Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Revolution through evolution

More schools, more challenging assignments add up to higher IQ scores
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IQ of children in better-educated households is higher
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Exercise linked to improved erectile, sexual function in men
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Sleep loss tied to emotional reactions
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Zinc deficiency linked to immune system response, particularly in older adults
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The challenges for anthropologists when they’re the expert in the courtroom
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Study provides academic support for new Steve Jobs portrayal

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Parabéns

Nesta edição do Eixo do Mal conseguiu-se um raro momento de televisão. Aliás, único, irrepetível. Aconteceu no genérico final, no seguimento da bela homenagem a Herberto Helder servida pelo dizer de Fernando Alves, e também das admiráveis palavras do Daniel pedindo respeito pela memória do seu pai.

Na usual sequência de planos com que se encerram os programas, captando a descontracção da equipa em off, vimos desta vez o estado de silenciosa e profunda comoção de quase todos. Menos do Daniel. O realizador decidiu não nos deixar espreitar para o seu rosto, fosse lá o que fosse que estivesse a manifestar, se é que estava visível.

Então, aconteceu isto: em vez da obscenidade imbecil da pergunta “O que sente/sentiu?” com que invariavelmente os jornalistas violentam os entrevistados, especialmente em contextos de sofrimento, e que na ocasião estaria a ser feita pelo voyeurismo sobre o luto de um filho, aqui a televisão mostrou que sabe ser humana, que sabe amar.

Muito obrigado.

Felícia Cabrita “et al”: é demais

“Há limites para a infâmia

Já não surpreende que o tabloidismo militante não tenha limites nem escrúpulos na campanha de condenação preventiva de José Sócrates antes sequer de qualquer acusação, espezinhando todas as normas deontológicas do jornalismo e a integridade moral das pessoas. Já é demais, porém, que a imprensa de referência também replique e veicule histórias como a de que o livro de Sócrates sobre a tortura foi escrito por outrem.
Sobre o assunto, cumpre-me dizer o seguinte: por iniciativa minha, tive a oportunidade de acompanhar a feitura da tese de mestrado de Sócrates que veio a dar no referido livro; enviou-me sucessivamente o draft de cada capítulo, tendo eu feito algumas observações e sugestões pontuais (incluindo bibliografia), sobretudo quanto aos aspetos constitucionais e afins do tema, que o autor em geral acolheu, mas nem sempre; tive também oportunidade de conversar ocasionalmente com ele sobre alguns dos temas da tese, sendo óbvio o seu domínio e à vontade na matéria. Sei também, por me ter sido dito por ele, que submetia o seu trabalho a outras pessoas, que igualmente contribuíam com críticas e observações, a quem agradeceu depois no prefácio do livro, como é de regra.
Nada disto — que é normal numa tese académica — é compatível com a tese de um trabalho apócrifo. Há limites para a infâmia.

Adenda
Se, com a prestimosa cooperação da imprensa, a acusação continua a recorrer a estes golpes baixos para uma continuada operação de “assassínio de caráter” de Sócrates , é porque falta “corpo de delito” para sustentar a acusação pelos crimes que lhe são imputados, passados todos estes meses de investigação.”

(do blogue Causa Nossa)

9525

Em todas as tragédias da aviação comercial os jornalistas contam histórias daqueles que tinham previsto voar no avião fatídico, alguns já com bilhete comprado, e que, por isto ou por aquilo, quase sempre uma futilidade qualquer, não chegaram a embarcar.

A nossa resposta é invariavelmente a mesma. Sentimos a alegria de quem escapou à morte certa, ficamos aliviados com a descoberta dos ressuscitados. A roleta que os salvou sobrepõe-se ao silêncio devido aos mortos e dança à nossa frente provocadora, pedindo para lhe chamarmos providência.

Não sei. Espero nunca vir a saber. Mas imagino que essas notícias aumentam a dor de quem perdeu os seus. Não por uma qualquer inveja nascida no desespero apontada à sorte desses que escaparam, antes pela exibição implacável, irremissível, do absurdo que nos trouxe e nos leva.

Prisão preventiva por defeito

Um dos maiores insultos que se pode fazer à estrutura neuronal dos indígenas é dizer que a “Operação Marquês” não configura um processo também político. Só António Costa, por razões institucionais, ou Ana Gomes, por razões disfuncionais, é que conseguem largar essas bacoradas na via pública sem corarem. Eis os modos em que a detenção e prisão de Sócrates se constitui como um inevitável e escabrosamente complexo caso político:

- Sócrates foi secretário-geral do PS.

- Sócrates foi primeiro-ministro.

- Sócrates é arguido por suspeitas de corrupção, e crimes vários, que remontam ao seu exercício como primeiro-ministro.

- É a primeira vez que um ex-primeiro-ministro é constituído arguido sob tais suspeitas (ou outras).

- A prisão de Sócrates coincide com a subida à liderança do PS de Costa.

- A prisão de Sócrates, inevitavelmente o processo da investigação, poderá estender-se por todo o ciclo eleitoral próximo, tendo o caso potencial para atingir ciclos eleitorais seguintes calhando chegar a tribunal.

- O julgamento moral no espaço público da eventual culpabilidade de Sócrates contamina o debate político acerca das suas decisões governativas e do modo como Portugal foi obrigado a pedir um resgate de emergência, contribuindo para apagar/ilibar o papel da oposição ao tempo, especialmente da direita e do seu subsequente logro eleitoralista e fanatismo além-Troika.

- As violações do segredo de justiça, as campanhas de assassinato de carácter e o alarme público à volta deste caso condicionam a relação da opinião pública com o PS e poderão levar a um aumento da abstenção.

- A qualquer momento, mais figuras ligadas à governação socialista poderão ser inquiridas e serem constituídas arguidas; eventualmente alguma, ou algumas, com actuais responsabilidades políticas no PS.

- Todos os partidos, à excepção do PS, irão, de alguma forma, usar a situação judicial de Sócrates como arma de arremesso eleitoral.

- Existem irregularidades no processo da detenção e prisão de Sócrates, assim como permanece um factual desconhecimento dos actos de corrupção que estejam em causa.

- A notoriedade deste caso, chegando ao conhecimento de toda a comunidade e prolongando-se com esse realce num tempo longo, é uma ocasião de grande visibilidade para os mecanismos e agentes da Justiça, daí decorrendo que seja igualmente uma ocasião de especial oportunidade para corrigir eventuais erros ou imperfeições nas instituições e organismos envolvidos.

- A Justiça recebe a sua autoridade e independência do Soberano; logo, tudo o que é da Justiça é, antes e depois, da política.

Por esta juliana, mais o resto que cada um poderá acrescentar, o melhor para o PS seria antecipar-se à fatal imprevisibilidade da investigação em curso e falar da forma mais descomplexada – e republicana – possível sobre o que se vai sabendo. Não é essa a escolha de Costa, infelizmente, mas já foi a de Paulo Pedroso e a de Rui Pereira. Deste último temos um excelente contributo em entrevista a Vítor Gonçalves. O ex-ministro da Administração Interna dos dois Governos de Sócrates apresentou-se sem o mínimo sinal de perturbação ou descontrolo emocional, mantendo uma imaculada pose de estadista, tendo sido pedagógico e acutilante. Exemplo paradigmático de como se pode, e deve, participar na cidade perante um caso tão difícil, em especial para quem serviu em Executivos agora sob uma generalizada suspeita de corrupção.

Rui Pereira chama a atenção para um aspecto que ainda não tinha visto ser tratado por alguém, nem sequer pela defesa de Sócrates. Ele realça que a prisão preventiva tem de ser justificada não só com as ameaças invocadas pelo Ministério Público mas também com as medidas de menor restrição da liberdade do arguido. E daí a pergunta que deixa: mandar Sócrates para prisão domiciliária, sem poder contactar terceiros, não seria suficiente para garantir ao MP a recolha de provas e de testemunhos? Se não era, porquê? Obviamente, creio que nunca saberemos a resposta, pois não é crível que exista.

Resulta desta coragem política, e da lhaneza cívica associada, que Rui Pereira tem o seu capital de autoridade moral intacto, mal-grado as circunstâncias tão adversas em que intervém. E isto apesar de lhe ter saído, lá para o final da entrevista, uns sons parecidos com “Sou comentador na CMTV”. Não fui confirmar por não ser preciso. Tratou-se apenas de uma alucinação auditiva da minha parte, ofuscado pelo brilhantismo da sua prestação.

Herberto

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.

Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
─ Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.

De paixão.

Marcelo pede celeridade a Rosário Teixeira


by Sítio com vista sobre a cidade

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Marcelo Rebelo de Sousa disse ainda que «no PSD, há muito boa gente que pensa que vai haver outros arguidos membros do Governo de José Sócrates». «E se um antigo ministro, um ex-secretário de Estado são constituídos arguidos, então o PSD passa a ter aqui um palco de campanha política. Isto já não é o homem é a governação…», acrescentou.

Mas se acontecer de serem constituídos novos arguidos dentro do elenco governativo de José Sócrates, o timing em que isso acontecer pode condicionar em muito o desenrolar da campanha eleitoral para as legislativas: «Se for até ao verão, isso é muito mau para o PS. Se for depois do verão, já ninguém tirará da cabeça dos portugueses que houve uma gestão política do processo».


Fonte

Talvez um dia

A campanha eleitoral do PSD e CDS vai ser uma réplica radicalizada da campanha que fizeram para as europeias. Vão voltar a usar o Memorando para atacarem o PS e apresentarem-se como salvadores da Pátria, passada que está há muito a fase em que reclamavam ser os seus inspiradores e influenciadores e querer ir muito para além desse tímido projecto de refundação nacional. As verdadeiras razões da baixa de juros serão ocultadas e substituídas pela mitomania do sucesso das “reformas”, o eufemismo laranja para “empobrecimento dos mandriões e estroinas que achavam que tinham direito a viverem remediados e com módica segurança”. Os números do desemprego serão exibidos triunfalmente como se não existisse um flagelo social, as consequências da crise embrulhadas no “o pior já passou, vem aí a fartura” com o laçarote “e a culpa do que doeu e fez vítimas foi dos socialistas”. O espantalho do regresso dos socráticos será agitado directa e indirectamente, usando-se a prisão de Sócrates para tentar contaminar Costa. Será um recurso explorado tão mais raivosamente quão piores estiverem as sondagens. Passos Coelho já o fez num contexto onde nem sequer tal seria previsível, muito menos benéfico para a sua imagem, pelo que a mesma pulsão entre os seus tenentes e arraia-miúda será algo completamente incontrolável.

O que leva a que a direita se permita uma campanha que é a Parte II do logro que foi a campanha de 2011, se esquecermos o seu estado decadente, tem uma singular causa: a esquerda não irá tocar no tema das razões objectivas do pedido de resgate. PCP e BE porque são cúmplices directos, e o PS porque começou por subscrever a versão da direita, com Seguro, e porque agora não se quer meter nisso, com Costa. Os cofres estão cheios de dinheiro e de uma postura que trata o eleitorado como um conjunto de borregos dispostos a paparem qualquer coisa que se lhes diga, inclusive que o Sol até mete frio.

Façamos um exercício mental. Imaginemos que PCP e BE, juntos ou separadamente, tinham ganhado as eleições de 5 de Junho de 2011. Provavelmente, aceitariam finalmente governar. E que fariam? Como é que estes dois partidos tratariam dos problemas que à época condicionavam a política nacional e europeia? Ambos tinham prometido recusar a Troika e o pagamento da dívida, pelo que algo nunca visto desde 1975 voltaria a atravessar o nosso jardim atlântico. Passariam imediatamente para a nacionalização da banca e das grandes empresas? O escudo voltaria de surpresa durante um fim-de-semana? Faríamos um pacto económico e militar com a China, Cuba e Albânia? Ou iriam imitar o que o Syriza (não) tem feito até à data? Com Jerónimo e Louçã, ou só um deles, tais mariquices não teriam lugar, pelo que algo apenas ao alcance da esquerda realmente pura e verdadeira iria mesmo acontecer. E com que consequências económicas e sociais? E no final desses 4 anos de revolução, com as convulsões gigantes inerentes e a pressão internacional, voltariam a ganhar as eleições?

A nossa experiência mental serve para validar e ilustrar os resultados das eleições em 2011. Os eleitores recusaram confiar ao PCP e/ou ao BE a resolução de uma crise aberta também por causa do seu voto no Parlamento. O que nos leva para o seguinte corolário: as propostas comunistas e bloquistas não faziam parte da solução, antes foram parte do problema que atingiu o País e que o levou para o resgate de emergência. Chegados a esta evidência, é fácil reconhecer que as propostas do PSD e do CDS eram análogas às do PCP e BE, pois o que a direita prometeu ao eleitorado foi uma solução que igualmente não era exequível. Dado que nenhum partido em Portugal iria ser capaz de fugir aos constrangimentos europeus à época, a única alternativa era entre um programa europeu executado por quem pretendesse defender os portugueses ou esse mesmo programa piorado e executado por quem estivesse disposto a sacrificar os portugueses para ser poder.

Talvez um dia apareça algum político, ou força política, que faça desta história uma lição.

Revolution through evolution

Some things hugs can’t fix: Parental warmth does not remove anxiety that follows punishment
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Direct Engagement with Constituents a Plus for Political Leaders
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Laughter is an effective catalyst for new relationships
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Trust increases with age; benefits well-being
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Mental health misdiagnosis twice more likely for socially disadvantaged groups
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‘Distracted driving’ at an all-time high; new approaches needed, experts say
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Buyer’s remorse: Model shows people demand all that bad news

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Septimana horribilis

João Araújo teve uma semana desgraçada, tanto para a defesa do seu cliente Sócrates como para a sua imagem de advogado competente e digno. Por um lado, viu dois tribunais, e seus colectivos de juízes, concordarem com Rosário Teixeira e Carlos Alexandre quanto ao essencial do processo. Por outro lado, a forma como se apresentou aparentemente descontrolado e indubitavelmente violento nas declarações aos jornalistas leva a acreditar no teor da sua primeira chalaça ao chegar ao Campus de Justiça, tinha Sócrates sido detido na noite anterior, quando se descreveu como “advogado estagiário”.

No ataque à jornalista do CM, acreditando piamente que possa ter sido um acto involuntário, saiu-lhe um insulto que é um clássico da misoginia. Conseguiu fazer da Tânia Laranjo (um nome que é um destino) uma vítima a merecer a solidariedade de toda a classe jornalística, a qual foi igualmente atacada com a mesma fúria, e ainda conseguiu despertar um sentimento de asco na grande maioria, talvez totalidade, das mulheres que tomaram conhecimento da cena. Que ganhou com esse número? Nada de nadinha de nada, é só prejuízo, para si e para Sócrates.

Todavia, o mais grave no seu comportamento irracional estava guardado para Évora nesse mesmo dia. Foi à saída do Estabelecimento Prisional que se lembrou de disparar contra Costa Andrade. De facto, havia por onde pegar no plano de argumentação jurídica, mas o nosso Araújo resolveu – e aqui aparentemente de cabeça fria – espalhar suspeições difamatórias, sugerindo que existiria alguma coisa errada relativamente a supostas viagens de avião do Professor de Coimbra. Ora, havendo ou deixando de haver, ao recorrer à pulhice obriga a que tudo e mais alguma coisa que tenha dito e feito até agora seja reavaliado a outra luz. Pela simples razão de ser inadmissível atentar contra o bom nome de terceiros, para mais enquanto advogado e, por cúmulo, andando a denunciar aqueles que fazem o mesmo contra um cliente seu. De resto, que se pretendia atingir com esse assunto? É incompreensível. O episódio fica especialmente absurdo dado ser provável que Sócrates nunca tenha lançado qualquer suspeição nem difamação enquanto teve responsabilidades políticas ou depois. Seguramente, nenhuma deste calibre chunga da referência às viagens. Donde, esta cagada faz parte de alguma estratégia ou será a prova de não haver estratégia alguma?

Finalmente, Araújo e Delille anunciaram em modo de farronca que vão tentar derrotar a Justiça portuguesa por atacado, procurando impugnar as decisões do Supremo e da Relação, embora sem revelarem onde nem como. Com isso, terão levado a plateia para onde falam a ficar quase vazia, pois a percepção no espaço público da culpabilidade de Sócrates nunca esteve tão alta; e aumenta a cada novo dado que a acusação lança sobre as trocas e baldrocas de dinheiros entre Santos Silva e Sócrates.

Foi uma semana de perdas sucessivas, e perdas graves, para a causa da inocência de Sócrates. Contudo, não serei um daqueles que irá desistir de estar na plateia a dar atenção à sua defesa. Continuo a pensar exactamente o mesmo que pensava a 24 de Novembro de 2014 e dias, semanas e meses seguintes. E o mesmo que pensei em todos os casos, desde 2005, em que Sócrates foi alvo de campanhas negras, investigações e ódio colectivo. O que penso é simples, e é belo: o Estado de direito, mais do que nos proteger uns dos outros, serve para nos proteger de nós próprios.

Moedas no lixo

Segundo Carlos Moedas, que é um dos principais conselheiros do presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, os mercados "olham para uma nova equipa de gestão como uma boa notícia", porque "há muito tempo não dão credibilidade ao Governo português".

No seu entender, "assim que os mercados incorporem a informação de que o PSD vai respeitar as metas do défice, e fará tudo o que for necessário para que se cumpram essas metas, até porque foi o PSD que sempre anda atrás do Governo para cortar, essas agências voltarão a dar credibilidade a Portugal".

"Com as reformas que o PSD vai implementar, eu digo-lhe que ainda vão subir o 'rating', não sei se nos próximos 6 meses, se nos próximos 12 meses - ainda não se sabe quando haverá um novo Governo", acrescentou.

Março, 2011

Standard & Poor's mantém "rating" de Portugal no "lixo"

Março, 2015

Há dois testamentos que estão a faltar

Suponhamos que Carlos Santos Silva tinha um azar e morria. Os milhões que alegadamente pertencem a Sócrates passariam a pertencer à família de Santos Silva por herança. A contrario, caso Sócrates tivesse um azar e desaparecesse, os seus herdeiros ficariam a ver navios quanto aos milhões que alegadamente lhes deveriam caber por herança. No reino das espantações e da incredulidade em que os senhores magistrados decidiram viver, ao ponto de se valerem de provérbios populares para manter um homem preso sem culpa formada, tanto desprendimento, desprezo pelos seus e generosidade por parte de Sócrates não será credível. Falta também aqui outro provérbio.

O estranho caso da lista que apareceu por geração espontânea

Na sequência da demissão do Director Geral da Autoridade Tributária e Aduaneira, noticiada hoje, Paulo Núncio lá admitiu a existência de “irregularidades internas na AT”. Ou seja, admitiu que a lista de contribuintes VIP, afinal, sempre existe. Acrescentou ainda que só no início da semana foi informado da existência de indícios das tais irregularidades e que de imediato ordenou a abertura de uma investigação. É caso para perguntar por onde tem andado o secretário de Estado. É que a acção de formação de inspectores estagiários, onde foi revelada a existência da lista, ocorreu em 20 de Janeiro e o sindicato dos trabalhadores dos impostos anda há semanas a denunciar a existência de processos disciplinares a funcionários por andarem a meter o nariz onde não devem.

Mas nada disto intrigou Paulo Núncio, que nada viu nem ouviu, e muito menos o levou a averiguar o que quer que fosse. Vai daí, quando confrontados, ele e o primeiro-ministro, negaram que tal coisa existisse. Ficámos assim a saber que os nossos governantes primeiro negam, com base sabe-se lá em quê, e só depois é que mandam investigar. Pois eu creio que não é preciso investigar muito para descobrir miúdos de 5 anos mais competentes a mentir.

Relação e ralação

A decisão do Tribunal da Relação de Lisboa, ao manter a prisão preventiva de Sócrates, é um doloroso golpe contra a sua estratégia de defesa. Por um lado, descredibiliza as afirmações feitas até hoje por João Araújo acerca da inevitabilidade da libertação à luz da correcta interpretação da Lei. Por outro lado, reforça a postura e imagem de Rosário Teixeira e Carlos Alexandre ao vir reconhecer a existência de “fortes indícios” de prática criminal. Obviamente, a presunção de inocência mantém-se no plano da legalidade, mas agora só um punhado de bravos estará com disposição para a manter no plano da convicção. Amanhã poderá adensar-se este resultado caso o recurso de Santos Silva seja igualmente indeferido pela Relação. Só na eventualidade de diferentes juízes considerarem de forma radicalmente diferente os mesmos indícios é que se poderia dar uma volta-face na percepção pública.

Este é o cenário actualizado, e ele leva-nos para uma sequente reflexão acerca da prisão preventiva e do que Sócrates foi expressando mediaticamente após o seu início. Para além de se declarar inocente com veemência, as visitas de amigos e camaradas foram valorizadas pelo próprio como manifestações de solidariedade com esse estatuto. Particularmente significativo foi o seu diálogo, privado e também publicitado, com Mário Soares. O ex-Presidente da República, ex-secretário-geral do PS e uma das mais importantes, se não for a mais importante, figura da consolidação da democracia em Portugal, batalhou com todas as forças que lhe restam pela libertação incondicional de Sócrates dado acreditar absolutamente na sua inocência. Mais: por acreditar que está a ser vítima de uma golpada política. Ora, no caso de os indícios virem a dar lugar a provas, e as provas a uma acusação, esta parte do período relativo à prisão preventiva de Sócrates seria um acrescento de supina ignomínia àquele que por si só já ficaria como um abalo histórico de consequências imprevisíveis na relação dos portugueses com a classe política e com o PS. A gravidade cultural, no sentido em que afecta a identidade da comunidade, deste caso não tem paralelo na memória viva.

Colhe ainda reconhecer que mesmo numa situação em que Sócrates não fosse acusado de coisa alguma, mas onde Santos Silva acabasse como culpado de fraude fiscal, tal continuaria a atingir com um impacto perto do máximo a sua reputação. Porque teria beneficiado de um crime, ainda que alegasse desconhecimento. Donde, a presente situação de Sócrates só poderá levar a um resultado positivo para o seu futuro – seja qual for a dimensão; política, cívica ou profissional – caso saia ilibado no plano judicial e moral. Irá isso acontecer? Impossível prever, embora a acusação esteja a ganhar em toda a linha, até se permitindo cometer irregularidades processuais e alimentar um clima de assassinato de carácter e julgamento popular sistemático sem que alguém na República pareça ter poder para o impedir.

É com grande alívio que assisto a este caso. Porque um ciclo de descoberta de quem somos se irá cumprir com o seu desfecho. Se Sócrates estiver inocente, decorre que muitos dos que detêm poderes fácticos em Portugal não passam de canalhas. O interesse desta descoberta não estará na banalidade da abstracção, mas por os ficarmos a conhecer melhor e muito melhor. Se Sócrates for culpado, decorre que aos canalhas anteriores teremos de juntar mais uns quantos. Com sorte, apenas uns poucos.