Mistério

Cada vez que ouço a comentadora Manuela Ferreira Leite na TVI24 fico com a mesma sensação invencível: como é que esta mulher aparentemente sensata, serena, politicamente quase (quase!) social-democrata, foi capaz do histerismo, da ultra-demagogia e da bacoquice doentia de 2009?

Lembro-me bem da campanha da “asfixia democrática”. De como seria bom haver “seis meses sem democracia para pôr tudo em ordem”. E daquela boca que “os portugueses não querem ser mortos por Sócrates”.

O que é que se passou, entretanto, com esta dama? Mistério.

Qual é a verdadeira Manuela, a de hoje ou a de 2009? As duas? Nenhuma delas?

Agora ela é oposição, claramente. Malha regularmente no governo, sem dó nem piedade, às vezes até melhor que o líder da oposição. Malha no Barroso, como ainda há pouco ouvi, a propósito da educação no antigamente. Defende que se festeje o 25 de Abril, o que no PSD é mentira. E até explica, e bem, porque se deve festejar.

O que move afinal esta senhora? Diga quem souber.

Um caso de consciência

Cavaco seria um notável caso de estudo, ou estudo de caso, da duplicidade moral em pessoas com autoridade pública, mas num grau em que se atinge expressão esquizóide, calhando haver alguém nesta terrinha com coragem para o elaborar. Não havendo, resta pegar no que está espalhado por aí. E com esta ressalva: há uma lógica cristalina na aparente bipolaridade patológica de Cavaco, uma lógica que consiste em atacar o PS e ajudar o PSD.

Na passada terça-feira, repetiu uma mensagem que lhe temos ouvido com insistência no último ano – e sob diversas variações ao longo dos anos em que se tem apresentado como o político acima da “politiquice” e, portanto, acima e distante de todos os outros políticos:

O Presidente da República, Cavaco Silva, considerou hoje que é nas empresas que está "o grande pilar da recuperação do país" e não nos "faits divers", porque "intrigas, agressividades, crispações, e insultos entre agentes políticos" não promovem o crescimento económico.

Fonte

Com este Governo, há finalmente um Presidente da República que espalha harmonia e pacificação. Os propósitos não poderiam ser melhores, esforçando-se o Chefe de Estado por elevar a qualidade do debate político. Cavaco é o nosso supremo guia, apontando a meta no horizonte para a qual todas as acções de todos os políticos devem convergir: o crescimento económico; isto é, levar o pão a casa de quem trabalha, em vez de se andar a perder tempo e energia em palavrório que não puxa carroça e ainda deixa as cabeças muito confusas e com ideias perigosas. Quem não aprovar estes sábios conselhos do Professor, lídimo representante da gente séria, não poderá ser bom chefe de família e talvez deva ser barrado à entrada do Estádio da Luz, escusado será lembrar.

Certo. Aliás, se não existissem partidos nem nunca o Sócrates tinha levado esta merda à bancarrota com os aeroportos e TGVs que andou para aí a construir à maluca, mais aquela cena do apartamento comprado à máfia russa com dinheiros das PPP. O Medina Carreira era primeiro-ministro vitalício desde 1975 e reinaria a felicidade e a opulência (embora não necessariamente por esta ordem). Certíssimo. Então, como explicar o que o mesmo Presidente da República andou a dizer e a fazer antes de 5 de Junho de 2011?

Cavaco regista duas espectaculares inovações que os 30 anos de actividade presidencial anteriores à sua entrada no Palácio de Belém não foram capazes de produzir: a Inventona de Belém e o discurso da tomada de posse do seu 2º mandato. No primeiro caso, estamos perante uma tentativa de perversão e manipulação de dois actos eleitorais, legislativas e autárquicas, levado a cabo por um órgão de comunicação social e a Casa Civil, ambos contando com o apoio explícito de Cavaco. No segundo caso, estamos perante um comício no Parlamento onde se pediu a demissão do Governo pela rua. A forma como a sociedade portuguesa reagiu a estas afrontas ao Estado de direito, à República e à democracia é bem o nosso mais nítido retrato enquanto comunidade que não se respeita a si própria. Deixemos, pois, estas misérias e vejamos dois outros exemplos já esquecidos:

Cavaco duro como nunca para Governo e empresários2009

Cavaco Silva não acredita que o Governo desconhecia negócio entre PT e TVI2010

A notícia de 2009, em clima de pré-campanha eleitoral, exibe um Presidente da República a dizer que o Governo oculta a realidade, falsifica estatísticas, decide sem ponderação, gasta dinheiro público em projectos inúteis e ruinosos, favorece os amigos, é volúvel ao poder económico e age sem ética e sem verdade. Não seriam estas razões suficientes para dissolver a Assembleia da República? E se estas não chegavam, quais seriam as suficientes? Ver ministros socialistas a atropelar peões com carros do Estado e a fugir rindo às gargalhadas? Bacanais em S. Bento? Canibalismo nos aviões que levavam Sócrates para a Venezuela?

A notícia de 2010, já em plena crise das dívidas soberanas e com um Governo minoritário a ser queimado vivo até chegarem as presidenciais, dá-nos um Presidente da República a comentar um episódio nascido de uma operação de escutas ilegais que apanhou um primeiro-ministro em conversas privadas e cujos magistrados responsáveis, de imediato, espalharam (ou deixaram que se espalhasse) esses conteúdos por jornalistas para darem origem a uma das maiores campanhas de difamação e calúnias que já ocorreram em Portugal – apenas o prelúdio e clima, afinal, para uma tentativa de golpada por via judicial. Cavaco, que tinha em cima do acontecimento contribuído para essa campanha, volta à carga no momento em que o País se afundava na caos da crise europeia. Para ele, existiu mesmo um negócio que teria nascido do desejo do Governo socialista e que passava por obrigar a PT a comprar a TVI. Subtexto: estava em causa conseguir calar Moura Guedes e o seu magnífico trabalho jornalístico sobre o Freeport. Ou seja, Cavaco confirma a tese do atentado ao Estado de direito mas continua a considerar insuficientes essas evidências para dissolver o Parlamento. Falar de suspeitas e calúnias como se fossem factos, espalhar aos quatro ventos que o Governo socialista é um antro de corruptos, sim, isso é possível e faz sentido. Cumprir a Constituição, supostamente em causa face à dimensão das suspeições verbalizadas, não dava jeito porque o seu calendário era outro.

Quanto a “intrigas, agressividades, crispações, e insultos entre agentes políticos” estamos conversados. Nunca se viu e nunca se fez o que se viu ser feito por Cavaco do alto da Presidência da República Portuguesa, estatuto e situação absolutamente agravantes para as suas aleivosias. Poderá este não ser um caso de consultório, nem de tribunal, nem sequer chegar a ser um caso de estudo, mas para sempre ficará como um caso de consciência. A minha consciência, e talvez a tua.

Qual é a surpresa?

Enquanto escuto o PM não responder a qualquer questão no debate deste mesmo dia, enquanto vejo um PM sorrir perante temas como as pensões, as reformas ou os salários – considerou que o PS anda obcecado com estas coisas e riu-se, ele ri muito – não me surpreendo com nada.

Não me surpreendo como não se surpreenderá qualquer cidadão ou cidadã que reconhece a mentira, o truque, a desinformação propositada, a desarticulação governamental benéfica, enfim, o horror com cara de Passos e espírito de Gaspar.

A direita que conhecíamos acabou. Não há nem direita social nem direita liberal.

Isto é outra coisa: é uma direita extremista, apaixonada por escolas perigosas que dizem, via consultores iluminados, aos ouvidos de Passos e ao elástico Portas, que o memorando é um pretexto para, a partir dele, se aventurarem.

Como numa ditadura, pode falhar-se e falhar-se e continuar a cortar, porque cortar é sempre a política, cortar é a verdadeira meta, por isso não se falha. Não se falha no empobrecimento pouco civilizado, esse do fosso humilhante entre pobres e milionários, não se falha no desmantelamento do Estado Social, essa conquista suada agora passada a gordurosa, não se falha, desde o dia 1, no ataque aos rostos humanos do Estado Social a partir da loucura de 600 e poucos euros de salários brutos, não se falha no ataque ao produto de uma conquista da democracia, as pensões e as reformas, desde o dia 1, não se falha no corte de direitos laborais, essa mancha marxista, não se falha no corte de prestações sociais, ele é desempregados, ele é deficientes, ele é idosos imobilizados, vai tudo, não se falha.

E não falha a retórica que dá cobertura aos cortes que não falham, a retórica mentirosa, desmentida pelo direito, pela economia, pela história, pela verdade, mas não falha a retórica: “a função pública é híper-protegida”; “o sistema de pensões é insustentável”; “neste momento é bom para a economia manter ou baixar o salário mínimo”; “flexibilizar as leis laborais aumenta a competitividade”; “deve haver liberdade de escolha no ensino”; e por aí fora.

Entretanto o PM vai falando e pede para não se insistir nas perguntas acerca das medidas serem provisórias ou definitivas, porque são “provisórias”.

Diria que a idade média também foi provisória, mas ainda durou uns séculos.

Entretanto, o FMI, ou o espírito de Gaspar, já nos esclareceu.

 

 

O Governo português é mesmo bom

Para quem ainda não leu, aqui fica o link para o artigo da revista «The Economist» desta semana sobre as razões para esta tão espetacular quanto enganadora descida dos chamados juros da dívida soberana na periferia da Europa, onde Portugal se inclui.

Como sabemos, Passos Coelho tem sido um génio a fazer descer os juros em todos os países:

gráfico economist

Basicamente, o que se passa é que i) com a deflação, na prática, o rendimento das obrigações é maior do que parece, logo, investe-se no chamado mundo desenvolvido numa altura em que o outro suscita incertezas, e ii) o BCE criou a expectativa de pôr as rotativas a funcionar («quantitative easing»).

Porém, segundo a revista, esta situação não vai durar muito, sobretudo porque a ação do BCE será certamente frouxa por pressões do Bundesbank, mas também porque o restante receituário está errado (depreende-se).

Surpreendentemente, a revista (completamente anti-Keynesiana – cf. este excerto: “Structural reforms, from freeing labour markets to deregulating cosseted industries, have not been radical enough to transform their growth prospects” (ah, ah!, o costume)) recomenda a receita seguida pelo Japão, no mandato do atual primeiro-ministro Shinzo Abe (conhecida por Abenomics), ou seja, estímulos maciços à economia. Só assim se resolverá o problema. Quem diria, não é?

Quem terá sido o autor do “mito”?

Passos Coelho afirmou hoje que “não devemos esfolar um coelho antes de o caçar”. E estava a falar de si próprio. Mas a verdade é que este coelho caça-se e esfola-se sozinho. Vejamos, também hoje, afirmou que não passa de um “mito” a ideia de que seria possível fazer o ajustamento sem cortar nos salários e nas pensões. Lá está, para o caçar basta um clique e num ápice temos o coelho já esfolado à nossa frente:

“Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro”, afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento do fórum de discussão “Mais Sociedade”, no Centro de Congressos de Lisboa.

Ele chama-lhe mito e eu garanto que há quem lhe chame mentir descaradamente com quantos dentes tem na boca.

Quem estava no poder no dia 23 de Março de 2011?

Quando uma maioria parlamentar em Portugal solicitou a entrada da troika no país, os juros da nossa dívida atingiam picos assustadores. Hoje os juros estão em mínimos históricos, e a troika poderá ir-se embora com um país destruído, muito mais endividado, e chamar a isto um sucesso.

[...]

Se há lição que devam tirar destes acontecimentos todos os progressistas, portugueses e europeus, é que conta quem está no poder. Quem está no poder impõe políticas, impõe sacrifícios e, no fim, impõe uma narrativa.

Rui Tavares

Dá ideia que faleceu

Ricardo Araújo Pereira e Herman José têm percursos similares nisso de terem aparecido no momento certo, cada um conseguindo na sua estreia a unanimidade do gosto por aliarem as naturais e extraordinárias capacidades histriónicas com o renovo da caricaturização sociológica ao tempo.

Herman gozou com o Portugal provinciano, parolo e folclórico, tão próximo e ubíquo nos finais de 70 e início de 80. Mas igualmente inovou conceptualmente no seu melhor programa de sempre, “O Tal Canal”, oferecendo aos tele-espectadores um genial hífen onde se podiam apoiar para ganhar distância face ao meio televisivo através desse riso que se abatia sobre as próprias convenções e mecânicas da TV. Depois desta glória, foi sempre a descer. E não foi nada bonito de se ver.

O Sr. Araújo surge em 2003 aos olhos do público e atinge o zénite logo no ano seguinte. A sociedade estava em longuíssima carência de uma representação humorística capaz de nos dar a ver aquilo em que nos tínhamos transformado 20 anos depois do Herman ter conseguido igual feito. A geração nascida após o 25 de Abril ainda não tinha celebrado a sua pertença à comunidade. O riso colectivo cumpre esse papel, institucionaliza e dissolve a inevitável estranheza de vivermos uns com os outros. E embora o Ricardo seja muito pior actor do que o Herman tanto na amplitude dramática como na técnica, é um muito melhor escritor (ou director criativo), com a mesma atenção às idiossincrasias e ritmos da fala de um Miguel Esteves Cardoso. Daqui nasceu o fenómeno dos Gato Fedorento, os quais eram convencionais no formato mas inovadores na linguagem. Em 2006, porém, já estavam sem inspiração. Sobravam uns fogachos aleatórios, uma carreira como personalidade mediática para o líder do bando e uma supermarca colectiva, a qual foi rapidamente explorada até à náusea pela indústria publicitária.

Back to 2014. O Sr. Araújo está de volta às lides humorísticas fora da chancela Gato Fedorento. Fora mas no mesmíssimo território, primeiro sinal de mal-estar. Depois, lembrou-se de chamar o Miguel Guilherme para criar uma parelha multi-usos. 1º problema: o Miguel é tão cerebral como o Ricardo, não havendo dinâmica de tipologias contrárias. 2º problema: ainda agora o programa começou e já estamos cansados de vê-los juntos. Mas o principal berbicacho no “Melhor do que Falecer” está no anacronismo. Aparentemente, a firma Pereira acha que o País continua a precisar de umas injecções de piadolas infantilóides e narcisistas à mistura com uma crítica política superficial e aparvalhada. Aparentemente, ninguém com poder de decisão no programa se apercebeu do que acontece à sua volta nas tais casas onde esperam provocar gargalhadas. Ou será que o objectivo já não é fazer rir, mas apenas despachar programas diários porque isto está muito difícil e quem puder que se safe? É que, no caso de terem alguma intenção de pôr Portugal a desopilar, vão ter de arranjar coragem para expor o que nos faz sofrer. E, estimado Ricardo, ver-te a desperdiçar minutos de TV com um humor que nem sequer nos consegue fazer rir da tonteira do Passos Coelho não tem graça absolutamente nenhuma.

Cegos guiando os cegos

O FMI, que antes tinha ficado surpreendido com a recessão, vem agora declarar-se surpreendido com a retoma. Ou por outras palavras, não perceberam o que se passou, e não percebem o que se passa agora. E no entanto dão, ahem, “recomendações” com o ar mais sério do mundo.

E há quem dê a mínima credibilidade a uns tipos que passaram os últimos três anos a demonstrar a sua absoluta incompetência . Mas isso, infelizmente, não me surpreende.

 

Os autores da entrada suja debocham e achincalham sem parar

O ministro da Defesa disse esta segunda-feira, em Ílhavo, que Portugal vai ter uma saída "limpa" do programa de ajustamento financeiro e isso constitui um "grande motivo de orgulho" para todos os portugueses.

"No final de um programa de ajustamento muito exigente, em que foi preciso um grande sacrifício de todos nós, vamos ter a capacidade para sair de uma forma limpa, sustentável e que prudentemente garante um futuro mais otimista em relação a todos os portugueses", afirmou o governante.

Para o ministro da Defesa Nacional, este último exame significa que todos os portugueses devem fazer um esforço para nunca mais voltar a ter necessidade de recorrer a este tipo de ajustamento.

Aguiar-Branco diz que saída limpa é motivo de orgulho

Revolution through evolution

Lifelong premature ejaculation can be treated by pelvic floor exercises
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Her Voice Is Hot, His Is Not
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We’re over the hill at 24, study says
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Impact of childhood bullying still evident after 40 years
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Wisconsin Research Shows Green Space Keeps You From Feeling Blue
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Odds That Global Warming Is Due to Natural Factors: Slim to None
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Sneezing and Coughing Creates A Rain Cloud of Infectious Diseases
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Computer Software Accurately Predicts Student Test Performance

O soldado Pires deve ter comido alguma coisa que lhe caiu mal

Pires de Lima, o soldado disciplinado, mandou a disciplina às urtigas e de uma penada desmentiu a ministra das Finanças e o ministro da Saúde. A taxa sobre as guloseimas, que ambos tinham admitido poder vir a existir, é pura ficção. Pires de Lima não ouviu falar dela em nenhum Conselho de Ministros e, sendo assim, não passa de especulação que só prejudica a economia.

Se calhar, termos um Governo cujos ministros passam a vida a desmentirem-se uns aos outros, publicamente, com aquela espécie de primeiro-ministro a assistir, também não faz bem nenhum à economia. Mas isto sou eu a especular, não foi nada disso que se passou.

Não tarda nada aparece um outro membro do Governo, ou o próprio Pires de Lima, a esclarecer que tudo não passou de um mal-entendido, que os jornalistas perceberam mal e que a tal taxa está apenas a ser estudada por um grupo de especialistas, que ainda por cima não fazem a mínima ideia de quando terão o relatório concluído. E não se fala mais nisso.

Uma relação impecável

Cavaco, que há umas semanas falava nas décadas de austeridade que ainda temos pela frente, lembrou-se ontem que afinal é preciso abrir janelas de esperança. Parece um nadinha contraditório, mas não é. É verdade que os comentadores já não se atropelam para ver quem faz a melhor tradução do que Cavaco quer dizer nas entrelinhas, mas desta vez não é necessário o contributo desses especialistas, esta é muito fácil de traduzir. Quando o Governo falava em mais cortes, Cavaco falava da necessidade de austeridade por muitos e muitos anos, agora que o Governo está a ser acusado de anunciar medidas eleitoralistas, Cavaco diz que é preciso abrir janelas de esperança. Bate tudo certo. Portanto, se o primeiro-ministro fala do aumento do salário mínimo e o ministro da Economia diz que esse aumento só ocorrerá lá mais para o fim do ano ou princípio do próximo, ou seja daqui a um ano, não é eleitoralismo, nem é estar a gozar com a cara dos milhares que recebem essa miséria de salário, é abrir uma janela de esperança. Se Portas anuncia que o IRS deve começar a “inverter a trajectória de agravamento”, nesta legislatura, só mentes muito perversas podem ver aqui eleitoralismo, é óbvio que Portas está apenas a abrir uma mais uma janela. E, seguindo sempre este princípio, podem anunciar o que quiserem. Até podem anunciar que um dia, nas próximas décadas, hão-de ter uma ideia acerca do rumo que o País deve seguir.

Bem-vindos ao pós-25 de Abril

O Presidente Cavaco Silva nunca usou o cravo. E agora se percebe porquê. Porque antes do 25 de Abril foi salazarista. Embora tanto deva ao regime que resultou da Revolução dos Cravos. Mas só agora se compreende e a dois anos do fim do seu mandato e protetor de um Governo, que em boa parte pensa como ele, a verdade vem ao de cima. Como sempre.

Mário Soares, Abril de 2014

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Até muito recentemente, teria sido impossível ver um ex-Presidente da República a criticar o Presidente da República. Que eu saiba, mas corrijam-me se estiver enganado, nunca António de Spínola, Costa Gomes, Ramalho Eanes e Jorge Sampaio o fizeram. Mesmo no caso de Soares, e tão próximo como 2009, não vimos nenhuma reacção sua à “Inventona de Belém”, suprema ocasião para verbalizar o que achasse por bem verbalizar face ao maior escândalo ocorrido na Presidência e, num certo e democrático sentido, no regime.

Nos últimos dois anos, pelo menos, Soares tem aparecido num crescendo de ataques à outrance contra Cavaco. A citação acima corresponde a um zénite depois do qual não se imagina o que mais se poderá ir buscar antes de se chegar a acusações do foro criminal. Eis que um ex-Presidente da República, que ficará na História como um dos principais responsáveis pela instauração da democracia em Portugal, carimba o Presidente da República, e também o Governo, como “salazarista“.

Ainda antes de se discutir a justiça da adjectivação – aliás, sem carência de lá chegar – importa questionar: que significa a palavra? Seja lá o que for adentro das suas potencialidades semânticas, o denominador comum a qualquer dos seus usos terá de remeter sempre para um quadro em que o poder político limite e anule drasticamente as liberdades próprias de um Estado de direito democrático e onde se exerça perseguição política. Assim, catalogar alguém como salazarista corresponde a um dos piores insultos que se podem fazer a quem se considere democrata. Esse insulto será tão mais agravado quão maior for o estatuto de democrata daquele que o profere. Não é a mesma coisa ser chamado de salazarista por um comuna que, no fundo, odeia a liberdade quando exercida fora da sede do partido ou pelo “pai da democracia portuguesa”.

Para medir o extraordinário deste episódio, basta vasculhar a propaganda e discursos do PCP à procura da associação que Soares acaba de fazer. A confiar na Internet, o máximo a que se chegou foi a “ruralismo salazarista“, o que não é carne nem peixe, mais batata e em puré. Aliás, o PCP adora o papel de guarda-florestal das instituições da República a que a direita igualmente adora reduzir a agremiação dos ultraconservadores vermelhos, pelo que jamais se permitiria esses ultrajes soaristas à “figura” do Presidente da República. Mangas revolucionárias arregaçadas dentro do casaco, mas gravatinha sempre colocadinha para colaborar na moralização sistémica.

Então, temos que um ex-Presidente da República já se sente à vontade para escrever num jornal que considera ser o Presidente da República um representante do salazarismo. Será esta originalidade mediática suficiente para declararmos inaugurado o pós-25 de Abril? Não. O que nos garante termos atravessado o Rubicão em direcção um novo período na História de Portugal encontra-se nos efeitos que as palavras de Soares tiveram: nenhuns. Nada de nada de nadinha de nada aconteceu, ou vai acontecer, em consequência de uma das pessoas mais importantes do regime ter dito da outra pessoa mais importante do regime que esta defende os valores contra os quais se fez o 25 de Abril.

Minhas senhoras e meus senhores, democratas e salazaristas, bem-vindos a um tempo em que o 25 de Abril só parece ter um homem de 89 anos para o defender.

Perguntas estafadas a um PM estafado

Que pensa o PM sobre o crescimento sustentável do país?

O que pensa o PM sobre a evolução da dívida pública?

Qual a tal da saída que o PM defende?

Em 2016 teremos desoneração de pensões e salários, é? Que acaso ser depois das eleições, certo?

O que se vai passar em relação à tabela salarial única?

Os funcionários públicos não merecem informação de confiança?

A tabela nova não é para todos, pelo que percebemos. Haverá mais despedimentos?

Como serão exatamente feitos os cortes definitivos nas pensões?

O que quer dizer não teremos mais cortes e dizer ao mesmo tempo que haverá outra via?

Os 1400 milhões de cortes – parece que 1000 milhões têm a ver com os consumos intermédios (MF), tudo num ano, ao contrário da “loucura “ dos últimos 3 anos – são o quê?

O PM pensa que os portugueses não sabem que muito está por anunciar?

Tenho uma vaga ideia de estar a viver em Abril. Maio é o mês que vem aí. Para quando discutir o plano pós-troica?

Quantas pessoas conhece o PM que tenham saído do RSI por terem contas bancárias de mais de 100 mil euros? Ou alinha na ofensa mentirosa do seu vice?

O salário mínimo é um desígnio nacional num país onde se trabalha continuando-se pobre ou é uma conversa partidária?

Se o é, por quem nos toma?

Em que planeta pode Passos afirmar que os cortes brutais nos serviços públicos não tiveram efeitos na respetiva eficácia?

 

Entrevista de ontem: é que nem isso, meus amigos

Antes da entrevista a Passos, muita gente por esta blogosfera mais astuta e divertida imaginou o que seriam as perguntas do J.G.Ferreira e as respostas de Pedro. Umas eram perguntas que já incorporavam a resposta, incluindo-se muitas delas na categoria de perguntas retóricas, outras punham o jornalista numa posição muito ousada no que toca a números, obrigando o entrevistado a apresentar-se como ser humano com alma e preocupações sociais, outras ainda eram do género de poderem ser feitas.

Nada disso. Foi ainda pior. JGF enveredou por um caminho a que se pode chamar de “não entrevista”. Tratou-se de uma converseta e de uma converseta acanhada por parte de quem se devia mostrar profissional, e chocha, totalmente chocha, dirigida por um homem que até costuma aparecer nas televisões com análises categóricas e declarações bombásticas, tão ousadas quanto afuniladas. Dei por mim a cochilar. Não só as perguntas não foram minimamente incisivas, como também não abordaram sequer as grandes questões do momento: a tal saída limpa ou suja e as hesitações/insegurança de M. Luís Albuquerque, o pós-Troika, os chamados “consensos”, a Europa, os desempregados, os emigrantes que a ministra das Finanças diz que voltam, a bancarrota atual em contraponto com a alegada bancarrota passada, o Manifesto dos 74, a dívida, as comemorações do 25 de abril, as reformas estruturais, enfim, um número abundante de assuntos, que não se esgota nestes mencionados, e que ficaram de fora e não deviam ter ficado, se aquilo pretendesse ser uma entrevista a um chefe de governo num momento crucial do programa de resgate. E mesmo nos assuntos falados, como os das pensões, dos cortes e das “gorduras”, o entrevistador pareceu ficar satisfeito com as respostas totalmente vagas e impreparadas que obteve do barítono seu ídolo. Assim não. Isto não é sério.

Para a próxima, será melhor pôr o homem a cantar. Para não dizer nada, seria, quiçá, mais agradável. E o jornalista, que também não quer incomodar, poderia apenas deleitar-se a ouvi-lo e, no fim, bater as palmas que ontem se refreou de bater.

Escravos e mansos

Não há registo de revoltas de escravos na Grécia clássica, uma sociedade esclavagista. Como explicação possível, aponta-se para a diversidade étnica dos escravos presentes nas cidades gregas, todos eles estrangeiros. Não só estavam separados pela língua de origem mas ainda por diferenças corporais e culturais segregadoras. Algo parecido poderá reconhecer-se no Portugal do Pedro&Paulo.

Uma larguíssima parte da sociedade portuguesa aderiu sôfrega à fantasia milenar de haver um homem muito mau, diabólico, na origem dos problemas da comunidade. Este grupo reúne pessoas de direita que prezam o individualismo e se estão a marimbar para o vizinho, quanto mais para o Estado social, e pessoas de esquerda que sonham com uma qualquer forma de ditadura onde se possam começar a marimbar para o vizinho. Mas, maioritariamente, este grupo era constituído por uma juliana de fanáticos, broncos e avariados dos cornos. Sejamos claros: ter ido votar em Passos ou Portas em Junho de 2011 só porque não se gramava Sócrates coloca fatalmente essa alma numa qualquer das categorias acima indicadas. Porque era óbvio que quem andava a mentir com a boca toda não estava a preparar coisa boa, e PSD e CDS mentiram quanto e como puderam até às eleições.

Passos merece encómios pelo facto de não ter perdido um segundo após o agarramento do pote. Em modo blitzkrieg (tradução: “além-troika”), as primeiras medidas que tomou puseram radicalmente em causa o que tinha jurado ao eleitorado. Daí para a frente foi sempre a aviar. Sempre a empobrecer o País e sempre a mentir aos cidadãos. Como explicar, então, que a essa sucessão de escabrosas traições ao seu mandato eleitoral, e de degradação da função de estadista, se tenha seguido um crescendo de apatia cívica e irrelevância da oposição? Quando comparamos os protestos contra os Governos de Sócrates com os que se fizeram contra o actual Governo a lição parece ser a de que os portugueses gostam mesmo é daqueles que os maltratam e ainda gozam por cima.

Vários factores parecem contribuir decisivamente para o marasmo. Talvez o mais importante deles seja o que aconteceu ao PS, nas mãos de um cúmplice da estratégia da direita – afinal, análoga à sua para tomar conta do partido. Depois, temos a tragédia da esquerda, um coio de sectários e alucinados que prefere a lamúria impotente a ter de agir para o maior, ou mais urgente, bem comum. Junta-se a iliteracia política que é ainda uma herança do salazarismo, causa principal do absentismo cívico ao centro. Soma-se a fuga de centenas de milhares no auge da sua vitalidade. Acrescenta-se a praga do desemprego e as patologias que gera. E acabamos nos tais fanáticos, broncos e avariados dos cornos a lerem religiosamente o seu Correio da Manhã.

Mudam-se os tempos, muda-se a geografia, mas os escravos continuarão sem se revoltarem caso continuem incapazes de encontrar o que os una. Caso continuem estrangeiros na cidade.