Do Rei Leão ao gato de Fernanda
Quando em 1994 a Disney realizou «The Lion King», a sua 32ª longa-metragem, quase ninguém reparou mas pela primeira vez a história baseava-se num argumento original e não numa fábula ou num clássico da literatura infanto-juvenil. Ao mesmo tempo a banda sonora era entregue a Elton John e Hans Zimmer, fazendo inundar o ecran de frescura em melodias e em canções inesquecíveis como «Cicle of live», «Hakuna Matata» ou «Can you feel the love tonight». Dois Óscares e três Globos de Ouro foram um prémio merecido mas o maior prémio é, ainda hoje em 2009, se ouvir com prazer e com agrado esta banda sonora. Diz a lenda que os gatos foram criados quando a Arca ficou infestada de ratos. Noé ordenou que os leões espirrassem e do espirro dos leões nasceram os gatos. Deles se diz que são símbolo da luxúria e da preguiça, da hipocrisia e da astúcia, da independência e da liberdade ou seja (numa síntese) «o animal feminino por excelência».
O gato de Fernanda não pára de olhar pela janela; a ser verdade a tradição, vai chover dentro de pouco tempo. Mas se em vez de chuva for mau tempo então o gato dormirá com as quatro patas escondidas debaixo do corpo. Desde sempre associados aos homens do mar (diz-se que foram os gatos dos marinheiros que em Veneza mataram os ratos que traziam a peste do Oriente) vejo no olhar de Fernanda, numa janela do seu terceiro andar, uma torre de comando de um navio. Os marinheiros acreditavam que o gato traria vento se saltasse e traria a chuva se espirrasse. No vidro da cozinha (da torre de comando do navio) Fernanda sorri, corre as cortinas e devolve com ternura ao olhar do gato uma nova carícia antes de se despedir a caminho do consultório.
Pacheco Pereira levou ao Parlamento a seguinte questão: que espera o Governo para considerar já culpados os arguidos do caso Face Oculta, sem esperar pela Justiça, assumindo as consequências políticas dos supostos actos ilegais de terceiros?
Esta pergunta não é feita para ter resposta, é feita para ser pergunta que fica sem resposta. Ao que se pode responder é ao carácter de quem a faz. Como o fez Sócrates. Sem esforço aparente. E com bonomia.
Mas estamos a falar do Pacheco, um vórtice de empáfia. A sua presença vai ser de permanente intoxicação, podendo provocar vítimas em qualquer partido. Desta vez, foi Ribeiro e Castro a ter sido apanhado no turbilhão e a ser arrastado pela força negra. Fez figura de parvo não se sabe porquê nem para quê. Amanhã será outro qualquer.
Horas depois, podemos ler nos blogues alucinados que Sócrates se portou mal com o Pacheco. Pudera, eu também diria o mesmo se fosse do PSD. É feio ver alguém bater nos nossos, ainda por cima nos mais fracos.
Se calhar, já existe. O que não existe é uma qualquer razão para que não venha a acontecer no futebol profissional. Enfim, não é preciso ser um macho especialmente valente para passar 90 minutos sentado vendo a rapaziada dar uns pontapés na bola.
O Sporting podia aproveitar o resto da época para fazer essa experiência. Pior não ficaria.
O nosso amigo assis não podia ter sido mais relevante na pergunta: para quando um livro com os panegíricos a Sócrates que tenho lançado aos bits com invejável entusiasmo e denodo? Ou melhor, que forças de bloqueio foram mobilizadas para atrasar o feliz enlace entre a futura obra e o seu vastíssimo público? Como ele refere no comentário, trata-se dum presente natalício ideal para amigos e familiares. Os que admiram Sócrates ficariam aliviados ao descobrir que não estão abandonados num quotidiano persecutório onde têm de esconder a sua adoração, e os que o odeiam ficariam deslumbrados com a ousadia da ficção e respectivos excessos literários.
Editoras do meu país, a coisa está escrita, é magnífica e já só espera os vossos cheques. Bute lá fazer dinheiro com o Engenheiro enquanto é tempo, antes que os maluquinhos da oposição comecem a governar esta merda com a sua maioria de uma irresponsabilidade absoluta.
Os crucifixos devem sair das salas de aula na Escola Pública, os homossexuais devem poder casar pelo Civil. E tudo e tudo. E tudo o mais que a sociedade escolha em liberdade. Inquestionável. Mas a Igreja deve estar calada?
A perseguição à dimensão política da Igreja assinala uma cidadania imatura. Os preconceitos de origem religiosa são tão legítimos como os preconceitos de origem ideológica. E temos a ganhar com essa diversidade intelectual. A latente, eventual ou ocasional conflitualidade entre valores religiosos e seculares está ao serviço da própria secularidade.
A democracia tem a sua força na sua fraqueza. É contra-intuitiva.
O PCP fornecia as camionetas e o maralhal que fosse preciso. Também ofereciam serviços de segurança. O BE encarregava-se das homilias e do teatro. Era uma demagogia de cortar à faca e disparar a pistola. Agora, o CDS diz que descobriu umas ideias muito católicas para resolver a cena. E o PSD acordou para a necessidade de fingir que vai ter algo a dizer, mandou para o ar 30 dias de nada e coisa nenhuma.
Que chatice, que sarilho, isto de termos em Portugal um Governo que ousou requalificar os professores. Estávamos tão bem na modorra da farsa, tão acomodados. E valeu a pena? Não. Os professores não querem mais chatices – querem é mais dinheiro e menos trabalho. E não faltam partidos para lhes dar apoio parlamentar. Até porque os professores têm razão, ou não estariam a educar o País.
A carnificina, o pintor mongol e as canções de Vitorino
Hoje foi um dia com três fases distintas. Pela manhã, saudosos do dia 16 de Junho os homens da Polícia Municipal vieram fazer a faxina da loucura dos Sapadores Bombeiros perante a indiferença da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia. Entre o delírio e a alucinação dos Bombeiros municipais que «embirra» com alguns lugares perfeitamente passíveis de serem aceites para estacionamento, cabe aos homens da Polícia Municipal fazer o piquete da loucura, multando e bloqueando as viaturas que estão bem estacionados mas não para eles, os Sapadores do delírio e da alucinação. Mas para multarem na minha rua eles passam por situações ilegais (espaço de estacionamento ocupado com assadores) e imorais (8 lugares perdidos para um estaleiro) mas nada os detém. No Largo do Carmo fiquei a saber que o pintor Ruslam Botiev, o cavaleiro da Mongólia, fez um desenho a café com o rosto da Rainha de Inglaterra, desenho esse que já foi apreciado conforme informa a sua chefe de gabinete. Soube que graças a um vizinho que é casado com uma senhora de origem irlandesa, o desenho do meu amigo Ruslam foi colocado numa das paredes do palácio da Rainha. Ao fim da tarde estive no Teatro da Trindade para assistir ao primeiro de uma série de espectáculos de música popular. Foi pioneiro o Vitorino que cantou (as suas canções de sempre) e encantou (com as canções de José Afonso) ao longo de 60 minutos. Uma pequena plateia (os pioneiros são sempre poucos) cantou em coro o refrão de «Traz outro amigo também». Para a semana há mais: Aldina Duarte às 18 horas no Teatro da Trindade. Tristezas não pagam dívidas mas nada faz esquecer a carnificina da Polícia Municipal.
A Regra do Jogo passa a contar com o Tomás Vasques. É uma excelente entrada naquela que já era uma excelente equipa.
É um dos programas de rádio favoritos da minha alma lusitana. Um daqueles casos felizes em que o narcisismo nos leva para fora de nós. Conhecer as histórias dos que vieram para Portugal trabalhar, ou estudar, desperta uma curiosidade que ultrapassa os indivíduos em causa e só descansa quando chega às suas terras e suas gentes. Não há nada mais civilizador do que descobrir que o estrangeiro nunca existiu, era uma miragem. Somos todos patrícios de um Mundo grande e cheio de trajectos, cheio de locais onde podemos ter a nossa casa. Toda a gente é como nós, nós como toda a gente.
Quando, nestes programas de rádio ou noutras ocasiões, oiço o Português falado por alguns em Moçambique, Angola ou São Tomé, por exemplo, com uma clareza sonora e rigor gramatical já raros de encontrar em Portugal, ou quando oiço o Português falado com os sotaques timorenses, africanos, sul-americanos, romenos, ucranianos, ingleses, holandeses, alemães, indianos, chineses… sou puxado para um sentimento onde a Língua é, de facto, a minha pátria. Um Quinto Império feito das diferenças e dos diferentes, ilha dos amores.
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Selecção quase ao calhas:
Preparação para a nacionalidade portuguesa
Várias histórias. E um mundo em cada uma, em cada um.
Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina
A luta pela secularidade não se faz só contra a Igreja Católica. A cada ano, 3 milhões de raparigas em todo o Mundo estão em risco de serem vítimas deste crime tão violento e tão absurdo.
Estrangeiros em Lisboa
Um italiano, uma norte-americana e uma cabo-verdiana. O italiano, que criou um dos melhores restaurantes em Lisboa, veio a Portugal descobrir o seu amor pelo Brasil. Acaba a reportagem a servir um saboroso prato de cidadania. A americana conhece melhor Lisboa do que a enorme maioria dos alfacinhas. Diz que por cá a vida é tranquila, desculpem lá. Se quiserem saber o que é confusão, ide a Los Angeles. A cabo-verdiana deve ao engenheiro Sousa Veloso a descoberta da sua vocação profissional: agronomia. Dele recebeu dois beijinhos com amizade, para além de um destino que a chama para África.
Palco central: México
Como é que um português empreendedor vive a nacionalidade portuguesa lá fora? Com orgulho. Um orgulho que não tem origem na distorção sentimentalóide, antes na mais rigorosa lucidez comercial. É uma lição de inteligência.
Nesta entrevista vemos um homem de 90 anos cansado da vida. Uma vida de excepção, tanto pelo que nela realizou, como pelos protagonistas da História com quem privou, como pelo longo e largo trajecto existencial que lhe deu inumeráveis e tão díspares descobertas num século feérico e em constante aceleração civilizacional.
Mas mais do que estar cansado, ou talvez por isso, o que nos atinge com maior força é a sua derrelicção. Ele chega ao fim do trajecto sem saber para onde leva o caminho, sequer acreditando que valha a pena caminhar. Olhou para a escuridão com uma lupa, a escuridão pareceu-lhe ainda mais densa.
E, súbito, faz uma revelação:
Imagine que podia começar tudo de novo. Repetia tudo o que fez ao longo da sua vida?
Nem por sombras. Gostaria de fazer coisas completamente diferentes do que fiz.O quê?
Gostaria imenso de ser compositor e maestro. Sobre isso, não tenho quaisquer dúvidas!
Ah, a música… Estamos num universo onde, dando tempo ao tempo, os átomos transformam-se em compositores. Os sons espalham-se pelo espaço levando mamíferos seleccionados para dimensões fora desse espaço, fora de todo o tempo. E enquanto tocar a música, o nosso barco não vai ao fundo.
Cantemos, pois. Espantemos o mal.
We must not confuse dissent with disloyalty. When the loyal opposition dies, I think the soul of America dies with it.
Edward R. Murrow
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Há semelhanças incríveis, ou inevitáveis, entre Sócrates e Obama. Ambos se propõem reformar uma economia em crise estrutural. Ambos querem uma sociedade onde o Estado proteja os mais fracos e os mais inteligentes. Ambos têm que lidar com uma direita velhaca, paranóica, reduzida à infâmia. Ambos têm um passado que é alvo de ataques sórdidos. E, finalmente, ambos decidiram lutar contra o poder mediático pervertido sem recorrer à perversão, assumindo o combate político frontal contra quem usa o escudo jornalístico para fazer terrorismo político.

A oposição reclama a maioria dos deputados e dos votos. Logo, o PS tem de se afastar e deixar a oposição fazer o que lhe apetecer. É lógico. Por agora, e só enquanto a oposição não tiver a equipa governativa pronta para apresentar ao Presidente da República, aquele Governo que foi empossado continuará com os seus actos de boa gestão. Por exemplo, mantendo a avaliação dos professores. Que é para ver se todos aprendem.
Seja qual for a tua opinião, que até pode passar por considerar absurda ou errada a pergunta, interessa-me é a justificação.
Aquele golo do Hugo Viana em Mortágua
Há coisas inesquecíveis como aquele golo de livre do Hugo Viana em Mortágua, corria a época desportiva de 1998/1999. O Sporting ia jogar com a Académica mas, como os «estudantes» estavam de castigo, os jogos realizavam-se a mais de 50 quilómetros da Lusa Atenas. Mas não era do lado de Lisboa – em Condeixa, em Penela ou em Pombal. Era (tinha logo de ser) do lado de Viseu, em Mortágua, num campo pelado que parecia lixa nº 2. O castigado era a Académica mas quem cumpria o castigo eram os adversários. O capitão dos «capas negras» era o Zé Castro que se batia como um leão e o guarda-redes defendia tudo. Tudo menos o livre do Hugo Viana, quase igual ao livre do jogo Braga-Benfica. Dessa equipa faziam parte o Miguel Garcia, o Ricardo Quaresma, o Tecelão, o João Paiva, o Filipe Costa e o Mangualde – que está em Chipre, vi-o agora na televisão. O árbitro do jogo foi Carlos Xistra que fez uma excelente arbitragem, sem se deixar influenciar pelo público de Mortágua – muito fanático e quase todo afecto aos «estudantes». O golo que abriu a vitória ao Braga foi quase igual ao outro em Mortágua e mostra como às vezes um pequeno pormenor pode alterar o destino de uma carreira. Depois de ter sido campeão nacional em 2001/2002 o Hugo foi para Valência mas voltou por empréstimo aos «leões». Logo por azar, pouco tempo depois, marcou em Alvalade um golo ao Braga de Jesualdo Ferreira mas um árbitro de Portalegre invalidou esse golo. Com essa vitória o Sporting passaria para a frente do Braga e assim, com o golo anulado, o Hugo desmoralizou. E a sua equipa também. Aprendeu à sua custa, sofrendo na pele, que os árbitros são sempre influentes e, muitas vezes, são decisivos.
Há reforços no Jugular e a Isabel Moreira começou muito bem, aproveitando o Freeport para promover o conhecimento da Lei. A cidadania é tão mais forte quão melhor for esse conhecimento, embora a inversa não seja necessariamente verdadeira.
Depois de um grupo de melancias ter sido corrido a tiro de Alvalade, Bento tem de ficar até ao fim da época, pelo menos. A sua permanência tornou-se numa causa leonina.
Quanto à equipa, toda a minha gente, do treinador ao presidente, passando pelos jogadores e pelo relvado, diz o mesmo: a situação está difícil. Não se diz é porquê. E talvez seja melhor assim, arriscavam a que a situação ficasse ainda mais difícil se mostrassem não saber como a explicar. Porque, de facto, não sabem.
No último Câmara Clara, onde bem se fala dum português demasiado independente e brilhante para que alguma vez se torne popular, aparece Alegre a dizer que não entende quais são os critérios para ficar a repousar no Panteão Nacional. E, sem perder o embalo, pergunta por que não há um panteão dos poetas. É que tudo lhe pareceria mais fácil.
Eis o que proponho ao PS: ofereçam-lhe um mapa de Portugal e mandem-no procurar o local ideal para a construção do futuro Panteão Nacional dos Poetas. Isso irá ocupá-lo nos próximos 10 a 15 anos.
Tal como Marcelo aqui se esforça por dizer, o PSD vive em guerra civil irreversível. Os barões utilizam as suas armas uns contra os outros, desprezando o futuro do partido com o mesmo entusiasmo com que têm desprezado o futuro de Portugal.
A irrelevância do PSD é total. Nem conseguem fazer oposição, nem servem para governar. Mais valia que fossem até à Taprobana, sem pressa de regressar à ocidental praia lusitana.




Intervenções cirúrgicas