Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Citizen Karvalho


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«If the headline is big enough, it makes the news big enough.»

Charles Foster Kane

1941

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Ao dia 18 de Junho de 2019, Manuel Carvalho é capaz de publicar estas atoardas, insultos e ofensas em nome da Redacção e do accionista do Público:

– Que é Vítor Constâncio quem anda a “reescrever a história” – ou seja, que anda a mentir; enquanto ele, o cidadão Karvalho, possui a única versão admissível da história.

– Que Vítor Constâncio se refugia em “formalismos legais” – ou seja, que a obediência à Lei não deve ser chamada para este caso; postula o cidadão Karvalho só porque lhe dá jeito.

– Que “para o dinheiro sair da Caixa para Berardo, o Banco de Portugal tinha de lhe conceder a devida autorização” – ou seja, que o Público continua a debochar num ponto onde já foi desmentido peremptoriamente ao se conhecer o teor do contrato de empréstimo; assim se vendo como a realidade não é uma cena que assista ao cidadão Karvalho.

– Que “o BdP poderia ter evocado o número 2 do artigo 118 do Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras” para justificar o que seria uma decisão absurda in illo tempore – ou seja, que o Banco de Portugal devia ter recorrido a “formalismos legais” para prejudicar Berardo; postula o cidadão Karvalho precisamente ao arrepio do que escreveu linhas antes só porque lhe volta a dar jeito.

– Que “só num país de loucos um banco empresta dinheiro a alguém para comprar acções, recebendo como garantia exclusiva essas mesmas acções” – ou seja, a prática então corrente em todo o Mundo de financiamento bancário dos investimentos em bolsa, prática que continua a ser usual pelas melhores razões comerciais e capitalistas, e a existência de um contrato de empréstimo que poderia executar as acções a comprar, mais as já existentes e ainda o património artístico da Fundação Berardo, tudo isto que ficou legalmente instituído é colocado ao nível de uma “loucura”; volta a mentir debochadamente com quantos caracteres tem o cidadão Karvalho.

– Que Vítor Constâncio “poderia ter travado a ambição de Berardo no BCP, recusando o seu pedido e, acto contínuo, anulando a exclusiva finalidade da linha de crédito negociada na CGD, nesse tempo gerida pela dupla Carlos Santos Ferreira/Armando Vara” – ou seja, que o então governador do Banco de Portugal devia ter agido contra a Lei só para satisfazer os caluniadores que em 2019 continuam a espalhar no espaço público dementes teorias da conspiração; delira encharcado em ódio o cidadão Karvalho.

– Que “uma elite espúria tentou tomar de assalto o sistema financeiro” – ou seja, que Sócrates (o “espúrio”), com Teixeira dos Santos, com a dupla Santos Ferreira/Armando Vara, tentou tomar de assalto o sistema financeiro, o regime, a União Europeia, o Planeta e arredores; calunia desvairado o desvairado e caluniador cidadão Karvalho.

– Que Vítor Constâncio “foi, no mínimo, cúmplice” “da trapaça“, “desse negócio ruinoso para o país e para os portugueses“, mostrando não ser “corajoso” – ou seja, que o então governador do Banco de Portugal é criminoso e cobarde, no mínimo; declara para a posteridade, e para o tribunal onde irá explicar melhor o seu decentíssimo argumentário, o valente cidadão Karvalho.

– Que “todas as conclusões a que chegámos se inscrevem na obrigação de um jornal responsável” – ou seja, se fazer uma parangona onde se lê “Constâncio autorizou Berardo a ir levantar 350 milhões à Caixa / Banco de Portugal aprovou investimento de Berardo no BCP com crédito tóxico da Caixa / Ex-governador disse no Parlamento que não sabia de nada” pode estar relacionado com a “responsabilidade” então dizer que “Manuel Carvalho é pago para fazer assassinatos de carácter e perseguição politica escudado na liberdade de imprensa” estará inequivocamente relacionado com a “objectividade”; inferimos imitando o cidadão Karvalho.

Este degradante episódio é muito mais do que uma rixa avulsa entre um director de um jornal, embriagado de soberba e má-fé, e um ex-governador do Banco de Portugal, vítima incauta de sórdidas e lunáticas calúnias. Chegados a este ponto – onde se assiste ao desfile de inacreditáveis exercícios esquizóides no que passa por “imprensa de referência”: Doze anos de mentira – é patente como a decadência da direita partidária explica a decadência dos seus impérios mediáticos. Esses dois braços da oligarquia estão neste momento barricados na judicialização da política e na politização da Justiça. Não têm mais nenhuma causa, de facto. Não têm causas porque faliram intelectualmente, caíram na bancarrota da decência. Assistem em desespero à perda do seu poder bancário e político, desde a vitória do PS em 2005, só lhes restando as golpadas dos magistrados justiceiros e corporativos, mais a ubíqua indústria da calúnia.

Manuel Carvalho, e o seu jornal que paga a caluniadores profissionais, revelou preferir o ataque à honra de pessoas e instituições em vez do cumprimento das regras básicas do jornalismo. Das mais básicas, senhores ouvintes. O tipo de jornalismo que pratica – essa miséria moral e deontológica assumida em notícias falsas e editoriais sinceros – não defende a democracia nem a liberdade. A cidadania que procura informação factual, rigorosa e imparcial dispensa o contributo sectário do cidadão Karvalho.

Rui Esgoto

"Temos todos, relativamente a qualquer português — quer esteja na política ou não esteja na política –, que respeitar o princípio da presunção de inocência e, respeitando o principio de presunção de inocência, temos de aguardar não pelos julgamentos populares mas os julgamentos nos tribunais. Infelizmente, esses julgamentos arrastam-se três, quatro, cinco, seis e sete anos e a pessoa vai sendo queimada em lume brando”, afirmou Rui Rio.

Questionado pelos jornalistas que o aguardavam no Forte Santiago da Barra, em Viana do Castelo, para o lançamento do livro “E agora, Portugal? – Tribuna Social”, do ex-deputado Eduardo Teixeira, Rio defendeu ainda que “os julgamentos das pessoas se façam nos tribunais e não na praça pública”. “Num estado de direito democrático não está correto nem para militantes do PSD, nem do PS, nem de coisa nenhuma“, frisou.

Fonte

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"Não vejo nenhuma acusação seguir para tribunal, nenhuma sentença, nenhuma condenação de casos muito, muito graves. Penso que a justiça devia ser mais célere, mais capaz na condenação e no julgamento destes casos, porque, estes sim, todos os portugueses pagaram milhões de euros em impostos para salvar. Nem é bem salvar, é dar um jeito na banca", afirmou Rui Rio, em Viana do Castelo, à margem do lançamento do livro "E agora, Portugal? - Tribuna Social", do ex-deputado Eduardo Teixeira.

Questionado sobre o trabalho da comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão do banco público, o líder social-democrata disse terem sido cometidos "erros, provavelmente com dolo, por pessoas que ganhavam milhares e milhares de euros, porque a sua responsabilidade era muita".

"Afinal qual era a sua responsabilidade [dessas pessoas que ganhavam milhares]? Foi a mesma do porteiro que ganhava 700 ou 800 euros por mês? Isto não é justo. Isto sim, penso que todos os portugueses estão desejosos que haja julgamento justo, em tribunal, sobre esta matéria", sustentou.

Fonte

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Deve constituir algum tipo de recorde. Na mesma ocasião, de rajada, conseguiu defender o Estado de direito e atacou o Estado de direito. Por um lado, chutou (e muito bem) para a presunção de inocência as questões sobre os autarcas do PSD e o eurodeputado social-democrata recém-eleito. Por outro, cuspiu (e muito mal) em cima de cidadãos que concebe como adversários políticos a merecer a justiça popular de que se fez porta-voz e agitador. Aproveita-se de nada ter de justificar, por isso despacha insinuações, suspeições e difamações demagógicas em modo de vendedor de atoalhados na Feira da Malveira. Aposto os 10 euros que tenho no bolso como nem sequer sabe o que tem sido dito na II comissão de inquérito à CGD.

Infelizmente, estas antinomias não causam surpresa em Rio, mas apenas porque já a causaram. Ao ter usado calúnias conspirativas na campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, o actual presidente do PSD revelou a sua natureza no mínimo medíocre. Nada do que venha a dizer como suposto estadista e líder ou representante político tem valor porque ele é o primeiro a desprezar a sua palavra.

Prometeu, era bluff.

Revolution through evolution

Study finds consistency among people’s current and past partners
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If asked the right way, toddlers will choose broccoli over cake, UCI-led study finds
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How fathers, children should spend time together
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Behind the magic: Making moving photos a reality
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Financial Vulnerability May Discourage Positive Negotiation Strategies
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Growing up With a Friend May Improve a Dairy Cow’s Lifelong Welfare
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New research finds deception is viewed as a sign of competence in certain occupations

Operação Plebeu

A “Operação Plebeu” alcançou um sucesso ribombante. Nasceu de uma encomenda do tal Presidente da República que usou os mortos de uma catástrofe natural para jurar que só se candidataria ao segundo mandato se os incêndios de Verão não sei quê, o tal Presidente que depois apareceu a sugerir ir recandidatar-se por ser o único português maior de 35 anos com pinta para receber um papa na Portela e levá-lo a passeio até Fátima, e que recentemente garantiu apetecer-lhe continuar no cargo só para que a direita seja protegida e mimada a partir do Palácio de Belém dada a infestação de esquerdalhos. O artista convidado cumpriu na perfeição, superando as expectativas. O ar risonho do contratante em certos momentos do espectáculo não fica apenas como expressão de um fundo agrado. É uma validação admirativa, a laivos embevecida, a um colega de profissão vindo de um mestre na matéria. Como alguém bem informado disse, parecia o Fernando Santos a babar-se de felicidade com a exibição do seu Éderzito.

O discurso de João Miguel Tavares foi de altíssima eficácia para os públicos-alvo em causa: direita profissional, populistas inorgânicos e infelizes despolitizados. Não falou em Sócrates, nem tal era necessário para que tudo o que dissesse tivesse esse contexto, esse subtexto e esse pretexto. O colega do assessor da Casa Civil foi escolhido como estrela de um feriado nacionalista precisamente para que a condenação popular do aterrorizador inimigo da oligarquia fique com o alto patrocínio do Presidente da República, de caminho fazendo-se mais pressão sobre Ivo Rosa e o sistema de Justiça no sentido de obter a mais extensa e mais pesada condenação possível. Ignoro mas aposto que a sua pulsão inicial foi a de fazer explícita referência ao Diabo através da “Operação Marquês” e que rapidamente Marcelo lhe terá dito que desta vez não dava, havia mínimos de decoro e máximos de porqueira. Afinal, tratava-se de uma cerimónia institucional e soleníssima, ora foda-se. Essa limitação, imposta pelo próprio ou ao próprio, aumentou o poder retórico do texto. A repetição da cartilha direitola decadente desde 2008 – a dívida, a bancarrota, as leis do trabalho rígidas, as auto-estradas vazias, os velhos a ocupar o lugar dos novos, o politicamente correcto, a corrupção, as décadas perdidas – foi pontuando a progressão de um enredo embrulhado em sentenças vácuas e pedantes, incongruentes e até ilógicas, um lençol de chavões delico-doces que serviu primorosamente o objectivo de oferecer aos diferentes segmentos sociais na audiência, especialmente aos mais desqualificados por limitações cognitivas ou inexperiência de vida, um território de referências familiares e sectárias. O orador foi a voz dos derrotados do PSD e CDS, dos deprimidos, dos bisonhos, dos paranóides, dos que expelem ódio, dos saudosos de Passos Coelho. Visto daí, Portugal é um lugar inóspito e assustador, onde corre solto o desânimo. O truque sofístico consiste em deixar na sombra o positivo e apontar a luz para o negativo, apagar o que nos une e colorir o que nos separa, ser o profeta da guerra civil. É simples e resulta desde o Neolítico. “Eles” são mais fortes e são maus, são o “outro” corrompido e corruptor. “Nós”, os puros e vítimas, ficamos neste queixume resignado a lamber as feridas enquanto não regressa quem nos vai conduzir ao sonho prometido.

Se o discurso tem esses pés com que a dupla de celebérrimos comentadores deu bailarico e coices no 10 de Junho, tem igualmente cabeça. Do princípio ao fim, o que se está a vender explicitamente é o conceito de meritocracia. Dado o endosso de Marcelo, o aparato mediático da ocasião e a marca JMT, podemos considerar que foi a mais poderosa acção de propaganda que já se viu no rectângulo e ilhas na promoção de uma ideia estrategicamente fundamental para o controlo do poder e a anulação da revolta em sociedades moldadas pela desigualdade capitalista. Não sei se a vedeta caluniadora concordará comigo mas arrisco sugerir que o conceito não foi inventado por este Tavares ou qualquer outro. A meritocracia é defendida em todos os tempos e poisos por quem pretende manter os seus privilégios, daí se ter tornado uma bandeira ideológica da direita que está bem instalada no topo da cadeia alimentar. Aqueles que desfrutam de vantagens sobre os restantes sabem-se sempre ameaçados, temem perder as riquezas e o continuado e facilitado acesso a mais riqueza, daí a necessidade psicológica de blindarem numa crença esse usufruto das desigualdades sociais e económicas, quando não também políticas e judiciais. Essa crença é o “mérito”, a concepção de que vivemos num mundo onde cada um se basta a si próprio. Se eu agir, se ao agir tiver sucesso, decorre uma conclusão meritória: o sucesso da minha acção deve-se a mim, ao que em mim faz com que eu seja eu. Pode ser qualquer factor, como a intensidade do esforço, a persistência, a escolha acertada do caminho numa encruzilhada, o salto arriscado sobre o abismo. Se correr bem, essa é a prova de que eu tenho talento, de que a realidade exterior é aquilo que se move à minha volta e que existe como o merecido prémio. A meritocracia é invariavelmente retrospectiva, é uma contemplação ensimesmada do resultado de termos obtido uma qualquer vantagem sobre os restantes – esses que não têm mérito, ou não o mérito suficiente, portanto. A partir deste culto a nós próprios como autores do nosso destino, dois monstrengos afligem o meritocrata. O primeiro, de acordo com o zeitgeist, é a “elite”, ou “elites” para dar melhor conta da grandiosidade do combate, um conjunto de rivais que dificultam ou impedem que o mérito seja reconhecido e recompensado. As elites usufruem de privilégios que já não são meritórios, assim corre a tese, posto que resultam das inércias, cumplicidades e defesas desses indivíduos que, malvados, não pretendem abandonar a sua superioridade social e posse de recursos para se verem substituídos pelos que verdadeiramente merecem estar no seu lugar. É que os recursos são sempre escassos para tanta procura, daí a luta sem quartel para os conservar e aumentar. O segundo monstrengo é o sentimento incómodo, embora profundamente consolador, gerado pela constatação de que a pobreza, as várias pobrezas, inclusive a mediania, a banalidade, são o inevitável resultado da ausência de mérito. Querem ter casa, carro e médicos finórios em consultórios modernos e a cheirar bem? Trabalhem, poupem, trabalhem mais, gastem menos, façam das tripas coração. Corolário: os pobres, na meritolândia, têm exactamente o que merecem.

Onde é que já ouvimos isso? Em 2011, no auge de uma crise económica mundial onde a Europa ainda não tinha mecanismos protectores contra a especulação das dívidas soberanas, o então presidente do PSD decidiu boicotar um plano de apoio financeiro internacional que teria evitado o resgate de emergência e o cataclismo que se seguiu. Abriu uma crise política que obrigou a eleições, e na campanha eleitoral prometeu “acabar com os sacrifícios” e “libertar a economia”. Jurou “não subir impostos, não cortar pensões, nem fazer despedimentos na Função Pública” se ganhasse. A solução indolor e instantânea para os problemas do País estava no “corte nas gorduras do Estado”. Ter afundado Portugal correu bem ao especialista em aeródromos na Região Centro. Assim que se viu como primeiro-ministro revelou o seu verdadeiro plano: ir além da Troika. Esta obsessão com uma reengenharia social que iria fazer dos portugueses as cobaias do fanatismo da austeridade salvífica veio acompanhada por uma moral meritocrática. Descobrimos com o Pedro que, embora pobretes desde o fim do ouro brasileiro, tínhamos andado a viver acima das nossas possibilidades. Se queríamos brincar à qualidade de vida, havia primeiro que sofrer o castigo. Expurgar a preguiça e a estroinice. Fazer como o Governo amante do FMI, que acabou com esses luxos asiáticos das viagens de avião em Executiva e do ar condicionado ligado; para que queríamos ter dinheiro se não o sabíamos gastar nem o conseguíamos manter debaixo do colchão? Mais valia que ele fosse para o Norte da Europa onde eles são de boas contas e gostam de trabalhar. Circunstâncias históricas, estruturais, conjunturais, ambientais, sociais, mesmo antropológicas, deixavam de poder justificar medidas especiais de apoio e estímulo. O cumprimento do programa de assistência, desejado fervorosamente pela direita, implicava uma terraplanagem das diferenças e das carências na paisagem humana. O isolamento social, o desespero daqueles que já tendo pouco ficavam ainda com menos, a debandada para a emigração e as emergências nas famílias atingidas pelos despedimentos e pela redução drástica do mercado de trabalho, tudo isto era despejado sem um pingo de empatia. Os discursos dos governantes e sua legião de correligionários mediáticos espalhavam acusações, culpas, desprezo encardido pelos que sofriam o que poderia, e deveria, ter sido evitado em nome do interesse nacional, em nome do bem comum. Esta violência meritíssima encantou o João Miguel, passando a ter em Passos o seu ídolo.

O discurso do presidente das comemorações do 10 de Junho é um florilégio biográfico. Contou a sua história desde o nascimento, viajou até à feérica Albufeira, ilustrou o que os pais fizeram por si no campo das compras a prestações, citou o que diz à Carolina, ao Tomás, ao Gui ou à Rita, recordou a casa de pasto de um dos seus avós, ficámos a saber que os seus sogros fugiram de Moçambique com seis filhos, abrimos a boca de espanto com as distâncias percorridas por uma certa mulher que criou outra mulher, e partilhou connosco o estado da sua relação consigo próprio: chegou lá (a Portalegre, completando o círculo heróico ao voltar ao ponto de partida). Esta atenção a si próprio foi essencial para a identificação de tantos, inclusive dos mais insuspeitos até à data de serem completos totós. Ao relatar o seu sucesso, explicando que o mesmo se deve exclusivamente ao seu mérito – “um simples estudante de uma cidade do interior, sem qualquer ligação à capital e às suas elites” – mérito oficialmente reconhecido pelo Estado numa festa para o efeito realizada no dia 10 de Junho de 2019, podemos observar como a propaganda da meritocracia em nada se distingue das técnicas de venda pela TV. Nestas precisamos de ver o produto em acção, e quão mais real, literal, for o registo mais adesão vai suscitar no espectador-consumidor. Ali aonde tinha chegado este craque da indústria da calúnia o produto mostrou ter um desempenho espectacular. A boa nova passou a ser a de que qualquer um poderia vir a estar no lugar dele:

"Quando o senhor Presidente da República me convidou para presidir a estas cerimónias houve muita gente que ficou espantada, incluindo eu próprio. Mas com o tempo fui-me afeiçoando à ideia de que talvez não seja absolutamente necessário ter méritos extraordinários para estar aqui, e que Portugal precisa cada vez mais de um 10 de Junho feito de pessoas comuns e para pessoas comuns."

João Miguel Tavares, de costas para os representantes da soberania, a dizer ao povo que um dia poderão ser eles a estar no seu lugar. Basta que tenham o mérito de não terem méritos extraordinários para serem convidados. A apologia da meritocracia à portuguesa a culminar num curto-circuito da racionalidade, uma explosão de contradições para epater le burgessos, o gozo supremo de uma hipocrisia deslumbrada a deixar algo em que acreditar: que cada um faça a sua parte, que fuja do convívio com as elites, que trate da sua vidinha, e, um dia, tal como aconteceu com ele, o telefone irá tocar… e é o Marcelo.

Estava completada a “Operação Plebeu”.

Isto é lindo

Durante a sua audição na segunda comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão da CGD, Filipe Pinhal contou que, numa conversa que teve com o empresário também conhecido como Joe Berardo, lhe perguntou porque é que se já tinha "3,88%, uma posição qualificada, queria subir para 7%", e por que motivo iria "investir 400 milhões de euros".

«Eu ainda estou para saber como é que aquele homem me enfeitiçou, como é que aquele homem me deu a volta, como é que eu me meti nesta de ir comprar financiado desta maneira"», terá respondido José Berardo, de acordo com Filipe Pinhal.

Para o ex-administrador do BCP a pessoa mencionada por Berardo "só podia ser ou Paulo Teixeira Pinto [ex-presidente do BCP], ou o senhor José Sócrates", sendo que para Filipe Pinhal "a palavra de Paulo Teixeira Pinto teria pouco peso" para José Berardo, ao passo que "a palavra do senhor primeiro-ministro valeria mais".


Ex-administrador do BCP diz que Sócrates “enfeitiçou” Berardo

Um liberal imaturo e bastante confuso, que só sabe mesmo é dizer mal do Sócrates

Mas não falou do Sócrates. Foi por pouco, mas não. Arriscou fora de pé e deu-se mal. Sem o Sócrates, sem galhofeiros ao lado, é fraquinho.

Reza a doutrina liberal, para abreviar, que cada um trace os objectivos que mais lhe convenham e que os persiga com toda a dose de egoísmo possível. Com isso, continua a doutrina a rezar, inova-se, faz-se mexer a economia, mobilizam-se outras pessoas, criam-se empregos (para os frouxos sem iniciativa), desenvolvem-se países. O Estado, continuamos na reza, deve interferir o mínimo ou nada com a liberdade de cada um, pelo que não cabe aos políticos definir “causas” em que outros acreditem. O indivíduo estabelece as suas próprias causas (geralmente “money, mucho money”) e, se vir utilidade nisso, politicamente, financia e/ou agrega-se em grupos de outros indivíduos que defendam os mesmos interesses.

Pois o nosso grande liberal, que acumula com a função de caluniador/justiceiro/Socrates-paranóico no Público, cujo grupo de interesse teórico não está no poder, leu ao povo, no seu primeiro, e esperemos último, discurso (enquanto comissário para as comemorações do 10 de Junho), um arrazoado pobre e infantiloide, em que, num total absurdo face ao que apregoa, pede aos políticos, os actuais, claro, aqueles de quem ele não gosta, para lhe traçarem os objectivos que ele não sabe definir para si nem para os seus e as causas em que acreditar. Poderia dizer-se que se lê e não se acredita.

“Aquilo que se pede aos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita, é que nos deem alguma coisa em que acreditar, que alimentem um sentimento comum de pertença, que ofereçam um objetivo claro à comunidade que lideram”, sustentou.

Bem razão tem o Valupi, aqui em baixo. Esta criatura não é um liberal. É um salazarista saudosista a quem falta a Mocidade Portuguesa.

É oficial: o Público assume-se como um pasquim

Vicente Jorge Silva assinou um artigo – Constâncio e a cultura do lava-desculpas – onde declara que Vítor Constâncio podia ter impedido Joe Berardo de aumentar a sua participação accionista no BCP. Não explica qual seria a argumentação a usar dado o contexto da época, e ainda menos identifica o quadro legal que permitiria a inaudita e extraordinária decisão. A partir desta tese, caracteriza Constâncio como irresponsável, criminoso, revoltante. Também estabelece um nexo causal entre o empréstimo da CGD a Berardo, no valor de 350 milhões de euros e obtido em 2007, e as cativações de Centeno e demais dificuldades no cumprimento dos compromissos orçamentais de Portugal desde 2008 até ao presente.

Este senhor tem 73 anos e desconheço por completo qual seja o estado da sua saúde física e mental, pelo que apenas me irei circunscrever à saúde moral para tentar entender a miséria onde se enfiou. O que o seu texto apresenta como mais notável e relevante é o apagamento do que o Público fez no passado dia 7 de Junho: publicou uma notícia falsa. O impacto dessa falsidade foi fulminante na comunicação social e no sistema político – e devastador para o bom nome e honra de Constâncio. Ao nada dizer a esse respeito, fica cúmplice do acto e do dano. Ao usar a notícia falsa e suas consequências perversas para atacar a vítima da mentira, Vicente Jorge Silva não está só a promover uma escandalosa e canalha violação do código deontológico do jornalista, está no mesmo passo a levar intencionalmente o jornal que fundou para a indústria da calúnia.

Este caso, como bem o adjectivou Francisco Assis, tem provocado uma torrente imparável de verborreia demagógica. A estupidez das desvairadas e rancorosas acusações, porém, consegue ser ainda mais triste do que vermos caído na pulhice aquele que foi até ontem um dos nomes que dignificavam a classe jornalística portuguesa.

Revolution through evolution

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Coisas do Carvalho

Discípulos da madraça

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O Público tem um director capaz de escrever um editorial onde declara que Vítor Constâncio deve ser alvo de investigação policial por ter feito parte de “uma operação criminosa que visava o controlo do poder financeiro“, por ser o “mais incompetente servidor público das últimas gerações” e, em cúmulo jurídico, por ficar como “um dos principais cúmplices da trapaça financeira que tanto nos custa a pagar“. Garante ter a prova irrefutável que lhe permite “desde já estabelecer a sua responsabilidade e a sua culpa profissional e ética.” O Carvalho investigou, concluiu, lavrou a sentença, publicou o édito. Está aqui: A falta de memória é a falta de vergonha de Constâncio

Ora, a tal prova na posse do Carvalho consiste no título de um artigo saído, por maravilhosa coincidência, no mesmo jornal onde é director: “Constâncio deu aval a crédito ruinoso da CGD a Berardo e omitiu ao Parlamento“. Não se sabe a que horas o Carvalho tropeçou nesta parangona, posto que ela foi publicada logo pelas 6 da matina e o seu fuzilamento do Constâncio ocorre 12 horas depois, mas podemos ter a certeza de que o implacável escriba não chegou a ler o conteúdo da notícia. É que o material exposto na montra não corresponde ao que está no armazém. Como a emoção tomou conta dele ao imaginar o bandido do Constâncio a dar o aval ao bandido do Berardo, abraçados à gargalhada e com os Cohibas em frenética combustão num luxuoso compartimento secreto do Banco de Portugal, teve primeiro de se sentar afectado pela tontura do ódio que o assaltou. Nunca mais lhe ocorreu que talvez fizesse sentido perceber o que se estava a passar, falha que se compreende e aceita tendo em conta que ficaria muito mal a um director duvidar dos títulos que aparecem no seu jornal. Se ele não pudesse confiar no que o Público publica então isso queria dizer que ele era um mau director, péssimo, daqueles que se despedem com justa causa. Só que, foda-se, se há coisa que o Carvalho sabe, e de ginjeira, é que ele é não só um excelente director como também é, antes e acima de tudo, um dos mais valentes directores na categoria “empenhado na defesa do interesse público“. Donde, não havia tempo a perder. Assim que recuperou do estado catatónico causado pela súbita revelação do que o Constâncio tinha feito, agarrou-se a um teclado e deu tudo o que tinha na alma e nos dedos para que “nos seja possível viver de cabeça levantada por termos sido capazes de ajustar as contas com esse passado trágico e vergonhoso.

Acontece que Constâncio não deu aval ao empréstimo da CGD obtido por Berardo porque tal não era sequer uma possibilidade ao seu dispor de acordo com a lei, primeiro, e porque esse empréstimo já tinha sido contratado à data que o Público alega que o mesmo foi discutido como possibilidade no Banco de Portugal, para final de conversa. Na verdade inquestionável e literal, o que realmente se discutiu nesse reunião foi outra coisa, isso sim da competência do Banco de Portugal: o legítimo pedido de Berardo para reforçar legitimamente a sua posição no BCP e a correspondente avaliação da sua idoneidade. A notícia do Público, portanto, é falsa. Uma falsidade que se espalhou incendiária ao longo do dia na comunicação social. Os comentários acima, retirados do Observador, ilustram o efeito pretendido e o nível cognitivo dos seus autores. Convido qualquer um a esquecer-se do estilo e comparar o que as alimárias revelam da sua percepção e entendimento da realidade com o que o grande Carvalho expõe de si próprio quando trata Constâncio de criminoso para baixo. Irá demitir-se? Irá pedir desculpa? Irá sequer reconhecer que enganou os leitores? Era só o que faltava, a culpa é do Sócrates.

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E aqui temos um delicioso exercício ad hominem e calunioso de um futuro líder do PSD (por favor, ó deuses, metam este pândego a mandar na barraca!) que nos convida a ouvir o Pedro Silva Pereira. De facto, a não perder. Como sempre.

Como ofender os portugueses com três palavrinhas apenas

No dia 23 de Janeiro descobrimos que o Presidente da República escolheu o Dr. João Miguel Tavares para presidir à comissão das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. A decisão gerou avulsos e efémeros protestos de terceiras vozes na esquerda, latidos nos talibãs de serviço contra essa esquerdalha insolente, e um maremoto de silêncio e aparente indiferença no comentariado nacional. Mas tal como no começo do Blue Velvet de Lynch, onde num relvado suburbano composto de belas e viçosas flores o jardineiro pode cair redondo no chão sem que isso afecte o humor de bebés e cães brincalhões, se afundarmos o olhar até às raízes de tanta placidez premonitória vamos encontrar minúsculos-enormes monstros que se devoram uns aos outros.

Para se compreender o que está em causa na decisão de entregar o 10 de Junho a um caluniador profissional temos de recuar 8 dias ainda em Janeiro. No dia 15, o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o Primeiro-Ministro, a Ministra da Justiça, o Procurador-Geral da República, o Bastonário da Ordem dos Advogados e o Cardeal Patriarca (pois, não me perguntem porquê), entre outras excelências, reuniram-se, alguns paramentados, no Supremo Tribunal de Justiça. A ocasião intitula-se “Abertura do Ano Judicial” e nela os nossos melhores discursam solenemente sobre o pilar mais poderoso da República e da nossa democracia. Aquilo sem o qual não há comunidade, apenas guerra civil. A instituição Justiça que garante e aplica a Lei livremente consubstanciada e definida pelo Soberano na Assembleia da República – por nós, os eleitores. Dá ideia, a avaliar pelas fotografias, que se trata de um acontecimento anual muito importante, de uma cerimónia especialmente relevante na arquitectura do regime; ainda mais fulcral tendo em conta as disfunções judiciais que tolhem a economia, pervertem as disputas políticas e ameaçam, quando não violam, a liberdade das pessoas. A ser verdade que a coisa é de arrebimbomalho institucional, o discurso do mais alto, primeiro, supremo magistrado da Nação numa alocução política densamente litúrgica e sacramental tem um valor incomparável para qualquer cidadão amante da cidade. Em 2019, foram estas as palavras do Chefe de Estado acerca da Justiça. Tranquilamente, estamos perante os 9 melhores minutos que já ouvi a Marcelo Rebelo de Sousa. É uma intervenção que comenta e censura directamente a campanha para a continuação de Joana Marques Vidal como PGR e também a exploração mediática dos casos judiciais, fazendo uma pedagógica e inequívoca apologia do Estado de direito como se estivesse perante uma turma do 1º Ciclo. A salubridade do seu discurso pode medir-se com exactidão ao se procurar reacções na comunicação social e nos partidos. Pista: não existem. A estratégia de violação do Estado de direito pela direita e seus impérios mediáticos, reforçada pela indiferença da esquerda e seu proveito em ver o PS a ser perseguido e emporcalhado, gerou um apagamento completo sobre o repto lançado pelo Presidente da República num salão nobre da cúpula da Justiça portuguesa. 8 dias depois ficávamos a saber que essa censura tinha sido a decisão mais adequada ao número de revista levado à cena no único evento público que reúne todos os representantes dos poderes soberanos do Estado.

João Miguel Tavares é o caluniador profissional de maior sucesso em Portugal. Mete muito dinheiro no bolso a fazer precisamente o contrário do que Marcelo advogou como necessidade urgente na comunidade que somos. Alimenta-se das capas da indústria da calúnia, faz condenações na praça pública ainda antes de sequer haver acusações, explora crimes cometidos por agentes da Justiça e órgãos de comunicação social, celebra a violação da privacidade e dos direitos fundamentais dos seus alvos, é sectário na perseguição ao PS e obsessivo no linchamento de Sócrates e terceiros relacionados, cultiva uma atitude messiânica em relação à santa Joana e ao providencial Pedro. Mas vai mais longe. Do alto do poder mediático e da influência social ao seu dispor, faz campanha para a diminuição dos direitos dos arguidos e das defesas, promove a inversão do ónus da prova, avalia a eficácia da Justiça exclusivamente pela quantidade de políticos presos e espalha sobre todas as instituições soberanas da República, as tais que se encontram obrigatoriamente uma vez por ano para dignificarem e elevarem a Justiça, uma acusação de corrupção. A corrupção mais grave que é possível encontrar, porque estrutural, declara. Este ser infantilóide e narcísico repete, por escrito e de viva voz, a cassete dos fogareiros e dos jarretas, dos broncos e dos trastes: “Andam todos a roubar! As leis são feitas só para andarem a roubar!”. O seu catastrofismo taberneiro, alucinado e asinino até há uns anos não teria lugar na outrora dada a mínimos deontológicos imprensa de referência mas o descalabro dos impérios financeiros da direita, juntamente com a decadência intelectual e política em que se encontra, alterou as regras do jogo. No vale tudo das campanhas negras e golpadas envolvendo responsáveis das polícias e da Justiça, que começou em 2004 com Santana Lopes e se agudizou a partir de 2008 com Ferreira Leite e Pacheco Pereira a serem títeres de Cavaco, a direita desistiu de tentar vencer o PS pelo mérito das propostas e capacidade de persuasão positiva do eleitorado. O mais velho ataque político do mundo em sistemas democráticos, a calúnia, passou a ser o instrumento favorito de quem domina o ecossistema mediático e partes do Ministério Público. O produto oferecido por esta triste figura que assina as suas verrinas como “jornalista”, a exibição impante da sua superficialidade e facciosismo, o espectáculo do seu liberalismo de pacotilha e da sua hipócrita moral mercenária, o culto do seu fascínio consigo próprio e do delírio de se conceber como o regenerador da Pátria, isto e pior tinha e tem compradores. Com o convite de Marcelo para ser o protagonista do feriado favorito do Estado Novo, para além do dinheiro ganha agora um prémio que nem nos seus mais desvairados sonhos teria imaginado alguma vez obter: a consagração oficial pelo regime em agradecimento dos serviços como verdugo do monstro Sócrates.

No espaço de uma semana, o actual Presidente da República mostrou habitar em duas realidades paralelas. Numa delas, jurou, pela sua honra, desempenhar fielmente as funções em que ficou investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa. Pela sua voz, com mais logos do que pathos, representou na plenitude esse juramento no local e momento adequados. Na outra, é o “Presidente Eleito pela TV” que está a utilizar o Estado para promover o programa onde actua o seu assessor para a cultura e a maior estrela mediática da oposição ao Governo e ao PS (RAP), é o “Presidente Rei” que utiliza a Constituição para se substituir ao Parlamento e forçar equilíbrios e desequilíbrios contranatura num semipresidencialismo que não concebe a Presidência como agente de disputa política, é o “Presidente Sol” que convoca o lastro salazarista do 10 de Junho, esse “dia da raça”, para oferecer à direita um comício onde o populismo será levado para o palco e donde se pedirá a cabeça de Sócrates numa bandeja, dessa forma se tentando condicionar o trabalho de Ivo Rosa e demais juízes que venham no futuro a decidir sobre a “Operação Marquês”. Marcelo Rebelo de Sousa entregou o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas a um fulano famoso apenas por ser um pulha bem remunerado, não ostentando qualquer outro mérito conhecido, na comunicação social ou em qualquer área de actividade humana. Alguém que se vangloria de não ter de ler, nem estudar, nem investigar, apenas de ser habilidoso em dar aos ignaros o que os ignaros gostam de papar. O Presidente de Portugal, portanto, oferece-nos uma excelente ocasião para descobrirmos se somos filhos de boa gente. Se somos portugueses.

 

Quem é que gostavas de escutar?

«Leio, no Expresso, que "há 14 mil telemóveis sob escuta". Se cada um dos seus utilizadores tiver 15 interlocutores no período de tempo em que essas escutas estiverem ativas, haverá cerca de 210000 cidadãos que terão, sem o saberem, as suas conversas gravadas e, tantas vezes, ilegalmente publicitadas. Esta verdadeira devassa justificar-se-á pelos resultados obtidos na prevenção e investigação criminal? É a análise que está por fazer.»


A.R.

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Não só essa análise está por fazer como nem sequer me parece a questão principal. Em Portugal temos agentes da Justiça que cometem crimes sistemáticos de violação do segredo de Justiça onde os conteúdos mais valiosos são precisamente aqueles obtidos em escutas e outras formas de violação da privacidade das pessoas apanhadas na máquina policial. A impunidade reinante é não só aceite como “normal”, aparece ainda defendida pelas próprias autoridades supremas da República para a anomia ser institucionalizada. O Presidente da República que ameaça fazer cair o Governo por causa das alterações climáticas, e que sai à rua em pijama se um ligeiro de passageiros vindo da Calçada da Ajuda amolgar a traseira de uma furgoneta do pão estacionada na Junqueira, está-se a marimbar para a criminalidade que enche de gozo e dinheiro a Cofina et alia. Joana Marques Vidal, interrogada sobre o número de violações ao segredo de Justiça e a incapacidade absoluta para sequer se descobrir quem as faz, riu-se e e declarou que não lhe parecia ser um assunto importante visto que os deputados não legislavam para tornar esse crime mais grave. O seu riso compreende-se e fiquei a admirá-la para sempre por ter conseguido responder sem se ter afogado em gargalhadas. É que o primeiro partido que sequer ameaçasse ir começar a pensar em tal seria acto contínuo esmagado pela indústria da calúnia, pelo sindicato dos magistrados e pelos restantes partidos que não iriam perder uma miraculosa oportunidade de ficarem ao lado do valente povo que não precisa de tribunais nem de leis quando as capas do esgoto a céu aberto fazem a verdadeira justiça: imediata, implacável e sem se perder tempo com os atrasos e recursos da bandidagem.

Mas pensemos. Se há agentes da Justiça que se sentem completamente à-vontade para entregarem a jornalistas informações que vão ser usadas para o sensacionalismo, os assassinatos de carácter e as campanhas negras, e isto apesar da notoriedade máxima dos casos, o que é que eles não farão em casos onde não há qualquer atenção mediática? Quão difícil será conseguir usar as polícias e a Justiça portuguesa para fazer espionagem empresarial, ou para satisfazer pedidos secretos de entidades criminosas estrangeiras? Se o Ministério Público não sabe quem é que faz dezenas ou centenas de crimes num processo que envolve um ex-primeiro-ministro, crimes que começaram ainda antes de haver arguidos constituídos, como poderá saber dos outros eventuais casos? Por exemplo, será que existe um mercado onde se podem encomendar escutas por particulares sobre particulares? E de partidos sobre partidos? Os factos sugerem que sim.

A extra ordinária Operação Marquês

Depois de 4000 páginas de despacho acusatório, 53 000 de investigação, 77 000 de documentação anexa, 8 000 de transcrições de escutas telefónicas, 13,5 milhões de ficheiros informáticos, 103 horas de vídeos de interrogatórios e 322 de depoimentos áudio de testemunhas, o que será mais extraordinário na “Operação Marquês”? Haverá respostas para todos os gostos, agendas e ódios, mas duvido que alguma ultrapasse em espanto e relevância esta: não se ter constituído como arguida Maria Adelaide de Carvalho Monteiro e não se ter constituído como arguido qualquer outro elemento dos XVII e XVIII Governos para além do respectivo primeiro-ministro. Isto é, as pontas da suposta investigação – que supostamente começou com a denúncia de dinheiro recebido da sua mãe por Sócrates na CGD e que terminou com uma acusação onde se diz terem existido supostos crimes cometidos em Gabinetes Ministeriais e Conselhos de Ministros – não constam no processo.

Algo similar aconteceu no “Face Oculta”. Num caso construído sem provas e baseado no relato em segunda mão de Ana Paula Vitorino, alegou-se que Mário Lino acedeu a um pedido ilícito de Vara mas o ex-ministro alegadamente cúmplice nem sequer foi constituído arguido. Porquê? Porque se calculou que, sem provas, sem prejuízo para o Estado, sem mais nada a não ser uma conversa que se diz ter existido com um certo sentido subjectivo, não seria possível fazer-se a Lino o que se ia fazer a Vara – nem se podia fazer a Vara alguma coisa sem por tabela Lino ter de levar igual ou até pior. O temor e tremor de acusar e prender um ex-ministro exclusivamente com provas indirectas e sem qualquer possibilidade de o relacionar com algum proveito material, ou outro, arriscava boicotar a vingança destinada ao asqueroso socialista que tinha ousado ir para o BCP como administrador depois do caos para onde o banco foi arrastado por Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto.

Num certo dia de um certo mês de 2013, Rosário Teixeira e Joana Marques Vidal encontraram-se, a sós ou acompanhados por outros procuradores, e decidiram que era desta que o inimigo nº 1 da oligarquia portuguesa ia ser apanhado, linchado e enterrado. Nessa reunião, adivinho, tomaram decisões sobre a mãe de Sócrates e sobre os ministros e secretários de Estado ligados a Sócrates. Seria possível deter a frágil senhora, levá-la algemada para ser interrogada pelo Carlos Alexandre e de lá ter de mandá-la na ramona para uma prisão feminina qualquer? Isso causaria demasiado ruído mediático, correndo-se o risco de gerar antipatia contra a PGR e simpatia a favor de Sócrates. Pelo que se decidiu logo ali, imagino, que a pessoa que se iria apontar como tendo sido cúmplice principal de uma transacção fraudulenta no mais grave caso de suspeita de corrupção da História de Portugal iria ficar de fora do processo. E quanto às dezenas de ex-governantes que iriam ser apontados também como cúmplices de decisões supostamente vendidas por milhões vindos do Grupo Lena, do BES ou de quem a acusação se lembrasse de inventar? Idem, aspas, não haveria logística para serem investigados e nem tal era preciso, antes pelo contrário. A aventura seria triunfal mesmo que apenas decapitasse uma das cabeças da Hidra, a mais apetecida. Aumentar o número de arguidos com responsabilidades nos Executivos socráticos traria mais atrasos, mais dúvidas, mais riscos de se perceber que toda essa gente estava a ser presa para ser investigada, devassada e assassinada política e socialmente. Ter Sócrates como troféu de caça, mesmo que dali por não sei quantos anos ele acabasse condenado apenas por fraude fiscal, era só o que interessava garantir. A “Operação Marquês”, logo a partir da sua detenção para ser interrogado, iria ser a sua condenação instantânea sem ser preciso ficar dependente dos volúveis juízes. Os restantes alvos seriam atingidos por associação e contágio.

A “Operação Marquês” iria ser excepcional, algo nunca antes visto na Justiça portuguesa quanto aos recursos disponíveis e quanto ao caudal criminoso das violações do segredo de justiça e dos direitos fundamentais. A PGR só iria avançar se tivesse a certeza de conseguir blindar a acusação mesmo antes de se poder saber qual viria a ser o seu conteúdo. Aceitar arquivar o inquérito caso a investigação nada encontrasse não era uma opção. O suspeito teria de ser tratado como condenado a partir da sua constituição como arguido; a matéria de facto era um tópico quase indiferente, algo se iria apanhar de certezinha absoluta, e o trânsito do dinheiro já chegava para o gasto. O que importava era o simbolismo, o choque e pavor, a exibição da presa derrotada, ferida de morte. Para tal era necessário garantir não só a cumplicidade como a activa colaboração do juiz a quem competia a defesa das liberdades e garantias dos cidadãos. Carlos Alexandre era perfeito para esse papel de carrasco – e não havia alternativa, não havia risco de calhar um juiz que tivesse a mania de querer ser isento. O Ministério Público da santa Joana olhava à volta e via o Presidente da República, o Governo e a maioria parlamentar a pedirem acção impiedosa contra o monstro que os apavorava e que não admitiam ver como candidato à Presidência, via a comunicação social dominada pelos impérios da direita pronta para iniciar um fogo de barragem épico com a sua ubíqua indústria da calúnia, via o magistrado judicial responsável pelo Tribunal Central de Investigação Criminal a arder de desejo para ser a arma divina que limpa o mundo do pecado e dos políticos demoníacos, via um ano eleitoral a chegar para umas legislativas onde era preciso debilitar ao máximo um PS que tinha trocado o manso Seguro pelo bravo Costa. Era desta, 40 anos depois do 25 de Abril voltaríamos a poder assistir a um regime de excepção para julgar criminalmente opositores políticos.

É tentador ver na entrevista que Carlos Alexandre deu à SIC, em Setembro de 2016, o maior escândalo alguma vez protagonizado por um juiz em funções. Nela, ouvimos referências directas a um arguido num processo ainda sem acusação onde o próprio era juiz de instrução – ou seja, onde se tinha comprometido com o Estado a defender a Constituição e os códigos legais para respeitar os direitos desse mesmo arguido. Para além de ser o processo mais importante na história da Justiça portuguesa por estar em causa uma suspeita de corrupção sobre um primeiro-ministro, o registo usado para violar o dever de reserva a que os juízes estão obrigados misturava a intenção de publicitar a culpabilidade de Sócrates com o culto da sua augusta e proba pessoa de Mação, que ficava como bastião popular e rural contra os corruptos da elite e da cidade. Infelizmente, essa estouvada e torpe manifestação de soberba está longe do que é o supremo escândalo relativo à sua figura e papel na “Operação Marquês”. A suspensão do Estado de direito começou logo após a detenção dos suspeitos quando decretou a prisão preventiva de Sócrates e declarou ter pena de não poder impor uma pena ainda mais grave logo naquela fase inicial e sem sequer se saber quais os eventuais crimes em causa. Continuou com o prolongamento da prisão em Évora, concordando com Rosário Teixeira no deboche de se considerar demasiado arriscado passar Sócrates ao regime de prisão domiciliária sem o uso humilhante de uma pulseira electrónica – e isto apesar do Tribunal da Relação já ter excluído o perigo de fuga. Culminou com uma entrevista à RTP onde considerou uma farsa o sorteio informático que designou Ivo Rosa como o magistrado que liderará a fase de instrução criminal, assim despejando sobre todo o sistema da Justiça portuguesa uma calúnia maximamente agravada pelo seu estatuto. Pelo meio, conseguiu a mudança do Tribunal Central de Instrução Criminal do Campus de Justiça para as instalações da antiga sede da Polícia Judiciária, cuja leitura tanto pode ser vista como gesto político e/ou sintoma de paranóia, e ainda disparou ameaças genéricas para outros magistrados não identificados alertando ter uma excepcional memória. Last but not least, descobrimos que a relação com um certo amigo e o seu dinheiro, numa mixórdia de promiscuidades incríveis tendo em conta que ambos são magistrados, era um bocadinho diferente do que tinha apregoado na TV quando quis condenar na praça pública um cidadão à sua guarda.

A extraordinária responsabilidade, complexidade e cautela exigidos numa investigação com as consequências da “Operação Marquês” pedia um juiz com este perfil pacóvio, justiceiro, megalómano e estúrdio? Ao contemplarmos o modo como o seu desprezo pela Lei e pelos direitos de outrem foram validados pelo Conselho Superior da Magistratura, e ao percebermos que esse órgão é uma entidade corporativa onde a Assembleia da República e o Presidente da República se demitem estrategicamente da sua soberania quando há comunhão de vontades contra o bem comum, ficamos na posse de um retrato onde é todo o regime que apoia e protege Carlos Alexandre. Um retrato onde é cristalino o desprezo pela descoberta dos factos e a condenação dos eventuais criminosos, caso contrário jamais se deixaria de fora uma cidadã sem a cumplicidade da qual não teria existido a descoberta do crime (dizem eles), e ainda menos se deixaria sequer sem investigação as dezenas de governantes que tomaram decisões apenas para que Sócrates enriquecesse de modo ilícito (dizem eles). Em que outros casos cidadãos dados como coniventes em actos ilegais ficam impunes por causa da idade, sexo ou relação familiar com outros delinquentes? Por que raio a mãe de Sócrates, designada como a ponte entre Carlos Santos Silva e Sócrates para a lavagem de dinheiro vindo da corrupção, nem sequer como arguida foi constituída? E se o Ministério Público acha que existiu um Governo em Portugal que manipulou negócios de milhares de milhões de euros, envolvendo centenas de decisores entre responsáveis executivos, administradores bancários e accionistas da PT e do BCP, só para que um primeiro-ministro pudesse ir para Paris estudar e ficar numa casinha com um soalho ao seu gosto, como é que essa inominável e indescritível perversão da República Portuguesa fica sem investigação e condenação judicial?

A “Operação Marquês” nasceu de uma legítima suspeita a respeito da circulação de dinheiro usado privada e ocultamente por Sócrates, a qual teria de ser investigada necessariamente. Porém, a violação do Estado de direito marca os antecedentes e desenvolvimento da investigação, onde há igualmente legítimas suspeitas de espionagem ilícita sobre Carlos Santos Silva e Sócrates, legítimas suspeitas sobre abusos de poder no Ministério Público antes da abertura formal do processo, legítimas suspeitas sobre manipulação ilícita do sistema de Justiça de modo a garantir que fosse Carlos Alexandre a conduzir o processo até à acusação, legítimas suspeitas de actos criminosos cometidos pela equipa de procuradores de Rosário Teixeira ao violarem o segredo de Justiça, legítimas suspeitas da inexistência de integridade em Carlos Alexandre ao aceitar ser juiz num caso em que à partida já considerava culpado o arguido sem lhe conceder o direito a um processo justo. Tendo em conta que este caudal de violências foi festejado e reclamado como triunfo supremo por parte de Passos Coelho e Cavaco Silva aquando da campanha para a continuidade da sua Procuradora-Geral da República, a heroína a quem fizeram uma estátua de elogios e agradecimentos, fica evidente que a dimensão de linchamento e assassinato de um inimigo político não só supera como torna irrisória a dimensão judicial de se averiguar se um certo cidadão cometeu actos ilegais, seja lá qual for a sua gravidade. Neste sentido, a “Operação Marquês” é o maior triunfo da direita decadente desde o estabelecimento do Cavaquistão. Ver o PS e a esquerda a colaborarem com este festim sórdido e odiento exibe um regime onde é necessária a destruição de Sócrates por razões de Estado.

No arneiro da Celeste

ARTV, por causa da crise (que é também deontológica) da imprensa e por causa da decadência da direita portuguesa, é o canal televisivo mais importante para a cidadania. Nele podemos ver e ouvir os protagonistas parlamentares, governativos, institucionais e qualquer cidadão com a obrigação de responder ao Soberano. Há muito e variado para descobrir sobre o centro político da República, e talvez o registo das comissões de inquérito seja o conteúdo mais valioso posto à disposição de todos na sua vertente documental. Por um lado, as questões tratadas nas comissões de inquérito são inerente e especialmente graves. Por outro, essa gravidade é inerente e invariavelmente palco de polémica e baixa política, quando não chicana ou pura canalhice. A radical diferença está em se dar tempo aos cidadãos na berlinda para se explicarem sem serem interrompidos – isto é, permite-se que se exerça o direito à palavra e ao bom nome.

Apesar da abundância de informação da maior relevância política, esperar que a programação e matérias deste canal suscitem sequer uma ensonada referência junto do bom e sofrido povo é do foro das patologias delirantes. Só jornalistas de política, outros políticos e uma mão-cheia de malucos (como aqui o pilas) é que aceitariam perder três horas, cinco minutos e trinta e dois segundos para descobrir o que foi dito na audição de uma senhora com vasto currículo ao serviço do CDS e do regime. As pessoas normais não o fazem, por excelentes razões: têm bem mais e muito melhor onde gastar o seu precioso tempo. Preferem pagar o preço de ignorarem voluntariamente o acontecimento, ou ficarem involuntariamente na ignorância por ninguém falar dele, ou levarem com interpretações distorcidas de fragmentos tirados do seu contexto. As pessoas normais, na normalidade de serem tratadas como borregos por uma comunicação social que na sua enorme maioria actua como extensão de partidos e grupelhos da direita (inclusive na RTP), fazem construções lógicas a partir de premissas maradas. Uma das ideias indiscutíveis mais populares, também porque difundida e festejada televisivamente por um ilustre Conselheiro de Estado braço-direito de um popularíssimo Presidente da República, é a de que Armando Vara foi condenado sem provas num processo de sucata&robalos para assim poder ser castigado pelo que esse ilustre Conselheiro de Estado declara que o bandido fez na CGD e no BCP. Será verdade que Vara era o “todo-poderoso” na CGD, capaz de dominar os restantes administradores e directores de forma a servir o seu mestre diabólico de nome Sócrates? Poderia alguma vez ter sido verdade esta demente fantasmagoria repetida de forma maníaca por bostas e papada por broncos?

Não era necessário esperar pela audição de Celeste Cardona para sabermos que uma pulhice é uma pulhice. Vamos na 2ª comissão de inquérito parlamentar à Caixa e ainda não apareceu ninguém que tenha deixado a menor das dúvidas acerca da legalidade e controlo administrativo dos processos internos, inclusive nas decisões de crédito no centro das explorações políticas. Aspectos questionáveis existiram, existem e existirão sempre neste banco e em todos no Mundo, mas um cenário de manipulação criminosa por um Governo socialista de uma entidade também nas mãos do PSD e do CDS é bojarda insana. Como explicar, então, que se continue a usar a calúnia para encher o espaço mediático dominado pela direita? Ouvir Celeste Cardona e depois ir à procura dos ecos e efeitos das suas declarações é uma lição a respeito do fenómeno. Os editorialistas, colunistas e políticos que andam há anos a berrar contra o alegado uso da CGD pelo PS de Sócrates para tomar o controlo do BCP ficaram calados. Naquilo que se chama a “opinião” não se inscreve o que Celeste Cardona jurou ter testemunhado e assumido. Problemazito: o que ela revela prova estarmos perante um crime, sim, mas não cometido por Vara. E não há quem se atreva a desmentir a sua palavra.

Quando à direita a política se reduz à mais obscena e raivosa calúnia, e quando à esquerda se pactua com essa calúnia por razões ideológicas (os bancos, o dinheiro, o capitalismo e os “falsos socialistas” não prestam, cantarolam PCP, BE e quejandos), esperaríamos do PS, o alvo sistémico, e do Presidente da República, o suposto garante da integridade da democracia e da decência na República, uma intervenção célere e corajosa na defesa do Estado de direito. Estão em causa as instituições Justiça e Parlamento, será coisa pouca? Acontece que Palácio de Belém, São Bento e Rato pretendem deixar que Vara e Sócrates continuem a ser linchados mesmo que se torne crescentemente patético tentar conciliar os interesses subterrâneos do regime com o princípio da razão suficiente. Aparentemente, neste momento todos os agentes políticos com fáctico poder ganham com este circo onde dois bodes expiatórios vão servindo para entreter a turbamulta e os profissionais da canalhice que a açulam. Resta, no espaço público onde somos comunidade, esse oásis da ARTV para qualquer um que prefira passear-se neste planeta sem ser enganado por aldrabões e seus patrões.