Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Coisas do Carvalho

Preparemo-nos, então. Vêm aí muitas palavras grandiloquentes, muitas intervenções inflamadas, muitas denúncias, muitas indignações sinceras ou nem tanto, mas quando todo o processo acabar, o sistema que se apropriou da Caixa terá ganho tempo para deixar tudo na mesma. Escrevia esta segunda-feira João Miguel Tavares que um dos maiores problemas do país é “a incapacidade de aprender com os erros cometidos”, o que sendo uma absoluta verdade merece o devido contexto: o país não aprende porque não há grande coisa a aprender.

Depois das palavras e das palavras e das palavras, os gestores que usaram a Caixa com negligência e dolo para satisfazer projectos políticos e pessoais nesses tempos nefastos da era Sócrates e os que se serviram dessa farra hão-de continuar por aí como se nada tivessem feito, como se nada devessem à justiça e ao bem-comum.

Sem que se ponha em causa o mérito da CPI e a boa vontade dos deputados e dos partidos que a propõem, a verdade é que acabará por repetir nomes concretos, dívidas precisas e manobras conhecidas sem que nada mais aconteça. A Caixa de hoje nada tem a ver com a desse passado obscuro, como o país de hoje se libertou da corte de políticos, banqueiros e ditos empresários que deram ao pobre capitalismo português um toque de nepotismo e cleptocracia.

Mas, não nos iludamos. Feridas como a da Caixa não se curam com discursos. Mas, com a alçada da lei para lá dos prazos da prescrição, pouco nos resta. Para lá da memória, da indignação e de uma CPI fora de prazo.


Manuel, 30 de Janeiro

Muito mais do que um ajuste de contas, exigiam-se conclusões que nos permitissem fazer um juízo ético sobre esses anos conspícuos e sobre os personagens que os protagonizaram. A exigência que os deputados colocaram nos trabalhos, com destaque para a inevitável Mariana Mortágua, mas sem colocar o mérito de todos os outros em questão, obriga a uma óbvia conclusão: ainda bem que a CPI existiu.

A utilidade de inquéritos destes é a de munir a opinião pública com ferramentas de pressão suficientes para se evitar no futuro a repetição do festim de dinheiro fácil e da complacência das entidades que deviam zelar pelo interesse colectivo – o Governo como dono da Caixa e o Banco de Portugal como regulador do sistema financeiro.

É expectável que a matéria apurada na CPI reforce agora a viabilidade de processos judiciais aos autores dessa história ruinosa. A CPI ajudou-nos a perceber esses mecanismos e a revelar a facilidade com que o deslumbramento provinciano da corte lisboeta transforma personagens de opereta, como Joe Berardo, em investidores encartados e doutores em finanças. Prestou um bom serviço ao país.


Carvalho, 16 de Julho

*_*

Manuel Carvalho, um dos maiores craques em ética e deontologia jornalística que este rectângulo à beira-mar abandonado já pôde observar em acção, não é só alguém que tem direito a mudar de opinião a cada seis meses. Ele é muito mais do que apenas um especialista em política manifestamente baralhado, muitíssimo mais. Acontece estarmos perante o director de um “jornal de referência” que cita um caluniador profissional para nos ajudar a perceber como as coisas é. Veja-se a profundidade, a originalidade, o alcance do pensamento convocado: «Escrevia esta segunda-feira João Miguel Tavares que um dos maiores problemas do país é “a incapacidade de aprender com os erros cometidos“». Tomem e embrulhem, seus trastes da política e das elites. Aqui está quem vos topa e não perdoa.

O magnífico Carvalho é também um fulano que se entusiasma facilmente com “uma era dominada pela irresponsabilidade, pela negligência e pelo amiguismo das relações cortesãs alimentado pelo poder do dinheiro, esses anos conspícuos do festim de dinheiro fácil e da complacência das entidades que deviam zelar pelo interesse colectivo, onde o formalismo da lei serviu para ocultar a falta de probidade, de devoção ao interesse público ou de determinação para lutar contra a corrente desses dias insensatos em que uma oligarquia política e financeira tentou tomar de assalto o país com o dinheiro fácil que saía da Caixa para encher de deslumbramento a corte lisboeta“. É isto que ele conclui quando se põe a matutar no assunto. Infelizmente, não teve tempo para deixar uma qualquer informação factual, objectiva, à prova de dúvida, para sustentar o cenário de falência do Estado e saque onde a sua retórica do Bolhão se sente em casa.

Se há algo que podemos concluir a partir das suas conclusões é que este senhor desconhece o que foi dito na II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco pelos auditados. Desconhece intencionalmente, daí recusar-se a fazer referências onde seja possível haver contraditório. Basta-lhe a versão preliminar onde a politização dos trabalhos é o único critério que fica consensualmente transparente. Daí os alvos no final do inquérito serem exactamente os mesmos que eram agitados no início: Santos Ferreira, Vara e Constâncio [portanto, Sócrates]. Tudo o resto, todos os testemunhos que pulverizaram essa chicana obsessiva, foi apagado por quem agora utiliza mais um exercício onde se provou a normalidade e licitude dos processos na CGD para fazer a propaganda exactamente do contrário.

Inventar notícias falsas, atacar a honra de ex-governadores do BdP e ex-administradores bancários, e ainda de actuais colaboradores do jornal de que se é director, ser rancorosamente sectário e festejar a possibilidade de ver alvos políticos a serem constituídos arguidos, isto é obscenamente do Carvalho.

Lapidar

A promiscuidade que nunca existiu

Em Portugal tornou-se famosa a frase “você sabe que eu sei que...”. Por aqui não levou a lado nenhum, mas quem acompanhe o trabalho de Glenn Greenwald desde investigações anteriores sabe que ele costuma saber o que está a dizer. E o que está a mostrar é que há pecado original na abordagem da justiça brasileira a Lula. Um pecado original de promiscuidade entre acusação e juiz, que no Brasil atinge padrões chocantes que nunca atingiria em Portugal, quando o juiz de instrução é também o juiz de julgamento, mas que está longe de ser um exclusivo do nosso país-irmão. Na minha experiência com a justiça criminal portuguesa nunca percebi porque o juiz imparcial entrava na sala pela mesma porta da acusação, porque tinham gabinetes em zonas conjuntas ou porque claramente se tratavam como iguais e acima dos advogados dos arguidos. A igualdade de armas entre acusação e defesa é um elemento fundamental da justiça em tribunal. Com o que já ouvimos do caso Lula no Brasil e neste caso é uma anedota. Nunca, ninguém investigou a intimidade entre juizes e ministério público em Portugal. Portanto, entre nós, tal como o fascismo, a promiscuidade entre magistrados judiciais e magistrados do ministério público nunca existiu.


Paulo Pedroso

Revolution through evolution

Teens ‘Mocked’ by Their Parents Are at Greater Risk for Bullying, Victimization
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Facial Plastic Surgery in Men Enhances Perception of Attractiveness, Trustworthiness
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Psychiatric diagnosis ‘scientifically meaningless’
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Goats can distinguish emotions from the calls of other goats
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The brain’s pathways to imagination may hold the key to altruistic behavior
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Making sense of morality: FSU researchers advance the study of ethical decision-making
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Even in Svelte Adults, Cutting About 300 Calories Daily Protects the Heart
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Continuar a lerRevolution through evolution

Os malefícios da Bonifácio

Há uma semana, a senhora Bonifácio deu à estampa uma arenga odiosa, eivada de preconceitos, generalizações abusivas, estereótipos, asneiras, patacoadas e imbecilidades. Isso a pretexto de se opor a uma proposta de quotas para minorias étnicas, ideia certamente saída, segundo ela, de uma desprezível “cabeça de esquerda”.

Não é um texto directa e abertamente racista, porque a Bonifácio não sustenta ideias de superioridade/inferioridade propriamente racial, isto é, fundada em argumentos biológicos ou sociobiológicos relacionados com a raça. Sustenta, em compensação, ideias de suposta superioridade/inferioridade moral, cultural, religiosa ou civilizacional e faz isso de um modo  infamante para várias minorias étnicas e (ou) religiosas portuguesas, o que equivale a fazer considerações racistas, pois aplica estereótipos ofensivos a etnias. É, portanto, um texto rotulável de discurso de ódio, não porque incite directamente à violência ou à discriminação contra as ditas minorias, mas porque se esforça por dar delas uma imagem globalmente detestável. Retrata-as por atacado como violentas, racialmente preconceituosas e religiosamente intolerantes, o que não fica muito longe dum incitamento à retaliação contra tais comportamentos. Naturalmente, a senhora Bonifácio terá de prestar contas à justiça pelo discurso de ódio que publicou.

Uma das maiores imbecilidades sustentadas pela Bonifácio tem a ver com a sua defesa do que chama Cristandade e que arvora em critério superior da civilização, da qual exclui africanos, ciganos e as “tribos muçulmanas”. Todos estes possuiriam, segundo ela, “códigos de honra, crenças, cultos e liturgias próprios”, opostos não só aos da tal Cristandade como também aos direitos universais proclamados pela “Grande Revolução Francesa”. Lembrei-me logo da numerosa tropa de ultra-conservadores e reaccionários que nos últimos séculos condenaram a dita revolução, opondo-lhe precisamente a “civilização cristã” – uma expressão que também tinha lugar cativo no discurso de Salazar e outros fascistóides. Mas isto são minudências.

A verdade é que o cristianismo, mesmo quando não se importava com o esclavagismo e até nos piores dias da católica Inquisição, nunca professou a exclusão de qualquer raça ou etnia do seu objectivo de proselitismo e universal salvação das almas, antes tentou sempre assimilá-las (a bem ou a mal, não vem agora ao caso) à sua fé e aos seus valores. A assimilabilidade de todo o ser humano à fé (cristã) e a igualdade das almas perante Deus (este um postulado que não é só cristão) são mesmo dois princípios básicos da religião cristã. Mas a Bonifácio prefere ao conceito de cristianismo o arcaizante conceito de Cristandade, a evocar os tempos em que não se admitia outra crença, muito menos a descrença. A evocar também os tempos da “Igreja imperial”, bem como as cruzadas, a jihad cristã. Nos tempos do Concílio do Vaticano II tinha-se proclamado, por esse motivo, o fim da era da “Igreja de Cristandade”. Julgo que não foi por acaso que a Bonifácio recorreu ao preciso termo Cristandade – ainda que o possa ter feito de modo pouco consciente, dada a multiforme ignorância que patenteia na sua arenga.

Suspeito que a senhora nem cristã é. Aparentemente ela engloba ateus e agnósticos (pelo menos 15% da actual população portuguesa) no seu movediço conceito de Cristandade. Quem ela de certeza inclui nesse conceito é a numerosa canalha de racistas que por aí pululam, hoje como ontem, muitos dos quais se dizem “cristãos”.

Mas que história, sr. historiador

A bem da higiene mental de muita e boa gente, a grande maioria dos artigos de opinião publicados no blogue com pretensões a jornal que dá pelo nome de Observador não está acessível sem pagamento. É uma bênção. Até porque confesso que a tentação de ir espreitar o que anda a dizer a ainda envergonhada “alt-right” cá do país é grande. Mas não faz bem. É como se eu pudesse ir espreitar o que se passa nas sessões da IURD – não me interessa, são pessoas voluntariamente alucinadas, é com elas, ficarei mal disposta, mas a alienação tem o seu fascínio. E online é fácil.

Fora do Observador, mesmo assim, também pontificam alguns indivíduos que poderiam ser seus agentes. Mas mergulhar ali é uma experiência, ainda que se faça apenas meio mergulho ou um oitavo de mergulho como eu. Aquela diversidade – desde padres que esmiúçam mesmo a sério a virgindade de uma lendária Maria e consideram com respeito os espermatozóides de um espírito, até humoristas espertalhões que descobriram a suposta graça da ignorância e a quem pagam porque há que contrariar a ideia de que o humor é da esquerda, ou “tias” que, de certeza, sabem estar – é altamente convergente na raiva aos socialistas. Quiçá por falta de assinantes de tão preciosos e coerentes conteúdos, resolveram agora ir pregar via rádio e então é só pedidos e links para que os ouçam. Talvez pelos ouvidos e à borla penetrem? Olhem, não. Pela parte que me toca, pelos ouvidos não. Só melodias. Além de que, para o efeito que procuro, chegam-me as três primeiras linhas de cada tese. Por exemplo:

 

Portugal não foi a Grécia graças a Passos Coelho.” Oh my God!

 

Não foram precisas três. Em apenas uma linha, o Rui Ramos, que não atina mesmo, conta-nos que o Passos fez não sei o quê de muito bom, como evitar que fôssemos a Grécia. Este historiador com um claro fraco talento para a actualidade (sei, porque houve um tempo em que não se pagava para o ler), é fã número um de sumidades como o ex-primeiro-ministro e muito amigo e admirador de Fátima Bonifácio e, com estes gostos, pretende ser o ideólogo, o intelectual, o propagandista da autêntica direita. É também do mais retorcido que há. E muito raivoso.

 

Quanto à Grécia actual, olhe, nada disso, dr. Ramos. Foi mesmo por culpa de Passos Coelho que Portugal entrou no clube dos “resgatados”, quando tinha tudo para escapar. Tinha até uma solução alternativa negociada com as instâncias europeias, BCE incluído, que não estavam nada interessadas em mais um fracasso na zona Euro (o segundo tinha sido a Irlanda). O que Passos fez foi algo tão brilhante como ceder à chantagem de Marco António Costa para derrubar o Governo, mandando Portugal para a fossa do resgate, aliás não considerado fossa nenhuma por alguns dos seus apoiantes, antes uma bem-aventurança, sob pena de ser corrido da liderança do partido. Mais: já depois de negociado o resgate e estando ele primeiro-ministro, o homem considerou os termos do dito demasiado brandos e, assumindo que o que andara a dizer na campanha eram puras mentiras, determinou que iria mais longe do que a Troica, cujo programa, disse, estava longe de ser uma cruz que carregava. O objectivo passou a ser afundar completamente o país, afugentar os “preguiçosos”, castigar os que ousaram pedir crédito, mais quem ganhava uns excessivos 1000 euros, fechar os pequenos comércios que eram coisa de falhados, desertificar as estradas, enfim, arrasar a economia e depois, alegadamente, recomeçar de novo com salários de 300 euros por mês, um sinal de enormíssima competitividade.

Ah e tal, mas mesmo assim não fomos três ou quatro vezes ao fundo como a Grécia. Não, um resgate chegou. Mas os pontos de partida eram diferentes. Se não fossem, não teria sequer sido aceite o tal acordo alternativo ao resgate, depois deitado fora.

Três observações quanto ao milagre de São Passos em não nos transformar na Grécia: 1. O que aconteceu à Grécia não foi por falta de cortes nem de sangria. Estes aconteceram e em doses cavalares. Tal e qual Passos fez, e com gosto. O problema foi que a situação era mesmo bem pior, começando por uma dívida externa estratosférica, contas aldrabadas há anos e anos com vista à entrada no clube do euro, péssimo funcionamento do aparelho fiscal, corrupção generalizada e situações de privilégio inteiramente absurdas na função pública e em determinadas classes profissionais. Isto à mistura com alguns preconceitos, claro. 2. O Vítor Gaspar, a grande estrela da primeira metade da legislatura, pisgou-se depois da sangria aos portugueses e veio mais tarde, já repimpado, fazer mea culpa pelos excessos da tal ida além da Troica (ele e outros colegas no FMI), o que prova que talvez o tal não-resgate tivesse sido mais avisado e menos massacrante. 3. A chamada “saída limpa” aconteceu porque o “cãozinho” levou um prémio, um belo osso por bom comportamento, como tinha que ser a bem da exibição de um caso de sucesso, mesmo que o aspecto limpo tenha sido conseguido à custa de deixar para o governo seguinte o problema dos bancos.

 

Enfim. Coisas engraçadas. O que se pode dizer com base numa linha. Parece que as outras versavam sobre como Rui Rio não é capaz de correr com a esquerda como a direita acabou de fazer na Grécia. Dr Ramos, não desespere. Mas com o Passos não vai lá.

A mais velha pulhice do mundo

Pode haver racismo sem raças à mistura, ou sob outras capas terminológicas mas com iguais processos cognitivos discriminatórios e práxis persecutória? Luís Rosa, um “jornalista” pago pelos accionistas do Observador para morder as canelas ao PS e a qualquer socialista que consiga apanhar com as suas favolas raivosas, prova que sim.

Num texto de princípios de Junho que não provocou o mais leve estremecer de asas nas borboletas do nosso comentariado nem nos passarões do sistema partidário – É óbvio que o PS não quer lutar contra a corrupção – este talibã faz algo que nunca tinha visto ser feito com igual clareza e à-vontade na comunicação social profissional:

– Diz que os dirigentes e militantes do PS, desde 1975, pretendem dominar politicamente o Ministério Público.
– Diz que o Ministério Público tem sido, e é na actualidade, a entidade política que impede o PS de usurpar o poder durante longas décadas.
– Diz que os actuais dirigentes socialistas (portanto, António Costa e companhia) estão a tentar acabar com a luta contra a corrupção por causa da “Operação Marquês”, de Armando Vara, de Manuel Pinho e de uns autarcas socialistas constituídos arguidos há umas semanas.
– Diz que Isabel Moreira representa o que o PS todo pensa e quer para o Ministério Público (logo, que um texto de opinião da Isabel vale mais do que as políticas do actual Governo e as propostas da actual ministra da Justiça, para não falar no grupo parlamentar socialista).
– Diz que Isabel Moreira quer que o Ministério Público regresse ao modelo que tinha durante o Estado Novo.
– Diz que Isabel Moreira, posto que se atreve a dizer o que pensa em público, deve ser convocada pela procuradora Lígia Salbany para prestar declarações no processo que investiga as PPP da responsabilidade dos Governos socráticos – sugerindo ainda a linha de interrogatório a fazer-se, a qual remete para Paulo Campos e Sócrates.

Não vale a pena gastar caracteres com a magnitude paranóide exibida, com a imbecilidade fanática e fétida, o que mais importa concentra-se no pedido público para que Isabel Moreira seja constituída arguida num processo judicial aberto há anos única e exclusivamente por ter assumido uma posição política que o sr. Rosa considera inaceitável. Este pedido vem de um admirador e promotor de Sérgio Moro, alguém a quem pediu pessoalmente para abrir um processo judicial internacional onde juntasse Lula, Sócrates e o esqueleto de Chávez. Entender como é que o talibã chega a este ponto, ao ponto de publicitar o seu racismo onde pretende a capitulação ou genocídio da “raça PS”, é não só relevante como urgente.

Num certo sentido, e daí a popularidade larvar desse racismo em que tropeçamos na rua e até nos recantos da nossa animalidade subjectiva, o processo resulta directamente da nossa capacidade de abstracção, motivada e dinamizada pelo nosso instinto de sobrevivência. Na filosofia usam-se dois palavrões que tornam transparente as construções discriminatórias: reificar e hipostasiar. Com o primeiro verbo, reduzimos o alvo a um conjunto de aspectos materializados (a cor da pele ou um texto). Com o segundo, atribuímos realidade exterior a uma entidade mental (“os ciganos são ladrões” ou “os socialistas querem mexicanizar Portugal desde 1975”). Aqui chegado, quem vê nos indivíduos de um certo grupo apenas a concepção que abstractamente projecta neles está pronto para agir em coerência. Por exemplo, se os indivíduos com pele mais escura (ou mais clara, ou mais assim ou assado) são “naturalmente” propensos para o gamanço ou a preguiça, segue-se que seria contrário ao instinto de sobrevivência e à pulsão etnocêntrica estar a dar-lhes emprego, lutar pelos seus direitos sociais, confiar-lhes a guarda dos filhos ou sequer permanecer no mesmo passeio calhando eles virem na nossa direcção. Se a polícia for mais activa contra um certo grupo que “toda a gente sabe” que “não presta”, isso é fonte de “segurança”. Se “eles” levarem umas tareias da polícia ao arrepio dos seus direitos civis, isso é óptimo, é o que eles merecem e deviam era levar mais. Se existe um certo partido que anda há 40 anos a tentar acabar com a democracia e a liberdade para poder corromper tudo e todos, segue-se que a carteira de jornalista e um órgão de comunicação social devem ser usados para tal denúncia e ainda para conseguir meter na prisão tão perigosos bandidos. Aliás, basta que sejam enjaulados no Ministério Público como arguidos para ficarem com a reputação destruída, a carreira política provavelmente acabada e levarem com anos e anos de humilhações e devassa. O povão, devidamente instruído e acirrado pelos profissionais da calúnia, sabe perfeitamente bem que esses “corruptos” não estariam a ser investigados se fossem “gente séria”. Logo, perseguir e atacar quem se concebe como ameaçador e desprezível é tão-só o “bom senso” a agir, a “coragem” de pedir cárcere para aqueles cujas opiniões não se toleram.

O racismo, qualquer forma de racismo, é uma operação cognitiva onde se desumaniza aquele a quem se quer fazer mal. Depois de desumanizados, justifica-se o mal que se faz dizendo que eles o merecem por não serem humanos, por serem monstros que nos ameaçam. Eis uma das mais velhas pulhices do mundo.

Serviço público – Edição especial

2019 – Menos Reformas, Melhores Políticas

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É disto que precisamos para ligar cidadãos e poder político, a participação pedagógica dos académicos no espaço público com produção intelectual a partir dos seus métodos e instrumentos disciplinares. Num país onde não existe imprensa, e onde os jornalistas políticos que cumprem o código deontológico e procuram um ideal de objectividade e isenção são raros ou estão abafados por direcções decadentes, este labor do IPPS-ISCTE requalifica o debate político em Portugal.

A frente da calúnia

Janeiro de 2010. Um deputado do PSD, chamado José Pacheco Pereira, recebe da Cofina uma quantia em dinheiro (não revelada) para/por dizer num órgão de comunicação social que “empregados do governo, e às vezes mais acima” escreviam anonimamente em blogues para insultar e caluniar os adversários políticos. Chamou à coisa: A Frente da Calúnia

Como nos três exemplos de blogues dessa frente caluniosa constava o Aspirina B, e como eu lia diariamente os restantes, Câmara Corporativa e Jugular, fiquei de imediato a saber que o deputado era não só mentiroso como ainda por cima mentia a troco de dinheiro e notoriedade. Para além de não existir qualquer empregado do Governo a escrever anonimamente no Aspirina B, muito menos o tal ou tais “mais acima”, igualmente não se publicavam calúnias nos três blogues acusados. Insultos, sim, à fartazana, pelo menos neste pardieiro. E também factos, e argumentação da boa com base nos mesmos e nas legítimas convicções de pessoas, nos outros dois blogues que cultivavam a democracia e a liberdade.

O deputado promovia em público uma conspiração que começava logo por se assumir como hipótese imbecil e delirante: os blogues tinham audiências residuais, incapazes de sequer terem influência na votação para uma junta de freguesia, sendo consumidos por públicos já politizados que iam à procura de redundância informativa e divertimento – ou de fantasmas e alvos para a agressividade tribal e identitária. Os blogues eram meia gota de água no oceano mediático dominado pelo Correio da Manhã e Sábado, Sol, Público do Zé Manel, Expresso do Monteiro, TVI do casal Moniz, SIC do Balsemão, do Crespo, do José Gomes Ferreira, do mano Costa, RTP da Judite de Sousa e do José Rodrigues dos Santos, DN do Marcelino e saco de passistas na redacção, TSF do Baldaia e seus editoriais, jornal i do Martim Avillez, e ainda o grupo Rádio Renascença (ofereçamos um desconto ao Pacheco, omitindo os restantes blogues direitolas com visualizações superiores e, esses sim, com torrenciais calúnias). Porém, o deputado dava a três blogues – que respeitavam e celebravam a ética republicana – uma importância decisiva que o impelia ao combate mais desvairado. Compreende-se sem dificuldade porquê, o horizonte da comunicação social estava coberto a toda a extensão pelos impérios mediáticos profissionais da direita, a dominar a paisagem sem concorrência. Valia tudo a partir dessa superioridade táctica imbatível no campo de batalha posto que a ideia não era a de respeitar a deontologia nem a módica decência. Desde a criação da maravilhosa bandeira da “asfixia democrática” até aos rasgados elogios para a campanha negra de Moura Guedes na TVI, na qual o especialista do “Ponto Contraponto” via um admirável exercício do “jornalismo livre”, a direita da baixa política pôs a carne toda no grelhador. Que restava ao Pacheco para além de fustigar o alinhamento das notícias na RTP? A que se poderia agarrar quando largava o cronómetro com que descobria terem dado dois segundos a mais a uma notícia sobre o PS comparada com a notícia do PSD no telejornal da hora de almoço? A luz ao fundo do seu túnel cognitivo e moral vinha de três minúsculos blogues onde encontrava injecções diárias, horárias, de dopamina e adrenalina – para além de servirem na perfeição para continuar a meter dinheiro no bolso a enganar os pategos. Bastava que os pusesse debaixo da sua lente de aumento grotesco da realidade para que os três mosquitos parecessem um exército de Godzillas acabado de chegar ao Terreiro do Paço. Absorvendo guloso os boatos que o laranjal decadente lhe despejava nos ouvidos, usava-os para se mascarar de especialista em contra-terrorismo político. A este deputado que tinha muitos e raros livros em casa ninguém enganava, os badamecos que serviam o mefistofélico Sócrates iam ser perseguidos pela implacável espada flamejante do Anjo da Marmeleira. A sua obsessão por Sócrates precisava de tangibilidade para suportar o fascínio que o consumia, daí a necessidade de projectar nos irrelevantes blogues uma pura fantasia quixotesca.

Janeiro de 2010. Pacheco Pereira é deputado depois de ter sido o braço-direito de Manuela Ferreira Leite na campanha para as legislativas de 2009. Usa a revista Sábado para caluniar o Governo e autores de blogues acusando-os da prática em que se lança desenfreado. Não fica como ironia sórdida, é mesmo tristeza à solta na cidade. Uma personalidade com tanto poder mediático e político, com contributos intelectuais valiosos no campo da investigação histórica, a exibir-se como um ranhoso, um pulha. Só que o deputado vinha de ter feito muito pior meses antes, e muito pior se preparava para fazer dentro de meses. Vinha de se ter tornado no mais vocal dos que tinham reduzido a política ao assassinato de carácter e ao envenenamento do espaço público com paranóias assustadoras. O Pacheco foi cúmplice da operação de espionagem política feita a coberto do “Face Oculta”, cúmplice do ataque a Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento que não cederam à golpada montada pelo irmão Vidal, cúmplice da “Inventona de Belém”. Espalhou, e ajudou a espalhar, a torpe acusação de que o Governo socialista estava a usar os serviços secretos para fins políticos, que estava a dominar a banca, que ia dominar a comunicação social. Foi com recurso a esta pressão maníaca em que Sócrates era concebido como “monstrum horrendum, informe, ingens” que se convenceu Cavaco a alinhar no caso mais grave de violação dos deveres de um Presidente da República de que há memória em democracia. Eis o que o Pacheco andava a dizer, louco de raiva, nesses dias de histórica infâmia:

«Eu compreendo que o Presidente da República, até pelas coisas graves que tem certamente para dizer face aos ataques que lhe têm sido dirigidos, não queira falar em período eleitoral. O que diria perturbaria e muito o período eleitoral. Mas temo que só depois das eleições é que se vá saber demasiadas coisas sobre esta governação e sobre o Primeiro-ministro. E temo que isso seja um fardo muito difícil de gerir, ganhe quem ganhar as eleições. Seja no caso Freeport, seja na questão da eventual espionagem aos seus opositores, seja no ataque à TVI e ao Público, seja nos múltiplos negócios que estão por esclarecer, da OPA da Sonae à crise do BCP e à interferência da CGD, seja no caso BPN e nos nunca esclarecidos movimentos do dinheiro da Segurança Social, seja na tentativa de compra da PT da Media Capital e etc,. etc. Um etc. demasiado grande.»

Fonte

Em cima da ida às urnas nas eleições legislativas de 2009, com a golpada presidencial a descoberto, o general de Ferreira Leite vai para a frente das câmaras, vai para o meio dos ecrãs, berrar que Sócrates é um super-criminoso que está protegido pelo “período eleitoral”. É o que o safa, explica sem se rir e sem corar, senão Cavaco viria dizer das boas, contar tudo, restabelecer a lei e a ordem, lançar pelos ares “as coisas graves que tem certamente para dizer“; certamente, de certeza certezinha. Azar do caralho isto das eleições. Vamos ter de esperar mais uns dias para limparmos a Nação do mal, garantiu o Pacheco aos eleitores com menos de 10 anos de idade. Só que depois das eleições não tivemos direito a essa catarse prometida, foi outro o programa das festas. Apareceu-nos um Cavaco a reconhecer que a “Inventona de Belém” tinha corrido mal e que havia de ter paciência. Melhores dias viriam, era uma questão de aguentar por nova oportunidade pois o método tinha sido validado. Era possível difamar um Governo a partir do Palácio de Belém, caluniar um primeiro-ministro em funções por obra e graça da Casa Civil, interferir em dois actos eleitorais com a chancela do Presidente da República e nada acontecer aos mandantes e executantes do crime, ficava demonstrado. Ali estava ele, o responsável máximo pelo irregular funcionamento das instituições, de pé em frente a uma multidão de jornalistas para provar isso mesmo.

Janeiro de 2010. Quatro meses depois, o deputado José Pacheco Pereira irá enfiar-se numa saleta da Assembleia da República para ler transcrições de escutas. Escutas que não tinham valor judicial mas que um juiz considerou terem valor político. Atente-se: escutas captadas ilegalmente, as quais não iriam ser usadas em tribunal por não serem prova ou indício de qualquer crime, foram entregues ao Parlamento para nele se violar a lei, a Constituição e os princípios fundamentais do Estado de direito. Dois deputados aceitaram ficar com essa nódoa indelével no currículo. Um deles, declarou nada ter encontrado que justificasse posterior acção de si próprio como deputado ou acção do seu partido, o PCP. O outro, declarou que o conteúdo das escutas era “avassalador”. No entanto, também nada mais fez a respeito nem explicou em que se baseou para a colorida adjectivação. O revanchismo e voyeurismo do Pacheco foram satisfeitos, é só isso que sabemos. Lambuzou-se celerado e cobarde na violência de usar o aparelho policial e judicial – mais o seu estatuto de deputado – para violentar a privacidade de dois cidadãos e, a partir daí, explorar o inaudito deboche como fonte de novas calúnias quando quisesse e como lhe apetecesse pelos anos afora.

Junho de 2019. O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público organiza uma conferência onde junta Joana Marques Vidal a Eduardo Dâmaso, José Gomes Ferreira e João Miguel Tavares para se falar de “corrupção”. O SMMP não é conhecido por publicar estudos próprios ou de terceiros acerca da corrupção em Portugal ou na Antárctica. Ninguém faz ideia do que o SMMP realmente possui como informação a respeito do fenómeno. O mesmo, aliás, para cada um dos participantes na “conferência”, câmaras de vácuo quando se trata de obter dados fiáveis sobre as “redes de corrupção e compadrio“, sobre a “epidemia que grassa pela sociedade portuguesa“. Contudo, é inegável estarmos perante figuras gradas do “combate à corrupção”. Podemos até dizer que todas, em mais do que um sentido e modos, têm construído as suas carreiras e fama à conta da “corrupção”. Mas qual, se é também corrente o queixume deste grupo e seus clones acerca do baixíssimo número de prisioneiros condenados por corrupção? Dita a lógica, e o consumo da sua obra publicada, que a “corrupção” em causa seja aquela atribuída a inocentes, cidadãos que ainda não foram condenados por tal, nem se pode prever se alguma vez o serão mesmo que estejam actualmente acusados. Acontece que chegar à fase de acusação e depois ter o aborrecimento de esperar pelo julgamento em tribunal e ainda ver as defesas dos acusados a tentarem isso mesmo, defender quem foi acusado, é um processo demasiado moroso, e inclusive cruel, para quem vê cair na conta bancária os meritórios e abundantes frutos do “combate à corrupção”. Pelo que a “corrupção” é um maná que precisa de ser colhido logo pela fresca, assim que lhes dá o cheiro. Veja-se o que se faz por rotina na Cofina, trabalho aproveitado pelos parceiros de luta: recebem-se informações divulgadas criminosamente por agentes da Justiça e publica-se criminosamente a versão dos procuradores como se fossem factos provados em tribunal. Nenhuma autoridade em Portugal sequer gasta uma caloria a tentar impedir, ou sancionar, esta prática que vira do avesso o código deontológico do jornalista. É a Justiça instantânea de que o povo gosta, tudo mastigado pelos “jornalistas” e onde os alvos são políticos, ou amigos de políticos, triturados pelo sensacionalismo e pelas mentiras até deles nada mais restar do que uma papa infecta servida às alimárias carentes de “poderosos apanhados e castigados” nos jornais e na TV para continuarem dia após dia alienados e impotentes.

O SMMP chamou a Cofina, o grupo Impresa e o Público, nas pessoas dos seus mais notáveis caluniadores profissionais, para fazer um comício e uma parada militar. A estrela do evento foi uma ex-procuradora-geral da República que tem direito a culto de personalidade nesses meios de comunicação, que aceitou ser comissária política de um Governo e de um Presidente da República, que permitiu na PGR abusos da Justiça num processo de cariz político sem paralelo na História portuguesa, que protege a prática de crimes de violação do segredo de justiça no Ministério Público, que não respeita a sua actual responsabilidade no Tribunal Constitucional ao fazer declarações que comprometem a sua isenção e credibilidade, que se tem multiplicado em exibições de ambição política. Ocasião, portanto, para o Pacheco denunciar o obsceno processo de judicialização da política e de politização da Justiça em curso com um entusiasmo, se não superior, pelo menos equivalente ao que manifestou no combate aos tais três miseráveis blogues? Nada disso, ó santa ingenuidade. O senhor não pode morder na mão que o alimenta. A verdadeira frente da calúnia é uma indústria que dá muito dinheiro a muita gente. E que talvez venha a dar verdadeiro poder político a alguns santos de pau oco.

Revolution through evolution

People’s motivations bias how they gather information
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Social status matters, even to infants between 10 and 16 months old
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Reminding children of their many identities can lead to better problem-solving and more flexible thinking
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Promising approach: Prevent diabetes with intermittent fasting
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Milk and dairy products can help prevent chronic disease
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Intentions are the key to making sense of our everyday morality
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Even today, we want our heroes to know right from wrong
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Coisas do Carvalho

Manuel Carvalho está feliz da vida porque viu mais um dos seus alvos a ser enjaulado no Ministério Público – Como explicar o “inexplicável” a Azeredo Lopes – o que lhe permitiu citar-se a si próprio, o desporto favorito dos caluniadores profissionais. O seu entusiasmo está todo investido no tiro ao ex-ministro da Defesa, saber quem roubou e quem fez e deixou fazer realmente o quê em Tancos, do magala ao general, não é a sua praia. Eis, exacta e sistemicamente, o filme do BPN, CGD e BCP quando a direita ocupa o palco e manda foguetes, as manobras de diversão contra quem se limitou a tentar resolver problemas que não causou nem podia ter evitado.

Conseguir celebrar o estatuto de arguido de Azeredo Lopes sem fazer uma singela referência às declarações do tenente-general António Martins Pereira, do coronel Luís Vieira e do Comandante Supremo das Forças Armadas é um feito digno do director que inventou escabrosas e dementes mentiras sobre Vítor Constâncio e o Banco de Portugal. Falar de Tancos apagando a inerente, complexa e incontornável distância institucional entre o Governo e o Exército para assim assumir raivosamente a posição de adversário político fingindo que se está a fazer algo remotamente congénere do jornalismo fica bem a um título que, pelas próprias palavras de Vicente Jorge Silva, assumiu o destino de pasquim.

Não se ter demitido, nem ter sido demitido, depois de mandar publicar que «Constâncio autorizou Berardo a ir levantar 350 milhões à Caixa / Banco de Portugal aprovou investimento de Berardo no BCP com crédito tóxico da Caixa / Ex-governador disse no Parlamento que não sabia de nada» é que fica como inenarrável ópera-bufa para a história da imprensa em Portugal.

Isto é lindo

«Filipa Roseta, escolhida por Rui Rio para ser cabeça de lista pelo PSD em Lisboa nas legislativas de outubro, acusou o Governo de estar a adjudicar 1400 milhões de euros diretamente a construtoras à margem da lei. [...] Filipa Roseta elencou por isso o combate à corrupção como uma das prioridades da sua candidatura. E acusou o Governo de estar a “recuperar as políticas socráticas de adjudicação direta de dinheiros públicos”. “É a mesma política de adjudicação da Parque Escolar. E sobre José Sócrates, avançou: “Só estou nesta aventura por causa dele. Porque cheguei a um momento em que achei que ele era mau demais para ser verdade”.»


Fonte

Jurisprudência do “Governo Sombra”

No último Governo Sombra – ou, como a minha vizinha do 4º andar o rebaptizou, no “Vai Pela Sombra” – tivemos direito a considerandos jurisprudenciais de três personalidades públicas de altíssima influência social e política. As ideias que nos deixaram merecem a nossa melhor atenção:

RAP - [...] Agora acendeu-se a luz, a gente vê as baratas e pode pôr-lhes um pé em cima. [...] É ou não é melhor que haja gente a ser investigada, julgada e até presa? E todos dissemos "É!". E, pelos vistos, o PS e o PSD disseram "Olha que não é, a gente gostava mais como era antigamente..."

RAP - Não tenho nada contra garantias, tenho qualquer coisa contra excesso de garantias.

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PM - [...] Não se faz justiça é quando se tem a sensação, como se teve durante demasiados anos em Portugal, que os casos a certa altura não chegavam mais longe porque o Ministério Público - não sei se por instruções directas, maquinações indirectas, não vou fazer juízos de intenção quanto a isso - mas é um facto: os processos não seguiam e passaram a seguir.

PM - Nós sabemos duas coisas. E essas duas coisas não provam nada, mas nenhuma delas contribui para um ambiente saudável. Sabemos que Ivo Rosa tende a discordar do Ministério Público no seu historial, e portanto nós temos aqui a ideia de que ele vai querer desfazer coisas, nomeadamente coisas feitas por Carlos Alexandre. E a segunda coisa foi José Sócrates ter-se manifestado satisfeito com este juiz de instrução.

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JMT - Atenção, no caso Sócrates sou completamente clubista. Espero que o senhor vá a julgamento, e seja condenado e vá para a prisão.

*_*

Ricardo Araújo Pereira, genial humorista e lesado do BES, acha que os “corruptos” não se distinguem das nojentas baratas, uma peste que deve ser esmagada pelo implacável pé de um Estado policial. A partir desta ideia, soltou o seu entusiasmo com a visão de prisões cheias de “corruptos” a esbracejar como (lá está, o senhor é mesmo genial) baratas tontas e sem garantias. As garantias são uma chatice, explica este reputado jurisconsulto fedorento, porque atrasam o espezinhamento desses seres minúsculos, asquerosos e destituídos de direitos fundamentais que ele encontra amiúde – já devidamente investigados, julgados e prontos para entrega em Évora – nas capas da Cofina et alia. A estupenda novidade que teve a generosidade de partilhar connosco no programa foi a revelação de que PS e PSD são partidos que defendem criminosos e que atacam magistrados e polícias – ou talvez não sejam, mas este génio também não está preocupado porque mete ao bolso a mesma sacada de euros em qualquer dos casos.

Pedro Mexia, um dos mais brilhantes intelectuais do coiso e tal por causa disto e daquilo, explicou aos telespectadores e radiouvintes que a Justiça é uma sensação. Por exemplo, ele sente que certos processos envolvendo um certo cidadão, que ao tempo era primeiro-ministro, não chegaram a tribunal por instruções directas à mistura com maquinações indirectas; deixando esta ideia apenas como sorridente sugestão para entreter o povoléu dado não ser avisado ir além da pulhice sonsa, para mais tendo em conta que o senhor é formado em Direito pela Católica e adquiriu uma vaga noção do que é uma calúnia e suas potenciais consequências. A mesma elevação deontológica e rigor jurídico no trato do perigoso Ivo Rosa, alguém que o Mexia afiança que “tende a discordar do Ministério Público” e que “vai querer desfazer coisas feitas por Carlos Alexandre“. Poderia o probo Mexia ter dito que Ivo Rosa tende a defender a Lei com o máximo rigor e que é precisamente por causa disso que tem contrariado certos abusos do Ministério Público, ao contrário de Carlos Alexandre que não só validou todos os abusos dos procuradores como ainda se ofereceu publicamente para os aumentar e agravar? Poderia o honesto Mexia ter dito que Sócrates se manifestou satisfeito não por ter Ivo Rosa como juiz mas por estar, finalmente, sujeito às decisões de um juiz íntegro? Poder podia, como brilhante intelectual que é, mas não seria a mesma coisa – isto é, não seria o assassinato de carácter que executou em público a troco daquilo com que se compram os melões.

João Miguel Tavares, um dos mais notáveis portugueses vivos ou mortos ou por nascer, elevado à categoria de estribeiro-mor do marcelismo como fruto meritório de um talento olímpico para despachar calúnias a troco do belo dinheirinho e à ferocidade canina exibida durante a Grande Guerra Socrática, anunciou à Grei que se está a cagar para o Ivo Rosa, para as provas que o Rosário Teixeira andou com tanto custo a recolher e a inventar, para os tribunais, para o Estado de direito e até para o 10 de Junho. Apenas lhe interessa uma coisa, de resto tão simples que tem toda a razão para estar irritado com a demora: que Sócrates vá para a prisão por uns bons anos, o máximo que der para arranjar; mas sem despertar suspeitas no TEDH, cuidado com isso para não dar chatice. O modo como o seu sonho lindo será realizado é irrelevante, até pedindo para não ser maçado com os pormenores processuais. Esta adorável concepção do Direito, da Justiça e do aparelho de Estado vem de um ilustre “liberal” que tem ubíqua presença na comunicação social e que se concebe como salvador do regime actualmente ameaçado pela democracia e pelo Estado de direito, de caminho ainda conseguindo regenerar a direita portuguesa abraçado ao Rui Ramos e ao Zé Manel. Espíritos curiosos gostariam de conhecer a tradição liberal que defende a ideia de meter na prisão quem não gramamos, ou quem aqueles que nos pagam não gramam, mas não adianta procurar em canhenhos poeirentos. Trata-se de uma tradição original, uma nova filosofia política nascida da inteligência, cultura e decência do notável João Miguel.

Estas Três Graças (ou Três Caretas, na mitologia da Golegã) surgem semanalmente abraçadas e dançarinas na TV e na rádio. Espalham uma harmonia encantadora, desvairadamente popular, borguista. Consiste na propaganda de ser o Artigo 2º da Constituição da República Portuguesa uma aberração que ou está a mais ou tem de levar uma grande volta. E há quem lhes pague, e tanto, para amplificarem os discursos do ódio político e fazerem coro com aqueles que desprezam a liberdade.

Um programa que não faz nada bem à saúde

O que estava anunciado para ir a debate, no último Expresso da Meia Noite, era o estado dos serviços públicos, um anúncio enganador. Sem surpresa, o que se pretendia era falar das filas para tratar de assuntos relacionados com o Cartão do Cidadão e, sobretudo, dos “casos” que vão surgindo semanalmente no SNS, especialmente do “caso” das urgências obstétricas, em Lisboa. Tendo em conta que o programa é moderado por profissionais competentíssimos, cujo único objectivo é esclarecer-nos com a máxima isenção, e que o Grupo Impresa não é um organismo público tutelado por um qualquer socialista incompetente, seria de esperar que viessem munidos, eles e os convidados, com novos dados que sustentem o alarmismo que têm alimentado nas últimas semanas. Por exemplo, dados que sugiram que os portugueses já não têm ou vão deixar de ter acesso a cuidados médicos ao nível do melhor que se pratica no Mundo. Que, graças à incompetência do Governo, a nossa  longevidade está a diminuir. Ou ainda que se prevê que comecem a morrer pessoas por falta de assistência.

Mas não aconteceu, pelo que temos de ficar pelos tais casos que anunciam horrorizados. Como é óbvio, o ideal seria que não acontecessem, mas fazendo as contas e tendo em consideração a dimensão do SNS e os milhares de utentes atendidos diariamente, conclui-se que a percentagem dos tais casos, face ao total, é muito baixa. Também se conclui que para estes profissionais competentíssimos, que sabem imensos números de cor, mas só quando lhes convém, a matemática não é uma ciência lá muito exacta. E não é só a matemática, afinal, são os mesmos que não conseguem evitar, pelo menos, na versão digital do jornal onde trabalham, a publicação de textos com erros e gralhas, por vezes até nos títulos. Se calhar, é mais difícil rever um texto do que gerir o SNS, um hospital ou fazer determinados diagnósticos médicos.

Quanto à rotatividade das urgências obstétricas, em Lisboa, fiquei sem saber qual é exactamente o problema de uma grávida ter de se dirigir a um hospital e não a outro. No resto do país, é comum as grávidas deslocarem-se vários quilómetros para chegarem à urgência obstétrica mais próxima e, lá está, não é por isso que deixam de receber os melhores cuidados que a Medicina actual permite. O mesmo para os filhos após o nascimento. Assim os pais pudessem confiar num outro serviço público, o da Educação. Terem a garantia de que, no mínimo, os filhos saem da escola a saber pensar. Curiosamente, este serviço público não foi debatido no programa. Não devem ter sido detectados quaisquer problemas. E percebe-se, afinal, quem é que está interessado em que os miúdos aprendam a pensar? Estes profissionais é que não, com toda a certeza. Lá teriam de ir exibir o seu competentíssimo profissionalismo, mas ao volante dos respectivos táxis. Pelo menos, no discurso não teriam de mudar nada.

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Hunger, impulsivity, childhood trauma, and drinking contribute to intimate partner violence
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Ageism reduced by education, intergenerational contact
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Older adults can serve communities as engines of everyday innovation
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Keeping active or becoming more active in middle and older age linked to longer life
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Music students do better in school than non-musical peers
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Four Approaches to Understanding and Moving Beyond Dysfunctional Deliberation
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How to Practice ‘Everyday Courage’ in the Workplace
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