegou” (cá está, os direitolas passistas do Observador adoram esta frase, os trumpistas dizem o mesmo dos democratas).

Mas qual estado, senhores? Estamos assim tão mal? Sentem-se asfixiados? Porquê? Têm jornais, dizem o que querem, têm total liberdade económica, o que é que vos falta? O poder? Claro, isso não têm neste momento, mas é honesto falar, por causa disso, “no estado a que a politica portuguesa chegou”? Qual seria esse estado com esses vossos crânios? Hem? Com os do Rio, do Ventura ou do Passos.

Sim, sim, estou a achar-me parecida com o rapaz do vídeo que ontem publiquei. E estou a gritar. Mas eu avisei. É que não há pachorra para esta conversa. O Tavares está insatisfeito porque os seus amigos da direita não estão no poder e ama o Ventura porque ele diz estar descontente com o mesmo. Só que esta confraria de descontentes não deixa de ser uma amálgama perigosa, como se está a ver nos States, com a triste figura da maioria dos republicanos.

Sócrates, primeiros dias de Janeiro de 2021

«Por lapso, apetece-me dizer que as sucessões de pormenores fazem um caso muito grave. Gravíssimo e vergonhoso. Por lapso, ainda, lembro-me que o procurador José Guerra trabalhou com o adjunto do gabinete da ministra, o procurador Lopes da Mota, que chegou a estar suspenso pelo CSMP, depois de ter pressionado outros procuradores a largarem o caso Sócrates. Por lapso, chego a pensar que isto anda tudo ligado.»

Henrique Monteiro, 6 Janeiro

Foi preciso chamar o fantasma de Sócrates para acordar Ana Gomes e Tiago Mayan – Visão, 7 Janeiro

Ana Gomes vs. Tiago Mayan. Duelo entre socialismo e liberalismo traz Sócrates, Orbán e subprime a debate – O Jornal Económico, 7 Janeiro

Do “gatarrão” à maoísta. “Aquele senhor” e “esta senhora” foram buscar Sócrates na luta pelo segundo lugar – Observador, 8 Janeiro

Tiago Mayan acusa Ana Gomes de apoiar Sócrates, mas a socialista diz que não sabia da missa a metade – SIC Notícias, 8 Janeiro

Convém que Costa não comece a falar como Sócrates – João Miguel Tavares, 9 Janeiro

PPP. Todas as suspeitas que o Ministério Público imputa a cinco ex-membros do Governo Sócrates – Observador, 10 Janeiro

Estado quer perdoar escritor-fantasma de Sócrates – CM, 10 Janeiro

Sócrates entre os casos mais mediáticos – Sol, 10 Janeiro

Desiludida, candidata presidencial Ana Gomes demarca-se de José Sócrates – Flash, 11 Janeiro

Como José Tavares aconselhou o Governo Sócrates – Observador, 11 Janeiro

André Ventura: um filho de José Sócrates – Henrique Raposo, 11 Janeiro

Começa a semana com isto

William H. McRaven ganhou fama na Internet com este discurso na Universidade do Texas, em 2014, a partir do qual viria a escrever um livro. Antes, a sua notoriedade pública estava relacionada com a captura de Bin Laden, dado ter sido ele o comandante que organizou e dirigiu a operação “Neptune Spear” levada a cabo no dia 1 de Maio de 2011.

Para além de ser um herói de guerra, no sentido em que deu o corpo ao manifesto como SEAL centenas ou milhares de vezes, e de ser considerado um dos maiores especialistas mundiais em Forças Especiais, McRaven é desde 2017 – leia-se, 2017 – um dos mais ferozes opositores a Trump, vindo desde aí a antecipar o que veio mesmo a acontecer. Uma das razões que o levou para esse conflito aberto foi, nada mais nada menos, o ataque de Trump ao jornalismo. Sim, ao jornalismo. Jornalismo.

Para se ficar com um sentimento do respeito, e agradecimento a tanger a reverência, que esta figura inspira, nada melhor do que ver o final da entrevista que o admirável David Axelrod aqui lhe faz: Conversation with Retired Special Ops Commander Admiral McRaven – 13 Novembro 2020

E ainda mais McRaven, porque é tudo bom e útil vindo de um genuíno conservador, patriota e guerreiro norte-americano:

What threatens democracy? Navy SEAL warns of Trump’s attacks on US institutions

Revolution through evolution

Frequent travel could make you 7% happier
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Looking forwards rather than backwards safeguards wellbeing during Covid-19 lockdowns
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Danish and Chinese tongues taste broccoli and chocolate differently
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Seeing Multiple Forecasts in Verbal Rather than Numerical Form Causes People to Make More Confident Predictions of Outcome
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Why buying some conceptual art is like “owning nothingness”
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An Avalanche of Violence: New Analysis Reveals Predictable Patterns in Armed Conflicts
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Vergonha

Boa gente antecipou que estas eleições presidenciais seriam as mais emporcalhadas de sempre. Por causa do Ventura, o qual iria lançar sórdidos e desvairados ataques contra os restantes candidatos. Por exemplo, dava-se como inevitável que Marcelo seria alvo de insinuações descaradas a respeito dos seus laços pessoais com Salgado, assim aparecendo o caso BES como arma de arremesso sensacionalista e caluniosa contra si. Só que não, desse tema não há nem haverá o menor vestígio na comunicação de Ventura por ser tabu até para ele – se o violar, terá em Marcelo um inimigo mortal e todo o seu projecto de parasitar o PSD e a República vai para o galheiro. Em vez disso, no debate entre eles, trouxe uma fotografia tirada no bairro da Jamaica que é irrelevante do ponto de vista político e inócua eleitoralmente para Marcelo, apenas serviu para Ventura realçar aspectos já batidos da sua marca. O momento em que Marcelo perdeu o decoro e as responsabilidades de estadista, revelando o que não tinha o direito nem a moral para revelar, nasceu de uma crítica banal na direita ressabiada e rancorosa à sua postura de respeito institucional pelo Governo e de apoio à estabilidade política consoante as conjunturas. A ironia (e a gravidade do erro) não podia ser maior.

Desde Setembro, há quatro meses, que Ana Gomes sabia ir ser confrontada, num debate presidencial, com referências a Pedroso, à Casa Pia e à pedofilia. Se não podia adivinhar de que forma exactamente, já não podia duvidar que tal iria acontecer inevitavelmente. Pelo que se esperava que viesse preparada para a ocasião. Mentes mais criativas até poderiam ter planeado uma estratégia de debate centrada nessa evidência – por ser uma situação perfeita para apanhar Ventura desprevenido e levá-lo para a luz que o transforma em pó: a do humanismo, dos direitos humanos, do Estado de direito democrático. Em vez disso, quando o fatal futuro se transformou em violento presente, vimos outra coisa. Uma coisa inesperada, para mim, e inexplicável, para Ana Gomes. Vimos uma resposta de fuga e descontrolo emocional. Aparentemente, Ana Gomes acha que há alguma relação entre ser mãe e avó de sete netos com a defesa da honra de Paulo Pedroso e dos seus direitos cívicos e políticos ameaçados pela boca de um candidato presidencial, que é também deputado e líder partidário. Porque é disso que se trata, de uma ameaça feita à sua frente, e para também a atingir, ao bom nome e liberdade de Paulo Pedroso.

Ventura considerou que a matéria relativa ao caso Casa Pia era tão valiosa que tinha planeado encerrar o debate com ela para assim ter mais impacto. Antecipou o uso da cartada porque, no que é um padrão pulsional, recorre às provocações mais fortes quando se sente atingido. É a lógica da porrada, da cultura de violência onde é idolatrado pelos deploráveis à portuguesa. Mas não desistiu do plano inicial, acabando por duplicar a afronta. Em nenhuma das duas ocasiões houve resposta sequer mínima no plano da responsabilidade ética e política por parte de uma candidata presidencial que, também em Setembro, anunciava que pretendia “limpar o País” e acabou mediaticamente soterrada pelo lixo despejado por um crápula ignóbil.

A justificação para esta implosão de carácter pode ser encontrada revisitando uma outra parte do debate, aquela em que os dois candidatos jogaram ao “o teu Sócrates é pior do que o meu”. Assistir a Ventura ir buscar Sócrates causa menos estranheza do que registar o dia a suceder à noite. Sócrates continua a ser apaixonante para a direita decadente e para a indústria da calúnia, seria até estúpido que Ventura não utilizasse o Diabo em que continuamos a tropeçar constantemente no discurso político do PSD, no editorialismo e no comentariado. Esta direita do poder pelo poder e do fanatismo não tem mais nada que alimente a sua auto-estima, precisa de Sócrates para se levantar da cama e calçar as chinelas. O que fica como antropologicamente notável é a cena de vermos Ana Gomes a usar Sócrates para atacar André Ventura. E nesse momento desolador, vexante, está a chave para se compreender o resto: quem não está apaixonado pelo Estado de direito democrático não consegue lidar com um pulha.

Levarmos com Ana Gomes a sorrir, a rir, a mandar boquinhas sobre “piadas novas”, teatro e o Big Brother perante a exibição de um patife foi intensamente penoso. E depois vê-la a fazer uma pergunta infame e cosmicamente imbecil, aproveitando para si a falha institucional de Marcelo, levou-me a ponderar se aquele debate não teria como única finalidade obrigar-me a prestar contas cármicas por acções minhas e de antepassados meus até aos tempos da Reconquista cristã. Ter usado o seu momento final para misturar coelhos, gatarrões (!?) e a Le Pen obriga-me a recorrer a uma imagem futebolística para conseguir relatar a minha perplexidade. Aquilo foi equivalente a contemplar um guarda-redes, com a bola na mão, a chamar os avançados da equipa adversária até à sua pequena-área, depois colocar a bola aos seus pés, afastar-se três metros para o lado e começar a gritar “Marca! Marca! Marca!” E o coiso marcou.

Ventura saiu dos debates com os três candidatos da esquerda sem ter ouvido uma única vez a expressão “25 de Abril”. Vou repetir de outra maneira: depois de Ventura ter subido a um palanque na Praça do Município para prometer acabar com o regime democrático e ter ameaçado prender quem o defenda, nenhum dos candidatos presidenciais da esquerda achou curial perguntar a Ventura se era só bazófia para animar a sua malta ou se é fruta para o Ministério Público. Donde, temos de reconhecer que, nos debates com Ventura, quem melhor defendeu o 25 de Abril foi o improvável e desconcertante Tiago Mayan. O único a tratar Ventura como um tachista com quem não há alianças, não há cedências, não há complacência para quem ameaça os direitos humanos e a liberdade.

Enche-te de vergonha, esquerda portuguesa.

E sobre a vacina contra a calúnia e a irresponsabilidade?

Sr. Araújo – minuto 3

«É um prazer recebê-la [a Maria José Morgado] e queria aproveitar a oportunidade para me solidarizar com o seu drama pessoal. Ou seja, uma pessoa que resolveu dedicar grande parte da sua vida ao combate à corrupção logo por azar num país em que não há corrupção. É como querer ser marinheiro na Suíça.»

😂

Sr. Araújo – minuto 27

«Eu queria-lhe perguntar, a propósito daquilo que eu disse logo no início, é se a sotôra [Maria José Morgado] acha que há um determinado quadra... ou alguns quadrantes ideológicos que acham, bizarramente para mim, que falar da corrupção é nocivo. E que por isso deixam o tema da corrupção para outros quadrantes ideológicos que se servem dela com fins populistas...»

🤣

Ricardo Araújo Pereira sabe muito sobre a corrupção em Portugal. Não precisamos de saber como é que ficou a saber tanto sobre a matéria, basta que se mostre confiante a respeito. Daí, por saber tanto, não quis perder a oportunidade para dizer na TV umas verdades acerca disso, aproveitando a presença de uma outra concidadã que rivaliza com ele em conhecimento sobre a corrupção em Portugal.

E que ficámos nós a saber graças à sua sabedoria? Que o RAP identificou “quadrantes ideológicos” que “deixam” o tema da “corrupção” para “outros quadrantes ideológicos”. Infelizmente, não teve tempo para dar nome aos bois, o que se entende por estarmos em televisão e cada segundo ser muito caro. O RAP evita dar despesa à SIC, por ser um excelente rapaz, o que o leva a mostrar-se poupadinho nas explicações e a optar pelas meias palavras e pelo registo aforístico, gnómico (que tanto sucesso teve em Delfos há uns tempos, por exemplo). Tal obriga-nos a um esforço hermenêutico sob pena de acabarmos carimbados pelo grande RAP como bizarros.

Vou propor uma linha interpretativa. Peço a vossa paciência para a desconstrução e sua reconstrução.

DESCODIFICAÇÃO
quadrantes ideológicos” = PS corrupto
acham que falar da corrupção é nocivo” = PS corrupto
deixam o tema da corrupção” = PS corrupto
outros quadrantes ideológicos” = Ventura

MENSAGEM
Os corruptos do PS calam-se a respeito da corrupção porque o PS é corrupto. Por causa disso é que o pobre do Ventura anda para aí sozinho a ter de falar no assunto.

Creio que o código utilizado não ambiciona maior sofisticação. Os risos gerados nos restantes artistas presentes em estúdio selam a exegese com o lacre da merecida alarvidade. Altura de saltar para Maria José Morgado (honit soit e tal), a qual tinha proposto, precisamente, a criação da “vacina contra a corrupção”. A ideia tem mérito, especialmente quando se constata que é facílimo identificar corruptos – os quais, afinal, se contaminam uns aos outros através do mais ancestral veículo da peste, o Rato. Acontece que a senhora igualmente partilhou connosco que não pretende vacinar-se contra o coronavírus, dispensando a vacina que lhe calhar. E elaborou sobre o assunto para a posteridade:

Estou habituada aos riscos e aos perigos, e sei viver com eles. Toda a minha vida foi um risco. Aliás, a nossa vida é um risco, e somos todos cadáveres adiados, já dizia o outro.

Temendo que as revelações não fossem ainda suficientes para dar o melhor exemplo de responsabilidade comunitária à audiência do programa, ela que nada teme, sentiu então o imperativo moral de deixar um contributo epistemológico:

Eu não subestimo a ciência mas a ciência é muito mais complicada do que uma simples vacina, essa é que é a questão!

Assim, o círculo fecha-se. Não há só uma questão, há duas. E ter um televisor em casa, devidamente ligado à corrente, permite aceder ao que as pessoas mais inteligentes, mais sérias e mais engraçadas pensam sobre essas duas questões. Quem é que iria imaginar, sejamos honestos por favor, que se passava tamanha bandalheira com os quadrantes ideológicos nacionais calhando ter perdido esta emissão do programa? E há quanto tempo andamos todos dominados pela cruel ilusão de se achar que a ciência não é assim tão mais complicada do que uma simples vacina, ou mesmo du… três, prontos, três vacinas… das simples?! Pois.