Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Revolution through evolution

Taking Time-Off Work to Raise Children is Damaging to the Careers of Highly Skilled, High Earning Women
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Wives with a ‘Soul Mate’ View of Marriage Are Less Likely to Volunteer and May Deter Husbands From Doing So, Too
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Narcissistic Individuals Use Social Media to Self-Promote
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Immune System Influenced by Social Status, but Access to Resources Not to Blame
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When judging other people, first impressions last
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This Is Your Brain on God: Spiritual Experiences Activate Brain Reward Circuits
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We Like What Experts Like – and What Is Expensive
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Ataque de tesão genuíno ou planeado?

Já tem quase dois anos, mas só o descobri agora. As duas pessoas visíveis no vídeo abaixo, que talvez alguns dos milhões de leitores deste blogue conheçam de ouvir falar, estão a ter um genuíno ataque de tesão ou planearam a cena? Num dos mais falsos formatos televisivos, onde a realidade está ao serviço do espectáculo, será que a falsidade inerente foi a condição necessária para a verdade aparente?

Asfixia da honestidade intelectual

Paulo Rangel – o tal supino estadista e insigne patriota que foi para Estrasburgo berrar que Portugal já não era um Estado de direito porque lhe tinha chegado às orelhas a calúnia de que Sócrates tinha feito com que uma crónica doentia do Crespo não fosse publicada no JN, ocorrendo este número chungopatético no país do império Balsemão, da TVI do casal Moniz e do Marcelo, da RTP da Judite e do José Rodrigues dos Santos, do Sol do alucinado, da Renascença da Igreja, do DN do Marcelino e da brigada laranja ao tempo, da TSF do Baldaia, do i do Martim Avillez e da Cofina da indústria da calúnia – resolveu botar faladura sobre o sistema eleitoral norte-americano. Tinha umas lições para dar ao povoléu, confessa, especialmente a uns quantos que manifestam “mau perder”. Se alguém tiver uma pista acerca de quem seja essa gente a que se refere, tenho no bolso 10 euros para entrega como prémio.

Pois este passarão cometeu a proeza de escrever 5 962 caracteres, mais espaços, sem que alguma vez tenha sequer mencionado ao de leve este curiosíssimo facto: nas 5 ocasiões em que nos EUA o voto popular foi superior para o candidato perdedor, perdeu um candidato Democrata (na primeira ocasião, há factores específicos a ter em conta para legitimar essa afirmação, fique a nota). Para o que agora importa, a diferença de votos a favor de Hillary vai nos dois milhões e meio nesta altura do campeonato. Eis o contexto em que o Rangel sentiu um súbito afã para desvalorizar essa diferença. Ora, ter apagado da sua exposição a disfuncionalidade eleitoral que penaliza os candidatos presidenciais do Partido Democrata permite-lhe despejar um caudal de sofismas onde uma solução engendrada no século XVIII passa por monumento à democracia contemporânea. Tudo areia para os olhos do leitor. A lógica federalista invocada mantém o seu pleno sentido para a constituição do Senado, dando-lhe o justo papel de contrabalanço entre o Congresso e a Presidência, mas deixa de fazer sentido quando se usa para defender a falta de proporcionalidade dentro de cada Estado para se constituir o Colégio Eleitoral. É a manutenção do sistema maioritário que está a causar uma perversão eleitoral cuja origem é demográfica. E essa perversão não é democrática nem liberal porra nenhuma. Igualmente não encontramos sequer uma vírgula no texto a respeito das acções Republicanas que visam dificultar o acesso ao voto para diminuir a participação eleitoral das diferentes minorias. É que as coisas estão ligadas.

A chave para mais um exercício falacioso do Rangel inventor da “asfixia democrática” está nesta frase: "[os EUA] Não são, portanto, uma moderníssima democracia iliberal, de tipo jacobino, onde a vontade da maioria se expressa acrítica ou caprichosamente." Que é como quem diz, “Se pudesse, acabava com essa cambada de jacobinos que andam para aí acriticamente e cheios de caprichos a votarem em eleições livres. Fodam-se todos e viva o Trump!”

Como é, Bloco? Mandam ou não passear o PSD?

É evidente que aquela aliança do Bloco com o PSD e o CDS para deitar abaixo a administração da Caixa deu ideias à direita para continuar a “entalar” uma certa esquerda que, em nome de uma propalada pureza de ideais, cai demasiado facilmente em armadilhas:

A demissão de António Domingues está longe de ser o último episódio da novela da Caixa Geral de Depósitos (CGD). O próximo está já marcado pelo PSD para terça-feira quando for discutido o projeto de lei social-democrata que volta a pôr em cima da mesa os salários dos gestores da Caixa, mas não só.

A proposta do PSD – que se destina a todo o setor empresarial do Estado – prevê a criação de quotas de género (num mínimo de 33% de mulheres na administração), um limite ao número máximo de administradores e a publicitação na internet, não só das orientações de gestão dadas pelo governo, como os relatórios trimestrais das administrações.”

Os objetivos do PSD são lógicos e conhecidos: desestabilizar o acordo quadripartido de governo, colocando pressão sobre os seus elementos, 2) impedir a solução pública para a Caixa e 3) iniciar as já típicas campanhas de lançamento de sujidade para cima de quem governa, valendo-se dos inúmeros amigos de que dispõe na comunicação social. A estratégia para tal é clara e está à vista de todos: até agora mortiços e sem hipóteses de ataque, descobriram o filão da CGD e, tendo alcançado uma vitória com a súbita decisão do Bloco de aprovar a reversão do estatuto do gestor público, absolutamente desnecessária dada a avaliação em curso pelo Tribunal Constitucional e as exigências do Presidente da República sobre a apresentação das declarações de rendimentos e património, trata-se agora de apelar mais uma vez à advogada pureza/ grandes causas e à burrice do Bloco para prosseguirem os seus intentos.

Eu só pergunto: o que impede o Bloco de os mandar passear? O receio de que a suspensão da “pureza” não agrade ao seu eleitorado? Parece-me estupidez aguda. Sabem o que é uma balança? Se não sabem, informem-se, comprem uma e utilizem-na para fins úteis frente aos vossos eleitores. Acaso os limites salariais para altos cargos públicos alguma vez preocuparam o PSD? E as quotas para as mulheres? Não nos façam rir.

E por falar em rir… jamais irei chorar pelo Bloco, mas é pena a triste figura que fazem na tentativa de serem puros. Há quem aproveite e os utilize e pelas piores razões. Sempre foi assim. Se vos falta matéria para negociar com o PS, como acontece em política e com o PCP, ponderem ao menos se é mesmo melhor alinharem com este nojo de direita – cínica, hipócrita, oportunista, interesseira e rasteira. E sobretudo que já mostrou em quatro anos ao que vem. Ainda haverá quem não tenha percebido?

 

Esta direita é um nojo (capítulo XXXII)

Quando nada mais há a fazer, a direita cria tempestades em copos de água, borrifando-se no país, como demonstra o caso CGD, ou atira, na comunicação social, lama para os seu rivais para ver o que é que dá. Vem isto a propósito da notícia da revista Sábado, logo reproduzida pelo Observador, pela Renascença e os habituais comparsas destas tácticas, segundo a qual António Costa foi escutado fortuitamente em conversa com um seu assessor, Bernardo de Lucena, que fora embaixador em Cabo Verde, no âmbito de uma investigação em curso a esquemas de emigração ilegal com suposta corrupção, em que esse ex-embaixador acabou sendo suspeito (alegadamente). Sem levar a fundo as averiguações (ou talvez por isso) e só porque sim, a Sábado resolve publicar a notícia dando-lhe este título:

Exclusivo SÁBADO
Escutaram, quebraram o sigilo bancário e quase prenderam assessor de Costa

O diplomata foi envolvido num esquema relacionado com vistos em Cabo Verde. Os mandados foram passados, foi-lhe quebrado o sigilo bancário e decretadas escutas telefónicas que apanharam conversas com António Costa

Um alarme, como veem.

Só mais adiante surge o parágrafo que devia, este sim, ter dado o título à notícia (que não li na íntegra, por falta de acesso, mas para o caso pouco importa):

{…} Mas tudo poderá não ter passado de uma denúncia caluniosa ou de uma enorme trapalhada que levou até o MP a ouvir e a gravar telefonemas com a intervenção do primeiro­-ministro, António Costa.

Entretanto, o MP já veio esclarecer, em comunicado, o que se passou, esvaziando o “balão” da Sábado, que, no entanto, continha a tal ventoinha que quiçá já produziu o efeito inicial desejado, ou seja, o da distribuição de lama. Sabem como é – António Costa >amigalhaços >governo >corrupção >gente presa.

Isto não vai acabar nunca. Um aviso para os distraídos.

Traduzindo o esgoto

menezes-cm
25 de Novembro de 2016

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Tradução:

Entre 18 de Setembro de 2014 e Outubro de 2016, ou seja, enquanto pensávamos que iríamos conseguir sem chatices de maior assar mais este borrego e servi-lo fatiado no esgoto onde ganhamos o pão, o CM e também a CMTV exploraram até ao tutano as suspeições que envolviam aquele merdas choramingas caído em desgraça no PSD, e por isso já sem qualquer utilidade para a nossa agenda política, chamado Luís Filipe Menezes.

As tangas foram publicadas por diversos “jornalistas” que, no exercício da sua actividade, cumpriram com zelo a missão de não só ignorarem como ridicularizarem o Artigo 14º do Estatuto dos Jornalistas, lei geral da República, e o Código Deontológico dos Jornalistas, aprovado em assembleia geral do Sindicato dos Jornalistas. Nessas folhas de couve podem-se ler barbaridades do género “Exercer a actividade com respeito pela ética profissional, informando com rigor e isenção“, “Abster-se de formular acusações sem provas e respeitar a presunção de inocência“, “Abster-se de recolher declarações ou imagens que atinjam a dignidade das pessoas“, “Não falsificar ou encenar situações com intuitos de abusar da boa fé do público“, “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.“, “O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.“, “O jornalista deve salvaguardar a presunção de inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado.“, e mais uma juliana de cagadas que nos deixam à beira da apoplexia de tanto gargalhar aqui no esgoto. Quem é que se lembra de escrever estas coisas? Para quem é que estes gajos estão a ladrar? Nós temos um serviço de promoção de agentes de Justiça a troco da impunidade para achincalharmos o Estado de direito e difamarmos e caluniarmos quem nos apetecer. Nós já fizemos primeiras páginas colocando na boca de um fulano, e garantindo que era a sua confissão, aquilo que não passava da suspeita mais grave que ocupava o bestunto do procurador que o interrogou. Quem faz uma avaria destas está noutro campeonato – e esse número é que devia dar direito à criação de um novo feriado, caralho! Enfim, enquanto estivermos rodeados de mansos, siga a festa.

Ora, passa-se aquilo que já sabíamos de ginjeira em todo o santo dia em que chafurdámos nas pulhices. É que o mariconço nunca foi constituído arguido em nenhum processo envolvendo as porcarias que inventámos para vender aos otários, nem sequer questionado formal ou informalmente a respeito; para grande pena nossa, registe-se, pois bastaria ter sido chamado a prestar declarações para enchermos e despacharmos mais umas toneladas de chouriças de sangue à nossa moda. Resultado, estamos aqui na palhaçada para ver se nos livramos de pagar alguma coisa ao ex-coiso de Gaia.

O CM e a CMTV querem sublinhar que continuarão a alimentar os ranhosos – isto é, continuaremos a servir com esmero os nossos leitores e espectadores – os quais têm em nós o mais poderoso e debochado produtor de mentiras na pujante indústria da calúnia portuguesa onde somos líderes destacados. Aproveitamos para saudar o presidente-eleito dos EUA, o qual fez uma campanha que teve toda a pinta de ter sido concebida por alguém que leu e copiou o nosso livro de estilo. Um grande “Heil, Trump” para esse loiro adorável e, por favor, o FBI que abra com urgência uma investigação aos emails trocados entre a vaca da Hillary e o cabrão do Sócrates. Nós tratamos do resto.

O Fraude explica

Os deputados do PSD e do CDS adoram insultar e ofender os adversários no Parlamento, insinuando abertamente que são corruptos e declarando sistematicamente que são mentirosos. Os deputados do PSD e do CDS atiram as cartolas e bengalas ao ar em júbilo apoteótico se um Presidente da República sectário for para o Parlamento fazer um comício a seu favor. Mas os deputados do PSD e do CDS não toleram e ainda menos suportam que um governante adversário sugira numa oração disjuntiva que um dos seus deputados possa estar condicionado por um período efémero de aguda estupidez.

Tanta energia gasta na ocasião só se explica pelas notícias da manhã. Nelas, o perfeito descalabro da estratégia de Passos fazia manchetes. E esse vexame, e pânico, de ter um líder com uma disfuncionalidade cognitiva permanente encontrou nas palavras de Mourinho Félix a milagrosa catarse para se poderem esquecer da realidade.

Alguns destes deputados, enquanto davam aos pezinhos e rosnavam que nem ursos, chegaram mesmo a esboçar um sorriso. O primeiro e único do dia.

Ordem no galinheiro, s.f.f.

E pronto. Está concluído com êxito mais um tiro no pé do PSD. De algazarra em algazarra a propósito da CGD, chegaram ao ponto de perderem por completo a noção do que fazem com esta história da ida a Bruxelas e a Frankfurt de António Domingues. O que tenho mais a dizer sobre isto? Pois que se podem juntar (ainda mais) ao Correio da Manhã. O convidado futuro presidente do banco público português vai ter reuniões com a Comissão e com o BCE para apresentar o seu plano? Ah, ali há marosca. Falta de transparência. E essas reuniões já eram conhecidas, tendo sido discutidas na AR? Não interessa. Se não havia, passou a haver. Domingues podia (e devia) lá ir, mas afinal é melhor que não possa. Decisão do PSD. O PSD não teve imaginação para mais do que agarrar-se à grafonola que já ia com as ondas. E vai daí, marosca é pouco: fale-se em falha grave, porque não em crime! Repito, nada disto havia há umas semanas, mas agora há. Logo, siga a peça e … o ministro das Finanças está em maus lençóis, o primeiro-ministro já está para além disso – está mesmo à beira do cárcere. E depois? Ora, com os dois virtualmente demitidos, é só um empurrãozinho e Passos tem o caminho aberto para São Bento. O Montenegro dá o mote, o Rangel, à noite, cacareja na TVI, o rapaz Leitão Amaro debita a lição na SIC Notícias o melhor que sabe e pode frente ao João Galamba, a Graça Franco desconfia e afronta-se na RTP 3 e uma pessoa não tem alternativa se não desligar a televisão e retomar a leitura do livro, em má hora interrompida. Pachorra! Algazarra mais estúpida não há. Respondeu bem João Galamba, respondeu bem Carlos César e respondeu bem António Costa, ouvido hoje de manhã. Assunto arrumado, meninos, podem ir inventar outra. Vejam lá se mais inteligente, tá?

Exacto, é preciso ter lata, muita lata

Passos antecipou Trump em 5 anos. A uma campanha de espectaculares mentiras seguiu-se uma governação de inveteradas pós-verdades. Não ia cortar pensões, subsídios, salários, funcionários públicos. Ia cortar gorduras no Estado. Quem se pode opor ao corte de gorduras no estado seja de quem for? Para além disso, o FMI era um bacano e o acordo do resgate de emergência, nascido do boicote parlamentar ao garantido apoio europeu que o evitaria no futuro de curto e médio prazo, confundia-se com o programa que levava a votos, só pecando aquele por não ser tão ousado quanto a sua ambição. O rating de Portugal subiria em 6 meses assim que o Mundo fosse informado do regresso do PSD a S. Bento. As contas estavam todas feitas, berrava o laranjal. Com Passos no leme, navegaríamos a direito em direcção ao além-Troika, vinha aí a revolução. A economia ia ser “democratizada”, afiançou com os olhos postos na República Popular da China e nos magníficos negócios na calha. Cereja no topo do bolo, jamais regressaria ao passado para se justificar com a situação presente, garantiu numa ocasião solene. Sabemos o que se seguiu. Seguiu-se o “Governo mais liberal de sempre” e o seu peculiar gosto pelo empobrecimento como punição e o colossal aumento de impostos como panaceia, tudo embrulhado na subserviência aos radicais do fanatismo austeritário.

Como é que a sociedade reagiu a esta postura hipócrita, dúplice, oportunista e factualmente traidora ao interesse nacional? Como é que a comunidade lida com políticos com este grau máximo de desonestidade eleitoral e política – sem análogo conhecido na democracia portuguesa? Os apoiantes rejubilaram, pois na fúria tribal vale tudo para obter poder. A lógica da diabolização dos adversários é a de os transformar em inimigos e, consequentemente, em alvos da maior violência possível ainda antes de eles nos atacarem. Basta a suspeição de que irão lutar pelos seus interesses para justificar os ataques antecipados e a recusa de qualquer acordo. Essa foi a estratégia seguida com Sócrates desde 2008, alguém visto pela direita e pela oligarquia como forte de mais para ser derrotado apenas no páreo eleitoral, e ainda como um líder com quem teriam de fazer cedências (ou seja, que não conseguiriam comprar). As golpadas judiciais-mediáticas sucederam-se logo a partir de 2004, e em 2010, em cima do furação provocado pela crise das dívidas soberanas começado na Grécia e da armadilha do Governo minoritário, havia quem na direita preferisse ver um Governo com o PCP do que com o PS de Sócrates, outros gozavam o prato a exigir que o próprio PS defenestrasse o seu líder caso quisessem negociar soluções de governação com o PSD. Ao mesmo tempo, incluindo pela boca do próprio Passos Coelho e do Pacheco Pereira, entre outras figuras menores e contando com a agenda política da indústria da calúnia, alimentava-se o discurso do ódio que apelava à prisão de Sócrates e de quem com ele governava. Era o tempo em que todos os actos governativos estavam sob suspeita, em que todos os governantes era ladrões ou cúmplices de ladrões. Tal como Trump agora, a direita portuguesa então jurava ir secar o pântano da corrupção socialista. Não há rigorosamente diferença nenhuma entre um e outro discurso. Tal como não há diferença nenhuma entre a facilidade com que um e outro mentem em público e para o público.

Passos continua como presidente do PSD e até consta que pretende voltar a ser primeiro-ministro. Espantoso? Nada, pois este é o mesmo país que reelegeu Cavaco depois dele ter usado a sua função presidencial para violar a Constituição, violar o seu juramento e entrar a fundo na baixa política e nas golpadas eleitorais. Os interessados em estudar o fenómeno do ponto de vista da ciência política, da antropologia e até da psicologia apenas terão de reler o que os conspícuos apoiantes de ambos diziam a seu favor in illo tempore.

Mundos paralelos

As pessoas sofrem horrores com medo de confessar que fizeram um aborto”, diz ao DN. Enquanto franciscano, o teólogo tem uma licença especial que lhe permite absolver o aborto a uma mulher que procure o perdão. “Em alguns casos, só conseguem fazê-lo ao fim de 30 ou 40 anos.” Ontem, na carta apostólica Misericordia et Misera, o Papa Francisco autorizou todos os padres a absolver as mulheres que tenham abortado e que procurem o perdão, mantendo a autorização que tinha dado para o Ano Jubilar da Misericórdia, que terminou no domingo. Os sacerdotes portugueses ouvidos pelo DN mostraram-se satisfeitos com a decisão do Papa.

Todos os sacerdotes passam agora a poder absolver as pessoas que praticaram o aborto e que se arrependeram, sem necessidade de passar pelo bispo ou pelo Papa. Em Portugal, há sacerdotes com licenças especiais que lhes permitem perdoar o pecado do aborto. “As reservas que existiam eram fruto de tradições. Nós, franciscanos, já tínhamos uma licença especial para absolver. E havia outras pessoas para quem estava desbloqueado”, adianta o padre e teólogo Carreira das Neves.

Franciscanos, seus privilegiados, hem? Há alguma razão para a especificidade do vosso perdão?

E as mulheres? A quantidade delas que foram parar ao inferno? Já viram? A decisão do Papa Francisco terá agora efeitos retroativos ou há almas que serão eternas vítimas das más interpretações do espírito cristão? Ah, mas o inferno é uma realidade virtual? Então, estamos a brincar?

Mas, como era aqui na Terra? O que acontecia até agora às mulheres arrependidas de tamanho crime e que arriscavam confessá-lo? Eram escorraçadas da Santa Madre Igreja, ficando os restantes fiéis intrigados sobre a razão do afastamento? E quando esclarecidos, olhá-las-iam de lado, atirar-lhes-iam pedras? E as mulheres que não chegavam a confessar, morriam “em pecado”? Horror dos horrores. Saberiam da licença especial para perdoar dos franciscanos? Se não, porque não? Este perdão universal agora determinado pelo Papa equivale a uma carta verde para abortar ou haverá um registo (eletrónico, pois há liberdade de escolha do confessor) para prevenir abusos? Perguntas e mais perguntas. Ser teólogo não é fácil. Muito menos neste momento em que todos vemos onde leva a extrema fé. Por outro lado, também não vos são feitas muitas perguntas, não é? Há vidas piores.

Estes problemas (do perdão às abortivas) considerados verdadeiramente importantes – e que por isso me fazem duvidar da sanidade mental de pessoas que aparentam ter neurónios, mas não se riem do que dizem – são a prova de que dentro deste mundo, mesmo deste “ocidental”,  há mundos de outro tempo, de outra dimensão, em que basicamente se continua a infantilizar as pessoas e concomitantemente a assustá-las com o sobrenatural e a levar à letra, e a sério, ideias caducas e ridículas, do tempo em que os animais falavam e ainda nem Shakespeare era nascido. É inacreditável. Neste caso do perdão ao aborto, como se as mulheres não tivessem mais com que se torturar depois de decidirem interromper uma gravidez do que com a salvação da sua “alma”. Não vou enumerar aqui os dilemas e as angústias concretas. Para cada um, basta pensar um pouco.

O castigo (ou o perdão) divino está tão deslocado no mundo real que parece um fenómeno do mundo do ISIS. E o triste é que é, embora com consequências menos violentas. Nem para os verdadeiros crimes o castigo ou o perdão divino interessam. Não resolvem nada.

Em ciência, fala-se na possibilidade de universos paralelos, eventualmente com idades diferentes, dada a imensidão do espaço. O estudo dessa teoria está a avançar e eu espero viver para saber as conclusões. Infelizmente, este mundo paralelo criado e mantido pela religião é outra coisa e em nada contribui para o conhecimento do universo ou dos universos nem sobre o espaço-tempo e o nosso caráter mortal. É de lamentar que demasiada gente desperdice o seu tempo com morais sobrenaturais e salvações e acate sem qualquer distanciamento histórias bizarras. Eu estou no outro, ao lado, a olhar com estranheza.

Alegremo-nos, Trump há só um

Acompanhei as eleições americanas exclusivamente pela CNN. Tanto no dia como nas semanas e meses que antecederam o 8 de Novembro. Este ubíquo órgão de comunicação social não declarou o seu apoio a qualquer candidato. Porém, e sem a mínima surpresa, naquela casa a preferência generalizada era Hillary. Tal ficava óbvio nos programas de opinião, onde os jornalistas-apresentadores deixavam transparecer a sua inclinação e onde o número de comentadores a favor de Hillary – ou necessariamente contra Trump dadas as suas grotescas e aviltantes declarações – superava numa proporção de 3 para 1 os defensores de Trump.

Apesar deste desequilíbrio, será difícil apontar falhas deontológicas à estação e à sua prática de imprensa. A cobertura noticiosa seguia de forma isenta os acontecimentos, destacando o que era novo e relevante. Por exemplo, assim que o FBI lançou a bomba de existirem mais não sei quantos milhares de emails com interesse para a investigação a Hillary, a CNN passou a destacar e analisar esse conteúdo nos blocos noticiosos e de opinião. Não houve qualquer apagamento daquilo que só pelo mero facto de ser falado já causava danos à candidatura Democrata; pelo contrário, tentou-se explicar a situação até ao limite do possível, dando-lhe protagonismo editorial. O interesse pela verdade dos factos era o que guiava os jornalistas e os comentadores da CNN. Para além disso, em momento algum se viu serem diminuídos os representantes de Trump, os quais em constantes ocasiões executavam verdadeiros números circenses para defender o indefensável e até o abjecto.

A percepção de favoritismo a favor de Hillary agudizou-se pela excepcionalidade da candidatura de Trump. Ter um candidato que gera repulsa nas principais figuras do partido por que está a concorrer não é o melhor ambiente para gerar equilíbrios e harmonias. Tal nunca antes se viu em qualquer outro acto eleitoral passado nos EUA. E mais do que se justificava, pois Trump cavalgou intencionalmente os 4 cavalos do apocalipse da democracia: racismo, xenofobia, misoginia e fascismo. Não ter reagido aos mesmos com alarme e indignação, e continuar a não querer reagir alegando que não passou de uma palhaçada para enganar os broncos que lhe deram o voto, define não apenas o cidadão como a pessoa em cada um de nós. O fascínio da comunicação social com Trump não foi só um fenómeno de dinâmica estritamente mediática (ele deu o melhor espectáculo, e de longe), havia também um hipnotismo causado pela exibição do Mal preso a uma trela. Via-se e não se acreditava – pelo que se tinha de voltar a ver.

É por isso que o efeito Trump está condenado a ser efémero, ele que condensou num grau inaudito, e num modo escabroso, a retórica populista do tempo. A ressaca, que consistirá na sua conversão à sensatez convencional ou na sua perdição em desastres calamitosos, já começou a ser servida e ainda nem duas semanas passaram da maior estupidez que este século regista.

Revolution through evolution

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