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Dá um trabalhão, e tão bem pago, ser caluniador profissional

Portugal é pequenino, a nossa imprensa é minúscula, a chamada “imprensa de referência” corresponde a pouco mais do que uma mão cheia de títulos na comunicação social. Essa diminuta dimensão só engrandece a responsabilidade das entidades e indivíduos que são decisores do que diariamente é vertido em forma de notícias e opiniões. O espaço público é alimentado, moldado e excitado pela produção contínua de informações e interpretações protegidas por um quadro legal que até consente, facticamente, a prática de crimes sob as capas da “liberdade de imprensa” e da “liberdade de expressão”. A sociedade aceita estas normas tácitas, não se conhecendo qualquer intenção política para as alterar nem para diminuir as suas consequências.

Recentemente, explodiu com estrondo nesse pequeníssimo mundo jornalístico que é o nosso a problemática da violação do segredo de justiça, a qual também arrastou para a arena o conceito da presunção de inocência. O segundo tema é uma novidade como arma de arremesso político, e liga-se directamente a Sócrates e ao seu processo judicial. O primeiro, é uma presença regular nas conversas e peças mediatizadas há anos e anos, mas o qual também apresenta novidade. Em ambos, estamos a assistir pela primeira vez à defesa em “órgãos de referência” da abolição de uma lei e de um princípio jurídico. Abolição temporária e selectiva, claro, e ao serviço das agendas políticas e do lucro, claríssimo.

É fácil identificar aqueles a quem o crime da violação do segredo de justiça está a favorecer – Cui bono? São todos os que relativizam, desvalorizam e tentam que desapareça da atenção das audiências e dos eleitorados a prática de crimes no seio da Justiça, sejam procuradores ou juízes os seus agentes. Sempre que se aponta para os advogados, ou funcionários menores, ou entidades sobrenaturais conhecidos como “qualquer um” e “um qualquer”, em vez de se denunciar os casos em que só magistrados do Ministério Público podem ser acusados pelos crimes, sabemos que estamos perante um cúmplice de criminosos. Criminosos que, como explicou divertida Joana Marques Vidal, andam a aproveitar a benesse de o crime apenas ser punido com um máximo de 2 anos de prisão. Logo, não existe ninguém sequer para o investigar, quanto mais para o prevenir. Pelo que é fartar, vilanagem, na Procuradoria-Geral da República que se especializou em conteúdos para a indústria da calúnia a partir de 2012 a troco da promoção dos seus interesses corporativos e ideológicos.

Acontece que este lado sórdido e assustador de termos magistrados criminosos que se sabem impunes é apenas uma parte do problema, quiçá a de menor importância. Quando vemos o que a Cofina faz com os crimes dos magistrados – ao pegar nas versões da investigação maximizadas para denegrir e caluniar os suspeitos ou arguidos, e depois passando a tratar as vítimas como definitivamente culpadas de tudo e mais alguma coisa que lhes apeteça agitar em frente dos borregos, haja ou não acusação – podemos acabar por esquecer o que vem a seguir. Ora, há algo que se segue, algo que temos visto com holofotes de gala no processo “Face Oculta”: uma efectiva influência sobre os juízes, os quais são pressionados para punirem ideologicamente certos acusados. É o caso de Vara e Manuel Godinho, condenados a penas muito acima do que foi a prática comum nos tribunais portugueses perante valores pecuniários similares, e sem provas directas de se ter cometido qualquer ilícito no que a ambos diz respeito. Os juízes foram explícitos acerca do que estava em causa, descrevendo como a partir do que consideram o sentimento popular quiserem fazer de Vara e do sucateiro um exemplo para atingir a classe política – isto é, certas pessoas da classe política, bem entendido, a tal ralé que não pertence ao grupo da “gente séria” e andava a pedi-las. A indústria da calúnia à portuguesa tem gostos refinados, não dispara sem fazer cuidada pontaria, mas quando atinge o alvo podemos ver o edifício da Justiça a oscilar para o lado da sua estratégia.

Há um lado grotesco em vermos autopropalados “liberais” a reclamarem o direito a destruírem os direitos de terceiros. Em celebrarem crimes de magistrados. Em explorarem as difamações e mentiras vertidas no espaço público. E em declararem que a presunção de inocência não passa de uma burocracia lá dos tribunais que eles não têm nem querem respeitar quando têm manchetes tão mais melhores boas do que a honra alheia. Preferem satisfazer a pulsão de violentarem o nome e a personalidade dos seus ódios e vítimas. Preferem o gozo do assassinato ritual dos que concebem como inimigos à defesa do Estado de direito democrático e da módica decência sem a qual não há comunidade, apenas guerra civil. E depois interrompemos o pasmo. Olhamos com mais atenção e vemos que eles estão apenas a tentar sacar o seu, que têm despesas, têm filhos, têm de garantir o pão na mesa e ainda ir de férias para sítios giros e confortáveis depois de tanto esforço ao longo do ano. Ficamos em demorada e condoída contemplação. Coitados. Dá tanto trabalho ser caluniador profissional.

Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye

Em 1980, José Cid foi ao Festival Eurovisão da Canção representar Portugal com uma canção que aludia na referência ao “muro em Berlim” àquele que era o mais grave problema mundial do tempo, a competição bélica e imperial entre os EUA e a União Soviética, o Pacto de Varsóvia e a NATO, configurada na expressão “guerra fria” e sua ameaça de conflito nuclear aniquilador da humanidade. Cid teve arte e engenho para sacar um notável 7º lugar, sendo premiado pela temática política, pelo internacionalismo da letra e pelo talento festivaleiro. Tinha 38 anos.

Em 2018, José Cid foi ao Festival RTP da Canção com uma canção onde conseguiu meter guitarras, alma, fado, rio, mar, ondas, povo, Abril, caravelas, Angola, Timor, Brasil, poetas tristes, lutas sozinho, Lisboa, Zeca, Camões, Pessoa, Maio, Amália, chorar, saudades, rezas por nós, país guerreiro, nunca te rendes, ideais, lendas, profecias, Alcácer-Quibir, utopias, livre, sonhar. É uma juliana de clichés despachados sem fio narrativo, como se alguém tivesse despejado para cima de uma mesa um expositor de postais de uma loja de souvenirs do Portugal very tipical e a letra fosse uma colagem dos que ficaram no tampo. Cid não passou à final, não esperou pela votação para abandonar o estúdio da RTP e não se livrará da maldição de ter afastado o seu sobrinho do espectáculo. Tem 76 anos.

Está velho? Não. Ter participado, ter sacrificado Gonçalo Tavares para manter a sua identidade, ter feito uma canção profissionalmente foleira, fica como um atestado da sua juventude – isto é, da sua força irracional. A audiência é que passou a comunicar noutra língua. Quem tem menos de 40 anos não sabe do que está a falar. Caravelas e Abril, Camões e Zeca, lendas e profecias são agora fantasmas esquecidos para quem só deseja heróis no activo: Mourinho, Cristiano, Sobral, a Lisboa da Madonna e das feéricas celebridades, o Portugal na moda. Os “poetas tristes” abriram restaurantes e empresas de serviços turísticos, a utopia está à disposição e aluga-se ou vende-se ao metro quadrado. Involuntariamente, a sua canção expõe por antinomia a alma de um povo que o Zé desconhece. Assim se assinalou a despedida de um folclore que era matriz do salazarismo sociológico e antropológico prevalecente.

Partamos à descoberta do folclore que se segue. Caravelas opcionais.

Depois do Princípio de Peter e da Lei de Murphy, eis que chegam os Axiomas do Monteiro

Henrique Monteiro assina o texto Ainda bem que o MP investigou Centeno. Nele defende que a palavra de Mário Centeno não vale nada, que o Ministério Público deve estar ao serviço das agendas comerciais e políticas da Cofina, que o PS é um partido de bandidos e que a Isabel Moreira não passa de uma tontinha. Estas quatro ideias, aparentemente díspares, radicam no mesmo tronco mental cuja substância consiste numa ilimitada estupidez.

Vejamos como esta pícara figura consegue atingir a quadratura da sua obtusidade:

«[sem a intervenção do MP] Ter-nos-íamos que fiar na palavra do próprio e uma mancha qualquer ficaria adstrita ao atual presidente do Eurogrupo. Mário Centeno tem agora algo melhor do que a sua palavra [...]»

Um pasquim criminoso lança uma acusação ignóbil e absurda contra um governante, ainda por cima numa altura em que este acaba de assumir um papel de representação de Portugal de notoriedade europeia e até mundial. Para o Monteiro, quem não tem crédito é a vítima. Precisa de ver a sua honra e bom nome resgatados pelo Ministério Público, caso contrário já não se livra da sujeira onde se enterrará se recusar ser investigado judicialmente.

Axioma da Monteiro: “Todos os governantes, todos os políticos e todos os cidadãos são suspeitos até arquivamento pelo MP em contrário“.

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«As suspeitas ridículas sobre Centeno foram investigadas. Ainda bem. Com isso o ministro teve ganho de causa.»

A direita decadente e o seu império na comunicação social tentam abater uma das principais figuras do Governo. A operação estende-se a Estrasburgo e à imprensa internacional. Durante dias e dias o assunto é explorado com mentiras, gerando manchetes, notícias e opiniões caudalosas. Até que Marcelo resolve acabar com a bandalheira. Para o Monteiro, o desgaste e desprestígio que atingem inevitavelmente Centeno e Governo são coisa boa. Tão boa que precisa de ser coroada com uma pulhice só ao alcance de um estúpido do seu calibre: declarar que Centeno recolheu vantagens do episódio.

Axioma do Monteiro: “Todos os governantes são alvos legítimos da indústria da calúnia, mas só se o Governo for socialista que é para gozarmos de pança cheia antes, durante e depois da torpe exploração mediática e política.“.

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«[os que protestaram contra a abertura do inquérito a Centeno] pretendem um controlo do MP, controlando também o ‘ridiculómetro’ para se saber quando deve atuar.»

Ai dos que levantem cabelo quando assistem a um Ministério Público a invadir e devassar gabinetes ministeriais a mando das parangonas absurdas e infames dos profissionais da calúnia. O Monteiro quer bico calado e bola baixa, dure o que durar a humilhação, a violação da privacidade e a difamação em manchete e abertura de telejornal. Se alguém se atrever a falar, vai logo corrido com o carimbo de “socialista”: bandido que não descansa enquanto não reduz a Procuradoria-Geral da República a uma sucursal do Rato.

Axioma do Monteiro: “Para esconder a eventual agenda política do Ministério Público há que carimbar como agentes políticos malignos todos os que questionem o que é evidente e gravemente questionável.

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«No seu habitual estilo de ir mais depressa atrás de palavras do que de raciocínios, a deputada Isabel Moreira afirmou o seguinte: “Achar que o ministro das Finanças se vendeu por dois bilhetes é digno de um Estado persecutório”. Independentemente de a deputada saber o que é um Estado persecutório, daqueles que prendem pessoas às quatro da manhã sem processo nenhum, sem nada, como aconteceu durante 40 anos em Portugal, o caso é que investigar seja quem for é digno de um Estado de Direito democrático. Mas se pessoas como Isabel Moreira e outras mais doutas [béu, béu, béu]

Monteiro a dar um responso à Isabel, reduzindo-a a uma garotinha parvinha que não sabe nada de perseguições estatais, de História, de direito constitucional, de ciência política, de participação política, de intervenção cívica, de democracia, de coragem, de liberdade. Uma miúda parva, que fala sem pensar e só diz disparates, coitada da gaja, e que, fatalmente, apenas ocupa o seu bestunto com o diabólico plano de conseguir meter no bolso a independência do MP, bolça o infeliz. Só possível, esta rancorosa e grotesca visão, quando a inenarrável estupidez do bronco supera a soma de todas as protecções morais que a sua consciência lhe oferece por automatismo genético.

Axioma do Monteiro: “Tendo um poleiro na comunicação social, e calhando não suportarmos a superioridade intelectual e a exemplaridade cívica de alguém, estamos autorizados a recorrer à pesporrência canalha para nos desforrarmos do complexo de inferioridade assanhado na sofrida comparação“.

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O conjunto destes axiomas permite identificar um superaxioma do Monteiro: “Quando se vai para o Parlamento fazer queixinhas aos deputados por causa de um telefonema que durou 90 minutos – mais ou menos hora e meia de paleio livre e privado, portanto – é natural, obrigatório e honesto assumir o que se é: «Sou do género estúpido.»”

Pedrada no charco

Rui Rio já tinha surpreendido, com perfume de escândalo, quando em campanha eleitoral para o PSD teve a ousadia de criticar o actual mandato de Joana Marques Vidal. As suas palavras causaram temor e tremor no laranjal por serem absolutamente contrárias à cultura decadente da actual direita portuguesa. Nessa decadência, Sócrates é uma obsessão diária (horária?) não só por razões ligadas à vingança oligárquica em curso, não só por motivos relativos à antropologia tribal e seus fenómenos de diabolização dos adversários em ordem a serem destituídos de humanidade e violentados sem qualquer limite, mas também, e profundamente, e essencialmente, porque os decadentes são decadentes por terem reduzido a política à conquista do poder pelo poder, para tal valendo tudo no manual da baixa política. Logo, não têm ideias de interesse comunitário nem valorizam a inteligência construtiva, basta-lhes o consolo de possuírem um troféu magnífico chamado Sócrates para exibir em parada e ir torturando e achincalhando com paixão maníaca. Daí terem pegado em armas, desvairados, na intenção de entronizar vitaliciamente a santa Joana, a heroína que lhes corre nas veias.

Com a escolha de Elina Fraga para vice-presidente do PSD, Rio fez uma outra coisa que já não se consegue descrever apenas recorrendo aos vocábulos “surpresa” e “escândalo”. Talvez indo buscar “shock and awe” nos aproximemos, embora quem melhor conseguiu até agora traduzir conceptualmente o que está em causa tenha sido Paula Teixeira da Cruz: “chama-se traição“. E de facto, pelo menos esse facalhão no lombo dos pulhas está garantido. Só que se trata de uma traição àqueles que atraiçoaram os fundadores do partido, que atraiçoaram os valores da decência e da lei democrática, e que atraiçoam constantemente a sua honra ao se submeterem voluntariamente à degradação última: transformarem a sua palavra na realização da sua miséria. Seja lá o que for que Rio tenha pretendido alcançar com a decisão, ela fica absolutamente original; seja no plano do seu trajecto político individual, seja no plano do ecossistema da direita dos últimos 14 anos.

Fraga chega aqui depois de ter cometido o crime de ter falado em defesa do Estado de direito a propósito da “Operação Marquês”, entre outras avarias fonte de asco para os fanáticos do empobrecimento e do castigo aos piegas e madraços instalados na sua zona de conforto. O ódio não lhe perdoa ter tentado apelar aos princípios constitucionais perante um linchamento institucional e mediático em curso. Acresce a este cadastro o ser mulher, saber do que fala e não ter especial gosto em passar despercebida. Vai ser o bombo da festa da pasquinagem – precisamente porque promete ser uma translúcida fonte de dignidade e coragem no charco degradante em que se encontra a direita nacional.

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Governo Sombra, três à esquina a tocar a concertina

Cada vez mais sintonizado com os seus colegas de direita, Ricardo Araújo Pereira dá repetidamente espectáculos decadentes no painel das sextas à noite da TVI24. Não só tem um discurso enrodilhado, do qual acaba por se extrair muito pouco, normalmente uma ideia mínima e apenas centrada na extracção de uma gargalhada fácil do público e no excessivo respeito pelos seus colegas, como também em temas como Passos Coelho ou José Sócrates (este uma constante, se não o motivo, do programa, perdão, da pândega) consegue ultrapassar largamente o que seria expectável do seu colega Tavares, no primeiro caso pouco vendo para apontar de negativo, apenas sussurrando umas palavrinhas em que se consegue entender “mandar pessoas emigrar” e pouco mais, como se Pedro Passos no governo não fosse um manancial de incompetências, mentiras, erros crassos, políticos ou de previsão, cenas caricatas, afrontas e brejeirices, e, no segundo, indo muito além do que o João Miguel poderia dizer de acusatório. Fazendo-o até parecer moderado.

 

Pois no último programa, Ricardo resolveu trazer à baila uma entrevista dada, esta semana, por Sócrates a dois jovens jornalistas de um site independente chamado “É apenas fumaça“.

 

Para fazer humor, apresentou uma montagem em que o entrevistado repete até ao enjoo a palavra “barragens”. Cómico, não acham?

Devo dizer que, apesar da montagem de efeito fácil, Ricardo tem razão quando diz que o tema das barragens ocupou demasiado tempo da entrevista e, honra lhe seja, teve o cuidado de referir que a culpa até nem foi do Sócrates, porque os rapazes estavam mesmo interessados em insistir naquele tema. Mas, portanto, em vez de se ficar por aí – ou seja, na opção bastante questionável dos entrevistadores pelo tratamento exaustivo e excessivo da matéria energética – resolve fazer uma gracinha como se Sócrates ali tivesse ido com a obsessão das barragens (eventualmente para evitar outros temas, o que não foi o caso, pois, no fim, ele até se declarou surpreendido pelo fim abrupto do interrogatório). Ora, o que irritou o Ricardo neste particular irritou qualquer pessoa que estivesse a ouvir. Também eu pensei, a páginas tantas, que já largavam aquele tema, o qual ocupa mais de meia hora em quase duas. Ora, precisamente por isso, não é de admirar que o entrevistado às tantas expluda e comece a atacar os jornalistas acusando-os de defenderem a inacção em matéria energética. Estas explosões foram, claro está, outro tema de gozo do Ricardo. Sim, a aparente cólera de Sócrates em relação aos pobres desgraçados foi algo deslocada e aconteceu algumas vezes. Mas, mais adiante, Sócrates tem o cuidado de lhes dizer que não são eles os visados directamente, mas que aquelas posições estúpidas estão ali a representar uma visão que ele rejeita liminarmente. Claro que esta referência não ajudaria à gracinha pretendida do Ricardo e é simplesmente ignorada.

A referência ao local da entrevista, que lembra ao Ricardo, se não me engano, uma arrecadação, visa também denegrir o entrevistado, pretendendo transmitir a ideia de que a Sócrates já pouco mais resta para comunicar com o público do que entrevistas em vãos de escada. Embora, note-se o paradoxo, os entrevistadores tenham sido muito elogiados pela sua coragem e preparação e até contrastados com os entrevistadores clássicos das televisões. Mas enfim, em vão de escada ou não, o Ricardo lá foi ver. Não precisava, de facto, se o objectivo era gozar com o local e a forma. E efectivamente não é certo que o Ricardo tenha ouvido sequer alguma coisa do que lá foi dito. O que foi pena.

 

Quanto à entrevista propriamente dita, que se propunha, nas palavras dos próprios autores, “questionar as decisões tomadas, responsabilizar os representantes, dar voz aos representados“, houve, de facto, a preocupação de esmiuçar certas decisões governativas, e foi, para mim, óbvio que Sócrates, com maior ou menor impaciência, acabou por esclarecer bem o que estava em causa nos diversos temas. No fim, foi também impossível não achar que faltavam perguntas. Possivelmente, os entrevistadores não tinham por objectivo esmiuçar a operação Marquês ou as relações de Sócrates com o BES ou outros temas mais quentes surgidos já depois de afastado do poder, focando-se mais nas decisões governativas. Infelizmente, porém, faltaram ou foram apenas aflorados inúmeros temas, como as estradas, as PPP, os chamados “projectos megalómanos”, as condições do resgate, etc., que ficarão talvez para uma próxima. Muito provavelmente a pedido do Ricardo. Para fazer dali uma gracinha. O Tavares esteve estranhamente reservado nesta matéria. Será porque o compincha RAP já dissera tudo o que poderia fazer rir, porque as respostas de Sócrates o calaram ou ainda porque só reagiria se os rapazes tivessem enveredado pela operação Marquês, a prova provada de que o homem é um vigarista?

O Governo Sombra conta ainda com Pedro Mexia, que também consegue ver imensas qualidades em Pedro Passos. Painel mais plural não há.

Para ser “riófilo” ou “rioista”, este Baldaia tem que ser parvo?

Rui Rio conhece bem os perigos que tem o caminho das esquerdas e sabe bem dos erros que foram cometidos pelo governo anterior, liderado pelo seu partido. De uma governação atenta às clientelas eleitorais, como a atual, e que hipoteca o futuro firmando despesa, ou uma governação excessivamente liberal que deixou para trás os mais desprotegidos, como a anterior, venha o diabo e escolha, porque atrás de uma vem sempre a outra. Tem, portanto, de haver uma alternativa ao que temos agora e ao que tivemos no passado recente.

 

De que está a falar o Baldaia, quando diz que o actual governo “hipoteca o futuro firmando despesa”? Que despesa? Baldaia não especifica. Estará a referir-se ao alegado aumento do número de funcionários públicos ou à reposição de algum do seu poder de compra? Pode ser. Provavelmente é. Mas aposto que, num próximo editorial, é bem capaz de nos estar a rosnar, perdão, a alertar para o facto de o Serviço Nacional de Saúde não dispor de pessoal médico e de enfermagem suficiente e de se estar a degradar a  cada dia que passa. Para o facto de, agora que as receitas aumentam, nada justificar que se continue a desprezar o sector da saúde (e da educação pública) como se estivéssemos sob o domínio da Troica. E acabar a chamar ao actual governo “austeritário”, ganhando quiçá um passaporte para o Observador. Também é capaz de, brevemente, nos alertar para o facto de não haver suficiente investimento público em infraestruturas; ou investimento público tout court. Enfim, uma farpa qualquer sem grande ou pequeno aprofundamento. E, já agora, no que toca a “clientelas”, qual é, qual foi e qual será o governo que não se preocupa com “as clientelas eleitorais”, também designadas «os seus eleitores» ou «a sua base de apoio eleitoral»? Muito gostaria de saber. O Rio não quer saber? Até o Pedro Passos, o pretenso indiferente aos votantes, com os seus insultos aos “preguiçosos” e portugueses em geral, mais não fazia do que apelar, com isso, àquela classe de gente adepta do “fartar vilanagem”, aqueles empresários do que é bom é pagar pouco, salários de miséria e Mercedes topo de gama à porta, e do quem não está contente que emigre. Há quem se identifique e excite com esta postura política toda ela novidade (na altura). Há, houve, muitos tansos que acharam piada. Gostaram do timbre que a acompanhava. Depois, enquanto dependentes de grunhos como esses entusiastas patrões, não gostaram de muito mais.

 

Mas o Baldaia insiste:

 

“Rio tem de saber explicar aos portugueses como se pode melhorar de vida agora sem comprometer o bem-estar futuro. “

Muito bem. E o Baldaia, não nos quer explicar já, poupando esforço ao Rio? Quem diabo estará a comprometer o bem-estar futuro e porquê, ó Baldaia? O que sugeres? Que maus resultados te atormentam?

[…]

“Regressando a Ferreira Leite e ao tempo em que um governo socialista aumentou os funcionários públicos em 2,9% para ganhar as eleições, importa recordar que a consequência desse serviço à clientela eleitoral resultou em prejuízo da própria clientela com um corte nos salários de 3,5 a 10% decidido no ano seguinte. Isto tem de ser dito com clareza a um povo e a um governo que vive como se não houvesse amanhã.”[…]

Mau. Porque exagera o Baldaia? Alguém está a viver “como se não houvesse amanhã”? E, se está, isso é mau? Repare-se como o Baldaia não se atreve sequer a utilizar o verbo “gastar”, que normalmente acompanha a referida expressão. Fica-se pelo “viver”. Contentemo-nos, pois, com a mera alegria de não estarmos a morrer como se não houvesse amanhã. Mas entretanto, estará tudo a dormir na União Europeia, no FMI, na Moody’s, na Fitch, no Eurogrupo?

Não é por nada, mas eu entendo que o director de um jornal devia ser mais objectivo do que estas afirmações cartilheiras (estou tão contemporânea) denotam. Tudo o que Baldaia aqui diz namora a sério com a parvoíce.

Como Sócrates e muitos outros já disseram e é fácil de entender, os funcionários públicos foram aumentados em 2010 – e com o apoio do PSD de Ferreira Leite – ao fim de vários anos de salários e carreiras congelados e como forma de estimular um pouco a procura numa altura de crise, uma tentativa de medida anti-cíclica, como, aliás, fora defendido pela União Europeia numa primeira fase (antes de o desastre grego vir ressuscitar as hegemonias morais). Era eleitoralista esta medida? Também era, mas não era só. Tinha outros objectivos. E os cortes que mais tarde se seguiram têm justificações igualmente fáceis de explicar. O BCE, a Alemanha, a Comissão Europeia e toda a parafernália institucional que geriu a crise do euro desencadeada em 2009 optaram, passado um ano, pelo conflito inter-êurico norte-sul, entre credores e devedores, virtuosos e pecadores, pelo garrote aos gastadores sem-vergonha, pelo “cada um por si” e pela austeridade recessiva (daí os cortes de salários) e isto durante tempo demais até o BCE decidir finalmente intervir na agonia, deixando-se de preconceitos e moralismos deslocados e suicidas e começando a comprar dívida, perante a iminência de colapso da moeda única e da própria União. Portanto, o Baldaia devia deixar-se de conversa tonta. Até porque toda a gente sabe que, caso surja nova crise internacional grave, não sendo nós a Alemanha, voltaremos a passar mal, como passarão mal os outros milhões de cidadãos da UE lá nos seus países, que, entre outras coisas, deixarão de vir até cá gastar o que agora ganham e de nos comprar o que não podem. Esteja cá o governo que estiver.

Se o Paulo gosta do Rui Rio, se gostaria de o eleger primeiro-ministro e quer aqui manifestar-lhe o seu apoio, é livre de o fazer. É o que está a fazer, aliás. Mas não deturpe nem tresleia nem maldiga as razões por detrás do sucesso actual da economia nem deixe subentendido que o que seria bom seria manter o garrote. Ao menos diga-o claramente. E prepare-se para ouvir que, nesse caso, os resultados económicos seriam outros. Outros e maus. O consumo interno, o dinamismo de muitas empresas e o consequente aumento das exportações são as peças mais lustrosas da turbina nacional actual. Que mais se pode desejar? O que há aqui a eliminar, ó Baldaia? Além disso, relativamente às despesas que apoquentam o Baldaia, lembro que funcionários públicos são também os bombeiros, os guardas florestais, os guardas prisionais, os militares, os polícias, os funcionários do SEF. Tragicamente escassos, não é?

Poder separado

São José Almeida apresenta-se desta forma no Público:

«Estagiária da fundação do PÚBLICO, integro a secção de Política. Desde 1990 acompanho a vida política com a preocupação de uma visão cultural da política. A minha prova de fogo foi o acompanhamento da dissidência do PCP de 1990 a 1994. Seguiu-se a transformação do CDS em PP. Fui repórter parlamentar entre 1995 e 2005. Editei a secção de Nacional de 2005 a 2007. Sou redactora principal desde 2007. Recebi alguns prémios de jornalismo, como o “Pela diversidade. Contra a discriminação” da Comissão Europeia, em 2009. Dos prémios, destaco o primeiro dos dois que recebi da ILGA, em 2006,atribuído por ter introduzido a defesa dos direitos de identidade de gays, lésbicas, transexuais, transgéneros e intersexuais na agenda do jornalismo político português. Desde 2005 que assino a crónica A Semana Política.»

São quase 30 anos, quiçá mais, de acompanhamento profissional da “vida política com a preocupação de uma visão cultural da política“. E que será isso da visão cultural da política, na pena da São José? Experiência, ecletismo e reconhecimento jornalístico e social é o que não lhe falta, como o resumo acima exibe. Infelizmente, a listagem não oferece qualquer pista para descodificar a expressão. Vou recorrer a um texto seu, escolhido completamente ao calhas (tanga), para o exercício hermenêutico: Interiorizar regras de conduta no Estado. Como descobriu quem o leu, estamos num terreno favorito da sua produção opinativa, o espancamento de alguém ligado ao PS, preferencialmente, ou à classe política calhando não haver socialistas para sovar. Vejamos como o faz:

– Usa o caso do abuso cometido pelo MP sobre Mário Centeno e o Ministério das Finanças – ou seja, sobre o Governo de Portugal na altura em que o seu ministro das Finanças acaba de ser eleito para um cargo de grande prestígio individual e colectivo – para criticar a vítima.

– Usa uma frase de António Costa, a qual remete para um contexto judicial único onde o primeiro-ministro já sabia que não havia qualquer matéria ilícita, para deturpar o seu sentido e mentir sobre o seu efeito.

– Usa uma situação especial para fazer um juízo genérico sobre “alguns políticos” que passa a descrever, sem factos e sem nomes, como vulgares e contumazes pré-corruptos por causa da sua falta de “ética”.

– Remata a sevícia fazendo de Mário Centeno um exemplo da epidemia de falta de ética que declara existir “em alguns políticos ao ocuparem funções de Estado por eleição ou nomeação”.

O seu artigo regista 20 partilhas e 0 comentários. Para quem efabule acerca da representatividade das “redes sociais”, estes números sugerem a residual ou nula influência do que escreveu para o espaço público, ainda menos na esfera da tal política que reclama dominar como especialista. Porém, interessa-me a sua produção individual por estar inserida na missão e posicionamento que a sua entidade patronal pretende afirmar como a “referência”. No caso, o Público valoriza quem ocupa o seu nome e difusão para espalhar o tipo de sectarismo e populismo básicos acima expostos, acabando a perverter o próprio conceito da separação de poderes – e esta última parte é a que mais importa. Ao apagar a disfuncionalidade do MP e as consequências políticas do seu erro crasso, SJA toma uma posição política. É do seu interesse político que o MP permaneça inatacável e moralmente superior ao poder executivo e legislativo, aconteça o que acontecer na PGR, façam o que fizerem os seus magistrados, inclusive cometendo crimes. Por exemplo, é impossível encontrar qualquer remoque seu às sistemáticas e dirigidas violações ao segredo de justiça, antes vendo nelas um bem ao serviço dos seus ódios políticos e perseguições fulanizadas. Esta jornalista está também cheia de pressa para queimar uns corruptos gordinhos no Terreiro do Paço, não aguentando esperar pela chatice de ver as respectivas defesas legais esgotarem os truques que esses bandidos utilizam para tentar escapar à condenação já lavrada nas parangonas dos colegas da Cofina et alia.

Quando atribui a Costa uma interferência no “poder judicial” apenas porque verbalizou que Centeno não sairia do Governo no caso de ser constituído arguido à pala dos convites solicitados ao Benfica por razões de segurança, podemos contemplar a tóxica perversão desta retórica. Obviamente, SJA não explica de que modo aquelas palavras conseguem interferir seja com o que for no domínio da Justiça. E não explica pela mais luminosa das razões: porque é impossível justificar tal atoarda. Porém, trata-se de um berro que estamos constantemente a ouvir vindo dos representantes sindicais dos magistrados e dos meios de comunicação social onde tal deturpação é explorada, agarrando em qualquer frase dita por um governante ou político cuja denotação remeta nem que seja lateralmente a temáticas relativas à Justiça para de bocarras abertas reclamarem o direito antidemocrático à impunidade. Ao carimbar o actual primeiro-ministro como alguém que “interfere” no poder judicial, a autora do delírio não está apenas a gozar com a malta, está igualmente a propagandear aquilo que se entende melhor usando o conceito de ideologia.

A noção da separação de poderes tem uma longa e gloriosa história. É triste, se não for trágico, que nos deixem acabar a escolaridade obrigatória sem sermos capazes de explicar o que está em causa nessa filosofia política que enforma e estrutura as democracias liberais em que queremos viver. Sem passarmos cognitiva e afectivamente por aí, como pode alguém compreender o sentido e avaliar a importância do que seja a democracia, a república e a constituição? Pois. Ora, na teoria da separação de poderes está evidente que o poder político, seja legislativo ou executivo, não se pode sobrepor ao poder judicial. Para garantir essa integridade, donde depende a garantia de termos os nossos direitos individuais e colectivos preservados no Estado e na sociedade, dá-se aos magistrados e às polícias poderes extraordinários para que exerçam a sua autoridade com a coerção necessária em nome da Lei. Em troca, os magistrados e as polícias obrigam-se a serem implacáveis na prevenção, descoberta e punição de qualquer desvio dos seus às responsabilidades que lhes são confiadas. Que lhes são confiadas por nós, o Soberano. E é neste Soberano, de acordo com o mesmo princípio fundador da comunidade, que radica todo o poder político dos ramos legislativo e executivo do Estado. Se perguntarmos à senhora Almeida qual a sua opinião a respeito deste parágrafo obteremos uma concordância sem hesitações.

Eis então que entra em cena o paleio de que os políticos são todos corruptos, ou de que o Estado está infestado e carcomido pela corrupção, que os poderosos são todos uns facínoras que nunca são apanhados e que os políticos corruptos, esses que não gramamos, quando estão no poder igualmente corrompem a Justiça. Em Portugal, esta cassete começou a ser tocada oficialmente pelo PSD, CDS e Presidente da República a partir de 2007, num contexto em que o PS tinha obtido a sua primeira maioria absoluta, que o primeiro-ministro da altura prometia repetir a façanha e que o império bancário da direita estava a ruir por erros próprios e pela crise mundial já em andamento. Mais de 10 anos depois, e após ter existido uma ministra da Justiça que à descarada usou matérias judiciais para atacar adversários políticos, continuamos a assistir ao desenvolvimento dessa estratégia de tomada do poder, agora igualmente protagonizada por uma procuradora-geral da República que aceita o culto de personalidade em que desembocou a judicialização da política e a politização da Justiça começadas logo em 2004 com a montagem do processo Freeport por quadros partidários em conluio com elementos das polícias. Sobre estes factos a senhora Almeida nada quer dizer. Com esse silêncio, e com os ataques sistemáticos à classe política em nome de uma “ética” que não define nem pratica, propaga a ideia de que o poder judicial é superior em legitimidade e alcance ao poder político executivo, explicitamente, e legislativo, tacitamente. Tão superior que fica isento de sindicância, reproduzindo o sistema corporativo salazarista como se fosse uma câmara altíssima do regime. Esta é uma ideologia informe e insidiosa, a qual reclama para os magistrados e as polícias um poder efectivamente político no seu intento de se querer imiscuir na governação e na autoria das leis através da opacidade e arbítrio da sua acção judicial – tudo embrulhado nas bandeiras da “limpeza”, da “ética”, dos “puros” contra os porcos dos políticos. A “visão cultural da política” de que SJA é teórica parece-se muito, pois, com o regime fascista e seus tribunais plenários.

Em suma, o constante ataque à classe política que é típico da imprensa livre adquire pela boca e acção dos magistrados uma intenção autoritária que diminui, viola e anula a nossa soberania. Ao usarem ao serviço de agendas partidárias, corporativas ou marginais os poderosíssimos instrumentos que lhes damos exclusivamente para nos protegerem, os magistrados do MP e da judicatura estão a reclamar a posse de um poder separado. Separado do bem comum. Separado da democracia. Separado da liberdade.

Marcelo, um católico 2.0

Espanta-me a falta de curiosidade dos nossos jornalistas. De todos os que costumam seguir o nosso Presidente para todo o lado, aparentemente, nem um se lembrou de lhe perguntar o que pensa acerca do conselho do cardeal patriarca aos católicos recasados. Mas espanta-me ainda mais que o próprio não se tenha pronunciado de livre vontade. É que para além de ser católico, tudo indica que não só concorda como pratica os ensinamentos de D. Manuel Clemente.

Depois de uma semana a ser brindado com mimos de toda a espécie, aposto que o cardeal não se teria importado de receber um pouco do afecto que o seu amigo tem para dar e vender a toda a gente.

Vive la différence

Para além dos excelentes resultados económicos, sociais e culturais – portanto, políticos no sentido mais fundo e mais alto – da actual solução de Governo, o melhor que poderia acontecer para a saúde e vitalidade do sistema partidário – portanto, do regime – seria que BE e PCP fossem intransigentes nas suas diferenças face ao PS e que as levassem a votos em 2019 da forma mais clara possível.

Europa, legislação laboral, não sei quê do não sei quantos? Bute, deixemos o Soberano escolher em liberdade. E depois que se repita aquilo que está a deixar a direita decadente completamente desesperada. Por enquanto, esta direita da Cofina, do Sol, da Impresa e dos jornalistas fanáticos ou cínicos um pouco por todo o lado ainda vai tendo o Sócrates a que se agarrar. Mas até esse tronco flutuante acabará por se afundar. Que lhes restará, aos decadentes, depois de décadas alimentados pela papinha de poderem contar diariamente com o ódio sectário da esquerda ao PS? Terão de dar lugar a uma direita decente e corajosa, algo que só se encontra naqueles que foram corridos ou abandonaram a súcia que domina PSD e CDS desde finais dos anos 80.

A partir de 24 de Novembro de 2015, Portugal, finalmente, começou a cumprir em plenitude partidária as promessas de Abril. Não por estarmos todos de acordo uns com os outros, mas por alguns até então arredados da responsabilidade democrática terem aceitado que as diferenças não têm de ser fatalmente um palco de destruição – igualmente, e comunitariamente, e inteligentemente, podem ser a suprema fonte da criação.

Em cada populista-justiceiro, um tirano sem exército

O caso de Armindo Castro, condenado a 20 anos de prisão em 2013 e absolvido em 2018, depois de passar dois anos e meio na cadeia, lembra imediatamente a série The Confession Tapes. De acordo com o seu relato, a Polícia Judiciária terá manipulado a reconstituição do crime ocorrida sem a presença do seu advogado e o tribunal papou a versão marada. A série da Netflix é precisamente sobre casos análogos e a respectiva complexidade psicológica na origem das declarações que os suspeitos fazem nessas situações, as quais são usadas pelas autoridades para montar uma acusação e obter uma condenação.

Não temos forma de saber se este ex-condenado disse a verdade quando terá, seja lá de que forma fosse, admitido ser o autor do assassinato da sua tia ou se a diz agora quando declara ter sido coagido por vários factores a mentir durante a primeira investigação. Não temos nem temos de ter. Do que precisamos é de olhar para a Justiça e verificar se erra, e onde, e porquê, e que faz para reparar o erro. No caso, a Justiça reconheceu o gravíssimo erro e reparou parte dos prejuízos causados. Porém, nada sabemos (ou nada sei) do que se fez ou vai fazer em relação às causas desse erro e às suas consequências danosas para a vítima.

Temos é neste inaudito episódio judicial ocasião para várias aprendizagens cívicas, assim a comunicação social o explorasse. Podia-se começar logo pela exaltação do papel dos advogados. Ver os advogados como especialistas em direitos que estão ao serviço da liberdade individual e colectiva, os quais representam uma dimensão estruturante do regime onde queremos viver: o princípio da irredutível liberdade individual que deve ser defendido em exacta igualdade com o princípio da soberania do Estado. Para tal não precisamos de difamar, muito menos diabolizar, os agentes da Judiciária envolvidos na tal reconstituição – aliás, seria da maior importância poder conhecer publicamente a sua versão e recolher as suas opiniões precisamente a respeito da importância dos advogados ao longo das diferentes fases e procedimentos das investigações policiais. Depois, podíamos olhar para o Tribunal de Famalicão na procura do entendimento do que leva um conjunto de especialistas em Direito e sua aplicação prática a partir dos códigos legais a cometer tão clamorosa disfunção. Qualquer ensinamento recolhido seria fundamental para tentar evitar futuros erros. Finalmente, a produção de um discurso público onde se celebre a correcção da Justiça, a par do reconhecimento da sua fragilidade por ser sempre um exercício interpretativo sujeito a falhas imprevistas ou intencionais, estaria ao serviço da educação para a democracia, para a decência, para a identidade comunitária, para a participação cívica e para a liberdade. Em suma, para a coragem política, a fonte onde a Justiça vai buscar a sua essência e destino.

A vaga do actual populismo justicialista apaga a complexidade da elaboração e concretização da Lei, a complexidade de qualquer investigação judicial onde a “verdade” é sempre uma aproximação a uma narrativa sustentada por factos e pela lógica, pois tal consciência das limitações e deturpações da vontade e intelecto humanos não é compatível com a redução ao maniqueísmo tribal e alucinado onde a “justiça” se resume à condenação na praça pública através do sensacionalismo e do crime. Os que ganham dinheiro e influência política por serem profissionais da calúnia e do ódio usam a turbamulta ignara para a produção de linchamentos dirigidos a alvos selectos. Para além da sua agenda política, óbvia e que eles são os primeiros a assumir, um dos efeitos do seu poder é a instauração de uma estupidez maciça onde os infelizes apanhados nessa rede já nem são capazes de perceber que sem o Estado de direito democrático – e sua magnífica e tremenda complexidade – o Armindo Castro teria sido enforcado num pinheiro em 2012. E que não teria sido o primeiro nem o último, ficando cada um de nós e aqueles que amamos sujeitos à lei do mais forte. A lei dos tiranos e dos justiceiros de pistola à cintura, corda numa mão e capa de jornal ao gosto do povinho abrutalhado na outra.

Revolution through evolution

#MeToo Movement Only the Beginning
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Want to Help Your Partner Stress Less? Listen From the Heart
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A majority of middle-aged people show a high level of mental well-being
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Spatial skills higher among those who played with construction-based toys and video games in childhood
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Bilingualism could offset brain changes in Alzheimer’s
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Queen’s Research Suggests the Sicilian Mafia Arose to Power From Lemon Sales in the 1800s
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Serviço público

«O descaramento já atingiu tal ponto que, na semana passada, a revista “Sábado” não só se dava ao luxo de tranquilamente transcrever largas passagens do interrogatório do juiz Carlos Alexandre a Paulo Santana Lopes e José Veiga, visando implicar o juiz Rui Rangel, como também chegava ao ponto de comentar os apartes de Carlos Alexandre, deste género: “Bem ao seu estilo, Carlos Alexandre não resistiu a desabafar…”. Se tamanha intimidade relativamente a uma peça teoricamente alvo do chamado “segredo de justiça” já dá muito que pensar, que dizer do facto de um jornalista da revista, aparentemente acompanhado de um fotógrafo, ter andado a seguir os últimos cinco dias de Rui Rangel, antes de ser despoletada a ‘Operação Lex’, fotografando-o a sair de casa, a entrar no Tribunal da Relação, a sair para um jogo de futebol com amigos, a embarcar no carro na garagem do condomínio, etc.? A PJ ou o MP agora fazem vigilâncias a suspeitos em conjunto com jornalistas da Cofina ou fornecem-lhes “em exclusivo” o material dessas vigilâncias? Independentemente dos suspeitos em causa, com quem eu não gastaria um jantar (mas isso não vem ao caso), muito gostaria de saber se o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, o director nacional da PJ, a PGR, o Conselho Superior do Ministério Público, não acham seu dever dizer uma palavrinha sobre o assunto? Ou já nada os envergonha? E, se já nada os envergonha, o que devemos esperar a seguir?»

Quem se atreve?

Anomia para o povo

No último Expresso da Meia-Noite a minha ingenuidade ficou estarrecida ao ser testemunha do seguinte diálogo, algures no minuto 14:

Miguel Sousa TavaresEu acho que não vale a pena ter crimes punidos por lei e cuja punição nunca se verifica.

José GóisE há uns quantos no Código Penal relativamente aos quais isso acontece.

Miguel Sousa TavaresPois há, pois há…

José GóisAliás, há vários!

Podemos ver que o procurador se fica a rir depois da revelação, a que se junta na risota o enorme Bernardo Ferrão (ou talvez ao contrário). Ambos felizes da vida porque, como um procurador e um reputado jornalista afiançam, há leis que estão inscritas no Código Penal sem carência de serem cumpridas. Pois bem, provavelmente justifica-se a gargalhada, a começar no Ministério Público que de há muito se aproveita à grande e à portuguesa desse segredo, mas então que haja alguém a fazer a lista do maná penal para comermos todos posto que já não há moral nem Estado de direito.

Apesar de estarem dois jornalistas a moderar o programa, apesar desse programa ser exclusivo de um canal especialista em jornalismo, apesar de ser literalmente incrível ouvir de um procurador que há um conjunto de leis à disposição do cidadão para serem violadas sem que qualquer autoridade exerça qualquer tipo de fiscalização ou punição, o assunto não foi explorado, sequer detalhado. Aqueles jornalistas responsáveis pelo programa ou não deram importância ao assunto ou preferiram não dar importância ao assunto, terceira hipótese excluída.

Acho muito injusto que apenas a indústria da calúnia e os magistrados criminosos do MP e da judicatura chafurdem na anomia. Por favor, haja quem consiga elencar as leis que servem tão-só para enfeitar o Código Penal. E rapidinho.

Perguntas simples

Se Marcelo não tivesse encerrado o caso Centeno quando declarou na quinta-feira passada (i) “Não me tenho pronunciado por uma razão muito simples: porque não há matéria para me pronunciar” + (ii) “Entendo que não há uma questão política que justifique que o Presidente se pronuncie sobre ele” + (iii) “Eu tenho acompanhado os factos, todos os dias, e olhando para os factos tal como eles se configuram hoje – desde o primeiro dia, mas até hoje – eu não encontro matéria politicamente justificativa de uma pronúncia do Presidente da República.“, quanto tempo mais demoraria a Procuradoria-Geral a arquivar o inquérito? Mais uma semana, duas, para assim ir alimentando a pasquinagem e a baixa política?

Cabrões do pior

Daniel Oliveira, no último Eixo do Mal, satirizava sobre a eventualidade de termos um juiz a pertencer à Associação Sindical dos Juízes Portugueses e, simultaneamente, a julgar os acusados num processo iniciado pela própria ASJP. Acontece que o Daniel chegou a essa perplexidade com muitos anos de atraso. Para que a ASJP pudesse concretizar o inaudito e soez ataque ao XVIII Governo Constitucional de Portugal, em 2012, foram antes proferidos cinco Acórdãos, total ou parcialmente favoráveis à ASJP, do Supremo Tribunal Administrativo e do Tribunal Central Administrativo Sul, os quais condenaram o Governo a fornecer os documentos em causa sob a apatia ou gozo do regime perante tão indigno espectáculo. Logo, é fazer as contas ao número de juízes que já usaram os poderes dos seus tribunais, da República e da Constituição para servirem os interesses sectários do seu sindicato contra o interesse nacional, nada os impedindo de repetir a façanha no futuro. Em causa está a Lei 46/2007, a qual fica com jurisprudência feita para ser aplicada por quem e quando se quiser para os mesmos efeitos.

Há duas maneiras de resumir esta história:
i) Em finais de 2010, a ASJP decidiu obrigar judicialmente o Governo de então a entregar-lhe os registos de despesas de todos os ministérios recorrendo ao argumento do direito de acesso. Em causa estava a utilização de cartões de crédito, despesas com telefones fixos e móveis, o pagamento de despesas de representação e de subsídios de residência por parte dos seus membros – ministros, secretários de Estado e chefes de gabinete. Em princípios de 2012, a ASJP enviou para o Ministério Público a informação coligida alegando existirem indícios de ilegalidades. Em 2018, o MP acusou de peculato os ex-secretários de Estado José Magalhães e Conde Rodrigues. Foi um sucesso.

ii) Em finais de 2010, um Governo minoritário a sofrer os efeitos da crise económica mundial e da crise das dívidas soberanas na Europa, estando há um ano a ser boicotado pela oposição maioritária no Parlamento e pelo Presidente da República, estava obrigado a fazer ainda mais e mais extensos cortes nas despesas do Estado do que aqueles que já tinha feito no Orçamento anterior. Um grupo atingido por esses cortes seria o dos magistrados judiciais, os quais decidiram chantagear e caluniar o Governo como um todo numa retaliação nunca antes vista na História de Portugal. Face à firmeza do Governo, os juízes obrigaram judicialmente os ministérios a entregarem os documentos em causa. Após a sua recepção, a ASJP lançou um processo genérico contra o Governo, o qual foi aceite pelo Ministério Público cujo procurador-geral da República era Pinto Monteiro. Seis anos depois, com um custo desconhecido tanto para o MP como para os indivíduos visados, saiu uma acusação que identifica dois suspeitos de possível peculato envolvendo livros e revistas, numa soma de perto de 14 mil euros num dos casos e perto de 400 euros no outro. Foi uma canalhice estroina.

Quantas vezes 14 mil euros mais 400 euros foram derretidos pelo Estado só para concluir que das dezenas e dezenas de pessoas investigadas nem uma ultrapassou o limite de crédito atribuído ao seu cartão ou à verba para despesas no gabinete respectivo e que apenas em duas foi possível descobrir matéria para uma acusação pífia? Pífia não no domínio da legalidade, competindo aos tribunais o desfecho desses processos, mas no domínio político e moral onde nasceu, medrou e atingiu o seu destino exuberante como arma de arremesso contra o PS e personalidades socialistas esta difamação por atacado a mando dos juízes portugueses. Sintoma da azia e dolorosa frustração perante o resultado de uma investigação populista nunca antes feita a qualquer Executivo português, nessa coqueluche da indústria da calúnia que é o Governo Sombra não se falou no assunto na passada sexta-feira. Não encontraram pilhéria na descoberta de que os governantes socialistas só mostram ter o vício da compra de livros e revistas, como os compreendemos aos três tristes sicofantas. E também não queriam ter de reconhecer que existiu um Governo em Portugal, liderado por Sócrates, que fica como um exemplo de probidade e motivo de orgulho para a Nação – felizes dos cidadãos cujos governantes até arriscam ir de cana por causa do seu amor à leitura.

A ASJP guarda carinhosamente um texto que é igualmente o contexto e o pretexto do que estava em causa neste abjecto processo: As despesas secretas dos ministros. Trata-se de um editorial da revista Sábado que merece ser lido para percebermos o que pretende esta tão poderosa força na sociedade portuguesa chamada Cofina. Em conluio com magistrados judiciais e do Ministério Público, cometendo sistemáticos crimes que passam completamente impunes, a torpe aliança pretende condicionar e perverter o exercício do poder político democrático. O último parágrafo é hilariante, com o taralhouco que escreveu a peça a protestar contra a água engarrafada no Parlamento. Se fosse ele a mandar, a água seria só da torneira e a Assembleia da República mudaria para uma tenda algures num arrabalde, os deputados passavam a sentar-se em cadeiras de plástico e iam mijar à mata.

Sabemos o que pretendem os que alimentam o ódio aos políticos legitimamente eleitos, os que exploram a iliteracia e desespero da multidão, os que desprezam o Estado de direito, os que fazem da calúnia e do medo a sua estratégia de poder. E que, supina pulhice, embrulham a sua violência na rábula de passarem por arautos da moral e da lei. São mil vezes mais nefandos do que aqueles que apenas nos querem roubar.