É preciso ter muita lata…

A ministra Cruz disse que só se fala do Citius por causa das reformas da Justiça que ela já fez  e das que vai ainda fazer, porque com isso tocou em interesses e “criou condições para o fim da impunidade”. Por essa razão, disse ela, é que está a “apanhar” – e não por ter emperrado os tribunais todos do país, não senhor!

De facto, não sei se já repararam, a ministra está quase, quase a acabar com a impunidade em Portugal.  Graças sobretudo às tais reformas que ainda não fez, mas que há três anos prometeu fazer. Como aquela famosa “iniciativa legislativa” que ia acabar com os recursos em cascata, as manobras dilatórias de advogados e arguidos e as escandalosas prescrições de processos – uma reforma prometida pela ministra em 2011, para acabar de vez com a tal “impunidade”.

Cadê essa reforma, Madame Cruz? Cadê ela?

O que se passou foi que logo em 2011 apareceram uns tantos advogados, penalistas e outra gente do seu partido (pessoas que não representam interesses nenhuns, não é, Madame?) a atacar a prometida reforma, sustentando que não era preciso mudar a legislação, que a lei já continha instrumentos para combater a litigância de má-fé, etc., etc. Esses argumentos esperavam que a estupidez natural do público o impedisse de perguntar: – Se as leis que há já são boas e suficientes, porque continuam a existir manobras dilatórias, litigância de má-fé e prescrições escandalosas em cascata?

O que é certo é que a ministra nunca mais falou da tal iniciativa legislativa. E agora tem a lata de vir dizer que as suas reformas tocaram em interesses!

“Behind closed doors”

Barroso não gosta de certos assuntos na praça pública. Mas é o «público» que sofre com a ortodoxia euro-alemã.

 

Angered by EU criticism of Italy’s proposed budget for 2015, Prime Minister Matteo Renzi has warned that his government is “going to have some fun” publishing details of the cost of European institutions.

Renzi’s comments, made on the sidelines of an EU summit in Brussels on Thursday, mark the latest twist in a mounting row over Rome’s proposed budget for 2015, which has come under fire from the EU Commission.

Earlier in the day, the Commission’s outgoing chief Jose Manuel Barroso had vehemently criticized the Italian government’s decision to publish a letter from the EU requesting clarifications on the budget.

The letter, signed by the EU’s Economic Affairs Commissioner Jyrki Katainen, was marked “strictly confidential”.

Slamming Rome’s “unilateral” decision, Barroso said the Commission preferred that budget talks with member states take place behind closed doors.”

Em Bruxelas, alemães, alemães por todo o lado

Quando o espaço vazio é ocupado pela Alemanha.

Apelo ao vosso francês para lerem este artigo do Libération sobre a Europa e a nova Comissão. O artigo é de um francês, o que influencia a perspetiva, mas não há como não aderir.

Une Europe trop allemande?

Excerto:

“[...]Ce n’est pas un hasard si le cabinet du président de la Commission est dirigé par un chrétien-démocrate allemand, Martin Selmayr. Même si les équipes ne sont pas encore complètes, on compte déjà 5 chefs de cabinets et 3 adjoints, contre seulement 1 « chef’cab » français (Olivier Bailly chez Pierre Moscovici) et 1 adjoint (Éric Mamère chez Günter Öttinger, le commissaire allemand). Et parmi les simples conseillers, le déséquilibre est le même. Dans l’administration, le poids allemand se fait aussi sentir : 8 directions générales sont aux mains des Allemands contre 4 pour les Français. Mieux : le prochain chef du service juridique sera Allemand et il n’est pas impossible que le futur secrétaire général de la Commission –la véritable tour de contrôle de l’exécutif communautaire- le soit aussi. La France a du batailler ferme pour garder la direction du Service européen d’action extérieure que la chancelière avait réclamé pour prix de son accord à la désignation, le 30 août, de l’Italienne Federica Mogherini comme ministre des Affaires étrangères de l’Union.[...]

Universidade Tecnoforma de Cabo Verde – Mestrados

A UTCV tem o prazer de anunciar ao público em geral, e aos militantes do PSD com as quotas em dia em especial, que estão abertas as inscrições para os seguintes mestrados:

Mestrado em Malabarices

Mestrado em Porcarias na Ventoinha

Mestrado em Regabofes

Mestrado em Desvios Colossais

Mestrado em Custe o que Custar

Mestrado em Terramotos Judiciais

Mestrado em Deslocalização de Professores

Mestrado em Os Pobres que Paguem a Crise

Mestrado em Despesas de Representação

Mestrado em Sacudir as Responsabilidades do Pacote

Incerteza

A palavra é incerteza. Para não dizer outras. Três anos sem saber do dia seguinte. Três anos sem saber do montante do salário ao fim do mês. Três anos sem saber do valor da reforma ou da pensão ao fim do mês. Três anos sem saber se direitos cravados a tinta permanente seriam ou não apagados. Três anos sem saber se os serviços públicos, se o Estado próximo de nós, se deslocaria para centenas de quilómetros de distância. Três anos sem saber se o emprego se mantém, se vira precário, se evapora ou se convida à emigração. Três anos sem saber se ser viúvo ou viúva merece castigo. Três anos sem saber se a linha de pobreza rasgada com prestações sociais seriam revogadas, porque sim. Três anos sem saber por que se negoceia com técnicos estrangeiros do lado de lá da mesa e não em nome dos interesses dos portugueses. Três anos sem saber que afinal a escola não é a tempo inteiro e que a educação não cheira a soberania. Três anos sem saber qual será a próxima empresa estratégica a ser oferecida em regime de monopólio. Três anos e 12 orçamentos de estado.

Sempre a estratégia da incerteza. Apresentado aos bocados. Vai-se sabendo. Não havia aumento de impostos. Mas há. As famílias com mais de dois filhos seriam as beneficiadas. Mas ao lado os custos de todos os consumos explodem e afinal há uma cláusula de salvaguarda para as famílias sem filhos.

Uma certeza: a devolução parcial dos vencimentos dos funcionários públicos e fim parcial da CES. A certeza foi imposta pelo Tribunal Constitucional, claro.

Exactissimamente

Um fracasso monumental e trágico

De que faço este crucial destaque:

«Nestas calamitosas condições, é preciso muita desfaçatez da direita para se apresentar como "salvadora do descalabro financeiro da pátria". Gritante e incompreensível, a não ser por clubismo político-partidário redundando numa escandalosa dualidade de critérios (vide discurso de posse do Presidente da República em 2011), é o silêncio do Presidente. Infelizmente, sabemos que até aqui, no consulado de Seguro à frente do PS, os socialistas contemporizaram com este trágico e monumental fracasso, quanto mais não seja pela permanente disponibilidade para negociar com um Governo ilegítimo (não do ponto de vista da legitimidade eleitoral formal, mas sim por governar sem mandato político). Porém, tendo em conta a calamitosa situação da dívida pública portuguesa, não se percebe também que a nova direção do PS persista em não tomar uma posição sobre o assunto, para levar a votos e lhe dar força negocial na Europa. Mais: será até suicidário se o PS, porventura, vier a estar disponível para reciclar e branquear este legado fracassado da direita numa eventual "grande coligação" após as legislativas de 2015.»

Mas anda alguém a estudar isto?

Homem que terá matado por ciúmes a mulher e a filha fica em prisão preventiva

A PJ acredita que o suspeito agiu de forma consciente e que o mesmo não estaria afectado por qualquer quadro psíquico que possa vir a determinar a sua inimputabilidade.

A mulher de 47 e a sua filha de 16 anos foram esfaqueadas. Morreram à porta de casa. Tentavam fugir do companheiro e pai que empunhava a faca de cozinha. À chegada, a GNR ainda ouviu uma delas a pedir socorro e arrombou a porta, mas já nada havia a fazer.

As vítimas tinham vários golpes no peito e abdómen. Tinham também diversos golpes nos braços, um tipo de ferimento que indicia que se tentaram defender dos golpes, apontou fonte policial.

O Estado da Nação assim o exige

Creio que o dr. Relvas devia apresentar-se no Ministério da Educação em ordem a pôr a sua formação académica ao serviço da recuperação das aulas perdidas e demais apoios aos alunos vitimizados pela revolução liberal em curso. Poucas tarefas há que sejam mais nobres do que o ensino e uma figura que tanto já deu a Portugal em áreas tão diversas – que vão desde a aeronáutica aos ranchos folclóricos, chegando às mentiras no Parlamento a respeito da intimidade com espiões e às chantagens sobre jornais e jornalistas, passando pela facilitação de negócios e ofensas soezes a familiares de adversários políticos – pode dar aqui e agora um exemplo mobilizador para resolver, ou aliviar, a crise na Educação. Aliás, se há ambiente vocacionado para a procura do conhecimento permanente, esse é o espaço pedagógico.

Relvas, volta para a escola.

O ministro Pires

No dia 14 do corrente, António Pires de Lima foi à Comissão Parlamentar de Economia. Perto do final das quase 3 horas que durou a sessão, aparentando estar em plena posse de funções públicas e cognitivas numa sala da Assembleia da República, lembrou-se de partilhar com o País o que pensava enquanto ministro acerca do presente e do passado da PT. E que era isto:

- Os problemas actuais da PT foram causados no passado.

- Esse passado começa com os Governos de Sócrates e termina com os Governos de Sócrates.

- Nesse passado, os Governos de Sócrates interferiam na PT, daí os problemas actuais.

- Nesse passado, o Governo de Sócrates usou a Golden share para impedir que a Sonae comprasse a PT.

- Nesse passado, o Governo de Sócrates obrigou a PT a fundir-se com a Oi, daí os problemas actuais.

- Ah! E também nesse passado, o Governo de Sócrates meteu uns malandros no BCP que deram cabo daquilo.

Estas declarações geraram a resposta de Paulo Campos que este vídeo documenta:

Paulo Campos é o tal ex-secretário de Estado de Sócrates que desviou centenas de milhões de euros para empresas amigas envolvidas nas PPP, tal como o Correio da Manhã e a Ana Gomes conseguirão provar assim que o entenderem. Por sua vez, Pires de Lima é filho desse outro Pires de Lima que aproveitou uma ida ao Crespo, em 2010, para tratar o primeiro-ministro da altura como um “aldrabão de feira”. Last but not least, o Pires de Lima filho, nesta sessão da comissão parlamentar, também se referiu ao ambiente de feira para carimbar a reacção dos deputados do PS que o ouviam, algo que o presidente da comissão, Pedro Pinto do PSD, repetiu com gosto. Estamos assim entre aldrabões e feirantes, embora não necessariamente por esta ordem.

Campos falou de factos. Os factos mostram que o ministro da Economia, na Assembleia da República, mentiu de forma grosseira a respeito de acontecimentos indiscutíveis. Com base nessas mentiras, lançou suspeitas, difamações e calúnias. E ainda terminou o exercício de emporcalhamento do seu estatuto, do seu papel e dos seus deveres com o ar de satisfação que as imagens registam. Obrigado a responder à exposição da sua indecorosa violação da decência, começa por revelar ao mundo que “os factos são factos“. E depois repetiu a dose, incapaz de assumir qualquer responsabilização pelos seus actos oficiais e públicos.

Repare-se como esta figura caricata, dada como potencial candidato a suceder a Portas e vista como uma jóia de competência política nos depauperados recursos humanos do CDS, encheu a boca com a “moral” e a “ética” para mais uma dose de velhacarias paga pelo Estado e acaba exibindo-se como o familiar aldrabão de feira do imaginário paterno. Aliás, seria lindo vê-lo a discursar livremente sobre o que considera ser a moral e a ética, mas os deuses nunca nos concederão essa benesse, tenho a certeza.

Falar da decadência da direita é falar disto. Um discurso que não passa da repetição do que de mais básico existe na cultura política oligárquica, a qual é uma praxis violenta que ambiciona sempre a destruição do adversário. Não o podendo fazer com armas, faz-se pela mentira. Um ministro da Economia que dá mais importância à celebração da sua pessoa do que ao conhecimento acerca do uso de uma Golden share, que precisa de citar entrevistas facciosas, que recorre à desonestidade intelectual inane do “toda a gente sabe” é, verdade seja dita, um ministro pires.

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Apêndice 1

Pires de Lima termina a sua intervenção fazendo um elogio a Mariana Mortágua a propósito da discussão sobre a PT. Que se terá passado? Que levou a pulhice a louvar o que resta da “esquerda grande”? Explica-se sem esforço: Mortágua disse que no tempo de Sócrates havia interferências na PT. Não explicou quais, nem como, apenas repetiu a cartilha da direita. E ganhou um rebuçado.

Apêndice 2

No Política Mesmo, no mesmo dia, Paulo Magalhães preparava-se para encerrar o bloco com Santos Silva dizendo que já não tinham tempo para falar das “interferências governativas na PT” aquando dos Governos de Sócrates, mas que o fariam numa outra oportunidade. Santos Silva não deixou passar essa insinuação dada como facto e de imediato explanou o sentido de haver uma Golden share e de como ela servia tanto para dar alcance estratégico internacional como para controlar desvios numa empresa com a dimensão e valor da PT na altura. Era a perda da Golden share, deixando a empresa totalmente nas mãos dos accionistas, que teria dado origem à sua implosão adentro da implosão do império BES.

O que este episódio revela é a promiscuidade entre jornalistas e as agendas políticas avulsas, pois Paulo Magalhães é um profissional que mantém regular equidade e pose sóbria mas que aqui aparece a espalhar uma ideia que serve apenas um dos lados do combate político. Fazer jornalismo é outra coisa.

Revolution through evolution

Partisan lenses: Beauty lies in your political affiliation

Is reheated pasta less fattening?

Cadavers beat computers for learning anatomy

Myth-conceptions: How myths about the brain are hampering teaching

Price Check: Cost Doesn’t Signal Quality

How to Solve the Nation’s Math Crisis? Tap into Everyday Examples of Calculus in the World Around Us

Uncertain Reward More Motivating Than Sure Thing, Study Finds

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Três em um

O projecto de revolução, perdão, o projecto de resolução que o PCP apresentou há dias no parlamento, a que se chamou “três em um” e que, como previsto, foi chumbado por quatro quintos dos deputados, advogava, sob a forma de eufemismos, três grupos de medidas.

Primeiro, a “renegociação da dívida”, que propunha basicamente o não pagamento de “pelo menos” metade do montante da dívida do Estado e a descida dos juros da dívida restante em “pelo menos” 75%, alvitrando ainda que fosse suspenso todo o pagamento da dívida enquanto a sua “renegociação” não fosse concluída (tal como nas greves, enquanto não há acordo).

Segundo, sob o lema da “libertação do país da moeda única” e da recuperação da “soberania monetária”, propunham os comunistas que se iniciassem os preparativos para a saída do euro e, logicamente, o saudoso regresso ao escudo, crismado “nova moeda”, com medidas complementares como o controlo do comércio externo, o controlo administrativo dos preços para debelar a inflação, o “combate à fuga de capitais” e uma interessante conversão de toda a dívida nacional, incluindo a privada, para a nova moeda nacional (esperando talvez que, desvalorizando esta, diminuiria a dívida em euros ou dólares…).

Em terceiro lugar, os comunistas propunham a “recuperação do controlo público da banca comercial e de outras instituições financeiras”, ou seja, um remake perfeito do 11 de Março de 1975 para todo o sector financeiro, começando logo pela intervenção “de emergência” do Estado nos bancos em dificuldades (isto é, em todos).

O Bloco de Esquerda apoiou a primeira e a terceira medidas, abstendo-se na segunda, isto é, o regresso ao escudo, por alguma razão misteriosa.

O projecto de resolução comunista NÃO propunha nem a ressurreição de Vasco Gonçalves, nem a recriação do Conselho da Revolução, nem a reanimação da Aliança Povo-MFA, nem a nacionalização da comunicação social.

Um projecto moderado, portanto.

Cadê o fact-checking?

A primeira vez que a imprensa portuguesa se apressou a fazer um fact-checking deveu-se à entrevista de Sócrates que marcou o seu regresso às lides políticas, agora como comentador. Percebe-se porquê: Sócrates foi sempre um ódio de estimação dos jornalistas, fosse por razões ideológicas tanto de direita como de esquerda – recorde-se o circo de extremistas e fanáticos que rodeava Moura Guedes na TVI no auge da exploração do Freeport, a extrema-direita abraçada à extrema-esquerda nas batidas nocturnas de archote e chicote na mão -, fosse por agendas partidárias, fosse por reacções primárias nascidas da inveja, da soberba, do rancor ou do complexo de inferioridade.

Então, nesses idos de 2013, o regresso de Sócrates correspondia ao regresso do maior mentiroso da História de Portugal. Seria canja apanhá-lo, pois a campanha de assassinato de carácter desenvolvida contra ele postulava que o homem era um mentiroso patológico. Um mentiroso patológico que, por isso mesmo, seria corrupto sem carência de provas e, portanto, tinha levado o País à bancarrota por ser corrupto e mentiroso. Um louco. Esta cassete tocou sem parar, em toda a comunicação social, durante anos – e anos de uma crise de que quase já não havia memória viva de outra equiparável na sua dimensão.

Pois bem, quais foram as mentiras de Sócrates? Tendo em conta que este blogue sempre atraiu taralhoucos e broncos em número avultado, os quais chegam aqui com informação de qualidade acerca das maldades desse génio do mal, peço o favor de as listarem. Prometo que lhes darei destaque integral após concluirmos a recolha.

O objectivo é compararmos factos. Por exemplo, é um facto que Pedro Passos Coelho mentiu quanto pôde na campanha eleitoral. Por exemplo, é um facto que o Governo de Pedro&Paulo mente sempre que se desculpa com o Memorando, o tal documento que pecava por não ir tão longe como o Governo estava disposto a ir no empobrecimento e o tal acordo que foi sendo alterado a cada revisão com a Troika e já sem qualquer negociação com o PS. Por exemplo, é um facto que nem a comunicação social nem o Presidente da República censuram o Governo e os partidos que o apoiam por tantas e tão desvairadas mentiras. Estes são alguns factos, entre muitos outros, a respeito do grau, da extensão e da gravidade do uso da mentira pelo actual poder político, Belém incluído.

Tu, taralhouco, que te deitas e acordas a pensar no Sócrates. Tu, bronco, que achas que Portugal teve de pedir um resgate de emergência por causa do TGV e do aeroporto. Tu, pulha, que só tens espaço livre no bestunto para calúnias. Digam lá. Quais foram as mentiras do monstro?

Chegaste aos 50? Os juízes portugueses decidem que te deves remeter à castidade

Juízes defendem em acórdão que sexo já não é importante aos 50

Uma profunda e larga experiência de vida é fundamental para o exercício pleno da magistratura. Mas quando a experiência individual dos juízes colide com a experiência dos sujeitos das suas decisões em dimensões tão idiossincráticas como aquelas relativas ao “bunga bunga”, ou até a coisas sem qualquer importância como a realização do afecto e a manutenção ou recuperação da saúde mental, então, se calhar, às tantas, os juízes deveriam ser julgados por crimes contra o amor e a liberdade.

Paula Teixeira da Cruz, um exemplo a seguir

A Ministra da Justiça fez a maior reforma dos últimos duzentos anos. Em resultado dessa homérica obra, a Justiça portuguesa recuou dois mil anos. Os processos pura e simplesmente desapareceram do mapa à escala nacional. Que fazer a seguir? Uma ministra normal, sem o estofo desta, teria pedido a demissão, e só depois pediria desculpas. Mas isso seria uma atitude típica do tempo em que reinava a impunidade. Pelo que Paula Teixeira da Cruz começou por pedir desculpas e depois resolveu impor a si mesma o maior castigo imaginável para tamanha irresponsabilidade: pedir a um socrático que a viesse salvar. E ele veio, e ele retirou a Justiça do caos.

Agora só falta aplicar a mesma solução nas restantes áreas governativas, começando pela Educação de forma a evitar que apenas no terceiro período todas as escolas tenham todos os professores. Ao contrário do que disse essa espécie de Presidente da República, problemas como estes não são “recorrentes“. Problemas como estes que conhecemos em 2014 são originais e pressupõem um uso da matemática que transcende a racionalidade humana. São o fruto da “revolução liberal” que veio para acabar de vez com o Estado, e cuja doutrina um dia – um dia! – ainda fará escola numa universidade em Cabo Verde.

Teatro experimental

Foram precisos três anos e um flagrante desastre técnico/concetual, mas com consequências mais vastas, na Educação para um membro deste governo vir reconhecer o «experimentalismo» da sua política. Reconheceu-o Nuno Crato no seu pelouro, mas muitos outros ministros deveriam reconhecê-lo também e depois desaparecer, como não fez Nuno Crato. O experimentalismo deste ministro, porém, não se limita ao sistema de colocação de professores. O caos que este enorme erro gera é imediato e visível, mas o caos e o retrocesso a mais longo prazo gerado por um sistema educativo exclusivo, elitista e desigualitário não são mensuráveis para já. Só por isso pode o restante experimentalismo de Crato não ser reconhecido pelo próprio. Mas nem por isso deixa de o ser. A aura de matemático é a máscara com que se apresenta.

 

O experimentalismo não é, como disse, exclusivo do ministério da Educação, pelo que as vítimas não se limitam aos professores e aos alunos. Experimentalismo é mesmo a prática dominante entre os principais ministros deste governo, começando pelos das Finanças. Durante dois anos, Gaspar não fez outra coisa senão experimentar modelos que estudara em teoria. As consequências foram tão desastrosas e irreversíveis que o homem, na segunda ocasião, zarpou para longe, de onde agora emite opiniões sobre medidas de combate a crises que não passam forçosamente por «brutais» aumentos de impostos. Na prática, reconhece agora que praticou o «experimentalismo». Deixou, porém, sucessora. Até ser chamada pelo FMI, ou na mira de que tal aconteça, Maria Luís insistirá no modelo experimental. Não conhece outro nem quer conhecer. Este é mais fácil, mais cómodo, mais pacífico para a relação com os germânicos de Bruxelas e, para ela, quiçá mais compensador. Porque o faz? Porque pode. Como o vende? Com uma cara séria.

Na Justiça, experimentam-se reformas e suportes informáticos sem qualquer consideração pelos direitos dos cidadãos. Este experimentalismo não foi ainda reconhecido, apesar de estar à vista. E é leviano e irresponsável, como a própria ministra, apesar do ar duro com que se nos apresenta. A incompetência e a irresponsabilidade também se vendem com um semblante cerrado e um cabelo de um loiro dorido.

Experimentalismo é também o que Passos anda a fazer desde que tomou posse. Experimentou ser primeiro-ministro. A experiência está a sair-nos caríssima. Experimentou ser sério, mas logo após o anúncio da subida da TSU, foi divertir-se para um espetáculo musical. Experimentou também, por exemplo, dar dignidade a Miguel Relvas, mas, não a tendo ele próprio, a outra face da moeda, a tarefa revelou-se impossível. Impossível para Relvas, não para ele, que era o ator principal. Quanto à forma, e à tecnoforma, como continua a vender a sua imaginária dignidade e gravidade, o leitor saberá a resposta. Os figurantes Lomba e Maduro, suas escolhas já a peça começara, vieram reforçar a farsa, com o número burlesco dos «briefings». O ridículo levou um deles a desaparecer pelo buraco do ponto sem que mais ninguém o visse. O problema é que o público, regra geral, não ri, está fechado na sala e vão-lhe sendo cobrados impostos a cada número.