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Porque é que não ouço ninguém a falar da necessidade de um inquérito aos últimos incêndios?

Já aqui me insurgi contra o jornalismo vergonhoso que por estes dias se faz. Não disse, mas digo agora, que melhor fariam os jornalistas se, em vez de fazerem jogos políticos e acusações, fossem investigar as horas a que os incêndios começaram, a quantidade de acendimentos por concelho, as queimadas confirmadas e outras questões que conviria apurar, para além das condições meteorológicas concretas. Porque a questão é a seguinte: metade de Portugal ficou de repente a arder, num só dia, e o prejuízo em vidas humanas, vidas animais, explorações agrícolas, indústrias e florestas foi incomensuravelmente maior do que em Pedrógão Grande. Se, no caso dessa tragédia, se abriu um inquérito sério, por que razão não se faz o mesmo para esta tragédia de dimensões nunca vistas?

Inúmeras pessoas (os chamados populares) residentes nesses locais são peremptórias em afirmar que nada daquilo foi normal. E não hesitam em avançar teorias da conspiração de contornos políticos. É certo que a terra, o mato, a vegetação em geral estavam para além de secos. O vento também só acrescentou desespero à impotência. Mas a distribuição generalizada dos fogos pelo território já não parece a ninguém coincidência. Por isso, o mínimo que se deveria fazer seria mandar investigar. O Governo deveria, por assim dizer, contra-atacar. Começando, dado não ter ainda outros dados, com a falta de educação das populações e a incúria das autoridades municipais, em vez de se torturar com sentimentos de culpa, ir atrás da conversa do Marcelo e gizar grandes planos de ordenamento florestal. Porque a verdade é esta: quem quiser pôr uma mata a arder (ou duas, ou três), põe, haja caminhos ou não haja caminhos, bons acessos ou maus acessos, muitos ou poucos bombeiros e equipamentos de combate. Não há que ter medo de lançar um inquérito. A extensão da tragédia mais do que o justifica. Ainda há pouco ouvi na TSF um agricultor da região de Penacova que perdeu todas as suas plantações de medronheiros. Bem tratadas, limpas, suficientemente dispersas para garantir que algumas se salvariam em caso de fogos. Não adiantou. Perdeu tudo. Ordenem o território, limpem as florestas, mas não tenham ilusões de que quem quer fazer o mal o fará novamente.

Na Idade Média, matavam-se (queimavam-se) três ou quatro judeus na sequência de um terramoto e o assunto ficava arrumado. No século XXI nada fica arrumado com a “queima” de uma ministra. Por isso, caro António Costa, como vítima que também sou destes incêndios, eu quero saber o que aconteceu no fim de semana passado.

A comunicação social não anda mal

Anda péssima. Não se consegue ler uma única notícia imparcial e objectiva, um único destaque sério, um único comentário aceitável. Parece tudo contaminado, a funcionar em circuito fechado. Os jornalistas excitam-se uns aos outros, vão atrás dos “soundbytes” de alguns políticos da sua eleição. Os comentadores idem. Um mundo paralelo. Este é um caso em que nunca me pareceu tão positivo que a generalidade dos portugueses não compre jornais e prefira o futebol aos canais noticiosos. É que, de facto, o bacanal e a festança que vão pelos OCS parecem ser coisa de elites, coisas da capital, coisas demasiado elaboradas para os campónios que somos todos nós. Comigo passa-se que me sinto totalmente alheia ao que para aí vai. Tomemos os exemplos do tratamento respeitoso dado a Assunção Cristas – que lhes vendeu lixívia e eles compraram -, ou  da ministra Urbano de Sousa. É evidente que esta pediria a demissão e que Costa a aceitaria. Aliás, a ministra já o tinha feito ainda antes de Marcelo discursar. E não, não concordo (tal como Costa) que a catástrofe de Pedrógão fosse razão para a demissão. Então porquê a insistência em que “Marcelo força saída da ministra”, que “Costa é cego”, que “levou um puxão de orelhas” (viram como Eduardo Cabrita surgiu como escolha pronta, tendo eu ouvido meia hora antes do anúncio do novo ministro um jornalista/repórter à porta de Belém a dizer que Costa não teria seguramente tempo para escolher um substituto para Constança antes do início da próxima semana, como se tivesse sido colhido de surpresa?), que, se não fizer não sei o quê, “Marcelo o vai chumbar“, etc., um etc. tão longo que seria fastidioso estar aqui a detalhar? Passem uma vista de olhos pelos jornais. É que nem se dão conta do ridículo da hipótese e da ameaça que deixam no ar ao falarem em chumbo: se Marcelo chumbasse Costa (dissolução da Assembleia e convocação de eleições), a seguir seria Marcelo a levar um chumbo monumental em sentido inverso do povo que diz amar e representar – pela instabilidade desnecessária que provocaria quando tudo corre bem excepto a meteorologia, pela inoportunidade e exagero da decisão, pela indefinição e o estado calamitoso do PSD, pela vitória reforçada do mesmo Costa. Por tudo isto, recomendo, pelo menos, pelo menos, calma. Eu compreendo que desejem vender o máximo, tornar o vosso negócio lucrativo e darem-se a importância de fazerem de contra-poder, mas se o tentarem fazer sendo ordinários e indo contra o mais razoável bom senso, estão a cometer suicídio. O Tavares do Público, por exemplo, o cómico de sábado à noite, acha que o Passos se revelou o grande estadista que é ao obrigar Portas, o da decisão irrevogável, a ficar em 2013. Ó Tavares, o Passos?? Fala-me da Merkel, fala-me do Cavaco, fala-me da Troica, mas … o Passos?? E não, nem sequer me fazes rir.

Há também os casos em que os títulos das notícias, como este, hoje, no Público – “Sócrates terá usado ex-ministros em crimes de corrupção no TGV” são escolhidos propositadamente para darem a entender uma coisa que, vai-se a ver, fica totalmente nebulosa, quando não negada, ao ler-se o desenvolvimento. Aliás, o texto, que transcreve a tese do MP no assunto em apreço, acaba por mostrar bem como o Ministério Público pode efectivamente, como dizem os advogados, ter-se entregue ao delírio e à efabulação no processo Marquês. Aqui impõe-se a leitura. Fica-se perplexo com o título, outros já houve em que se ficou escandalizado, mas pelo menos não se fica revoltado com o raio e o abstruso da maioria das opiniões. Mas que a pressão mediática da direita é desproporcional e desproporcionada, é.

Desmistificando

Quando as coisas correm bem, aparecem o PSD e o CDS e dizem que isso se deve a eles, quando as coisas correm mal, é culpa deste governo. Ora Assunção Cristas devia ser a última pessoa a apresentar uma moção de censura motivada pelos incêndios, pois foi ministra da Agricultura durante quatro anos no último governo e não se notabilizou por ter tomado quaisquer medidas eficazes nessa área, muito pelo contrário (Constança Cunha e Sá hoje, na TVI, às 21h 30).

 

Um Presidente popular

A declaração de Marcelo sobre os incêndios do passado domingo foi uma muito eficaz peça retórica. É fácil prever que a enorme maioria da sua audiência concorda com a atitude de ataque ao Governo e de estigmatização de Constança Urbano de Sousa, seja à direita, ao centro ou na esquerda. Foram menos de 12 minutos de um discurso popular, uma síntese do coro que a comunicação social vinha debitando desde Pedrógão, servido com pathos pelo melhor actor da política nacional.

Acontece que, exactamente por causa dessas mesmíssimas razões, igualmente podemos ver na situação que protagonizou com excelência técnica um exagero. Um teatro. Marcelo a brincar aos chefes que não têm mediações institucionais com os cidadãos que representam. E que, portanto, misturam com arte as dimensões individuais, psicológicas, afectivas com as dimensões presidenciais, políticas, constitucionais. O texto que leu com ênfase histriónica para jornalista ver e telespectador sentir embrulha em relatos expressionistas e explorações emocionais uma tentativa de condicionamento do Governo para lá do que a Constituição lho permite. Criando um dilema donde sairá sempre a ganhar. Ganha se o Governo ceder às exigências do Presidente, porque será visto como o mais forte e poderá repetir a dose. Ganha se o Governo continuar independente da Presidência, porque será visto como uma vítima de Costa e do PS e fica com carta branca para monopolizar o calendário eleitoral legislativo e presidencial.

Se Marcelo quisesse apenas congregar na sua pessoa pública a dor indizível de quem perdeu a vida, perdeu pessoas, bens, trabalho e recordações no mar de fogo deste ano, então não teria sido tão perfeito e tão pragmático. Acima de tudo, não teria feito ameaças. Não teria vestido a pele do crítico. Não teria captado os mortos para o seu mandato. Porque qualquer um desses mortos, nessa luz e mistério da sua finitude, é maior do que todos os mandatos de todos os Presidentes da República.

Marcelo podia ter sido magnânimo, unindo o País à volta das soluções possíveis. Preferiu unir o povo à sua volta.

Uns tiram, outros põem

Em 2015, a universidade jesuíta americana de Saint Louis retirou uma estátua que tinha no seu exterior, representando o grande jesuíta Pierre-Jean De Smet empunhando uma cruz junto a dois índios, e colocou-a no interior do seu museu. De Smet foi um amigo dos índios americanos, como se sabe. A estátua tinha sido considerada por várias entidades e pelos alunos da universidade, que são de todos os credos e não apenas católicos, como um alegado símbolo colonialista e supremacista branco. Os jesuítas cederam e tiraram-na da vista pública, apesar dos remoques de gente conservadora.

Em Julho de 2017, em Lisboa, o provedor da Santa Casa, Santana Lopes, com o apoio do presidente socialista da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, colocou no Largo Trindade Coelho uma estátua de outro grande jesuíta, António Vieira, empunhando uma cruz junto a três crianças índias. Vieira foi um amigo dos índios, como se sabe. Houve recentemente uma manifestação contra a estátua, por alegadamente glorificar o colonialismo e o “escravagismo selectivo”, e logo uma contramanifestação de nacionalistas de extrema-direita. Não houve porrada, mas podia ter havido.

A estátua da Universidade de Saint Louis antes de ser retirada.

 

Medina na inauguração da estátua de Vieira em Lisboa

 

Não gosto da estátua de Vieira, completamente ultrapassada esteticamente e espiritualmente, mas nunca me passaria pela cabeça que ela glorifique o racismo, o colonialismo ou o escravagismo. Menos gosto de quem teve a ideia de a lá colocar, Santana Lopes, nem do motivo por que o fez – autopromoção em vésperas de regresso à política. Menos ainda de quem foi lá fazer a tal contramanifestação. Em suma, não há nada nesta história nem neste monumento que me agrade, excepto que posso concordar teoricamente com uma homenagem da cidade de Lisboa a António Vieira, que foi um grande lisboeta, um grande português e um grande cidadão do mundo, também perseguido pela Inquisição e grande mestre da nossa língua. Quero pensar que foi esse o motivo do apoio de Medina, e não o pensamento nas eleições autárquicas de Outubro, mas muito provavelmente estou a ser ingénuo.

Culturalmente, Lisboa está, de facto, a anos-luz da América (apesar do Trump) e de Nova Iorque, onde em 2017 se inaugurou uma fantástica estátua no coração de Manhattan, a Rapariga sem Medo, desafiante do popular Touro Enraivecido que já lá estava. É uma moderna, inteligente e bonita homenagem à mulher americana. Aqui fica, como contraponto.

Vermes

Acabei de percorrer a A25 desde uma das zonas mais críticas dos fogos de ontem – Nelas, Mangualde, Gouveia – em direcção a Aveiro. Isto porque me foi impossível fazer o trajecto habitual, que inclui o IP3 na zona da barragem da Aguieira, Penacova e Souselas em direcção à A1. Estava há muito cortada esta estrada. Pois toda a A25, ao meio-dia, estava envolta numa escuridão imensa (consta que já desde a Guarda, ou seja, de lés a lés), parecendo quase que o sol não tinha nascido, havendo ainda, nomeadamente na serra do Caramulo, pequenos focos moribundos no meio da desolação total.

Antes, passara a noite com a casa envolta numa nuvem densa de fumo, um ar irrespirável, um vento quente fortíssimo que fazia bater com estrondo tudo o que era porta e janela entreabertas. Nas mesas, em volta dos candeeiros acesos, uma névoa de fumo. De manhã, os carros estavam cobertos de fagulhas. O chão, as varandas, tudo sujo. Falando com vários habitantes locais, entre os quais o dono da oficina onde deixara o meu carro para uma pequena reparação de pintura, constatei a ansiedade, a consternação e, desculpem o termo, o “aparvalhamento” com o que estava a acontecer (“ardeu lá em cima a mata do Conde! “- diziam-me, referindo-se à propriedade de Paes do Amaral – que afinal escapou por pouco) e ouvi relatos de pessoas que se apresentaram ao trabalho e as instalações já não existiam – pequenas e médias empresas, oficinas como aquela, etc., outras que não puderam sequer sair para o trabalho. Pessoas sem dormir.

Este era o panorama. De um pouco mais longe, tivémos notícia de que todos os pinhais da família, na região de Tondela, arderam. Não sobrou nada nas margens do Dão e do Dinha. Cinzas.

Pois não ouvi da boca de ninguém a mais ligeira referência à culpa do Governo, ou da ministra, ou dos comandantes dos bombeiros, ou da Protecção Civil. Nada. Todos têm consciência de que o fenómeno foi demasiado avassalador e incontrolável para se poder apontar o dedo a este ou àquele dirigente (mas não aos incendiários, claro, que garantem ser a causa) e que, neste caso concreto de quase bombardeamento, seria difícil uma organização melhor ter evitado tais tragédias. O presidente da câmara de Oliveira do Hospital dizia, na rádio, que nem que dispusessem de 2000 bombeiros teriam conseguido controlar aquelas chamas, tamanha era a rapidez da propagação. Enfim, para apoteose final de uma extraordinária e longa “época de incêndios”, este 16 de Outubro esteve, infelizmente, à altura.

E no entanto, os jornalistas, ouvidos também na rádio, dirigindo-se à ministra Constança, apenas queriam saber se a senhora se demitia ou quando é que se demitia e o que queria dizer António Costa com as consequências políticas do relatório de Pedrógão. Pergunto-me se estas bestas de jornalistas têm sequer a noção do ridículo ou da sua condição de vermes.

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O cúmulo do descaramento

Na sua acusação do processo contra Sócrates, o Ministério Público tem o descaramento de fazer 34 referências a “informações” do Correio da Manhã, o cano de esgoto tipográfico que desde sempre julgámos ser o órgão de divulgação das “informações” provenientes do Ministério Público.

Perante isto, torna-se urgente apurar se o Correio da Manhã é realmente a cloaca do Ministério Público, como se pensava até agora, ou se afinal é o Ministério Público que é a esterqueira do Correio da Manhã.

 

Chama-se a isto discernimento

Passos Coelho fez três coisas extraordinárias como primeiro-ministro, que basicamente consistiram em não fazer coisa alguma. Foram três simples, mas magníficos, “nãos”. 1) Passos Coelho não se intrometeu na comunicação social. 2) Passos Coelho não se intrometeu na justiça. 3) Passos Coelho não ajudou Ricardo Salgado. Pode parecer pouca coisa a Fernanda Câncio, mas é muitíssimo. Reparem: não há aqui troika, nem liberalismo. Apenas respeito pela decência num regime democrático. Nesse campo tão importante, Passos merece os mais rasgados elogios, numa ruptura abençoada com o tenebroso arco 2005-2011.

Caluniador do Público

 

1)Passos não se intrometeu na comunicação social – E para quê, se é e era toda de direita? É só passar a vista pelas direcções respectivas: o Ricardo Costa e companhia, entre os quais o convertido Pedro Santos Guerreiro, no Expresso e SIC. O  carro de combate Gomes Ferreira. O David Dinis no Público. Os do Observador. O Baldaia no DN. O António Costa no Eco e RTP. Os inomináveis no Correio da Manhã. Os da Sábado. Os do Sol e do i. O que resta? O JN? Incompreensível para mim é como alguém de esquerda consegue ganhar eleições nestas circunstâncias.

E a televisão pública? Que história é essa do Poiares Maduro “ter afastado o Governo”? Qual governo? Olha o lindo estado em que se encontra a RTP noticiosa e comentadora, a começar pelo Rodrigues dos Santos. É este o exemplo de isenção que tem para mostrar o Tavares?

2)Passos Coelho não se intrometeu na justiça – E para quê, se está completamente tomada pelos seus correlegionários e tem como jornal oficial o Correio da Manhã e porta-voz a Felícia Cabrita? Mais confortável com a justiça do que o Pedro estava era impossível. Criminalizou-se o governo anterior, tudo era investigável judicialmente, desde o primeiro-ministro até aos cartões de crédito dos ministros, a Teixeira da Cruz queria inclusivamente vê-los todos na choldra. Que conforto e que prático assim, não é? Mas por falar em intromissão, quem é que se intrometeu na Justiça?

O Macedo que a criatura refere noutra passagem mais do que provavelmente não tinha escapatória e serviu de excepção para o Tavares poder falar nele.

3) Passos não ajudou Ricardo Salgado – Ao contrário de quem, pode saber-se? E ajudou quem, em vez do Salgado?

O Expresso julgou, está julgado

“Salgado criou offshore só para pagar a Sócrates”, titula hoje em grandes parangonas o semanário de Balsemão, numa das quatro páginas dedicadas a emitir sentença sobre o antigo primeiro-ministro. Não sei se a lei prevê possibilidade de recurso desta sentença para a justiça…

Na última página do 1.º caderno, o cabalista Henrique Monteiro esfalfa-se a desmentir a tese da “cabala” da defesa de Sócrates. Monteiro é perito nisso. Para ele nunca há cabalas  – quando não gosta de quem as denuncia ou quando gosta de quem as engendra. Daí o histórico acto censório desse falso jornalista, a sua vergonhosa recusa em publicar, quando era director do mesmo Expresso, em Setembro de 2009, o email que provava flagrantemente a conspiração de Belém e do Público contra o dito primeiro-ministro Sócrates. Na altura, Monteiro não gostou da cara política de quem lhe fez chegar o email, por isso recusou publicá-lo. Hoje titula assim a sua coluna no Expresso: “A cabala dada olhe-se o dente”. Traduzindo: “Desconfio logo de denúncias que vêm da cor política adversa à que eu sirvo”. Já em 2009 Monteiro pensava e actuava exactamente do mesmo modo. Nada de novo debaixo do sol.

O Expresso e Monteiro julgam sem provas contra Sócrates e escondem provas quando elas dão razão a Sócrates.

O Expresso julgou, está julgado.

Sócrates muito bem

Nas grandes questões da acusação, quero dizer. PT, BES, Vale do Lobo, Lena. Trouxe documentos, provas, argumentação credível. Será importante ver o que o MP tem de facto para apresentar como prova das acusações.

Mas a principal conclusão da entrevista é a seguinte: quantas mentiras, interpretações abusivas, meias verdades e truncagens anda o Correio da Manhã a publicar há anos com a conivência ou em conluio com o Ministério Público? E porquê?

Afinal a conta que tinha como beneficiário o primo de Sócrates, a derradeira prova, a que faltava!, fora encerrada em 2008? Eh pá. Francamente. Não fomos informados. Não estava preparada para isto. Ó Correio da Manhã, atão?

O Dâmaso nem sabia o que dizer no espaço de comentário que se seguiu à entrevista. Amanhã, porém, contra-atacará com mais uma manchete. É isto.

Quem tem medo dos factos?

A “Operação Marquês” tem várias facetas inéditas em Portugal no campo judicial e político. É a primeira vez que um ex-primeiro-ministro é acusado de corrupção e a dimensão da acusação, ao juntar o caso BES e sua relevância e impacto social, coloca este processo como uma verdadeira questão de regime, aconteça o que acontecer a seguir. Porque, se as acusações derem origem a condenações indiscutíveis transitadas em julgado, uma página negra da nossa História ficará como vergonha nacional; e calhando a acusação não ser à prova de dúvidas, gere ou não gere condenações, então a Justiça terá aqui chegado com uma agenda política, o que igualmente será uma questão de regime. Donde, estamos exactamente como no princípio: há indícios, mas parece não haver provas directas ou indiscutíveis de corrupção. E, não havendo corrupção, também caem as restantes supostas ilegalidades, ou quase todas. Isso tem relação com o seguinte aspecto, também inédito, deste processo.

Francisco Proença de Carvalho veio ontem juntar-se a João Araújo e Pedro Delille num ponto da “Operação Marquês” que o despacho de acusação parece ter consolidado, salvo melhor informação. Este: os advogados de defesa de Sócrates e Salgado não hesitam em apresentarem-se publicamente indignados perante a ausência de factos que sustentem as teses do Ministério Público, assim como são peremptórios e enfáticos na assunção da inocência dos seus clientes. Ou seja, em vez de surgirem mediaticamente com uma imagem de distância e frieza profissionais, repetindo os lugares-comuns da praxe onde se pede justiça e se mostra muito respeitinho para com os poderes judiciários, eles pelejam como se algo estivessem a perder ou algo tivessem a ganhar nesse confronto com o Ministério Público e o juiz de instrução nestas fases que antecedem uma decisão final sobre a eventualidade de haver julgamento. O que nos leva para várias interrogações. Será que eles estão a mentir, ou são estúpidos, ou enlouqueceram, ou são vítimas da magia negra e do poder hipnótico dos seus clientes, vindo para o meio da rua dizer algo que seria inevitavelmente desmentido por aparecer inscrito no processo e julgado em tribunal? Será que os tais factos que alegam não existir não constam do processo apenas por estratégia do MP, mas está tudo guardado numa pasta refundida em cima de um armário à espera do tempo certo para serem publicados? Mas porquê, pois o que não estiver no inquérito não conta para eventual julgamento? Ou estaremos perante um processo todo construído com base nos fluxos das contas bancárias e nas meias palavras de duas ou três testemunhas?

Esta notícia – Como Sócrates “instrumentalizou” ministros e secretários de Estado – é um exemplo perfeito do problema. Não se entende, para um leigo como eu, como poderá ter a mínima validade em tribunal, pois se trata de uma acusação onde se toma o próprio exercício político em si mesmo como prova de ilicitude. Sócrates, pelos vistos, não devia ter exercido as suas funções de chefe de Governo se queria evitar suspeitas de corrupção. Isto é absurdo, e conduz a uma lógica em que qualquer coisa pode querer dizer qualquer coisa, sendo que quem tiver mais poder é que estabelece o sentido, a intenção, que lhe convier. No caso, para a acusação, uma qualquer decisão governativa pode ser a prova da corrupção desde que tal sirva a interpretação que se quer estabelecer retroactivamente. É a hermenêutica a esmagar o empirismo.

A norma na postura dos advogados não é este vestir da camisola que João Araújo e Pedro Delille têm exibido inclusive quando estão a ser confrontados por jornalistas que se apresentam como coadjuvantes tácitos ou assumidos da acusação. Eles parecem genuinamente emocionados quando começam a elencar as incorrecções, algumas gravíssimas, que identificam no trato do seu cliente pela Justiça. Desse exercício de protesto não lhes veio qualquer benefício por parte dos procuradores e juízes que tiveram até agora a faca e o queijo na mão, muito pelo contrário. Perderam dezenas de recursos, só viram a sua razão atendida num. Logo, porquê o gasto da energia? Mais: por que raio se querem colar dessa maneira a uma figura que a sociedade já condenou e que irá passar as próximas décadas envolvida neste processo e nos outros que, com alta probabilidade, virão a nascer das 15 certidões extraídas por Rosário Teixeira?

A imprensa tem aqui uma excelente oportunidade para nos ajudar a compreender esta dimensão do caso. Basta mergulharem nas 4000 páginas. Venham daí os factos que antecipem a condenação – ou os factos acerca de não haver factos, então.

Uma noite dionisíaca na SIC Notícias

A SIC Notícias foi o canal que mais se banqueteou com a acusação a Sócrates, tendo superado a CMTV. Quando o canal do esgoto já tinha passado para o futebol ainda estava o José Gomes Ferreira a alertar a população para o perigo que aí vinha: o Governo poderá tentar afastar Joana Marques Vidal, a santa a quem este triunfo de apanharmos o Diabo se deve, o que levaria a que tipos do calibre de Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento voltassem a tomar conta da Justiça para proteger os corruptos socialistas. A SIC Notícias chegou ao ponto de pedir à CMTV excertos de interrogatórios para os voltar a passar e repassar. E foi ainda na SIC Notícias, cujos jornalistas que coordenavam a emissão e lançavam as perguntas aos convidados não escondiam o seu entusiasmo justiceiro, que vimos o Ricardo Costa a lembrar o que tinha acontecido no processo “Face Oculta”. Contou ele, a rir-se, que nas primeiras 50 páginas da sentença o que lá estava era uma engenharia jurídica cuja única finalidade era a de justificar a validade das provas indirectas. O mano Costa explicou com desembaraço ao Zé Telespectador que as provas indirectas são muita porreiras porque os cabrões dos corruptos são muita manhosos, tendo a mania de não deixarem provas incriminatórias. Pelo que os coitados dos procuradores e juízes têm de puxar pela imaginação se querem ter o gostinho de apanhar algum. Exemplo já despachado, Vara. Novo exemplo a caminho, Sócrates.

À sua frente estava Rogério Alves. Este senhor, logo após o mano Costa se ter calado, deu-lhe uma lição magistral sobre a crescente tendência internacional para diminuir os direitos dos arguidos e acusados e aplicar penas sem fundamento legal próprio, assinalando que as instituições policiais e judiciárias dispõem de extensos poderes de captação da privacidade de todos os cidadãos. Também chamou a atenção para o papel da interpretação na construção de um juízo judicial e de como é fácil ser influenciado por factores que pervertem a isenção. E apelou ao respeito pelos princípios basilares do Direito, do processo justo e necessária integridade da condição de inocente até prova em contrário. Ninguém à sua volta sequer quis concordar, quanto mais desenvolver aquela conversa de merda. A noite na SIC Notícias era de bacanal e havia um animal para ser sangrado.

Não vale tudo, meus caros

A conclusão da fase de inquérito da “Operação Marquês” com um despacho de acusação, sem qualquer surpresa face ao que foi lançado na imprensa durante as investigações, oferece o pano de fundo apropriado para explicar por que razão não votei no PS para a presidência da Câmara de Lisboa.

Votei PS para a Junta de Freguesia e para a Assembleia Municipal. A quem mo perguntou, recomendei que votasse PS para continuar a gerir o município de Lisboa, fosse pela qualidade da gestão ou pela ausência de alternativas. Mas não quis votar no Fernando Medina.

O que penso do potencial de Medina não mudou desde que aqui opinei – 50 minutos preciosos – vendo nele um recurso dirigente altamente valioso para o PS e para Portugal. Transmite versatilidade intelectual, integridade moral e coragem política. A passagem pela câmara e o próximo ciclo eleitoral autárquico poderão dar-lhe a tarimba em falta para conseguir encontrar o registo que melhor sirva o seu carisma. Chegar a líder máximo do partido e de um Governo é muito mais fácil quando se domina, por intuição ou estudo, essa faceta da experiência política.

Porém, e no que ao meu poder soberano respeita, Medina escreveu no Correio da Manhã, no que imitou António Costa na mesma circunstância: enquanto presidente da autarquia de Lisboa. O seu último texto data do final de Maio deste ano, não fazendo ideia se interrompeu a colaboração por razões eleitorais nem se voltará a escrever de novo estando as eleições passadas. O problema já seria bicudo caso estivéssemos perante um vulgar pasquim que praticasse um vulgar sensacionalismo. A sua associação com tal órgão, e apenas por razões de popularidade do meio e/ou pecuniárias, já seria suficiente para questionar o seu discernimento. Só que o caso do CM é isso e uma outra coisa muito pior. Estamos perante um instrumento de uma direita do poder pelo poder, o qual não só viola sempre que lhe interessa o código deontológico dos jornalistas, como é cúmplice de crimes de violação do segredo de Justiça, e ainda propaga com estatuto institucional uma calúnia genérica contra dezenas, ou centenas, quiçá milhares, de cidadãos conotados com o PS, grupo onde Medina se encontra e logo nas primeiras filas: Sócrates usou o Governo para criar uma cleptocracia populista. Isto é, o CM, ao nível do seu director e accionista, acha que António Costa e Fernando Medina são cúmplices da roubalheira sistemática que denunciam capa sim, capa sim. A parte do “populista” tem graça pela imbecilidade e absurdo, há que reconhecer.

Donde, Costa e Medina não se importam de colaborar com esta propaganda caluniosa, dando o seu nome e prestígio para que ela continue e ainda recolhendo proveitos do negócio. Isto, para mim, é fonte de perplexidade. Perplexidade que atenuo através do voto. Só por cinismo ou anomia se pode, ao nível de Costa e Medina, legitimar tal prática que envenena o espaço público e conspurca a democracia.

Sorriso alemão – amarelo. “Aufwiedersehen, Schäuble!”

 

Outubro de 2016:

“Portugal estava a ser muito bem-sucedido até entrar um novo Governo, depois das eleições […], declarar que não iria respeitar o que os compromissos com que o anterior Governo se comprometeu”, disse o governante, respondendo a questões dos jornalistas em inglês, numa conferência em Bucareste.

As considerações do governante alemão não se ficam por aqui. Wolfgang Schäuble diz mesmo que avisou o governo português contra os riscos do caminho que está a ser seguido.

Está a acontecer da forma como eu avisei o meu colega português [Mário Centeno] porque eu disse-lhe que se seguirem esse caminho vão correr um grande risco e eu não correr esse risco”, afirmou o governante em Budapeste.

Outubro de 2017:

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, que participa hoje no Luxemburgo na sua última reunião do Eurogrupo, apontou Portugal como “prova” do sucesso da política de estabilização do euro e a ilustração de um “final feliz”.

Desandam assim

Passos – um que não percebeu nada.

Schäuble – um que finge não ter percebido nada e, na hora da despedida, tenta chamar sua a vitória dos outros, que dantes execrava e ameaçava.

Dijsselbloem –  um que não sei se terá percebido alguma coisa; o braço direito do anterior no Eurogrupo; o xenófobo (lembram-se dos gastos em mulheres e copos atribuídos aos países do sul?) que ainda se há-de enfrascar com o melhor vinho do mundo.  Oferecido pelo Augusto Santos Silva, um dos melhores ministros dos Negócios Estrangeiros que tenho visto. Citando-o:

Augusto Santos Silva, comentou que “é evidente para todos, todos que leem jornais, que (Schäuble) começou por exprimir desconfiança em relação a este Governo, e é claro para todos que terminou, ou terminará, o seu mandato como ministro das Finanças da Alemanha apresentando Portugal como um exemplo de como as coisas devem ser feitas”. (DN)