Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

O opositor secreto de Passos Coelho

Quem acreditar nas memórias de Cavaco, fica agora a saber que ele se terá oposto às políticas do governo de Passos Coelho – a descida da TSU, os cortes dos vencimentos e o roubo dos 13º e 14º meses dos funcionários públicos (salvaguardando, porém, os rendimentos do capital), a forma como a política de austeridade foi aplicada pelo governo (sem equidade nem justiça social), a estratégia de comunicação do governo no anúncio dessa política de austeridade (quase parecendo “ter prazer em anunciar medidas negativas”), a extinção dos governos civis, a “falta de coragem para enfrentar as clientelas do PSD e do CDS” (que terá servido de pretexto à extinção dos governos civis), etc., etc.

Terá Cavaco afinal militado secretamente na oposição?

Mas porque não usou ele a sua voz para criticar as políticas daquele governo de que diz ter discordado – já não digo do mesmo modo como torpedeou sonoramente o governo de Sócrates, mas ao menos com uns puxõezinhos de orelhas amistosos? No seu silêncio público, Cavaco foi inteiramente cúmplice do governo de Passos Coelho, que agora diz ter criticado e admoestado nos bastidores. Compreende-se que queira reescrever a história, mas é preciso ter muita lata!

Neste segundo volume das suas memórias, Cavaco critica também Passos Coelho pela sua “inexperiência governativa” e ignorância macroeconómica. Critica Paulo Portas pelos seus humores irresponsáveis. Diz ter ficado espantado com a nomeação de Relvas como ministro-adjunto, pelo que não ficou muito surpreendido quando ele teve de sair (vergonhosamente) do governo. Revela que Passos Coelho e Paulo Portas atiravam um para o outro a batata quente de nomear um ministro das Finanças para suceder a Vítor Gaspar. E adianta, em primeira mão, que Passos Coelho ameaçou demitir-se três vezes!

Não está mal, não senhor! Ao lado da sólida “geringonça”, o governo de Passos Coelho mais parece ter sido uma caranguejola ferrugenta sempre a cair em pane.

Cavaco diz ter declarado a Passos Coelho e Portas, após o episódio da demissão irrevogável: “No futuro, serei menos condescendente em relação a desentendimentos no seio da coligação que ponham em causa a estabilidade política.” Ai que medo! Certamente cortava-lhes a semanada e proibia-lhes as idas à discoteca.

Podemos perguntar-nos porque relata Cavaco estes desaires, erros e insucessos do governo que ele apoiou publicamente até ao fim – e que quis mesmo reeditar em Outubro de 2015, sabendo de antemão da falta de apoio do novo parlamento. Uma explicação plausível para estas confissões é que, perante o êxito ulterior da “geringonça”, de que ele desconfiava mortalmente e que chegou a pensar em evitar mediante um governo de iniciativa presidencial, Cavaco prefere agora apontar os erros Passos Coelho e Portas a ter de reconhecer o bom desempenho de António Costa. Se a geringonça da esquerda triunfou, não foi por mérito próprio, foi por culpa da caranguejola da direita… Ele bem avisou Passos e Portas, mas não foi ouvido! Espera-se ansiosamente a reacção dos visados.

Entretanto, Marcelo garantiu hoje que jamais comentará as memórias de Cavaco. Perde, assim, uma excelente oportunidade para dar um show e divertir o país.

Podia ser uma comédia se não fosse tão triste

«O ministro é evidente que se tinha que demitir, já vai muito tarde. Na primeira fase, quando começou com graçolas, percebeu-se logo que ele não tinha muita habilidade para fazer aquilo que fazia. Depois, com o conhecimento do memorando, nós ficamos a saber que o homem nem sequer sabia o que se passava no seu gabinete quanto mais nas Forças Armadas.»

[SIC Notícias]

«um ministro que diz graçolas do género "nem sei se houve assalto"»

[DN]

Pedro Marques Lopes

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Sou fã do Pedro. Vejo nele um autêntico liberal, de cepa clássica. Alguém que coloca a liberdade acima do sectarismo, do tribalismo, do egoísmo. Daí, conseguir ter a independência e a coragem para defender a decência e a comunidade bastando-lhe o critério da sua honestidade intelectual. Dado não passar fome, nem parecer ter problemas bicudos para desfrutar com os seus do conforto e segurança que lhe aprouver, corresponde ao modelo de cidadão descrito por Aristóteles como sendo o esteio do melhor dos regimes: aquele onde a classe média governa. Não faço ideia se o seu território de afirmação mediática iria resistir à entropia e dialéctica de um cargo partidário ou governativo, mas fica a bela esperança de que um dia façamos tal experiência; seja com ele ou com outro qualquer congénere.

Como admirador, tenho especial prazer em usar o seu exemplo para zurzir no espectáculo que começou a 10 de Setembro de 2017. Nesse dia, a TSF e o Diário de Notícias publicaram uma entrevista a Azeredo Lopes, feita por Anselmo Crespo e Paulo Tavares. Essa entrevista foi antecedida da publicação de textos de opinião de ambos os jornalistas onde optaram por um registo incendiário, sensacionalista e de ataque ao ministro da Defesa em cima do acontecimento. No decorrer da entrevista, esse clima de hostilidade, perseguição e acinte está presente na escolha das perguntas obsessivamente persecutórias de uma suposta responsabilidade política no caso, tendo acabado por gerar dois factos notáveis e com destino oposto. Um deles, a escolha do seguinte título: “”Não sei se alguém entrou em Tancos. No limite, pode não ter havido furto“. O outro, a censura no DN a parte da entrevista onde o então ministro desmente uma mentira publicada pelo jornal. Quanto ao primeiro, tal lançou uma reacção de matilha onde se passou a caricaturar Azeredo Lopes não por causa das verdadeiras e contextualizadas declarações com as quais (duas, separadas na entrevista) se montou o título, mas por causa da intencional perversão sensacionalista da responsabilidade exclusiva dos dois jornalistas e do então director, Paulo Baldaia, ao inventarem uma sequência de frases que não existe na entrevista. Quanto ao segundo, nenhuma alma falou nisso, sendo eu, se calhar, uma das 5 pessoas neste planeta que conhece a inacreditável violação deontológica. É comparar: entrevista transcrita com entrevista captada (as declarações censuradas começam ao minuto 22:23 e vão até 25:05, buereré de caracteres). Sei bem que jamais alguém irá aparecer a justificar o corte, a começar porque também ninguém está para perder uma caloria com o assunto, mas seria lindo ouvir uma qualquer tanga a respeito por parte de quem assim decidiu.

O ataque a Azeredo Lopes passou a fazer-se quase exclusivamente, até à sua demissão e ainda nos comentários à mesma, usando a munição dada pelo DN a quem a quis usar. E todos quiseram. Todos. Porque era de um sarcasmo universal, permitia pintar o ministro como um tontinho que andava a apanhar bonés. E quem é que resiste a juntar-se a essa turbamulta que atira ovos e tomates aos malandros dos políticos, para mais apanhados num caso escabroso e inacreditável, ainda por cima socialistas e, para cúmulo, tendo andado pelos mares profundos da comunicação social armados em importantes? Pelo que se tornou obrigatório associar “Azeredo Lopes” e “Pode não ter havido furto” se algum macaco se lembrava de dizer coisas a respeito de Tancos. E quanto menos tivesse para dizer mais se agarraria à banana do Azeredo. No entanto, contudo, todavia, a tal entrevista dada à TSF e ao DN é um exercício de apurada racionalidade e sentido de Estado, mesmo de alta responsabilidade política, que o presente confirma e o futuro reforçará. Por cada novo dado que aumente a nossa incredulidade face ao que se passou, ao mesmo tempo aumenta a relevância do que o Governo, pela boca do ministro da Defesa, veio dizer aos cidadãos nessa ocasião. Recordemos os factos estruturantes desse sofisticado e poderoso acto comunicativo:

– Azeredo Lopes deu a entrevista na sequência de ter recebido as conclusões dos primeiros inquéritos dos diversos ramos das Forças Armadas e da Inspeção-Geral da Defesa Nacional. Ter falado antes seria irresponsabilidade. Não falar depois, estando o tema a ser usado como arma de arremesso contra o Governo e havendo uma necessidade política de dar explicações preliminares pela tutela, seria uma irresponsabilidade.

– Azeredo Lopes descreve na entrevista o que fez dentro da sua responsabilidade governativa após receber a notícia do assalto. Nessa descrição, deixa a nu, para quem quiser ver, que Tancos faz parte de uma questão cuja profundidade e complexidade atinge o próprio regime. Ao mesmo tempo, e precisamente por causa da gravidade geral do problema que ultrapassa desmesuradamente a ocorrência do assalto aos paióis, transmite a mensagem de que o problema não se vai resolver numa legislatura, muito menos começando a disparar contra o Exército.

– Azeredo Lopes responde à acusação dos direitolas – e dos jornalistas úteis aos direitolas – de que Tancos pedia a sua cabeça repetindo rigorosa, zelosa e enfaticamente que a solução para a crise aberta pelo assalto iria passar inevitavelmente pela acção do Ministério Público. Com isso transmitiu outra poderosa mensagem, a de que o Governo não seria conivente com as diversas ilegalidades que vieram espantar a sociedade no episódio. Quem tinha roubado, e quem tinha ajudado a roubar, teria de ser apanhado e castigado. Mas não pelo ministro da Defesa – e também não pelos próprios militares. Algo tão sério como o que se via e entrevia carecia dos mais poderosos instrumentos policiais do Estado civil para impor a força da Lei. Um ano e pouco depois, o primeiro-ministro fez exactamente dessa mensagem uma bandeira que agitou no momento mais intenso do cerco a Azeredo.

– Azeredo Lopes, no auge do aproveitamento das potencialmente ambíguas declarações de Marcelo a respeito de Tancos, responde exemplarmente dizendo o óbvio. Hoje sabemos que Marcelo e Costa – e, muito provavelmente, uma boa parte das cúpulas das Forças Armadas – estão unidos no propósito de tratar esta questão com pinças. Pinças de titânio, mas pinças. Ou seja, é um trabalho de ourives (um broche, usando o vernáculo de caserna).

Parafraseando o último “Eixo do Mal”, quem está de boa-fé percebeu que o ministro da Defesa foi alvo de uma pulhice jornalística. Um ministro com currículo incomparável na forma como fez respeitar a Constituição e o Estado de direito democrático na relação entre o Governo e o Exército. Ora, com aqueles que estejam de má-fé não vale a pena discutir. Daí o meu interesse pelo Pedro Marques Lopes, no qual jamais acreditarei que ceda à desonestidade intelectual. E, não cedendo, segue-se que ele jamais conseguiria provar que o ministro da Defesa alguma vez disse “graçolas” a respeito de Tancos, tal não passando do resultado de as suas emoções estarem a distorcer por completo a sua capacidade analítica. Essa constatação surge como uma disfuncionalidade importante por exibir incoerência com os valores que o próprio assume e promove. Seja como for, o seu caso não é tão grave como o do Anselmo Crespo. O mesmíssimo Anselmo Crespo que entrevistou um ministro da Defesa só para o queimar, para mais nada que tenha remotamente a ver com a missão do jornalismo enquanto actividade que ajuda o público a descobrir a realidade. Este amigo, cuja expressão escrita é um festival de empáfia e piroseira assanhada, chega a 12 de Outubro de 2018, depois do tudo que se sabe dentro do tudo que se desconhece, e abre assim um Bloco Central:

«O azar do Azeredo. Podia ser o nome de uma comédia se não fosse tão triste e, sobretudo, tão grave. O ministro que depois do assalto aos paióis de Tancos teve pérolas como "Não tenho noção exacta do material que foi roubado" ou "No limite, pode não ter havido furto nenhum", só para dar alguns exemplos, saiu de cena. [...] O que Azeredo Lopes não faz, nem na hora da despedida, é reconhecer qualquer responsabilidade política neste caso. [...]»

Revolution through evolution

Avoiding a spouse’s demands may benefit low-income couples but hurt wealthier couples, study says
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Men in Leadership Gain from Psychopathic Behavior, Women Punished
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Feminine leadership traits: Nice but expendable frills?
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No, we’re not all working for a bunch of psychopaths
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Scientists chase mystery of how dogs process words
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Stem cell proliferation is controlled directly by nervous system, scientists find
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Us vs. them: Understanding the neurobiology of stereotypes
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Continuar a lerRevolution through evolution

Ó Paulo Tavares, tu tira uma sabática para curar isso

Queimados por más experiências nas últimas décadas, confundimos eleitoralismo com despesismo. Alguém pode dizer, sem confundir desejos com realidade, que estamos hoje no mesmo ponto em que estávamos em 2009? Quase um ano depois da queda do Lehman Brothers e com uma tempestade perfeita a formar-se à escala global, José Sócrates atirou-se a um aumento de 2,9% para a função pública. Aí, todos os adjetivos foram válidos.

Paulo Tavares

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Transformou-se num fenómeno do Entroncamento. Este amigo, uma semana depois, volta a repetir uma calinada inadmissível até num jornalista que estivesse a estrear a carteira. Desta vez, aumenta a tonteira ao introduzir o calendário do Lehman Brothers, o qual alega conhecer. Como explicar a estupidez e a mentira? Bom, acaba por ser fácil. Como a intenção é usar o aumento que o Governo de Sócrates – com os votos do PSD – deu aos funcionários públicos em Outubro de 2008 para entrar em vigor no ano seguinte, Paulo Tavares transfere para 2009 o seu nascimento de modo a reforçar a ideia de ter sido algo “eleitoralista” numa escala nunca vista, um acto de loucura a merecer a eterna condenação das gerações seguintes. Factos? Cálculos? Contextos? Dispensa. Isso iria perturbar o exercício sectário, a demagogia jornaleira nascida da sua displicência e soberba.

Dito isto, pode ser que este amigo tenha investigado o assunto, como mais ninguém antes ou depois, e tenha descoberto que o Lehman Brothers faliu na verdade em 2007 mas que conseguiu guardar segredo até Setembro de 2008. É uma hipótese. Seguramente mais simpática do que todas as outras que me ocorrem para explicar a sua fixação e a sua deturpação.

Perguntas simples

A Justiça à moda de Mação, onde os juízes passam a trabalhar para o Ministério Público e se permitem condenar arguidos ainda sem acusação formada, e onde esses mesmos juízes vão para a TV sugerir que estão cercados por criminosos na própria Justiça e no sistema político, merece ser referendada ou isso seria estar a perder tempo na cruzada contra a “corrupção”?

O quarto poder como quinta-coluna

O conceito de “quarto poder”, quando aplicado à imprensa, pressupõe a tríade “poder legislativo”, “poder executivo” e “poder judicial” como referentes. Num Estado de direito democrático, institui-se constitucionalmente a separação desses três poderes estruturantes do paradigma civilizacional liberal. Esta a paisagem que serve para imaginar um “quarto poder” fiscalizador do trio teorizado por Montesquieu. Nessa missão, os seus representantes (os jornalistas) concebem-se como isentos, objectivos, independentes – ou seja, o “quarto poder” igualmente reclama um estatuto de separação donde procede a sua legitimidade e autoridade. Os jornalistas não criam leis (porque não são parlamentares), não as usam na governação (porque não governam) nem as aplicam nos tribunais (porque não julgam), mas conhecem-nas tão bem como os representantes dos restantes poderes (esta a tese); daí poderem aferir se são respeitadas ou violadas por qualquer autoridade (para tal, possuem direitos de investigação e protecção especiais). Mas não só. Os jornalistas podem também reclamar uma maior (e melhor) proximidade à população, ao eleitorado, aos agentes económicos, sociais e culturais, aos simples cidadãos enquanto entidades com direitos e garantias estabelecidos nos princípios e códigos fundantes da vida social e em comunidade, para se assumirem como advogados mediáticos de qualquer causa ou caso que considerem merecer a justa protecção ou promoção do “quarto poder”. Nesta pureza guardiã das instituições e dos indivíduos, assim como dinamizadora das actividades económicas e artísticas, a imprensa constitui-se como um dos pilares mais importantes da democracia e da vida em sociedade. Esta uma definição mal-amanhada e à pazada do conceito de “quarto poder” (na sua abstracção) só para chegar ao Manuel Carvalho.

Neste texto já enterrado no esquecimento – O pseudogolpe na procuradoria – vemos o director do jornal Público, recorrendo à figura do editorial, a despachar em três curtos parágrafos o processo de substituição de Joana Marques Vidal por Lucília Gago. O poder de síntese demonstrado não terá a sua origem numa misteriosa limitação de espaço para a escrita, ainda menos no que o seu bestunto conserva como informação e opiniões a respeito da coisa, pelo que a explicação para tamanha modéstia analítica e reflexiva terá outra origem. Vou apostar na dimensão do livre-arbítrio e concluir que o senhor não disse mais porque não quis. Agarremos então no que foi publicado como declaração oficial da posição do jornal Público a respeito das questões associadas ao final do mandato de JMV e ao fenómeno de partidarização e campanha mediática a que se assistiu. O que lemos permite descobrir os mecanismos mentais dos decisores editoriais do que passa por “jornalismo de referência” – ou seja, do que nos dizem ser um típico representante do “quarto poder”; no caso, o Público – no trato de uma das mais emporcalhadas situações de que há memória a envolver a Procuradoria-Geral da República, o primeiro-ministro e o Presidente da República.

Para comodidade de exposição, divido as mensagens de MC em dois grupos, “Do Manel” e “Do Carvalho”:

Do Manel

– «Uma normal e legítima opção do Governo e do Presidente da República tornou-se para alguns sectores da direita a prova acabada de que o regime sucumbiu com enlevo à praga da corrupção. Como se em causa estivesse a escolha entre a vontade ou a renúncia à salvação, como se não houvesse Ministério Público para lá de Joana Marques Vidal, como se uma escolha sujeita a interpretações do espírito da Constituição se resumisse a uma certidão de que o Governo, o Presidente, o Bloco, o PCP e uma boa parte do PSD de Rio estão empenhados em acariciar a corrupção e proteger os poderosos com o braço da lei.»

– «Há mais procuradoria para lá da ainda procuradora-geral. Portugal é, apesar de tudo, um país dotado de aparelhos institucionais suficientemente maduros para dispensarem o papel do caudilho ou dos salvadores da pátria.»

– «dizer que a sua não recondução é um golpe digno de uma quadrilha de malfeitores só pode vir de cabeças que sujeitam a interpretação do mundo à forma dos seus desejos e ao tamanho das suas ambições.»

Do Carvalho

– «Joana Marques Vidal deveria ter sido reconduzida no cargo porque, para lá de todas as fragilidades do seu mandato, acabou com os resquícios de uma Justiça burocrática e rendida aos encantos do poder tão bem cultivada pela dupla Pinto Monteiro-Noronha do Nascimento.»

Aqui temos o Manel a descrever com objectividade a realidade, isso de termos assistido a uma campanha demagógica e populista por parte de uma direita ressabiada e rancorosa, decadente. E tão perigosa na obscena exibição da sua gula para usar a Justiça e polícias como arma política. Isso de não ser concebível que o Ministério Público e sua complexa e cristalizada autonomia esteja na dependência de um qualquer procurador-geral da República para cumprir o princípio da legalidade a que está obrigado. Isso de o procurador-geral da República, seja ele quem for, não obrigar o Ministério Público a abrir processos nem impedir ilegalmente os procuradores de investigarem o que, na sua autonomia e responsabilidade, sejam obrigados a investigar dada a existência de indícios conhecidos para tal. Isso de os resultados a que cheguem ou não cheguem as investigações não decorrerem da competência, esforço e traços morais dos procuradores-gerais da República, antes das equipas abaixo no Ministério Público que assumem a primeira responsabilidade judicial sobre os processos. Isso de que apagar estas evidências basilares para as substituir por caudalosas suspeições difamantes que chegaram a atingir o primeiro-ministro e o Presidente da República corresponde à mais degradante baixa política, uma chicana escandalosa e soez vinda de altas figuras partidárias, regimentais e mediáticas da direita acéfala.

À mistura com esta salubridade jornalística e cívica, tropeçamos no Carvalho caluniador. O que ele agita – surpresa! – é exactamente a bandeira da campanha demagógica e populista, difamante e paranóide, dos que exploraram o final de mandato da Joana Marques Vidal para obterem combustível que permita continuar a incendiar o espaço público e a espalhar um terrorismo sociológico que visa destruir a confiança nas instituições da República. Carvalho não se limita a apontar ao Pinto Monteiro, vai também buscar Noronha do Nascimento. Com isso está a transmitir aos seus amigos de almoçaradas e copázios que ele continua um bom soldado, disparando na direcção certa. A direcção certa é – espanto! – Sócrates. Ora, tirando o “Face Oculta”, que outro episódio o Carvalho poderia dar como exemplo da aludida rendição aos encantos do poder por parte de Noronha do Nascimento e Pinto Monteiro? Nenhum de nenhum, escusa de fingir que procura na enviesada memória. Ninguém recorda qualquer outro acto de Noronha do Nascimento em suposto conluio com Pinto Monteiro. Mais: ninguém se lembra de ter visto o Conselho Superior da Magistratura e/ou o Conselho Superior do Ministério Público a sequer tecerem considerandos sobre eventuais irregularidades de algum desses dois magistrados difamados pelo Carvalho. Saberá o Carvalho caluniador como se constituem esses conselhos e a autoridade que possuem? Se sabe, como explica que não tenham opinado sobre tão colossal violação do dever por parte desses dois magistrados que ataca? Acontece que este senhor director de um semipasquim – pasmo! – nada conseguiria explicar caso fosse interrogado sobre a matéria acusatória que deixou com boçalidade na página. Nada conseguiria demonstrar que aparentasse ser uma irregularidade nas decisões tomadas que contrariaram a pretensão de se estar perante um “atentado contra o Estado de direito” só porque em Aveiro se conseguiu espiar Sócrates em banais conversas privadas com Vara. Ele apenas sabe dizer que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento eram demasiado “burocráticos” – ou seja, que essa dupla deixava a Lei interferir na pulsão justiceira de certos magistrados engajados e atrapalhar o uso dos instrumentos policiais mais poderosos na caçada a certos alvos tão politicamente valiosos. Já com a santa Joana, foi um despacho que deu gosto ver. Abriu-se um processo judicial sem se saber qual era o crime em causa e prendeu-se um ex-primeiro-ministro sem provas, apenas como oportunidade imperdível para o castigar e interferir numas eleições legislativas. O Ministério Público passou a cometer crimes diários de violação do segredo de justiça ao serviço de uma campanha de linchamento público e condicionamento do poder judicial e do clima político. E até tivemos direito a gozar de pança cheia com o fascinante espectáculo televisionado dos interrogatórios a arguidos e testemunhas gravados nos estúdios do Ministério Público, já para não falar de uma certa entrevista onde um certo juiz condenou na TV um certo arguido cujos direitos tinha a obrigação de não só respeitar como defender e que ainda nem acusado estava.

Será o Manuel Carvalho um mau rapaz? É ao contrário, pelo menos quando se vê ao espelho. Ele concebe-se como um probo, um valente. É por isso que quer muito, muito, muito apanhar a bandidagem que para aí anda a roubar a gente. Raios, ser jornalista e chegar a director de um jornal “de referência” e deixar escapar os gatunos não ficaria bem no seu currículo e memórias futuras. De quantos bandidos estamos a falar? Isso ele já não saberia dizer, mas pelo menos em relação a Sócrates e aos restantes bandidos socialistas cúmplices das extraordinárias actividades criminosas relatadas na indústria da calúnia não tem dúvidas. É daí que vem o seu apoio à JMV, uma santa que ele adoraria ver mais 6 anos a espezinhar a “burocracia” que protege a ladroagem com poder. Ou seja, o Manel escreveu aqueles três parágrafos para sossegar a sua malta. A malta que vê no Estado de direito democrático algo muita fixe quando se trata de proteger os seus, e que passa a considerar o Estado de direito democrático, o rigor na defesa da Lei, a integridade das instituições da Justiça, algo “burocrático”, um empecilho, mesmo um erro a ser corrigido por aqueles que têm o que é preciso para caçar os “poderosos” – ou, vá lá, pelo menos um ou outro “poderoso” mais apetitoso e que sirva de exemplo e ameaça para certos tipos que se costumam reunir ali para os lados do Rato.

Pelo que acabamos na síndrome de Janus, endémica no pseudojornalismo e na baixa política. O prestígio e aparato do jornalismo enquanto missão cívica, e considerado como pilar dos regimes democráticos, a ser usado por aqueles, cônscios ou sonâmbulos, que preferem a adrenalina e testosterona dos linchamentos e das conspirações, das campanhas e das golpadas. Um jornalismo transformado em auxiliar de um Ministério Público justiceiro que viola direitos e garantias, que alimenta operações mediáticas para a perversão da Justiça e assassinatos de carácter inclusive de magistrados, é precisamente o oposto do que qualquer conceito de democracia concebe como a defesa da liberdade.

Mas o que nos interessa a vidinha do juiz Carlos Alexandre?

Já lá vão duas – duas – reportagens sobre o juiz de Mação. Uma com óculos, outra sem óculos. A próxima virá de monóculo? Enquanto vejo, na RTP, e dado o desinteresse da temática, que mais uma vez insiste nos testemunhos da “rectidão moral” e religiosidade do senhor e me provoca bocejos após a incredulidade, só posso concluir que o juiz queria era dizer mal do sorteio que atribuiu a instrução do processo Marquês ao seu colega Ivo Rosa e esta reportagem serviu para pouco mais do que isso. Terá sido ele a pedir a entrevista?

Mas outras perguntas têm que ser feitas a propósito desta andorinha: por que razão não impugnou logo de imediato o sorteio e optou por denunciá-lo mais de um mês depois, com enquadramento televisivo sobre as suas qualidades morais? Porque não esteve sequer presente? Este juiz é esquisito. Não é discreto, auotoelogia-se com prazer, gosta de mediatismo e não se inibe de mentir para as câmaras (a história das razões pessoais para a sua ausência; pensa que goza). Com justiceiros destes, como não torcer pelos criminosos? São, obviamente, muito mais inteligentes. E elegantes.

Uma questão de pilas

João Ribas, o director do Museu de Serralves que se demitiu por alegada censura à exposição de Mapplethorpe, foi ontem ouvido pelos deputados da nação na comissão parlamentar de Cultura da Assembleia da República. A magna questão que mobilizou este órgão de soberania durante várias horas era a de saber se várias fotografias com pilas, presumivelmente erectas ou enfiadamente explícitas, tinham ou não sido retiradas ou desviadas da dita exposição, e por quem. Uma das pilas em causa seria talvez esta, mas não há a certeza, porque Ribas não acompanhou as suas declarações com imagens das peças alegadamente censuradas, talvez para não ferir a sensibilidade dos deputados menores de idade. Estaremos perante um novo e gravíssimo caso de (auto)censura?

Ribas evidenciou nesta história sumamente ridícula a sua enorme presunção e o seu evidente autoritarismo. O director do museu era ele, o curador da exposição era também ele, por isso ninguém mais tinha de meter a pila, perdão, o bedelho na arrumação das peças nas salas de Serralves. Ribas é que sabe o que pode e deve ser exposto, e como, num museu público visitado por gente de todas as idades, porque viveu muitos anos nos states e até comissariou exposições em galerias de Nova Iorque. Além do mais, Ribas é capaz de falar durante horas sem dizer rigorosamente peva. Veja-se como o gajo debita este charabiá pretensioso e intragável numa simples entrevista. Leia-se, entre outras, a resposta hiperconfusa à singela pergunta “Como é que a política se insinua no mundo da arte, hoje em dia, e vice-versa?”

Ofendido com a administração da Fundação de Serralves sabe-se lá por que insondáveis razões, Ribas optou visivelmente por tentar juntar ao seu currículo a glória de se ter demitido em protesto contra uma “censura” ao sagrado Mapplethorpe. Quando se souber disto nos states, o seu prestígio pessoal vai crescer e florescer, espera ele. Sejam quais forem as conclusões da ociosa comissão parlamentar de Cultura da Assembleia da República, o Ribas vai explorar a imagem (falsa) de defensor da liberdade e de S. Mapplethorpe até ao fim dos seus dias. Que o ature quem puder e gostar.

Com os olhos em João Galamba

Aturar e demolir o Mesquita Nunes ou o Leitão Amaro nos “Frentes a frente” da SIC Notícias ou ripostar contra a argumentação javarda e incongruente da direita no Parlamento têm sido as especialidades políticas de João Galamba, o agora ex-deputado do PS nomeado secretário de Estado da Energia.  Especialidades exercidas com grande eficácia, diga-se, exceptuando uma ou outra precipitação. Galamba tem um discurso claro e bem fundamentado e é combativo, além de perceber de economia e finanças e de se preparar bem para os confrontos. Não sei se é mais à esquerda ou mais à direita no PS. Que é mais novo do que os outros, é. Mas, se for mais à esquerda, está mais do que bem posicionado no novo cargo para enfrentar o poderoso lóbi das empresas energéticas, ou não está?. Qual a crítica, então? A direita, sobretudo o PSD e o Correio da Manhã, já começou a campanha de tiro ao boneco. Ou porque não tem habilitações (??) para a área (Seguro Sanches tinha?), ou porque é demasiado à esquerda (e isso será mau quando se trata das energéticas?), ou ainda a derradeira e rainha das razões: a de que Galamba foi lançado na política por Sócrates. Mas também pode ser que seja o discreto piercing na orelha? Possivelmente é tão-só este o irritante. Não vão ter sorte. João Galamba já deve estar mergulhado nos dossiês que o esperam, pronto e preparado para o combate e para fazer um brilharete. Os bloquistas estarão de olhos atentos e gulosos nele, pensando num futuro governo, agora que já têm mais a noção do que se trata.

Baldaia’s effect

Filipe Santos CostaE António Costa conseguirá fazer a legislatura toda a fazer remodelações de emergência sem nunca fazer uma grande remodelação?

Paulo BaldaiaEra um disparate fazer agora uma grande remodelação... Acho que era um disparate, simplesmente. Tens dois ministros com dificuldades, que é o ministro da Educação e o ministro da Saúde, mas eles não têm responsabilidade sequer nas dificuldades que têm. É colectivo, é do primeiro-ministro, é do ministro das Finanças. Não tens mais ninguém. [...]

Acho que precisa de um ministro da Defesa com força política, de facto. Hoje ouvi o Ricardo Costa a dar o exemplo do que podia ter força política, que é o presidente do PS, Carlos César. Há uma outra hipótese que é pôr o ministro dos Negócios Estrangeiros a acumular com a Defesa. [...]

Ou é o Carlos César ou é difícil encontrar outra pessoa que não seja... [imperceptível]

Expresso da Meia Noite (nas vésperas da remodelação governamental)

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Paulo Baldaia é um dos mais reputados jornalistas portugueses, sendo especialista em política e dispondo de contínua presença na imprensa escrita, radiofónica e televisiva “de referência”. Não só ele como quem lhe tem pagado os salários acredita que, como especialista em jornalismo político, percebe, entende e até compreende o que se passa na política. La Palice que nos acuda. Tão conhecedor é desse fascinante e feérico universo que consegue servir aos leitores, ouvintes e telespectadores uma papinha para consumo facilitado pelas cachimónias ignaras e distraídas que preenchem as audiências. E é isso que anda a fazer, com gosto, há muito tempo.

Eis que foi apanhado a 250 km/h numa via onde a tabuleta indicava 30 e ainda havia lombas a cada 15 metros. A sua inteligência capotou, o seu discurso fanfarrão ficou todo torcido e amolgado, nada se aproveitando do acidente. O registo de café, de que acima se deixa amostra, faz a essência do comentário político ao nível do Baldaia e dos seus companheiros de função. Vale tudo porque não há qualquer consequência para a vozearia. Ao mesmo tempo, e para quem chega a director disto e daquilo, a tentação de vir a conseguir influenciar audiências, políticos e resultados eleitorais é inevitável, hipnótica, viciante. O dia-a-dia passa a incluir muitas noites de jantaradas e de copofonia com os colegas do ramo e com os colegas dos outros ramos e ramadas unidas pelo tronco disto que somos juntos, desde políticos a quem tenha algo a dizer sobre os políticos (e tanto que há para dizer dos políticos por outros jornalistas, por outros políticos, por polícias e por magistrados, né?). É muita informação junta, a qual provoca digestões impossíveis em tempo útil para quem tem de despachar parangonas e opiniões sem parar. Donde, a contínua actividade bolcista onde se cotam as simpatias e antipatias, taras e manias, em ordem a compor os exercícios de “comentário político”. Foi assim que o Baldaia conseguiu ser um dos mais fervorosos apoiantes de Cavaco, do PSD e da direita em geral quando aparecia no início do Fórum TSF para dar início à sessão ditando as suas preferências nos assuntos correntes, indo buscar o exemplo mais folclórico da sua agenda como “influenciador”. Apesar de certos fogachos em nome da decência no espaço público, a sua passagem pelo DN como director foi tão-só a confirmação do seu perfil alaranjado. Nada mais ficou que valha a pena recordar pela positiva (e muito ficou de negativo, especialmente em relação aos incêndios de 2017 e ao caso de Tancos).

Para quê perder tempo com o bom do Baldaia? Só para ilustrar, anedoticamente, a mediocridade do comentário político na sua generalidade. E o pior não é termos políticos a ocuparem espaços de comentário, pois nesses casos há transparência e utilidade. Ninguém poderá dizer que foi enganado pelo Marques Mendes, por exemplo, e o Marques Mendes poderá armar-se em Marcelo e capitalizar a notoriedade mediática em votos quando e para o que lhe apetecer. Nada mais justo porque puramente político. O pior é termos jornalistas mascarados de políticos que, ainda por cima e antes de tudo, não querem assumir responsabilidades políticas. Só lhes resta a bazófia e a intriga como veículos da sua energia mental e como alimento da sua infinda vaidade. E depois dá nisto que acima é citado, uma gargalhada hilariante perante a absoluta falta de acerto deste cromo da coisa face à realidade que estava ali ao virar da esquina.

Nesse mesmo programa, em frente ao Baldaia, sentava-se o Eduardo Dâmaso. Deste passarão da indústria da calúnia recebemos a informação de ter tido acesso a um certo documento, uma certa folheca, antes da classe política. Se alguém perder tempo a analisar essa passagem, vai descobrir o seu incontrolado prazer ao reclamar, em frente às câmaras, ter um poder exclusivo. Nem políticos, nem o restante maralhal da imprensa, consegue o que a Cofina consegue quando se trata dos crimes de violação do segredo de justiça e exploração difamante e caluniosa dessa e nessa actividade criminosa, é o subtexto da manifestação da sua elevadíssima auto-estima. Não era giro que um jornalista, e logo um desses especialistas em política, nos ajudasse a perceber, entender e compreender o poder fáctico e criminoso da Cofina? Pelo que vi, e por tudo o mais que conheço do seu trabalho, esse jornalista, a existir, não se chama Paulo Baldaia.

Os funcionários e os públicos

«É uma remodelação eleitoralista a par de um orçamento eleitoralista? Talvez, mas é preciso olhar o momento. Não creio que alguém esteja preparado para comparar o que conhecemos hoje e o que vai ser apresentado amanhã com o aumento de 2,9% que José Sócrates ofereceu aos funcionários públicos em 2009, numa altura em que o mundo colapsava à nossa volta.»


Paulo Tavares

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Tenho uma boa impressão do Paulo Tavares graças ao seu papel no “Bloco Central” da TSF ao longo de muitos e bons anos – e vou lutar desalmadamente para a manter tal a carência de jornalistas decentes em Portugal. Todavia, quando passou para o DN, achando que tinha de opinar sobre o que os outros andam a opinar, começou a borrar a pintura porque se tornou mais um a contribuir para o sectarismo e o berreiro. Isso surpreendeu-me, mesmo se o seu caso não é o mais chocante no grupo de jornalistas que transita entre a TSF e o DN. Surpreendeu-me porque não entendo o que leva alguém que parece não ter sido obrigado a ser jornalista para ganhar o pão a passar por mentiroso ou estúpido.

Estamos em Outubro de 2018. Este amigo vai para o teclado largar sentenças em modo displicente e soberbo sobre ministros que saem e que entram. Tudo bem, é lá com ele e com quem lhe paga. No final da prosa, recua 10 anos e tira Sócrates da cartola. Porquê, foda-se caralho? Por ser mentiroso? Por ser estúpido?

Em 2008, ano em que o Governo propôs esse aumento de 2,9% para os funcionários públicos, diz-nos este amigo que “o mundo colapsava à nossa volta“. Ai, colapsava? Era mesmo assim? Acontece que o Governo previa um défice de 2,2% para esse ano em que o rating da República portuguesa estava no máximo e a dívida pública era de 68% do PIB. Mais: com uma previsão de 2,5% para a inflação em 2009, o aumento dos funcionários públicos seria só de 0,4% face ao custo de vida. Função Pública essa que estava desde 2000 a perder poder de compra e que tinha visto esse mesmo Governo congelar as carreiras dos funcionários públicos logo após ter tomado posse em 2005. Se, porém, ao usar a imagem do mundo a colapsar o jornalista se refere ao Lehman Brothers e consequências internacionais da sua falência, será que ignora ter sido opção dos Governos afectados, a começar pelos EUA e UE, a urgente recapitalização da economia? Ou seja, a partir de Setembro de 2008 e até à crise grega em Janeiro de 2010, a estratégia europeia para impedir que uma recessão mundial se transformasse numa nova depressão mundial foi a de gastar dinheiro para manter os bancos, os empregos, a produção, as trocas comerciais, o nível de vida e a segurança de centenas de milhões de pessoas que tinham ficado na corda bamba.

Sim, o mundo colapsou à nossa volta. Bem verdade, pá. Só que não foi em 2009, muito menos por causa do aumento fajuto dos funcionários públicos. Foi a partir dos idos de Março de 2011. Foi por causa de certos funcionários de certos públicos.

Revolution through evolution

How Parenting Can Cause Antisocial Behaviors in Children
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Nice People Finish Last When It Comes to Money
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Discovery of first genetic variants associated with meaning in life
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World’s fastest camera freezes time at 10 trillion frames per second
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Even when presented with facts, supported by evidence, many people choose not to believe them
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Does More Education Stem Political Violence?
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Clues that suggest people are lying may be deceptive, study shows
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Continuar a lerRevolution through evolution

O que nos vale é ter acabado a impunidade

1 – inventona de belém, cavaco queixa-se que anda a ser espiado e o ministério público faz escutas ao sócras.
2 – cavaco faz permuta manhosa da vivenda mariani pela cena da coelha, 5 vezes mais área e qualidade superior, subavaliação à vista desarmada, papéis falsos, construção ilegal, etecetera & tal, ministério público investiga o freeporcos na base de uma denúncia anónima dum gajo do cds, que trabalhava no gabinete do santana lopes, em colaboração com agentes da judiciária.
3 – cavaco e filha embrulhados numa história de mais valias nunca vistas com acções do bpn, nunca justificou a compra e muito menos a venda, ministério público investiga um sucateiro que deu uma caixa de robalos ao vara.
4 – bes financia o genro do cavaco na compra do barracão atlântico, o banco faliu, não se sabe se pagou, se ficou a dever mas aparentemente aquilo é dele mais umas herdades que entretanto comprou. estranho para um gajo que só tinha credores à perna. ministério público investiga cartões de crédito dos ministros do governo sócras e guarda resultados na gaveta para melhores dias.
5 – falência fraudulenta do bpn, gang cavaco à solta, só o oliveira casca foi dentro mas por pouco tempo e ainda gozou com a justiça, ministério público preocupado com 20 perguntas que não fizeram ao sócras nos últimos 10 anos de investigações e fugas ao segredo de justiça.
6 – governo sócras muda localização do futuro aeroporto da ota para alcochete por pressão do cavaco, baseado em estudo pago pelo vanzelina, para os amigalhaços da primária do cavaco comprarem terrenos em alcochete com dinheiro emprestado pelo bpn. ministério público chamado a investigar sócras por negociatas com a elos e mais não sei quê relacionado com o troço do poceirão que foi cancelado pelo passos, negociata do sérginho com condições ruinosas para o estado.
7 – desapareceram uns milhões com a compra dos submarinos e apareceram vestígios no cds por intermédio do capelo rego. idem com uns pãesduros, mais umas broas com armamento e sobreiros do bes. investigações borregaram, tudo gente séria. ministério público investiga sócras por suspeita de receber bué de milhões do saco azul do ges.
8 – orlando figueira empresta dinheiro por baixo da mesa ao carlos alexandre e encaminha currículo do filho para a sonangol e é tudo normal. investigam-se cabras & cabritos.
9 – passos vende a pt à azeitice por uma broa e o ministério público resolve investigar sócras porque não vendeu ao belmiro.
10 – a corporação queria demitir o centeno por causa dumas entradas para a bola, mas como a coisa não tinha ponta por onde pegar, abortaram a coisa e meteram a bucha dos cartões de crédito dos secretários de estado do socras.
11 – rangel decide na operação marquês contra gosto da corporação, é investigado e buscas em direto na tv manhosa por uma cena que afinal ninguém ainda sabe o que é, mas que afinal pode não ter sido nada. dizem que havia um pacote com 10k euros na garagem.

poderia ficar aqui a noite inteira a enumerar exemplos da luta contra a corrupção e prisão de poderosos, mas seria fastidioso porque começam e acabam todos da mesma maneira: ai-é-então-espera-aí-que-já-comes.

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Oferta do nosso amigo os sucessos do ministério público

A chantagem deste chantagista explica tanta coisa

«"Nós não estamos a perceber bem qual é a lógica disto", começa por referir Manuel Ramos Soares. "Se nos querem empurrar para um momento de crispação e de conflito institucional entre os juízes e o poder político nos próximos anos, numa altura em que vão estar em julgamento processos muito importantes, nós achamos que é muito negativo e vamos resistir até ao último momento. Mas a ideia com que ficamos é que estão a querer empurrar-nos para isso", aponta o presidente da ASJP.

Questionado se os grandes processos em curso, como o da Operação Marquês, podem sair afetados, Manuel Ramos Soares diz que não. Ainda assim, fica a advertência: "Vamos ter em julgamento um conjunto de processos em que se põe no banco dos réus pessoas que têm ou tiveram responsabilidades políticas importantes. Era bom para o processo, para a imagem da justiça e para a perceção social que os nossos concidadãos têm sobre o trabalho dos políticos e dos juízes, que houvesse paz e tranquilidade. Era muito simples: bastava que se sentassem a falar de forma aberta e honesta".»


Juízes acusam grupo parlamentar do PS de falta de respeito

Tancos? A imprensa de referência (ahahahahah!) explica

Era uma vez um ministro da Defesa que qualificou a discriminação contra alunos no Colégio Militar por razões de orientação sexual, discriminação assumida publicamente pelo subdirector do estabelecimento de ensino, como “absolutamente inaceitável”, pedindo explicações e exigindo medidas concretas para evitar casos desses. Perante a ausência de medidas concretas, Azeredo Lopes exigiu a demissão do subdiretor – o que o então chefe do Exército, general Carlos Jerónimo, considerou uma intromissão abusiva na cadeia de comando militar e, por isso, demitiu-se. Estávamos em 2016, e a partir daí esse ministro da Defesa passou a sair à rua com alvos pintados nas costas, no peito e na cabeça. Os magníficos generais portugueses não iriam perdoar a afronta do civil armado aos cágados.

Em Maio de 2017, deu na veneta ao ministro da Defesa encomendar material para reforçar a segurança no paiol de Tancos, algo que os seus antecessores no cargo não fizeram, talvez por falta de tempo ou lembrança. Porém, este ministro da Defesa de que falamos não teve a presença de espírito para, concomitantemente, mudar as instalações do seu Ministério para Tancos, em ordem a ele próprio poder levantar os olhinhos, entre um papel e outro que tem de assinar, para ir vigiando a cerca por onde os meliantes ameaçavam entrar. Errou gravemente, pois alguém terá percebido que o ministro da Defesa não ia mesmo conseguir defender o perímetro do paiol de Tancos a partir da sua escrivaninha em Lisboa, pelo que fizeram o óbvio: gamaram o que quiseram e puderam antes que chegasse o tal material de segurança encomendado pelo tal ministro da Defesa.

Assim que a imprensa de referência (ahahahahah!) soube do episódio, de imediato exigiu a cabeça do ministro da Defesa. Porquê? Porque se a imprensa de referência (ahahahahah!) não servir para dar cabo de ministros da Defesa já marcados para abate pelos valentes generais do exemplar Exército português, então servirá para quê? Só para pagar aos directores-pavões e aos caluniadores profissionais que contrata para encher o chouriço? Pois. Entretanto, a rapaziada da Polícia Judiciária Militar organizou uma cegada com a rapaziada da GNR de Loulé e com um rapaz tímido que só pedia para o deixarem em paz, número artístico esse que vai entrar para a História. Nesse entusiasmo todo, alguém se lembrou que era muita fixe envolver o ministro da Defesa. Se não para a diversão na Chamusca, seguramente para o after party. Vai daí, foram falar com o chefe de gabinete do ministro ao tempo, o general Martins Pereira, e até lhe entregaram uma folha com uma história. Consta que esses valentes testemunharam um telefonema do general chefe de gabinete para o ministro que não estava no gabinete nessa memorável ocasião.

Estes são os factos conhecidos publicamente e a imprensa de referência (ahahahahah!) está em êxtase porque, garante, é desta que o ministro da Defesa vai pelos ares. E porquê? Porque se insinua à boca cheia que o ministro da Defesa mentiu ao negar ter tido conhecimento do memorando e de ilegalidades nele inscritas. O que, portanto, implica que o primeiro-ministro também mentiu, e logo na Assembleia da República. E se o primeiro-ministro mentiu e tem tido a cobertura do Presidente da República enquanto os cães ladram e tentam abocanhar um pedacinho do Governo, então o Chefe de Estado, que acumula com ser o Comandante Supremo das Forças Armadas, também nos está a tourear. É esta a tese da imprensa de referência (ahahahahah!).

Quanto à hipótese de os militares terem querido resolver a coisa só entre eles e, de caminho, terem aproveitado para queimar irremediavelmente o ministro da Defesa, isso já são ideias muito rebuscadas, completamente loucas, que a terem alguma veracidade teriam de ser primeiro validadas pela imprensa de referência (ahahahahah!). Fiquemo-nos pelo bom senso, sentido de Estado e respeito pela Lei que os factos conhecidos permitem constatar, então.

Eu contribuo imenso para a crise da imprensa diária

Regra única para ler jornais hoje em dia:

Olhar para as capas, ver se há alguma novidade; se sim, dizer “Está bem, abelhas” e, antes de seguir viagem, verificar se, por milagre, alguma notícia de há três dias reapareceu. Nesse caso, esperar mais outros três. Considerar o jornal lido

 

Ao contrário da instantaneidade das redes sociais e da rapidez de reacção e superficialidade que as caracteriza, os jornais (e revistas) deviam esperar entre três dias a uma semana, ou mais, até noticiarem um facto de que tenham tido conhecimento. Menos do que isso, é passaporte para a asneira e consequente perda de credibilidade. É  “infotainment”, com ênfase no “…tainment”. Começa a ser demais e já perdi a paciência. Sai uma notícia. Passados uns dias, afinal não é bem assim. Outras vezes, nem um pingo de verdade havia no que foi noticiado inicialmente. Pura e simplesmente falso. Muitas vezes, falou-se uma vez, não se falou mais. Fogo fátuo. Abafamento ou missão cumprida. Por isso, deixei de comprar e de assinar jornais. Excepção feita à “The Economist“, sempre rigorosa, bem escrita e informativa, mesmo que se não concorde com o que é dito, e a uns dois ou três jornais ingleses. Em Portugal (e não só), a cada novidade, acreditar é estupidez. Escrever sobre isso, é precipitado. É preciso que a notícia sofra o teste de resistência ao tempo, para lhe começar a dar alguma atenção e considerar que está ali alguma coisa séria e importante que convém aprofundar. Mas, a maior parte das vezes, grandes bombas são pólvora seca. Que ninguém deixa de mandar, no entanto. É um foguetório permanente de coisa nenhuma ou então de encomendas ou de armadilhas políticas. Para alguns jornais, as fontes são um “Mente-me, que eu quero”. Ganhei juízo e não pago mais para isso.