Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Exactissimamente

A barba de Paulo Pedroso

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Nota

Vale a pena registar quem é que, daqueles com voz na imprensa de referência, veio manifestar a sua solidariedade com Paulo Pedroso e a sua indignação com uma Justiça que lhe destruiu parte da vida cívica e causou sofrimentos pessoais indescritíveis, incomensuráveis e irreparáveis. Quanto aos outros, os que ficarem calados, que sejam ignorados por conta e risco de cada um.

Revolution through evolution

Study finds less corruption in countries where more women are in government
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Mother’s attitude to baby during pregnancy may have implications for child’s development
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People who deeply grasp pain or happiness of others, process music differently in brain
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The tarot revival thanks to Brexit, Trump and Dior
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Better physical fitness and lower aortic stiffness key to slower brain aging
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Adapting Lifestyle Habits Can Quickly Lower Blood Pressure
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Ways to Help Someone Struggling with Thoughts of Suicide
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Paulo Pedroso, ponto final do parágrafo?

O texto de Paulo Pedroso – Ponto final, finalmente. – não é de alguém vitorioso; apesar da vitória que, 15 anos depois, lhe foi atribuída pela Justiça Europeia. É tão-só a declaração de um sobrevivente, anunciando que não foi destruído pelos seus inimigos.

Acontece que esses inimigos ocupam, transversal e corporativamente, a Justiça portuguesa. Que o mesmo é dizer, portanto, que os seus inimigos, inimigos porque o privaram da liberdade e tentaram assassinar o seu carácter, estão na política soberana. Estão na Assembleia do República. Têm passado pelos Governos e pela Presidência da República. Todos os agentes políticos que usufruíram de poder institucional e influência social, e que não se escandalizam com os abusos da Justiça seja sobre quem for, são inimigos do Paulo Pedroso. Inimigos do Estado de direito democrático. Inimigos da liberdade.

É por isso que precisamos desta vítima para nos guiar no combate que transcende as ideologias, partidos e facções. Precisamos de quem tenha resistido com coragem e inteligência à violência dos cobardes e dos pulhas. Precisamos do Paulo Pedroso na política portuguesa.

Por cima dos danos irreparáveis causados a este cidadão, ergamos uma barricada contra quem usa a Justiça como arma do crime.

O inédito pré-Mundial nas televisões

Este Bruno de Carvalho é um caso. Não sei se clínico. Mas que é um caso, é. Então, com o plantel todo a debandar, na iminência de levar o clube à falência, sem treinador de futebol, sem equipa, sem rumo que não seja manter-se naquela cadeira presidencial, com os seus adeptos favoritos na choldra por crimes graves que, na impossibilidade de liquidarem fisicamente o plantel, o liquidaram contratualmente, cometendo ilegalidade atrás de ilegalidade enquanto brinca com os estatutos, lembra-se de propor aos jogadores que rescindiram que voltem atrás com a decisão, porque, se o problema é ele, ele vai-se embora, mas, se for novamente eleito, esses jogadores que desistiram das rescisões terão que ficar no Sporting, obrigação que deve constar de um documento assinado?!  Estamos todos a ver os jogadores a assinar, não estamos? Limpinho ali, na hora.

Dúvida: será o homem burro, andará a inalar algo, está a treinar para palhaço ou está/é mesmo doido? Nenhuma das opções exclui as restantes. Eu só espero que o povo seja sereno, porque, a avaliar por uma entrevista de rua transmitida  ontem à noite em directo na TVI24 (salvo erro), um “popular” estava suficientemente desesperado e exaltado para isto poder não acabar nada bem.

Uma vez sem exemplo

Há hoje dois artigos no Público, dois, com os quais estou inteiramente de acordo. Um, de um embaixador reformado de nome Fernando d’Oliveira Neves, intitulado “O museu das ex-descobertas”, trata, obviamentre, da momentosa problemática do (censurado) nome do Museu das Descobertas. O artigo está claro, num estilo bem disposto e certeiro. Podem ler aqui. No fim, é caso para nos interrogarmos se haverá liberdade para dizermos que Lisboa está a ser descoberta (e Portugal). Parece que já ouço alguns dizer: “Por amor de deus, não!! Não digam isso. Nós já cá estávamos.”

 

Um pequeno excerto, do início:

 

“Não sei como alguém teve a ideia de chamar Museu das Descobertas a um museu sobre as Descobertas, que parece que afinal não  descobrimos, pois quem estava nos sítios que nós descobrimos já se tinha descoberto. Não é caso único. Lembro-me, quando se preparava o bicentenário da descoberta da América pelo Colombo, de ver na televisão um mexicano, loiro de olhos azuis, a dizer que a América não tinha sido descoberta, porque eles já estavam na América e por isso não precisavam de ser descobertos. Como chegaram loiros de olhos azuis ao México, antes do tonto do Colombo chegar à América, a pensar que tinha chegado à Índia, ele não explicou.”[…]

 

E do fim:

 

“Agora parece que, como o mar já existia, não descobrimos nada, e portanto não temos nada de que nos orgulhar nem lembrar no Museu das Descobertas. Eu pensava que sim, pois até historiadores estrangeiros, e todos sabem como é perfeito o tal estrangeiro, achavam ímpares os nossos extraordinários feitos, como o americano Boorstin, librarian da Biblioteca do Congresso, um dos mais prestigiados cargos do país, que considerou a saga da procura do caminho marítimo para a Índia como o primeiro empreendimento científico moderno, que marcou o mundo para sempre, ou o inglês Toynbee, por muitos considerado o maior historiador do século XX, que dividia o mundo entre a época pré-gamica e pós-gamica, ou seja, antes e depois da viagem do Gama. Viagem que, como é óbvio, deu ao Ocidente cinco séculos de domínio do mundo, que os Estados Unidos estão a destruir com afinco e os chineses, que sabem de História, querem marcar o termo com a simbólica viagem inversa da nova rota da seda. Mas é claro que o prestígio do Boorstin e de Toynbee caiu a pique em Portugal, por atribuírem mérito aPortugal e aos portugueses, o que é por cá muito mal visto.
Mas lá que andámos por todo o lado e por todo o lado deixámos monumentos, orações, comércio, tradições e comunidades com ligações a Portugal, da foz do Amazonas às ilhas das Flores, lá isso é verdade. Para não falar da língua, a quinta mais falada do mundo, num país continente e em todos os continentes. Proeza só equiparável à das então três maiores potências europeias e sem paralelo em países da nossa dimensão.
Fizemos o impossível. Por isso o melhor é chamar ao Museu das Descobertas Museu da Descoberta de Portugal. Porque só percebe Portugal quem conheça essa nossa História.”

 

O segundo, daquele escriba que vê Sócrates em todo o lado, sonha com ele, escreve sobre ele, mente e calunia dia sim, dia não (e por isso é pago e bem pago pela SONAE), e que persegue com a tecla, e com qualquer microfone de que disponha, tudo o que é socialista, o João Miguel Tavares, hoje merece um elogio. Escreve ele sobre a estúpida decisão da ERC de reconhecer ao canal Panda Biggs o direito de censurar um beijo lésbico numa série para jovens. É ler aqui (“Censura, beijos lésbicos e desenhos animados”). Por uma vez, nada tenho a objectar.

 

Excerto final, para quem não tem acesso:

“[…] Alguém achar que a homossexualidade ainda é fracturante em 2018 é puro preconceito, sem nenhum argumento lógico atendível (até a Igreja já tem vergonha de defender a tese contranatura em voz alta), e graças a uma falta de visibilidade que o Panda Biggs apenas reforçou com a sua opção. Portanto, caro Paulo Côrte-Real, não percebo qual seja a dúvida nesta matéria: como o próprio nome indica, os defensores ardentes da liberdade de expressão não gostam que censurem coisas. Não gostam que censurem desenhos animados. Não gostam que censurem cadernos cor-de-rosa e azuis. E não gostam que censurem o uso da palavra “princesa”. Mais simples do que isto não há.”

 

Exactissimamente

Não se depreenda disto que o facto de os professores terem uma ação direta, e muitas vezes decisiva, na vida dos nossos filhos seja conscientemente utilizada como arma. Acho que a maioria dos professores acredita que as suas lutas são parte integrante da sua vontade de o ensino ser cada vez melhor.

Seja como for, o facto é que o papel que desempenham na comunidade lhes traz talvez a maior capacidade reivindicativa de todas as classes profissionais. Tem sido utilizando essa força que conseguiram afastar aquela que foi a melhor ministra da Educação da democracia portuguesa, Maria de Lurdes Rodrigues, que conseguiram um sistema de avaliação de desempenho que pouco conta para a progressão na carreira (chamar-lhe avaliação é, por si mesmo, abusivo), que são mais bem remunerados do que os seus congéneres europeus de países com índices de desenvolvimento similares ao nosso e que o decurso do tempo tenha mais relevância do que em relação a qualquer outra carreira da função pública.

Repito que será assim também porque pensam que isso é melhor para os alunos e para o sistema de ensino.

Estão errados, porém. Não é admissível que a avaliação conte tão pouco para a progressão na carreira e que a passagem do tempo seja um fator decisivo. É injusto e de certeza que não contribui para que os professores sejam melhores profissionais e para um melhor ensino. O paradoxo de quem avalia não ser avaliado seria argumento bastante.


Qual é, afinal, a luta dos professores?

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Nota

Quem é professor no Ensino Secundário sabe bem, por testemunho&cumplicidade (no mínimo), que a avaliação dos alunos é sistemicamente fraudulenta. Daí até se projectarem como futuras vítimas da mesma perversidade não vai nem um milímetro nem um segundo. Menos, muito menos, muitíssimo menos. E da falta de vocação pedagógica e das incapacidades didácticas e científicas é melhor nem falar sob pena de voltarmos a ter a Avenida da Liberdade cheia de pavor e raiva.

Revolution through evolution

Throw like a girl? No, he or she just hasn’t been taught
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Fleeting Feelings of Hate May Be OK for Couples, in Small Doses
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Teachers who give cookie rewards score better in evaluations
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Coffee helps teams work together
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Using mathematical approaches to optimally manage public debt
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Bad News Becomes Hysteria in Crowds, New Research Shows
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Law and society rely upon a ‘Republic of Belief’
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Continuar a lerRevolution through evolution

Estado de direita

«“A revista Sábado, na edição de 7 de junho de 2018, titulou com destaque de capa ‘O plano criminoso’ de Ricardo Salgado para a Venezuela. Em primeiro lugar, é falso que alguma vez tenha existido qualquer ‘plano criminoso’ de Ricardo Salgado. Em segundo lugar, trata-se de mais uma flagrante e impune violação do segredo de justiça. Com a agravante de que, ao contrário dos jornalistas habituais que têm contacto privilegiado com processos em segredo de justiça que envolvem o dr. Ricardo Salgado, a sua defesa ainda não teve acesso a qualquer dos elementos apresentados no aludido artigo”, lê-se no comunicado emitido pelos advogados Francisco Proença Carvalho e Adriano Squillace.»

Fonte

Feministas unissexo: uma contradição

Porque é que as mulheres ganhavam tradicionalmente menos do que os homens e, por isso, em muitos casos, continuam a ganhar? Ao contrário do que afirmam certas feministas, não era por uma questão de discriminação em si, de subalternização ou de formatação educativa para a obediência e consequente exploração. Era simplesmente porque as sociedades se organizaram durante milénios em torno do trabalho braçal, que exigia força física. E havia as guerras, que exigiam mais força ainda, espírito combativo e agressividade. E, a par disso, havia as crianças, que precisavam de ter quem cuidasse delas (não havia creches) e, já agora, quem as gerasse e parisse,  tarefa que competia e ainda continua a competir exclusivamente às mulheres, que exigem sossego. São milénios de separação de funções com base na biologia – maior potência e exigência física para os homens, mais sedentarismo, domesticidade e empatia para as mulheres (não me venham com as amazonas; há sempre excepções). Isto, obviamente, não tem nada que ver com capacidades intelectuais, note-se. Nesse campo, nada prova que a igualdade não tenha sido sempre total. Infelizmente, tanto uns como as outras viram o desenvolvimento e aplicação dessas capacidades coarctadas durante milénios pelas imposições da luta pela sobrevivência. Pelo menos as mulheres e os homens das classes inferiores (o que equivalia à quase totalidade da população mundial). Milénios disto. Mesmo com a industrialização, continuou a ser requerida mais força (e resistência e assiduidade) aos homens do que às mulheres.  Era, portanto, considerado “natural” remunerar ou só os homens ou melhor os homens. Eram os tempos em que a reprodução (incluindo os ciclos lunares das reprodutoras) não tinha um valor social, hoje em dia fundamental, de perpetuação da espécie. Nem valor de mercado enquanto produtora de consumidores. O respeito por essa função só agora começa a surgir.

 

Mas o mundo, a ciência, os conhecimentos históricos, a tecnologia e a sociedade foram evoluindo. Hoje, nos países ocidentais, os mais evoluídos, teme-se a extinção da nossa espécie, há pânico com a baixa taxa de natalidade. O indivíduo em si e as crianças em particular são muito importantes por razões óbvias. As mulheres contam como indivíduos e querem a sua independência; construíram-se creches (não em todo o lado, mas em muitos sítios); há partilha de tarefas domésticas; os trabalhos, na sua maioria, graças à maquinaria, já não exigem grande força muscular e, também por isso, os salários a nível das fábricas, dos serviços, do ensino, da investigação, etc., foram-se nivelando entre os sexos. Apesar disso, subsistem diferenças, sim. Continua a haver mais homens do que mulheres em cargos de chefia, por exemplo. Certo. Mas será porque as mulheres são discriminadas a esse nível só por serem mulheres, como pretendem as feministas? Não me parece. As mulheres que querem mesmo chegar ao topo de empresas, de administrações, etc., e têm disponibilidade para isso (coisa que a maior parte ainda não tem, ou não tinha em etapas importantes da carreira, perdendo um bocado o comboio), são livres de o fazer e é um facto que o fazem. Mas nem todas têm esse objectivo na vida. E deviam? Para muitas feministas, parece que sim. Não só deviam como parece que é obrigatório. Dito isto, nada tenho contra as quotas como incentivo, além de terem em conta também a maior longevidade.

 

Há, portanto, inúmeras razões para as diferenças salariais e profissionais actuais, não se tratando em todos os casos de discriminações puramente em função do sexo, como acontecia (e infelizmente ainda acontece) em função da raça. Há justificações de ordem biológica, organizativa, pessoal e outras, embora hoje em dia já ultrapassáveis e a sua rejeição aceite. Mas eu diria que a força física e a questão da gestação não se encontram ainda de todo arredadas da problemática da “condição feminina”. Porque é que, por exemplo, as raparigas devem ter medo de andar sozinhas em zonas isoladas ou a certas horas? Pela mesma razão por que um rapaz franzino deve ter medo e certamente tem. Com a agravante de as raparigas poderem engravidar, poderem ter de abortar, poderem ficar com um filho inesperado nos braços, enquanto o pai “dá à sola”. Os potenciais atacantes, por serem homens, são mais fortes fisicamente (mesmo que saibamos que a seguir vão presos, ninguém gosta de ser maltratado). Se não fossem (mais fortes), qualquer empurrão ou pontapé os afastaria. Aliás, se não fossem mais fortes nem sequer atacavam. Concordo que se lute por medidas a montante, ou seja, para que se corrija e dome nos mais fortes, através da educação, o instinto animalesco e que se trabalhe a nível das próprias autoridades para que haja mudança de mentalidades, e também a jusante, ou seja, que se tornem mais pesadas as penas para os abusadores. Penso que acabaremos por lá chegar – ao respeito total – e, por cá, até já estamos a léguas de distância de certas regiões do mundo, como a Índia, por exemplo. Há muito a fazer para lutar pelo respeito do outro, sobretudo do mais fraco, e contra a violência.

 

Mas enquanto certas feministas insistirem em que não há qualquer diferença biológica entre homens e mulheres, o objectivo da luta está minado e estão condenadas a serem ridicularizadas e a perderem credibilidade nas lutas verdadeiramente importantes. Está cientificamente provado que há preferências inatas diferentes nos miúdos, na esmagadora maioria dos casos, a nível dos brinquedos e das brincadeiras.

Ao ouvir a entrevista que o Daniel Oliveira fez a Fernanda Câncio, uma feminista, verifico que esta está, de facto, a sujeitar-se ao ridículo e predisposta a eternamente acusar de incompreensão os outros (“atrasados, que ainda não perceberam nada”). E sem razão. Dizer que não há qualquer diferença biológica e, por isso, comportamental, entre homens e mulheres é o mesmo que dizer que não há qualquer diferença entre homens hetero e homens homossexuais ou entre mulheres hetero e lésbicas. Intelectualmente não há nenhuma, atribuível ao sexo, entre qualquer ser humano. Isso é evidente. Mas biologicamente, hormonalmente, há, claro que há. Tanto há que há quem se sinta atraído/atraída e também afastado/da pela diferença. Não vejo nisso um problema. Mas a que propósito se pensa que para lutar pela igualdade social entre os sexos se devem considerar os mesmos biologicamente iguais? É um absurdo. Considero-me hetero. Sempre achei e sempre apreciei que os homens com quem me relaconei fossem diferentes de mim. No geral, “mais quadrados” e mais previsíveis, menos expressivos, mais “frios” e também mais seguros. Para floreados cá estou eu, foi o que sempre achei. Em boa verdade, é a diferença que atrai. Se eu gostasse de uma pessoa igual a mim, provavelmente era lésbica. E ninguém teria nada com isso.

 

 

Kevin Spacey e o afastamento da série

 

Também ao contrário do que se diz na entrevista, o afastamento de Kevin da série “House of Cards” não foi uma punição da indústria cinematográfica por comportamentos abusivos (e, portanto, uma possível e discutível confusão, segundo o Daniel, entre a vida pessoal do actor e a sua vida profissional). Muito menos, como diz a Fernanda, por haver o perigo de os pais de miúdos que com ele contracenassem temerem o seu carácter predatório (coisa que na série em questão nem tinha oportunidade de acontecer (pelo menos até ao episódio onde parei), dada a personagem, mas enfim). Acontece que, quem faria essa punição seria, e os produtores sabiam-no, o público. O homem abusava do seu poder enquanto actor famoso, tal como outros hoje em dia já conhecidos. A partir daí, como quase tudo na América, era uma questão de dólares – a série deixaria de render. Ponto. É esta a relação entre a vida pessoal do actor e a sua carreira profissional. Uma questão de receitas. Claro que, se Kevin Spacey se lembrasse de continuar a importunar jovenzinhos, arriscava-se a ir preso, o que também seria mais um prego, definitivo, no caixão da sua carreira artística e um mau nome para a produtora, que também quer continuar a produzir séries que as pessoas vejam. A fazer dólares, portanto.

Em suma, lutar pela igualdade de direitos e deveres (nomeadamente parentais), pelo respeito pelo outro e contra a violência e o abuso de poder (físico e outro) é uma coisa. Para isso, dizer que não há qualquer diferença biológica entre homens e mulheres e que a que se pensa haver se deve ao facto de todos termos sido e sermos ainda formatados para “papéis” (e porquê, já agora? Com que intenção perversa?) é completamente errado e contraproducente. A esmagadora maioria das pessoas sente e aprecia a diferença.

Como último apontamento, saliento ainda que, no futuro, até vejo as crianças a serem geradas em laboratórios. Pelo menos, como opção. As gravidezes podem ser penosas e são seguramente penalizadoras profissionalmente (na esmagadora maioria dos empregos). Essa diferença/desvantagem entre homens e mulheres, pelo menos, desapareceria. Mas quanto à uniformização dos sexos, espero que não aconteça. Seria um retrocesso lastimável. Lutar por isso não é feminismo. É o oposto.

A banalidade de Marcelo

Reunir as duas entidades públicas mais importantes na hierarquia do Estado no mesmo espaço tem de implicar estarmos perante um assunto da mais alta importância nacional. Consta que uma rapaziada vai jogar à bola na estranja, é só isto. Noutros tempos teríamos tido direito a um cardeal na fotografia e à visita de Cecília Supico Pinto para moralizar a tropa em calções com as suas cantorias.

Se as duas entidades públicas mais importantes na hierarquia do Estado querem estar presentes numa jantarada ligada a uma selecção nacional de um desporto qualquer em vias de participar num qualquer torneio, baril. Cada um sabe de si e das companhias que frequenta. Mas se as duas entidades públicas mais importantes na hierarquia do Estado decidem também abrir a boca para dizer coisas em nome das instituições que representam, então, senhores ouvintes, estaremos perante um assunto de altíssima importância para a Pátria. Os russos vêm aí?! Não, espera, nós é que vamos à Rússia. Há que recordar as lições de Napoleão e Hitler se a ideia for mesmo a de conquistar Moscovo.

Ferro Rodrigues teve a feliz ideia de listar os locais de nascimento dos jogadores, o que lhe permitiu chegar a uma imagem desafiadora: em que outros domínios da nossa comunidade vemos tanta diversidade geográfica num mesmo grupo profissional? A imagem é desafiante porque nos leva para nenhures. O desafio consiste, precisamente, em não ir com ela. Melhor ficar a contemplá-la a esvoaçar nos céus até desaparecer graciosamente de vista no horizonte ou ser abatida sem piedade pela caçadeira da lucidez. É que é completamente indiferente, seja para o que for, que não se consiga indicar um qualquer outro exemplo onde se replique a cobertura territorial que a selecção nacional apresenta na lotaria das ascendências geográficas dos actuais jogadores. Era só o que faltava, a obrigação de incluir um madeirense à força numa qualquer empresa com mais de 20 trabalhadores ou passarmos a exigir que os hospitais públicos tenham funcionários minhotos, beirões e algarvios em proporções idênticas. Porém, a ideia resiste na sua felicidade pois se trata de uma metáfora. A metáfora da diversidade como ideia cívica e política a merecer o patrocínio da segunda figura do Estado português numa ocasião proporcionada pelos pontapés na bola. Estiveste bem, Ferro.

Marcelo Rebelo de Sousa comportou-se como Marcelo Rebelo de Sousa. Estava excitadíssimo com a perspectiva de ir ver jogos de futebol. Uns em estádios, outros no meio da maralha. Todos, sempre, no pico da curtição como fã que se concebe igualmente como vedeta nessas ocasiões. A sua ânsia deleitada era tanta que entrou a pés juntos no estilo de Américo Thomaz e suas pérolas como «é a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive». Enfiou-se num raciocínio que partia de termos o melhor jogador do mundo e saltava magicamente para serem todos os jogadores os melhores do mundo. Logo, rasgo de genialidade, se a nossa selecção nacional tem os melhores jogadores do mundo, só precisa que cada jogador seja aquilo que é. Siga. Tal como no discurso anterior, esta imagem volta a não querer dizer nada que mentes humanas consigam usar com algum proveito, mas desta vez o bafo a balneário era insuportável. Marcelo aproveitou a ocasião para mostrar que, se o deixarem, pode ir fazer palestras aos jogadores no intervalo dos jogos que estejam a correr mal. Contem com o Presidente da República para explicar aos atletas que eles apenas têm de ser quem são, caso Fernando Santos não esteja à altura dessa responsabilidade.

Marcelo está no cargo para o qual se preparou durante 60 anos, ou mais. Não é um mero corta-fitas como o almirante Deus, mas no seu íntimo a fruição pessoal, o gozo circense, a pulsão palaciana sobrepõem-se à devoção republicana, ao culto do estadismo e à paixão pela História.

Provérbios de Junho

Junho chuvoso, ano perigoso.

Em Junho, frio como punho.

Chuva de Junho, peçonha do mundo.

Chuva pelo S. João, bebe o vinho e come o pão.

Abril chuvoso, Maio ventoso e Junho amoroso, fazem um ano formoso.

A água de Junho, bem chovidinha, na meda faz farinha.

Quem em Junho não descansa, enche a bolsa e farta a pança.

“Eu me absolvo”

Formulações jurídicas habilidosas.

O “poder para se perdoar a si mesmo” é uma atribuição que não lembraria ao diabo prever nas democracias ocidentais avançadas para um chefe de Estado, muito menos a sua inclusão numa Constituição. As Constituições costumam pressupor princípios éticos evidentes e não verbalizáveis e, portanto, ser omissas nesta matéria. Mas, já que o tema foi lançado, e já que penso nisso, não deixa de ser do mais aliciante que há para presidentes prevaricadores. Dirá um presidente apanhado em crimes: “Que mal fiz eu? Nenhum! Mas, se fiz, cá estou para me perdoar. “

E isto a propósito de quê? A propósito do processo judicial que corre paralelamente ao exercício do mandato do Donald, um mandato que consiste em levar a cabo radicalismos/atrevimentos políticos, económicos e comerciais na sua relação com o resto do mundo que só não tiveram ainda resultados catastróficos porque há líderes políticos que ainda estão atónitos/ incrédulos e outros que, dadas as semelhanças, já o toparam e optam por virar a singularidade presidencial americana a seu favor. E há os russos, que já o tinham topado muito antes.

 

As investigações de Mueller, antigo director do FBI, ao conluio com a Rússia na campanha de Trump para as últimas eleições prosseguem, havendo já 19 acusados formalmente (entre os quais 13 russos e 5 americanos), além de 3 organizações russas. Há, portanto, sérias hipóteses de o envolvimento de Trump não escapar à prova.  O envolvimento ou o que se apurar na investigação às suas finanças.

 

Foi depois de destituições (como a de James Comey, que acusou Trump de lhe pedir que deixasse de investigar Michael Flynn (antigo conselheiro nacional de segurança)) e escusas (como a de Jeff Sessions) que Rod Rosenstein nomeou Mueller “Special Counsel”, encarregado de investigar as ligações e/ou a coordenação entre o Governo russo e elementos associados à campanha de Donald Trump, assim como a possível obstrução à Justiça por parte deste (“and any matters that arose or may arise directly from the investigation, and any other matters within the scope of 28 CFR 600.4 – Jurisdiction“). E Mueller e o seu Grande Júri lá vão prosseguindo com os interrogatórios e as análises.

 

Inquieto (e ameaçador) desde o início, Trump quis saber se estava a ser investigado. Mueller respondeu, ou melhor, tem respondido, que o Presidente não é um “alvo” mas sim um “sujeito” (ou objecto?) da investigação. Formulação ambígua que tem sido discutida abundantemente, mas que joga com dois conceitos que as orientações do Departamento de Justiça distinguem, sendo “subject” o menos grave, já que se refere apenas a uma pessoa cuja conduta se insere no âmbito da investigação do grande júri. Trump é, ou tem sido, apenas um “subject”, não um alvo.

Mas Trump, na prática um alvo, tem quem o defenda. Lembram-se da firma “Better call Saul?” da série Breaking Bad? Pois, aqui é mais “Better call Rudy”. Gente que, a meu ver, ousa ultrapassar o cliente em descaramento e comicidade. A equipa de advogados, liderada por Rudy Giuliani, enviou, em Janeiro, uma carta ao dito “Special Counsel” expondo basicamente o argumento de que, descubra-se o que se descobrir, para todos os efeitos, Trump é intocável e todo-poderoso e nem sequer deve ser ouvido. Se lerem, conhecerão os argumentos. (Ler aqui a notícia da BBC)

Com’assim? – perguntará o leitor.

 

Segundo a carta, a que o New York Times teve acesso e que publicou (para fúria de Trump), os advogados invocam e lembram que o presidente, enquanto “chief legal officer” (ou seja, o que manda em tudo, mesmo na Justiça) não pode ter obstruído a Justiça pela simples razão de que tem poderes para pôr fim às investigações e até – se quiser (Constituição omissa) – “o poder para se perdoar a si mesmo”. Podem gargalhar. Mas (oh quanta bonomia e segurança!) não os usará. Até porque seria “politicamente difícil” (“tough”, nas palavras de Giuliani) de gerir as consequências. Mas a hipótese foi sugerida e por alguma razão. Será que nenhuma descoberta o poderá jamais incomodar? Judicialmente, claro. A ele, que tem poderes para se perdoar a si próprio? É que não há nada que diga que não tem. Argumento do arco da velha.

Quanto ao “impeachment” – acusação e declaração de falta de idoneidade para o exercício do cargo – não há nada que os seus advogados possam fazer nem auto-perdão que lhe valha. A haver provas irrefutáveis de “misconduct”, poderemos assistir à expulsão da Casa Branca de um inquilino-presidente que se perdoou a si próprio. Mas, como o processo é moroso (começa por ser decidido na Câmara de Representantes e passa depois para o Senado, onde a condenação final exige, mesmo assim, uma maioria de dois terços) não vai ser tão depressa, se é que algum dia, que o ex-apresentador de “O aprendiz” sai de cena. Resta o resto do mundo aguentar-se. Ou servir-se, não é, ó Kim?