Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

«A árvore seca» de Alexei Bueno

Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 1963) publica regularmente poesia desde 1984 além de ter editado diversas obras completas (poetas brasileiros e portugueses) e de ser um excelente tradutor de poesia – Poe, Longfellow, Mallarmé, Tasso e Leopardi, entre outros.

Par dar aos nossos leitores uma ideia da poesia deste autor vejamos este espantoso retrato do Brasil no poema «Speculum Patriae»:

Um povo feio, essencialmente feio, / Fora os meio imigrantes. Cada dia / Uma outra humilhação que se anuncia, / Um saque, um roubo, sem controle ou freio. / Uma horda de imbecis, de olho no alheio, / Cuja rapina é a única mestria / Pretensamente os donos da alegria / Da esperteza, da graça e Deus no meio. / Um pátio dos milagres dos devotos / De tudo, irracionais, analfabetos / A orar, a praguejar, a cumprir votos, / À espera do que os salve, em meio a insectos, / A matar-se, a banhar-se nos esgotos / Das praias sem iguais, entre os dejectos.

Trata-se de uma poesia que não teme chamar as coisas pelos seus nomes embora também não deixe de reflectir sobre a poesia (ela mesma) e os poetas. Como em «Fernando Pessoa»:

Venceste. O reino é teu. Torceste a sina. / Compraste a vida invicta com a outra vida. / sem ter sido, ela é a nossa. A sombra puída / Do teu corpo nos guia em cada esquina.

No posfácio Gil de Carvalho chama a atenção para o facto de Bueno ser «um poeta de várias culturas». O mesmo é dizer um poeta a descobrir pelos leitores portugueses. Com toda a urgência e para seu proveito intelectual. Porque nem só de pão vive o homem.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: José António Coelho, Posfácio: Gil de Carvalho)

Se um psiquiatra diz para confiares nos químicos, um psicólogo dirá para confiares em ti. Ambos estão certos, embora isso não garanta que acertem. Entretanto, passa aqui um bocadinho.

Entrada:
You may feel bound to your timid demeanor, your stifling job, or your rancorous relationship, but there is one realm over which you unquestionably have control: your own head. Herein, five principles of change to turn you into a self-starter.

Receitas:
You or Your World?

Overcome Your Fear of Failure

Embrace Risk and Novelty

Create a New Internal Vision

Expect (and Enjoy) Discomfort

Tempo previsto para a consulta:
10 a 15 minutos

Benefícios:
Diz-me tu.

«Chama de água» de Fernando Botto Semedo

A partir de uma citação de João Rui de Sousa («Azul é quando um homem se ultrapassa») e de uma dedicatória («para o avô Diogo»), organiza-se este volume de poemas.

O ponto de partida é a infância: «Na minha infância já escrevia poemas sem o saber: / era a minha surpresa perante tudo novo / a cada dia era o meu sonho, a minha dor / o meu afastamento da realidade como hoje».

O ponto de passagem é a alma: «A minha alma é um sol de lágrimas puras / bailando pelos campos de uma Primavera eterna / onde todos os seres mortos ressurgem, límpidos / aos olhos das papoilas brancas que existem / quebradas de dor em nuvens / de uma música simples e irreal / onde coloquei o meu primeiro poema, rasgado (…)»

O ponto de chegada é o amor: «Doem-me estes poemas tão pobres, tão humildes / eles são a minha mais pura alegria na casa / da dor e do absurdo e trazem sempre consigo / todas as namoradas que perdi quando caí / por todos os abismos pelos quais tento transpor-me»

Só assim poderá concluir: «Planto aqui um poema humílimo. / Sou o poeta feliz que desde sempre criança foi / em chama de água, em coração de vigília».

Depois de «Poemas simples» e «Poemas de um livro rasgado» de 2007, este «Chama de água» confirma a coerência dum trajecto poético iniciado em 1982 com «Ágoas Livres»

(Capa: Fernando Botto Semedo, Execução Gráfica: Gráfica 2000)

Ricardo Costa foi acintoso na entrevista a Sócrates. O cúmulo, de vários exemplos, e exemplo especialmente imbecil, foi quando lhe disse O banco é seu, referindo-se ao BPN. Não fazendo a menor das mais pequenas ideias de como seja a sua relação pessoal, estou à vontadex para especular. Imagino-os íntimos. Amigos de farra, de bebedeiras, de confidências. Percursos brilhantes, no topo das carreiras, estilos de vida sofisticados, conforto e segurança vindos do conúbio com o poder político e económico. O mano Costa braço-direito de Sócrates, e o mais seguro sucessor para a chefia do PS aquando do inevitável salto do actual líder. Impecável e fodido: como simular a isenção, visto esta ser impossível? Talvez através da simetria: se gostam um do outro, vão tratar-se mal, para telespectador ver, na exacta medida da proximidade. Foi essa a escolha do Ricardo, a qual recebeu de Sócrates uma atitude de santa paciência, tolerância e até cumplicidade divertida. Mas o Ricardo tem outro problema: o excesso de informação, e as dinâmicas familiares, criaram-lhe um complexo de inferioridade. No fundo, inveja o mano e sabe que não tem o seu peso, literal e figuradamente, nem virá a ter. Resultado? Passa o tempo todo a pôr-se em bicos dos pés. O modo como o faz é através das previsões. O Ricardo está convencido de que consegue adivinhar o futuro com maior acerto do que aqueles que o rodeiam, e tem um especial prazer em anunciar essa sua putativa capacidade. Terá isso algum mal? Não. Terá isso algum interesse? Não.

Ver os actuais directores do Público e do Expresso a falarem sobre Sócrates é penoso. Mas vê-los juntos, seja qual for o assunto abordado, é perigoso. O perigo é o de acabar por aceitar tamanho sofrimento. Porque há um conflito insanável entre a importância histórica desses dois jornais e a inenarrável miséria intelectual e política dos seus directores, a qual condiciona fatalmente a qualidade do jornalismo praticado pelas equipas. Que se passará com Balsemão e Belmiro? Será a idade, a casmurrice de fim do caminho? Ou haverá um prazer secreto em sentir a dor da crescente decadência?

Augusto Santos Silva é o maior. Esteve só contra todos e terminou fresco como se tivesse acabado de sair do banho. Portugueses como ele são raros; tão raros como aqueles que aprenderam a fazer política – ou a amar, que é o mesmo – com a Ilíada.

Entendido em leis, perito em informática, poliglota, avesso à carne de porco e às bebidas alcoólicas, Mohammed nunca perdia uma oração às Sextas-feiras. No dia em que me conheceu, amaldiçoou Jesus Cristo e toda a cristandade. Eu não fazia parte dos planos.
Sou uma ocidental, mas não uso decotes pronunciados, desavergonhados. Não sou de falar alto, de mascar uma chiclete sem pudor. Enfim, cativei o “crânio” das traduções mais hieroglificamente orientais e da informática sem segredos.
Não sei se era vontade de Alá, mas ele não me tocava em parte alguma: só depois do casamento. O que eu sofria, Meu Deus. Travou-se então uma luta entre a cristã pouco católica que eu era com o mais íntegro dos muçulmanos.
Ofendendo os preceitos de Maomé, cedeu-me. Se era o que eu queria… Impus a regra mais básica numa situação dessas: o preservativo. Ao abrir a caixa, tremia pelo pecado que cometia: preservativos. Nunca na vida dele tinha usado semelhante coisa. Eu estava a pô-lo maluco.
Mohammed partiu para o acto como quem vai entrar num campo de batalha. Rompeu atabalhoadamente, esguichou duas ou três vezes e ficou hirto pela ignomínia cometida. Eu fiquei aquém da expectativa e concluí que mais me valia ficar pelos ocidentais.
Neste momento, encontra-se na Itália, perseguindo objectivos mais nobres do que a satisfação sexual de uma mulher na cama.

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Oferta da nossa amiga Cláudia, um ficção cheia de realidade.

A partir de hoje, este blogue entra no clube dos que atingiram 1 milhão de visitas (atenção: contadas pelo Sitemeter). Tal deve-se a dois factores: ao extraordinário elenco de autores que por aqui passaram desde Novembro de 2005, onde se incluem algumas das maiores vedetas da blogosfera, e à atípica resistência ao efeito dissolvente das forças centrífugas, comuns num blogue colectivo.

Influenciado pela repto presidencial de Ano Novo para que se fale verdade, devo explicar que este milhão terá 90% de registos que não correspondem a leitores, apenas a buscas de toca e foge à procura de imagens e palavras. Sobram 100.000 visitas para 3 anos e 2 meses, e estou a ser generoso. Média de 33 mil por ano. Ou seja, pouco mais de 2700 por mês. Isto é, à volta de 80 pessoas por dia. Vamos ainda admitir que alguns utilizam o computador de casa e o do emprego, duplicando o seu registo de visita, e restam 40. Ou menos.

Sim, apertando as bolinhas, ficam 20 amigos que se encontram nesta tertúlia diariamente. Obrigadinho Al Gore.



«Noites de Insónia – volume 1» de Camilo Castelo Branco

Trata-se de uma miscelânea literária («vou ao jazigo das minhas ilusões») dispersa numa série de livros entretanto reunidos em volume. A crítica («Morte de D. João»), a polémica (Teófilo Braga), a incursão na História (Egas Moniz), a novela («Aquela casa triste»), a opinião sobre os jornais: «A imprensa diária tem olheiros que superintendem em estupros, facadas, roubos e incestos mas a alçada destes espias não chega até ao esquife do defunto sem testamento». Mesmo nos lapsos, Camilo consegue fazer humor: «já escrevi a necrologia de um que, por sinal, estava vivo e nem sequer me agradeceu com um bilhete-de-visita, ser eu a única pessoa de Portugal que lhe ajuntou ao nome esquecido quatro palavras de saudade e dó». Sobre a situação política de 1874 vejamos esta nota: «A abstenção política é mais do que a morte: é a indiferença pelos males sociais, é a história deste torpe individualismo que nos corrompe, é a gangrena moral desta sociedade em dissolução, é a anasarca sintomática da lesão orgânica que despedaça a nossa existência, é o maior de todos os crimes porque é uma tranquilidade fictícia, comprada à custa dos legados que nós íamos entesourando para as gerações futuras. A democracia agoniza no século dezanove quando desabrochava e se abria em flor na árvore que nós todos plantámos, regada com o sangue precioso de tantos mártires, em nome dos quais deviam colher e adorar no futuro o fruto dos nossos trabalhos.» Mesmo na simples miscelânea, Camilo está presente com a sua força de grande escritor.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Interrogações que transitam de 2008 para 2009:

- Aquilo no BCP, quem é que roubou o quê a quem e quanto?
- António Marta continua incomunicável?
- Tirando Cavaco Silva, haverá algum português que tenha acreditado nas declarações do Dias Loureiro?
- Quem foram, afinal, os deputados do PSD que se baldaram à votação e que raspanete Ferreira Leite terá passado aos miúdos?
- Se Carlos Cruz for condenado por pedofilia continuará a aparecer na RTP Memória?
- Pinto da Costa é mesmo mais forte do que o Ministério Público?
- Quo vadis Paulo Portas?
- Sem o Louçã, quantos minutos demora até o BE desaparecer em guerra civil?
- Se um militante do PCP entrar numa floresta, e ficar por lá até ter a certeza de não haver ninguém por perto, continuará a acreditar no comunismo?
- Há algum político português que consiga fazer-se respeitar pelo Jardim?
- As casas dadas pela Câmara Municipal de Lisboa, ao longo de décadas, para pagar favores políticos e pessoais vão permanecer com os beneficiários?
- A corrupção que grassa nas autarquias, seja nas licenças de construção ou nos concursos de admissão de pessoal, vai continuar impune e desavergonhada?
- Será que há alguém na TVI que convença alguém da TVI a nunca mais, mas nunca mais, convencer o Eduardo Moniz a entrar em brincadeiras promocionais da Gala de Natal?
- Apesar da merda toda que tem feito com disciplina e afinco, irá o Bento papar o título e ainda ficar a pensar que teve sempre razão?
- Assistiremos ao merecido despedimento de Scolari antes de acabar a sua primeira época no Chelsea?
- Quando é que veremos um preto retinto a singrar num qualquer cargo de responsabilidade na política portuguesa, ou na administração pública, ou no empresariado, ou na investigação?

A nossa amiga AChata trouxe um alerta de leitura obrigatória para quem queira perder peso ou perder ideias, é escolher.

Com preocupação semelhante, uma pergunta desconcertante: será que o exercício físico é realmente uma fonte de saúde?

E para acabar de vez com essa tanga anual, fica a saber que as resoluções de Ano Novo só te fazem mal.

«Morreste-me» de José Luís Peixoto

Depois de ter sido editado no «D.N. Jovem» em 1996 e na Colectânea Jovens Criadores em 1998, este texto tem tido sucessivas edições em livro desde a primeira em 2000. A partir de uma vivência em ambiente de hospital («As mulheres falavam, os homens fumavam cigarros») surge a memória do filho a recordar o pai: «Dizia nunca esquecerei e hoje lembro-me». O texto oscila entre o diálogo com o pai («Se pudesse tinha-te protegido.») e a memória do filho: «Eu andava no primeiro ano da telescola e não pensava nas notas.» Na paisagem povoada pelo luto, a memória do afecto é uma agressão: «Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai, nunca esquecerei.» O texto é uma viagem («Vou. Avanço. Avanço e regresso. E cada quilómetro um mês e cada metro um dia. Avanço para o que fomos.») e a conclusão é uma visão inversa dos papéis – o pai é no texto o pequenino; o filho fala como se fosse o pai: «Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei.» Este livro (comovente testemunho numa escrita prosopoética de rara beleza artesanal) é dedicado è memória do pai do escritor José Luís Peixoto – José João Serrano Peixoto.

(Editora: Temas e Debates, Capa: José Afonso Furtado)

Votos de um 2009 com saúde, alegria e o dinheiro suficiente para serem clientes regulares da FNAC e da AMAZON, são os meus desejos para todos os que aqui passam. Especial saudação para os nossos amigos Nik, Z, ramalho santos, Marco Alberto Alves, M, Aires, zazie, claudia e MFerrer. (se esqueci alguma mensagem, mereço o inferno)

Votos para 3 eleições: europeias, legislativas e autárquicas. Vai ser um ano muito rápido, animado, divertido. Os milhões de portugueses que odeiam Sócrates poderão tirar a barriga de misérias e cascar forte e feio nesse tirano, correr com ele sem piedade. O meu desejo é o de que essas pessoas não falhem nenhuma das eleições, que se envolvam nas campanhas, conheçam os programas dos partidos, interessem-se pelas biografias e ideias dos candidatos e tentem convencer aqueles à sua volta da importância de ir votar. Também alimento a fantasia de Sócrates não se recandidatar e deixar o lugar vago no próximo congresso. Adoraria ver o PS entregue ao Alegre e ao Seguro, rodeados pela Ferreira Leite, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e Paulo Portas. Que despautério, que alucinação. Que circo.

Votos de que a democracia seja cada vez mais, e para mais, uma paixão e um destino. Está na altura de adaptar o celebérrimo dito de Churchill ao século XXI: A democracia é a melhor forma de governo, apesar de todas as outras que possam vir a ser testadas de tempos a tempos. Os elitistas servem-se da democracia, não a promovem nem protegem. Simulam desavenças entre si só para manterem secretos os mecanismos da repartição dos bens públicos, por isso não há renovação na classe política desde os anos 80. As mesmas caras rodam pelas mesmas cadeiras, é uma perfeita oligarquia que apenas altera os elencos pela morte, doença ou quezília pessoal insanável entre os artistas. Não há escândalos que tenham consequências, é um fartar vilanagem perante a monstruosa ineficácia da Justiça. Quem ama a democracia são os aristocratas. Estes podem ter estudos ou apenas instrução, mas comungam da mesma cultura e querem a mesma civilização. Eles sabem que a democracia é o mais difícil dos regimes porque é aquele onde a confiança tem maior valor. Os democratas confiam na inteligência alheia e seguem uma aritmética básica: aumentando o número de indivíduos inteligentes, aumenta a inteligência da comunidade. Essa inteligência que faz da ética a sua casa, e da coragem o seu caminho. É por isso que a democracia é o regime que depende dos aristocratas para poder nascer e crescer – porque um aristocrata é aquele cidadão que dá o melhor de si para ajudar qualquer outro a ser melhor.

Vamos a eles.

«Fidel» por José Fernandes Fafe

José Fernandes Fafe (Porto, 1927) tem o perfil indicado para escrever um livro sobre Fidel. Foi embaixador de Portugal em Cuba de 1975 a 1977. Antes já tinha estado em Havana em 1963, 1969 e 1974. Voltará em 1996. Mas, antes de dissertar sobre Fidel, o autor recapitula a guerra da independência de Cuba (1868), um governo provisório em 1909 chefiado por um americano William Taft e o estranho aluguer de Guantánamo que só pode caducar quando os americanos quiserem.
Sobre Fidel são 200 páginas de texto entre o testemunho (muitas horas de convívio) e a investigação (muitas horas de livros lidos). Apenas umas linhas: «Um dia destes Fidel Castro morre. E, se pensarmos na vida que teve, bem o merece. Em criança andava sempre à pancada. Adolescente, aprendeu a disciplina dos Jesuítas. Na universidade foi um praxista de tiroteio entre bandos civis. Da atracção da aventura nunca se libertou. Compreende-se, é um afrodisíaco. O assalto ao quartel Moncada, a prisão, o exílio, o naufrágio do desembarque do Granma. Dois anos de guerra de guerrilhas. Depois, a revolução e, como dizia Heine, «uma revolução traz sempre violência, sangue, lama». O circo dos julgamentos de 1959 (de que sente remorsos? sentirá alguns?) A vitória de Girón. Ainda não haviam passado dois anos tangenciou a guerra nuclear… A implosão da URSS. Reconstruir tudo, outra vez. Mas este homem é um sísifo! Com a vida que teve bem merece um descanso. E, proporcional aos trabalhos e aos dias que levou, só a morte.»

(Editora: Círculo de Leitores - Temas e Debates, Capa: Rochinha Diogo)

Só consigo estar no Governo porque nunca saio da rotina. Como poderia aguentar estes anos a ganhar eleições, ir ao Parlamento responder a perguntas, correr a inaugurar?

Senhor Doutor Salazar

(citado em As Máscaras de Salazar, de Fernando Dacosta)

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Oferta da nossa amiga Cláudia para a inauguração oficial de 2009.

Apareceu no Verão esta maravilha recolhida directamente de vacas alimentadas exclusivamente com chocolate belga (verdade verdadinha). Todos os dias começo o dia a virar de penalti um quarto no quarto. Agora é só esperar que apareça a versão chocolate preto, com mais cacau e menos açúcar. Se vier, Portugal fica na vanguarda da civilização (e cá com um vigor, ó pá…).

Pacheco Pereira representa aquilo que de pior aconteceu na sociedade portuguesa em 2008. Funciona como uma lente gravitacional, amplificando com a sua galáxia de opiniões os vícios, fraquezas e disfunções da classe política, da direita, do PSD, da oposição e da intervenção cívica profissional.

2007 tinha acabado muito bem para o Pacheco. Era a cara da resistência interna à gaia demência, a esperança de regeneração do PSD, e em Dezembro teve a coragem de publicar esta meia-denúncia sobre uma situação escabrosa. O silêncio geral que se seguiu confirma a dimensão do que deixou entrelinhas, poço sem fundo de cumplicidades que fazem parte do regime paralelo onde a corrupção e o crime ditam as leis. Infelizmente, 2008 veio desbaratar pecúlio tão promissor, num crescendo de fulanização, distorção e depressão.

O modo como este gabiru da análise política falhou o entendimento do papel histórico de Sócrates é, sob qualquer ponto de vista, espectacular. Em 2005, estava claro que Santana encerrava em desgraça o ciclo começado com a fuga de Cavaco, em 1995; primeira traição a Portugal por desresponsabilização após a entrada dos fundos europeus, e a qual levou a uma sucessão infame de governantes e líderes partidários. Não se poderia piorar, não havia nada mais radical do que a destituição de um Governo com apoio parlamentar, pelo que algo diferente começaria necessariamente após a inaudita decisão de Sampaio. E, de facto, o Governo PS saiu melhor do que a encomenda, obviamente com o contributo decisivo da maioria. Mas a grande, enorme, diferença estava na cultura altamente profissional daquele grupo governativo, apesar das naturais diferenças individuais entre ministros. A ambição reformista de Sócrates atacou um inimigo com décadas, ou séculos, de atavismo cultural e marasmo cívico, brilhantemente diagnosticado pelo José Gil pouco tempo antes. Ninguém sabia até onde se conseguiria chegar nem quais as consequências sociais das reformas. Apenas se tinha consciência, cheios de raiva e nojo, que não se podia esperar mais.

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«O Século» de Lopes de Mendonça (O primeiro jornal socialista)

Lopes de Mendonça (1826-1865) figura no nosso século XIX ao lado de Garrett, Castilho e Herculano: historiador, poeta, jornalista, folhetinista, doutrinador, crítico e ensaísta. Mas também fundador e redactor anónimo de «O Século», um jornal de 11 números com 16 páginas cada, que se publicou entre 10 de Abril e 25 de Junho de 1848. Ernesto Rodrigues recupera-o para os leitores de hoje em 165 páginas de texto anotado.

Vejamos como Lopes de Mendonça escreve sobre a República em 1848: «A república não tem classes, não tem distinções, não tem interesses rivais: as lutas são as das ideias e a sua expressão é, tem de ser manifestada pela imprensa. Ás revoluções armadas hão-de suceder as reformas pacíficas; às paixões, os sentimentos; aos certames de partido, os combates de princípios. Alcançar-se-há esse ideal que debalde têm querido realizar as monarquias representativas? O sistema republicano acolherá no seu seio o princípio da perfectibilidade humana sem que ele ressurja de espaço a espaço tinto de sangue?»

Incansável jornalista e homem de ideias, Lopes de Mendonça responde à pergunta «O que quer o socialismo?» deste modo: «A fraternidade substituída ao individualismo: isto é, o indivíduo ligado pelos sentimentos e pelas instituições à sociedade: a associação em vez da concorrência, isto é um regime industrial que iguale as condições dos três agentes da produção, o capital, o talento e o trabalho».

A capa deste livro que vem revelar um novo aspecto na história das ideias do século XIX em Portugal reproduz um quadro do pintor Gaspar David Friedrich (Nuvens passageiras).

Por que é que a Assembleia da República não alterou o Estatuto apesar de vozes, vindas dos mais variados quadrantes, terem apelado para que o fizesse, considerando que as objecções do Presidente da República tinham toda a razão de ser?

Principalmente, quando a atenção dos agentes políticos devia estar concentrada na resolução dos graves problemas que afectam a vida das pessoas?

Foram várias as vozes que apontaram razões meramente partidárias para a decisão da Assembleia da República.

Pela análise dos comportamentos e das afirmações feitas ao longo do processo e pelas informações que em privado recolhi, restam poucas dúvidas quanto a isso.

A ser assim, a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés.

O problema do Estatuto dos Açores, relativo ao berbicacho que o paupérrimo discurso presidencial da noite passada vem mais uma vez confundir, entra directamente para o grupo das clássicas questões bizantinas. Os sábios bizantinos viviam bem, pachorrentos e anafados, pelo que tinham muito tempo livre. Discutiam problemas abstrusos como o de se encontrar a causa principal pelo facto de um homem ter sido atingido na cachimónia por um tijolo. Possibilidades: foi atingido porque ia a passar no momento em que o tijolo caiu ou teria sido atingido porque o tijolo caiu no momento em que ele ia a passar? E assim se divertiam e consolavam. No nosso caso, estamos perante uma querela jurídica, a qual na sua abstracção máxima dá razão à posição presidencial. Porém, caso a Assembleia da República anuísse, estaríamos, pela mesma lógica invocada pelo Presidente, a desequilibrar o regime a favor da Presidência – logo, em detrimento do parlamentarismo.

O Presidente da República não tem feito outra coisa senão errar neste processo, desde o começo. Até parece que foi de propósito, tanta a estupidez: não envia para o Tribunal Constitucional todas as passagens problemáticas; assusta o País em Julho com uma comunicação críptica que deixou meio Portugal perplexo e o outro meio estupefacto; não consegue expor convincentemente a sua posição nos 5 meses seguintes; promulga o Estatuto, mas exibe-se ressabiado a disparar em todas as direcções. Ao menos que o discurso fosse bom, mas nem medíocre conseguiu ser:

- Que cena é essa das vozes, vindas dos mais variados quadrantes? Vozes?! O Presidente anda a ouvir vozes ou acha que a política é o reino da vozearia?…
- Que maluquice é essa de sugerir que a atenção dos agentes políticos devia estar concentrada na resolução dos graves problemas que afectam a vida das pessoas? Quer dizer que não está? Então, que se digam os nomes e se apontem os prejuízos. Mas, vejamos, que se está a propor? Será uma reedição do deixem-me trabalhar agora em versão deixem-me ser eu a mandar? Esta passo arrisca-se a ser aviltante, transmite a ideia de uma desejada capitulação da vontade democrática face aos desígnios presidenciais.
- Que raio são razões meramente partidárias? Ou serão as razões meramente partidárias, para o Presidente, de si e em si, politicamente insuficientes e moralmente ilegítimas? Serão os próprios partidos demasiado partidários para o gosto do Presidente?
- O Presidente faz análise de comportamentos, o que faz dele um psicólogo ou um etólogo.
- O Presidente faz análise de afirmações, o que faz dele um linguista ou um hermeneuta.
- O Presidente recolhe informações em privado, o que faz dele um espião ou um coscuvilheiro.
- O Presidente admite ter poucas dúvidas quanto a isso. Tudo bem, mas quais são elas? Sabemos que serão pelo menos duas dúvidas, talvez três ou talvez trinta, mas se ainda tem dúvidas como é que pode vir falar ao País? Não seria melhor esclarecer totalmente o assunto em vez de despejar insinuações birrentas?
- A ser assim, a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés. Dizes bem, Presidente, usando o condicional. Já quanto à tua prestação na ida à Madeira, onde foste humilhado, e no caso do Parlamento Regional da Madeira, onde a Constituição foi ofendida, não restam quaisquer dúvidas: a nossa democracia sofreu, e vai continuar a sofrer, um sério revés.


Este filme publicitário do medicamento Ilvico N tem passado na RTP Memória (pelo menos), e esteve disponível durante uns dias no YouTube, algures no início de Dezembro. Começa por mostrar um homem de cama, ao telefone. Este informa um colega de que vai ficar em casa por estar doente. O colega diz-lhe que, nesse caso, tratará ele das entrevistas, mostrando-se muito satisfeito com a situação. De seguida a câmara foca as coxas nuas de uma jovem mulher (na imagem). Essa mulher, ao levantar-se, exibe úbere regaço em generoso decote. O filme termina com a mulher avançando dengosa para o entrevistador, estando duas outras candidatas à espera.

Assim por alto, umas 20 pessoas terão tido influência no anúncio supra, entre pessoal do marketing, da publicidade e da produção vídeo. De acordo com uma anedota recorrente no meio publicitário, as campanhas acabam por ser aprovadas pelas esposas dos directores de marketing. Eles chegam a casa, jantam, vêem o Malato e depois mostram as propostas da agência às madames. Os directores de marketing – segundo a sabedoria forjada pelos publicitários nos anos 60, 70 e 80 (quando ainda não havia mulheres em cargos de direcção nas empresas em Portugal) – não se preocupam muito com os consumidores e a inteligência das agências, querem é ter um reclame que não os deixe ficar mal perante a esposa, filhos e amigos. Não estão para levar raspanetes ao deitar durante o período da campanha. No fundo, eles pensam (mal, muito mal) que qualquer ideia acaba por ter o mesmo efeito desde que esteja no ar o tempo suficiente (no que têm razão, mas não a razão toda). E também sabem que ainda não se inventou a máquina que consiga medir a eficácia das ideias de comunicação antes de chegarem aos consumidores (é aqui que entra o valor da agência), pelo que vale tudo (é aqui que ele é desprezado). Ora, se tal ausência de certezas acaba invariavelmente por ser colmatada pelo gosto de alguém, porque não o da esposa?

Continue reading ‘O país gripado’

«Recuperar a claridade» de Joaquim Carvalho

O registo destes poemas oscila sempre entre a Natureza e a Arte. A Natureza está na página 102: «Oiço / o gaio / cantar nos pinheiros. / Num agitar de asas / a caruma cai / doura o chão / e acrescenta odor de resina / que / misturado no ar quente / me incita a mergulhar…» A Arte está na página 105: «Pintar-te é dar cor ao último pensamento / Desenhar-te é ser contorno da tua pele / Esculpir-te é encontrar teu espaço dentro de mim / Amar-te é darmos sentido ao último encontro.»

«Recuperar a claridade» é o título do poema da página 125: «O que outrora / era claro e transparente / adquiriu num ápice / a turbidez de um rio de lama. / Agora as nuvens escondem no avesso / o que resta da luz dos dias que já teve. / Por fora / a penumbra anuncia a tristeza que o espera / se não for capaz de impedir que a escuridão / se instale. / Há que ceifar rente a morte / e, com alegria, / recuperar a claridade / que as nuvens escondem.» E só existe uma maneira de cumprir esse programa, de recuperar a claridade. É pelo amor porque só o amor pode ser uma resposta para a morte. Como na página 184: «Sem vislumbre / sem procura / sem razão / sem tempo / Puro encontro… / leve… / sublime… / translúcida… / transparente… / Inevitável viagem / Inês é vela / Pedro é timoneiro / Lá dentro vamos todos nós / Vai Portugal inteiro!»

Um poema não é um amontoado de palavras, é um lugar mágico para estarmos todos juntos. No fim desta viagem de 191 páginas fica uma certeza: Só o amor responde à morte e só há uma medida para o amor – é amar sem medida.

(Pangeia Editores, Apresentação: Urbano Tavares Rodrigues, Nota: Rodrigues Vaz)

Desde 2000 que é consensual a ideia de não haver no Planeta recursos que cheguem para os consumos que se prevêem na China, Índia e outras potências emergentes onde a classe média cresce dramaticamente. Na alta do preço do petróleo, na Primavera de 2008, uma das teses explicativas do fenómeno sugeria estar a China a comprar desenfreadamente para garantir os consumos próprios no futuro de médio e longo prazo. Para agravar, os especialistas antecipavam o esgotamento das reservas em poucas décadas, tanto por causa da ausência de novas descobertas significativas, como por causa do aumento do consumo global.

Desde 1988 que é consensual a ideia de não ser possível evitar catástrofes ecológicas inimagináveis se continuarmos a emitir para a atmosfera poluentes nas quantidades registadas, quanto mais nas previstas. A questão da origem do aquecimento global é já secundária, pois está em causa conseguir aplicar todo e qualquer meio para conseguir adiar, reduzir ou anular os efeitos nocivos (a maior parte deles completamente imprevisíveis) da alteração das temperaturas.

Após a 2ª Guerra Mundial, a Europa Ocidental e os Estados Unidos desfrutaram de 5 décadas de prosperidade sem paralelo na História. Bem cedo se criticaram as assimetrias económicas entre esse mundo da abastança e desenvolvimento e a pobreza e subdesenvolvimento circundantes. O que um cidadão médio europeu ou americano consome individualmente é escandaloso, aberrante mesmo, quando comparado com a média individual do Terceiro Mundo. Para além disso, temos riqueza espalhada em vias de comunicação, estruturas públicas e privadas, instituições políticas democráticas, órgãos de justiça, forças de segurança, conhecimentos científicos e tecnológicos. Esta qualidade de vida foi obtida à custa dos recursos e ecossistemas globais, ao longo de séculos, e serve agora de meta para quase todos os indivíduos no Mundo.

Então, a crise não é apenas financeira e económica, é civilizacional. Na etimologia da palavra grega krisis está a ideia de separação e decisão, krinein, cujo étimo também se encontra no termo crítica. Mais tarde ou mais cedo, teríamos de tomar decisões quanto ao que vamos fazer com esta Terra perdida nos subúrbios duma Galáxia à deriva na imensidão do Universo visível. Se for mais cedo, talvez não venha a ser tarde demais. Precisamos de encontrar e apoiar os dirigentes que saibam montar este tigre.




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