Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Dominguice

Para as pessoas com quem mantemos relações afectivas positivas, tenhamos ou não proximidade vivencial, aquilo que nelas possa ser bom é visto como sendo parte da sua natureza, e aquilo que possa ser mau é visto como um acidente. Se tivermos relações afectivas negativas com alguém, próximo ou distante, o que neles pareça mau é associado à sua natureza e o que pareça bom é associado ao acaso. Racionalizamos as qualidades dos nossos com substantivos e os seus defeitos com adjectivos, a inversa para os outros que são estranhos, por não pertencerem aos nossos, onde os defeitos são substantivos e as qualidades adjectivas. Justificamos os erros e as maldades daqueles de quem gostamos com os contextos, as situações, o concreto. Condenamos os erros e as maldades daqueles de quem não gostamos com as normas, os princípios, o abstracto.

A razão tem paixões que o coração se envergonha de conhecer.

Parabéns aos imbecis que permitiram a este merdas andar por aí a dizer estas merdas

«Esta decisão é uma herança pesada que a anterior liderança da Câmara Municipal de Lisboa [sob a presidência do socialista Fernando Medina] deixa aos lisboetas e que coloca em causa opções e apoios sociais previstos no orçamento agora apresentado.»


Declarações de Carlos Moedas a propósito da multa aplicada pela Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) à autarquia

O homem que fala claro

Rui Rio, não vá alguém ainda não ter percebido, tem passado os debates a garantir aos parceiros da Direita que o que está escrito no programa do PSD não é para levar a sério. Tem repetido em todos os debates que o programa só é válido “em determinadas condições”. E fica absolutamente claro que é ele quem determinará se há ou não condições para executar o que anda a prometer.

No debate com o líder da Iniciativa Liberal sacou do lápis e prometeu fazer aparecer milhares de milhões com uma clareza nunca antes vista. O que já não me pareceu tão claro foi o que disse a respeito do futuro de empresas como a RTP ou a CGD. Começou por elogiar a gestão e garantir que não serão privatizadas. Mas… se começarem a dar prejuízo lá terá de as privatizar. Claro que ninguém lhe perguntou como poderão essas empresas começar a dar prejuízo durante a sua governação e é pena.

Então, com os incompetentes dos socialistas a governar há seis anos, dois dos quais passados a gerir uma crise sem precedentes, essas empresas estão bem e recomendam-se, mas admite que com um governo de direita liderado por si, o economista mais sério e competente que este rectângulo já viu, apoiado pelos génios da finança do CDS, IL e Chega, poderão criar-se condições que levem essas empresas de novo à ruína?!

Isto não será clareza a mais?

Catarina no extremo

Catarina Martins mostrou no debate com António Costa que é um dos melhores políticos em actividade, sendo rápida e eficaz a argumentar ao vivo pois revela conhecimento e convicção. Como mulher, tem o ónus de estar obrigada a superar preconceitos de género ligados à psicologia e simbólica da autoridade antes de captar a atenção para a propaganda. Sendo uma batalha perdida, posto que não há forma de vencer esse inimigo antropológico que só a História derrotará, é objectivo reconhecer que a sua pessoa pública e mediática transmite confiança como líder do BE. Mas tal será suficiente para fazer crescer o Bloco? Não, afiançam os meus neurónios.

O seu talento para controlar a pose e dramatizar a oratória corresponde simultaneamente a um limite comunicativo. Essa competência traz associada uma percepção de artificialismo. Sentimos que ela se sente num palco. E isso distrai-nos e irrita-nos, tal como acontece quando um qualquer actor exagera na representação, assim destruindo a ilusão ficcional e levando-nos para fora do mundo da narrativa. O simétrico também não é aconselhável num político, isso de aparecer ao público no desleixo da pose “natural”, como Rui Rio está a exibir por razões várias (e nenhuma boa). O indicado é o terreno onde Costa consegue unir o decoro com a veracidade, transmitindo segurança profissional e liderança autêntica.

Provando que esta opinião não é um argumento misógino ou machista encapotado, avanço já com a Mariana Mortágua. Acho que ela está destinada a liderar o BE e não vai ter esta limitação da Catarina Martins porque a sua pose é invariavelmente carismática. Há uma coerência interna, uma “alma”, que se constitui como força irradiante. Donde, não precisa de gritar para se fazer ouvir. Poderá servir-se dessa condição para amplificar as mensagens do Bloco e levar o partido para onde quiser.

Outro limite da Catarina Martins registado neste debate transcende a sua figura e remete para o colectivo. Enquanto a imprensa em manada se besuntou com o mel e o fel, frase que ilumina a duplicidade hipócrita dos bloquistas mas que não tem qualquer novidade, o que Costa vocalizou de mais importante para quem estiver indeciso entre o PS e o BE foi outra coisa. Esta:

«Faço a justiça de reconhecer à Catarina Martins que só soma o seu voto à direita e à extrema-direita para chumbar o Orçamento do PS mas não é capaz de juntar o seu voto à direita e à extrema-direita para aprovar um Orçamento alternativo ao PS. Portanto, aquilo que votam não é para avançar, é para parar. E o País não pode parar, o País tem que avançar.»

Este é o bloqueio do Bloco, incapaz de ser Governo e disposto a impedir que o PS governe. Catarina Martins não respondeu à evidência de serem um tronco na engrenagem da democracia e da esquerda, mergulhados como estão em sectarismo. Enquanto os comunistas acham que são diferentes dos socialistas e dos bloquistas, e durante décadas esse tribalismo justificou o bloqueio partidário à esquerda, os bloquistas acham que são melhores do que ambos, socialistas e comunistas. Levados ao colo pela comunicação social, fantasiam-se como sendo muito mais importantes do que a sua representação eleitoral atesta e a realidade sociológica admite. Daí António Costa, que esteve impecável na estratégia e no desempenho neste debate, ter igualmente deixado o repto aos votantes no BE em 2019: Valeu a pena? É para continuar? Esta arrogância disfuncional serve os vossos interesses?

As eleições vão servir para responder a essa e outras questões.

A crueldade dos inúteis

"Pessoalmente, estranhei aquela crispação toda que se verificou antes, durante e depois do debate vindo de alguém que reconheceu muitas vezes a forma como o PCP esteve nesta fase da vida política", afirma Jerónimo de Sousa, acrescentando: "Não fui capaz de perceber. Podia ter sido uma noite mal dormida, ou outra coisa qualquer".


Fonte

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O XXII Governo Constitucional de Portugal tomou posse no dia 26 de Outubro de 2019. Dois meses depois, anunciaram-se os primeiros casos de infecção humana por SARS-CoV-2 na China. Três meses depois, era claro que uma pandemia estava em curso. Quatro meses depois, esperava-se a qualquer momento a confirmação do primeiro caso de infecção em Portugal. Cinco meses depois, é declarado o estado de emergência em todo o País e entra-se num confinamento radical, sem memória viva de situação remotamente parecida. Em todo o Mundo, tiveram de se improvisar soluções de políticas públicas num quadro de incerteza absoluta face a uma doença para a qual o organismo humano não tinha defesas e a medicina não tinha terapias nem conhecimento suficiente. A 27 de Setembro de 2021, o Parlamento chumbou o Orçamento de Estado para 2022 na generalidade, algo que nunca antes na história da democracia tinha acontecido. Entretanto, a pandemia continua. As suas consequências na saúde pública, na economia e na qualidade de vida dos portugueses também.

Não se conhecem relatos das experiências pessoais dos governantes e demais autoridades de saúde durante estes dois anos. Não sabemos como é que a pandemia alterou as suas rotinas, a sua energia, a sua saúde física e mental; assim como das suas famílias. Ignoramos o que é meter comida no bucho ou ir para a cama sob o peso e a lâmina da obrigação de ter de decidir em questões onde há milhões de vidas em risco (incluindo a própria e as do seu círculo íntimo), onde toda a população está a sofrer por tempo indeterminado e com efeitos sociais e económicos devastadores e imprevisíveis, e onde os próprios especialistas da ciência e da saúde não conseguem chegar a consensos. De vez em quando, vimos reacções emocionais em eventos públicos daqueles mais expostos política e mediaticamente. Mas não tivemos acesso a relatos descritivos, detalhados e compreensivos da sua vivência. É como se não tivessem vida interior, existência privada, dimensão humilde. Como se fossem máquinas, estátuas, anjos ou demónios. Os jornalistas e os adversários políticos continuaram a desumanizar os governantes – apesar da pandemia, apesar de não quererem estar no seu lugar.

BE e PCP decidiram que a calamidade era óptima para derrubar socialistas, por isso votaram ao lado do PSD, CDS, IL e Chega. Atingiram esse desejado objectivo sem sequer admitirem a discussão na especialidade das propostas orçamentais. Propostas que incluíam vários dos seus requisitos aceites na negociação, formando o Orçamento mais à esquerda já levado a votação. Os argumentos que apresentam para o recusar são um insulto à nossa inteligência, uma obscena e repugnante exibição de hipocrisia. Mas quando, e de imediato após a criação da absurda crise política, se abraçaram no tiro ao Costa, berrando com maus fígados ser ele o solitário culpado das eleições por ter uma obsessão pela maioria absoluta, isso é uma cruel ofensa. Esse discurso só consegue sair das suas bocas se abandonarem a racionalidade e a decência e fizerem de António Costa um monstro. Um monstro e um burro, pois, para além das exigências pessoais incalculáveis que a governação em pandemia implica, a “esquerda pura e verdadeira” garante que ele ainda quis pôr o cargo em risco e acrescentar aos seus dias a preparação em cima do joelho de uma campanha eleitoral onde só uma previsão é fatal: o crescimento do número de deputados que têm orgulho no salazarismo e ódio ao 25 de Abril.

Jerónimo, não foi só uma noite mal dormida. Tens de olhar para o calendário e fazer melhor as contas.

Dominguice

«Mas a questão é que eu li. Às vezes a gente lê ou faz coisas e depois pronto, passou. Mas são esses toquezinhos aqui e ali que nos vão formando. Pergunto sempre: “O que somos nós senão um agregado de mil coisas?”. Não há “eu”, somos tudo à la fois. Às vezes pergunto: “Mas foste tu que escolheste o sítio para nascer? Foste tu que escolheste o pai e a mãe?”. Não, a gente tem o pai e a mãe que tem. Nasci aqui, mas não fui eu que escolhi nascer aqui. Nasci. O que somos senão um agregadozinho no meio disto tudo? Somos tudo e somos nada. E isso é fundamental para a gente não estar agarrada a nada. As pessoas pensam que são qualquer coisa. Mas depois vão para a escola e aprendem. E depois há um tio ou uma tia, há a paisagem que também entra em nós. E o que vai entrando também é conforme o que já temos dentro. É assim que a gente se vai formando. E somos isto que está aqui, mas não somos nada de especial. Somos um agregado de causas e efeitos. Vamos construindo-nos.», testemunha Lourdes Castro.

Mas se isso é assim, e assim é, nós também somos essa coisa única que o consegue sentir, pensar e dizer.

Fact-checking do fact-checking

Há muito quem julgue que o fact-checking hoje em voga na comunicação social é uma moda positiva, porque pode ser uma arma preciosa no combate à aldrabice política e à mentira ou preconceito que grassam impunemente nas redes sociais.

Assim poderia ser, e muitas vezes é. Mas, em muitos outros casos, não é. Na realidade, são grandes as possibilidades de manipulação e distorção através dessa suposta ferramenta de verificação, que se arvora em juiz infalível, mas está muito longe de o ser.

Desde logo, pela selecção dos “factos” que são, ou não são, submetidos ao fact-cheking. Qual o critério? Quem e como decide da relevância dos (poucos) factos que são escolhidos ou da irrelevância dos (muitíssimos) factos que são ignorados? Que interesses, agendas e parcialidades presidem a essa selecção?

Depois, pelo discutível rigor e até falta de lógica com que, por vezes, essa ferramenta é usada. Se muitas vezes as conclusões são indesmentíveis e bem ponderadas, outras vezes são duvidosas, precipitadas e até suspeitas. E o pior é que as conclusões legítimas e acertadas conferem, por simpatia, credibilidade às conclusões incorrectas ou falsas.

Depois, pelo nivelamento ou equivalência que o fact-checking frequentemente estabelece entre mentiras afrontosas, mentiras descaradas, mentiras “honestas”, mentiras involuntárias e simples inexactidões mais ou menos desculpáveis. Tudo, nesta hierarquia, leva o rótulo lacónico e igualitário de “falso”, desde as difamações odiosas perpetradas conscientemente por patifes calejados e impenitentes até às declarações apressadas do político, blogueiro ou facebookista que, por ignorância ou descuido, se engana numa data, percentagem ou outro pormenor mais ou menos inócuo. Escusado será dizer que tal nivelamento, longe de ser inocente, é muitas vezes propositado.

Por fim, mas não em último lugar, os órgãos de comunicação social que praticam o fact-checking, esquecem-se sistematicamente de o aplicar às mentiras, inexactidões e faltas de imparcialidade que eles próprios cometem ou divulgam diariamente nos seus noticiários, programas de informação, colunas de opinião, etc. Não raro, fica-se com a impressão que o fact-checking é, para essas televisões e jornais, apenas um habilidoso processo de promoção da sua imagem, que lhes permite ufanarem-se de um rigor e de uma isenção que não têm e até habitualmente ofendem – uma mera arma de propaganda e auto-legitimação.

Omiti propositadamente nesta rápida análise o elemento manipulatório resultante do facto de os órgãos de comunicação social que praticam o fact-checking, desde a SIC até ao Observador, serem consabidamente enviesados politicamente. Mas isso é pano para outras mangas.

Sim, é mesmo um lodaçal e devia ser julgado

«Foi o aval de Azeredo Lopes, que tudo podia ter denunciado e impedido, que transmitiu confiança a todos os demais arguidos que, também em seu nome, atuaram. A participação de Azeredo Lopes foi essencial a toda a engrenagem.»

«Bizarro é fazer-se de coitadinho e de irresponsável e escudar-se na confiança institucional ou na ausência de menção a Tancos para branquear aquela que foi a sua atuação e que consistiu em honrar elementos da PJM e da NIC/GNR de Loulé por feitos que Azeredo Lopes sabia que não eram verdadeiros.»

«Todo este lodaçal tem de ser julgado.»

Carlos Alexandre – Despacho de Pronúncia do caso de Tancos

As eleições legislativas de 2019 foram a 6 de Outubro e a acusação a Azeredo Lopes no processo de Tancos saiu na quinta-feira anterior a se entrar na última semana de campanha, dia 26 de Setembro. Eis o que Rui Rio disse nesse mesmo dia:

«Rui Rio reagiu esta quinta-feira à acusação no caso de Tancos. Para o presidente do PSD, "Costa ou sabe ou não sabe e ambas as hipóteses são más", afirmou numa conferência de imprensa nas Caldas da Rainha.

O líder do PSD alterou a agenda da campanha eleitoral para reagir à acusação do Ministério Público no caso de Tancos, no qual o antigo ministro Azeredo Lopes é um dos arguidos e está acusado de quatro crimes. "Perante um assunto desta gravidade o ministro da Defesa não avisa o primeiro-ministro? Sabemos que articulou com o presidente da concelhia do PS que também é deputado e não articula com o primeiro-ministro?", questionou o presidente do PSD.

"Se articula - como é o mais provável - temos o problema de o primeiro-ministro ser conivente com aquilo que se passou. Se não avisou também temos um problema grave: um governo em que os ministros não avisam o primeiro-ministro de tudo aquilo que se passa no ministério", disse aos jornalistas.

De acordo com Rui Rio, "é pouco crível que um ministro, seja ele qual for, não articule assuntos desta gravidade com o primeiro-ministro", disse referindo-se ao encobrimento sobre Tancos. "Ainda assim eu nunca poderei dizer mesmo se ele sabia ou não", afirmou na conferência de imprensa

Para o líder do PSD, mesmo que António Costa "não saiba, um governo não pode funcionar assim".

Recorde-se que Azeredo Lopes está acusado de prevaricação, abuso de poder, denegação de justiça e favorecimento de funcionário, crimes que o Ministério Público classificou como "muito graves".

"O que se terá passado ao longo desses quatro anos dentro do governo que o primeiro-ministro não soube e o que poderá acontecer de importante no futuro, num Governo presidido pelo dr. António Costa, que o dr. António Costa pura e simplesmente não saiba?", interrogou.

Questionado se as recentes notícias que envolveram o nome do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no caso Tancos podem ser uma "encenação" do governo, Rio respondeu afirmativamente.

"Tudo leva a crer que sim. Por parte do Governo, para que saíssem notícias para tentar pôr uma cortina de fumo. Dá-me ideia que é bem provável que possa ter acontecido", respondeu.

Na análise à acusação do caso Tancos, o líder do PSD considerou que "pode não ser tudo verdade, seguramente também não é tudo mentira".

"É um assunto grave em termos de funcionamento do Estado de direito democrático: há dentro dos serviços do Estado sob tutela do Governo notórias cumplicidades para dificultar a ação da justiça, seja da Procuradoria-Geral da República, seja da Polícia Judiciária", acusou.

Rio não quis alongar-se sobre o ex-ministro Azeredo Lopes, uma vez que "já não é ministro há muito tempo", dizendo que apenas quer tirar conclusões "de ordem política".»

Fonte

7 de Janeiro de 2022. Azeredo Lopes foi absolvido de todos os crimes por que era acusado, isto depois de inauditamente o próprio Ministério Público ter pedido a sua absolvição. Quem passar pelo Twitter de Rui Rio, onde regularmente opina sobre sondagens e comentadores políticos, nada encontrará acerca deste desfecho.

Rui Rio prometeu um banho de ética. Esqueceu-se foi de explicar que a sua ética, depois de 14 anos de Deutsche Schule zu Porto, consiste em alinhar com magistrados justiceiros e suas golpadas judiciais, com campanhas caluniosas e a perversão de actos eleitorais, e com a exploração sensacionalista e canalha da judicialização da política. Ou seja, a sua palavra não vale nada. Se for ele o próximo primeiro-ministro, vai entrar em São Bento arrastando a miséria moral e a patética farronca que espalha pela cidade.

Método socrático nele

Até ao dia de hoje, quem melhor aproveitou estar em diálogo com Ventura na televisão, dentro do meu conhecimento, foi Tiago Mayan Gonçalves. Considero esse frente-a-frente o mais valioso das últimas presidenciais; contra todas as expectativas, dada a inexperiência mediática do candidato e a anterior prestação do Tiago a raiar o comatoso no debate com Marcelo. Quem se lembra, ou for rever, constata que a técnica do terrorismo verbal do pulha quase nunca conseguiu beliscar a pose esfíngica de quem aproveitou o que ia ouvindo para despachar golpes certeiros e profundos. Terminou com o Tiago a declarar que jamais aceitaria ver o seu partido a fazer acordos com o Chega e a dizer na cara de Ventura que ele era um tachista. Como é que isto aconteceu? Foi graças à ingenuidade de quem se apresentou politicamente romântico. O Tiago acreditava em tudo o que estava a dizer, de coração, e esse estado deu-lhe a gravitas que o tornou imune à porqueira infantilóide e burlesca. Com isso prestou um serviço à cidade, mostrando que se deve avançar de peito cheio e olho vivo contra quem viola os princípios constitucionais (mesmo que na forma encenada, pois esse começa por ser o ovo da serpente).

Catarina Martins gizou um plano inteligente para se defender de Ventura. Passou por abrir o debate a reclamar autoridade no combate à corrupção, por trazer o papa Francisco para baralhar e irritar quem utiliza a religião como carne para o seu canhão populista, e por encerrar pondo-lhe o carimbo de racista já com trânsito em julgado. Pelo meio, dominou exemplarmente a expressão facial (algo mais fácil para ela por causa da complementaridade entre a experiência teatral e a já longa liderança do BE) e despachou algumas mensagens de propaganda. Este plano funcionou dentro da sua limitação, ser apenas defensivo. Daí os respectivos eleitorados e os diversos comentadores terem ficado satisfeitos com a prestação da sua preferência.

Rui Tavares levou mais longe os ganhos de Catarina frente a quem explicitamente quer ser abjecto. Surgiu qual forcado, agarrando-se ao animal pelos cornos (o programa das 9 páginas) e não mais o largando. Também ele foi exemplar no domínio emocional e no aproveitamento do tempo disponível para estar sempre ao ataque, excepção para o momento em que foi buscar a sua actividade no Parlamento Europeu. A reductio ad Socratum a que a alimária teve de recorrer como cassete dá conta da sua consciência de estar a ser encostado às tábuas. Este debate foi muito eficaz para quem valorize a decência e a racionalidade cívica mas igualmente em nada perturbou a manada do Chega.

Por fim, vimos António Costa a ser medíocre com Ventura. Em seu abono, podemos reconhecer que Costa é sempre medíocre em campanha como líder, tendo começado a mostrar essa característica logo em 2014 no páreo com Seguro. Daí para a frente, o seu desempenho só piorou, acabando mesmo por também ter sido um dos responsáveis pela derrota de Medina em Lisboa. No caso deste debate, ter levado um truque para entalar Ventura (a conversa da vacina) pode parecer uma boa armadilha, algo que também poderia ter ocorrido à Catarina Martins e ao Rui Tavares, mas rapidamente se descobre ser nele um erro grosseiro. Porque Costa não é a Martins nem o Tavares, é o primeiro-ministro. E dá-se o caso de ser um dos melhores primeiros-ministros que já tivemos, o seu nome vai ficar gravado a ouro na História de Portugal por tudo o que já fez em conjunturas extraordinárias e, quem sabe, pelo que ainda poderá fazer. O cognome “de Boa Memória” assenta-lhe à medida. A diferença de competências políticas para o exercício do cargo entre a sua pessoa e a concorrência tange o absurdo – isto é, parece absurdo estarmos a ir a votos e ele arriscar-se a ser substituído por Rui Rio, esse disparate ambulante. Donde, o único plano que Costa precisava de ter com Ventura era o de extremar a pose de estadista, fazendo desse território o bastião onde o chorrilho de merda saído da boca do tratante se pulverizaria no nada que é. Em vez disso, concedeu-lhe a graça de mostrar que estava tão preocupado que tinha trazido munição com o seu nome. Ora, isso é logo um trunfo para quem sabe que o seu eleitorado é imune a qualquer hostilidade que seja dirigida ao seu ídolo, funcionando esse tipo de ataque como reforço da sua liderança por permitir confirmar que o inimigo está assustado. Ventura sabe que está a ganhar quando o seu adversário reage às suas provocações e o tenta agredir com armas iguais. É o nivelamento por baixo, a luta com o porco na lama, que desde o tempo das cavernas dá vantagens a quem tiver menos escrúpulos e mais violência para gastar.

O bate-boca final foi especialmente penoso, com Costa emocionalmente ferido a não respeitar a conclusão do debate ao interromper a última declaração de Ventura. Antes, ter ido buscar a tese de doutoramento foi perfeitamente inútil e só conseguiu voltar a deixar a impressão de lhe estar a dar importância como adversário. E ainda antes, ao lhe ter saído com sorrisos e risinhos que Ventura era “bem-falante”, atingiu-se o pináculo da negligência. Ó António, quem brinca a embaixador do Estado Novo e ameaça prender adversário políticos, quem se serve do discurso para insultar, ofender, ameaçar e humilhar seres humanos, em que hospício é que pode ser catalogado como “bem-falante”? Infelizmente, isto que descrevo não consegue ser o pior da prestação de Costa frente a Ventura. O pior aconteceu quando o taralhouco trouxe o exemplo do desemprego em Espanha e Costa apercebeu-se que ele não fazia a mínima ideia dos números em causa. E que fez o secretário-geral do PS, um dos políticos mais brilhantes da sua geração, com décadas e décadas a virar frangos nas lides políticas profissionais? Pois quase nada, deu-se por satisfeito com um leve apertão, assim esbanjando a oportunidade para dar uma estocada mortal e partir daí para o massacre.

Faz todo o sentido dar atenção a Ventura. Ele não é apenas mais um maluco à maneira de um José Pinto-Coelho, Tino de Rans ou Fernando Nobre (exemplos avulsos, díspares), largando bacoradas irrelevantes e inconsequentes. Ventura é um fruto do passismo, está bem financiado, tem a bênção de Cavaco e restante elite laranja, constituindo-se como braço armado do PSD. A lógica é a de conseguir agregar o voto na extrema-direita e captar voto na abstenção, mais o que cair do CDS e do PSD, para ter volume parlamentar capaz de gerar uma maioria de direita. É isto que está em causa, e terá o seu preço degradante se acontecer. Pelo que tem sido vexante ver como os democratas, especialmente a esquerda, lidam com ele. Ainda não entenderam que num debate com Ventura só o Ventura interessa. Esqueçam as próprias mensagens, esqueçam os truques para o entalar aqui ou ali, e concentrem-se em expor através de perguntas simples, objectivas, a grotesca indecência e deboche daquele bandalho. Basta continuar a fazer perguntas, ele tratará do resto.

Quem é que a Catarina Martins escolhe para liderar o PS?

De que se estaria a falar hoje em todos os órgãos de comunicação social se António Costa tivesse dito ontem que a Catarina Martins é o obstáculo que impede PS e Bloco de chegarem a um qualquer acordo? Quão horrorizados ficariam os bloquistas, e não só, com uma ingerência deste calibre? Quantas vezes repetiriam que tal frase era a prova provada de que Costa é um ditador que até nos partidos da oposição quer mandar, e que deve ser impedido por todos os meios de governar com maioria absoluta por ser um perigo para a democracia? Pois.

Os jornalistas têm alergia ao jornalismo

«Entendamo-nos: se debater com um demagogo que se especializa em dizer agora uma coisa e daqui a bocado o seu contrário (é ver as cambalhotas que o programa do partido tem dado nos últimos meses), em acusações torpes, em chistes, em interrupções e em invenções é sempre muito difícil, em 25 minutos é um tormento.

[...]

Mas, admitindo naturalmente que haja diferentes opiniões sobre como melhor enfrentar Ventura num debate deste tipo (sobretudo quando se disputa eleitorado, o que não é o caso de Catarina Martins), a questão é que a tarefa de o combater e àquilo que representa não compete apenas aos adversários políticos - é antes de mais até, defendo, do jornalismo. É aos jornalistas que compete contextualizar, expor falsidades, repor a verdade - e perante alguém que se especializa em ódio e mentira e na destruição da democracia, chame-se Trump ou André Ventura, não dá para entrar na desculpa da falsa "objetividade", muito menos para namoros a "killers".»

O “killer” Ventura e a normalização da mentira

Perante a inépcia revelada por quem debateu com Ventura nas presidenciais (Marcelo fazendo parte dos que se deixaram conspurcar), e face à vexante postura de Rui Rio no debate para as legislativas com o mesmo biltre e ao asqueroso espectáculo dado pelos comentadores ao debate de Catarina Martins com o mesmo traste, Fernanda Câncio escreveu o repto acima citado onde pede ajuda aos seus colegas jornalistas. Tanto aos que participam moderando como (ainda mais por terem maior disponibilidade) aos que comentam e analisam esses eventos. Pede-lhes que façam os mínimos, que sejam factuais perante um explorador da ignorância, da alienação e do ódio.

Ora, há algo de desesperado, ou então apenas estético, neste pedido. Porque os jornalistas, tirando as excepções que confirmam a regra, não estão nada de nada de nadinha de nada preocupados com o que o Ventura se lembre de dizer ou fazer. E é canja explicar o fenómeno. Este Ventura aparece-lhes como uma cópia do que eles adoram desprezar por inveja e cobardia, uma cópia do típico político. Não só há esse reconhecimento de ser o calhordas mais um actor a representar a sua rábula para o mercado eleitoral onde é uma boa marca, como a própria história do nascimento do Chega é banalmente canónica. Ele foi escolhido por uma das mais importantes figuras da direita portuguesa para ser o protagonista desta original e fundante experiência política: testar a eficácia da retórica racista, xenófoba e segregadora sob a chancela do PSD. Passos Coelho quis Ventura para fazer de Loures o laboratório do que, 4 anos mais tarde, Rui Rio validou nos Açores. Sem Passos, o messias que irá regressar para acabar de prender os socráticos todos, Ventura teria continuado na CMTV a falar de bola com outros grunhos.

Nem um pingo de exagero ou vestígios de miopia nesta constatação, temos de registar que toda a direita decadente aprova a estratégia – como se viu no levantamento de Cavaco, Ferreira Leite et alia para forçarem Rio a aceitar Ventura como parceiro de conquista do poder. E é esta direita quem dá trabalho aos jornalistas, não temos notícia de empresários socialistas ou esquerdolas a investirem na comunicação social. Das últimas vezes que se falou em tal, aquando da Prisa a comprar a TVI ou do lançamento do i, o resultado foi o casal Moniz e mais um pasquim populista. Logo, estar a pedir-lhes para boicotarem os interesses de quem paga as contas parece condenado à indiferença.

Se porventura o jornalismo cumprisse a missão de “contextualizar, expor falsidades, repor a verdade” como práxis – se por Ventura e por qualquer outro cidadão a merecer tal atenção os jornalistas aplicassem o que aprovaram como Código Deontológico – então o “Face Oculta”, a “Inventona de Belém” e a “Operação Marquês” ou não teriam sido possíveis ou teriam gerado o escândalo de regime que merecem.

Começa o ano com isto

A ideia de que as plantas são reservatórios de água, e que a rara chuva pode ser um bónus aquífero, enche-nos de esperança líquida e translúcida. Milhares de milhões de anos de engenharia biológica ainda sem paralelo tecnológico (com a fotossíntese no topo da sofisticação química e quântica) estão à disposição da nossa estupidez.

O conceito de ecossistema está em vias de entrar na racionalidade política, a qual tem sido marcada pela inteligência do mecanicismo. Temos escolhido políticos que prometem pôr o Estado e/ou a sociedade a “funcionar”. A maior parte não acredita no que promete mas alguns malucos levam essa megalomania demente a sério e provocam desastres ou ficam perigosos. Já na inteligência do ecossistema, o que está em causa é ligar simbioticamente o Estado e a sociedade. Ligar os diferentes e díspares elementos do todo humano numa organização onde convivamos com trocas que geram alimento recíproco.

Daí este vídeo, por exemplo entre milhares ou milhões de outros congéneres, também poder ser visto como uma semente política que nos permitirá tentar transformar desertos cívicos em florestas de segurança, dignidade e liberdade. Sem extremos, fazendo de cada ligação um centro tão importante como qualquer outro para a nossa “casa”.

Revolution through evolution

Substantial weight loss can reduce risk of severe COVID-19 complications, study finds
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Healthy diet in early pregnancy reduces risk of gestational diabetes
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Academic education can positively affect aging of the brain
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Evite as dores ao trabalhar em uma mesa
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New technique means head lice can provide clues about ancient people and migration
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High-resolution lab experiments show how cells ‘eat’
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3 Sales-Boosting Techniques by Adding New Value to Old Products

Dominguice

Não existe ninguém, neste planeta, que tenha uma visão holística da actual produção de conhecimento ao dispor da humanidade. Ser presidente dos EUA não garante tal, ser a pessoa mais rica do Mundo não garante tal, ter dois ou vinte prémios Nobel não garantiria tal. Começa logo por ser impossível porque parte do conhecimento mais profundo, complexo e avançado obtém-se sob modelos de segredo estatal e empresarial. Mas mesmo imaginando que haveria pleno acesso a essas fontes, um único indivíduo não conseguiria assimilar a quantidade de dados disponível. E se levarmos a hipótese para o seu grau delirante, em que essa fabulosa cachimónia tinha a capacidade de enfiar na memória o total da informação científica e tecnológica existente, nada tornava certo que ela depois conseguisse organizar os conteúdos para produzir algum tipo de conhecimento partilhável, entendível e útil.

Assim, o nosso fatal estado de ignorância não é uma carência nem uma falha. É uma luz que aponta para nós.