Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Ministro da Cabrita

Alguém da PSP decidiu que seria boa ideia provocar uma situação de conflito com os adeptos do Sporting que já tinham tomado conta do espaço junto ao estádio onde foi montado um ecrã gigante e havia álcool à venda. Esse alguém até poderá ter sido um simples agente. Ou um seu graduado logo acima, tomando uma decisão que não considerou precisar de aprovação de quem estivesse a comandar a operação de segurança no local. Aparentemente, quiseram passar com motas pelo meio da multidão, disse-se na altura. Mas pode ter sido por outra razão qualquer que o inquérito mandado fazer pelo Governo talvez revele. O certo é que a partir desse momento iniciou-se o espectáculo grotesco e absurdo de se ter de continuar a “manter a ordem” junto daqueles que adoram a desordem, essa chungaria das claques e demais infelizes que se juntam na turbamulta da testosterona e da acefalia.

Claro que, obviamente, a culpa é do Cabrita. E do Medina. E do Costa. E do PS. E do Sócrates (não? de certeza?… olhem que o gajo… mesmo na Ericeira, o cabrão… o melhor é deixar ficar). Especialmente, do Cabrita. Porque o Cabrita tem uma mira desenhada na testa, basta aparecer para elevar a auto-estima daqueles para quem “fazer política” e “fazer oposição” só se suporta decapitando ministros com alguma regularidade de forma a evitar a depressão. Uma depressão profunda e prolongada, como as sondagens vão revelando. Que saudades dos incêndios e sua devastação, os seus mortos. Que saudades de Tancos e da “vergonha internacional”, da “falência do Estado”. E, ai, que saudades de Janeiro de 2021 e da delirante expectativa de catástrofe com os doentes covídicos a amontoarem-se em pilhas de agonizantes às portas dos hospitais. Isso é que eram tempos, pá. Foda-se, pá. Saudade.

Pelo que teremos sempre o Cabrita. E o melhor seria inventar-se uma nova pasta, a da Cabrita. Seria ocupada por um bode expiatório cuja função seria apenas a de dizer coisas para irritar esta gloriosa oposição para quem ganhar só é possível se for o adversário a perder. Perder ministros, perder autonomia, perder autoridade, perder o mínimo respeito institucional como órgão de soberania, para que finalmente perca votos.

É simples. Aliás, com os broncos e os pulhas é sempre simples. Sempre a aviar.

Sportinguismo

No meu sportinguismo, este título não tem qualquer importância, qualquer significado, para além de ter nascido da aleatoriedade do pontapé no esférico.

No meu sportinguismo, o que aconteceu com mais importância nos últimos 19 anos da história do Sporting, significando plenamente o que é a clubite disfuncional – e que fica como a primeira manifestação política do populismo contemporâneo em Portugal – consiste na ascensão de Bruno de Carvalho (começada em 2011) e nos apoios que um traste daquele calibre agregou. Apoios políticos de gente com currículos que sugeriam bom senso e módica capacidade para reconhecer um epifenómeno que nascia dos piores instintos identitários.

O meu sportinguismo talvez só exista na minha ingenuidade e romantismo. Consiste em viver a cidadania com desportivismo e ir à bola com os cidadãos.

Consta que é do melhorzinho que se encontra no PSD

«"As pessoas não dizem porque têm medo. Mas estão cansadas destes 14 anos de sempre o mesmo, de um PS que depende de uma extrema-esquerda que nos odeia, que odeia todos os que não pensam como eles."»

Carlos “Inté parece que não andei a estudar na estranja” Moedas

Na notícia também se pode ler a seguinte maravilha, capaz de deixar as pedras da calçada a gargalhar:

«Antes, o presidente do PPM, Gonçalo da Câmara Pereira, tinha dado a garantia de que a coligação vai "varrer este Governo marxista e leninista que existe no país", começando pela autarquia da capital.»

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Dogs’ aggressive behavior towards humans is often caused by fear
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Seeing Others’ Big Triumphs, We May Feel More Motivated than Usual to Succeed
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Continuar a lerRevolution through evolution

A tragédia de um homem ridículo

«O líder do PSD rejeitou as críticas do primeiro-ministro, que considera que as propostas de Rio atacam a independência do poder judicial, e 'devolveu-as' a António Costa, quer acusando-o de ter interferido na escolha do procurador europeu, quer recorrendo a escutas do tempo da Casa Pia. "Enviaram-me um mail com escutas telefónicas do tempo da Casa Pia onde está o dr. António Costa a tentar interferir com a Justiça, está no Youtube", disse.

"Não é politicamente honesto dizer que nós queremos interferir na independência do poder judicial quando ele até tem esse historial", acrescentou, dizendo não compreender como é que "alguém com a responsabilidade do primeiro-ministro e que até foi ministro da Justiça" pode olhar para o estado do sector e "continuar a não querer fazer rigorosamente nada".»


Rio usa escutas da Casa Pia para acusar Costa de interferir na Justiça
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Mas como é que poderia ter havido?

O Conselho Superior da Magistratura (CSM) aprovou esta terça-feira um inquérito que confirma não ter havido quaisquer irregularidades na distribuição de processos no Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), onde, entre outros, tramitou o caso Operação Marquês.

Em comunicado, o CSM refere que "apreciou e aprovou" em reunião plenária o inquérito para "aferir da existência de irregularidades na distribuição de processos do TCIC, não se tendo ali apurado quaisquer factos novos que levassem a rever ou a modificar a anterior deliberação do CSM de 05 de fevereiro de 2019 que concluiu pela inexistência de qualquer infração disciplinar".


Fonte

🤹‍♂️

O que se passa no Conselho Superior de Magistratura tem ficado no Conselho Superior de Magistratura. Em especial, o jogo das votações e das faltas estratégicas a que os sete vogais escolhidos pela Assembleia da República e os dois escolhidos pelo Presidente da República se dedicam de forma a condicionar resultados das votações recorrendo à abstenção.

Na imprensa, dominada pela direita (donde, não é imprensa, é “comunicação social”), não se fala do CSM para não estragar o arranjinho. Um arranjinho do regime, literal e infelizmente, como se descobriu com a Operação Marquês e a sua transformação num processo essencialmente político ainda antes do seu início oficial. Decidiu-se que um certo cidadão iria ser soterrado num processo judicial inventado e que tal linchamento ficaria impune. Logo, como é que o CSM poderia encontrar qualquer irregularidade naquilo que para Ivo Rosa é o cano da pistola a fumegar?

Introdução à hermenêutica laranja

«Cavaco foi um político acidental que só depois se revelou um grande político.»

Durão Barroso

🃏

É nosso dever interpretar estas palavras que reúnem duas das mais importantes figuras da história do PSD e da direita portuguesa. Deixo um pequeno guia para análise:

– No caso, político acidental significa “político por acidente” ou “acidente de político”?

– Cavaco revelou-se um grande político antes, durante ou depois da Inventona de Belém?

– O BPN pode ser inscrito na lista dos feitos grandiosos de Cavaco dada a dimensão da roubalheira e do prejuízo – muitos milhares de milhões de euros – que ela causou aos portugueses?

– Sendo Durão Barroso o político que chegou a primeiro-ministro tendo jurado ser essa a missão da sua vida, e que depois aproveitou o cargo para abandonar os eleitores que o tinham elegido e o País por troca com uma carreira de alto burocrata europeu e de altíssimo lobista internacional, qual será realmente a sua concepção de “grande político”?

Venham daí esses exercícios hermenêuticos acerca destes dois criadores do Cavaquistão.

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‘Rational Rules’ book examines how we learn morals
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What Spurs People to Save the Planet? Stories or Facts?

Professor Marcelo dá uma lição sobre a Operação Marquês

De facto, deu foi sobre o processo e julgamento do Face Oculta. Mas tudo o que ali disse, inclusive o que não disse e podia ter dito, se aplica mutatis mutandis à Operação Marquês:

Ainda antes de irmos às palavras, registe-se o que a sua expressão corporal e emocional transmite. Marcelo está divertido, satisfeito, até pícaro, a discorrer sobre o que ele próprio garante ser uma extraordinária anomalia judicial. Não há vestígios da gravitas própria a um celebérrimo lente de direito nem de decoro inerente ao futuro estadista que se queira digno. E é fácil e rápido perceber porquê: o gozo de ver Vara, Sócrates e o PS sofrerem inaudito castigo através de um tribunal era irreprimível. Gozo aumentado até ao seu pináculo porque a ocasião lhe permitiu legitimar aquilo que ele próprio descreveu como uma aberração, dando-se ao luxo de oferecer exemplos comparativos para assim desfazer qualquer dúvida. A condenação de Vara a 5 anos de prisão efectiva por tráfico de influência, alegando-se ter recebido 25 mil euros que o Ministério Público não conseguiu provar ter-lhe chegado ao bolso, e fazendo dele o primeiro condenado por esse crime com tal pena, só se explica pela política, deixou a cinzento Marcelo. Tratou-se de um processo político, que levou a um julgamento político e que gerou uma prisão política. Daí o seu triplo gozo, gozo que jamais mostraria se a vítima fosse da sua gente.

Os argumentos usados por Marcelo para branquear o julgamento político são da mais canalha ironia. O primeiro é o do reconhecer que os juízes podem ser influenciados pela “opinião pública”. Opinião pública, explicitou, que já tinha condenado Vara e que exigia cabeças cortadas. Logo, os juízes, coitados, tiveram de satisfazer o clamor da populaça. Porém, Marcelo não teve tempo para nos dizer como é que se formou essa opinião pública que verga juízes. Terá sido por ter acompanhado o julgamento antes dele ter acontecido? Sim, é a resposta. O julgamento antes do julgamento tinha sido feito nos impérios de comunicação da direita, no sensacionalismo e na indústria da calúnia, coisa que o Professor achou melhor manter debaixo do tapete. O segundo argumento consistiu em sugerir que Vara, por azar, tinha sido apanhado numa alteração tectónica no edifício da Justiça, onde poderíamos estar perante o aumento das penas em crimes contra o património por comparação com crimes contra a integridade física, até então os mais fortemente penalizados. Todavia, era preciso esperar por outros casos para se poder aferir com mais certezas se estávamos face a uma tendência ou se tinha ocorrido uma excepção. Obviamente, a data em que tal balanço pudesse ser feito não foi indicada mas depreende-se que seria tarefa para décadas de espera. Com esta refinada pulhice de jurisconsulto, Marcelo selava risonho a sua aprovação ao que tinham feito a Vara – assim representando a oligarquia, a direita e todos os que se calaram (que foram todos na sociedade portuguesa, exceptuando o advogado de Vara que não conta).

A relação do Face Oculta com a Operação Marquês ocorre em tantos níveis quantos aqueles que se queiram investigar e expor. Na comunicação social e na política ninguém o faz por diferentes mas complementares razões. A direita porque explora essa tremenda vantagem de poder ter magistrados e jornalistas criminosos a combater politicamente o PS, dominando plenamente o terreno onde se molda a “opinião pública”. O PS por não poder responder aos ataques directamente dada a sua posição de fragilidade, onde qualquer reacção que não pareça capitulação (do género “Sócrates luta por aquilo que acredita ser a sua verdade”) só leva ao aumento do bombardeamento e dos alvos a ele sujeitos. E a esquerda porque também acha que ganha com o desgaste e emporcalhamento do PS. Mas, após o dia 9 de Abril, qualquer um está munido para fazer em casa, no carro ou na esplanada essa relação entre os dois processos com a marca Vidal. Basta pensar como é que Ivo Rosa teria julgado o Face Oculta, e depois pensar nos princípios em que ele se fundamentaria para chegar às suas decisões. Imediatamente se conclui que a condenação de Vara não aconteceria ou que, a acontecer, seria no máximo para pena suspensa. Porquê? Porque é o que se fez em todos os outros casos similares, sendo Vara, até hoje, caso único na Justiça pela violência extrema da pena dado o alegado móbil e por ela ter sido aplicada só com prova indirecta.

Como disse há dias o Presidente da República em frente a “Jovens e Capitães“, “tudo é política.” No caso do Face Oculta, e da condenação absurda e desumana do sucateiro e de Vara, tudo isso é, profunda e inevitavelmente, política. Da mais sórdida e cobarde que já se viu fazer no Estado de direito democrático nascido do 25 de Abril. E que, por maioria de razão e em frenesim bacante de ódio, se quer repetir na Operação Marquês.

50 anos de Abril com o Pedro

Pedro Adão e Silva vai presidir à comissão organizadora dos 50 anos do 25 de Abril. As comemorações terão início a “24 de Março de 2022, quando a democracia superar em um dia a duração da ditadura.”

Será o Pedro a melhor escolha? Faço a pergunta com genuína curiosidade porque reconheço a minha impossibilidade para lhe dar resposta. Se o Governo me tivesse consultado durante o processo de escolha (se o houve) não levaria nada daqui. O que fica como absolutamente natural dado que não sou político nem governante. Não possuo sequer conhecimentos suficientes para ter a mínima ideia do que está em causa organizar para esta comemoração.

Dito isto, a escolha parece-me perfeita. Dentro do que conheço dele como figura pública, e remetendo para a dimensão da feliz coincidência o ter nascido em Maio de 1974, garante-se à partida que o ciclo de eventos comemorativos terá uma fundamental componente informativa e formativa. Irá não só recordar-se o trajecto de cinco décadas da nossa democracia como, para duas gerações, estará em causa permitir-se a descoberta do valor daquilo que alcançámos como comunidade desde “o dia inicial inteiro e limpo”. As suas competências como académico, especificamente como cientista social, e o seu carácter são nele um antídoto exemplar contra demagogias e sectarismos, narcisismos e oportunismos. O melhor da esquerda e da direita no campo da produção intelectual e da intervenção cívica terá com o Pedro um lugar no palco, é certo. E a essência do 25 de Abril como nascente intemporal da nossa liberdade, a qual é concreta e tangível a cada dia e hora nisto de convivermos sob uma mesma Constituição, poderá ser uma festa de alegria abraçadamente política.

Sou fã do Pedro como comentador por causa destas características. E convido qualquer um ao exercício de prestar atenção à qualidade da inteligência que os comentadores espalham nas audiências – portanto, no espaço público. Uma analogia ajuda-nos a descobrir o que mais importa: pensemos na diferença entre um médico altamente competente e um curandeiro charlatão. Os pólos nesta experiência mental são radicalmente antagónicos, contudo é concebível que ambos poderão reclamar um mesmo resultado, o de terem tratado com sucesso alguém. O médico recorrendo à medicina, à ciência e à tecnologia, e o curandeiro charlatão recorrendo aos fenómenos psicossomáticos que geram efeitos placebo e/ou à aleatoriedade dos processos corporais do doente ou de algum ingrediente por ele ingerido. O médico altamente competente consegue explicar ao ínfimo pormenor de objectividade o que se passa com o doente e o que pretende com o tratamento indicado. O curandeiro charlatão reclama um poder mágico, pessoal, inescrutável com o qual obriga aqueles que se lhe sujeitam ignorantes e desesperados a aceitar acriticamente explicações básicas e delirantes acerca do que os aflige e de como se livrarão desse sofrimento.

Poderia agora concluir nomeando quem no comentariado se comporta como médico altamente competente e como curandeiro charlatão, mas não vale o gasto nas teclas do meu querido teclado.

Tratas alguém por tu? És corrupto, explica o Expresso

Era giro saber quantas pessoas leram Os erros políticos de Ivo Rosa, e depois fazer uma qualquer segmentação desse grupo (de milhares, centenas, dezenas?) para descobrir se concordam ou discordam do seu propósito, ou se em parte, ou se no quê.

O exercício é categorizado como “análise” e vem do teclado de Vítor Matos, um banal jornalista direitolas e sectário que serve o seu patrão com zelo na caçada aos socialistas que puder apanhar. Este amigo não é muito sofisticado, nem precisa para o gasto que fazem dele, pelo que o texto publicado tem partes inanes e, no seu todo, é involuntariamente hilariante. Nasce da estratégia de se fazer campanha contra Ivo Rosa, e assim tentar influenciar quem na Relação de Lisboa vá julgar os recursos da Operação Marquês, pintando-o como um totó; isto é, como incompetente para tomar decisões sobre matérias políticas. Disso ele não sabe nada, quem sabe são certos jornalistas. Esta é, literalmente, a lógica que Vítor Matos desenvolve, indicando quais os textos, as entrevistas e os livros que a Relação deve consultar para desfazer as decisões de Ivo Rosa.

Portantos, bá la ber e para início de conversa, que caralho será uma “análise” no Expresso? Não será uma notícia, parece seguro. Mas igualmente não se apresenta como “opinião”, coisa que a ter acontecido me evitaria esta prosa canhestra. Carimbar como “análise” o que ali se publicou sugere que o director do jornal (vou acreditar ser dele a última palavra sobre as cenas que lhe pagam para dirigir) considera que os seus leitores devem presumir não se estar perante uma qualquer subjectividade à solta (o reino da opinião) mas antes no da disciplina, austeridade e virtude do labor intelectual. Quem analisa, como a sua etimologia consagra, vai ao encontro de um dado objecto e aumenta o seu conhecimento acerca dele separando as suas partes, descobrindo as relações entre elas, dando a ver o que estava ocluso antes da análise, pois. E esta noção pode corresponder à “verdade” dos atenienses académicos e peripatéticos, para quem o desvelamento (“tirar o véu” – ἀλήθεια) correspondia ao conhecer. Eis o que se pode ler num manual de Filosofia do 10º ano de escolaridade. Concedo, no entanto, que no Grupo Impresa uma análise seja um bicharoco completamente diferente do que se ensina às crianças. Afinal, é gente tão inteligente aquela capitaneada pelo aquilino mano Costa, não merecem ficar presos às concepções vulgares.

A “análise” do valente Matos ignora olimpicamente os quase 30 anos de actividade como juiz do seu alvo, período em que teve acesso a milhares de processos, cada um deles com caudalosa informação a respeito da vida real de todos os envolvidos nos casos respectivos. Esse acesso ao mundo privado e detalhado de indivíduos, organizações e instituições ao longo de três décadas como substrato para a aquisição de competências para avaliar políticos é pó quando comparado com o magnum opus dos seus coleguinhas de ideologia, sustento e facciosismo, os quais usaram e usam as suas carteiras de jornalista para o combate político tribal e agendado, lê-se nas entrelinhas sem lupa. Daí apelar, alheio ao decoro e à deontologia, a que no Tribunal da Relação se esqueçam os princípios do Estado de direito democrático e a Constituição, abraçando sem medo as teorias da conspiração e calúnias que os adversários políticos de Sócrates e do PS foram espalhando ao longo de anos e anos.

Eis uns nacos do seu poder de “análise”:

- «O juiz devia ter lido três livros de jornalistas ou ouvido os autores de “A Implosão da PT”, “Quem Meteu a Mão na Caixa” e “Caixa Negra”.»
- «O primeiro-ministro português fazia-se ouvir do outro lado do Atlântico por ter construído uma “grande amizade” com Lula da Silva, e admitia apoiá-lo numa candidatura a secretário-geral da ONU. Mais do que isso: prometia “discutir o futuro de Lula” com o então presidente do Governo espanhol, José Luis Zapatero, e com George Papandreou, primeiro-ministro grego. O que tem isto a ver com a Operação Marquês? Tudo. Porque as relações pessoais são essenciais na política, algo que o juiz Ivo Rosa desvalorizou, e porque a relação com Lula era confessadamente assim.»
- «Acontecem coisas na política possíveis de intuir mas difíceis de provar, sobretudo porque os políticos astuciosos não movem influências com a clareza que os investigadores do Ministério Público desejavam nem com o formalismo que o juiz esperava ver nas provas. Mas não se pense que isto é novo: “A política é a arte da simulação e da dissimulação”, deixou escrito na pedra o cardeal Jules Mazarin em 1642, depois de suceder a Richelieu como primeiro-ministro do rei Luís XIV. Passados 400 anos, mesmo numa época em que é possível mapear a rota de €34 milhões para alegado usufruto de um ex-primeiro-ministro, continua a ser necessário interpretar a forma dissimulada de como os políticos se movem — mesmo que isso não sirva de prova em tribunal.»
- «“Ingenuidade.” Foi assim que António Lobo Xavier se referiu às interpretações de Ivo Rosa no programa “Circulatura do Quadrado”, na TVI. Mais violento a sublinhar a iliteracia política do juiz, Luís Marques Mendes, um veterano em núcleos duros de Governos — e profundo conhecedor dos meandros políticos — disse na SIC: “Deve estar a brincar connosco. Alguma vez no Governo Sócrates alguma questão importante era decidida sem ouvir o primeiro-ministro? Este juiz ou é ingénuo, ou faz-se de ingénuo ou vive num mundo à parte.”»
- «No livro “Quem Meteu a Mão na Caixa”, a jornalista Helena Garrido escreve que nas reuniões da administração da PT, onde Armando Vara — hoje preso por corrupção — representava a CGD, as suas intervenções “eram sempre ouvidas como se estivesse a falar José Sócrates”.»
- «Agora, avançamos para 2010, quando a espanhola Telefónica ameaçou lançar uma OPA sobre a PT se os portugueses não lhes vendessem a operadora brasileira Vivo. A oferta acabou por ser considerada quando os espanhóis puseram €7,1 mil milhões em cima da mesa, poucos dias depois de Ricardo Salgado ter dito aos jornalistas que, “como em tudo na vida, a Vivo tem um preço”. Quando soube, Sócrates teve um dos seus ataques de fúria, segundo o livro “A Implosão da PT” — das jornalistas Alexandra Machado e Alda Martins —, por as partes terem chegado a acordo sem o consultarem: para ele, “a PT não podia vender a Vivo sem ter uma alternativa no Brasil”. Mas “o plano B estava a ser cozinhado” e Sócrates era um dos intervenientes...»
- «Mas agora, a não ser que o Tribunal da Relação reverta a decisão instrutória — e os desembargadores leiam os livros dos jornalistas que Ivo Rosa parece não ter lido —, os factos relacionados com o Brasil não serão apreciados em julgamento.»
- «Ivo Rosa parece não ter ideia de que, em política, as relações pessoais são o adubo das decisões que chegam fechadas às reuniões formais. Não é por acaso que passou a ser regra os chefes de Governo tratarem-se por tu e pelo primeiro nome. Se houver amizade ou informalidade, tudo se torna mais fácil.»

Nota final

Armando Vara não está preso por corrupção. Mas como é que o brilhante Vítor Matos poderia saber disso se o coitado do homem passa o dia a “analisar” o que ouve na redacção do Expresso? Uma redacção onde todos sabem tudo sobre corrupção e corruptos, ou não almoçassem e bebessem copos com eles. Porém, como há tanta corrupção e tanto corrupto, os jornalistas do Expresso têm de ser selectivos pois não há tempo para dar conta desse mar de gente. Optaram por começar pelos corruptos socialistas. Quando os conseguirem meter em Évora num número considerado suficiente, jeitoso, então aí talvez tratem dos outros. Há que ter prioridades, são as deles – os craques que descobriram ser o tratamento por tu um dos mais exuberantes sinais de estarmos perante corruptos de altíssimo calibre. É pura e simplesmente genial esta ideia e ficamos com fundadas esperanças de ver o Tribunal da Relação a acolher o contributo do Expresso para acabar com o flagelo da corrupção socrática e a produzir jurisprudência à altura da descoberta.

Estado da direita: a decência é agora a excepção

O discurso do Presidente da República na Sessão Solene Comemorativa do 47.º aniversário do 25 de Abril foi um eficaz exercício de comunicação. No conteúdo, corresponde a uma aula de História ao nível do ensino secundário onde os objectivos didácticos sejam a ilustração dos conceitos de “relativismo moral” e de “comunidade”. O texto leva a sua audiência a contemplar a complexidade, a mistura, dos tempos dentro do tempo. A cada tempo, a cada espaço no tempo, os seus valores. Dos valores vem o comportamento, conforme ou opositor. Se nos focarmos no último século (estamos quase a chegar a uma data axial da contemporaneidade, o centenário do 28 de Maio de 1926), o discurso lido na Assembleia da República para comemorar uma mudança de regime apela a que se aceite a bondade de todas as partes. Eram bons os que fizeram maldades, pois não sabiam fazer melhor ao tempo. São bons os que querem fazer maldades por causa das maldades dos antigos, pois no seu espaço e no seu tempo sentem a pulsão da vingança e da revolta. Mas todos se devem perdoar e tolerar, sendo a esse desfecho que colhe chamar “comunidade”. Prova de que tal é possível? Aqui o discurso salta para o metadiscurso, num clássico aparato retórico, e o autor faz das suas palavras – e do momento da fala, desse καιρός – a evidência que reclama: ele tinha sido um dos maus e tornou-se bom. Portanto, sejam amigos, vá lá.

Este é um conteúdo simples, que não chega a cair no simplismo só porque a direita portuguesa há muitos anos que se barricou no grau zero da inteligência política. Desistiram de pensar a cidade, de ter projectos que sejam competitivos em eleições, e reduziram-se à chicana, ao golpismo e ao ódio. Nesse nível, a transmissão de mensagens apenas utiliza o berreiro como canal. E que se pode dizer a berrar? Tão-só que os adversários são o inimigo, o Diabo. É esse o papel do editorialismo e da indústria da calúnia, que em Portugal é um monopólio da direita. Ora, perante esta decadência, um discurso repleto de bem-intencionadas vulgaridades, como o que Marcelo engendrou com arte, está a gerar uma comoção ditirâmbica. Como se fosse espantoso ouvir um tipo de direita a reconhecer um terreno comum, a apelar à união na diversidade, a ser decente. E a promover a empatia, inclusive para seu próprio benefício. Empatia que é antinómica, mesmo cognitivamente paradoxal e insuportável, com a exploração da frustração e do rancor a que a direita se entrega desde 2007.

Há dois subtextos, porém, no espectáculo oferecido por este actor tarimbado. O primeiro é o de na sua tese se sobrevalorizar aqueles com quem mais Marcelo se identifica, a rapaziada do seu tempo, apelando a que os outros, vítimas próximas ou distantes dos seus, acolham essa diferença. A esta pretensão se deve contrapor a daqueles que reclamam por não terem a sua diferença reconhecida de forma plena, ou suficiente, ou mínima. O segundo é o de Marcelo também ter na sua equipa a Cofina, o João Miguel Tavares e o Marques Mendes, para dar três exemplos que dispensam explicações. Esse Portugal onde a política é uma praxis da violência, do poder pelo poder através da tentativa de destruição de quem se lhes oponha, não é aquele nascido do 25 de Abril. Ao contrário, é contra ele que o 25 de Abril doa sentido à História.

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