Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Pelo Não

O melhor para os gregos, no referendo, será o melhor para a soberania democrática como pilar da comunidade europeia. Por aqui, a vitória do Não é a que melhor defende a liberdade na Europa.

O melhor para os gregos, no referendo, será o melhor para a unidade europeia construída solidariamente. Por aqui, a vitória do Não é a que obriga a Europa a unir-se na sua diversidade para encontrar uma solução para a crise na Grécia.

O melhor para os gregos, no referendo, será o melhor para o futuro político da União Europeia. Por aqui, a vitória do Não é a que permite acelerar esse futuro impondo um obstáculo que só se ultrapassa através de uma mudança de paradigma.

Por aqui ou por ali, o melhor para os europeus é o Não grego a esta Europa que tem falhado na sua missão.

O melhor amigo dos jornais

No dia a seguir à publicação da entrevista em que Sócrates volta a reclamar a sua inocência e em que volta a repetir que o Ministério Público ainda não lhe apresentou qualquer prova de corrupção, o Correio da Manhã publicou uma notícia onde se alega que Joaquim Barroca disse ao juiz Carlos Alexandre que tinha sido ele a enviar 12 milhões de euros para uma conta de Santos Silva a pedido de Hélder Bataglia. O registo de escrita designa esse dinheiro como sendo de Sócrates, o que faz com que no texto se assuma como lógica a ideia de que Barroca tenha verbalizado ao juiz o mesmo que a notícia verbaliza para o leitor, isso de ele saber que o dinheiro em causa era para usufruto de Sócrates como recompensa pela sua corrupção a favor do Hélder e/ou do Grupo Lena. A situação de prisão domiciliária é também apresentada como prémio (??) pela “confissão”.

Barroca poderá, ou não, ter dito o que a notícia relata. Ou poderá ter dito parte, e o jornal ter encaixado o resto de forma a parecer que tudo vem da mesma fonte. O ponto principal não é esse mas o de a notícia não ter causado qualquer protesto no espaço público. Os cúmplices do costume deram-lhe destaque na indústria da calúnia e à volta fez-se silêncio. Que significa esse silêncio? Que a manobra foi eficaz, que a percepção de culpa de Sócrates se adensa a cada golpe construído em nome do Ministério Público e do juiz de instrução. E que a comunidade se conforma com a violação sistemática, obscena, inimputável do Estado de direito. Com crimes cujos primeiros suspeitos são agentes da Justiça e magistrados.

Há uma outra possibilidade, porém. A de ter sido o nosso querido João Araújo a entregar as informações ao pasquim. Isso explicaria o bocejo com que elas são recebidas. Todo este carnaval onde há jornais que são megafones da acusação pode estar a ser orquestrado pelo Araújo a troco de uns euros; ou mesmo à borla, só pelo gozo de abandalhar e “descredibilizar” a investigação, para ir buscar a maravilhosa tese do Rui Cardoso. É sabido que Sócrates, e qualquer um do seu bando de facínoras, é capaz disso e de muito pior. Aprende-se nos meios de comunicação social.

Não há dúvida, isto do segredo de justiça é o melhor amigo dos jornais. De alguns.

se assim fôr, que sêja

Miguel Esteves Cardoso, em Uma vez de cada vez, texto que se recomenda por mais do que uma razão, saiu-se com a surpreendente calinada do “fôr“. Sabemos que os jornais já não têm ninguém para corrigir os textos antes de serem publicados, e, pelos vistos, quem os escreve poderá estar a abdicar do corrector ortográfico por hábito ou circunstância. Mas a pilhéria do episódio vem de o Miguel ser um dos mais notáveis escritores portugueses do pós-25 de Abril, alguém que não associamos a dislexias ortográficas deste calibre tão básico – ou a qualquer outras, sendo ele erudito e estilista. Obviamente, deixou-se levar pela fonética num automatismo gráfico, e não reviu o texto.

Lição? Quando se cai em graça é tudo engraçado.

Grécia, não te metas com um país governado por gente pequenina

Consta que os pequenos países estão a ser verdadeiros gigantes do castigo a aplicar à Grécia por esta pretender usar a sua soberania para acabar com a loucura. Uma loucura que um certo desses pequenos países ainda conseguiu aumentar para além do exigido por sua alta recriação.

Isto é como diz o outro: 19-1=18. Ou seja, é matemático. Puta que os pariu. Olhem, saiam da zona de conforto. Ide trabalhar para o Norte da Europa. Raios parta os gregos. Cambada de socialistas. Piegas do caralho.

Perfeito juízo

Só um maluco é que acredita na tanga de Sócrates acerca da sua prisão ter como finalidade prejudicar o PS nas legislativas. Pode lá ser! Então, duas das mais prestigiadas figuras da Justiça portuguesa, os excelsos Rosário Teixeira e Carlos Alexandre, iriam arriscar as suas brilhantes carreiras metendo-se numa aventura dessas? É um cenário inconcebível. Ninguém no seu perfeito juízo perde um segundo com essa fantasia, para mais vinda de tão desesperada e vil personagem.

Se acreditássemos nisso, de seguida estaríamos a acreditar que um procurador e um juiz, algures entre Lisboa e o Porto, decidiam espiar um amigo de um primeiro-ministro, na certeza de que os dois mantinham comunicações privadas. Depois, acreditaríamos que esse procurador e esse juiz decidiam não solicitar a devida autorização legal para espiarem o primeiro-ministro. E ainda acreditaríamos que esse procurador e esse juiz resolviam tentar constituir como arguido o primeiro-ministro que tinham espiado a meses de umas eleições legislativas e autárquicas. Por fim, teríamos de conseguir imaginar que esse procurador e esse juiz tinham tido a ousadia de levar avante esse plano apesar de não constar nas captações nada que fosse passível de configurar actos ilícitos. Quer dizer, ninguém no seu perfeito juízo acha que algo similar alguma vez aconteceu ou virá a acontecer em Portugal.

Ou então, a acreditarmos nisso de Sócrates estar preso só para prejudicar o PS, então também temos de acreditar que um Presidente da República, a semanas de umas eleições legislativas, resolva usar um jornal para lançar a suspeição de que o Governo de então usa os serviços secretos, ou técnicas desses serviços secretos, para espiar a Presidência. Obviamente, esta hipótese é tão rocambolesca que nem para má literatura serve. Ninguém no seu perfeito juízo está disposto a conferir a mínima verosimilhança a parvoeiras deste calibre.

Aliás, as pessoas que conservam o seu perfeito juízo o que mais desejam é que o PS se mantenha alheado do que se passa na Justiça. Para tratar dos assuntos da Justiça já existe muita gente, e gente séria, credível, honesta. Temos o Correio da Manhã, que faz um excelente trabalho em prol da transparência nos processos e que dá voz aos coitados dos magistrados. Temos a ministra da Justiça, um paradigma da salubridade política e do sentido de Estado. Temos o próprio Presidente da República, o sr. Cavaco, o qual se nada diz (ou quase) a respeito é porque não vê qualquer motivo para preocupação.

Que seria deste país sem todos aqueles, tantos, que estão no seu perfeito juízo.

Uma direita que não tem dúvidas e raramente se engana

A coincidência de o auge da crise grega, na sua relação com a Europa, coincidir com o período eleitoral para as legislativas portuguesas leva a que tenhamos a direita nacional a exibir-se num estado de violência emocional extremo. A retórica do castigo, do desprezo e do ostracismo escorre imparável por todos os canais, desde a arraia-miúda nas redes sociais, passando pelos comentadores profissionais e chegando aos políticos – onde se destaca Cavaco, supremo chefe de facção e factual substituto do ministro dos Negócios Estrangeiros. A direita portuguesa, esta direita decadente, não passa da face visível da oligarquia, colocando sempre em último lugar as necessidades das populações mais pobres e remediadas. Um qualquer ganho do Syriza deixaria em pânico quem já sacrificou – sem a mínima hesitação e cheios de furor – a população de Portugal à pura sede de poder.

Claro que podemos entender esta agressividade como sendo uma expressão natural das dinâmicas políticas, sociais e mediáticas. Há um constante fluxo de adrenalina que vicia. Mas o aspecto ideológico é mais interessante como dimensão analítica. A infantilização de tratar a economia de um Estado como se fosse a economia de uma casa familiar, juntamente com a moralização culpabilizadora agitada como critério político absoluto, não são apenas manifestações de um delírio da vontade, elas ficam igualmente como transparências para o interior intelectual e ético de quem assim se assume no espaço público. Andar a promover o ódio aos gregos, como fazem Passos e Cavaco, é significativo na sua correlação com outras temáticas onde essas figuras têm responsabilidade política. Para alguns, o que se revela de ambos no modo como reagem às históricas dificuldades do povo grego é crucial para a compreensão da sua relação com o povo português.

A decadência desta direita consiste em ir buscar o seu apoio aos piores instintos das comunidades ameaçadas por crises. Em 2011, esta direita decadente jurou à nossa comunidade que as responsabilidades internacionais não existiam e que os sacrifícios acabariam assim que corressem com os malditos socialistas. Logo que se agarraram ao pote, soltaram a besta do empobrecimento fanático e fizeram magníficos negócios, devastando económica e socialmente o País. Agora, dizem para se correr com os malditos gregos. Não têm dúvidas e raramente se enganam: querem estar do lado dos fortes e estão dispostos a tudo para os servir.

A hecatombe da política

Teresa de Sousa é uma das mais reputadas, e condecoradas, especialistas em matérias europeias que temos no jornalismo português. Junta a esse estatuto a imagem de ser uma europeísta convicta e uma voz exemplarmente ponderada. O seu perfil confunde-se com o de um representante da União Europeia, pode-se dizer para efeitos de caricatura.

Ontem publicou um texto – Foi isto que Atenas sempre quis? A pergunta passou a ser legítima – onde acusa Tsipras de ter levado a cabo uma manobra maquiavélica ao serviço de um projecto de radicalismo político insano. Daí a marcação do referendo, a prova provada de que o Governo grego estava a boicotar as negociações desde o início. O registo é psicologista, a matriz é a de associar o Syriza a um comportamento irracional.

Numa curta passagem, a autora refere-se ao erros cometidos pela Europa é às consequências devastadoras das medidas aplicada na Grécia, levando a uma “hecatombe apenas própria de tempos de guerra, ao contrair mais de 25% em quatro anos“. Este momento de lucidez foi de imediato perdido, surpreendentemente, terminando o artigo com o sofisma de que a democracia deve ceder ao Tratado de Roma. Aderir à Comunidade Europeia, assinar o Tratado de Maastricht e entrar na zona euro, concretiza o argumento, implica uma soberania partilhada e suas regras. A soberania e democracia de cada país são balelas para ingénuos ou demagogos, remata imperial.

Há uma racionalidade institucional, e mesmo política e pragmática, na sua posição. Indiscutível. As regras só existem quando são respeitadas, e a alternativa é a lei da selva e o caos. Mas também, e isto é que fica como surpreendente no caso de Teresa de Sousa, há uma antiquíssima lei de ouro que obriga os corajosos a defenderem os seus se eles forem atacados. Há um direito à legítima defesa que se sobrepõe a outras convenções. Quando se admite que a Grécia está a sofrer um empobrecimento só comparável ao que ocorre numa guerra, e se sabe que nenhum dos credores apresentou qualquer solução que permita sequer uma friável esperança de recuperação, isso é o mesmo que reconhecer a bondade daqueles que estão dispostos a quebrar algumas regras para que se cumpra a regra principal de todas as comunidades: ajudarmo-nos uns aos outros, e tão mais quão maiores forem os problemas e os riscos.

Teresa de Sousa não concebe que a partilha da soberania sirva precisamente para acudir ainda melhor à excepcionalidade que escapa às regras. Isto é a negação mesma da essência da política como arte da boa governação. Se largas décadas de assimilação dos princípios fulcrais da União Europeia, e de convívio com os seus agentes, provocam esta alienação, então quão mais cedo deixarmos de estar em tão má companhia melhor.

Revolution through evolution

Manning up: Men may overcompensate when their masculinity is threatened
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Conservatives demonstrate more self control than Liberals, studies suggest
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Consciousness has less control than believed, according to new theory
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Men think they are maths experts, therefore they are
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If you demonstrate that ‘Black Lives Matter,’ others will too
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Pet ownership and its potential benefits for older adults
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Turning fake pills into real treatments
Continuar a lerRevolution through evolution

Objetivamente, a Grécia

No clímax de tensão a que chegaram as negociações, Tsipras tomou a única decisão possível – convocou um referendo à proposta dos credores.  Se, neste referendo, o Não vencer, o país sairá provavelmente do euro (sairá?) e Tsipras manterá a liderança, agora reforçada, tendo, sem dúvida, muito que fazer para merecer uma menção de destaque na História. Se o Sim à proposta vencer, Tsipras, que anunciou ir fazer campanha pelo Não, terá de se demitir, pois não terá condições para executar as medidas que rejeitou. Neste caso, haverá novas eleições e a direita ganhará, voltando-se ao «business as usual» dos últimos cinco anos, isto é, a sangria, desta feita expressamente consentida. Resolve-se alguma coisa na Grécia? Não, apenas se vai pagando aos credores. Com os seus empréstimos. Isto é um negócio.

Mas os gregos devem saber em que estado se encontram. Possivelmente será, para a sua maioria, tão mau continuar com a austeridade imposta como mandar os credores «dar uma volta ao bilhar grande» e divertirem-se com (enquanto negam) o que ganharam durante anos com os empréstimos à Grécia e com as grandes obras, e seja o que Zeus quiser. Possivelmente Zeus e Tsipras serão, em 5 de julho, a mesma pessoa.

Foi preciso a Grécia chegar até aqui, ou seja, a uma situação tal que o único crédito a dar pelos eleitores aos políticos foi a eleição de um partido radical de esquerda, para pôr finalmente às claras o espírito europeu nesta crise – na Europa, em especial na zona euro pós-2010, com mais ou menos salamaleques, existem os credores e existem os devedores. Para além disso, mais nada. Se a receita aplicada pelos credores (e a Grécia aplicou-a, ao contrário do que diz a direita desde fevereiro) provoca pobreza, destrói a economia, afunda o PIB, mata a democracia, torna os países escravos de uma dívida crescente e impagável e, a prazo, transforma a união europeia numa farsa, se é que não dita o seu óbito, que importa? É assim. O povo deve pagar os desmandos da banca e as decisões preconceituosas de quem manda.

Entretranto, não há ferramentas soberanas. Com a moeda única, todos os países se submeteram a Berlim. Como conviver bem nesta União?

A hipótese mais óbvia é aliar-se a Angela Merkel, obedecer cegamente às suas ordens, aceitar que as mesmas defendem em primeiro lugar os interesses dos alemães que a elegeram, fingir que tudo vai bem por cá e esperar a proteção eterna das instituições, controladas pela Alemanha, incluindo em caso de nova crise. É o que faz Portugal, com o governo de Passos e Portas. Com a agravante de os executantes terem verdadeiro prazer no chicote. Objetivamente, estamos condenados a mendigar as boas graças do patrão.

Objetivamente também, esta forma de a «Europa» lidar com os efeitos de uma grave crise financeira internacional foi uma estreia, atendendo à existência da união monetária. O clube não estava preparado para o que sucedeu. Não havendo mecanismos de combate e de estabilização, e havendo grandes discrepâncias entre os países, o país mais rico foi quem ditou as regras. E, evidentemente, nesse processo defendeu os seus interesses. Pode objetivamente dizer-se que correu bem? Sim, até agora, para o comandante. Para a soldadesca, não, não pode objetivamente dizer-se que correu bem. Para os lambe-botas há a ilusão de que sim.

Para onde se caminha não se sabe ou não interessa. Mas o facto de haver alguém que questiona e desafia só pode merecer aplauso. Quando já não há nada a perder.

O calado vai ser o melhor?

Comentando na SIC Notícias a entrevista de António Costa, Eduardo Paz Ferreira verbalizou a sua surpresa, a qual cobria uma tristeza ou indignação, por não ter visto o actual secretário-geral do PS a defender a obra dos Governos de Sócrates, especialmente no campo social e da reforma do Estado. Outros comentadores assinalaram a falta de críticas ao desgoverno e a pose sem pathos.

Costa não esconde a sua estratégia, a qual está definida desde há muito. Quer dizer à classe média que com ele haverá recuperação do poder de compra, ou mais recuperação do que com a actual maioria governativa. E pronto. O resto é um exercício de atenção aos obstáculos no passeio. O passado já passou, não se fala mais nisso. Assunto encerrado. Sócrates tem de ficar onde está, nas mãos da Justiça pelo tempo que a Justiça quiser e como quiser. Assunto encerrado. A Grécia não depende de nós e nós dependemos da Europa. Assunto encerrado. Os ataques a Passos e Portas devem sem comedidos, suaves, como quem não quer a coisa e, de preferência, em voz baixa. Isto porque, como Costa vem repetindo, há que terminar com a acrimónia que tem marcado os últimos anos. Assunto encerrado.

A seu favor a possibilidade de estar certíssimo. O facto de as sondagens estarem a mostrar precisamente o contrário não é significativo, pois tal estratégia poderá provar a sua eficácia em cima da votação. Também conta para a aparente sensatez das suas opções a extrema complexidade dos casos Sócrates e Grécia, sendo de imaculada lógica o preceito de esperar para ver. Pelo que o PS, na prática, está a fazer uma campanha onde tenta arriscar o mínimo possível.

Quem cala consente. Por exemplo, o Pedro não se cala mesmo quando as suas mentiras estão documentadas e fazem bicha. O efeito é o de parecer que não consente, e isso para o seu eleitorado surge como um ganho moral. Costa, imitando Seguro embora estando nos seus antípodas éticos, cala-se a respeito do legado socialista inclusive de um Governo a que pertenceu. Cala-se a respeito da interpretação das causas da crise que conduziu ao resgate. Cala-se a respeito do estado da Justiça. Cala-se a respeito da traição que Pedro&Paulo fizeram quando chumbaram o PEC IV e depois quando mentiram de forma radical e absoluta na campanha eleitoral. Resultado: Costa consente que o PS seja tratado como o bombo da festa, da festa da direita mais decadente que já apareceu a governar Portugal em democracia.

Boa sorte.

Aspirina marada

Este blogue esteve mais de 24 horas escondido do mundo e não se pode dizer que tal tenha contribuído para a resolução de qualquer problema da Humanidade. Bem pelo contrário.

Em nossa defesa, dizer que não tivemos culpa nenhuma. Aliás, não temos culpa de nada. A austeridade levou-nos tudo, até os pecadilhos.

Alberto Gonçalves recomenda o Aspirina B

Alberto Gonçalves, o “pena d’ouro” do publicismo da gente séria, fez um elogio a este humilde blogue. Cá está ele:

[…] recomendável blogue Aspirina B […]

Não satisfeito, gastou ainda umas centenas de caracteres a promover um texto da Isabel. O texto merece o encómio e estou certo de que muitos leitores desta ilustre cabeça de martelo terão ficado agradecidos pela sugestão.

Alberto Gonçalves, sendo pago para escrever na imprensa de referência graças aos méritos intelectuais de que dá capitosas provas semanais, confronta-se com a angústia de todo o escriba profissionalizado: escrever acerca do quê? A repetição, o cansaço, as salas cheias de troféus, as costas maceradas pelas palmadas e abraços viris do clã, podem levá-lo para ocasionais estados de acédia. É assim que explico esta surpreendente referência ao nosso pardieiro. Um recurso algo desesperado numa daquelas semanas em que não se sentia com motivação que o levasse para paisagens mais animadoras. Évora, por exemplo.

Todavia, seria de um grande umbiguismo se não aproveitássemos a ocasião para aprender com o Alberto Gonçalves. E é impossível sair da leitura do seu A crise explicada às criancinhas sem esse sentimento de transformação interior frequente quando tocamos nos pés dos mestres. Tal metanóia não me ocorreu na sua brilhante exposição acerca da crise grega, um portento de argúcia política e sofisticação sociológica, nem na sua outrossim brilhante crítica a Soares e ao papa Chico, um genial golpe de judo onde se aproveita o balanço com que se derrubam os esquerdalhos da malsã preocupação ambiental para de imediato se içar a bandeira do comércio livre como milagre redentor que nos livrará da pobreza. Na, népias. O que me arrancou ao desgraçado e vil estado de… de… como é que é mesmo o termo… ah, encontrei!… de “socratismo”… isso… pois o me arrancou das suas garras diabólicas foi a passagem em que o Alberto (Beto entre os amigos?) nos convida a procurar fotos de Beatriz Gimeno. A lógica é a de que no confronto com essas imagens iremos de imediato encontrar a razão pela qual a senhora anda com umas ideias bué esquisitas acerca da heterossexualidade. Ora, foi isso que fiz. E foi isto que aprendi com o conselho: se a Beatriz Gimeno fosse linda e boa, ou apenas linda ou só boa, ou se pertencesse à mole imensa das comestíveis apesar de não ser nem boa nem linda, tudo isto adentro dos critérios fotográficos do plumitivo, então, nesse caso, consequentemente, já não teria qualquer aversão ao convívio com os falos impantes e/ou murchos e seus desvairados adereços corporais que trazem por arrasto, e essa simpatia, esse gostinho, essa ocupação quiçá diária tantos os falos e as tarefas inerentes à sua satisfação, evitaria que a sua frágil inteligência fosse tomada de assalto por ideias esquisitas, e logo essas que anda a espalhar, o camafeu.

É um raciocínio do caralho. Literalmente. Ficando-me só esta questão por esclarecer: Beto, meu novo amigo, quanto é que sacas ao DN por textículo?

Cui bono?

Estrela Serrano chama a atenção para um comentário de João Marques Vidal, o herói do processo Face Oculta, que é um mimo de sobranceria face ao Estado de direito:

Ironizando sobre a polémica à volta da violação do segredo de justiça no caso Sócrates, Marques Vidal atirou: “Os espanhóis [que têm investigado grandes escândalos de corrupção envolvendo os principais partidos políticos] têm um problema de corrupção, os portugueses têm um problema de violação do segredo de justiça”.

O segredo de justiça e a ironia do procurador

No mesmo artigo do Público, aparece outra citação luminosa do tenebroso Teófilo Santiago, o Crachá de Ouro:

Teófilo Santiago realçou o contraste entre os meios dos investigadores e das poderosas defesas, que tentam manipular os media. “Ultimamente até já se atrevem a fazer ameaças”, afirmou, numa clara alusão a algumas declarações, como a de Mário Soares que disse ao juiz que mandou prender Sócrates para se cuidar.

As mensagens que estes dois caubóis estão a transmitir é a de que temos agentes de Justiça que estão dispostos a vencer a “corrupção” e suas “corruptas” defesas legais através de um voluntarismo cujos limites apenas serão conhecidos dos próprios. Esta ideia de uma impunidade justificada pelos fins, e alimentada pelas percepções e convicções, foi também a tese apresentada pelo procurador Rui Cardoso no Prós e Contras de ontem, num descaramento quase igual. Esta figura ocupou o seu tempo no programa a defender os magistrados e chegou ao ponto de alegar que o crime da violação do segredo de justiça não é importante – e nem se deve perder tempo a investigá-lo – porque a sua ocorrência e quadro penal não o justificam. Precisamos de gastar os recursos com crimes que tenham penas maiores, foi a esplêndida tese apresentada ao País. Ao lado da figura estavam outras duas, igualmente impávidas e serenas face à convivência diária com colegas criminosos no seu local de trabalho.

Do lado da Justiça, por esta amostra, nada há a esperar. E tal ficou patente até para os distraídos quando, noutro grande momento da noite, o dançarino Rui Cardoso abriu um sorriso de sublime gozo para dizer que ainda não tinha visto imagem alguma relativa à detenção de Sócrates no aeroporto. Aquelas imagem de um carro a passar, dada na imprensa como sendo a viatura onde foi levado pelos agentes da autoridade, podiam ter lá dentro o Pato Donald. Sic(k).

Veio de Manuel Costa Andrade, professor catedrático da Universidade de Coimbra, o contributo mais sólido e claro acerca do que está em causa na violação do segredo de justiça. Na prática, é a derrocada do Estado de direito. E a sua intervenção poderia resumir-se à passagem em que evoca a pergunta fundamental em todas as investigações criminais: cui bono?

Entretanto, enquanto a comunidade continua letargicamente a ver a banda passar, contribuo com uma máxima que igualmente poderá levar às mesmas pistas: follow the pulhice.

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Adenda retrospectiva:

O Crachá de Ouro perdeu o brilho

Cui bono?

Pelo ódio

A apatia com que a sociedade reage às consequências da ideologia do empobrecimento assumida por dois partidos que ludibriaram o eleitorado e renegaram por completo a sua história – um, suposto “social-democrata”, o outro, proclamado paladino dos “contribuintes” e dos “pensionistas” – não parece ter tido ainda alguma explicação analítica por parte da academia, da imprensa ou da oposição. Alguns factores poderão, no entanto, ser dados como consensuais:

– Emigração de centenas de milhares de cidadãos em idades de fulgor laboral e político, contribuindo para o ainda maior envelhecimento e resignação dos que ficaram.
– Incapacidade da oposição em apresentar uma alternativa credível, sendo que o PCP e o BE continuam a manifestar-se indisponíveis para soluções governativas.
– Recusa do PCP e da CGTP em repetir com o actual Governo a sua estratégia de levar a luta para a rua com que atacou os Governos socialistas.
– Narrativa omnipresente nos órgãos de comunicação social a respeito da “culpa” do PS na “bancarrota”.
– Campanhas sistemáticas de assassinato de carácter contra Sócrates e qualquer outro socialista visto como seu próximo, as quais começaram em 2004; estratégia que atingiu o grau máximo do impacto com a sua detenção e prisão, e a qual irá prolongar-se durante anos neste registo de devassa e exploração política do processo judicial.

O caso Sócrates afecta o PS de várias maneiras, estando a sufocar e tolher a sua afirmação. A dimensão moral, onde a sentença já transitou em julgado, causa um efeito de repúdio que se estende à dimensão política e contamina a interpretação do passado e a ponderação do futuro. Daí a eficácia das campanhas de ódio e da indústria da calúnia, recursos usados no combate político desde a invenção das democracias e da imprensa. Compensa repetir as velhas fórmulas da diabolização porque a natureza humana continua a mesma que participou com gáudio nas caças às bruxas, nos autos-de-fé e nos linchamentos de todos os tempos e lugares. O Estado de direito é uma invenção recentíssima na História e, parafraseando Montesquieu, o espírito das leis não está nunca garantido mesmo em regimes que as bem formulem e instituam.

Se perguntamos a um talibã direitola, ele vai dizer que a comunicação social está nas mãos da esquerda. Tudo o que se desvie do seu sectarismo é visto como inimigo, assim imitando a exacta postura dos comunas que também consideram que a comunicação social está nas mãos da direita. Mas os factos são os factos são os factos. É um facto que não existe uma Renascença de esquerda, nem um Correio da Manhã, nem um Sol, nem um Expresso, nem uma Sábado, nem uma SIC, nem uma TVI, sequer um Observador. É um facto que não existe à esquerda alguém que se compare ao Marcelo Rebelo de Sousa. Ou ao Medina Carreira. É um facto que não se conhecem na esquerda, muito menos no PS, figuras com a influência de Manuela Moura Guedes à época do espectáculo do Freeport, de José Manuel Fernandes à época da vingança por causa da OPA da Sonae, de Mário Crespo à época da perseguição no Jornal das 9, da Judite de Sousa, do José Rodrigues dos Santos, do José Gomes Ferreira, e imitadores. É um facto que não há um grupo de colunistas na imprensa de referência conotados com a esquerda e dedicados em exclusivo à fulanização odiosa como faz um monótono grupo de caluniadores do laranjal em cruzada, os quais semana sim e semana assim-assim se dedicam a bolçar o seu fel contra “Sócrates”, o “PS” e o “socialismo”.

Podemos não conseguir chegar ainda a um diagnóstico satisfatório do passeio que está a ser este final de mandato para Passos&Portas. Talvez nunca lá cheguemos. A realidade, consta, é complicada. Por agora, só uma coisa é certa: pelo ódio (ou falta dele) os conhecereis.