Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Paulo Rangel é o mais capaz para levar o PSD a expulsar o CDS do Parlamento. Porque este homem alia um apurado belicismo verbal à demagogia em último grau. Com ele a liderar o PSD, aquilo que a Manela não soube fazer por inépcia fatal seria então levado para um patamar de eficácia imparável e trituradora. A direita reaccionária e ressabiada vê nele a solução para pôr isto na ordem.

Repare-se no que a figurinha conseguiu fazer em poucos dias. Na quinta-feira de altíssima especulação com a dívida de Portugal, ao mesmo tempo que a bolsa se afundava e deixava a direita do capital em pânico cá no burgo, Rangel – um eurodeputado! – veio dizer o que Almunia nem sequer ousaria pensar: que Portugal estava em situação igual à da Grécia e que poderia brevemente até ficar pior. Estas afirmações, naquele dia e ditas por um político com o seu estatuto, são absolutamente irresponsáveis, se não forem antipatrióticas. E é essa a ideia que se retira do que declarou Cavaco, logo no dia seguinte:

Eu confio que os analistas externos que olham para Portugal e a própria Comissão – que fez através de um seu comissário uma declaração que eu considero infeliz e incorreta – espero que rapidamente corrijam essa apreciação em relação a Portugal. Porque não é só uma questão de injustiça, é uma questão de incorreção e eu posso afirmar isso correctamente.

Esta não é uma distraída estalada na cara do Rangel, trata-se de um pontapé nos túbaros, seguido de sessão de aconchego com pau de marmeleiro. Se o Almunia, nas palavras do Presidente da República, foi infeliz e incorrecto, que dizer da pulhice do Rangel, que vilipendia o interesse nacional para obter ganhos políticos que só existem na sua cabecinha oportunista? E alguém ouviu alguma crítica às suas declarações? Alguém ouviu algum pedido de desculpas?

O que se ouviu foi outra coisa, o novo delírio de um irresponsável para quem vale tudo:

Eu queria denunciar aqui aquilo que se está a passar em Portugal neste momento, onde é claro que a comunicação social trouxe à luz um plano do Governo para controlar os jornais, para controlar estações de televisão, para controlar estações de rádio.

Rangel está a insinuar que o Procurador-Geral e o Presidente do Supremo são cúmplices deste suposto plano. Rangel quer, por sua vez, chegar à presidência do PSD. A acontecer, será a primeira vez que um partido com vocação de governo será liderado por alguém que caluniou a hierarquia máxima do sistema de Justiça, e isto apenas 4 dias depois de ter tentado prejudicar a imagem de Portugal de modo a agravar as suas dificuldades financeiras.

Os abutres alimentam-se de cadáveres em decomposição. Não admira que Rangel seja uma das causas da putrefacção da política nacional.

O Rei Bettencourt fugiu para o Brasil na altura em que o seu general ia ao Porto para uma batalha decisiva. Findo o pleito em desgraça, o Rei mandou dizer que o exército o tinha deixado envergonhado – assim acrescentando à pesada derrota a humilhação suprema para a equipa de sofrer o desprezo dos seus. Dias depois, o exército voltou a ser vencido, agora entre muros e por um corpo expedicionário.

Obviamente, este Rei não pertence a este Reino.

O militante nº1 do PSD é o dono de um dos maiores grupos de comunicação social, a TVI segue uma linha editorial oposicionista mesmo após o fim daquele show de assassinato de carácter às sextas, o Público teve até há pouco tempo a função de lançar campanhas difamatórias contra Sócrates e foi protagonista de uma tentativa de viciação das eleições Legislativas, o Sol e o Correio da Manhã furam o segredo de Justiça exclusivamente dos processos que podem prejudicar o Governo e Sócrates, a RTP é tão isenta que até um doente como Pacheco Pereira tem de andar de cronómetro a contar os segundos do Jornal da Tarde para ter o que envenenar, a Antena 1 foi forçada a interromper uma inócua e criativa campanha de promoção sob a demente alegação de que pretendia acabar com o direito à manifestação, a Igreja domina uma fatia importante do espaço radiofónico, as histéricas vedetas do BE são a coqueluche da comunicação social há anos e anos, o PCP louva a Coreia do Norte no Avante, o jornal i é abertamente oposicionista quando os caluniadores afiançavam que iria estar ao serviço do PS, a Constituição salvaguarda a liberdade de expressão e demais princípios democráticos, existem inúmeros garantes legais e cívicos que tornam impossível a existência da censura, o ambiente é de constante calúnia e perseguição para quem vocaliza o seu apoio ao Governo – já se tendo chegado à fase em que se atacam aqueles que não atacam Sócrates! – e qualquer macaco diz o que quer e lhe apetece em casa, na rua e na Internet.

Mesmo assim, reaças e comunas vão dar os braços para defenderem uma enigmática liberdade de expressão que dizem estar ameaçada por um negócio que nunca existiu. Para cúmulo, as informações acerca do negócio começaram por ser usadas em manobras políticas esconsas e vis. Depois, a Justiça não encontrou matéria criminal nessas informações. E agora elas chegam ao conhecimento público de forma enviesada e parcelar, levando à actual exibição do apetite violento para usar a privacidade como arma de destruição política.

Comunas e reaças sabem bem o que os une. Desde sempre.

O populismo nasce sempre da exploração do ódio. A turbamulta é atiçada pela promessa de sangue fácil, de crime anónimo, de cobardia celerada. Para conseguir essa união de indivíduos com interesses tão díspares, até contrários, é preciso encontrar uma narrativa primária a que todos possam aderir, incluindo os que tenham as maiores dificuldades cognitivas, educativas e intelectuais. A falta de escrúpulos, perene ou momentânea, é o cimento que dá força a esta frente.

E é de frentismo que falamos desde finais de 2007, o período que coincide com a contestação a Correia de Campos, o desenlace da crise no BCP e o descalabro do BPN e BPP. De 2008 em diante, figuras ligadas a Cavaco Silva apareceram a defender o reforço dos poderes presidenciais, soluções governativas de iniciativa presidencial e até o abandono do semi-presidencialismo. Misturavam estas propostas com a retórica da explosão social caótica, promoviam cenários catastrofistas e de violência indefinida. O caso não era para menos: o maior abalo no tecido sociológico da direita tinha acontecido com a alteração no controlo do BCP, resultado da queda da mítica figura que unia a alta finança à santidade. Logo depois, veio a evidência de que parte do círculo cavaquista mais íntimo, tão íntimo que até tinha conseguido abancar no Conselho de Estado, frequentava um antro de escroques. A direita dos lusos negócios, pois, entrou em pânico e em modo de guerra total. Sentiram-se cercados, o chão a fugir-lhes debaixo dos pés. A quem iriam agora recorrer para obter financiamentos, fazer jogadas bancárias, deslocar capitais? Ao Santos Ferreira? Ao Vara?! Exigia-se vingança.

É sintomático que a resposta da direita à inventona de Belém tenha começado por ser a adesão entusiasmada, tendo sido logo aproveitada pelo PSD, e depois viesse a acabar no silêncio acabrunhado. Uma já assumida manobra de conspiração a partir da Casa Civil, a 1 mês das eleições Legislativas, ainda por cima tendo ficado sem responsabilização, revelou a duplicidade de critérios e a decadência cívica, moral e ética da actual direita. Por isso, ver no caso Face Oculta o aproveitamento da ilegalidade e da falência do Estado de direito – onde há agentes da Justiça e da comunicação social que são actores políticos na sombra e agem impunemente – resulta num espectáculo que expõe obscenamente a lógica do que está em causa: obter o Poder contra a Lei e contra o voto.

Não esperem facilidades, rapaziada.

Tenho na memória um certo Lusitânia – Samora Correia

Li num texto de Joel Neto que o Lusitânia vai acabar, não um Lusitânia qualquer que os deve haver muitos pelas comunidades portuguesas, mas o Lusitânia dos Açores. Assim de chofre é como quando me disseram que o Diário Popular ia acabar. Um choque brutal porque quando morre uma instituição à qual estamos ligados morre um pouco de nós. O Diário Popular foi o jornal nacional onde me estreei em 1978; com o seu desaparecimento perdeu-se o melhor de mim que ao longo dos anos escrevi nas suas páginas honradas. Sobre o Lusitânia dos Açores faço apenas duas aproximações. Ouvi uma vez o grande Mário Lino (que veio da Horta para Angra por 15 contos) dizer com sentido de humor que no Faial teve a sua Instrução Primária, no Lusitânia fez o seu Liceu e no Sporting teve a sua Universidade do Futebol. Nunca esqueci esta comparação que diz bem da importância deste Clube fundado em 1922, delegação nº 14 do Sporting Clube de Portugal. Foi 38 vezes campeão distrital e 16 vezes campeão açoriano além de campeão insular em 1963/1964 jogando em Angra e no Funchal. Foi o primeiro clube dos Açores a disputar um campeonato nacional no ano de 1978/1980. A segunda aproximação é esta: corria o ano de 1989 quando fui primeira página no Diário Insular por um livro meu apresentado pelo poeta Álamo Oliveira. A outra metade da primeira página foi uma foto do Lusitânia – Samora Correia do domingo à tarde. Lembro-me bem de ter visto o jogo e de me ter parecido ao longe um Sporting – Boavista por causa das camisolas. Não quero acreditar; parece que ainda lá estou a ver o jogo com os soldados a devolveram as bolas mais altas que chegavam ao seu quartel.

Em boa hora (a uma hora da cena, precisamente) o João Pedro da Costa (somos primos por decisão mútua) avisou-me que o documentário É dreda ser angolano ia passar na RTP2 (foi nesta sexta-feira passada). Então, finalmente, lá o vi. E o que vi é uma maravilha. A maravilha de não nos apresentaram Angola e os angolanos adentro do género documental coitadinhos ou pantomineiros. Não se explora a miséria nem se vende a ilusão. Não há explicações ou lições para dar seja a quem for, protagonistas ou espectadores.

Independentemente da discussão teórica e técnica acerca da realização e sua estrutura narrativa, que não importa para nada quanto ao que mais importa, temos ali um olhar que conseguiu o feito de nos apresentar os angolanos como pessoas. Cada um é uma pessoa, do taralhouco que mal consegue falar à mulher-polícia mandona, do músico orgulhoso ao vendedor de rua humilde. Cada um tem densidade, não é uma caricatura. A câmara tem aversão ao anedótico que despreza, prefere o anedótico que nos aproxima. Absolutamente notável.

Aliás, só por ficarmos a conhecer um pensólogo, ser desopilante e genial, este documentário merece ser visto e revisto muitas vezes.

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Para mais informações publicadas cá na casa:

É dreda ser Angolano

Ticha, trate-me por Ticha

Estou uma vez mais de acordo com um artigo seu, embora não aprecie alguma fraseologia. Lamentável é, em grande parte, a linguagem e as considerações dos comentários. Julgo que se está a ser demasiado permissivo com a liberdade de expressão. Penso que não há que ter medo em dizer não à asneira, à maledicência, à infâmia, à velhacaria.

Aproveito para fazer minhas as palavras de Manuel Loureiro, e dizer-lhe Val, que devia seleccionar os comentários como faz a maioria dos blogues. Da maneira que alguns se comportam dá para notar que estão sempre à espera de poderem provocar e maltratar quem não compartilha das suas opiniões.

*

Os nossos amigos Manuel Loureiro e Manuel Pacheco trouxeram uma dificuldade que é comum a muitos outros que não a expressaram, adivinho. Agradeço a oportunidade para partilhar o meu entendimento da questão e respectivas opções neste blogue.

A leitura do meu 1º texto no Aspirina B pode ajudar a esclarecer muito do que faço aqui, até muito do que aconteceu por aqui ao longo dos anos. Mas quero realçar que ele permanece actual, da primeira à última palavra. Para mim, isto de escrevermos num blogue é uma brincadeira. Resulta do exercício da minha liberdade. É o equivalente a estar no jardim da minha casa com o portão aberto e deixando que qualquer um entre – o espaço é meu, ou da equipa de autores, e ninguém é obrigado a entrar nem fica impedido de sair.

Por minha convicção na bondade dessa abertura, só admito limites à liberdade de expressão que resultem da Lei, do bom senso e do acordo com os implicados. Isto porque não ofende quem quer, e vejo como um erro crasso ficarmos afectados pelas palavras disparatadas, ou iradas, de quem não conhecemos de lado algum – para mais, discutindo assuntos que são públicos e polémicos. Por outro lado, todo o vernáculo, e todo o insulto, é por mim admitido e acarinhado. Sempre que alguém opta por gastar o seu tempo a escrever no Aspirina B, mesmo que se entretenha a chamar nomes aos autores ou aos comentadores, esse indivíduo está a manifestar uma preferência relevante: para ele, é importante participar, é algo que lhe faz bem – pelo que respeito e valorizo essa evidência, pouco me importando que o exercício tenha consistido num chorrilho de impropérios contra o autor Valupi.

Eu não procuro imitar os códigos estilísticos e de etiqueta em vigor num órgão de comunicação profissional qualquer. Isto não é um jornal, uma revista ou o canal informativo de alguma entidade. Isto é uma tertúlia, um gozo e a celebração digital da nossa cidadania. Tenho a certeza de que o nosso destino cósmico está ligado a esta procura de aprender, de conviver e de nos ajudarmos uns aos outros a crescer em direcção ao infinito.

Que os imbecis pretendam chegar à pureza ideológica através de um Estado policial não surpreende. Mas que os ranhosos ataquem a privacidade e a Lei é espantoso.

Ver pessoas com idade e estudos para terem juizinho a usar a publicação de uma parte de um processo judicial para concluírem acerca das acções e intenções dos envolvidos é uma violência escabrosa, asquerosa, tenebrosa. Estão a violentar a própria lógica do Estado de direito, o qual não pode ceder a esses impulsos primários onde se acusa com base em aparências. Foi dessa selva que viemos, é a ela que querem regressar?

Não precisamos que alguém nos explique quão perverso é captar a privacidade de outrem para a explorar ao serviço dos mais desvairados interesses e objectivos. Como é que aqueles que levantaram as mãos para o céu contra um Estado que desconfia dos cidadãos, escandalizados com a possibilidade de divulgação dos rendimentos, se permitem este deboche de se arrogarem certezas acerca de situações relatadas em certidões? Pelos vistos, é essa a regra que querem ver aplicada quando um dos seus estiver em semelhante situação. E como estas alimárias estão a pôr em causa a honorabilidade do Procurador-Geral e do Presidente do Supremo – os quais sabiam que todas as escutas poderão acabar publicadas à má-fila, independentemente das ordens de destruição seja do que for – então, mais facilmente admitirão que numa comarca qualquer, um dia, se arranje um caldinho para dar cabo de uma liderança partidária, ou de um Governo, recorrendo precisamente ao mesmo método: arranjar uma desculpa legítima para escutar políticos, e continuar a escutá-los até eles fornecerem indícios suficientes para serem apanhados numa suspeição.

Escutar políticos é o mesmo que escutar advogados, juízes, militares, polícias, médicos, padres, os excessos emocionais numa situação traumática, as parvoíces da inexperiência, a discussão de um casal desavindo, as tonteiras de um bêbado. Cada um que olhe para a sua vida e a dos seus. Seria inevitável encontrar lá muitas vergonhas que a Stasi recolheria com água na boca. A Stasi ou aqueles que estão a defender a existência de um plano que passava por comprar o Presidente da República.

Tendo em conta que o grande objectivo da época é o 4º lugar, esta derrota do Sporting não passa de mais um glorioso passo nesse sentido.

«Enciclopédia da Música em Portugal no século XX»

Com direcção de Salwa Castelo-Branco e tendo Rui Vieira Nery como consultor geral, este volume de 326 páginas inclui os verbetes de «A» a «C» elaborados por 150 redactores. Ou seja, de Azinhal Abelho e Mara Abrantes a «Os Conchas» e «Conjunto de João Paulo», indicando os verbetes em campos tão diversos como a música erudita, a música popular ou o pop-rock. Também as figuras objecto de referência são muito mais do que os intérpretes; são compositores, grupos musicais, poetas, críticos, letristas, arranjadores, produtores, promotores e gestores culturais.

Podemos ver a ficha de José Mário Branco ao lado de toda a família Freitas Branco: Luís, Pedro, João, Maria Antoinette e João Paes. Notamos a entrada de José Afonso ao lado da de António Vitorino de Almeida ou a de Carlos do Carmo ao lado da de João Braga. Há verbetes bem informados sobre a canção de Coimbra mas também sobre o Baldão (Baixo Alentejo) ou a Chamarrita (Açores). Se Francine Benoit está junto a Constança Capdville, Ruben de Carvalho está junto de Álvaro Cassuto. E Paulo de Carvalho junto de Luís Cília. Numa obra de referência que estuda também o fado, o jazz, a música popular urbana e a música das comunidades migrantes, nota-se a falta do verbete de Paulo Bragança. Se havia dificuldade na obtenção dos dados biográficos (vive em Dublin) já a discografia está à vista de todos. Numa obra abrangente como esta faz falta uma referência à voz de Paulo Bragança. Os homens passam; as obras ficam.

(Editoras: Temas e Debates-Círculo de Leitores, Apoios: FCT, Fundação Calouste Gulbenkian, Instituto Camões, Fundação Luso-Americana, Ministério da Cultura e FCSH Universidade Nova)

A revelação de excertos das escutas a pessoas ligadas a Sócrates e ao PS, ontem feita pelo Sol, cumpre a última etapa de uma nova forma de fazer política em Portugal. Assistimos, pela mão do actual PSD, à completa instrumentalização da Justiça ao serviço de interesses políticos. E os factos falam por si:

- Pinto Monteiro não tomou as suas decisões por ter lido num jornal as certidões extraídas. Nem tinha como objectivo avaliar o caso em 20 minutos para ir a correr dizer mal dos malandros que nos governam.

- O Procurador-Geral teve acesso a todo o material enviado, incluindo as gravações na sua integralidade, e ainda solicitou adicionais elementos a Aveiro. Sem essa análise, e ponderação, as certidões permaneceriam insuficientes, posto que são uma interpretação sintetizada da investigação.

- Dado o melindre do caso, tanto por envolver o Governo e o Primeiro-Ministro, como por ocorrer nas vésperas das eleições Legislativas, não é crível que Pinto Monteiro não tenha posto o Presidente da República ao corrente da situação. No mínimo, terá justificado em Belém as suas decisões.

- O Presidente do Supremo terá feito exactamente o mesmo na sua relação com o Presidente da República.

Como 1ª conclusão, temos que o Chefe de Estado validou o desfecho onde se conclui pelo erro do Procurador e do Juiz em Aveiro. Assim, pertence ao domínio da grande hipocrisia vir reclamar a intervenção presidencial a mando de uma capa de jornal. Cavaco sabe muito mais do que aquilo que foi agora publicado, e sabe-o há muito tempo. Na demente teoria de conspiração que concebe o Procurador-Geral e o Presidente do Supremo como criminosos, todas as informações que fossem precisas dar para os desmascarar chegariam a Belém pelos mesmos que as colocam nos jornais. Tal eventualidade de ocultamento de ilícitos pela hierarquia máxima da Justica, e logo nos seus dois braços, é o equivalente a um golpe de Estado. Só um trafulha da pior espécie, ou quem está cego de raiva, se permite essa calúnia.

Continue reading ‘Sócrates ou um qualquer’

Eu durante meses falei sobre esse assunto e, portanto, neste momento nada tenho a comentar, a não ser a certeza de que já falei nisso há muito tempo e que ninguém, provavelmente, levou a sério.

Ferreira Leite

*

Calma, Manela. Eu levei-te a sério. Aliás, muito gostaria de saber como é que conseguiste falar deste assunto durante meses, e logo desde Junho – ou Maio… Tu e o Bandarra da Marmeleira, que aqui nos deixou esta solar profecia:

Mas temo que só depois das eleições é que se vá saber demasiadas coisas sobre esta governação e sobre o Primeiro-ministro. E temo que isso seja um fardo muito difícil de gerir, ganhe quem ganhar as eleições.

Mais um minuto e não teria apanhado este título, entretanto corrigido com a troca de “Silva” por “Cavaco”. Fizeram mal, porque quem hoje apareceu com este sentido de responsabilidade, cumprindo a missão para que foi eleito, não foi o Cavaco, conhecido irresponsável que se permite interferir nas eleições Legislativas contra um partido e a favor de outro ou que assusta a população para lhe falar de sintaxe açoriana. Cavaco faz comunicações para jornalistas e não permite que eles o questionem. Cavaco profetiza situações explosivas com o à-vontade com que outros garantem que vai chover. Cavaco conspurcou a Presidência ao não esclarecer o País acerca do envolvimento da Casa Civil na inventona de Belém.

Já chega de Cavaco. Aparece mais vezes, Silva!

Domingos não é Domingues ou uma «Visão» toldada pelo encarnado

Hoje, 4 de Fevereiro de 2010, a «Visão» (Revista) traz consigo uma «Visão» (Suplemento) que procura descrever a vida quotidiana em Portugal há cem anos. Até aqui tudo bem. É lógico que se façam trabalhos jornalísticos sobre o tema porque estamos num ano redondo – 1910-2010. Mas, porém, todavia, contudo…

Na ficha da cronologia desse tempo nota-se um erro no ano de 1904. Erro crasso mas inevitável num país onde a história do Desporto tem sido sempre entregue a benfiquistas. Todos o sabemos, é um dado adquirido, a história é sempre escrita pelos vencedores e, por isso mesmo, eles podem escrever todas as patranhas e ainda lhes sobeja tempo. Na página 17 da «Visão» História lá aparece: 28-2-1904. É fundado em Belém por um grupo de jovens ex-casapianos, o Sport Lisboa que, dois anos depois se fundirá com o Grupo Sport Benfica, passando a ser o Sport Lisboa e Benfica.

Erro crasso, mentira encarnada: o Sport Lisboa e Benfica foi fundado em 13 de Setembro de 1908 e não dois anos depois de Fevereiro de 1904. Por outro lado o Grupo Sport Benfica ainda não existia dois anos depois de 28-2-1904. Foi fundado mas no Verão de 1906. Dois anos depois de 1904 foi fundado de facto o Sporting Clube de Portugal mas a «Visão» esquece-se de dizer que o mesmo grupo de rapazes já tinha fundado o Sporting de Belas em 1902 e o Campo Grande Foot Ball Clube em 1904. E esquece-se da fotografia do Sporting Clube de Portugal, como é lógico e natural.

Outra coisa: na página 98 o nome do responsável da editora Frenesi é bem Paulo da Costa Domingos e não Paulo da Costa Domingues. Ai estes historiadores…

O caso Mário Crespo é dos mais férteis na actualidade para ficarmos a conhecer o estado decadente de uma parte das nossas elites, à direita e à esquerda. Mantêm-se com poder porque Portugal ainda regista uma baixíssima participação cívica, pelas razões históricas conhecidas, não chegando estes artistas a serem confrontados e denunciados como os trastes que são. Seguem-se apenas três de dezenas de exemplos.

Leia-se Henrique Monteiro, director do Expresso:

Não posso condenar José Leite Pereira, não é do meu timbre julgar os outros. Apenas posso dizer que este é o panorama da nossa Comunicação Social: Grupos que dependem do poder do Governo, patrões que pressionam directores e editores até à exaustão, cronistas afastados por serem incómodos e uma multidão de lambe-botas que, prudentemente se cala ou arranja eufemismos para tratar a questão.

Henrique diz que José fez o servicinho a Sócrates. E depois despeja um alguidar de acusações genéricas, que a ninguém dizem respeito. Para quê? Talvez para melhor entalar o José Leite Pereira, atingindo-o na sua honra gratuitamente. Em nenhum momento reflecte acerca da substância da crónica em causa, a qual fazia uma acusação sem provas que remetia para factos passíveis de causar a demissão dos governantes nomeados. Porém, tem explicações conspirativas para rapidamente oferecer ao leitor. Esta postura, vinda do director de um jornal de referência, é chocante e degradante.

Leia-se Daniel Oliveira, vedeta da política-espectáculo:

Sem compostura e sem ideias, o PS entretém-se a tentar calar jornalistas e colunistas.

Ai, sim? Quais? Quando? Como? E se sim, então foi isso que aconteceu no episódio relato-inventado pelo Crespo? Mas, espera aí, tentar calar jornalistas e colunistas é algo que chega e sobra para dar cabo do PS. Como é que um jornalista, colunista, celebridade do BE se deixa ficar conivente com esses atentados à democracia e à Constituição? Que raio de denúncia é esta de que nada se aproveita, que para nada serve? A indiferença com que se calunia é bem a marca da completa perversão em que se tornou o espaço público.

Leia-se Domingos Amaral, que parecia um escriba sensato e cordato:

Demonstrando uma total ausência de “fair play”, revelando que não consegue passar por cima ou esquecer os excessos ou as meras diatribes de quem não gosta dele, Sócrates parece ter como desporto preferido a tentativa de silenciamento de certas opiniões.

Em nenhum passo do texto se lê a mínima alusão aos ataques de que Sócrates foi alvo assim que chegou a Secretário-Geral do PS. Apresenta-se apenas o efeito das sucessivas conspirações lançadas para cima de Sócrates e a sua natural, e legítima, resposta. Esta aberrante deturpação na análise não se pode dever a uma educação medíocre ou defeituosa, quero eu crer. Acima de tudo, fica como um mistério a coexistência na mesma pessoa de um legado de excelência moral e intelectual, vindo da família e da formação escolar, e o deboche de fazer acusações gravíssimas que não prova.

Uma das mais desvairadas e hilariantes provas de estupidez, nestes tão interessantes tempos, vem daqueles que reclamam ter Ferreira Leite previsto o actual problema que envolve a Grécia num mecanismo especulativo internacional em tudo igual à dinâmica da crise do petróleo em 2007 e 2008. Neste caso do crude, qualquer bater de asas na Nigéria fazia acontecer uma tempestade em Nova Iorque e Londres. Foram dadas todas as explicações possíveis para introduzir racionalidade no que se passava, apenas para se chegar a Julho e, ainda sem explicação, o preço do petróleo começar a descer. Em Junho, muito cromo da TV afiançava que no final do ano estaríamos com o barril a 250 dólares. Em Dezembro e Janeiro, em grande parte por causa da hecatombe financeira mundial, os preços estavam em mínimos inimagináveis no pico da crise. Não é só o amor, a economia também é fodida.

Mas voltemos à Manela, essa presciente maga do deve e haver. Para além de ter revelado a verdade acerca da maior crise internacional dos últimos 80 anos – apenas um abalozinho, como bondosamente informou – ficaram marcadas a ferro e fogo na memória as suas afirmações em Aveiro, local escolhido a preceito para anunciar que o seu telemóvel podia estar a ser escutado. E foi isto que ela disse:

Tenho tanto medo de ter o telemóvel sob escuta que até já comecei a falar em grego quando me ligam. Claro que eu não sei nada de grego, mas pelo menos o Governo não fica a saber o que eu penso.

Como traduziu o Pacheco Pereira, dias depois destas declarações, a Manela estava a profetizar em Maio de 2009 a crise grega de Janeiro de 2010. Uma crise causada pela vitória de Sócrates e inevitável abalo de confiança nas agências de rating que tinham de começar por algum lado. Calhou começarem pela Grécia por mero acaso, pois tinham ido até Mykonos para um congresso.

E prontos. O resto é História. Todos nos recordamos vivamente que Ferreira Leite passou a campanha a falar dos CDS para aqui, os CDS para acolá, que até seria giro fazer uma coligação com os CDS. E quando se saiu com aquela observação prenhe de sensatez e audácia – Eu não quero saber se a situação de Portugal é igual à da Grécia ou não. A verdade é que as agências de rating acham que é. -, o eleitorado ficou bem ciente do que estava realmente em causa. Depois, o tal azar, aquilo do PS ter vencido as eleições, foi magnificamente ilustrado por um dos nossos maiores, o Seven-Up dantesco:

É bem feito. O país votou nessa cambada. O país prefere a porcaria. Já está formatado para viver nela e com ela.
Sirvam-se. Ponham-se a jeito. Besuntem-se.

Depois de mais este contributo do Sol para a Política de Verdade, não será difícil aos partidos da oposição resolverem o problema. E o problema está praticamente resolvido, porque não vamos agora desconfiar do juiz e do magistrado em Aveiro que tiverem muito tempo para pensar antes de avançar com a extracção. Em Lisboa, como tanta gente boa disse, é que estão os maus da fita, esses malandros do Procurador-Geral e do Presidente do Supremo, ambos feitos com os meliantes. Assim, o problema já só espera a inerente consequência política: ou o Presidente da República demite o Governo ou o Parlamento censura o Governo. Mas despachem-se, temos outros assuntos para tratar.

A 28 de Setembro, os partidos da oposição consideraram uma vitória ter desaparecido a maioria parlamentar do PS. Disseram que Portugal deixava de estar asfixiado, agora iria respirar fundo. A nova maioria trataria de pôr na ordem o Governo minoritário.

De seguida, os partidos da oposição foram convidados a participar na governação, tendo sido recebidos em igualdade de estatuto. Tudo estava em aberto, o PS não tinha preconceitos ideológicos, mas tinha o seu Programa. Os partidos recusaram a possibilidade de garantirem estabilidade e serem parceiros de desenvolvimento, disseram que serviam melhor o País se o Governo permanecesse periclitante.

Os partidos da oposição, honra lhes seja feita, revelaram-se bem melhores do que a encomenda: PSD e CDS são absurda e contraditoriamente despesistas, BE e PCP mandam ainda mais dinheiro para a Madeira.

Desconfio que o eleitorado não votou neste Carnaval.

«Os putos – contos escolhidos» de Altino do Tojal

Altino do Tojal (n.1939) publicou em 1964 o livro de contos «Sardinhas e lua» que, a partir de 1973, mudou o título para «Os putos». Esta é a 30ª edição com 38 contos escolhidos entre os 145 da edição de 2001 da Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

O primeiro conto lê a infância: «Os crepúsculos eram negros, mas as manhãs… Enquanto a minha tia afligia os infelizes diabitos à sua mercê, entre quatro paredes sombrias forradas de velhos mapas rasgados, eu vadiava longe, na luminosidade mágica do dia, as mãos atrás das costas, as aletas do nariz palpitando a cada aragem resinosa, a guedelha tombada para os olhos como a crina dos póneis, gloriosamente sujo».

O último lê a idade madura: «Além de velho, feio, azedo e doente, sou pobre. E tenho livros publicados, pois tenho, o que não me libertou da pobreza. Vê-se que nunca lidaste com editores. Publicam-me os livros, mas quanto a pagar… Editores, editores…»

No intervalo surge a memória do avô: «Meu avô gozava de prestígio, porque em novo apertara pessoalmente a mão do presidente Bernardino Machado – um verdadeiro democrata. Recebia regularmente do Brasil uns jornais onde regularmente se dizia mal de Salazar e costumava levá-los para o café, depois do almoço, a fim de ler trechos perigosos aos confrades». Como pano de fundo geral, a solidão: «Penso que continuei a respirar os ares deste mundo porque a minha imensa solidão era afinal um firmamento povoado de boas histórias à espera de serem contadas. Expressar através da palavra escrita, com a máxima beleza e a mais pura limpidez, aquela tensão criativa permanente, cujo excesso de luz interior punha clarões nos meus olhos e me fazia andar pelas ruas como um sonâmbulo, eis verdadeiramente o que me mantinha vivo.»

Altino do Tojal: uma escrita de recorte clássico num autor moderno.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Isabel Ferreira)




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