Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Os 4 valentões contra o sabujinho

JMTIsso é uma outra questão muito interessante, a diferença entre ler e ouvir... é radicalmente diferente...

[…]

RAPA certa altura, Carlos Santos Silva, que é uma pessoa, portanto digamos, que fala, portanto digamos, desta forma, portanto digamos, que é muito, portanto digamos, irritante, portanto digamos, estar a ouvi-lo, portanto digamos...

JMTEle não é assim... Tu não consegues ser suficientemente sabujinho na tua voz, porque é muito impressionante ouvir o Carlos Silva a falar, porque aquilo é claramente uma posição de subserviência.

Governo Sombra, 20 de Março de 2016

__

Será que o João Miguel Tavares, mais de um mês depois desta valentia, já teve ocasião de se cruzar com o Carlos Santos Silva e dizer-lhe na cara que acha que ele é um sabujo? Ou um sabujinho, diminutivo usado que só pretende aumentar o desprezo no insulto televisionado? Calhando ainda não se terem encontrado, será que o João Miguel Tavares pretende, na primeira oportunidade, repetir presencialmente o que dele disse à distância? Saber disso tem interesse mediático, jornalístico, político e cívico. Tem até interesse cultural, sociológico, psicológico, antropológico e histórico. Arrisca fazer o pleno epistémico no campo das Ciências Humanas e Sociais, tal é a dimensão do que está em causa.

Neste programa do Governo Sombra, como noutros mas neste de forma obscena e maníaca, fez-se a defesa e promoção de crimes vários. Os protagonistas celebraram e exploraram a divulgação ilegal de escutas obtidas por autoridades policiais e judiciais, cuja publicação é criminosa. Todos racionalizaram essa opção, unindo-se à volta do seguinte argumento: como estamos perante arguidos e terceiros criminosos, independentemente do que a Justiça venha a decidir nos processos em curso, é lícito vexar, difamar e caluniar essas pessoas a partir de captações da sua privacidade e de situações onde surgem fragilizadas no confronto com magistrados. E tão legítima aparece essa desbunda que inclusive se pode fazer dela um espectáculo e cobrar pela actuação. A TVI e a TSF pagaram ao Ricardo Araújo Pereira, ao Pedro Mexia e ao João Miguel Tavares, e ainda ao Carlos Vaz Marques, para eles criarem ou reforçarem na opinião pública a percepção de que alguns cidadãos, actualmente inocentes, são culpados de crimes diversos e gravíssimos. Com base em quê? Com base na cumplicidade com os criminosos que divulgaram excertos de materiais na posse e responsabilidade da Justiça portuguesa.

Esta podia ser a história toda, mas infelizmente não é. Quando confrontamos as certezas vocalizadas a respeito da culpabilidade deste e daquele com o conteúdo objectivo do que foi lançado no espaço público não surgem quaisquer nexos evidentes de actividade criminosa. Estão tão ausentes que o achincalho foi feito em cima da percepção da culpa que os maneirismos e idiossincrasias dos diálogos manifestavam. Por exemplo, estas vedetas da TV garantiram que seria impossível alguém ter uma relação com outro alguém onde o primeiro emprestasse dinheiro e um apartamento ao segundo. E mais garantiram que seria impossível alguém ter emprestado um apartamento a outrem e estar a ouvir desse pessoa pedidos para que a ocupação ocorresse de acordo com preferências e necessidades da parte que ia habitar o espaço. Qual será o critério que torna um diálogo nesses moldes em prova de qualquer crime? Seja lá ele qual for, viver num país onde a Justiça se reja por ele já não corresponde a ser cidadão de um Estado de direito democrático – porque estamos no reino dos justiceiros, dos pulhas e da cegueira da turbamulta. Mesmo que tal apareça aos investigadores como um indício incontornável, vai sem discussão, para nossa segurança nenhum juiz deveria tomá-lo como prova de posse apenas por ter existido esse diálogo. E se nenhum juiz justo o faria, com que direito uma televisão e uma rádio, consideradas referência em Portugal, o fazem? Com que direito e a partir de que concepção do Direito?

Ricardo Araújo Pereira e João Miguel Tavares, apoiados pelos dois restantes comparsas, filaram o dente em Carlos Santos Silva. Usaram um trecho onde este aparece a expressar-se num estado de evidente pressão emocional e falaram dessa pessoa como se a conhecessem de ginjeira. Como se soubessem como é que ela se expressa na normalidade. Como se tivessem tido acesso à sua ficha clínica, à sua biografia em vídeo e fossem especialistas a respeito da sua credibilidade vocal. Falaram dele para o humilhar, não o tendo avisado que iam fazê-lo nem lhe dando nenhuma possibilidade de defesa. Foram milícia e tribunal popular. Uns bravos, pagos para se sentarem em frente ao público e exibirem o que de pior conhecemos no cardápio da natureza humana – no caso, a mercantilização do ódio. Faço votos para que nunca sejam vítimas da violência que espalham soberbos e nada sabujos.

Fique ainda registado o prazer erótico do João Miguel Tavares por ter tido acesso ao registo áudio das declarações dos arguidos e terceiros apanhados em escutas. Quem assim se manifesta publicamente também gostaria de ter acesso ao registo das imagens, pois a lógica é igual. Se ele pudesse ver as expressões faciais de Sócrates e Carlos Santos Silva ao serem interrogados pelos procuradores ou juízes, mais e melhor informação seria recolhida por esta sinistra figura da nossa comunicação social para despachar em programas de televisão e textos em jornais. Só que a lógica deste valente não se detém na observação de documentos audiovisuais, ela pede – e pelas mesmíssimas razões invocadas para festejar o crime da publicação de escutas e interrogatórios – que se esteja presente na mesma sala onde se faça o questionário, pois só assim se poderá literalmente cheirar a presa e observar como ela se contorce, sua e guincha, encharcada em culpa e medo. Finalmente, pede a lógica, nem o estar presente na sala chegará. Só se o João Miguel Tavares pudesse escolher as perguntas a fazer é que descansaria – tal como há dias anunciou num artigo, mutatis mutandis. Descansaria um bocadinho, pois calhando não gostar das respostas partiria com as suas manápulas e alguma ferramenta para o apuro supremo da sua lógica imparável na procura da verdade. Não era, pá?

Itália vs. Alemanha (antes fosse futebol)

Um artigo do Guardian que vale a pena ler. Começa assim:

 

«German chancellor Angela Merkel is widely credited with finally answering Henry Kissinger’s famous question about the Western alliance: “What is the phone number for Europe?” But if Europe’s phone number has a German dialling code, it goes through to an automated answer: “Nein zu Allem.” »

(Traduzindo livremente – Angela Merkel veio finalmente permitir responder à famosa pergunta de Henry Kissinger sobre a aliança ocidental: “Que número se liga para falar com a Europa?” Mas, se esse número tem o indicativo da Alemanha, também conduz a um atendedor automático: “Não a tudo”).

E continua:

Deste «Não a tudo» se queixa precisamente Mario Draghi.

«This phrase – “No to everything” – is how Mario Draghi, the European Central Bank president, recently described the standard German response to all economic initiatives aimed at strengthening Europe. A classic case was Merkel’s veto of a proposal by Italian prime minister Matteo Renzi to fund refugee programmes in Europe, North Africa, and Turkey through an issue of EU bonds, an efficient and low-cost idea also advanced by leading financiers such as George Soros.

Merkel’s high-handed refusal even to consider broader European interests if these threaten her domestic popularity has become a recurring nightmare for other EU leaders. This refusal underpins not only her economic and immigration policies, but also her bullying of Greece, her support for coal subsidies, her backing of German carmakers over diesel emissions, her kowtowing to Turkey on press freedom, and her mismanagement of the Minsk agreement in Ukraine. In short, Merkel has done more to damage the EU than any living politician, while constantly proclaiming her passion for “the European project”.»

Deixo-vos com a leitura do restante artigo (basta clicar lá atrás), que não é muito extenso. A Itália de Matteo Renzi é o destaque, pela positiva, mas é o pretexto para falar da Europa. Os tempos mudam e António Costa não está só.

 

Não dei por ninguém se ter «posto ao fresco»

«Pôr-se ao fresco» é uma expressão que significa fugir, não querer saber, livrar-se de responsabilidades. Segundo Passos Coelho, o PS fugiu, não quis saber das suas responsabilidades, em 2011. Se estão incrédulos, eis as suas declarações, ainda ontem:

Haverá um dia em que o Governo vai ter de corrigir [as políticas que está a empreender] e espero que não se ponha ao fresco, como em 2011. Deve ser este Governo e a sua maioria a corrigir os erros que estão a cometer porque tem essa responsabilidade. Espero que a maioria aprove os Orçamentos do Estado de 2017 e 2018. Não contem para isso connosco e não vale a pena virem depois com crises políticas“, afirmou Pedro Passos Coelho.

Ora, pode ter-me escapado alguma coisa do certamente magnífico discurso, todo ele lógica, ontem proferido, mas gostaria muito de saber em que medida o governo caído em 2011 se pôs ao fresco. Do que me lembro, assumindo o poder depois de eleições ganhas por recurso à mentira e às falsas promessas (deliberadas) de cortes exclusivos nas gorduras do Estado, o PSD, liderado por Passos, apareceu, ele sim, descaradamente fresco que nem uma alface, depois de ter deitado para o lixo um acordo arduamente negociado com o BCE e a Comissão Europeia, que teria poupado Portugal a um penoso resgate nos moldes da Grécia (estávamos em plena crise financeira internacional, com a Europa central transformada em cobradora súbita dos até então estimados clientes). Para quem se tinha «posto ao fresco», o governo anterior à coligação tinha tido o enorme sentido de responsabilidade de, face à iminência de um terceiro resgate europeu que a ninguém já interessava, ter defendido o interesse nacional. Pôs-se ao fresco, como?

Foi esta frescura de líder que, uma vez no poder, se propôs acabar com os preguiçosos e os piegas que tinham vivido acima das suas possibilidades, para ser não mais do que o agente dos credores aqui na província do sudoeste, semear a razia e a pobreza e provocar a debandada geral. Para isso, entregou as decisões mais importantes ao ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e aconselhou-se com António Borges, um liberal radical vindo da Goldman Sachs (onde fora Managing Director and International Adviser). Antes se tivesse, ele, posto ao fresco!

Vir dizer agora, a propósito de ele próprio «andar ao papéis» (para manter um registo que lhe agrada) com a sintonia de toda a esquerda e o comportamento tranquilo dos mercados, que o governo anterior ao seu «se pôs ao fresco» é, como dizer, armar uma construção sem alicerces em volta de uma expressão que considerou engraçada. É uma parvoeirada política, embora na linha do corte nas gorduras em 2011. Se a direita ainda ouve esta criatura, não devia. Está a ser tão imbecil como ela.

«E não vale a pena virem depois com crises políticas», diz ainda Passos, como se não bastasse de asneiras. Mas a que estará este crânio a referir-se? Quem provocou uma crise política em 2011 só porque Marco António o ameaçou de que ou provocava eleições no país ou perdia a liderança do partido?

Como eu disse, se ainda restam algumas cabeças inteligentes na direita, façam-vos o favor de correr com esta anedota. Já não sabe o que diz. Reformem-se.

Passos queixa-se de Marcelo

Marcelo não era o homem que o laranjal de serviço queria em Belém. Não tiveram outro remédio senão apoiá-lo, porque era certo que ele ia ganhar as eleições. Entretanto, os piores receios de Passos parecem estar a realizar-se. Marcelo não dá sinais de querer dissolver o parlamento nem, pelo menos por enquanto, de encarar essa possibilidade. Como se isso não bastasse, o presidente apoiado pela direita anda por aí todo contente, “irradia felicidade” e não pára de mostrar “grande apoio” ao governo (Passos dixit).

De facto, o contraste entre o actual e o anterior inquilino de Belém é abismal. Não só quanto a popularidade, mas sobretudo quanto ao sentido com que a função presidencial é e foi entendida por um e por outro. O anterior presidente, de má memória, foi um sectário que usou os poderes presidenciais como uma moca contra a esquerda, quer esta estivesse no poder quer na oposição.

Sabe-se que Marcelo não é nenhum menino de coro. O seu maquiavelismo ingénito foi abundantemente revelado na função de jornalista do Expresso. Para além dos golpes jornalísticos, os golpes propriamente políticos também figuram no seu cardápio. Há muitos anos, Marcelo defendeu um referendo, quando a Constituição ainda o não contemplava, para mudar a Constituição de acordo com os interesses da direita. Era aquilo a que então se chamava o “golpe constitucional”. Este e outros precedentes não podem deixar ninguém à esquerda descansado e confiante. Atá agora, porém, o governo do PS apoiado pela restante esquerda não tem qualquer razão para se queixar do PR.

O descontentamento de Passos relativamente à actuação de Marcelo está bem patente na entrevista que dá hoje ao Sol. Uma certa desorientação mental também. A dada altura, depois de se queixar – o sentido é esse – que o PR “irradia felicidade”, Passos afirma isto:

“O PR tem-se esforçado por duas coisas. Primeiro, por mostrar uma grande cooperação e um grande apoio ao Governo, o que é compreensível, atendendo a que a sua extracção política não tem nada que ver com a maioria que suporta o Governo. Por outro lado, tem a preocupação de suscitar entre todas as forças políticas, uma discussão mais aberta que permita consensos” (sublinhado meu).

Temos pois que, segundo o líder da oposição, a “grande cooperação” e o “grande apoio” do PR ao governo se compreenderiam porque Marcelo politicamente não tem nada que ver com maioria que suporta o governo. O falso silogismo contido nesta afirmação só prova uma coisa, é que Passos acha a actuação de Marcelo totalmente incompreensível.

Cineterapia

LISA imac desenho
Steve Jobs_Danny Boyle

Teatro filmado. O texto reina supremo. Diálogos densos, intensos, imensos. Por aqui, Sorkin.

O olhar preso no palco, do princípio ao fim. O que não acontece no palco não existe. O palco como protagonista. Por aqui, Boyle.

Steve Jobs, o filho rejeitado duas vezes que rejeita duas mil vezes a filha. Lisa Brennan, a filha que começou por ser uma Local Integrated Software Architecture antes de ser um iMac. O pai anuncia-lhe que virá a ser um iPod. E depois leva-a para o palco.

Três actos, duas tragédias e uma comédia. No final, vence o amor. Antes, venceu o narcisismo. O narcisismo, ensina este filme, só é bera quando não chega a ser grande o suficiente. O suficiente para conseguir aprender consigo próprio.

É bela a lição. Qualquer semelhança com a realidade, porém, será uma feliz coincidência.

Público, acorda, o Relvas já não é ministro!

O Público não respondeu a Passos. Deixou, sem largar um ai, que o presidente do PSD, ex-primeiro-ministro e chefe da oposição carimbasse o jornal como antidemocrático. Isto em cima do 25 de Abril. E fez mais: fez censura. As declarações de Passos onde atacava o jornal não foram noticiadas – se o foram, peço que alguém me corrija – o jornal privou os seus leitores de uma muito relevante intervenção de um importantíssimo político português a respeito de um importantíssimo jornal português. Se ainda estivermos no território da “imprensa de referência”, ou tão-só no da mera imprensa, o mundo surge como um local cada vez mais estranho. Que se passará com aquela gente, dos directores aos accionistas, passando pelos jornalistas? Há aqui uma coerência, contudo. É que a decisão de publicar um editorial onde se manda calar Sócrates é igualmente estrambólica, pelo que tudo acaba por fazer sentido. O sentido da decadência.

Quando nesse editorial se alude aos “fiéis seguidores” de Sócrates, ainda por cima para os reduzir a uma projecção deturpada e raivosa da pessoa que escreveu o texto, de quem se está a falar? Quem é que defende Sócrates no espaço público? Serão os amigos que o visitaram na cadeia e durante a prisão domiciliária? Será o movimento cívico “José Sócrates, sempre”, algo que qualquer caloiro de um curso de Relações Públicas sabe não passar de mais lenha para o auto-de-fé em curso? É que não se vê mais ninguém de ninguém. Por esta lógica, para o Público, Soares será um fiel seguidor de Sócrates. E ainda Guterres, o qual foi duas vezes a Évora e uma vez à residência-prisão, pelo menos. Corremos o risco, calhando ser ele o próximo secretário-geral da ONU, de aterrarem capacetes azuis na Portela para virem proteger o seu ídolo.

E quem serão os “arqui-inimigos” de Sócrates, a que o jornal igualmente alude? Esta passagem é a mais grave dentro do disparate geral da peça. É grave porque, e mais uma vez, não se nomeiam responsáveis. Porém, ao se qualificarem como inimigos, está-se concomitantemente a descrever uma situação em que há abusos. Os inimigos não são adversários. Os adversários obedecem a um conjunto mínimo de regras. Os inimigos apenas obedecem à pulsão para destruir o seu alvo. Logo, de quem se está a falar? De partidos? De órgãos de comunicação social? De agentes de Justiça, incluindo magistrados? De tudo um pouco, fora o resto? De acordo com o Público, os inimigos de Sócrates aproveitam as suas declarações para o atacarem. Esta é uma pista, mas a qual não chega para obter uma conclusão clara, inquestionável. Este hábito de se fazer jornalismo político através de expressões vagas ou cifradas é, de facto, um sintoma de fragilidade democrática. O resultado é uma gosma escarrada num editorial, pela qual ficamos a saber que para essa entidade mediática onde supostamente vigora um qualquer código deontológico da profissão de jornalista é indiferente que Sócrates tenha inimigos. É lá uma coisa dele e ele bem merece todo o mal que lhe fazem, o cabrão. Estado de direito degradado e violado, poderes fácticos impunes e uma questão de regime que se adensa, nada disso interessa ao jornal. O Público não tem uma ideia formada acerca das indecências e crimes que os inimigos de Sócrates têm cometido, e vão continuar a cometer, ao longo dos anos. O Público apenas está interessado em que Sócrates fique caladinho e apareça no tribunal de cabeça baixa para ouvir a sentença.

Miguel Relvas foi o par sem o qual Passos não teria chegado ao topo da cadeia alimentar no PSD. O seu trajecto em comum é um mimo de técnica e de forma. Em 2012, Relvas, então ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, fez chantagem sobre a então jornalista do Público Maria José Oliveira por causa das perguntas que esta lhe tinha enviado a respeito das declarações do ministro no Parlamento relativas à sua relação com o espião Jorge Silva Carvalho. Nessa audição na Comissão de Assuntos Constitucionais, Relvas mentiu. Já não me lembro se na ocasião o PSD pediu ao Ministério Público para investigar, posto que mentir numa comissão parlamentar é crime, ou se o laranjal apenas incomoda as autoridades a propósito de socialistas. Seja como for, recordo este episódio para tentar encontrar uma explicação para a atitude obnóxia do Público para com Passos. Vai na volta, andam tão focados no que sai da boca de Sócrates que talvez pensem que o Relvas ainda é ministro.

Revolution through evolution

Has Virginity Lost Its Virtue? Kinsey Study Finds Adults Who Wait to Have Sex Are Stigmatized
.
Researchers can identify you by your brain waves with 100 percent accuracy
.
Vocal signals reveal intent to dominate or submit, study finds
.
Complex ideas can enter consciousness automatically
.
Can positive memories help treat mental health problems?
.
Senior adults can see health benefits from dog ownership
.
Greenness Around Homes Linked to Lower Mortality
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Neste 25 de abril, a falácia das «reformas estruturais» bem abordada

O 25 de abril é sempre ocasião para falar de trabalho, trabalhadores, patrões, sindicatos, reforma agrária, lutas laborais locais e internacionais e outras questões importantes, muito mais importantes do que aquilo que os chavões já gastos, de tão repetidos, dos comunistas portugueses nos fazem crer. O monopólio que têm tido destas palavras quase as esvazia de significado. No entanto, o trabalho, a qualidade do trabalho, a capacidade de trabalho, a falta de trabalho, a luta pelo trabalho, a exploração do trabalho, os contratos de trabalho são o que de mais fundamental existe no mundo para o progresso, o bem estar e a sobrevivência dos humanos.

 

Sugiro, pois, a leitura de um simples artigo de Wolfgang Münchau, hoje publicado no DN, sobre a globalização e o trabalho no Ocidente. Deixo aqui um destaque, mas conviria ler tudo.

 

[…]Em grande parte da Europa, a combinação da globalização e dos avanços tecnológicos destruiu a antiga classe trabalhadora e prejudica agora os empregos qualificados da classe média baixa. Portanto, a insurreição dos eleitores não é chocante nem irracional. Por que razão saudariam os eleitores franceses as reformas do mercado de trabalho, se isso pode resultar na perda dos seus empregos atuais, sem esperança de conseguirem outros?

Algumas reformas funcionaram, mas perguntemo-nos porquê. As aclamadas reformas do mercado de trabalho na Alemanha, em 2003, foram bem-sucedidas no curto prazo porque aumentaram a competitividade dos custos do país através de salários mais baixos em relação a outros países desenvolvidos. As reformas produziram um estado de quase pleno emprego só porque nenhum outro país fez o mesmo. Se outros se tivessem seguido, não teria havido nenhum ganho concreto.

As reformas tiveram uma grande desvantagem. Elas reduziram os preços relativos na Alemanha e impulsionaram as exportações, gerando no entanto saídas maciças de poupanças, a causa profunda dos desequilíbrios que levaram à crise da zona euro. Reformas como essas dificilmente poderão ser a receita para os países desenvolvidos resolverem o problema da globalização. […]

[…] A Finlândia lidera todos os rankings de competitividade, mas a economia é um caso bicudo de não recuperação e tem um forte partido populista. O impacto económico das reformas é geralmente mais subtil do que os seus defensores admitem. E não há nenhuma ligação direta entre as reformas e o apoio aos partidos políticos estabelecidos. […]

Hoje é 25 de abril. A informação é essencial à democracia. Um grande viva à liberdade e ao fim do obscurantismo e da beatice (Salazar era solteiro, não copulava, só lia livros de santos e tinha um genuflexório no escritório).

“Sr. Doutor Passos Coelho, é para arquivar?”

Depois das declarações altamente elaboradas (para o que é costume) de Passos Coelho sobre Sócrates e a comunicação social, o Ministério Público deverá andar a estas horas a coçar a cabeça, sem saber o que fazer. Bem, a coçar a cabeça já andava, mas por outros motivos.

Eis as declarações:

O que terá acontecido na sociedade portuguesa para que um jornal de referência faça um editorial a mandar calar um político, quando muito tolerando que ele se possa defender da justiça na comunicação social? Deveria ser ao contrário, ele deveria defender-se da justiça na justiça e recorrer à comunicação social e ao público em geral para confrontar as suas ideias”, pois “não ficou diminuído de as ter”, disse.

Fonte: DN

Temos então que, para este traste, Costa cria as condições para a asfixia democrática, como dizia o outro. Se se estão a rir, estão a  rir bem. É que o «asfixiado» é, neste caso, o homem contra o qual o PSD apontou todos os canhões do ódio de que dispunha no seu arsenal, envenenando a sociedade portuguesa a ponto de o Correio da Manhã, que «interpreta» o sentimento público, o começar a julgar feroz e impunemente, em criminosa promiscuidade com o MP, na tentativa de o destruir de vez. Mas isso era dantes. Agora, já chega.

O simples facto de Sócrates ter dito, em entrevista, que não chefiaria um governo se tivesse perdido as eleições foi a luzinha que o PSD avistou ao fundo do túnel. Mesmo sabendo nós que tal fórmula governativa não aconteceria principalmente porque o relacionamento de Sócrates com a esquerda radical e os comunistas sempre andou pela hora da morte (pois a urgência de correr com a matilha Passos & Companhia estaria lá), tal foi o bastante para o PSD, que andava aos papéis com a consolidação do entendimento à esquerda, a que chamou «geringonça» numa tentativa de achincalho, sem sucesso, desatar a defender a liberdade de expressão de Sócrates e até, pasme-se, o seu direito a defender-se perante a justiça (que o não acusa, é um facto) e não na comunicação social. Vale tudo, senhores! O post do Valupi foi certeiríssimo. Será que, só para derrubar António Costa e retomarem o poder, iremos assistir ao PSD a exigir que o Ministério Público acuse ou arquive de uma vez por todas o processo contra Sócrates?

Como não há de andar o Ministério Público, totalmente endrominado pelas estratégias políticas mais sórdidas da direita? Se anda mal, não tenho pena. Se anda bem, isso prova muita coisa e o desfecho não tem graça. O grau zero da política e o grau máximo da falta de vergonha é isto.

O vice-rei dos sonsos é o sultão dos pândegos

Soltam-se hilariantes gargalhadas na leitura desta notícia:

Passos “espantado” com jornal que mandou calar Sócrates

A latósia do fulano não conhece limites. Fulano que em 2010 promovia o seguinte sintoma de “democracia“:

«Quem impõe tantos sacrifícios às pessoas e não cumpre, merece ou não merece ser responsabilizado civil e criminalmente pelos seus actos?

Se nós temos um Orçamento e não o cumprimos, se dissemos que a despesa devia ser de 100 e ela foi de 300, aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa também têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus atos e pelas suas acções

Ou seja, caso tivesse meio bosão de coerência, já tinha ido entregar-se à bófia há seis meses. Em vez disso, cavalgou a onda populista contra os políticos e explorou as consequências económicas e sociais das crises internacionais de forma cínica e traidora, cujo epílogo foi o chumbo do PEC IV e a torrente de mentiras com que embrulhou esse golpe fatal no País.

E fulano que na campanha para as legislativas de 2011 estava rodeado dos seguintes cultores do “aprofundamento da nossa democracia e de respeito pela liberdade“: Ferreira Leite, que pediu que expulsassem Sócrates da política mesmo que perdesse as eleições de modo a poder ficar descansada, Catroga, que comparou o então primeiro-ministro e secretário-geral do PS a Hitler, Morais Sarmento, que o comparou a Saddam, Luís Arnaut, que o comparou ao Drácula, e Relvas, que avisou os filhos de Sócrates, e parentes em geral, para a vantagem em passarem a negar qualquer tipo de relação sanguínea com aquele monstro. Passos ouviu, calou e gozou o prato. Era o tempo em que o insulto se devia sobrepor à racionalidade. Ou melhor, era o tempo em que a racionalidade impelia ao insulto. O tempo do regabofe e das malabarices, como mais tarde viria a carimbar com a sua classe invulgar.

Porém, em matéria de gargalhadas à conta do laranjal a melhor piada está noutra notícia:

Qual é a estratégia do PSD? É fingir que não tem estratégia

A indigência política, quando as suas consequências apenas afectam quem nos trata como gado para abate, é a mais alta forma de comédia.

Castelhano, a língua de Camões

O Fernando Venâncio honrou-nos com a sua presença durante dois anos, de 2006 a 2008. E em boa parte a sobrevivência deste blogue a ele se deve, pois ficou por cá aquando da grande debandada da maior parte dos fundadores e autores ocorrida em meados de 2006, ainda não se tinha sequer completado um ano de existência. Também por ele vieram aqui escrever Daniel de Sá, Jorge Carvalheira, José do Carmo Francisco e Soledade Martinho Costa, cada um marcando fases e aspectos desta coisa bizarra e periclitante chamada blogue colectivo.

As diferentes metamorfoses ocorridas sob a égide Aspirina B ao longo de 10 anos dão a ver, para quem delas tiver memória, conteúdos e estilos estupendamente diversos. Seres de raças diferentes calhando serem postos lado a lado. O resultado de este ser um barco à deriva, feliz da vida por não ter um mapa a impedir as surpresas da cósmica sorte. O destino distante ou próximo, todavia, será ir ao fundo, como convém num conto de aventuras.

Pois o nosso Fernando reapareceu na ribalta mediática graças a uma investigação que ficará para a História: O português como língua de Camões é um mito

Abençoada iconoclastia do desassombro.

Nunca te cales, Público

Em 2007, Juan Carlos perguntou a Hugo Chávez: “Porque não te calas?”. Hoje, perguntamos o mesmo a Sócrates, com um asterisco: porque não limita a intervenção na esfera pública ao seu caso judicial? Ganhávamos todos. Os seus fiéis seguidores (que não o viam neste papel artificial e desacreditado), os seus arqui-inimigos (que não ganhavam munições para o atacar) e sobretudo todos os portugueses que, simplesmente, gostavam que Sócrates aceitasse que este não é o momento para fazer de conta que o Sócrates de hoje é o Sócrates de ontem. Isto não é condenar antes de tempo. Nem é exigir uma auto-reclusão, como se um arguido tivesse de se auto-congelar no tempo. Isto é pedir bom senso. Nestas entrevistas aparentemente banais, não há nada de banal. E todos notamos.

EDITORIAL – Cala-te, Sócrates

__

Este editorial é uma peça deliciosa da imprensa portuguesa. Começa por não se saber do que é que se está a falar. A autoria agarra-se aos termos “cerimónia”, “pudor” e “bom senso” como se eles fossem critérios objectivos, unívocos, consensuais, assumindo a lógica moralista como legitimação para o ataque. O único resultado de tal recurso é a evidência de estarmos perante um clássico exercício ad hominem. Não se discutem as ideias verbalizadas por Sócrates, apela-se é ao seu silenciamento político com o supino topete de se convocarem “todos os portugueses” para fazerem coro na pateada.

Depois, temos a tipologia do editorial, que neste jornal não aparece assinado pelo escriba. Esta é a opção que prefiro, e será imbecil ver nisso qualquer anonimato. Na verdade, quem assina os editoriais não assinados é o próprio Público. Compare-se com os exemplos do DN e do Expresso, por exemplo. No primeiro caso, o editorial confunde-se com o estatuto dos restantes artigos de opinião, não passando de um formato ao serviço do destaque individual e abdicando de ser uma tomada de posição colectiva do corpo redactorial, da direcção ou da instituição. No segundo caso, os editoriais deram lugar ao editorialista. As opiniões do Ricardo Costa, antes, e do Pedro Santos Guerreiro, antes e agora, são omnipresentes, diárias, cultivando-se um vedetismo que se acredita ser um produto. Recorrem ao carimbo “editorial” geralmente para trato de questões institucionais ou para eventos extraordinários (refiro-me às edições digitais). No Público reina a velha e salubre escola de conferir ao jornal um papel que transcende a soma das suas partes e que reclama um papel político como órgão de imprensa. Para o que aqui nos interessa, tal leva a um divertido jogo ou uma amistosa caçada a respeito da descoberta de quem possa ter teclado o disparatado texto em causa calhando não ter sido Bárbara Reis. Aceitam-se palpites.

Por fim, é delicioso verificar que há quem consiga, no topo do que se considera “jornalismo de qualidade”, vir botar faladura sobre Sócrates como se ele não fosse, desde 2004, o mais importante político no activo, seja como governante, ex-governante e alvo sistemático da maior campanha de assassinato de carácter que alguma vez aconteceu em Portugal. Quando PSD, CDS, um primeiro-ministro, seus ministros, seus secretários de Estado e a turbamulta que os acompanha na vozearia passaram anos a trazerem diariamente o nome de Sócrates, ou a sua memória, para o combate político, o Público também os mandou calar? E quando ainda o fazem e farão, agora na oposição, o Público manda-os calar? Quando vários órgãos de comunicação social fazem de Sócrates o seu tema principal e o perseguem obsessivamente, a si e a qualquer um da sua esfera de relações políticas ou privadas assim tenham oportunidade para isso, o Público já os mandou ou tenciona mandar calar? Como é que o Público chegou à conclusão de que os portugueses todos, todinhos, preferem não conhecer as opiniões de Sócrates a respeito de assuntos da actualidade política e social? Acaso lá pelo Público ainda não se deram conta do que está em causa quando a Justiça portuguesa comete crimes sucessivos para alimentar a perseguição mediática e política a Sócrates e, por extensão, ao PS? Não estaria na altura de o Público pedir o contrário, que finalmente alguém com autoridade erga a voz contra o que tem acontecido na “Operação Marquês” em matéria de conluio criminoso entre agentes de Justiça e jornalistas, e que vai ficar impune? Será o Estado de direito, para o Público, menos importante do que os humores matinais ou nocturnos de quem resolveu escrevinhar aquela cagada?

Que raio fará o «democrática» junto à esclerose?

Paulo Rangel representa, para mim, a direita alergénia (vou manter o vocabulário médico) da nossa praça. Ouvi-lo ou lê-lo pode causar-me urticária, menos mal quando é apenas impaciência. De qualquer maneira, é sempre de evitar. Não acrescenta nada de bom à nossa vida coletiva. Perdeu uma vez as eleições para líder do PSD, contra Passos Coelho, talvez por excesso de estridência e falta de consistência (não é que Passos a tivesse), eles lá saberão, mas, premiado com o Parlamento Europeu, reciclou-se de bom grado em mata-mouros. É engraçado, porque, ao mesmo tempo, também é uma espécie de Dona Albertina de barba. E é ainda uma espécie de Nuno Melo do PSD. Não na argumentação ao estilo «juridiquês», a lembrar traça de compêndios de direito e a tender para o pesado, que Melo, mais play-boy, não consegue usar, mas no estilo trauliteiro, algo imaturo, exibido nas confrontos políticos. Basta vê-lo no programa Prova dos Nove. Pode até começar em jeito «racional», mas depressa regateia, arremeda, aldraba, mete o turbo e não se cala. Ouve o Pedro Silva Pereira como quem ouve o papá, a quem reconhece razão, mas logo se torna «respondão», porque tem de ser. Muito a custo a Constança o acalma.

Depois de, há uns anos, desvairado com Sócrates e pensando interpretar o espírito do PSD, ter inventado a «asfixia» democrática (ou seria a claustrofobia?), vem agora com a «esclerose democrática» (ver artigo de opinião, hoje, no Público). Parece que, para não ser acusado de amante ou saudosista do antigo regime – anti-democrático, como sabemos – coisa que o seu aspeto e postura facilitariam, ou, sabe-se lá, para  ninguém pensar que está a mandar os opositores literalmente para a cova com maleitas graves, tem o cuidado de apelidar de «democráticas» as patologias que diagnostica nos socialistas. Assim, a asfixia e a esclerose são coisas más, mas sempre democráticas, atenção.

Excerto em causa, para quem não consegue aceder ao Público:

“Ainda antes de claudicar por razões políticas, o costismo dá sinais de degenerescência e esclerose democrática que o desvendam como um neo-socratismo.”

Ouvindo e vendo Paulo Rangel, percebe-se bem quem é o esclerosado, o inflamado e o endurecido crónico, o petrificado, o disco partido, que, não há remédio, desvenda e desvendará socratismo em todo o lado. Este homem almeja dar show, mas, dada a via seguida, é show de palhaço.