Uma tarde bem passada no Campo Pequeno

As críticas feitas a Costa por este se recusar a apresentar soluções de governo sem para tal estar mandatado têm vindo da esquerda e da direita. Há força nelas pois é inquestionável que tudo e todos na cena política nacional ganhariam em conhecer o que Costa tem a dizer a respeito. Ou seja, é cómodo exigir-lhe um programa eleitoral mesmo que esteja a um ano das eleições e nem sequer seja o secretário-geral do PS, nada mais parece contar para a vozearia. A sua recusa em especificar o teor das soluções, contudo, é o que melhor defende a racionalidade da sua eventual acção futura. Por exemplo, Seguro foi eleito para líder do PS com a promessa de ir limpar o partido dos socráticos corruptos e mais nada de concreto. Recorde-se o que ele disse antes das eleições socialistas em 2011 e no congresso da entronização onde apresentou as suas prioridades. É uma mão-cheia de nada.

Em especial, as críticas que vêm da direita poderiam levar a um útil – ou tão-só divertido – exercício de honestidade intelectual. Seria assim: primeiro listavam-se os direitolas que não se têm calado com essa conversa, depois seriam recolhidos por autocarros com ar condicionado e transportados para o Campo Pequeno, e dali só seriam libertados quando opinassem sobre o que Passos Coelho prometeu para se abraçar ao pote. O Pedro protagonizou a maior fraude eleitoralista de que há memória na democracia portuguesa, tendo jurado ir acabar com os sacrifícios, não aumentar impostos, não despedir funcionários públicos, conseguir libertar a economia e salvar a juventude. Foi com esse programa, para o qual também jurou ter as contas todas feitas e devidamente vistoriadas pela Troika, que ele ganhou as eleições. E esta burla foi feita estando António Borges, ideólogo do PSD passista, no FMI com o pelouro da Europa. Borges não só sabia desde 2010 o que a Troika iria fazer em Portugal como ele trabalhava para que as suas consequências fossem as mais demolidoras, o seu sonho delirante sendo o de que não ficasse pedra sobre pedra do Estado social. Que diriam os direitolas sobre o valor político e moral do que o homem de Massamá fez se fossem obrigados a dizer alguma coisa? Em público, nada. Entre os amigalhaços, que foi muito bem feito, que assim é que é, vale tudo.

Não critico Costa por estar a exibir competências ligadas à inteligência e à coragem nestas matérias voláteis e imprevistas das políticas económicas e de finanças. Critico-o é por não ter falado o suficiente sobre o trauma que se abateu sobre o País por causa da decadência rapace do PSD e do CDS.

O secretário-geral do Parlamento deve uma explicação

Passos Coelho e o regime de exclusividade enquanto foi deputado.

Eis o que o Público apurou (sem link):

Enquanto foi deputado, na década de 90, Pedro Passos Coelho só preencheu o “anexo B”, do IRS, em três anos. Entre 1991 e 1999, apenas declarou ao fisco rendimentos de trabalho “independente” em 1996, 1997 e 1999. Todas essas verbas, somadas, não chegam a 25 mil euros (4825 contos, na moeda antiga).

Esse dinheiro, recebeu-o “unicamente de colaborações várias com órgãos de comunicação social, escrita e radiofónica”. Foi isto que o deputado Pedro Manuel Mamede Passos Coelho escreveu, num requerimento endereçado ao presidente da Assembleia da República, o socialista António Almeida Santos, a 27 de Outubro de 1999, três dias depois de deixar São Bento.

Todo o requerimento assenta numa só questão: Passos Coelho garante “que desempenhou funções como deputado durante a VI e VII legislaturas, em regime de exclusividade”. E tenta prová-lo, nomeadamente através da garantia de que não recebeu qualquer outro vencimento fixo entre 4 de Novembro de 1991 e 24 de Outubro de 1999, nos anos em que exerceu o seu mandato político. Mais: Passos Coelho, “por cautela”, consultou a Comissão de Ética do Parlamento para se assegurar de que as colaborações com a imprensa e a rádio não eram incompatíveis com o regime de exclusividade.

Estes factos, públicos, que podem ser consultados nos arquivos oficiais, não impediram a secretaria-geral do Parlamento de garantir à Lusa que o actual primeiro-ministro não teve “qualquer regime de exclusividade enquanto exerceu funções de deputado”. Uma afirmação que contraria uma evidência. Foi o mesmo Parlamento que em 2000 concluiu que Passos Coelho exercia, de facto, o seu mandato em exclusividade, tal como o próprio tinha declarado.

Em 31 de Maio de 2000, Almeida Santos aceitou os argumentos do seu gabinete de auditoria jurídica e concedeu a Passos, sete meses depois do pedido, o subsídio de reintegração reclamado: cerca de 60 mil euros, referentes a 15 meses e 167 dias de vencimento. Este valor correspondia, conforme estipulava a Lei 26/95, a um mês de salário por cada seis meses de mandato de deputado em exclusividade.

Metade desse valor respeitava ao primeiro mandato de Passos Coelho (1991-1995), relativamente ao qual a lei então em vigor concedia a todos os deputados, em exclusividade ou não, o direito ao subsídio de reintegração. Uma alteração à lei aprovada em 1995 fez com que, a partir daí, tal subsídio ficasse reservado aos eleitos em exclusividade.

 

O PÚBLICO tentou, desde ontem de manhã, confirmar estes factos com o secretário-geral do Parlamento, Albino de Azevedo Soares, ex-secretário de Estado de um Governo do PSD. Em concreto, foi solicitado àquele responsável que confirmasse se Passos Coelho integrava a lista dos ex-deputados que, em 1999, receberam o subsídio de reintegração (uma regalia que terminou em 2006). Horas depois, após o esclarecimento do gabinete do secretário-geral, foi enviado um novo e-mail sobre a contradição entre a versão tornada pública pelo Parlamento e aquela que o PÚBLICO agora divulga. Azevedo Soares e os seus dois adjuntos estiveram, ao longo do dia, permanentemente “em reunião”, indisponíveis para responder.

Também Pedro Passos Coelho recusou, por duas vezes, esclarecer se recebeu o subsídio de reintegração. […]

 

[…]Afinal qual é a importância de Passos Coelho ter estado ou não em exclusividade na Assembleia da República entre 1995 e 1999? A resposta é simples: se esteve em exclusividade não podia ter recebido qualquer pagamento pelo exercício de actividades profissionais exteriores ao Parlamento. E se não esteve em exclusividade, como disse ontem o secretário-geral do Parlamento, isso quer dizer que recebeu indevidamente cerca de 30 mil euros, correspondentes a parte do subsídio de reintegração que requereu e foi aceite.

 

Mas se for verdade que recebeu cinco mil euros por mês da empresa Tecnoforma, entre 1997 e 1999, para desempenhar as funções de presidente do Centro Português para a Cooperação (CPPC) — uma organização não-governamental criada por aquela empresa para lhe angariar financiamentos internacionais —, então o problema é bastante mais complicado: terá violado as regras da exclusividade e terá incorrido num crime fiscal por não ter declarado tais rendimentos nas suas declarações de IRS.”

Ganda Manel…

“Não esteja para aí com essas ideias subversivas” – disse na SIC Manuel Carvalho da Silva a Diogo Feio, deputado europeu do CDS. O Feio, de repente, até parecia que tinha levado um caldinho. Ideias subversivas… Toma, que é popular!

Desde que rompeu com os estalinistas, o Manel até já tem graça, que é o sal da vida.

Salsicha educativa. Alguma coisa contra o chouriço?

Passos Coelho, setembro de 2014.

O coveiro de fato endomingado e ignorância escondida atrás de uns óculos que está à frente do Governo sacou de mais uma «metáfora» para fazer chegar as suas sofisticadas ideias à populaça. A escolha da palavra salsicha em contexto de ensino levanta, porém, algumas dúvidas. Porquê salsicha? E, já agora, quem lhe chama assim?

Mantendo o registo popular pretendido, e mantendo-se nos enchidos, não seria mais correto falar em «chouriço»? O «chouriço educativo»? Convenhamos que não fica nem melhor nem pior do que salsicha! E seria mais fiel à ideia base que lhe deve ter perpassado pela cachimónia naquele momento e que só pode estar relacionada com a expressão «encher chouriços». Se bem se entende de tão gráfica (e porno-gráfica) declaração, o nosso sistema educativo (o chouriço) tem estado ocupado com matérias de fraca qualidade e inúteis na perspetiva do mercado e, porque não, com gente a mais (tudo só para encher, não é verdade?). Vai daí, andámos a encher chouriços. Bingo! Acertámos. É o que ele pensa. A sério.

Porém, todavia, a tentativa de último segundo de suavizar a linguagem fez a expressão degenerar em salsicha. Azar, porque essa leva-nos mais longe e por outros caminhos.

Leia, por exemplo, no Público:

Sem nomear governos ou governantes, disse que houve quem tivesse tentado resolver o problema, mas há ainda “um caminho longo a percorrer”. Porque “aumentar a salsicha educativa não é a mesma coisa que ter um bom resultado educativo. Foi assim que no passado a generalização de novos graus de ensino não corresponderam a um salto qualitativo mais exigente no produto escolar.” – uma referência indirecta a programas como o Novas Oportunidades, criado durante a governação socialista.”

Uma sova homérica

O último debate entre Seguro e Costa tem uma crucial diferença: não há mais ninguém para convencer a se predispor a votar. Isso implica um imediato corolário: neste momento, o resultado final já está concretizado, faltando só ser apurado. Quem se inscreveu para votar não tem dúvidas acerca do vai fazer com o seu voto – pelo contrário, foi por ter uma certeza consolidada numa esperança que os simpatizantes se deram à maçada da inscrição. Neste aspecto, as primárias configuram uma situação menos similar à de umas eleições universais e mais análoga à de uma eleição colegial.

Tal consciência do óbvio poderá levar a alterações, ou evoluções, nas estratégias dos candidatos; pressupondo que eles têm alguma (assunto em aberto, para espanto de quem esperava ver em Costa melhor profissionalismo de campanha). E também aqui há uma crucial diferença: quem se inscreveu para votar Costa em situação alguma ponderará mudar o seu voto para Seguro, mas tal lógica não se repete entre os apoiantes de Seguro. O voto em Seguro – se excluirmos o daqueles a quem fez promessas e o de fanáticos como Ana Gomes – nasce de um apelo emocional básico e basista que se agarra a competências cognitivas diminuídas, baixa cidadania e iliteracias várias. O seu grupo-alvo é o dos leitores do Correio da Manhã, o seu embrulho retórico é o do moralismo anti-políticos. Ora, algumas destas cabeças são recuperáveis até ao dia da eleição, seja porque poderão mudar de voto perante a consciência de estarem a ser enganadas, seja porque poderão desistir de votar por esgotamento da confiança em Seguro (o que equivale, no contexto das primárias, a darem directamente o seu voto a Costa). Por sua vez, os eleitores de Costa apenas terão de manter a motivação inicial – entretanto reforçada pela deriva degradante e terrorista de Seguro – para não faltarem ao último acto do processo.

Neste quadro, Costa tem uma estratégia ganhadora seja qual for a estratégia de Seguro no último debate. Consiste ela em ignorar olimpicamente o seu opositor e falar exclusivamente para o País – ou seja, exibir uma pose de Estado e assumir-se como o próximo primeiro-ministro a discursar já em plena posse de funções. Indo por aqui, Costa marcará pontos caso Seguro tente competir com ele quanto a qualidades de liderança e competência política, e marcará o dobro, ou triplo, desses pontos caso Seguro volte ao choradinho do coitadinho que odeia muito, muito, muito o malandro que ameaça tirar-lhe a chupeta.

Contudo, se a coisa se passasse ao meu gosto, Costa abdicaria de Olímpia e iria para Tróia. Lá chegado, encheria o peito da fúria de Aquiles e vingaria a traição que Seguro fez a 40 anos de história do PS. Ver o principal pilar político da democracia portuguesa nas mãos de um fulano que tem tanto (ou ainda mais) de estúpido como de populista justifica uma sova homérica.

Revolution through evolution

1 in 5 Men Reports Violence Toward Intimate Partners
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Domestic violence likely more frequent for same-sex couples
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Must Women Be Seen to Be Heard?
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Fighting parents hurt children’s ability to recognize and regulate emotions
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Spouse’s personality influences career success, study finds
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Dogs respond to goal-directed behavior at similar level to infants
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Human Sense of Fairness Evolved to Favor Long-Term Cooperation -> com um vídeo imperdível

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Um anticolonialista de caca

Venho falar desse vendido ao Terreiro do Paço, de seu nome Alberto João Jardim. Já perdi a conta às vezes que esse falso nacionalista madeirense denunciou o domínio colonial exercido pelo “continente”. E que faz ele agora, num momento em que escoceses e catalães lutam corajosamente pela sua independência, mostrando a via e dando o exemplo? Nada. Pior do que nada, o traidor vem dizer que a Madeira não tem um projecto independentista!

Em 23 de Setembro de 2011, Jardim tinha declarado: “Se há dois países, a Madeira e o Continente, então dêem-nos a independência”. Repare-se no “dêem-nos”. O homem não saberá que as independências não se pedem nem se oferecem numa salva de prata? Claro que sabe, não sabe ele outra coisa! Pouco depois de fazer esse idiota pedido, que sabia de antemão que não seria levado a sério, Jardim retractou-se, para declarar que, afinal, era contra a independência madeirense. Obviamente! Falou verdade, mas como era a fingir que estava a fingir, os madeirenses piscaram o olho uns aos outros e perdoaram-lhe. Com aquela cratera lunar nas contas da região e com o pretexto de ser necessário continuar a chuchar na teta do “continente”, Jardim lá vai convencendo os madeirenses que a independência não é para já. Os pobres dos madeirenses acreditam, porque  se convenceram que Jardim é exímio a ludibriar os continentais. O problemazinho é que, para Jardim, a independência nunca é oportuna. Está no horizonte, onde o sol se põe o mar. É sempre para amanhã.

Jardim desdiz-se constantemente e, apesar dos desmentidos, parece não abdicar de agitar o papão da independência. Mas é sempre tudo a fingir, porque ele sabe que essa chantagem ja está completamente desacreditada. Em 2013 Jardim afirmou que a “solução mais arrojada” para a Madeira, a independência, pressupunha a realização de um referendo na região autónoma. Ora porque é que Jardim nunca tentou organizar esse referendo, mesmo á revelia das leis nacionais, como agora fazem os independentistas catalães? A razão é muito simples, e seria bom que os nacionalistas madeirenses se compenetrassem dela de uma vez para sempre: Jardim é um traidor à causa independentista da Madeira. O fulano inventa obstáculos, como esse do referendo, para opor ao legítimo desejo de autodeterminação dos madeirenses. Quando não é o referendo é a Constituição. Quando não é a Constituição é o buraco das contas. Quando é que os madeirenses irão perceber que ele é um vendido, um anticolonialista de caca a soldo de Lisboa?

A direita à direita adora a esquerda à esquerda

O LIVRE pediu para ser recebido pelo BE. A metade masculina do BE aceitou receber o LIVRE. O mês era Setembro. O ano 2014. Frente a frente Semedo e Tavares. Rezam os cronistas que a reunião durou “cerca de uma hora”. “Cerca de uma hora” é o eufemismo usado no jornalismo para descrever reuniões que duram cerca de meia hora. As reuniões que duram cerca de meia hora gastam em média 15 minutos entre o momento em que os convidados chegam e aquele em que partem, depois de todas as conversas de salão e idas à casa de banho estarem completadas. Pelo que não erraremos por muito se pensarmos que o BE dispôs-se a bater bolas com o LIVRE durante um quarto de hora. 15 minutos inteirinhos em que o futuro da esquerda foi esculpido e avenidas revolucionárias se abriram em direcção à grande união vitoriosa, pura e verdadeira. No final, Rui Tavares veio dizer que valeu a pena, que os amanhãs irão cantar, que eram todos grandes amigos. Enfim, é uma questão de esperar mais um bocadinho e a festa sairá à rua. João Semedo também tinha dizeres a pedirem soltura depois da sessão de mútuo esclarecimento. Revelou que o BE é muita bom para o povo e que o LIVRE é muita mau para esse mesmo povo. Isto porque o LIVRE admite coligar-se com o PS, um partido da direita. Quão de direita? Não importa, a lógica é a de todos os racistas: basta um tom mais escuro, uns caracóis mais indomáveis, e temos pretalhada pela frente. Se aceitam conviver com o PS, concluiu Semedo embora com outra fraseologia, então vão para o caralho que vos foda e desamparem-me a loja, filhas da puta dum cabrão.

O BE sabe bem o que está a fazer. Está a tratar o LIVRE exactamente como é tratado pelo PCP. Por sua vez, o LIVRE adoraria poder tratar o PS como foi tratado pelo BE. Só que não pode, pelo menos oficialmente. Esta tragicomédia da esquerda portuguesa não é completamente irracional. Aliás, tem sido cuidadosamente protegida pela direita, a qual não se cansa de cobrir de elogios tudo o que cheirar a comunista. É esta seriedade, esta integridade, esta fibra de mais valer quebrar do que torcer dos fabulosos combatentes esquerdistas que enche de segurança a direita à direita do PS.

Vamos lá a saber

Mas não haverá ninguém nesta terrinha que queira investigar o uso sistemático das fugas ao segredo de justiça em conluio com jornalistas amigos para efeitos de manobras políticas? Será que o poder judicial está acima da Lei? Não existirá uma única força política capaz de fazer frente a esta república de juízes e amanuenses do Ministério Público? Vamos mesmo deixar que a democracia e o Estado de direito continuem a ser pervertidos para benefício de uns tantos pulhas e gáudio de tantos broncos?

O título decisivo (do “Expresso” e quiçá do PSG)

A entrada de Pedro Santos Guerreiro no Expresso levou a uma mudança de estilo que me deixou dividido quanto à sua bondade. Trata-se do engraçadismo nos títulos, à mistura com uma cópia do registo anglo-saxónico da informação digital servida já mastigada e em pequenas porções. A promessa é a de tudo poder ser explicado com o máximo de clareza e descontracção e o mínimo de esforço e perda de tempo para o leitor – as questões da actualidade reduzidas amiúde a numerais de digestão rápida, à tirania do lúdico sem vestígio de pathos. O PSG nos seus textos já mostrava quão viciado estava na duvidosa arte do trocadalho, daí não ser uma surpresa que queira uma Redacção à sua imagem e inverosimilhança.

Tenho estado a patinar na ambivalência porque se, por um lado, o registo me parece descredibilizar o jornal por o aproximar do amadorismo e irresponsabilidade dos blogues, por outro lado, a solução poderia ser defendida com o argumento da renovação demográfica e do triunfo da cultura digital, ambas eventual ou supostamente a apelar a novos e mais difusos códigos de comunicação na imprensa. E assim estive até há pouco, quando tropecei nisto:

O momento decisivo (da Escócia e não de Cartier-Bresson) contado em 11 capas de jornais

Que felicidade. A minha dilaceração acabou. Tudo graças ao zelota pimpão que conseguiu enfiar o Cartier-Bresson num título sobre o referendo escocês. Um fanático que merece o meu mais aliviado agradecimento. E até aposto que o requinte absurdo desta avaria tem as assinaturas do Pedro, do Santos e do Guerreiro.

Tendo ficado estabelecida a natureza ridícula do estilo em vigor, espero que não se acanhem e não se limitem ao decisivo fotógrafo. Ele há tanto maduro para meter nos títulos à doida. É que nem o céu será limite.

Votar em António Costa com memória e perspetiva

As eleições primárias exigidas por Seguro estão perto do fim. É hoje claro que podemos, serenamente, fazer o balanço das razões que indicam como justo vencedor António Costa. Para que tal aconteça, é necessário que socialistas e simpatizantes vão votar com memória e perspetiva.

A leitura política não se coloca no campo dos afetos. É por isso insultuoso ter por insultuoso e desleal, ou como traição, a leitura que António Costa fez do resultado das eleições europeias e dos anos de liderança de Seguro. Anos que culminaram numa clara  incapacidade de capitalizar o histórico descontentamento registado para com a direita mais extremista de que tenho memória.

Aquela leitura não foi apenas de António Costa, mas de milhares de socialistas e de milhares de pessoas potencialmente votantes no PS. Basta constatar o apoio que hoje António Costa reúne para ter por absurda qualquer acusação de deslealdade. Pelo contrário, numa circunstância histórica em que avançar para o Governo é avançar para uma tarefa duríssima, o desafio de Costa foi, evidentemente, um desafio pedido e, até, exigido por muitos, a bem do país e, por isso, patriótico.

Desafiar uma liderança é um ato democrático na vida de um Partido e o desafiado, se tem cultura democrática, deve aceitar o desafio, sem vitimizações, até porque ninguém assenta o seu voto na compaixão.

Não desejei, mas temi, o fraquíssimo resultado do PS nas europeias, aquelas em que Seguro pedia uma maioria que projetasse uma maioria de governo. Temi porque ao longo de três anos não deixei de discordar de momentos que marcaram irremediavelmente o PS liderado por Seguro: em primeiro lugar, Seguro aceitou a narrativa da direita, fácil de desmontar, acerca da culpa absoluta pela crise do governo de Sócrates; em segundo lugar, Seguro não percebeu que o OE de 2012, o tal “além da Troica”, era o momento para a demarcação do PS, um OE que roubou dois subsídios aos funcionários públicos e duas reformas e pensões. Seguro optou pela estranhíssima “abstenção violenta” e perdeu o pé para criticar o Governo que não fosse na extensão e na dose. Fiz parte dos deputados do PS que impugnaram junto do TC o ataque violento aos funcionários públicos e aos reformados e pensionistas e, mesmo neste processo, relativo a milionários de 600 euros, o SG do PS (socialista, isso mesmo) demarcou-se violentamente, valendo-nos o BE, e vencemos. Hoje, os portugueses sabem que sem esse Acórdão não teriam existido os demais; em terceiro lugar, foi inútil a discussão interna acerca da primeira alteração ao código do trabalho. Qualquer socialista sabia que estava ali o primeiro passo para a desvalorização do fator trabalho, mas Seguro não se sentiu menos socialista em mais uma abstenção violenta. Lá ficou Seguro cativo numa área fulcral para a nossa família política a discutir doses; em quarto lugar, aquando da votação do tratado orçamental, a sua adesão liberal ao mesmo foi tão grande que conseguiu transformar aquela votação em disciplina de voto.

Esta leitura é política e não pessoal. Nada me move pessoalmente contra Seguro, agora com uma nova face, perigosa e desagregadora, ou um recurso, não sei: o populismo . Certo é que tudo me move a favor do PS e do país e agradeço a Costa ter respondido “presente” ao apelo de tantos, de tanta gente órfã de uma alternativa.

A direita rasgou o país. Introduziu uma dinâmica de retrocesso social. O desafio do PS é travar essa dinâmica, pôr fim ao confronto social como arma política, promovendo a coesão social. Tenho por certo que cabe ao PS, com António Costa como PM capaz de construir uma boa equipa, travar esta dinâmica de retrocesso social e reduzir as desigualdades. Travar a lógica do confronto e promover a coesão nacional. Desbloquear o crescimento sustentável e gerador de emprego. Por isso, é hoje fundamental a capacidade de mobilizar forças para repor um clima de normalidade institucional e de concertação social. Isso passa por três pontos: uma Agenda para a Década, centrada nas condições estruturais de desenvolvimento, mobilizadora do compromisso político, da concertação social estratégica e do conjunto da sociedade, assente em quatro pilares fundamentais: a valorização dos nossos recursos; a modernização do tecido empresarial e da administração pública; o investimento na cultura, ciência e educação; o reforço da coesão social; um Programa de Recuperação Económica e Social, que responda à urgência de travar a trajetória de retrocesso social e de relançamento da economia e da criação de emprego; uma nova atitude de Portugal na Europa, que defina uma estratégia de defesa dos interesses nacionais no contexto da União Europeia.

Cumprir estes objetivos obriga-nos, sem ataques pessoais, a reconhecer em António Costa uma leitura mais acertada da crise, mais experiência, uma capacidade agregadora impressionante e uma cultura de trabalho em equipa.

Memória e perspetiva, pois.

Seguro é um perigo

António José Seguro contou que, à chegada ao restaurante de Viseu, alguém lhe disse que ele era "um perigo".

"Um perigo para os interesses, um perigo para aqueles que em Lisboa querem que tudo permaneça na mesma, que haja uma evolução na continuidade. Mas nós estamos aqui para dizer que vamos fazer a mudança", garantiu.

Para o líder socialista, há que combater a "falta de confiança nas instituições", porque "quem está errado não é o povo, quem está errado é quem, com opacidade, protege interesses e não faz o apuramento da verdade, o esclarecimento total".

Fonte

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O PS nunca esteve perante uma tão grande ameaça à sua identidade e função na democracia portuguesa. Ameaça tão mais extraordinária quanto a enorme maioria dos seus militantes e dos opinadores profissionais não a viu chegar. Só que as coisas são como são, e são estas: o actual secretário-geral diz à boca cheia que a quase totalidade dos ex-dirigentes do PS, a começar por Mário Soares e a acabar em Sócrates, passando por Alegre e Costa, são corruptos e protegem corruptos.

Digamos o óbvio, este discurso já nada tem a ver com uma retórica mais exaltada, mais patarata, para efeitos de campanha. O tempo da retórica durou três anos, período em que Seguro se apresentou como o impoluto que vinha moralizar os costumes degradados e degradantes da escumalha política. Agora, nesta fase, Seguro declara preto no branco que lidera um partido com uma história criminosa onde ninguém se salva a não ser ele, os seus e quem se converta à sua verdade.

Será interessante ver como é que Costa irá unir o partido caso ganhe e observar as atitudes daqueles que neste momento estão com Seguro. Será interessante do ponto de vista político, sociológico, psicológico e até antropológico. Mas nada se compara com o que poderá acontecer no PS caso Seguro ganhe. Essa seria uma experiência que é literalmente inimaginável dado o radicalismo demente em que se colocou. Quem ficaria ao seu lado? Quem apareceria nas listas de deputados? Qual seria o registo seguinte, regresso à versão Passos Coelho II ou continuação da febre populista?

Seguro vestiu a camisola de ser um “perigo” para os bandidos de “Lisboa”. É ele quem o diz. Com orgulho. Aos berros. Em nome do “povo”. E está cheio de razão.

Os novos Marretas

O (muito) antigo militante do PS, António Barreto, disse ontem, no programa “Olhos nos Olhos” da TVI24, que não se revê neste Partido Socialista. Quando interrogado sobre isso, fingiu pensar, pensar, pensar e depois, num pungente desabafo de alma, deu a grande, a enorme novidade: não! Podia ter acrescentado: nem neste nem nos outros Partidos Socialistas, desde há, pelo menos, um quarto de século. Mas como a Judite não perguntou…

Advogando, com o outro marreta do programa, um Estado Social mínimo, com uma educação “mínima” e uma saúde “mínima” (ai, que saudades do Estado Novo máximo), Barreto disse ainda outras coisas suculentas. Por exemplo, que as eleições directas nos partidos – não só as primárias que o Seguro engendrou no PS – são “talvez o maior ataque à democracia portuguesa” e “a verdadeira destruição dos partidos políticos e do sistema democrático partidário”. Estava inspirado, o ilustre sociólogo. “Uma eleição directa destrói um partido” – acrescentou. Porque o congresso e as secções “desaparecem”. Assim, sem mais: desaparecem! Acho que o Jerónimo lhe vai enviar a ficha de inscrição, com um cartãozinho: “Volta, camarada, que estás perdoado.”

Molotov caseiro

(post republicado, após sumiço devido às obras em curso)

Soube-se hoje (15 de set.) que a antiga ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, foi condenada a 3 anos e meio de prisão com pena suspensa e a indemnizar o Estado em 200 000 euros por ter encomendado a um jurista com um apelido conhecido e laços familiares com um membro do PS um estudo que o Ministério Público considera desnecessário (ao que chegámos) e sobre cuja qualidade entendeu pronunciar-se. Não gostou.

Talvez o deputado Manuel Tiago, autor da denúncia de tão aberrante crime, queira fazer, não uma, mas várias denúncias ao Ministério Público dos ajustes diretos deste governo. Quer? Não lhe apetece?

Os ajustes diretos não são proibidos e não eram proibidos na altura de Maria de Lurdes Rodrigues. Também não é obrigatório, nesses casos, contratar simpatizantes de partidos da oposição. Ou será? Acontece que, no ano da graça de 2014, não há memória de um governo ter contratado tanto estudioso, consultor, auditor e sei lá que mais por ajuste direto quanto este. O deputado Manuel Tiago sente-se confortável.

A ideia do putativo crime” de que é acusada “nasceu na Assembleia da República em 2008, com intervenções dos deputados Pedro Duarte e Emídio Guerreiro, do PSD, e Manuel Tiago, do PCP, tendo este último apresentado, na Procuradoria, a denúncia em que todo este caso se baseia”, sublinha.”

(clicar para ler notícia completa, de 4 de agosto, com as explicações da ex-ministra)