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Filme dentro do filme

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Uma vedeta nasceu. Chama-se João Araújo. E ninguém poderia imaginar vir a ser ele o advogado de defesa de Sócrates neste caso. Aliás, nem o próprio tinha certezas a respeito, pelo menos a avaliar pelas suas primeiras declarações aos jornalistas, onde ia dizendo que ainda não sabia se seria o escolhido; isto enquanto entrava e saía do tribunal para tratar não se sabe do quê.

Para além de ser a antítese perfeita de Proença de Carvalho – onde um é a maior estrela da advocacia nacional o outro era um completo anónimo para o público até ontem, onde um é sofisticadíssimo e habilíssimo na oratória o outro mostrou-se trôpego, aluado e castiço, onde um é um palito o outro é um barril – esta figura é tão bizarra face ao convencionalismo que associamos ao folclore cagão dos grandes escritórios de advogados que introduz um elemento com laivos enigmáticos ou surpreendentes na estratégia de defesa.

Aparentemente, será ele quem melhor poderá explicar os movimentos de dinheiro que estão na berlinda, dada a sua antiga ligação profissional, e de amizade, à família de Sócrates. Todavia, para satisfação da minha fantasia, o João Araújo seria um génio da advocacia que levava uma vida esconsa só do conhecimento de uns quantos. No seu passado haveria alguma tragédia amorosa, ou conflito com o sistema de Justiça, ou ambos os ingredientes, que explicaria a sua reclusão e excentricidade. Uma excentricidade estudada, ardilosa, com o fito de enganar os adversários de acordo com uma muito antiga técnica guerreira. Na hora da verdade, no palco da lei, ele surgiria inventivo e implacável na defesa dos seus clientes. Enfim, uma personagem tipificada há décadas na mitologia de Hollywood.

Não faço ideia se iremos ver esse filme, mas faço uma boa ideia de como seria um filme inspirado no seu fenótipo e idiossincrasia.

Responsabilidades por um canudo

A Joana Marques Vidal, que se gaba de ter um canudo em “Jornalismo Judiciário” pela Lusófona, não impediu o enésimo crime público de violação do segredo de justiça. Desta feita foi a recolha de imagens no aeroporto, pelos media avisados do costume, da detenção de José Sócrates e a imediata divulgação a esmo de supostos detalhes do processo, à mistura com boatos e afirmações difamatórias (veja-se o que a Infelícia do costume insinua no pasquim Sol).

A Joana, que não quis ou não soube impedir tal crime, diz agora que vai abrir um inquérito, o enésimo, para apurar responsabilidades. Todos sabemos perfeitamente, mesmo sem uma pós-graduação pela Lusófona, como vai acabar tal inquérito. A Joana também o sabe. É só mais uma declaração hipócrita, um ritual repetitivo de fuga às responsabilidades próprias.

O homem a abater

José Sócrates é o homem a abater pela direita e pela extrema-esquerda portuguesas desde que se candidatou às legislativas de 2005, isto é, ainda antes de conquistar a primeira maioria absoluta de um partido da esquerda, vitória que só agravou a sanha. De 2005 a 2008 já as ratazanas todas se atiravam ao homem, na tentativa de o emporcalhar ou, até – ainda não havia crise – de o apontar como a mais séria ameaça à liberdade em Portugal (sic).

Seguiu-se, a partir de 2009, a maior campanha político-mediática de ataque ad hominem de que há memória no país. Está ainda na memória de todos. Sócrates foi por fim afastado do poder em 2011 pela coligação negativa da direita e da extrema-esquerda, mas a sanha persecutória não diminuiu um milímetro. Tinha-se investido muito na campanha de ódio, mentiras e insinuações e os resultados pareciam encorajadores. A direita voltara ao poder, graças a Deus! Havia que continuar a explorar o filão até ao osso – até porque não havia mais nada para dizer ao país. O espantalho Sócrates, laboriosamente fabricado, tinha que ser agitado sem cessar, para a direita se aguentar até às próximas eleições e poder ganhá-las outra vez – e para a extrema-esquerda continuar a alimentar o sonho necrófilo de se apoderar dos despojos do Partido Socialista.

Mais recentemente, Sócrates apareceu na RTP a comentar a política portuguesa – e a ter que se defender permanentemente dos remoques dos entrevistadores de serviço, pois não se chama Rebelo de Sousa nem Marques Mendes. Como já não existe polícia política (só há polícias políticos) nem a abençoada Direcção dos Serviços de Censura, fizeram-se petições públicas para tapar a boca ao homem. Muitos milhares de censores frustrados subscreveram-nas, mas sem resultado. Era preciso mudar de táctica. O ideal era mesmo meter Sócrates na prisão. Colunistas histéricos e histéricas começaram a falar de um Sócrates “delinquente” que era vital engaiolar. Meses depois, uma revista malcheirosa publicou uma reportagem falsa, ilustrada com um retrato de Sócrates de página inteira, atravessado por uma inscrição em letras garrafais: APANHADO. Foi um orgasmo precoce dos neo-fascistas, que tomaram os seus desejos por realidades. Teve que vir a público a PGR – de onde só pode ter partido a fuga de desinformação – para desmentir formalmente as tretas. Entretanto continuavam activamente, pela calada, os preparativos para o ataque final, que se deu ontem. As tretas são parecidas, só que agora há que prová-las, o que é uma grande chatice. Mas mesmo que nada se prove, as repercussões mediáticas disto tudo vão render até ao abrir das urnas em 2015.

Nem Ricardo Salgado foi tratado pela organização judicial como Sócrates está a ser. A detenção no aeroporto para ser interrogado no dia seguinte, com estadia obrigatória na prisão, obedeceu a uma intenção clara de achincalhamento e aviltação do ex-dirigente socialista, a que não faltou a reportagem vídeo agendada com os ratos do costume. Como é óbvio, a notícia tinha que ser “Sócrates detido” e não “Sócrates interrogado”. Porque interrogados há muitos, mas um detido já é meio culpado.

O que há de bom no chilindró de Sócrates

Magistrados portugueses decidiram prender Sócrates num aeroporto para o obrigar a prestar declarações no dia seguinte e avisaram a comunicação social com antecedência suficiente para se obter material mediático. Isto é o equivalente à produção de um vídeo das decapitações do Estado Islâmico. Está em causa excitar os fãs e aterrorizar as vítimas.

A parte boa é esta: desde 2004 que a direita portuguesa, em conluio com jornalistas e agentes da Lei, explora as caudalosas suspeitas que cria e lança sobre Sócrates. Já temos 8 anos dessa decadência. Desta vez, vamos todos ficar com o problema resolvido. Se existirem provas de crime, Sócrates desaparece do mapa político, arrastando alguns com ele e deixando António Costa com um novo problema a escaldar nas mãos. Se não existirem, se o caso se transformar em mais um Freeport ou se nem a isso chegar, abre-se uma questão de regime pois a detenção passará a ser um atentado político contra o PS.

Isto vai correr bem. Resta só saber para quem.

Ainda que mal pergunte – futebol

Embora ache exagerado o destaque que por aqui se dá ao futebol nas televisões (e apenas a esta modalidade) e estando ciente do risco de essa praga (sobretudo os diretos e os comentários pré- e pós- jogos, expoentes da alienação levada à náusea) atacar o principal canal público (espero que se limitem aos jogos), a aquisição dos direitos de transmissão televisiva dos jogos da Liga dos Campeões pela RTP1, por três épocas, é assim um tão grande escândalo? A UE considera estes jogos «eventos de interesse público». Faltando ainda esclarecer a verdadeira diferença entre as ofertas, as receitas provenientes da publicidade não cobrem abundantemente o investimento? Se assim não fosse, por que razão estariam as estações privadas interessadas?

 

Esclarecimento: gosto de ver futebol quando jogam os melhores.

 

Acordar e partir

A apatia dos portugueses perante um Governo duplamente traidor – pois nasce da traição eleitoral e da traição aos interesses da enorme maioria da população – não tem ninguém que a estude, interprete e reflicta. Dos partidos não podemos esperar esse serviço pois estão ocupados consigo próprios. Dos jornalistas e publicistas não podemos esperar esse trabalho pois estão ocupados com os partidos. E dos cientistas sociais residentes na academia não devemos esperar esse contributo pois não parecem sequer ter vocação para requalificar o espaço e o debate público, encontrando-se ausentes em parte certa. Sobram os psiquiatras, os psicólogos e os astrólogos, obrigados todos ao sigilo profissional (embora por razões diferentes).

Quem passa por um ciclo de três anos onde, de forma ubíqua na comunicação social e na oposição, os governantes são tratados como corruptos sem que para tal fosse preciso provar coisa alguma e naquelas em que se tentou policial e judicialmente derrubá-los não foi encontrada prova para tal, espera que a liderança seguinte do País demonstre a sua razão passada e a sua virtude presente. Quem passa por um ciclo de três anos onde, de forma sistemática na oposição e na comunicação social, os governantes são causticados ora por promoverem o investimento público, ora por reduzirem as despesas do Estado, espera que a liderança seguinte do País demonstre o acerto das suas promessas passadas e do seu programa presente. Com este Governo, a ilusão durou apenas dias. A primeira medida anunciada por Vítor Gaspar logo em Julho de 2011 implicava o rompimento do mais espectacular juramento de campanha de Passos Coelho e que era o cerne do seu posicionamento alternativo à austeridade dos PEC: o subsídio de Natal ia mesmo ser cortado. Com esse gesto inaugural da gula além-Troika destruía-se a capacidade do eleitorado para dar sentido benigno ao que se estava a passar; no entanto, já não havia energia para lhe dar sentido maligno. O efeito era e é em tudo igual ao que acontece quando somos vítimas da maior violência por parte daqueles em quem temos a maior confiança. Choque e trauma, confusão e paralisia.

É das coisas mais fáceis para fazer sendo-se o feliz proprietário de um singelo par de neurónios: imaginar as reacções políticas, mediáticas e sociais caso tivesse sido um Governo PS a ir contra a Constituição só para tentar empobrecer ainda mais os portugueses, a esmagar a economia e a classe média com impostos, a apelar à emigração dos mais jovens e mais capazes, a desmantelar os serviços do Estado Social com fúria e gargalhada, a ser o cúmplice fanático do castigo moral dos países ricos aos países pobres na Europa, a provocar um caos na Educação como o que estamos a viver, a conseguir tornar inoperante a instituição judicial como nunca se viu antes nem se imaginava possível, a negociar e renegociar o Memorando a cada avaliação só para acabarmos muito pior do que estávamos quando se disse estar ali o remédio vindo do estrangeiro contra os vícios dos indígenas que não se sabem governar. Seriam espectáculos imperdíveis esses de ver Passos Coelho e Paulo Portas a espancarem a política fiscal que têm aplicado, ver Nuno Crato a gozar com os erros matemáticos que cometeu, ver Paula Teixeira da Cruz a libertar a sua nefanda bílis para cima do apagão da Justiça que inventou sozinha. E que dizer da esquerda pura e verdadeira, do PCP, dos sindicatos e, claro, dos patrões da imprensa e seus altifalantes? O arraial imparável em que andariam, gastando a Avenida da Liberdade para cima e para baixo, uns, e fazendo emissões contínuas com os profetas do Apocalipse, os outros?

Ferreira Leite e Bagão Félix são duas das mais populares figuras da oposição ao nosso (des)Governo de liberais ultramontanos. O que dizem faz sentido sem necessidade de intérprete, é assimilado pela maior parte da população como sendo um discurso que espelha as dificuldades e necessidades do cidadão comum. Ora, Ferreira Leite é a mesma que definiu a Grande Recessão como não passando de um “abalozinho” e até tinha chiliques só de imaginar que Sócrates poderia ficar como deputado no caso de perder as eleições em 2011. E Bagão Félix é o mesmo que propôs, sem se rir, no princípio de 2011, um Governo PSD-CDS-PCP sob o argumento de que os comunistas eram “gente séria”, ao contrário dos socialistas, e que valia tudo para correr com Sócrates. Como é que estas duas pessoas passaram do destrambelhamento circense para um meridiano bom senso? Seja lá o que for que tenham tomado, bebido ou fumado, ou que tenham deixado de tomar, beber e fumar no entretanto, servem estes dois exemplos para dizer que vale a pena manter a esperança. Um dia destes o País vai acordar da impotência em que chafurda sonâmbulo e tratar os traidores de acordo com a melhor tradição: deixando-os para trás enquanto nos metemos a caminho da comunidade que queremos ser.

Mais uma anedota

Maria Luís Albuquerque disse hoje na comissão parlamentar de inquérito que não imagina como é que o Marques Mendes teve conhecimento da solução para o BES e, posteriormente, a foi explicar na SIC (2 de Agosto), antes de o próprio governo a anunciar ao público (3 de Agosto).

Como é sabido, a CMVM suspeita fortemente que houve quem, com acesso a informação privilegiada, andou criminosamente a negociar na bolsa e a safar milhões (1 de Agosto), antes que a solução para o BES fosse conhecida e oficialmente anunciada pelo governo.

A ministra das Finanças explicou que sabiam com antecedência da resolução tomada em relação ao BES as seguintes (poucas) entidades:

– Carlos Costa e o Banco de Portugal (assim em geral);
– o primeiro-ministro;
– o vice-primeiro-ministro;
– ela, a ministra;
– algumas pessoas que trabalharam com ela, a ministra;
– a secretária de Estado do Tesouro;
– a Direcção-Geral da Concorrência (sic);
– o Banco Central Europeu e, em particular, os governadores do BCE que estiveram numa videoconferência a 1 de Agosto;
– “mais umas pessoas que ao longo desse fim de semana que estiveram a trabalhar no processo”;

A ministra das Finanças concluiu a sua enumeração com bastante graça: “Não tenho conhecimento de que mais gente soubesse. Admito que houvesse mais gente”.

Como é que o Marques Mendes soube? É mesmo um mistério, não é?

——

ÚLTIMA HORA:   Melhor ainda: segundo o Público, a ministra das Finanças reconheceu ainda, no final da sessão de seis horas de perguntas, que ANTES de a solução para o BES lhe ter sido comunicada pelo Banco de Portugal, já ela, a  ministra, e o governo todo (o conselho de ministros) sabiam o que estava para vir.

Caganda sorte

Isto do BES, da colocação dos professores, do Citius, dos vistos Gold, do maior aumento de impostos em democracia a mando dos liberais à portuguesa, do falhanço de todas as metas do Memorando, da incapacidade para recuperar e fortalecer a economia sem que tal passe por baixos salários, despedimentos e emigração, de uma concepção do valor e funções do Estado que até ofenderia a inteligência de um Caenorhabditis elegans, pode apresentar alguns aspectos mais incómodos, talvez negativos. Enfim, é discutível. Mas há que recordar à populaça que temos a grande sorte de isto tudo se estar a passar sob o comando firme e ilustre da gente séria. Imaginem o que seria se lá estivessem outros sem esta competência e dedicação… sem esta seriedade e patriotismo… essa escumalha que só pensa em defender o Estado e os cidadãos… em gastar o dinheiro dos nossos impostos em pobres e serviços públicos… ui… Era o fim do que resta.

Q.E.D.

O Fórum TSF do passado dia 13 foi o primeiro programa na comunicação social dedicado exclusivamente a Sócrates enquanto arma de arremesso político após três anos e meio de novo Governo (que me lembre ou saiba). Tal raridade contrasta de forma completa, absurda e ridícula com a sua importância política e sociológica. Não só foi o único secretário-geral socialista a conseguir uma maioria absoluta até ao presente como foi o primeiro-ministro que enfrentou o pico das crises internacionais – a Grande Recessão e a crise das dívidas soberanas europeias – e ainda o político português mais atacado por campanhas negras e assassinatos de carácter; numa escala, numa intensidade e com uma gravidade sem paralelo nem aproximação. Como explicar o simultâneo alarido e silenciamento que provoca? Explica-se facilmente: interessa a esta direita decadente continuar a usar Sócrates como bode expiatório e espantalho enquanto ainda restar algum bronco disposto a ser enganado, não lhe interessa permitir que se fale de Sócrates com racionalidade, a mínima racionalidade.

A singularidade de Sócrates manifesta-se também pela tonteira chamada Seguro. A forma como este participou no desgaste daquele até às eleições de 2011, e a seguir como assumiu e reproduziu o discurso da direita sobre o seu antecessor na liderança do PS, ficam igualmente na forma de episódios extraordinários cuja tipologia talvez não voltemos a testemunhar. Porque seria necessária uma conjugação de factores altamente improváveis ligados a um só indivíduo, onde se incluem uma vida inexistente fora do partido, uma personalidade anal e uma estupidez galopante a par de um ciclo de ódio demente na sociedade. Seguro alinhou na estratégia de usar Sócrates como “o nome que é pecado pronunciar” para que todos saibam que é essa “a fonte de todo o mal” até ao momento em que teve mesmo de falar do Diabo – e só lhe saiu merda da grossa. Nesse trajecto conseguiu perder pesos pesados dados como certos e com passado anti-socrático, casos de Alegre e Cravinho, e recolher o apoio de notáveis do período socrático, os casos de Assis e Alberto Martins. A teoria do caos de pernas para o ar.

O que se passou na TSF na última quinta-feira apresenta três aspectos a pedir registo:

- A mediocridade das participações dos convidados.
– A espontaneidade e genuinidade do apoio a Sócrates vinda dos participantes populares.
– A irrelevância relevante da sondagem sobre o tema em discussão.

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Macedo demitiu-se com dignidade. A sério?

Li por aí opiniões segundo as quais o ministro Miguel Macedo saiu do Governo com dignidade e com um discurso de demissão sucinto e exemplar. Ora, não passaram 24 horas do anúncio até se saber que este digno ministro, também considerado competente (mas sabemos da relatividade das coisas), se reunira há uns meses em Islantilla, Espanha, com António Figueiredo para conversarem sobre as escutas que a PJ lhe(s) andaria a fazer, procurando escapar em território estrangeiro à sua vigilância, e que os cabecilhas do esquema de corrupção eram seus sócios, amigos íntimos ou dependentes hierárquicos (factos conhecidos e não desmentidos). Claro que o facto de se ser amigo, ou, vá lá, até sócio, de pessoas eventualmente, e a dada altura, em circunstâncias propícias, pouco escrupulosas ou corruptas não significa de todo que se está igualmente envolvido nos alegados esquemas. No entanto, bastante chamuscado se apresenta, a meus olhos, Miguel Macedo neste caso e o receio de a chamusca se transformar em grave queimadela não lhe deixou alternativa senão abandonar a ribalta. A sua declarada intenção de “proteger” o Governo com este gesto pode até, muito bem, ser verdade. Ele lá saberá do que o quer proteger. Penso que Relvas invocou o mesmo. Possivelmente também Álvaro, embora com outra base. Esquecemos por vezes que Miguel Macedo não viu qualquer problema em fazer parte do bando liderado por Passos, Relvas e companhia. E que tudo indica  que ficaria, não fossem as faúlhas.

 

A permanente pose digna, reforçada pela voz grave e bonita, são instrumentos que naturalmente usou numa hora difícil. Pelos vistos, convenceu alguns. Não tem, aliás, o monopólio da boa sonoridade no Governo. Passos vive dela. E é com uma voz de bom timbre que nos recita os mais desastrados e vernáculos poemas. Fica aqui a sugestão, gente: quando saírem todos da frente, formem um coro a capella. Talvez nos divirtam a sério. Em contexto de responsabilidade, mal há um que se aproveite.

Por um punhado de euros

Por uns míseros 1400 milhões de euros – muito menos do que vai custar ao Estado português o estouro do BES – a Agência Espacial Europeia (ESA) fez aterrar uma sonda no cometa 67/P, um enorme pedaço de gelo sujo que há uma semana voava a 500 milhões de quilómetros da Terra. A missão Rosetta, iniciada em 1996, custou na sua globalidade o equivalente a quatro aviões Airbus 380, menos do que a fuga ao IVA em Portugal durante um ano. A coisa foi paga pelos cidadãos dos países europeus membros da ESA, Portugal incluído, à razão de 20 cêntimos anuais por cabeça durante os dezoito anos que o programa durou.

Quando o módulo Philae aterrou no calhau e começou a enviar postais ilustrados do sítio, logo apareceram os habituais velhos do Restelo, sobretudo uns forretas ingleses, a dizer mal da Europa (inveja dos alemães) e a declarar que a viagem até ao cometa era uma ruinosa inutilidade (lá se vai o futuro dos nossos filhos). Responderam-lhes dizendo que a missão aumentara enormemente os conhecimentos científicos e práticos da ESA, fazendo aparecer a Europa no mundo da investigação espacial ao lado dos EUA e da Rússia. E que ainda criara centenas de postos de trabalho altamente qualificados, com efeitos positivos no crescimento económico. E que ninguém podia prever todos os efeitos úteis de uma investigação pioneira como esta. Uma cientista citou o exemplo da World Wide Web, que nasceu de um sistema engendrado por físicos de partículas do CERN para comunicarem entre si mais eficazmente. Tudo bagatelas para os forretas dos bifes, que contam entre os seus fãs em Portugal o Coelho, o Merdina Carreira e o Campos e Cunha.

A propósito, não me importava nada de ver esses três, mais o Gaspar, a mandarem uma selfie do cometa 67/P. Antes de as baterias se esgotarem…