É a grande novidade da estação: descobriu-se que se pode medir o contributo dos agentes políticos para a qualidade da democracia através das suas declarações em relação ao descontrolo infantil de Manuel Pinho. Cavaco vai destacadamente à frente. A democracia voltou a ser salva, no espaço de poucos dias, pela rápida, heróica e imparcial intervenção do actual Presidente da República.
O programa Corredor do Poder aponta alto:
O elenco está particularmente bem constituído, equilibrado nas capacidades retóricas e prototípico da política profissional. Nele destaca-se Margarida Botelho, uma autêntica alfaia agrícola de fabrico soviético. Nem o Carvalhas conseguia ser tão fanático. Os restantes são mais convencionais nisso de se mostrarem conscientes da hipocrisia ritualmente cultivada. Limitam-se a representar, enquanto a Margarida acredita mesmo no que diz. De facto, não se pode ser comunista sem fé numa transcendência dialéctica, isso é certo.
A corte Luso-Brasileira no jornalismo português (1807-1821)
Ernesto Rodrigues (n. 1956) é poeta, ficcionista, crítico, ensaísta e tradutor mas tem uma paixão pelo jornalismo: assinou «Mágico Folhetim – Literatura e jornalismo em Portugal» (Editorial Notícias) de 1998 e «Crónica Jornalística do século XIX» (Círculo de Leitores) de 2004. No bicentenário da chegada da corte joanina ao Brasil, reúne neste livro textos significativos de 109 jornais da época com nomes tão insólitos como A abelha portuguesa, O amigo do Povo, o Liberal, o Patriota, o Correio do Povo, o Génio Constitucional ou O Observador onde se pode ler por exemplo: «A corrupção que resultou da posse da Ásia e dos mais domínios descobertos e conquistados pelos nosso antepassados, foi a primeira causa da nossa decadência; a intolerância e o fanatismo religioso introduzido por D. João III perdeu a D. Sebastião e com ele expirou a glória de Portugal». Um segundo exemplo é o texto de Francisco Solano Constâncio sobre a abolição do comércio de escravos no Brasil em 1815: «A escravatura é o pior achaque do Brasil e há muito tempo que deveríamos ter começado a tomar medidas gerais e constantes para civilizar os índios e emancipar gradualmente os pretos».
Um livro de 302 páginas que interessa em especial aos estudantes não só de história mas também de jornalismo. Mas que pode interessar os leitores em geral pois estão em causa as repercussões da ida da Corte para o Brasil em 1807 numa decisão que teve tanto de imprevista como de organizada – D. João não chegou ao Rio como um exilado mas sim como um chefe de Estado em funções.
(Edição de Ernesto Rodrigues com apoio da CLEPUL, da FCT e da Excellent Óptica)
“Posso roubar o seu par”, pergunto, em plena pista de dança, ao homem de aspecto jovem que dança com uma beldade espampanante. “Claro que pode”, diz-me ele, liberal e com um ar descontraído nos gestos. “Obrigado”, respondo. E começo, perante o olhar estranhamente surpreendido dele, a arrancar o fio de ouro e os brincos de diamante da mulher.
(Confúcio Costa)
O homem de aspecto jovem abriu a boca de espanto, enquanto perdia a descontração e o ar liberal. Como era demasiado cobarde para enfrentar o ladrão de jóias, pensou em gritar. Foi então que a companheira lhe colocou a mão na boca e disse: «não te preocupes, o ouro é meu.», sem sequer fingir que estava a adorar aquelas mãos suaves que lhe tateavam o pescoço e as primeiras curvas do peito firme, acompanhadas de palavras proibidas ditas quase em segredo, junto às suas orelhas bonitas. Coisas que não se dizem a mulheres comprometidas…
Antes de o deixar partir, beijou-lhe o rosto e entregou-lhe um pequeno papel com o número de telemóvel que trazia sempre escondido na pulseira, para qualquer boa surpresa que lhe surgisse. Quase em simultâneo, o homem jovem, agora completamente contraído, num gesto irreflectido, esfregou a testa, ao perceber que o ladrão de jóias naquele interminável minuto levara mais que o fio, a pulseira ou os brincos de ouro e diamantes.
(Luís Eme)
Não conseguia deixar de pensar naquilo. Revia os gestos, passo a passo, desacelerando a memória, tentando encontrar o pequeno detalhe que faria tudo mais razoável. Nada. Forçava as mãos ao correr do dia, obrigava-se a ter em mente as coisas que tinha que fazer normalmente sem pensar. Essa tensão provocava uma estranha explosão interior. Agora mais nada parecia normal: as árvores faziam-se sentir mais verdes, os cheiros das ruas mais intensos e todas as pessoas observáveis.
Desistiu. Não valia a pena lutar contra esta vontade de se misturar nas coisas. Tinha de aceitar que algo de importante acabara de acontecer. Não era por acaso que tinha memorizado o número depois de o olhar uma só vez.
(Dina)
Foi quando sentiu um arrepio da cabeça aos pés!
Estava explicada uma parte daquela obsessão. Era um sinal divino! Só tinha que descobrir o que queria dizer aquela sensação que lhe dava uma comichão imensa na unha do dedo grande do pé. Seria um sinal para deixar o submundo do crime? Seria um sinal de amor à primeira vista?
Não queria pensar mais nisso. Era sexta-feira. Tinha um fim-de-semana para curtir a vida e afiambrar-se a mais pescoços femininos ornamentados de objectos valiosos. Lembrou-se então de que ainda não tinha metido o Euromilhões. Todas as semanas usava números diferentes embora fosse um jogador assíduo. Nunca lhe tinha saído nada, mas tinha fé. Quer dizer: tinha mesmo fezada de que um dia ia ser milionário, daí ter enveredado pela prometedora carreira de Grande Amigo do Alheio.
Pegou num boletim que tinha na gaveta onde guardava a sua colecção de esferográficas provenientes dos muitos bolsos que costumava profanar. Não conseguia deixar de pensar nela, no número de telefone dela. E ía fazendo cruzes sobre os números. E pensava nela. E mais uma cruz. E ao pensamento chegava-lhe a textura da pele do pescoço dela. Lembrou-se do sinal. Do sinal que tinha na mão e que inexplicavelmente costumava ter uns pêlos manhosos que lhe costumavam dar uma comichão tremenda. E mais uma cruz. Tinha de cortar aqueles malditos pêlos. E pensava nela, não conseguia deixar de pensar nela. Saiu para a rua como que em transe, entrou na tabacaria do costume e meteu o Euromilhões, carregou o telemóvel e pagou a electricidade que estava prestes a ser cortada. Lembrou-se da Marisa Cruz. Lembrou-se novamente da Marisa Cruz, lembrou-se do tamanho dela e pensou: “Porra a gaja está mesmo grande!” Lembrou-se que a gaja nunca lhe tinha dado sorte nenhuma, nunca lhe tinha saído sequer 1 cêntimo no Euromilhões. Pensou que a puta da vida é madrasta, e ele o enteado rejeitado. Pensou novamente no pescoço daquela mulher… apeteceu-lhe sangue…
Magia
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Sugestões para o último - sim: o último - capítulo na caixa de comentários. Até lá.
A direita ranhosa ficou radiante com a parvoeira do aparvalhado ex-ministro da Economia. Nada de mais apropriado. Há uma natural afinidade entre a substância neuronal da direita ranhosa e o serrim de Pinho.
Dias Loureiro, no dia em que, finalmente, lhe explicaram o que andou a fazer
*
Sou daqueles que acredita piamente em Dias Loureiro. Por isso lhe quero manifestar pública solidariedade, coisa que não vejo a direita ranhosa fazer. A direita ranhosa utiliza invariavelmente o mesmo estratagema para lidar com as abundantes cagadas que produz: finge que a merda não existe. É a sua pulsão kitsch, tal como o definiu Kundera (ah, pois). Isso deixa o 2º arguido no caso BPN/SLN sem amigos, o que me parece homérica injustiça. É que ele já entrou na História como uma das mais extraordinárias figuras da política nacional. Como é que alguém cujos limites cognitivos estão à vista de todos, que admite candidamente passarem-lhe ao lado aspectos técnicos, legais e morais da sua actividade profissional, que exibe uma amnésia num grau já muito avançado, e que provavelmente sofre de Desordem por Défice de Atenção com Hiperactividade, chegou a dirigente do PSD, ministro de Cavaco, elemento do núcleo duro do PSD durante anos e anos, empresário de súbito e estranho sucesso e conselheiro de Estado?
Há um enigma a rodear este ser de excepção. Como seria bom, magnífico, haver alguém capaz de falar verdade a seu respeito, contar os segredos de tão extraordinárias façanhas para nossa ilustração e encantamento. Alguém que colocasse a ética e a transparência nos negócios num plano superior e normativo. Alguém que tivesse assumido a missão de falar verdade aos portugueses, por exemplo. E é possível, apesar da elevada improbabilidade, que uma entidade assim exista à nossa volta, no mundo dos vivos, e não apenas na doce imaginação. É procurar.
Podiam ser vinte e sete
Menos dez anos de idade
Ou mesmo os dezassete
Que era também verdade
No recanto dum retrato
Preto e branco por opção
Nasce o secreto contrato
Entre a voz e a emoção
Preto e branco iluminado
Terra trazida num rosto
A espuma está neste lado
E o rio segue em oposto
Caminho para o Douro
Vales, pedras e vinhas
Há no mapa do tesouro
O rosto em duas linhas
No desenho da viagem
Teu rosto é cartografia
Veio nele a paisagem
Que nunca se repetia
No ano, quatro estações
Os dias certos das feiras
Entre o frio dos nevões
E o calor das lareiras
“Posso roubar o seu par”, pergunto, em plena pista de dança, ao homem de aspecto jovem que dança com uma beldade espampanante. “Claro que pode”, diz-me ele, liberal e com um ar descontraído nos gestos. “Obrigado”, respondo. E começo, perante o olhar estranhamente surpreendido dele, a arrancar o fio de ouro e os brincos de diamante da mulher.
(Confúcio Costa)
O homem de aspecto jovem abriu a boca de espanto, enquanto perdia a descontração e o ar liberal. Como era demasiado cobarde para enfrentar o ladrão de jóias, pensou em gritar. Foi então que a companheira lhe colocou a mão na boca e disse: «não te preocupes, o ouro é meu.», sem sequer fingir que estava a adorar aquelas mãos suaves que lhe tateavam o pescoço e as primeiras curvas do peito firme, acompanhadas de palavras proibidas ditas quase em segredo, junto às suas orelhas bonitas. Coisas que não se dizem a mulheres comprometidas…
Antes de o deixar partir, beijou-lhe o rosto e entregou-lhe um pequeno papel com o número de telemóvel que trazia sempre escondido na pulseira, para qualquer boa surpresa que lhe surgisse. Quase em simultâneo, o homem jovem, agora completamente contraído, num gesto irreflectido, esfregou a testa, ao perceber que o ladrão de jóias naquele interminável minuto levara mais que o fio, a pulseira ou os brincos de ouro e diamantes.
(Luís Eme)
Não conseguia deixar de pensar naquilo. Revia os gestos, passo a passo, desacelerando a memória, tentando encontrar o pequeno detalhe que faria tudo mais razoável. Nada. Forçava as mãos ao correr do dia, obrigava-se a ter em mente as coisas que tinha que fazer normalmente sem pensar. Essa tensão provocava uma estranha explosão interior. Agora mais nada parecia normal: as árvores faziam-se sentir mais verdes, os cheiros das ruas mais intensos e todas as pessoas observáveis.
Desistiu. Não valia a pena lutar contra esta vontade de se misturar nas coisas. Tinha de aceitar que algo de importante acabara de acontecer. Não era por acaso que tinha memorizado o número depois de o olhar uma só vez.
Dina
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Continua, na caixa de comentários, o concurso para a continuação deste emocionante folhetim. Até quando? Só Deus - eu próprio - saberá.
MFL - [...] E tanto é a partir da receita que agora estamos numa fase em que a receita, por motivos da crise económica, baixa naturalmente, as contas públicas estão pior do que quando o engenheiro Sócrates tomou conta do País. E, portanto, isso significa que, efectivamente, não estavam consolidadas. ‘Tavam com passos positivos, mas não estavam consolidadas, porque a consolidação significa alguma coisa que mesmo que venha um abalo de terra aquilo não se desmorona. Veio um abalozinho de terra e desmoronou-se. Portanto, não estava consolidada.
AL - Esta crise, no que diz respeito a Portugal, na sua opinião, não é um abalo de terra, é um abalozinho?…
MFL - Aaahhh… É um abalo de terra, mas é um abalozinho relativamente aquilo que poderia ter sido caso não estivessem as contas feitas… construídas doutra forma…
A Manela quer chefiar o próximo Governo. Quer governar o País com as já tão conhecidas, analisadas, reflectidas, discutidas e aclamadas soluções para nos enriquecer a todos em 4 anos ou menos, a que se juntam vasta inteligência e espantosa força de vontade. Mas, acima de tudo, quer levar-nos para o futuro com a sua incomparável honestidade. Por isso, abriu a alma e confessou ver nesta crise um abalozinho, um safanãozeco, uma chuvinha molha-parvos. Entretanto, na dimensão a que se convencionou chamar realidade, não se encontra uma única pessoa, em seis mil milhões e meio, que se permita pensar o mesmo, quanto mais ter coragem para o verbalizar. Não sei se Portugal está preparado para tanta honestidade.
A Manela não mente. Verdade verdadinha.
- A direita portuguesa tem tido pesadas baixas. Enquanto Soares e Cunhal esgotaram o prazo de validade, tendo deixado património político que continua hoje a ser valioso para as respectivas casas, e até apareceu um Louçã a federar extremismos e conquistar centro corporativo, na direita há uma sucessão de tragédias: Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa e Lucas Pires morrem no auge das suas capacidades, com ainda muito para dar aos seus partidos e a Portugal; Cavaco abandonou o PSD à desorientação que só tem conhecido agravamento; Manuel Monteiro e Portas não passaram de canastrões, ocos; Freitas do Amaral criou escândalo ao ousar ser livre, ao ousar ser igual a si próprio. Recentemente, foi a vez de cair um dos mais poderosos bastiões do tecido simbólico da direita, o castelo de Jardim Gonçalves. O BCP foi sempre algo que transcendia o dinheiro e o status, era também uma expressão do catolicismo calvinista, onde o lucro mais opulento premiaria o puritanismo mais doentio. Daí se ter promovido a associação ao Opus Dei, servindo a propalada imagem de administradores e gestores de topo em rituais de mortificação e sevícias corporais, ou em subterrâneos combates com a Maçonaria, como marketing viral para consumo jornalístico e popular. A Igreja parecia caucionar a luxúria do capital, o cosmos estava bem ordenado. Então, quando o pater familias das fortunas nacionais foi apanhado com as calças na mão, depois de uma desastrada sucessão para Teixeira Pinto que ninguém poderia antecipar vir a correr tão mal, a direita levou um soco na boca do estômago e foi ao tapete. O silêncio que ainda hoje rodeia a exposição da vulgaridade concupiscente das figuras cúmplices de Jardim Gonçalves é a manifestação de um verdadeiro tabu na sociedade portuguesa. Todo o respeitinho é pouco quando se fala deste caso, até na esquerda mais desvairada.
“Posso roubar o seu par”, pergunto, em plena pista de dança, ao homem de aspecto jovem que dança com uma beldade espampanante. “Claro que pode”, diz-me ele, liberal e com um ar descontraído nos gestos. “Obrigado”, respondo. E começo, perante o olhar estranhamente surpreendido dele, a arrancar o fio de ouro e os brincos de diamante da mulher.
(Confúcio Costa)
O homem de aspecto jovem abriu a boca de espanto, enquanto perdia a descontração e o ar liberal. Como era demasiado cobarde para enfrentar o ladrão de jóias, pensou em gritar. Foi então que a companheira lhe colocou a mão na boca e disse: «não te preocupes, o ouro é meu.», sem sequer fingir que estava a adorar aquelas mãos suaves que lhe tateavam o pescoço e as primeiras curvas do peito firme, acompanhadas de palavras proibidas ditas quase em segredo, junto às suas orelhas bonitas. Coisas que não se dizem a mulheres comprometidas…
Antes de o deixar partir, beijou-lhe o rosto e entregou-lhe um pequeno papel com o número de telemóvel que trazia sempre escondido na pulseira, para qualquer boa surpresa que lhe surgisse. Quase em simultâneo, o homem jovem, agora completamente contraído, num gesto irreflectido, esfregou a testa, ao perceber que o ladrão de jóias naquele interminável minuto levara mais que o fio, a pulseira ou os brincos de ouro e diamantes.
Luís Eme
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*Está aberto, na caixa de comentários, o concurso para a continuação desta, bem interessante, epopeia. Força, rapazes. E raparigas também.
MFL - [...] Eu devo dizer que aquilo que mais me preocupou, que mais me espantou, é como é que foi possível que um primeiro-ministro ao falar do País, e ao falar do futuro do País, não pronunciou uma única vez a palavra que definia aquilo que é o problema do País. Como é que isso foi possível?…
AL - As pequenas e médias empresas?*
MFL - Não! O problema do País é o endividamento do País. Ele nunca pronunciou essa palavra. E, portanto, o Primeiro-Ministro consegue uma coisa absolutamente extraordinária que é falar da situação actual do País, perspectivar o País para a frente, sem falar neste ponto que é essencial. Ou seja, não tem como problema… como é… o problema do País. E, portanto, não vai nunca conseguir fazer crescer o País, só vai conseguir fazê-lo empobrecer, como de resto tem acontecido.
A Manela não tem qualquer solução para Portugal, mas tem uma palavra que os portugueses devem fixar: endividamento. Estamos tesos, diz ela. E estar teso tem vantagens, simplifica a realidade. Queres gastar? Não gastas. Queres investir? Não investes. Queres criar riqueza? Querias. Portugal é um débito, uma parcela negativa, um vazio. E é esse vazio que temos de respeitar, celebrar e adorar. Porque é ele que nos dá, bem lá no fundinho da alma salazarista, esse reconforto cálido, viscoso, de nos sabermos pobretes e alegretes, sem assumir responsabilidades, sem enfrentar riscos, fugindo das dúvidas ainda mais depressa do que das dívidas, e deixando aos outros, aos doutores que nos avisam pressurosos, a tarefa de nos manterem miseráveis e em paz. Já o Sócrates, esse malandro, tudo o que fez foi para empobrecer o País. Ele só pensa em gastar, gastar, gastar. Gastar o que tem e o que não tem. Gastar o que é nosso, o que pertence à gente séria e trabalhadora. Pois se ele nem fala no endividamento, que é um problema que se resolve fechando a torneira, como é que o estroina pode continuar a ser Primeiro-Ministro?!
A Manela não mente. Verdade verdadinha.
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* Ana Lourenço propôs 5 palavras na tentativa de adivinhação da palavra que definia o problema do País. É um sinal. E bem bonito, por sinal.
O teu sorriso aqui é apenas um esboço
Do arco que os teus olhos vão projectar
Entre as linhas tão perfeitas do pescoço
E a mancha de luz a envolver este lugar
Há sonhos perfilados em prateleiras
E memórias definidas nas lombadas
Á tua volta há as vidas verdadeiras
Nas páginas dos livros condensadas
E nas manhãs mais finas do Inverno
Teu sorriso enfrenta o peso da neblina
Hoje escrevo-te num tempo moderno
Tu continuas a ter um olhar de menina
Nem chega sequer a ser uma saudade
Porque a beleza do teu rosto é infinita
O teu sorriso ultrapassou toda a idade
Está intacto no rumo da minha escrita
“Amo-te”, digo, olhos nos olhos, a C. “Amor, estou tão feliz. Foi a primeira vez que mo disseste assim, a olhar-me directamente”, ouço, lágrimas de emoção. “Sim”, explano, “finalmente sou capaz, como sempre sonhei e depois de tanto ter tentado, de mentir a olhar nos olhos”.
Está identificado o palhaço responsável por estas merdas.
AL - Ganhar as eleições significa que primeiro tem de convencer os portugueses de que o seu projecto pró País é melhor do que o do engenheiro Sócrates. Quando é que vamos conhecer o seu projecto pró País…?
MFL - Bom, eu acho que o meu projecto pró País tem estado, …, durante, …, ao longo de todo este tempo em que estou à frente da liderança do partido, que tem estado a definir, verdadeiramente, quais são as diferenças. Eu julgo que neste momento existem poucas dúvidas acerca das diferenças de projecto que eu tenho e que tem o engenheiro Sócrates. Isso acho que é claro. Mas, evidentemente, que nós haveremos de concretizar mais pormenorizadamente quando apresentarmos o nosso programa eleitoral; que não deixaremos de apresentar, como calcula.
A Manela tem um projecto pró País. É claro que tem. Só precisa de um pequeno toque, algo como isso de se concretizar mais pormenorizadamente quando aparecer o programa. Até lá, esse projecto existe num plano abstracto, intangível, por isso inefável, o que não impede que seja claramente diferente do projecto do engenheiro Sócrates. Porque tem vindo a ser definido através da sua simples presença à frente da liderança do partido, é claro. Alguém vê o engenheiro Sócrates à frente da liderança do PSD? Alguém? Ninguém, pois não? Então, calai-vos.
A Manela não mente. Verdade verdadinha.
“Posso roubar o seu par”, pergunto, em plena pista de dança, ao homem de aspecto jovem que dança com uma beldade espampanante. “Claro que pode”, diz-me ele, liberal e com um ar descontraído nos gestos. “Obrigado”, respondo. E começo, perante o olhar estranhamente surpreendido dele, a arrancar o fio de ouro e os brincos de diamante da mulher.
É bom que o programa do Pacheco exista, particularmente por aparecer em período eleitoral. É bom para estarmos contra o seu autor, o qual presta um mau serviço à cultura e sociedade portuguesas. E o mau serviço não resulta das suas opiniões estarem cheias da bílis gerada na cruzada contra Sócrates, nem de ser um dos mais importantes apoiantes e conselheiros de Ferreira Leite, nada disso. Esse é o lado legítimo e folclórico.
O problema com o Pacheco é a sua superficialidade e ignorância. Parece paradoxal, num ser que ganha a vida a transmitir informações, e cuja fama é a de ser um intelectual sofisticado. Só que não há outra conclusão a tirar, pois é ele que revela a sua inanidade. Por exemplo, um dos motes centrais na sua retórica é o de que vivemos tempos excepcionalmente adversos para a liberdade de expressão. Esta ideia é repetida à exaustão vai para três anos, com especial intensidade nos dois últimos. Com ela o Pacheco consegue manter um papel activo e relevante na campanha negra, explorando as zonas fronteiriças entre a insinuação e a insídia. Porém, o que ele nunca faz é demonstrar, apresentar nomes, dar elementos objectivos a montante da sua interpretação subjectiva. Quando fala de pressões a jornalistas, de que fala exactamente? Do que um jornalista lhe contou ou do que ele testemunhou? E como sabe ele que lhe estão a contar a verdade se for apenas essa a sua fonte de informação? E por que razão esse jornalista não formalizou a queixa junto das várias autoridades competentes? E por que razão, se o Governo é useiro e vezeiro nessa prática opressora, não há provas coligidas pelas vítimas e opositores políticos? Ou será que as pressões são do tipo que o Crespo descreveu, onde há um Ministro que lhe telefona para discutir um aspecto politicamente inócuo da sua prestação? Acima de tudo, e este é que é o aspecto decisivo na deontologia e honestidade intelectual do prolífico autor, quais os critérios com que aferiu ser este tempo pior do que tempos passados para a vivência da liberdade? Temos polícias políticas e ainda ninguém foi avisado? Há perseguições a quem ataca o Governo ou Sócrates, e por isso são muito poucos os que se atrevem a fazê-lo? Haverá menos meios de comunicação do que costumava haver a ponto de se ter reduzido a liberdade? É hoje o cidadão um ser que diminuiu as possibilidades de se ligar a outros cidadãos e comunicar interpessoal e publicamente? Está, no presente, a informação menos disponível do que no passado? Com Sócrates há menos liberdade de expressão do que no cavaquismo? Do que com Guterres? Do que com Sá Carneiro? Do que no PREC? De que estás a falar, Pacheco?
A leitura de um texto tontinho do pequenino foi o seu momento zen. E na abertura do Correio da Manhã esteve o grande acontecimento deste primeiro programa. Porque lhe deu para falar do putedo. Coisa de homem, e de homem na crise de ser homem. Então, anunciou aos telespectadores que vai para aí um putedo que faxavor. Desemprego, hipotecas e putedo, eis o retrato do Portugal de Sócrates visto da Marmeleira. E eu levantei os braços e gritei alarmado, a ponto de ter assustado a vizinha do 4º andar, quando ele disse que tinha sido só por causa da feitura do Ponto Contraponto que reparou no fenómeno de haver tantos anúncios de serviços sexuais nos jornais. É que se o Pacheco não sabia disso até finais de Junho de 2009, eu tenho agora a certeza de vivermos tempos infames onde a liberdade é algo só ao alcance de quem se prestar a fazer um programa de televisão, nem que para isso tenha de juntar mais uns trocos aos seus rendimentos.
Que putedo que anda para aí, sim senhor.
A figura política que realmente mudou nos últimos tempos, desde o Verão de 2008, não se chama Sócrates nem Ferreira Leite, embora tenha mudado por causa destes. É uma figura que se imagina um predestinado, que alimentou o provinciano mito da infalibilidade e cuja ambição colide com os próprios fundamentos do regime: Cavaco.
A questão do Estatuto dos Açores, que se segue à alteração de liderança no PSD e marca o fim da cooperação estratégica, foi inteiramente criada pelo Presidente da República ao não ter enviado para o Tribunal Constitucional o artigo 114º. Ninguém entendeu o porquê desse absurdo, mas foi esse absurdo que levou à mais absurda declaração presidencial de que há memória em Portugal, em 31 de Julho de 2008. Seguiram-se meses de crescente conflito entre a Presidência e o Governo/PS — com constantes e obscenas intervenções de publicistas a promover cenários catastrofistas apenas salvos por Governos de iniciativa presidencial — culminando com o discurso de Ano Novo onde se fez da campanha negra o racional estratégico para o tandem Cavaco-Manela: falar verdade.
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