Ter André Ventura na segunda posição das intenções de voto numa sondagem, a menos de 6 meses das eleições presidenciais, é uma esplendorosa lição a respeito do que 15 anos de uma estratégia de terra queimada, levada a cabo pela direita partidária e seus impérios comunicacionais, fizeram no País. Porque nada de nada do que Ventura usa como técnica retórica é alheio, na essência decadente, ao que se tem visto nos dirigentes políticos, deputados, editores e comentadores que se colaram ao populismo do tempo para arrastarem a competição política para a dimensão moral, e aqui chegados continuaram a reduzir a moral à perseguição e à culpabilidade, e para tal recorreram furiosos e ressabiados à calúnia e às golpadas mediáticas e judiciais. Ventura não só foi um aprendiz desta cultura logo enquanto artista do tribalismo futeboleiro como foi trazido pela mão de Passos Coelho para o palco da política como uma súbita estrela em ascensão. Foi-lhe dada a chancela do PSD e o patrocínio do seu presidente. Ventura – não apesar mas por causa do que hoje exibe com impante obscenidade – era quem Passos queria em Loures a provar que a completa falta de escrúpulos compensa.
No dia 9 de Março de 2011, num comício na Assembleia da República, Cavaco Silva declarou solenemente: “Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.” No dia 1 de Abril de 2011, respondendo a adolescentes, Passos jurou que não ia cortar subsídios. Noutras ocasiões dessa campanha repetiu o mesmo, tal como os seus tenentes laranjas que garantiam ter as contas todas feitas e que só gorduras seriam cortadas. Com eles no lugar dos diabólicos socráticos seria indolor e ficaríamos lindos. Poucos dias depois de vermos o Pedro ocupar S. Bento, e sem a mínima surpresa, vieram as notícias dos cortes aqui, ali e onde ele conseguisse enfiar a faca. As suas mentiras cínicas e grotescas, dada a inevitabilidade dos cortes violentos para a população e a economia após o chumbo do PEC IV e o afundanço no resgate de emergência, não tiveram qualquer sanção na sociedade e na imprensa. O comentariado direitola mal tocou no assunto, e quando falou foi só para se congratular por se ter feito o que era necessário fazer para vencer o soberbo inimigo. Cavaco atacava o Governo socialista declarando que fazia cortes a mais enquanto o PSD atacava o Governo socialista dizendo que fazia cortes a menos. Caído esse Governo, Cavaco e Passos coordenaram o tempo da campanha e do acordo com a Troika para manter o povinho na cruel ilusão de ir escapar aos fanáticos da austeridade salvífica. Em 2016, nos EUA, Trump não fez outra coisa ao perverter de modo sistemático a veracidade do seu discurso, e até hoje não tem feito coisa outra; o que levou, também em 2016, a que o termo “pós-verdade” fosse escolhido como palavra do ano pela Universidade de Oxford. Destas fórmulas boçais para audiências e eleitorados “deploráveis”, onde reina a iliteracia política e a alienação cívica, Ventura se fez em Portugal o mais desavergonhado executante por estrita lógica de sobrevivência. É que ele está a lutar pela continuação da sua marca mediática, não pelo seu futuro político que é nenhum, daí ter atravessado o Rubicão onde PSD e CDS nunca ousaram sequer molhar o pezinho.
O Twitter de Ventura merece visita diária. Nele está o cardápio do que tem para vender, uma juliana de apelos folclóricos aos instintos irracionalizantes que atravessam os mais frágeis na comunidade: frágeis economicamente, frágeis socialmente, frágeis psicologicamente, frágeis escolarmente, frágeis eticamente. Uma turbamulta que se cola a um palhaço como Ventura não por ver nele a resposta para as suas necessidades enquanto cidadãos mas, precisamente ao contrário, por nem sequer entenderem em que consiste a cidadania; daí estarem disponíveis para fazer coro a qualquer barbaridade que saia da boca e do teclado de alguém que está em transe fáustico. Grande parte nem sequer vota, e parte desta parte nem nunca irá votar, mas entretanto há circo na aldeia. Por isso Ventura mergulha de cabeça nos tabus que a módica decência tinha até agora impedido PSD, CDS e sua legião na imprensa de usar como bandeiras no vale tudo em que transformaram a arena política desde 2007: a cartada racista, a cartada xenófoba, a cartada salazarista, a cartada Fátima/evangélicos, a cartada do Estado policial. Depois de lançadas – e agora que estão normalizadas pelo próprio Rui Rio, num acontecimento que o próprio ainda não foi capaz de perceber nas suas consequências para o regime – Ventura pode simplesmente voltar ao papão da “corrupção e impunidade” para que se inscreva nesse mantra do passismo miliciano e da indústria da calúnia os ovos da serpente que já espalhou e vai continuar a espalhar.
Quem também quer muito, muito e muito acabar com a corrupção e a impunidade é o João Miguel Tavares. No seu texto ontem publicado num jornal de referência conseguiu apanhar mais um corrupto socialista (passe a tautologia). Eis o que se pode ler assinado com o seu nome:
«Vítor Escária é um lobista, um facilitador e angariador de negócios que António Costa acaba de colocar no coração do seu gabinete. O facto de o primeiro-ministro assumir de forma tão aberta essa relação de confiança pessoal é demonstrativo de uma continuidade preocupante com os tenebrosos anos 2005-2011. O facto de esta notícia passar com um encolher de ombros é demonstrativo de que não aprendemos nada com a Operação Marquês, e que o regime continua podre, pervertido e perigoso.»
João Miguel Tavares considera que os deputados fazem leis com a intenção de proteger políticos que cometam crimes de corrupção. Este mesmo senhor também acha que os magistrados que cometem crimes de violação do segredo de Justiça estão a fazer justiça pois é a única forma que encontram para furar as leis corruptas dos políticos. E aqui nesta citação podemos lê-lo a dizer que um processo judicial onde ainda não há qualquer sentença, e que está cheio de abusos e violência do Estado e dos poderes fácticos sobre os arguidos, serve como prova transitada em julgado para uma condenação política. Nessa condenação considera que António Costa, actual primeiro-ministro, é um governante podre, pervertido e perigoso. Visto que João Miguel Tavares, única e exclusivamente por ser um caluniador profissional, foi escolhido como um dos portugueses mais meritórios na História pátria pelo actual Presidente da República, fica evidente como o fenómeno que Ventura está a protagonizar se trata de uma evolução na continuidade. Ventura é a estátua viva da abjecção a que a direita portuguesa chegou 46 anos depois do 25 de Abril.