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Segredo para não enjoar nestas eleições

As cartas de Costa aos indecisos tiveram o seu epílogo com HÁ OUTRO CAMINHO, HÁ UM CAMINHO MELHOR. É uma síntese das ideias e propostas apresentadas nas anteriores 7 cartas. E continua a exibir surpreendentes erros de comunicação.

A favor, está a iniciativa ela própria, a suposta tentativa de falar para indecisos, e o esforço para a resumir na última missiva. Corresponde ao contínuo trabalho de elaboração e depuração do programa eleitoral, ambiciosa tentativa de oferecer credibilidade técnica para as principais promessas a agitar em campanha. Contra, está o registo complicativo, verboso, convencional e serôdio de uma comunicação que não pretendeu mais do que ocupar calendário com peças destinadas a jornalistas. E que igualmente ficam como as cábulas e chavões que Costa irá repetir nos debates.

Farão um mau serviço ao PS – portanto, à democracia portuguesa – aqueles militantes e simpatizantes socialistas que abdiquem do seu sentido crítico. Se o perderem, mais nada nem ninguém lhes valerá no processo de formação do voto e sequente representação. À esquerda do PS, o sentido crítico é algo que só existe pela metade. É o reino do maniqueísmo, a tirania dos iluminados, onde a liberdade de pensamento e acção é o inimigo. Vigora um racismo ideológico que luta por todos os meios contra a alteridade. À direita do PS, o sentido crítico está transformado num circo de aberrações. Serve para produzir espectáculos grotescos, onde se mente e calunia à grande, à descarada, à fartazana, à doida e à portuguesinha. Passos e Portas são dois tristes trastes que resistem imaculados dado o estado de anemia e anomia do país que reelegeu Cavaco depois do que ele se mostrou capaz de fazer a partir da Presidência. Só no PS, e em independentes, se encontram os últimos resistentes contra a decadência triunfante.

Acho absolutamente escandaloso que em lado algum nestas cartas apareça uma proposta, sequer uma palavra, sobre a Justiça. Nada. Nada a respeito da morosidade fatal da nossa Justiça civil, que destrói riqueza e vidas. Nada a respeito do fecho dos tribunais encerrados pelo actual Governo. Nada a respeito das forças populistas que pressionam a Justiça para cometer injustiças em nome da luta contra a corrupção. E nada a respeito das estratégias e tácticas mediático-judiciais usadas pela direita contra o PS. Obviamente, e agravado por se tratar do partido esteio do regime, este absentismo que descura a defesa do Estado de direito e a qualidade da democracia não merece o meu voto. Os melhores têm mais responsabilidades, é a minha filosofia política de bolso.

Vai acontecer a Costa o que acontece aos treinadores da bola. Se ganhar com maioria absoluta, dirão que foi genial, que tudo o que fez e não fez, disse e não disse, nasceu de um talento divino. Se ganhar com maioria relativa, mas ainda assim com mais deputados do que a Coligação, dirão que não era possível ir além, que muito ele fez nas tão difíceis circunstâncias. Se ganhar com mais votos mas menos deputados do que a Coligação, só então os militantes e simpatizantes se atreverão a criticar esta merda de campanha. Se tiver menos votos do que a Coligação, sairá de cena como um dos maiores barretes na história da política nacional.

Para o nosso bem, dado que as coisas são como são, Costa deveria ganhar com maioria absoluta. Só que em caso algum a sua vitória, qualquer que seja, deverá ter como preço a anulação do sentido crítico que é a essência mesma da democracia. Se este for o nosso horizonte, como aconselham os marinheiros no mar alto, não enjoaremos a bordo. Seja qual for o resultado das eleições.

Obrigado, TVI

A TVI elaborou a lista dos 30 portugueses com mais poder em Portugal. Sérgio Figueiredo, ao promover a iniciativa, realçou que o poder não é discutido cá pela terrinha, daí o mérito e urgência da análise que iríamos finalmente poder fazer a respeito de tão magna questão. Acontece que depois o que saiu foi uma lista onde até a Cristina Ferreira, o Toni Carreira, o Ronaldo, o Mourinho, o Jorge Mendes e o Horta Osório têm lugar. A que se acrescenta um mistério: na redacção da TVI sabe-se que o poder de uns artistas de variedades e do pontapé na bola, mais o de um estrangeirado, é superior ao da Cofina ou do mero CM. De facto, o Sérgio tem razão. Existem em Portugal sérias dificuldades cognitivas na abordagem deste assunto, mesmo quando tratado por um grupo de cromos na matéria como devem ser os jornalistas da TVI.

Pois a montanha pariu um cavalo de raça. A conversa ocorrida entre João Cravinho e José Miguel Júdice, onde discutem a escolha, é imperdível. Cravinho passou o tempo todo a dizer ao José Alberto Carvalho que a lista devia entrar numa outra lista, a lista das coisas mais ridículas do ano de 2015, pelo menos, tamanha a grandeza dos disparates. Júdice aproveitou para deixar aquela que será a melhor explicação até agora conhecida no espaço público para o fenómeno de perversão da Justiça a que estamos a assistir. Dando como exemplo a disfunção de Carlos Alexandre, que deixou de se comportar como juiz dos direitos e garantias e passou a assumir o papel de super-polícia, fez o diagnóstico sistémico da reacção corporativa que está a unir as magistraturas do ministério público e a judicial numa aliança que gera um desequilíbrio cujo resultado não é a melhoria da Justiça mas antes o culto do magistrado justiceiro.

Esta interpretação, para além da sua razoabilidade e verosimilhança, permite abordar o problema sem necessidade de recorrer a teorias da conspiração, sejam corporativas ou partidárias. Permite até colocar a questão técnica relativa às condições psicológicas daqueles a quem se entrega tanto poder. Por exemplo, o Carlos Alexandre poderá ser alguém impecavelmente íntegro do ponto de vista legal e moral e ainda um exemplo sobre-humano de entrega ao trabalho. Todavia, basta que ele se arrogue a liberdade de abdicar da defesa dos arguidos até ao limite da Lei para já merecer o afastamento compulsivo. Onde é que estes tópicos se discutem? À porta fechada, lá nas catacumbas ou casamatas do edifício judicial, daí a relevância das palavras de Júdice. Se não me falha a memória, desde a última vez que estive a estudar o assunto na Wikipédia, a Justiça ainda é um dos pilares da vida comunitária e dos regimes democráticos, pelo que, se calhar, às tantas, vai na volta, até será algo sobre o qual os cidadãos deverão ter o melhor e mais exaustivo conhecimento que for possível obter.

Estamos perante 24 minutos de programa. O que dá à volta de 10 minutos para as declarações de Júdice. Nada mau. É que podia ser pior.

Ai Fernando, não estavas a trabalhar como deve ser

O diretor de informação da Lusa foi demitido pelo conselho de administração em pleno começo da campanha eleitoral. Fernando Paula Brito fora nomeado para o cargo logo após as últimas legislativas, em 2011, já com o atual governo em funções. É, assim, extraordinário, o modo como a presidente do dito conselho, Teresa Marques, quando confrontada pelo conselho de redação (CR) com a coincidência de tal medida com o período eleitoral, justifica a decisão.

Eis o que diz o Público (bold meu):

«Em comunicado, o CR refere que, na reunião com o CA, questionou Teresa Marques sobre o que a levou a mudar o director de informação no período pré-eleitoral e os motivos que estão na base dessa decisão, tendo “insistido na questão de o momento da escolha de mudança de DI poder ter uma leitura política (a um mês das eleições)”. Teresa Marques respondeu aos elementos do CR que “é um momento difícil mas não político”, porque momento político seria se a mudança fosse a seguir às eleições, garantindo que “não vai haver um mínimo de alteração em relação à forma como vai ser feita a cobertura das eleições”. Teresa Marques disse também ao CR que a Lusa tem de “aumentar receitas e reduzir custos e isso vai ser tudo menos reduzir pessoal”, sublinhando que a agência de notícias tem “capacidade interna para criar uma nova direcção de informação”.

A preocupação com a leitura política é partilhada pelos 35 editores e editores-adjuntos da Lusa que, em comunicado, manifestaram “incredulidade” com o “momento escolhido” para afastar a direcção de informação da agência noticiosa, considerando a decisão “inapropriada” devido à proximidade das legislativas.»

A ver se percebo: o atual diretor foi nomeado num chamado «momento político», certo? Certo e confirmado. Para evitar um «momento político» após as próximas eleições, depois de uma mudança de governo, assegura-se já o cargo ao Camacho?  É isto?

Respira-se tão mais desafogadamente agora.

O Pedro não foge de nada, menina, muito menos de si próprio

Este excerto – “O erro de Rangel foi não ter sido nada subtil” – entre uma experiente e destacada jornalista e um muito experiente e muitíssimo destacado comentarista tem importância como sintagma e como sintoma.

Tudo se passa entre o minuto 1.44 e 1.50., quando a Clara disse isto: “O próprio primeiro-ministro fugiu à questão. Não particularizou, falou em termos gerais.” O Miguel anuiu e desenvolveu uma banalidade, por sinal errada. Falavam da colossal calúnia de Rangel, a qual envolveu dois Governos e todo o sistema de Justiça.

Acontece que Passos não fugiu à questão, porra nenhuma. Ele confirmou o sentido das declarações de Rangel na sua extensão máxima. E no dia seguinte acrescentou mais difamações do mesmo teor. Donde, como explicar a alucinação de Clara de Sousa? Acaso ela não leu o Observador ou o Expresso, por exemplo, os quais exploraram felizes mais esse achincalho? Ou terá ela dificuldade em perceber a língua portuguesa quando tropeça na frase “há hoje uma avaliação mais positiva do funcionamento dos órgãos judiciais”?

Costa resolveu nada dizer face a um primeiro-ministro que acusa o PS e seus ex-governantes de cometerem crimes tão diabólicos que até conseguem perverter as instituições da República, a começar pela Procuradoria, passando pelos tribunais e acabando na Assembleia, incapaz de fiscalizar e deter a bandidagem em várias das mais altas hierarquias do Estado. Porque é isto que está em causa quando se pergunta: Alguém acredita que um primeiro-ministro seria investigado se o PS fosse Governo? Quem não acredita, como Rangel e Passos, terá a sua explicação a dar sobre o modo como o PS no Governo consegue impedir tais aborrecimentos. Seria maravilhoso que algum jornalista desenvolvesse o assunto pelo menos com o Rangel – mas não vai acontecer, pois não existe imprensa em Portugal.

Entretanto, a imagem do PS como pardieiro de corruptos corre solta durante a campanha, agora com a chancela de um eurodeputado e do primeiro-ministro. Quer-se dizer, já não é só o CM, o Sol, o Observador, a Judite, o Zé Manel, a Moura Guedes, o mano Costa, o caluniador pago pelo Público e a Helena Matos a fazerem coro. Isto agora fia mais fino, mete um barítono no palco. A jornalista Ângela Silva sintetizou bem o espírito de pândega com que a direita se entrega a estes exercícios de conspurcação máxima do regime e do espaço público:

Um misto de gozo interior e medo de estar a pisar uma bomba, eis um resumo possível da reação do PSD às polémicas declarações de Paulo Rangel na Universidade de Verão do partido.

Fonte

Clara de Sousa, tal como esta Ângela, branqueou as declarações e atitude de Passos. São estes sintagmas de uma comunicação dominada pelo laranjal que correspondem ao sintoma de sermos uma comunidade que assiste apática ou incrédula à descoberta de não ter ninguém que a defenda da decadência.

Triste convergência

A sétima carta de Costa aos indecisos – NOVO IMPULSO À CONVERGÊNCIA COM A EUROPA – é a mais intragável de todas. O tema não é só de uma complexidade técnica apenas acessível a especialistas em questões europeias, saiu também embrulhado por um registo que será fatalmente uma de duas coisas, ou hipócrita ou cínico. O respeito que Costa me merece como servidor público impede-me de aceitar como possível a terceira hipótese: a de ser hipócrita e cínico.

Hipócrita, porque a influência que Portugal pode exercer com vista a uma alteração das políticas europeias é algo que está na dependência de factores que não controlamos, sendo que no melhor dos cenários essa influência seria sempre complementar de outras que teriam assumido a transformação. Daí aparecer a referência a um documento assinado entre o PS e PSOE de que ninguém fora da vida partidária socialista ao mais alto nível ouviu falar ou tem interesse por. Fazer dessa folha de couve a primeira pedra do templo diz bem da completa impotência de um Governo português para mudar seja o que for nas forças que actualmente dirigem a Europa.

Cínico, porque se simula ter algo relevante para apresentar ao eleitorado, ainda por cima alegando que se está preocupado com os “indecisos”, quando este texto espremido não dá alimento a qualquer dúvida ou aspiração. Desafio, como exemplo, qualquer um a explicar o que é que este parágrafo quer dizer:

Portugal ganhou sempre que soube ser proativo e estar no centro do aprofundamento do projeto europeu. Claro que isso nos exige um esforço acrescido relativamente aos “grandes”, aos não “periféricos”, aos “ricos”. Mas é mesmo esse esforço que temos de fazer e por isso tenho dito que, neste momento em que se vão travar debates cruciais sobre o futuro da UE, devemos mesmo qualificar o peso governativo dos assuntos europeus, sem obviamente perturbar a orgânica dos serviços e da sua articulação com a rede diplomática.

Talvez a passagem mais interessante acabe por ser aquela em que o actual secretário-geral do PS se mostra amiguinho da direita decadente, aqui: “[…] se confiou que a redução das taxas de juro de que beneficiariam as economias periféricas permitiriam financiar os investimentos necessários, o que se traduziu num endividamento crescente, agravado, por vezes, por erros na escolha dos investimentos…” Endividamento crescente, erros na escolha dos investimentos e três pontinhos a convidarem o leitor a preencher o espaço em branco. É a cassete da década perdida, um dos grandes sucessos da campanha eleitoral em 2011. Ora, de quem e do quê está Costa a falar? Adoraria conhecer um desses investimentos errados de acordo com a sua opinião, pelo menos um. Quem nos poderá ajudar? Quem será aqui o intérprete oficial deste notável socialista capaz de identificar investimentos errados mas incapaz de permitir a avaliação do seu critério? Aposto que a Manela e o Pedro saberão responder sem qualquer hesitação.

Vejo-me obrigado a rever a minha posição inicial. Um líder que cultiva este grau de ambiguidade difamatória, nesta altura do campeonato, a respeito de questões tão polémicas e polarizadoras, está a escolher enfiar-se de cabeça tanto na hipocrisia como no cinismo. Triste e fatal convergência.

Dâmaso, sal e sede

Eduardo Dâmaso anda de cabeça perdida. Ontem saiu-se com este protesto:

Passos Coelho, na linha de Paulo Rangel, fez ontem uma exploração política do caso Sócrates. Sem dizer os nomes, criticou os políticos que alimentaram a promiscuidade entre bancos, governos e negócios. Que arranjaram maneira de dar ou pôr os bancos a dar dinheiro aos amigos. Quem não se lembrou logo de Sócrates, Vara e Santos Silva? A estratégia de trazer Sócrates para a campanha parece um pouco suicida. António Costa tem sabido blindar o PS ao desgaste do caso Sócrates e a ideia de que todos os socialistas são iguais na maldade é absurda. Para lá de parecer desesperada, coisa que raramente rende muitos votos.

Estratégia suicida

Continuando alarmado, hoje fez este:

Regressemos à desastrosa estratégia escolhida pelo PSD de trazer os casos de Sócrates para a campanha eleitoral. Para lá de ser incendiária, é desqualificadora de toda a política e de todos os políticos. Paulo Rangel colocou-se na patética posição de porta-voz de uma espécie de pureza originária, como se fosse essa a marca genética de todo o PSD. Não é, bem pelo contrário. Rangel manipulou a realidade histórica e política, pois sabe que tem dentro do partido pessoas que convivem muito mal com a independência e autonomia do poder judicial, a começar por alguns dos antigos setores cavaquistas e a acabar em Rui Rio, que a direção do PSD quer meter em Belém.

Ainda o PSD e Sócrates

Que se passa? Passa-se que o tiro de Rangel, em parte, saiu pela culatra. Ter o DN e o mano Costa a apontarem baterias contra a enésima calúnia da direita a respeito do PS deixou o caluniador-mor à beira de um ataque de nervos. Assim não, veio ele a correr berrar para o laranjal. Continuem o mais sonsos que puderem que nós tratamos aqui do trabalhinho diário de apascentar os borregos. Nada de chamar as atenções para o que realmente se está a passar: foi preciso termos uma Maioria, um Governo, um Presidente e uma Procuradora-Geral do PSD para se prender um ex-primeiro-ministro socialista, ex-secretário-geral do PS, num ano eleitoral e sem provas. Evidentemente, segue a lógica, isto com o PS não se passaria. Mas, às tantas, não se passaria porque com o PS não haveria qualquer possibilidade de interferência na Justiça, como a sucessão imparável de casos judiciais a envolverem Sócrates demonstrou ao longo dos anos em que teve poder político, poderão alguns pensar. Eis o receio do Dâmaso.

O louvor a Costa é também um primor. Ali para os lados do esgoto a céu aberto aprecia-se a passividade demonstrada, e dá-se um rebuçado como prémio: nem todos os socialistas são iguais na maldade, que absurdo; obviamente, há socialistas com muito mais maldade, muito mais ruins, do que outros, então não se vê logo?!

Dâmaso avisa que, caso se continue a estragar a operação Sócrates, ele até é menino para vir falar de uns fulanos do PSD “que convivem muito mal com a independência e autonomia do poder judicial”. Quem serão, não sabemos, dado que no CM nunca apareceram. Mas o Rio que se cuide. Ou se portam bem ou até essa vedeta leva nas orelhas.

Este Dâmaso não se atrapalha. O sal das calúnias conserva o País atrofiado e aumenta a sede por mais. Ai de quem lhe estragar o negócio.

Não são os números, são as imagens, estúpido

A sexta carta de Costa aos indecisos – EMPREGO, A CAUSA DAS CAUSAS – é melhor do que as anteriores. Abre com um registo personalizado, em vez dos registos genéricos e abstractizantes, e expressa uma emotividade que, por estar inserida na voz própria, se aceita genuína. O tema também ajuda, pois nada há para justificar, só para prometer. Ocasião para referir outra pecha transversal ao conjunto das cartas.

Ironicamente, é Costa quem assina a frase “Há que saber ler os números, sobretudo os bons indicadores, de modo a evitar ilusões que nos afastem das prioridades certas“. De facto, o senhor está coberto de razão. Primeiro, porque são poucos os que sabem ler os números – sejam esses números quais forem, quanto mais os da economia. Depois, porque serão ainda menos os que conseguirão ler os bons indicadores de modo a evitar ilusões que nos afastem das prioridades certas – tarefa do camandro, homérica, a qual será inevitavelmente combatida por interpretações concorrentes. Quando se misturam indecisos nesta betoneira, o que sai é uma conclusão rudemente concreta: alguém terá de ajudar a malta a ler os números.

Espanta que estas peças não recorram a nenhum tipo de infografia, optando antes por deixar para um texto denso a despesa da assimilação de ideias com graus de complexidade sempre acima das capacidades do leitor médio. Tal leva a que apenas jornalistas, para fins de citação e resumo, consigam aproveitar a informação publicada. Os pobres coitados dos indecisos ficam obrigados ao estudo aturado das cartas apenas com os seus recursos de literacia à disposição. Ora, a infografia, enquanto disciplina de comunicação, tem como vocação criar acessos à complexidade da forma mais económica, tanto de esforço cognitivo como de tempo. Estar em 2015, a liderar a oposição, com elevadas probabilidades de vencer as eleições, e comunicar como se o ano fosse 1815 e nada existisse à disposição dos políticos senão papeis carregados de palavras é mais do que uma curiosidade. É assunto que merecia estudo.

Será que a este PS já chegou a boa-nova da invenção da Internet?

Justiça popular, pede Rangel

Acresce que nem todos terão percebido, mas o programa de ajustamento, com o seu tremendo rigor, criou um clima de exigência e de moralização na sociedade. E isso deu força aos cidadãos para reclamarem um comportamento exemplar e a punição de todos os abusos. E com isso, criou um ambiente e uma cultura favoráveis a uma actuação mais vigorosa das magistraturas. A par disso, a atitude de reserva e neutralidade do Primeiro-Ministro, o apego da Ministra da Justiça à autonomia da investigação e da independência judicial criaram um clima de desanuviamento. Insisto: a perseguição dos poderosos na política ou na finança não é obra do governo, mas o clima social, a disposição popular e atitude dos responsáveis políticos criam um ambiente favorável a um exercício são e pleno da justiça. Foi isto que disse e é isto que reitero.


Apenas mais um pulha na cultura da pulhice a que está reduzida a direita portuguesa

Haja alguém que faça chegar este pedido à Procuradora-Geral da República, faxavor

Ficámos a saber, por revelação do eurodeputado Paulo Rangel, que as investigações criminais sobre Ricardo Espírito Santo e sobre Sócrates existem por obra e graça do Governo PSD-CDS. Ora, como é suposto que, de acordo com a Constituição, a investigação criminal é conduzida de forma independente pelo Ministério Público sem ingerência governamental, impõe-se urgentemente que a Procuradora-Geral da República esclareça que não recebeu nenhuma instrução ou recomendação do Governo (Ministro da Justiça ou Primeiro-Ministro) sobre os dois casos.

De outro modo fica a pairar uma grave dúvida sobre o respeito da separação de poderes pelo atual Governo.


Dupla revelação

A austeridade dava um livro

Na quinta carta aos indecisos – VIRAR A PÁGINA DA AUSTERIDADE, RELANÇAR A ECONOMIA – a matéria prestava-se a uma lição magistral. Afinal, se há questão da actualidade política que provoca mais dúvidas, mesmo entre supostos peritos em economia, é essa da racionalidade das políticas austeritárias seguidas na Europa a partir de meados de 2010. Inevitáveis? Duvidoso. Eficazes? Ainda mais duvidoso. De quem é a culpa? A direita diz que é do PS. O PS, desde Junho de 2011, nada diz.

A metáfora usada neste texto para [não] contar a história da austeridade em Portugal consiste na expressão “virar a página”. Impossível ser mais transparente: há que deixar o passado no passado, na página anterior, e tratarmos do futuro. Já chega de escarafunchar no PEC IV e no Memorando. Passemos para uma nova fase. Avancemos libertos dessa canga e dessa ganga. Viremos a página, pedem os socialistas.

Este absentismo, esta auto-anulamento, tem consequências eleitorais. Ao abdicar de lutar pela sua narrativa acerca das circunstâncias que nos levaram para a forma mais radical da austeridade, onde à Troika se juntou um Governo de fanáticos pelo empobrecimento, o PS deixa que se sedimente a ideia de que austeridade é o justo castigo pelos pecados cometidos enquanto Sócrates governou. Com isso, perde a razão moral para criticar o Governo quando este alega que teve de tomar as medidas que tomou por causa dos erros que herdou e por causa da necessidade de salvar o País. Resultado: o tópico do “foram além da Troika” perde impacto, relevância e até sentido. E não só, as próprias medidas de recuperação económica, essa promessa de meter mais dinheiro no bolso da classe média, ficam sujeitas à acusação de serem o regresso ao tal passado que nos trouxe a bancarrota, a austeridade e o sacrifício do Pedro para nos salvar.

Esta carta é mais um clamoroso falhanço político e de comunicação. Se os seus eventuais leitores fossem interrogados no final da leitura acerca do que o PS pretende fazer para “virar a página da austeridade”, não haveria um único que conseguisse dar uma resposta satisfatória. Nem mesmo a olhar para a página.

Costa concorda com Passos?

Creio que será a primeira vez que tal acontece: um jornal de referência assume criticar editorialmente a judicialização da política feita pela direita. Aconteceu pelo teclado do Nuno Saraiva – Baixa política – e desconfio que tal apenas tenha sido possível porque as declarações de Paulo Rangel remetem para o grau extremo da judicialização da política: a politização da Justiça.

Saraiva tem sido um incansável anti-socrático ao longo dos anos, isto na fase anterior à sua recente ida a Évora, pelo que essa prática intensa acrescenta-lhe mérito na sua actual denúncia. Mas, quer-se dizer, chega um bocadinho atrasada, né? É que esta estratégia de diabolizar o PS como agremiação criminosa, num vale tudo que até mete golpadas mediático-judiciais, começou em 2004. E contínua imparável, como este episódio do Rangel comprova.

Há algo de bizarro, ridículo e patético na passividade com que o País convive com uma prática política que consiste apenas em caluniar como corruptos os adversários. Isto é feito pela indústria da calúnia e pela elite do PSD e CDS com efeitos imediatos na opinião pública. Quem perdesse uma parte preciosa da sua vida a ouvir as gravações do que os deputados da direita disseram no Parlamento ao longo das três últimas legislaturas, concluiria que 70% consistiu em variações desta ideia: “Os socialistas são ladrões”.

Sintomaticamente, até o Saraiva acaba por desvalorizar, senão mesmo apagar, o aspecto mais grave nas declarações de Rangel. Que é isto:

De visita à feira agrícola AGRIVAL, em Penafiel, e questionado pelos jornalistas sobre as declarações de Rangel, Passos preferiu generalizar, negando-se a falar de casos concretos. “Os portugueses avaliam a justiça de uma forma mais positiva do que no passado”. Sobre Rangel, vê nele um “observador atento”. Passos disse ainda que “há hoje uma avaliação mais positiva do funcionamento dos órgãos judiciais”, rematando: “Não há uma sociedade de confiança sem que a justiça funcione”.

Ou seja, Passos concorda com Rangel. Sem qualquer surpresa, pois, vindo do homem que anunciou pretender criminalizar governantes socialistas por razões políticas, que escolheu para ministra da Justiça aquele ser que decretou “o fim da impunidade”, e que atacou um cidadão arguido sem acusação formada como se já estivesse julgado e condenado com trânsito em julgado. Se puxarem por ele, repetirá ipsis verbis a cassete dos pulhas, onde Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento não podem faltar como alvos preferidos. Hoje mesmo, voltou a difamar o PS fazendo associações que colam aos socialistas a marca da corrupção.

Não há nenhum enigma sobre as razões que levam esta direita portuguesa a apostar todas as fichas na chicana, na calúnia e no culto do ódio. Isso faz-se em Portugal como em qualquer outro país, nesta época como em qualquer outra. Faz-se quando não existe um escol dirigente e o poder partidário fica nas mãos dos arrivistas. O grande enigma, neste momento, é António Costa. A ausência de resposta às declarações de um primeiro-ministro que marca a ferro e fogo o PS como sendo um bando dos piores criminosos que já surgiram na História portuguesa, pela escala e vilania dos seus actos, é inexplicável.

O PS, ao optar por sofrer estes ataques calado, está a consentir. Foi a opção de Seguro, pelas razões conhecidas. Parece ser agora a de um partido que perdeu o respeito por si próprio e por quem representa.

Revolution through evolution

Predicting who will murder his wife or his family
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Want a better relationship and a better sex life?
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Women more likely than men to initiate divorces, but not non-marital breakups
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Romantic opportunities appear to influence women’s sexual identities, but not men’s
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TV’s subliminal influence on women’s perception of pregnancy and birth
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Unmarried women: Politically cohesive, more concerned about women’s status
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Older adults possess important forms of expertise
Continuar a lerRevolution through evolution

Nem o Estado social, caramba

De par com a opção entre a inovação e o empobrecimento como modelos de desenvolvimento, a segunda opção de fundo que se coloca nestas eleições centra-se na defesa da segurança social, do Serviço Nacional de Saúde e da escola pública, garantias de uma sociedade decente assente no valor supremo da dignidade da pessoa humana.

DEFENDER OS SERVIÇOS PÚBLICOS, CONTRA A SUA PRIVATIZAÇÃO

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Num tempo em que a União Europeia está assolada por uma ideologia da austeridade, e num país onde a democracia foi instaurada pelo 25 de Abril, a bandeira do Estado social é a causa principal para separar a esquerda desta direita fanática e decadente, por um lado, e para unir toda a esquerda num ideal comum, por outro. Todavia, e apesar de contar com um primeiro-ministro e respectivo Governo que deram copiosos exemplos de ódio a um modelo político que uniu e desenvolveu Portugal ao longo de quatro décadas, o PS nem esse posicionamento consegue assumir com eficácia, como a campanha e esta carta expõem espectacularmente.

O que é o Estado social? Quem tem mais de 50 anos saberá responder de ginjeira, pois viveu em consciência a sua falta, esse sonho. Quem tem menos de 50 anos saberá cada vez menos, e pior, à medida que descermos na escala etária. Resultado: há uma imensa minoria que precisa de ser educada a respeito do que significa, e do que oferece, a democratização e qualificação dos serviços do Estado nas áreas da saúde, da educação e do apoio social. Isto é, há um trabalho de politização para fazer, se não for de mera educação ao nível da cultura geral, a respeito do conceito, história e futuro do Estado social.

Na carta onde o líder socialista nos fala das suas intenções para a defesa dos serviços públicos, alguém decidiu que seria indicado abrir o texto com o parágrafo que cito acima. Trata-se de um naco de prosa notável. Notável pela dificuldade na sua assimilação, pois começa por desviar as atenções para uma opção anterior, aqui irrelevante, e depois coloca a referência ao Estado social num cenário sem dramatismo político, onde não há vilões a ameaçarem a sua existência. O endosso para o “valor supremo da dignidade da pessoa humana” limpa a questão de pathos ideológico e partidário, convocando referentes que sugerem a doutrina católica ou, no mínimo, a herança cristã. O segundo parágrafo continua neste registo simpático, enciclopédico, esterilizado. Será preciso chegar a meio do texto para encontrar a mensagem que devia ser a primeira a comandar a carga: esta direita pretende desviar o máximo de recursos que puder do Estado social para o tecido empresarial privado, tal como ocorria no Portugal do Estado Novo. Isso é demonstrável com declarações, decisões e números. Mas a carta prefere o paleio para jornalistas que não toca a reunir entre as hostes.

Face ao que está em causa nesta reengenharia social do regime e da comunidade que os fanáticos só não levarão a cabo se não puderem, a passividade e desorientação do PS, incapaz até nisto de mostrar força, é algo que ninguém de ninguém teria há um ano previsto que viria a acontecer. Inacreditável.

No país do CM

O Correio da Manhã está em campanha para condicionar Rui Rangel – Rui Rangel já criticou publicamente a investigação – pretendendo o esgoto a céu aberto uma de duas coisas: ou que Rangel recuse o processo ou que Rangel recuse conceder qualquer valimento às teses da defesa.

Esta é uma oportunidade para dizer que o pasquim tem razão do ponto de vista da independência percebida. Rangel já se pronunciou sobre o caso e fê-lo de forma crítica para a Justiça. Não tendo o seu carácter ficado comprometido, qualquer decisão sua, caso venha a julgar o recurso, não conseguirá escapar à conspurcação mediática que os trastes estão a fazer.

O CM não se limita a agir com soberba impunidade, aproveitando todas as oportunidades para se impor como poder fáctico acima das instituições da República, sejam partidos, Justiça ou Parlamento. A forma como neste jornal se persegue Sócrates – portanto, o PS; logo, a democracia – despejando dados da investigação, verdadeiros ou falsos, a seguir a cada declaração pública de Sócrates, e fazendo contínuos editoriais onde a sua culpabilidade é dada como certeza absoluta, não suscita mais do que um ou outro protesto, e só daqueles para desabafar. Acontece que este jornal tem uma cobertura muito maior do que a da sua tiragem, onde já é líder. Este jornalismo “popular” é lido em inúmeros locais públicos, canalizando o apelo populista contra os políticos – nascido da crise, da iliteracia e do envelhecimento – para os alvos socialistas, cujo maior símbolo e troféu de caça é Sócrates. O povinho não está interessado nos amanhãs do Jerónimo, o povinho acha é que a condenação de Sócrates e restante malandragem já devia ter sido despachada ontem.

Mas para quê estar a perder tempo com este assunto se nem sequer o PS está preocupado? Bom, é porque o que está em causa não diz só respeito, nem fundamentalmente, ao PS. Um país com medo do CM pode ser algo que agrade ao PSD e ao CDS, os beneficiários políticos das canalhices. Não me parece é que passar a vida com medo destes pulhas valha a pena.

Falando de inovação, onde está ela?

Esta é a primeira opção de fundo que temos de fazer nestas eleições. A minha escolha é clara e é essa que vos proponho. Defendo um modelo de desenvolvimento assente no investimento no conhecimento e na inovação e no combate à precariedade e ao empobrecimento.

Até amanhã, os meus melhores cumprimentos.

António Costa

O CONHECIMENTO E A INOVAÇÃO SÃO A CHAVE DO DESENVOLVIMENTO

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À terceira carta de Costa, começaram a ficar cabeludos os erros de comunicação que, também aqui, estão a ser cometidos na campanha socialista. Neste caso, estamos perante uma temática de nicho. Qual a percentagem de eleitores que dorme mal à noite por causa do que o actual Governo faz ou deixa de fazer em relação ao “conhecimento” e à “inovação”? O desempregado pensa nisso? O aposentado pensa nisso? O leitor do Correio da Manhã pensa nisso? Mesmo entre os licenciados, quantos pensaram alguma vez nisso? E mais: entre os que colocam no topo da sua hierarquia de prioridades e valores políticos o investimento em ciência e a inovação, quantos desses estarão indecisos? A estar alguém, neste grupo tão intelectualmente qualificado e tão abundantemente informado, será em relação a quê ou a quem? Aqui chegados, o problema da indecisão nestas andanças não parece fazer sentido.

Estas peças sofrem de uma insanável contradição: apresentando-se como “cartas”, o que suporia um registo coloquial e envolvente, são na prática textos de tempo de antena, apenas servindo para oferecer aos jornalistas um press release do qual se farão uns resumos e uns títulos. Não está ninguém do lado de lá das palavras a tentar falar com uma audiência de eleitores, quanto mais de indecisos. O alvo são jornalistas e o código é convencional, onde as fórmulas são redondas e ocas. Repare-se como termina a carta, proclamando uma “escolha clara” que ninguém, mesmo que leia a missiva 100 vezes, conseguirá consubstanciar em algo tangível.

Um texto pensado para ter impacto político que construísse o argumentário capaz de desfazer uma eventual indecisão nesta temática a favor do voto no PS abriria com a passagem onde se faz referência ao período de 2005 a 2008 e aos investimentos anteriores a 2011. E depois continuaria aí até meio ou nos dois terços seguintes. Porque esse é o currículo do PS, a obra feita, demonstrável nas suas intenções e resultados. Esse é o poder de fogo a usar contra uma pulsão que, a coberto do estado de emergência financeira, tem raízes num ultramontanismo larvar na direita portuguesa. Em vez disso, a carta fica-se por um discurso genérico, por exemplos abstractos e por redundâncias. É material para colóquios inúteis e plateias bocejantes.

O narrador destas cartas escreve num registo que mistura a simulação de uma oralidade, introduzindo pontos de exclamação e reticências, com a pose pedagógica, colocando interrogações metodológicas, maiêuticas. Estamos a ouvir um professor, não um político. Mas o problema maior ainda é o azar de o professor ser chato.