Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

A pergunta que não fizeram a Francisco Assis

Na entrevista que hoje dá ao DN, Assis reafirma basicamente que não se identifica com a aliança de governo feita pelo PS após as últimas eleições. Já sabíamos. Possivelmente o que interessava aos entrevistadores era essa reafirmação, sem mais, pois a entrevista não é longa. E também a opinião, de imediato destacada, de que Passos “não é um neoliberal” (matéria que não é desenvolvida, hélas). Passos, de facto, não é nem deixa de ser coisa alguma substancial. É uma nulidade apoiada por neoliberais e por calculistas eleitorais, imaginando-o eu mais facilmente a ir tomar copos com estes últimos em pé de igualdade. Assis embrulha-se um bocado quando diz que Passos também não é social-democrata. Pois é. Se optasse pela nulidade sair-se-ia melhor. Mas a pergunta que importava fazer-lhe e não fizeram e que eu gostaria muito de ver respondida é a seguinte: o que propunha Assis após o resultado das últimas eleições? O cinismo de um governo minoritário de direita (Assis esquece a devastação e a frieza dos últimos quatro anos), derrubável na altura oportuna? Qual? Uma coligação com esta nulidade nem neoliberal nem social-democrata? Para quê? Partilha da opinião da direita de que não havia alternativa?

 

Mas podiam ainda ter-lhe feito outra pergunta: já que coloca na «fila dos burros» os dois partidos da extrema-esquerda, não acha que, por mais pequena que seja, a aproximação desses partidos às lides da governação lhes poderá curar muitas das utopias, sendo uma oportunidade para repensarem o seu papel na democracia? Aqui até seria fácil desenvolver um provável «não, não acho». Mas perguntas destas nunca são feitas.

Passos, perdido, negando citações: confirmando tudo.

No debate quinzenal de hoje, o primeiro-ministro citou a célebre entrevista dada por Passos Coelho na qual este afirmou só vamos sair da crise empobrecendo.

Passos Coelho, indignado, negou o dito. O problema não é, realmente, ter afirmado a frase brutal, o que realmente aconteceu, de resto mais do que uma vez. O problema é a frase resultar de uma prática ideológica dentro e fora das fronteiras, que levou ao recuo de décadas em matéria de desemprego, de investimento, de pobreza e de emigração.

Não por acaso, no mesmo debate, criticou a postura de António Costa aquando da sua deslocação à Grécia. Uma deslocação construtiva, contrária à postura de Passos Coelho, quando este era primeiro-ministro. Então, tudo fazia, junto das instituições europeias, para afundar o mais que pudesse a situação do povo grego, apenas para seu ganho político: esse de poder dizer que havia um país com pior execução orçamental do que Portugal.

Passos Coelho pode tentar negar o que disse. É inútil, porque disse o que se cita e porque não faria sentido não ter dito o que espelha a sua a ação governativa. No seu desespero atual de tentar continuar a colar com cola fora de prazo a ideia de que os horrores de Portugal se devem a 2011, tem um povo inteiro como que suspenso na sua memória coletiva por 4 anos.

Os portugueses sabem que a devastação social fruto de uma política escolhida de austeridade expansionista, a que agora se põe fim, agravou todas as consequências da crise económica internacional de 2008.

Os portugueses sabem que o governo de Passos Coelho não executou o programa da Troika. Não: o seu Governo, usou-o como pretexto para a viragem ideológica do PSD para um extremismo ideológico caído no liberalismo selvagem já anunciado antes de Passos ser primeiro-ministro e agora de uma evidência que impressiona.

As suas frases são, por isso, não só reais, mas cheias de consequências. O povo português ouviu Passos Coelho, antes das eleições, a afirmar que o programa eleitoral ia muito além do memorando. Os pobres ouviram Passos Coelho a afirmar que os mais pobres não foram afetados por cortes. Os pensionistas e os funcionários públicos ouviram o mesmo. Os portugueses ouviram Passos Coelho a afirmar, no contexto da educação, para não sermos piegas e ter pena dos alunos, coitadinhos. Os desempregados ouviram Passos Coelho a afirmar que o desemprego pode ser uma oportunidade. Todas e todos nós ouvimos Passos Coelho a prometer que não aumentaria impostos.

 

Faz mal, em face de tanta compilação de frases, Passos Coelho dedicar um minuto que seja num debate quinzenal a desmentir uma citação que seja, porque isso é sempre dar uma oportunidade ao país de ouvir Passos a tentar apagar 4 anos de um governo inédito.

 

Cada uma das frases é verdadeira e teve a consequência conhecida. Passos, o obediente feliz em Bruxelas, foi para além, do memorando, nomeadamente em matéria de privatizações, corte de pensões, de reformas, em de direitos laborais ou de prestações sociais.

Passos, o obediente feliz em Bruxelas, esmagou os mais pobres com a sua política, assim como a classe média, ao nível das pensões, dos salários ou do corte das prestações sociais mais eficazes ao combate à pobreza.

Passos, o obediente feliz em Bruxelas, disparou ideologicamente contra a escola pública e o ensino superior, humilhou alunos com exames inúteis e estigmatizantes.

Passos, o obediente feliz em Bruxelas alterou o Código do Trabalho sem que memorando algum o obrigasse a tal, promoveu o desemprego sem direitos, apelou à emigração, apresentou-nos todo um país de falsos recibos verdes e de falso emprego.

Tudo isto, dizendo que vivíamos acima das nossas possibilidades.

Aqui teve razão. Vivemos. Muito acima. Um povo que podia ter tido outro caminho foi um laboratório para viver acima das possibilidades de respirar.

É, pois, normal que Passos continue de lapela no casaco.

Não tem oposição a apresentar.

É o que lhe resta.

 

Trocadilhopatia

«Nenhuma história é só uma história. Nenhum homem é só um homem, no todo inapreensível maior que os despojos da sua fragmentação. Seguir pegadas é imaginar passadas, no esforço impossível de reconstituir sem reconstruir.

O rasto é o que resta de quem passou mas não é o resto que dele precisamos. Somos investigadores do passado, somos detetives do futuro, somos jornalistas da nossa própria espécie. Este texto é sobre Vítor Baptista mas não é. É sobre jornalismo mas não é. É também sobre quem somos depois de outros, os que deixamos, os que nos deixam. Cada um de nós, intersecção infinita de quem passa e de quem fica.»


Os maiores

Favor não comprar a revista Sábado

Agora já está. Já paguei. Mas, se algum dos leitores está a pensar comprar a revista Sábado desta semana por causa do Sócrates, fique desde já a saber que basta mesmo ler a capa para saber as novidades, que são as seguintes: Sócrates era referido como  “Chefe” pelos primos – umas pessoas que têm negócios no Brasil e em Angola – e foi ao casamento de um deles, acompanhado dos filhos. Oito páginas. É obra.

Nesta fase do campeonato, pede-se aos senhores jornalistas que digam coisas com mais substância ou que se calem.

Alguém me explica que resposta é esta?

“Desiludam-se aqueles que pensam que o Presidente da República vai dar um passo sequer para provocar instabilidade neste ciclo que vai até às autárquicas. Depois das autárquicas, veremos o que é que se passa. Mas o ideal para Portugal, neste momento, é que o governo dure e tenha sucesso”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

O Presidente da República respondia a perguntas dos jornalistas sobre as relações com o primeiro-ministro, no final de uma visita ao Exército, no Regimento de Comandos, Amadora.

Apesar de ter depois corrigido a primeira declaração de maquinação com repetidas afirmações de desejo de estabilidade em toda a legislatura (ver o resto da notícia), Marcelo Rebelo de Sousa não deixou de aludir aos superpoderes de que se considera imbuído, incluindo o de provocar instabilidade noutro momento que não este, consoante lhe aprouver. Deus nos livre de deus, que, neste caso, já foi um simpático, superficial e inconsequente comentador político.

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Why Is Female Sexuality More Flexible Than Male Sexuality?
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“Women Talk More Than Men… And Other Myths about Language Explained.”
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What foods can help fight the risk of chronic inflammation?
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Study: Regular Exercise at Any Age Might Stave Off Alzheimer’s
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Doctors don’t die differently than anyone else, researchers say
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To operate or not to operate: Serious question with no clear answers
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Low salt diets not beneficial: Global study finds
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Poeira que já cegou

Passos Coelho, que a muito custo deixa o estado de estupor catatónico em que mergulhou após as últimas eleições, decidiu que nada mais lhe restava perante o partido do que retomar a azáfama da antiga campanha de mentiras, confiante de que ninguém dá (mais uma vez) por nada. Ontem já o ouvi nas televisões e rádios, algures longe de Lisboa, a dizer que este governo destruiu quase 60 000 empregos desde novembro, com a precisão de que 48 000 foram este ano e os restantes no ano passado. Ou seja, que Costa tomou posse e, mal a tinta da sua assinatura secou, começaram as empresas a despedir pessoal. Certo? Errado. Eis a verdade, reposta por Nicolau Santos no Expresso:

A partir de 2014, a taxa de desemprego em Portugal começou a cair aceleramente, de um pico de superior a 17% no último trimestre de 2013. A economia, contudo, crescia agonicamente, longe dos 2% que, historicamente, são necessários para haver criação líquida de emprego. De onde vinha então a queda acentuada do desemprego? Pois, agora sabe-se: vinha dos “ocupados”, pessoas considerados pelo IEFP como alguém inscrito no centro de emprego e integrado num programa de emprego ou de formação profissional. Eram 30 mil mo final de 2011, 78 mil no começo de 2013 e atingiram um pico de 174 mil em meados de 2015. Como grande parte destes “ocupados” são considerados empregados, a taxa de desemprego descia. Agora que os apoios para essas ações diminuíram devido ao final do anterior quadro comunitário de apoio, o desemprego está a subir“.

Aos 59 anos, Louçã descobre o que é a imprensa portuguesa

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O Correio da Manhã torna-se participante num processo judicial para assim criar as notícias de que quer fazer manchete – qual é então o limite? Uma ex-assessora de Passos Coelho é contratada pelo Diabo, um jornal que pensava que já não existia, para escrever intriga contra a esquerda – e qual é o limite? O Sol, jornal de donos angolanos, escolhe destacar uma fantasmagórica “tensão dentro do PS” a propósito do debate parlamentar sobre a prisão de Luaty Beirão e dos seus camaradas – e qual é o limite? A Sábado vai buscar a amargurada zanga de um académico, entretanto desaparecido, para tentar criar quinze anos depois um incidente com um ministro porque ele é ministro – qual é o limite? A resposta é que não há limite. Claro que, nestes quatro exemplos, se trata de imprensa especializada que agencia interesses particulares.

[...]

A outra consequência é que, assim, terminada a notícia (ou prolongada agonicamente para ocupar tempo, o que tão frequentemente vemos na televisão: o Benfica ganhou e é uma hora de telejornal, o avião despenhou-se e é meia hora de informação sobre o facto de não termos informação, etc.), só resta ao jornalista ser um comentador e daí a tentação óbvia de se tornar o juiz, o que apimenta a análise com a sentença. As “setas” com que os jornalistas classificam os actos políticos ou sociais são um exemplo dessa assunção do poder punitivo, mas existem outras formas de o exibir, aliás cada vez mais banalizadas: quando o editorial determina que tal acção partidária é uma “estupidez” ou que tal político é um “fracassado”, quando um jornalista decreta que tal partido “não se leva a sério” (poderá ele algum dia entrevistar um dirigente desse partido?), chegamos ao ponto de não retorno, em que órgãos de comunicação social, anteriormente chamados de “referência” pela sua observação de regras profissionais, se aproximam de uma câmara política e mesmo por vezes partidarizada.

[...]

Um dos riscos de degradação da comunicação social

Perguntas simples

Não é uma beleza, e um paradigma de decência por parte da imprensa e sua legião de caluniadores profissionais, esta coisa de vermos Miguel Macedo ir a tribunal acusado de três crimes de prevaricação de titular de cargo político e um de tráfico de influência e tal não ter sequer salpicado uma gotícula de suspeição, ou mero desprestígio, para o seu primeiro-ministro ao tempo?

A calúnia compensa

[…]

A adaptação da plataforma informática Citius ao novo modelo de organização dos tribunais de primeira instância correu de tal forma mal que paralisou grande parte da actividade judiciária entre Setembro e Novembro desse ano, tendo a ministra assegurado publicamente que só havia avançado com a reforma porque os serviços lhe haviam dado todas as garantias de que o sistema estava preparado para a transição. Na sequência do colapso, foi feito um relatório interno sobre o sucedido que Paula Teixeira da Cruz reencaminhou para a Procuradoria-Geral da República (PGR), para eventual abertura de inquérito-crime por suspeitas de sabotagem informática.

Entretanto, começaram a ser publicadas em vários órgãos de comunicação social notícias que apontavam como suspeitos do sucedido dois membros da Polícia Judiciária que se encontravam a trabalhar no organismo do Ministério da Justiça responsável pelo Citius, Hugo Tavares e Paulo Queirós. O Ministério Público acabou por arquivar o inquérito que desencadeou por sugestão da ministra escassas duas semanas depois de o ter aberto, por falta de indícios de sabotagem informática. Mas Hugo Tavares e Paulo Queirós resolveram processar Paula Teixeira da Cruz por denúncia caluniosa.

Alegaram que, para se eximir às suas responsabilidades políticas no caso do crash informático, de modo a conseguir manter-se no cargo, a governante ou alguém por ela promoveu “fugas de informação cirúrgicas construídas à volta de uma suposta sabotagem”. A sua queixa foi arquivada por o despacho que a governante enviou para a PGR acompanhado do relatório interno não indicar ninguém como suspeito. Recusada foi também mais tarde aos queixosos a abertura de instrução do processo. Foi desta última decisão que Hugo Tavares e Paulo Queirós recorreram para o Tribunal da Relação, que no final do mês passado entendeu, tal como já tinha feito um juiz de instrução, não existirem factos concretos na queixa que pudessem configurar o crime de denúncia caluniosa.


[…]

Ex-ministra ilibada de calúnia durante crash informático dos tribunais

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The Juliet Effect: Real reason why your mom and your sister don’t like your ‘hunky’ boyfriend
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Emotions in the age of Botox
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Digital media may be changing how you think
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‘We are ‘informavores’ as much as we are omnivores, say researchers
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Reading an opponent’s face gives the edge in martial arts
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First graders can analyze stories like experts
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Are Italians or Swedes More Likely to Cheat on Their Taxes?
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Perorando para os homens e mulheres preocupados com a gestação de substituição

  1. Não estamos a inventar a roda. Há países em que tal prática é regulamentada, existindo contratos-modelo que acautelam as mais variadas situações, incluindo as mudanças de opinião e os abortos, espontâneos ou provocados (ler um Pedro Tadeu preocupado, no DN). Haver pagamentos envolvidos não me repugna e considero até essa condição mais justa, pois introduz clareza e segurança para todas as partes. Nos Estados Unidos, por exemplo, os diferentes Estados têm legislação diferente ou nenhuma legislação. Depende. A situação no Illinois, um Estado favorável, é a seguinte:

llinois
Illinois has a statute highly favorable to gestational surrogacy which governs the process from contract formation to the issuance of birth certificates. It applies to single parents who have furnished their own gametes or heterosexual couples where at least one person has furnished his or her own gametes.

  1. Não é por nada que os casos mais mediáticos que conhecemos de parentalidade por interposta pessoa (esta pessoa chamada, em inglês, “gestational carrier”) – Elton John e o marido, Nicole Kidman e Keith Urban, Sarah Jessica Parker e Matthew Broderick, etc. – utilizaram mulheres totalmente desconhecidas, distantes e sem qualquer parentesco com a mãe e os pais biológicos. Evitam-se tentações. Mas pode também ter sido por uma questão legal. Se eu tivesse de o fazer, escolheria uma pessoa que não me estivesse ligada por qualquer laço. E ficar-lhe-ia eternamente agradecida. Como a uma ama que tivesse cuidado bem do meu filho numa determinada idade.
  1. Esta opção de reprodução não deixa ninguém imune ao stress. Imagino que a mãe biológica da criança, a que fornece o material genético e não a gera, sofra horrores, possivelmente bem maiores do que a “portadora”. Tem muito menos controlo e seguimento do processo do que se tivesse a criança no ventre. E mais ansiedade, pois as hormonas da gravidez não estão a fazer o seu papel de preparação/adaptação (enorme sono ao princípio, paz, tranquilidade e bem-estar mais para a frente – falo da regra geral que é também a minha experiência). E que os pais estejam tão ou mais ansiosos do que estariam se fosse a companheira com quem vivem a gerar a sua criança. Portanto, nada disto se faz de ânimo leve e por brincadeira.
  1. Nenhuma mulher que decida ser portadora da criança de outras pessoas (e mesmo que contribua com os seus ovócitos) é obrigada a fazê-lo. Mas, se o faz, assume um compromisso.
  1. Posto isto, não me choca que, no futuro ainda longínquo, para evitar conflitos sentimentais e/ou legais, as crianças sejam geradas pura e simplesmente fora do ventre feminino. Isto parece ficção científica e desumanização, mas cada vez menos. Todos sabemos que a gravidez e o parto têm riscos para as mulheres e desgastam e deformam o nosso corpo e que o controlo do desenvolvimento do feto também não é total estando ele oculto por detrás de uma parede opaca de tecido humano e a interagir com outro ser humano, qualquer intervenção, ingestão ou infeção afetando não só o feto como a pessoa portadora. Sei que já todos lemos estas cenas em livros ou as vimos em filmes e nos atemorizam, quando não repugnam, um bom bocado, mas considero que não é de excluir que se tornem realidade. Olhem, seria, pelo menos, um bom meio de tornar a maternidade e a paternidade totalmente iguais em matéria de apego, responsabilidades e direitos.
  1. Em que é que isso, a muito longo prazo, transformará o corpo feminino, cujos seios deixarão de ter função biológica, não sei. Possivelmente se a humanidade sobreviver ainda um milhão de anos, os sexos assemelhar-se-ão cada vez mais. Divago, obviamente.

 

Alexandra Leitão rules

Em boa hora alguém no PS descobriu esta senhora para fazer parte do Governo. Combativa, preparada, totalmente desprovida de demagogia, clara e objetiva.

Vem isto a propósito de ter visto ontem um bom bocado do Prós e Contras sobre os contratos de associação, tema que, confesso, não sei por que razão ainda anda a ser debatido. Está tudo mais do que claro. Os colégios com contratos de associação que dizem ter enorme qualidade e que por isso advogam o encerramento da escola pública mais próxima deviam deixar de berrar (ou, se quiserem, deixar a sua zona de conforto estatal), porque, além de conhecerem a lei e o histórico destes contratos, se realmente são tão bons como dizem, não vão perder clientes. E ainda têm uns aninhos para fazerem a transição.

 Por mim, quero ser governada pela Alexandra Leitão. Parabéns.

E se Trump estiver a fazer tudo para perder?

Trump entrou para a História política dos EUA ao varrer as primárias como nunca se tinha visto e ainda menos imaginado. Quando a sua candidatura foi lançada, no Verão passado, teve como resposta unânime das melhores e mais batidas inteligências americanas no jornalismo político um desprezo folgazão com o palhaço que se dizia condenado a desaparecer de cena em pouco tempo. Ao começar a somar vitórias, e passado o período do choque com a realidade onde se esperou por uma resposta eficaz dos pesos-pesados Republicanos, começaram também a ser apresentadas as explicações para o fenómeno. Uma ideia comum a vários diagnósticos remete para a retórica do ódio que os Republicanos têm cultivado contra Obama, a qual teria criado as condições para que um candidato retintamente demagogo e populista pudesse aparecer e vencer em modo blitzkrieg. Trump usou esse mesmo ódio contra o próprio partido que está a usar como trampolim, tendo chegado ao ponto de insultar e ofender a dinastia Bush e o herói de guerra John McCain precisamente no capítulo do seu heroísmo. Contra toda a lógica do que se supunha acerca do eleitorado Republicano, esses ataques a figuras sagradas do panteão político e cultural da direita norte-americana não o prejudicaram, pelo contrário. O mesmo espanto para os resultados que obteve nos Estados onde o factor religioso era considerado o principal elemento condicionador da eleição. O tipo da ostentação mais pagã e amoral, ou até imoral para os critérios do tecido religioso americano, o fulano das misses e das mulheres-troféu, era ainda assim o favorito do eleitorado protestante e fundamentalista. Nem Ted Cruz, que discursa como um pastor e cujo pai é pastor evangélico, conseguiu resistir ao vendaval narcísico de Trump.

Entretanto, apostas vão sendo feitas e perdidas acerca do momento em que Trump irá finalmente aparecer como um candidato convencional, dizendo aquelas coisas que deixem a aparência de estar na posse de todas as suas capacidade cognitivas. Afinal, está em causa meter-lhe na mão o maior exército e respectivo arsenal nuclear do Planeta, algo que terá a sua importância. Todavia, ele continua a discursar como o típico fogareiro que está disposto a resolver os problemas do Médio Oriente com dois ou três mísseis nucleares. Pelo meio, deixa indicações de que está apenas na brincadeira, que este festival de bacoradas é somente para ganhar as primárias. Chegando à Casa Branca, resolverá os problemas mundiais em três tempos, tal como em três tempos fecha negócios que lhe dão milhares de milhões de dólares a ganhar. Problemazinho: são cada vez mais aqueles que acham que ele não vai ter outro estilo, que estamos a ver o homem à transparência.

Há uma dimensão da realidade à qual a figura e comportamento de Trump se adequam na perfeição. É a televisão. Os políticos precisam da televisão e fazem o que podem para a conseguir habitar com sucesso. Muitos falham, muitos mais apenas a atravessam de forma quase invisível e sem deixarem memória de si. Ora, Trump veio da televisão para a política já consagrado como estrela da TV. A sua estratégia, ou quiçá tão-só intuição, passa por dar aos telespectadores o que eles procuram enquanto telespectadores: um bom espectáculo. Nesse espectáculo premeia-se a simulação da honestidade (conseguida pelo uso de insultos e ofensas) e a variedade da narrativa (o que lhe permite vocalizar qualquer barbaridade que apeteça largar, sem restrições, e depois negar que a disse sem ser penalizado). Apoio à tortura, impedir a entrada de muçulmanos nos EUA, dizer que se vai construir um muro na fronteira com o México, atacar as mulheres, atacar o GOP, aceitar o apoio de racistas, são decisões absurdas quando se olha pelo lado eleitoral, pois anatematizam segmentos muito importantes para uma vitória final, mas são igualmente decisões brilhantes quando o que se pretende é apenas perder em grande.

Nesta hipótese, aquilo a que estamos a assistir na América nesta corrida presidencial será a maior operação de marketing de que há registo na História.