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A SIC N, as sanções que não houve e a Operação Marquês

Ocorreu-me, ao deparar-me com um painel de discussão inopinado ontem na SIC Notícias, pensar exatamente o que ocorreu pensar ao autor (ou autora) deste artigo, ao qual acedi via o blogue Estátua de Sal:

 

Apenas coincidências

 

A acrescentar ao dueto de jornalistas imbecis que integravam o painel, lembraram-se de pôr o José Gomes Ferreira a falar de Faro para ajudar à festa. Tinham mesmo a artilharia toda preparada. Que espetáculo degradante. Ainda por cima não havia nada de novo para discutir.

 

 

Lembram-se do Assange? Pois prefere Trump a Clinton

Ele próprio o afirmou numa entrevista ao canal inglês ITV antes da Convenção do Partido Democrático americano e próximo da publicação pela Wikileaks de e-mails pirateados da Comissão Democrática Nacional, que indicam que funcionários do partido apoiaram a título privado a nomeação presidencial de Hillary Clinton. (notícia no New York Times)

At one point, Mr. Peston said: “Plainly, what you are saying, what you are publishing, hurts Hillary Clinton. Would you prefer Trump to be president?

Mr. Assange replied that what Mr. Trump would do as president was “completely unpredictable.” By contrast, he thought it was predictable that Mrs. Clinton would wield power in two ways he found problematic.

First, citing his “personal perspective,” Mr. Assange accused Mrs. Clinton of having been among those pushing to indict him after WikiLeaks disseminated a quarter of a million diplomatic cables during her tenure as secretary of state.

“We do see her as a bit of a problem for freedom of the press more generally,” Mr. Assange said.

Freedom of the press“, diz ele. Sabendo que poderia dividir os democratas, acirrar os ânimos dos apoiantes de Bernie Sanders e favorecer assim, indiretamente, o candidato republicano, Assange usa da sua liberdade de imprensa, eventualmente garantida pelos russos, que parece preferirem também Trump, para vingar um ódio pessoal. De notar ainda como ser “totalmente imprevisível” (qualidade atribuída a Trump) é, para Assange, uma boa coisa. É caso para acreditar que está à espera de boas surpresas vindas do inenarrável candidato republicano.

 

Os jornalistas dos Panama Papers emudeceram para não levantarem ondas prejudiciais aos seus amigos; este publica fugas conseguidas sabe-se lá por quem para intervir politicamente em nome de uma vingança pessoal. São todos extraordinariamente isentos. Sim, é verdade que o New York Times, que também não tem que gostar do Trump e não gosta, sabe que o que publica tem uma intenção e também um efeito. A notícia é, porém, objetiva e pertinente. Dir-me-ão que o “leak” do Assange também era pertinente (embora quase ineficaz), porque ele preferia o Sanders (que não é má pessoa, só demasiado sonhador e utópico e com menos hipóteses de vencer a nomeação). Mas a verdade é que não era o Sanders que iria ganhar a nomeação e muito menos derrotar o Trump, caso tivesse sido nomeado. A questão é, pois, a seguinte: o Assange quer o Trump como presidente dos Estados Unidos? A sério?? Até o nosso PCP já conseguiu descortinar algumas diferenças entre os nossos dirigentes locais, quanto mais este pateta quando está em causa o governo da maior potência militar do planeta.

A honra de Cavaco versus a honra de Portugal

Louçã veio repescar o assunto da posição de Cavaco face às sanções, e meter lenha no braseiro – Cavaco Silva e a ignominiosa questão das sanções contra Portugal. Louçã assistiu às declarações de Cavaco no Conselho de Estado e neste texto entretém-se a dilacerar a sonsice da infeliz e degradante figura. Tudo se resume ao seguinte argumento: se Cavaco quisesse, já tinha esclarecido qual era a sua posição em relação à eventualidade de Portugal ser sancionado; como não esclareceu, conclui-se que não quer, e a explicação mais provável para esse silêncio remete para a notícia original sobre o que teria dito no Conselho de Estado.

Resumindo, mesmo que Lobo Xavier e Marques Mendes tenham vindo dar a cara por uma versão literalmente verosímil, na qual Cavaco realmente não teria usado o termo “sanção” ou “sanções” em nada do que disse, a boa interpretação desse discurso parece estar do lado daqueles que viram nas tais palavras uma apologia do castigo a Portugal para efeitos de desgaste e ataque ao actual Governo. Ou simplesmente por rancor.

A temática é política e até culturalmente importante, com Louçã a não sair dela ileso. Isto porque o que está em causa é um padrão que remonta a 2010, quando rebenta a crise das dívidas soberanas na Europa. A oposição, numa coligação negativa, explorou essa nova crise por cima da anterior de 2008 para atacar o Governo minoritário do PS. E valeu tudo, com o inestimável apoio de Cavaco a reger a orquestra. A lógica era a de que a direita não poderia deixar escapar as colossais dificuldades económicas e financeiras para alcançar o poder interrompendo a legislatura, e a de que a esquerda não poderia deixar escapar as colossais dificuldades económicas e financeiras para diminuir o PS em eleições especialmente difíceis para um Sócrates cercado por todos os lados. Foi o que alcançaram no dia 23 de Março de 2011, quando se uniram para impedir o acesso de Portugal a um programa similar ao que a Espanha usou para evitar o pedido de resgate. Os discursos da oposição ao tempo, fazendo eco do comício de Cavaco nessa mesma Assembleia da República duas semanas antes, comungavam na radical objecção a mais austeridade. Para a esquerda, porque tal ia tirar mais aos pobres. Para a direita, porque tal nos mantinha cada vez mais pobres. Porém, nem direita nem esquerda ignoravam quais seriam as consequências da rejeição do acordo consubstanciado no PEC IV: imediato agravamento dos problemas que esmagavam as contas públicas, com o periclitante acesso ao financiamento nos mercados a transformar-se numa miragem, e inevitável programa de emergência com o FMI e a Comissão Europeia a fazerem o que lhes apetecesse. A crise política aberta com esse chumbo, e o consequente afundamento do País contra o que seria o óbvio interesse nacional, tem responsáveis – um deles é Louçã, que igualmente colocou a cegueira ideológica e o cálculo oportunista à frente da comunidade por falta de grandeza enquanto líder político.

Seguiu-se uma campanha eleitoral onde nunca se registaram tantas e tão escabrosas mentiras do lado da oposição. Os reis da mentira foram Passos e o PSD, deixando um caudal de obscenidades que exibem o lado mais funesto do sistema democrático. Logo que se agarraram ao pote, inverteram o discurso e assumiram a retórica do crime e castigo onde os pobretanas dos portugueses teriam andado a viver “acima das suas possibilidades”, pelo que havia de fazê-los regressar à sua natural condição: a miséria. Foi isso que tentaram e conseguiram com a desculpa da Troika, numa devastação que atingiu milhões, só sendo travados numa pequena parte do seu plano de reengenharia económica e social pelo Tribunal Constitucional. E este vendaval de desprezo, mesmo ódio, aos compatriotas acontecia enquanto se passeavam com a bandeirinha na lapela – uma galeria de pinículos.

Passos continua a passear-se de bandeirinha ao colo. E continua a tentar usar os exércitos estrangeiros para tomar o poder em Portugal. Trata-se de uma pulsão que se perde na origem dos tempos, estando a História cheia de figuras menores que traíram os seus conterrâneos recorrendo a mercenários ou forças exteriores. O facto de Passos se entregar a essa vergonha sem que o PSD sequer liberte um vagido de protesto exibe com esplendor a decadência da actual direita portuguesa. E é aqui, precisamente, que o episódio de Cavaco no Conselho de Estado ganha uma relevância que transcende a temática das sanções e o actual momento político. É que também para Cavaco vale tudo para castigar os alvos do seu rancor, como se comprovou desde 2008 até ao resultado das eleições de 2015. E, a ser assim, então a conclusão é a de que a actual direita se transformou numa entidade onde já não existe qualquer noção do que seja o patriotismo. São agora, e apenas, uma máquina alucinada ao serviço das ambições individuais da oligarquia onde vegetam.

Religião e bestas

Não sei de nenhuma boa ação que um crente faça que um bom não crente não faça. Ao contrário de um crente, um não crente nunca matará em nome de uma religião. No entanto, tanto um crente como um não crente podem matar por qualquer outro motivo. Um crente, porém, mediante umas ladainhas, vai para o céu.

Para a vida pacífica em sociedade, é esta a importância que atribuo às normas e credos religiosos – nenhuma. Isto dito, do crime cometido ontem numa igreja em Saint-Etienne du Rouvray, extraio as seguintes conclusões:

  1. Felizmente, a frequência da missa era mínima; quase não havia quórum.

  1. Deus não impediu o ato cometido em nome de Alá na sua suposta casa. Trata-se, portanto, de um omnipotente que permite com divina indiferença que existam vítimas do amor por ele. A religião é de uma utilidade que me faz suspirar-

  1. Mortos os assassinos, que degolaram o pobre do padre no altar, ficámos sem saber se tinham ou não problemas psiquiátricos, para além do da adoração de Alá, o tal que venceu Deus numa igreja católica. Mas é indiferente, penso eu.

  1. Um dos assassinos estava já classificado de perigoso pelas autoridades e era vigiado eletronicamente por ter tentado viajar duas vezes para a Síria, mas – vamos rir – constava dos termos da sua libertação a interrupção dessa vigilância entre as 8h30 e as 12h30. O crime foi entre as 9h00 e as 11h00. A França era uma sociedade livre e despreocupada. Vai ter que mudar um pouco.

  1. As declarações de François Hollande a propósito foram confrangedoras. Andou tudo à volta da magnífica observação “Estamos em guerra com o DAESH.” Ora, numa altura em que já se percebeu que qualquer desequilibrado mental que saque de uma catana, faca, revólver ou bomba e desate a matar pessoas aqui no Ocidente depois de gritar que Alá é grande é imediatamente alistado, às vezes sem o saber, no exército de atacantes suicidas do “Estado Islâmico”, parece-me que haveria muitas coisas diferentes a dizer sobre estes crimes sem fazer inchar o ego das bestas com aspeto humano que se lembraram de “acelerar o apocalipse”, atribuindo-lhes a importância e o estatuto de inimigos (militares).

E nós nisto?

Eu sei que muitos dos leitores não dão grande crédito a Yannis Varoufakis e o acham demasiado vaidoso e provocatório (e agora uma espécie de Snowden, em vingativo, das manigâncias do Eurogrupo), mas, como mal não faz, convém ver estes cinco minutinhos de vídeo. O que nele se diz faz sentido e pode ajudar a esclarecer muita coisa sobre a atual União Europeia.

 

(Cheguei a este vídeo através do blogue “Um jeito manso“)

Ajudemos o bom do Nicolau Santos

"Soares e Cavaco têm o seu lugar garantido na História de Portugal. Mas para lá do papel político de cada um, o primeiro será também recordado pela sua empatia com o povo e o segundo pela sua rigidez, distanciamento e falta de jeito para lidar com esse mesmo povo, quando não pela inveja e pela pequena vingança."


Soares e Cavaco, duas homenagens diferentes

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Trata-se de uma descrição legítima, vai sem discussão, mas creio que podemos ajudar o Nicolau a conseguir uma reunião de vocábulos muito mais rigorosa e expressiva no que ao assunto em causa diz respeito. Por exemplo:

Soares e Cavaco têm o seu lugar garantido na História de Portugal. Mas para lá do papel político de cada um, o primeiro será também recordado como um herói da liberdade em Portugal e o segundo pela sua mesquinhez, velhacaria, ressabiamento e rancor ao lidar com esse mesmo Portugal, como ficou patente pelas suas campanhas de ódio contra Governos legítimos e pela sua responsabilidade em tentativas golpistas por si protagonizadas ou organizadas pela sua equipa presidencial, e ainda pelo seu desprezo pela Constituição quando tal servia os interesses de um Governo do seu partido.

Aceitam-se versões ainda mais exactas.

Alegria mesoatlântica

Só descobri esta pérola recentemente, embora tenha ocorrido em 2013. E provando o dito bíblico, ou fundamento capitalista, de que a quem muito tem muito será dado, eis que Caetano Veloso tem isto a dizer sobre o que se passou naquele palco naquele momento: Carminho e o nosso passarinho

Conhecer a história da canção, incluindo o diferendo de género entre Tom Jobim e Chico Buarque e as raízes da letra que vão dar a um poema onde se celebra a independência do Brasil pela mão de um poeta brasileiro nascido de um português e de uma mestiça em 1823, só acrescenta sentido, profundidade e beleza ao que ouvimos dos nossos compatriotas e ao que lemos do nosso irmão Caetano.

Saudades do Oriente romântico por nós inventado

O Oriente violento está agora mais próximo. Na Turquia, as dezenas de milhares de pessoas que, no âmbito de um golpe de Estado desta vez não falhado, estão a ser expulsas dos serviços públicos por suposta traição – professores, reitores de universidades, governadores civis, militares, polícias, magistrados, funcionários – vão fazer o quê, vão pensar e sentir o quê, vão viver do quê e vão viver onde? Como pensará Erdogan manter a paz no país? Fuzilando estas dezenas de milhares de pessoas? Abrindo-lhes as portas para a Europa, quer dizer, para a Grécia (olha quem) e a Bulgária, esperando que prossigam para bem mais longe? E se estas pessoas encontrarem muros (ou armas), que cada vez mais se erguem e erguerão, à medida que o número de atentados executados por muçulmanos e o sentimento anti-imigração forem aumentando na Europa?

É claro que o risco é grande de alguém disparar sobre Erdogan ainda antes. Mas, dado o apoio de que goza, não faltava mais nada à Europa do que uma Turquia em guerra civil. Se não acontecer, tenho um receio igualmente grande: uma vez o país islamizado, com as mesquitas a comandarem a rua, como parece já estar a acontecer, será muito difícil reverter a situação, como vemos nos países da chamada «primavera árabe». E assim ficaremos paredes meias com a barbárie e o obscurantismo, que pensávamos um pouco mais distantes. E, se o Ocidente se mostrar hostil, o que impedirá uma população islamizada de simpatizar com o DAESH? Há quem diga que já não antipatizam muito, nem a nível oficial.

Se alguém tiver uma solução para o problema que a neo-selvajaria, seduzida por – e inspirada na – violência gratuita de muitos filmes de Hollywood (basta ver a propaganda do EI), coloca à paz no mundo, que a anuncie. Por mim, coroá-lo ou coroá-la-ei rei ou rainha do universo. A tarefa exige grandes dotes intelectuais e estratégicos. E não vale estar constantemente, e sempre de modo incompleto, a falar nas causas e nas responsabilidades do Ocidente. O que está feito, está feito e a violência existe mesmo entre correntes do islão e data de há séculos. O Ocidente tem jogado com os antagonismos intrarreligiosos para defender os seus interesses em cada caso. O caso mais recente foi na Síria. Mas não esteve só. Os seus aliados árabes e muçulmanos (mesmo os pontuais) estabeleceram acordos e pactos com o Ocidente. Uma solução para o futuro é o que se precisa. Possivelmente não bastará a paciência (apostando que esta onda passará) e os milhões gastos em reforço da segurança, aliás, muito fácil de contornar por quem não tem problema nenhum em morrer. Estarão para breve ditaduras violentas também no Ocidente?

Uma péssima notícia a caminho

A hipótese de que Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, o autor da carnificina em Nice, não tenha sido treinado, sequer instruído, pelo “Estado Islâmico” não é uma boa notícia. Significa que para as autoridades poderá haver agora um perfil terrorista completamente imprevisível e potencialmente indetectável a não ser posteriormente ao ataque, durante ou na sua iminência. Lá se vai a prevenção e a contra-espionagem para o galheiro. Esse perfil corresponder a um contexto de psicose em qualquer grau e de qualquer tipologia só aumenta o elemento imprevisível, como se vê por este caso e pelo que se sabe da planificação efectuada.

Mas a hipótese, a confirmar-se, corresponderá a um ainda maior triunfo do “Estado Islâmico” enquanto organização criminosa, porque seria a evidência de estarem a fazer um excelente trabalho de promoção da sua marca. Uma marca cuja força mediatizada estabelece uma dinâmica bipolar – acabando por aparecer tão fascinante para quem a defende e segue como para quem a abomina e teme – que chega e sobra para gerar ataques devastadores contra alvos civis aleatórios sem carência de logística nem sequer de financiamento.

Para quem dirige esta onda de terror, o facto de os seus agentes espontâneos poderem ser doentes mentais que passaram a vida alheados do Islão, ou até a dizer mal do mesmo, é absolutamente indiferente. Melhor, será algo que agradecerão pois permite acrescentar à retórica do martírio a da redenção. Perfeito para quem está a instituir uma forma de domínio político tão violenta e potencialmente destrutiva como a do nazismo. E perfeito numa cultura religiosa onde não existe um centro doutrinário a unificar interpretações do Corão, antes essa autoridade está atomizada e consente todas as intenções que se queiram atribuir aos textos considerados sagrados.

Revolution through evolution

Truth is in danger as new techniques used to stop journalists covering the news
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The moral tipping point: Why it’s hard to shake a bad impression
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Study Shows Stark Differences in How Conservatives, Liberals Value Empirical Data
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New Book Explores Correlation Between Pornography, Violence Against Women
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Workplace Climate, Not Women’s ‘Nature,’ Responsible for Gender-Based Job Stress
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Faking to Finish – Women Feign Sexual Pleasure to End ‘Bad’ Sex
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Dads play key role in child development
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É um terrorista, não era?

Driver of truck in Nice attacks not known terrorist

 

Esta frase, lida no canal France24 em inglês, está a tornar-se demasiado comum. No entanto, “não era um terrorista conhecido” (ou “não era conhecido como terrorista”)  é uma frase um bocado estúpida de se ouvir, na minha modesta opinião. Hoje em dia, a estirpe “terrorista” nasce e morre extremamente depressa para o género humano. É terrorista, não era? – é uma observação cada vez mais plausível. Já se percebeu que muitos indivíduos aparentemente inofensivos não precisam de mais do que dois dias para cometerem loucuras como as de Nice ou de Paris (ou de Orlando). O que torna a estratégia de combate a este fenómeno muito mais complicada. O Estado Islâmico fez soltar muita loucura escondida. Ou muita confusão de valores.

Terrorismo e criatividade, segundo Marcelo

Há duas semanas, José Manuel Coelho desfraldou uma bandeira do auto-denominado “Estado Islâmico” no Parlamento da Madeira e na presença do Presidente da República. Qual era a intenção? Qual foi a mensagem? O homem tinha alguma razão para tal? Ou não passa de um infeliz, mais um chanfrado dos cornos com palco político e mediático? Não faço ideia nem pretendo gastar meia caloria à procura dessas respostas. Fiquei foi cheio de curiosidade a respeito de qual seria a reacção do sistema partidário, da imprensa, dos publicistas e da sociedade em geral. Apenas consegui encontrar uma posição pública, a de Marcelo:

“Este parlamento [da Madeira] é porventura o mais plural, mais diversificado do ponto de vista de opiniões em Portugal. Ainda mais que o parlamento nacional, mais que o parlamento regional açoriano.

Quando votei a Constituição em 1976, votei uma Constituição para ser aberta e ecuménica, [e com] as manifestações mais criativas. Portanto, a nossa democracia tem acompanhado essa criatividade, o que quer dizer que valeu a pena votar a Constituição.”

Usar uma ocasião solene num órgão de soberania onde se expressa a vontade popular de uma dada Região, e na presença do símbolo máximo da hierarquia do Estado, para publicitar uma organização criminosa cuja prática intencional consiste em matar e ferir civis, e ainda em cometer genocídios de invocação religiosa, equivale, para o actual Presidente da República, a expressar legitimamente a criatividade inscrita na Constituição. Como esta pessoa acumula com o seu estatuto presidencial o de principal jurisconsulto do Reino, estamos perante a produção de doutrina. Significa, se a ideia for a de respeitarmos Marcelo como ser supostamente na posse da totalidade das suas capacidades cognitivas e como agente político que fez um dado juramento prévio à assunção do cargo, que o mesmo José Manuel Coelho, ou outro deputado qualquer em qualquer Parlamento português, pode passar a desfraldar onde e quantas vezes quiser essa mesma bandeira, ou outra qualquer de alucinados iguais ou parecidos, e o mais que der na mona e que caiba na categoria “manifestação criativa”.

Na verdade, Marcelo representou na perfeição a comunidade onde exerce o seu magistério. Como se constatou, a ninguém incomodou que o maluco da Madeira fizesse mais uma das suas maluquices. A expressão “Mas já chegámos à Madeira?” não nasceu ontem, nem sequer neste século. São muitos anos de bananal, pelo que agora ninguém levanta sequer o sobrolho ao ver na mesma sala o Presidente da República, defensor juramentado da Constituição, e a bandeira que representa a maior ameaça à segurança e modo de vida das sociedades livres e democráticas. Assim, chutando para canto com uma banalidade de ocasião, escusando-se a sequer simular um módico incómodo, Marcelo levou o País inteiro para uma cumplicidade moral com este tipo de criminosos e seus crimes. Uma cumplicidade feita de complacência, evasão e medo.

Marcelo, que na sua anterior encarnação como “Professor” também se notabilizou por promover a complacência face à degradação e violação do Estado de direito, veio dizer à malta que a simbólica do “Estado Islâmico” tem em Portugal um país de acolhimento ao mais alto nível. Até nos órgãos de soberania ela é não só bem-vinda como fica valorizada enquanto expressão sublime da criatividade inscrita no nosso texto fundamental. E a malta concordou, aliviada.