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À série


Borgen_Adam Price_2010-11-13

Esta série passou em Portugal em Janeiro e Fevereiro de 2015, na RTP, nas suas três temporadas (vem mais uma a caminho, prevista para 2022). Agora está disponível na Netflix, e o preciso momento que vivemos, em que assistimos à agonia das negociações entre o Governo e o BE (com o PCP não há espectáculo embora também haja dura negociação), é o mais oportuno para desfrutar plenamente desta pérola televisiva dinamarquesa.

Em 2015, até às eleições legislativas de 4 de Outubro e mesmo nas largas semanas seguintes, a possibilidade de o PS governar com o apoio do PCP e do BE continuava a ser para a enormíssima maioria, incluindo nela os especialistas em politica, uma quimera (metáfora que ainda vai a tempo de substituir a da “geringonça”, talvez merecendo ficar à espera dos eventuais primeiros ministros bloquistas e comunistas num futuro Governo tripartido). Conceber esse governo inaudito na história da nossa democracia num quadro em que o PS não teria obtido o maior número de deputados, então, já pertenceria ao domínio da pura alucinação – pelo que rigorosamente ninguém previu esse cenário antes das eleições. Porém, contudo, todavia, aqui estamos em 2020 à espera que a fórmula continue a dar frutos de estabilidade e justiça social, segurança e desenvolvimento, depois de uma primeira legislatura de enorme sucesso após o fim do bloqueio à esquerda no sistema partidário. As sucessivas sondagens mostram que não se concebe melhor solução política para o bem comum e o interesse nacional face às conjunturas económicas e sociais do presente e do futuro imediato.

Pois quem viu a série na RTP não pôde então reconhecer mais esses elementos de comunhão entre os dois países, dado que o enredo nas três temporadas pode ser entendido como um estudo das relações partidárias para conseguir acordos de governação num contexto de fragmentação partidária e fluída plasticidade ideológica na ficcionada configuração do parlamento dinamarquês – situação estranha à cristalização de décadas que o PCP impôs a seguir ao 25 de Novembro e que acabou por influenciar Louçã em 2009 e 2011, com os belos resultados que a História gravou na memória eleitoral. Mais uma razão, para os apaixonados por política, de renovado interesse a justificar o regresso ao Borgen. É ainda possível estabelecer variegados análogos entre as tipologias partidárias da narrativa, e suas figuras características representadas, com os partidos portugueses. O mesmo para os problemas políticos dramatizados, e para o comportamento dos meios de comunicação social, a um ponto de equivalência tal que chega a deslumbrar dadas as aparentes diferenças culturais, sociais e económicas entre a Dinamarca e Portugal. Também por aqui a série é altamente valiosa ao nos dar acesso a consumir um produto mediático europeu que nasce das diferenças entre os povos e, em simultâneo, esculpe a golpes de criatividade e realismo uma identidade e uma solidariedade comum, verdadeira união europeia.

E há muitas razões mais para ver esta excelente série pela primeira vez. Pese a semelhança temática, não será justo comparar Borgen com The West Wing, esse diamante de Aaron Sorkin que pertence ao panteão da TV. Nesta, a escrita intrincada e na esgalha, sempre a correr o risco de cair numa exibição vaidosa, espalha uma sofisticação e densidade que não têm qualquer paralelo com a escrita de Adam Price e sua equipa de argumentistas. A opção dinamarquesa é pelo registo não só realista, o que é duvidoso que seja o caso americano dado o seu artifício idealista, como pedagógico (a resvalar para o ingénuo?). Se fosse preciso concluir uma formação universitária em Direito, Ciência Política, História ou Filosofia para entrar a fundo no universo de Josiah Bartlet e Toby Ziegler, em ordem a nos sentirmos à-vontade no universo de Birgitte Nyborg e Kasper Juul basta estar em vias de concluir o secundário. Ao mesmo tempo, Borgen retrata fielmente as lógicas, dinâmicas, rituais e acidentes que ligam políticos e jornalistas num frenesim imparável de aproximações e separações, alianças e batalhas. E tudo isto, notavelmente, sem cair no melodrama nem procurar fazer humor.

Para mim, e não estarei só nessa experiência, o mais admirável na visão de Adam Price é ter conseguido mostrar a democracia a funcionar na perfeição sem ter cedido meio milímetro ao cinismo e ao tribalismo. As personagens são profundas quanto baste, o elenco é credível e envolvente, e há um arco narrativo que faz da decência o valor mais importante para o estadista. Um estadista que se vê a falhar como os outros, pois é humano, mas que é salvo pelo afecto e pelo idealismo de terceiros – da comunidade, portanto. Esse estadista modelo germinou na cabeça do autor da série e conheceu a luz no corpo e arte de uma actriz fabulosa, Sidse Babett Knudsen. Ela consegue o feito de vencer o estigma que penaliza as mulheres na política ao criar uma personagem cuja autoridade de líder é credível e inspiradora. Ficamos a sonhar com o milagre de vermos a Birgitte a saltar do ecrã e a meter-se a caminho do parlamento mais próximo. Afinal, a sua (e nossa) segunda casa.

“Contra a corrupção, a desgraça da Nação” – Hipocrisia e decadência

Portugal é o tal país onde um procurador e um juiz usaram a Lei para fugirem à Lei e assim conseguirem espiar um primeiro-ministro em funções, montarem uma golpada judicial para decapitar um Governo e um partido, e recolherem material da sua privacidade que passaram a políticos rivais e à indústria da calúnia.

Portugal é o tal país onde um Presidente da República, atentando contra a Lei, tentou manipular e perverter umas eleições legislativas lançando através de um jornal uma teoria da conspiração contra o Governo e o Partido Socialista em cima das eleições legislativas.

Portugal é o tal país onde um candidato a primeiro-ministro admitiu usar a Lei contra certos governantes por causa das suas opções políticas, e que depois de ser primeiro-ministro permitiu que a sua ministra da Justiça tivesse como bandeira política a criminalização do Governo anterior.

Portugal é o tal país onde um Presidente da República ofereceu o 10 de Junho a alguém que defende um Ministério Público criminoso ao serviço da perseguição a certos alvos ligados ao Partido Socialista e que considera que todos os políticos, incluindo quem lhe deu o palco estatal e quem lhe guardou os filhos nas instalações oficiais do Governo, são corruptos e usam o Parlamento para blindarem na Lei a continuidade dos seus actos de corrupção com plena impunidade.

Portugal é o tal país onde uma famosíssima procuradora-geral da República disse, sorridente, que se existisse no poder político a intenção de acabar com as violações do segredo de justiça – actividade criminosa praticada principalmente por agentes da Justiça – então os partidos com representação na Assembleia da República já há muito teriam alterado a Lei de forma a permitir usar os métodos de investigação necessários para descobrir os prevaricadores. Como não o fizeram, ela apenas podia abrir inquéritos inúteis e continuar a sorrir.

Portugal é o tal país onde um celebérrimo juiz disse numa entrevista que não precisava da Lei para descobrir se um certo arguido à sua guarda constitucional em fase de inquérito era ou não corrupto. E também disse que sabia de muitas histórias secretas a respeito de outros magistrados, que tinha tão boa memória que até as suas alcunhas estavam registadas, pelo que o melhor era não se meterem com ele. E também disse, noutra ocasião, que um certo juiz tinha sido escolhido para um certo processo porque o sorteio respectivo foi falsificado pela Justiça portuguesa para ter esse resultado.

Portugal, portanto, é o tal país onde quem se cala perante estes factos e enche a boca com o Estado de direito à pala da Hungria, do Ventura ou de uma aplicação para o telemóvel não passa de um hipócrita. E de hipócritas está a decadência cheia.

Começa a semana com isto

Judith Orloff on Thriving as an Empath

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Judith Orloff é uma muito simpática, e retintamente exótica, especialista em empáticos. Que se passa com os empáticos? Regra geral, acabam sempre por sofrer abusos de todo aquele que se aproxime e não seja empático. Abusos que começam por ser de atenção, depois de tempo, depois de paciência (mas não só, a lista é ilimitada). A empatia pode causar doenças, como qualquer outra fonte de tensão mental que provoque reacções e processos psicossomáticos disfuncionais.

Embora ela tenha abraçado feliz os registos new age e esotéricos próprios do tempo e lugares em que viveu a adolescência e a primeira fase da vida adulta, os seus conselhos radicam numa experiência com que qualquer um se pode relacionar (desde que empático, lá está) sem carência sequer de termos de nos questionar acerca das suas pretensões mais ambiciosas no plano da sensibilidade e da terapia.

De grande utilidade para proteger e afinar essa maravilha, a capacidade de ser o outro em nós sem o contrafazermos numa cópia de nós mesmos.

Revolution through evolution

Safe sex or risky romance? Young adults make the rational choice
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Even minimal physical activity measurably boosts health
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Zeptoseconds: New world record in short time measurement
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Ultrafast camera films 3-D movies at 100 billion frames per second
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The rise of ‘Zoom Towns’ in the rural west
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History shows that societies collapse when leaders undermine social contracts
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Cows prefer to co-moo-nicate in person, research suggests
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Continuar a lerRevolution through evolution

“Contra a corrupção, a desgraça da Nação” – Edição Compromisso Portugal

Luís Rosa

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Depois de ter sido exposto como inveterado, desavergonhado e maníaco mentiroso por Paulo Campos – Direito de resposta ao artigo “Novo presidente do Tribunal de Contas referido no inquérito das PPP” – Luís Rosa nada mais conseguiu balbuciar do que este patético post scriptum onde volta a mergulhar de cabeça no ódio canalha. A sua miséria moral é tão agoniante que até ganha uma qualidade estética qualquer. Quem assim fala não é um jornalista nem um cidadão, é um fanático que fez uma jura de matar o inimigo ou morrer a tentar.

Se tivesse de apostar, tendo em conta o que escreve e o que expressa nas frequentes presenças televisivas, diria que há uma obsessão na perseguição a Sócrates e ao PS que só o dinheiro que lhe pagam para fazer exactamente isso não explica suficientemente. Isto é, não estamos perante um mercenário que serve o patrão que lhe pagar mais, como o João Miguel Tavares (tem sido um mercado monopolizado pela direita decadente, daí a fulgurante carreira deste caluniador profissional depois de lhe ter saído a lotaria quando estava no DN sem saber como se manter à tona d’água). No caso deste Rosa (& sua casaca de pulhices), desconfio que ele pagaria do próprio bolso para poder fazer aquilo em que se especializou: espalhar a percepção de que o PS é uma organização criminosa desde a liderança de Mário Soares.

Entretanto, o homem avisa que enquanto existir matéria “fatual” ninguém o vai calar. Acho que faz todo o sentido, tem muito pano para mangas o fatual. Porém, é com optimismo que encaro a sua missão. É que se continuar a garantir que fulanos como Paulo Campos, afinal, nos contam meias-verdades e meias-mentiras, isso, somado, dá para chegar à verdade ou arrumar lá perto e fazer o resto do caminho a pé. Já com este feroz traste ao serviço do Carrapatoso e demais gente séria, não há cá hesitações nem ambiguidades: os seus alvos são todos servidos com mentiras inteiras, rotundas, maciças.

“Contra a corrupção, a desgraça da Nação” – Edição Sonae

O Público é uma caixa de Petri onde se pode estudar com detalhe o desenvolvimento bacteriológico do populismo jornaleiro, todo ele de ideologia direitola por razões conjunturais e contextuais: o eleitorado prefere o PS, a actual direita é alérgica às ideias e tem nojo dos ideais, e o histórico bloqueio de décadas à esquerda desapareceu em 2015. Em consequência, o extenso domínio mediático da direita é usado de forma orgânica e inorgânica em rebaldaria, numa cacofonia de manada onde o tema da “corrupção” permite a políticos impotentes, jornalistas ressabiados e comentadores rancorosos estarem permanentemente a atiçar o pânico moral onde diabolizam e criminalizam os adversários. A direita portuguesa mais vocal e influente está hoje reduzida à concepção da política como guerra civil em que os inimigos têm de ser destruídos e o solo que pisaram salgado.

O populismo jornaleiro é básico e para básicos. Usa as técnicas ancestrais da calúnia, já denunciadas na terra que inventou a democracia séculos antes de uma virgem dar à luz num palheiro, e aplica-lhes os instrumentos sensacionalistas contemporâneos à disposição. O resultado é uma narrativa literalmente estupidificante para uma audiência que mistura fanáticos e broncos carentes de demagogia que lhes dê um sentimento de presença e pertença. Passar o dia a teclar em caixas de comentários ou redes sociais permite essa participação numa socialização estimulante porque imediata, simples e fácil no modo como se insultam uns aos outros sem perigo nem consequências. Não há nada de errado com a dinâmica, o único problema reside nos conteúdos à volta dos quais gravitam e vegetam. No caso do Público, um jornal que se considera a si próprio como sendo “de referência” e no qual escrevem alguns dos nossos melhores (or so they say) nas diferentes áreas respectivas, o que se serve nas suas páginas é degradante, vexante, para a salubridade política e cívica da comunidade.

Exemplos:

«A ideia de que o Governo mexe na Justiça sempre que a Justiça o incomoda está instalada e abala inexoravelmente a garantia de que o equilíbrio de poderes é uma pedra angular do regime. Pode não ser verdade, mas numa sociedade aberta não se pode correr o risco de deixar que as percepções contaminem a confiança dos cidadãos. É o que está a acontecer. Hoje, como noutros momentos, a ameaça de Jorge Coelho volta a fazer sentido: quem se meter com o PS leva.»

Quem se meter com o PS leva?

Na promessa institucional, estamos a ler um editorial de um jornal preocupado em informar – e formar – os seus leitores no trato dos principais assuntos que interessam à sociedade, tendo para tal a preocupação deontológica de ser educativo, equilibrado e elevado. Na prática, quem o lê papa um panfleto sectário que pretende atiçar a irracionalidade populista recorrendo à chicana. O editorialista lava as mãos como Pilatos, não faz ideia se é verdadeira a acusação de ser António Costa e Francisca Van Dunem os cabecilhas de uma organização dedicada à alta e colossal corrupção, mas, muito pelo sim e quase nada pelo não, na dúvida que tanto jeito lhe dá soltar, toca de alimentar essa percepção em nome, minha nossa senhora do Caravaggio, de ser uma percepção que ele contribui para fazer crescer e reproduzir-se com o poder do meio de comunicação onde lhe pagam para isso mesmo. Toda uma ecologia da calúnia com a chancela de Manuel Carvalho, portanto.

«Mas se de António Costa podemos esperar cada vez menos, a pergunta que se impõe é: onde está Marcelo? O que anda ele a fazer? Que utilidade dá à sua popularidade estratosférica? O Presidente da República foi cúmplice no afastamento de Joana Marques Vidal, foi cúmplice na nomeação de Mário Centeno para o Banco de Portugal e volta a ser cúmplice no pontapé nos fundilhos do presidente do Tribunal de Contas. [...} O contínuo apodrecimento do regime democrático português é um trabalho que está a ser feito a quatro mãos.»

O regime está podre — e Marcelo é cúmplice

Joana Marques Vidal não deixou de ser procuradora-geral da República em 2018 por se respeitar o mesmo critério de mandato único aplicado a Pinto Monteiro e Souto Moura após os 16 infelizes anos de Cunha Rodrigues. Não, nada disso. Como Cavaco Silva e Passos Coelho declararam na ocasião, substituir a procuradora-geral que estes dois magníficos estadistas tinham escolhido, e que tão bons e extasiantes frutos lhes tinha dado, só podia ser explicável através de uma intenção criminosa por parte de Costa e Marcelo. Isto foi assim mesmo afirmado às claras por um ex-Presidente da República e por um ex-primeiro-ministro a respeito de um primeiro-ministro e de um Presidente da República, sem escândalo algum. Como se fosse normal, aceitável, inevitável ver mergulhar na mais sórdida e escabrosa calúnia o topo da hierarquia do Estado pela intervenção pública do ex-topo da hierarquia do Estado. Ora, não custa a adivinhar para que lado da polémica tende o imaculado coração do João Miguel. E, nessa lógica, não surpreende vê-lo em 2020 a repetir o que o seu ídolo e o seu chefe histórico disseram e mandaram dizer. O que espanta, ou então não, é ter apanhado a partir de Janeiro de 2019, ainda o cadáver da santa Joana não tinha arrefecido, o mesmo João Miguel rutilante de vaidade – e mérito – por ter sido escolhido por um corrupto do calibre do Marcelo para ser o representante oficial do regime podre no feriado que supinamente o celebra num festival de podridão. É que custa um bocado a acreditar que o soberbo jornalista de Portalegre tivesse tido uma branca quando recebeu o telefonema do Marcelo, a qual só lhe teria passado quando acabou de vender os livrinhos com aquele discurso que levantou e regenerou a Nação. Enfim, que sabemos nós dos insondáveis labirintos e esconsas moradas da alma humana? Seja como for, temos de nos render e concordar: poucas vezes o regime pareceu tão podre como no dia 10 de Junho de 2019.

«Todos sabemos que, com a chegada dos milhares de milhões de euros que vão ser despejados, no nosso país, pela União Europeia, a corrupção vai crescer. Toda a gente sabe - pelo menos, agora - que a corrupção, no nosso país, não poupa nenhum sector de actividade ou profissão. É um problema cultural com séculos de existência e que tem sido tratado sempre com excessiva parcimónia pelo poder político.»

Um problema nacional com séculos de existência

O Chico Mota é um advogado famoso e de famosos, um craque do Direito e um paladino da luta contra a corrupção que dá gosto ver. Tendo uma coluna de opinião para encher semanalmente, seria de esperar que ao longo dos longos anos de teclagem já tivesse servido aos leitores uma mão cheia de dados objectivos sobre a realidade da corrupção em Portugal. Alguma matéria de facto que lhe sustentasse a cruzada para além do que vai buscar à indústria da calúnia. Acontece o contrário, como se pode voltar a constatar neste artigo. O título é de uma ambição homérica, a tese de que a corrupção é um problema português cuja causalidade radica talvez na qualidade da água ou na criação da pêra-rocha (o autor nada desvenda a esse respeito, nem sequer revela em que século começámos a ser corruptos, embora desconfie que terá sido logo com Minuros, Audas e Ditalco, aqueles bacanos que traíram Viriato). Os números que foi buscar dizem respeito à elevadíssima percepção de existir corrupção que os portugueses expressam em inquéritos, os tais portugueses que são bombardeados há anos pelo sensacionalismo e as campanhas negras cuja cassete é a da ubiquidade da corrupção, por um lado, e ainda os números das sanções por crimes de corrupção, pelo outro. Como estes últimos parecem ao aquilino Chico Mota muito baixos na comparação com os números da percepção, percepção essa que ele e o seu jornal vão engordando com afinco diário, a sua solução mágica consiste em mandar o Estado de direito para o galheiro e passar a admitir a delação premiada. Já pensaram nas montanhas de cabeçalhos, parangonas e artigos encharcados em fervor anticorrupção que a chibaria não iria gerar abraçada aos justiceiros? Pois é, o Chico Mota é um granda craque, ainda chega a ministro do Passos quando este gigante regressar à Pátria para nos salvar dos corruptos.

«É evidentemente errado - e pior do que errado, perigoso - o discurso que alega que a corrupção é endémica e generalizada. Mas é também errada - e perigosa - a desvalorização da preocupação coletiva com a transparência, a responsabilização e a prestação de contas por parte dos políticos, e a integridade dos sistemas de fiscalização e controle.»

O podre está regime

Estive quase a tornar-me fã do Rui Tavares. Aconteceu ao acreditar que o homem estava realmente a denunciar como perigosos o Manuel Carvalho, o João Miguel Tavares e o Francisco Teixeira da Mota, ali de peito cheio no meio da arena do jornal. Afinal, não passou de um sonho lindo pois na frase seguinte aparece a falsa equivalência do “ambos os lados”, a qual tem sido usada amiúde por branqueadores de actos de violência racista, nazi e nacionalista. Pelos vistos, este historiador conhece alguém que desvaloriza não sei quê e não sei que mais. Para grande pena nossa, não escreve os seus nomes, pois teria graça conhecer quem são esses taralhoucos. Ficamos só com a certeza de ser pessoal muito útil para despachar uma falácia ao gosto dos colegas de redacção mais dados ao melindre, director do jornal que lhe paga à cabeça desse grupo. Talvez um dia o Rui venha a conhecer alguém que valorize a “preocupação colectiva com a transparência, a responsabilização e a prestação de contas por parte dos políticos, e a integridade dos sistemas de fiscalização e controle” e, em simultâneo, que esse alguém, singular ou colectivo, seja absolutamente intolerante com aqueles que violam o Estado de direito democrático e fazem da pulhice a sua única estratégia política e ainda um modelo de negócio. Talvez. Afinal, estas aves raras andam por aí, embora compreenda que sejam muito mais difíceis de avistar nas instalações do Público.

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Conclusão: no pasquim da Sonae, uma frase dita de improviso, saída da cabeça excitada do patusco Jorge Coelho no meio de um comício no Algarve, em 2001, serve ao director para insinuar de boca cheia, em editorial, ser o PS um partido cuja vocação principal é a corrupção. Que falta é que nos faz este tipo de imprensa? Em que tipo de país estes gajos imaginam estar para esperarem fazer dinheiro com o que não passa de jornalismo de, e para, decadentes?

“Contra a corrupção, a desgraça da Nação” – Edição Grupo Impresa

Um ex-deputado, advogado, professor de Direito, fã de Passos Coelho, feroz antisocrático, magnífico tribuno, recomenda a quem o segue no Twitter que se valide e reproduza uma difamação caluniosa lançada sem contraditório por um jornalista e (com todo o mérito e provas dadas) actual director-adjunto de informação da SIC, a qual espalha no espaço público a percepção de estarem o primeiro-ministro e a ministra da Justiça a manipular politicamente a Polícia Judiciária “para que depois, quem controla os negócios de Estado, dar aos amigos, como já vimos.” Ricardo Costa, desde 2016 director-geral de informação do grupo Impresa, concorda com esta ideia de que o seu meio irmão é corrupto, um dos maiores corruptos na História de Portugal e do restante mundo civilizado, e tão ou mais corrupto do que Sócrates – talvez uma beca mais, dado que, de acordo com o tal director-adjunto de informação da SIC probo e heróico, se ambos os líderes socialistas se imitam na prática criminosa de “dar negócios de Estado aos amigos”, pelo menos a respeito de Sócrates não há notícia de se ter metido com a Judiciária; a qual, aliás, fez um belíssimo trabalho quando o espiou em funções a mando de um procurador de apelido Vidal e com a conivência de um juiz da comarca de Aveiro que assumiu fazer uma ilicitude em ordem a manter secreta a golpada de 2009 e respectiva violação do Estado de direito. O mano Costa, como se vê pelo seu silêncio aprovador e cúmplice, está muito satisfeito com os conteúdos jornalísticos e qualidade televisiva dos seus canais e espaços de informação. Fica só por resolver a pequenina pedra no sapato lançada pelo grande CAA, isso de avisar que o Zé das farturas de corruptos tem a cabeça a prémio. Será? Será que o fabuloso Ricardo, um bravo que cagava d’alto nos telefonemas que recebia do outro corrupto enquanto estava na casa de banho a fazer as suas coisas para sair aliviado e boneco em direcção a Carnaxide, vai desta vez ceder a ameaças, ou chantagens escabrosas, do seu mano mais velho e fabulosamente corrupto?

Bute dar dinheiro à HBO

A derrota de Hillary Clinton para Donald Trump, em 2016, oferece uma juliana de possíveis explicações ao gosto de qualquer freguês. A esquerda pura e verdadeira dirá que foi bem feito, o castigo por ela ter impedido Bernie Sanders de ser um adversário ainda mais fácil para Trump e por não ter prometido aos trabalhadores americanos não sei o quê ao gosto da esquerda pura e verdadeira. A direita fanática e bronca dirá que foi bem feito, o castigo para os seus crimes, a sua corrupção, o Diabo entranhado em cada célula do seu corpo. E a malta do centro dirá que foi desgraçadamente mal feito, uma tragédia planetária nascida do estigma de ser mulher, da inércia e toxicidade do nome Clinton, do invencível fenómeno mediático tomado pela insanidade espectacular de Trump e, acima e antes de tudo – para mim, para a Hillary e para o próprio – tragédia cuja causalidade mais tangível está na paradoxal decisão de reabrir a investigação do FBI ao correio electrónico da ex-secretária de Estado, tomada por James Comey a 11 dias da ida às urnas. Tendo a vitória de Trump sido alcançada por poucos milhares de votos nalguns Estados fulcrais, a bomba lançada por Comey poderá ter sido o factor mais decisivo no resultado eleitoral ao levar democratas a desistir de ir votar, indecisos a optar por Trump, e ainda republicanos que não iriam votar por aversão a Trump a mudar de atitude numa pulsão vingativa contra os Clinton.

The Comey Rule permite-nos conhecer dramatizada para televisão a versão do então director do FBI sobre o que se passou nos bastidores da Justiça e da Casa Branca, antes e depois das eleições. Estamos perante um melo-docu-prop-drama. Os acontecimentos são históricos; o ponto de vista é parcial, sectário e guerrilheiro. Trump é apresentado como um chefe mafioso, um monstro de narcisismo patológico e criminoso, um ogre dominado por Putin e pela sua (de ambos, afinal) megalomania. O intento narrativo é o de reduzir Trump a uma caricatura assustadora, moral e visceralmente insuportável. Comey surge pintado como santo franciscano e herói do Estado de direito e dos valores da família. Um santo levado pelo destino funesto para um dilema dilacerante: em nome do Bem teve de favorecer o Mal. E foi em nome dessa família no Céu, corporizada num FBI ideal inspirado divinamente pelo espírito da Lei, que resistiu à tentação satânica da sua própria família terrena e pecadora quando esta lhe pediu que traísse a sua integridade para salvar a América de ficar nas mãos de Trump.

É fácil bater neste filme, disponível em 4 episódios na HBO. Mas é ainda mais fácil perceber, entender e compreender como o seu excesso retórico está ao serviço da liberdade. Comey ama a América, Trump julga-se a América. É quanto basta para ficarmos agradecidos a todos os envolvidos na criação, produção e distribuição da obra. E irmos a correr dar dinheiro à HBO.

Paulo Campos, desde 2012 a despachar pulhas pelo esgoto abaixo

Paulo Campos é uma das pessoas mais odiadas em Portugal. Nos principais meios de comunicação, ao longo de anos e anos, é possível encontrar frequentes e raivosos libelos onde se berra ser este ex-governante responsável por crimes que terão causado prejuízos faraónicos ao Estado – portanto, ao bom povo que anseia por corruptos pendurados nas árvores. Quem o acusa não precisa de esperar por condenações transitadas em julgado, sequer acusações coladas com cuspo, para ter certezas furibundas acerca da sua culpabilidade. Como sempre acontece com os pulhas, aliás, os factos e as provas não fazem falta alguma quando se dispõe de sofismas e calúnias para dar e vender. É o que faz aqui um caluniador profissional, estávamos em Maio de 2012:

Este Zé, apresentado pelo Grupo Impresa como o especialista-mor da casa em assuntos de finança e economia, utiliza todo o poder mediático posto à sua disposição para atacar o bom nome de pessoas e instituições, deixando explícitas denúncias de supostos crimes colossais na gravidade política e no valor do alegado dano, sem apresentar qualquer fundamento para além da sua convicção. Logo, ele não está apenas a representar-se individualmente ao expressar uma opinião que calha ser fetidamente canalha, está concomitantemente a representar a agenda política de quem lhe paga e de quem é proprietário do meio que lhe projecta e amplifica a influência.

A investigação às PPP é desde o seu início um processo político. Nasceu de uma queixa de Carlos Barbosa, fundador do Correio da Manhã e figura grada da oligarquia golpista, e foi o processo que permitiu a Paula Teixeira da Cruz, então ministra da Justiça, usar a ocasião em que visitava a prisão de Caxias para se referir às buscas feitas a Mário Lino, António Mendonça e Paulo Campos com a cifra “acabou o tempo em que havia impunidade“. Ou seja, uma ministra da Justiça comenta uma acção do Ministério Público sobre adversários políticos e, em simultâneo, indica às claras que considera os alvos culpados dos crimes relativos ao processo em questão, e também de serem culpados de manipulação criminosa dos poderes policiais e judiciários num passado recente e num período indefinido. Ausência absoluta de sentido de Estado, de respeito pela Constituição e de simples decência, eis o espectáculo dado pela senhora já a sonhar em construir mais prisões para enfiar tanto corrupto socialista. Desse dia em diante, sempre que na direita e na imprensa se glosa a expressão “fim da impunidade” todos deliram de gozo cúmplice com a caçada em curso: a tentativa de conseguir meter em tribunal e na prisão o maior número de socialistas ligados a Sócrates que for possível apanhar.

O processo das PPP é também irónico, e nessa ironia profundamente revelador do domínio da direita decadente sobre o espaço público e os poderes fácticos, pois trata-se de mais um que começou com Pinto Monteiro ainda procurador-geral da República; tal como antes tinha acontecido com o “Face Oculta”, outra tentativa de judicialização da política com vista a espiar um primeiro-ministro em funções, perverter actos eleitorais, decapitar a direcção de um partido e fazer com que a direita voltasse ao Governo nas eleições legislativas de 2009. O mesmo Pinto Monteiro que ainda hoje é caluniado de forma torpe por cobardes e trastes que cospem inanes mentiras a seu respeito pois não lhe perdoam ter tido coragem para defender e aplicar a Lei. A retórica do “fim da impunidade”, lançada como arma de arremesso contra o PS quando a direita conseguiu reunir uma maioria parlamentar, um Governo, um Presidente da República e uma comissária política na chefia do Ministério Público, não é em nada de nada diferente do que vemos Trump fazer à Justiça e à política americana. Nada de nada de nadinha de nada diferente.

Entretanto, passaram 8 anos e ainda não se sabe quando teremos acusação embora se dê como garantido que vamos ter acusados. E em que ocuparam os garbosos procuradores e demais auxiliares das forças do Bem o seu tempo? Pois em provar que não existiu corrupção. A acusação sórdida que José Gomes Ferreira dava como verdade gravada na pedra, delírio nascido em 2012 da excitação de ver socialistas à beira do chilindró no que agitou como caso judicial do século, caiu porque nem um cêntimo ilícito, ou parecido com isso, se conseguiu detectar nas contas dos suspeitos. Pelo que tudo aponta agora para uma acusação de “gestão danosa”, seja lá o que isso queira dizer face aos factos. O que fica como obscenamente notável nesta altura do campeonato, portanto, é que mais uma investigação gigante das nossas autoridades leva a concluir que os membros dos Governos de Sócrates são, muito provavelmente, dos cidadãos mais honestos que já passaram por S. Bento. Recorde-se que até o uso dos cartões de crédito dessa bandidagem foi espiolhado com minúcia implacável (noutro processo iniciado no mandato de Pinto Monteiro) só para se concluir que realmente havia entre essa gente dois exóticos secretários de Estado mais amigos da leitura. Ambos absolvidos, um da acusação e outro da condenação em 1ª instância. Se alguém começar a fazer as contas ao dinheirinho que o Estado já gastou a revirar do avesso as vidas de Sócrates e de quem com ele aceitou governar e administrar a República, algo nem de perto nem de longe feito a políticos do PSD e do CDS, receio que o valor final (ou melhor, corrente) dê para comprar Macau de volta e ainda ficar com uma parte de Hong Kong.

Este o contexto largo para mais um número circense na madraça da direita passista. Luís Rosa, um fanático que é pago para tentar criminalizar socialistas tanto nos seus artigos de opinião como nos seus artigos de jornalixo (embora seja impossível distinguir uns dos outros), permitiu a Paulo Campos dar uma lição de deontologia jornalística e de moral para principiantes ao pasquim do Zé Manel e do Rui Ramos: Direito de resposta ao artigo “Novo presidente do Tribunal de Contas referido no inquérito das PPP”. A pancada foi tão forte que não houve qualquer contraditório perante a exposição de Campos e só passados 4 dias o pulha do Rosa conseguiu reagir (de uma forma tão ignóbil que merece texto autónomo).

E este o contexto apertado para uma ida de Paulo Campos à SIC, no auge da polémica com o fim do mandato de Vítor Caldeira à frente do Tribunal de Contas: Paulo Campos: “Não tenho nenhuma relação pessoal com José Tavares”. Estamos perante mais um momento televisivo inesquecível que tem Paulo Campos como protagonista. Porque, mais uma vez, o jornalista que está à sua frente não percebe patavina do assunto sobre o qual o está a interrogar, limita-se a ler as atoardas publicadas. E, mais uma vez, o ex-secretário de Estado desmonta detalhada e peremptoriamente as mentiras que são lançadas nas campanhas negras que o visam. Consequência: neste caso, num canal exclusivamente dedicado ao serviço noticioso, num caso com a notoriedade e a importância deste, com o alvo principal em estúdio à disposição e com disponibilidade para tudo esclarecer dentro da sua responsabilidade, a jornalista assume uma atitude sarcástica e desdenhosa e não permitiu (talvez por ordem editorial) que o convidado pudesse expor com tempo suficiente e clareza os seus argumentos – que são os argumentos que interessam a quem se interessa pelo assunto e que não queira ser tratado como borrego.

É uma pena que o Daniel Oliveira, que em Setembro escreveu ser o Expresso do sectarismo editorial, das notícias falsas e da armadilha a um primeiro-ministro a “principal instituição do jornalismo português onde, com um imenso orgulho, tenho o privilégio de ser colunista“, não encontre um tempinho para nos dizer o que pensa dos critérios jornalísticos da versão televisiva dessa soberba instituição do jornalismo laranja – onde é um leal e dedicado soldado – quando toca a Paulo Campos e restante malandragem socrática. Tal silêncio de um dos nossos mais íntegros e valentes colunistas pode, então, servir para comprovar a seguinte tese: Sócrates, Augusto Santos Silva, Pedro Silva Pereira, Vieira da Silva e Paulo Campos, entre muitos outros que serviram Portugal entre 2005 e 2011, não são odiados por crimes provados ou falta de talento exibido, será precisamente pelas razões opostas – são melhores do que a concorrência, porque mais bem preparados e mais profissionais; já para não falar no respeito pelo Estado de direito democrático que os tão odiados sempre cultivaram e reclamam, peçonha a que a indústria da calúnia é alérgica.

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Convido à recordação, e fruição pedagógica, de mais dois momentos memoráveis em que Paulo Campos trata a escória como ela merece ser tratada:

Paulo Campos contra o resto do mundo

-> Onde se pode ver um pobre coitado direitola a levar uma desanda que, fatalmente, ainda hoje recordará diariamente com dor ao sair da cama para enfrentar o mundo exterior.

O Gomes Ferreira já foi servido, tragam agora o Medina Carreira e o Marques Mendes

-> Onde se vê como, ainda não se tinha chegado ao minuto 10 da entrevista, ainda não se tinha chegado ao minuto 9 da cegada montada para apanhar o diabólico socrático, e já Campos tinha reduzido Gomes Ferreira a uma papa de aldrabice ignorante e contumaz.

Revolution through evolution

Liberal and conservative women react differently to gender discrimination
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Women More Likely to Embrace Behaviors Aimed at Preventing the Spread of COVID-19
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Female surgeons perform less complex cases than male peers, likely due to systemic bias
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Exercise intensity not linked to mortality risk in older adults, finds trial
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New research links conflict resolution, long-term health
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Why some friends make you feel more supported than others
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Feline friendly? How to build rap-paw with your cat – new psychology study
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De Portugal para a América: o caso para um segundo debate entre Kamala e Mike

Fazemos raciocínios motivados. A memória, automaticamente, selecciona a informação que nos confirma a motivação inicial. Protegemos, por vezes correndo risco de vida, uma identidade que nos pareça coerente ou importante para aqueles que nos são importantes. Donde, num debate, de qualquer tipo e sobre qualquer assunto ou assuntos, os vencedores no final tendem a ser os mesmos que já eram vencedores no início.

Por exemplo, para mim Kamala Harris transmitiu honestidade intelectual, genuína empatia, humanismo cidadão, entusiasmo democrata e capacidade de liderança. Enquanto em Mike Pence vi desonestidade intelectual, hipocrisia política, cinismo de Estado, profissionalismo sectário e mediocridade como líder. Estou a ser objectivo? Sim mas apenas para a minha motivação. É um maniqueísmo indulgente, para gasto imediato, posto que nada mais está em causa – para mim, agora – do que o espectáculo.

Kamala tinha o ónus de ser mulher, negra e desconhecida da enorme maioria do eleitorado. Mike tinha a vantagem de ser homem, irresponsável e artista evangélico. A fazermos fé nas sondagens da CNN quanto à aceitação de Kamala como eventual futura presidente dos EUA, a inevitável conclusão é a de que estamos perante um histórico triunfo para si e para os democratas.

Com a América nas mãos de um louco febril encharcado de esteróides, num ano louco com o Mundo mergulhado numa pandemia, daqui de Portugal faço um pedido maluco que espero chegue a quem de direito: que se troque um dos dois restantes debates presidenciais entre Trump e Biden por um inaudito segundo debate entre Pence e Harris. Assistiríamos em directo ao começo do fim do pesadelo da trampa.

Lapidar

«A direita americana (bem como a direita noutras paragens ocidentais) é hoje uma ameaça à democracia, à Constituição e à segurança nacional dos EUA.»

Os coveiros da democracia americanaBernardo Pires de Lima

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Notas:

– O Bernardo não é de esquerda.

– O Bernardo não é socialista.

– O Bernardo não é socrático.

– O CDS poderia ter um líder como o Bernardo chamado Bernardo Pires de Lima mas esse partido prefere um líder como o Chicão chamado Francisco Rodrigues dos Santos.

– A direita poderia ter um líder como o Bernardo, alguém que até agora sempre se apresentou decente, culto e intelectualmente honesto no espaço público, mas nesse caso a direita teria de abandonar a sua decadência e Passos Coelho e Joana Marques Vidal ainda têm muitos cartuchos para gastar antes de a evidência se impor como destino: a pulhice da direita é a sorte grande do PS.

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Um homem apaixonante

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A imprensa censurou a manifestação do Chega “contra a pedofilia e a corrupção”. Nem sequer publicaram o resumo da Lusa. Toda a imprensa? Não, o esgoto a céu aberto noticiou e o Observador alimentou as suas milícias nas caixas de comentários com esta bela e imperdível nova ocasião para se agarrarem a Sócrates e Vara:

Aparentemente, vivemos num país onde só há dois grupos de líderes de opinião, tipologia onde se encontram todos os representantes políticos, jornalistas e comentadores com acesso aos mais poderosos meios de comunicação social. O primeiro consiste naqueles líderes de opinião que não têm opinião sobre uma manifestação onde um deputado acusa um cidadão de “pedofilia” e mais três de “corrupção” sem os seus alvos terem qualquer condenação relacionada com esse tipo de atracção sexual ou tipo de crime (“pedofilia” é um termo que não consta no Código Penal e Sócrates e Vara podem ser condenados por corrupção mas nem sequer sabemos, ao dia 5 de Outubro, se sequer serão julgados por tal). O segundo consiste naqueles líderes de opinião que gostam de ver um deputado acusar de “pedofilia” e de “corrupção” três dos quatro alvos porque odeiam esses três gajos e acham que a política se confunde com a pulsão tribal, que a política tem de ser uma guerra civil onde vale tudo e, em vez de balas e bombas, se usam tácticas de medo, promoção da segregação e discriminação, apelos à violência irracional, calúnias e golpadas.

Aconselho o visionamento do vídeo acima. Aguentá-lo do princípio ao fim, como TPC (trabalho para a coragem). É preciso ver, ouvir e intuir antes de pensar. O espectáculo não dá vontade de rir nem assusta, antes estimula o pensamento. Para quem não tiver paciência, mas ainda mantenha módica curiosidade, que gaste dois minutos nesta passagem onde Ventura reclama ser o representante do salazarismo e do Estado Novo. O problema não está no discurso lunático deste infeliz que atrai outros infelizes e miseráveis, está na lógica que valida a sua retórica. Os públicos a que se dirige andam desde 2008 a receber das fontes mediáticas que lhes entram em casa e no telefone a mensagem de que a classe política é corrupta, que a Assembleia da República é uma máquina de fazer leis que permitem aos políticos serem corruptos e que os políticos corruptos dominam as instituições da Justiça, daí escaparem impunes.

Não foi o traste do Ventura quem inventou esta estratégia de terra queimada, foram Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Cavaco Silva, Passos Coelho e Paula Teixeira da Cruz, em tandem com a oligarquia rancorosa, para só nomear os generais. O fervor demente com que quiseram caçar Sócrates e vingar-se do PS levou a direita portuguesa para um combate político nunca antes visto na democracia pois usaram os poderosíssimos instrumentos policiais e judiciais para espiarem um primeiro-ministro em funções e condicionarem a liderança do PS abrindo uma frente judicial em cima do renovo da sua liderança e da entrada num ano eleitoral. O argumento de que a corrupção em Portugal é uma façanha exclusiva dos socialistas, e que a ausência de condenações é a prova mesma da existência de criminosos, foi uma diabolização que até serviu para justificar a traição de Passos Coelho ao bem comum e ao interesse nacional ao chumbar o PEC IV e ao afundar Portugal tendo a Europa pronta para nos livrar da devastação pretendida pelos ideólogos e predadores da “austeridade salvífica”.

Acima e antes de tudo, importa perceber que quando Ana Gomes clama contra as “roubalheiras” que lhe chegam à pituitária ela está a validar a bandeira do “fim da impunidade” passista que trouxe para a ribalta Joana Marques Vidal e Carlos Alexandre. Importa perceber que quando Marcelo Rebelo de Sousa escolhe um caluniador profissional especializado em socráticos para representar oficialmente o regime se está a dar ao povo a marca d’água para acreditar na indústria da calúnia. Ventura não é um pedaço de bosta colado por azar na sola do sapato da República. Ventura é só a mais recente emanação, pese ser obscenamente pérfida, da mesma decadência em que a direita portuguesa se barricou por causa da paixão por um homem.

Começa a semana com isto

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Elliot Aronson é um dos mais importantes psicólogos contemporâneos, com especial relevo na área da dissonância cognitiva e do racismo. Na palestra que escolhi podemos ficar a conhecer o essencial da sua vida profissional e pessoal. Com estes dois bónus:

– Em relação a Trump, estávamos em Maio de 2016, esta mente brilhante engana-se com estrondo.

– Em relação ao que cada um pode fazer consigo próprio, este ser bem vivido deixa um luminoso tesouro de sapiência (com que termina a lição, antes das perguntas da assistência).

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From San Diego to Italy, Study Suggests Wisdom can Protect Against Loneliness
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Higher narcissism may be linked with more political participation
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Serviço público

Pela Liberdade e pela Democracia – chega do Chega!Garcia Pereira

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Nuno Melo esbardalha-se todo contra Helena Ferro de Gouveiaa partir de 1:11:29

A TVI proporcionou perto de 40 minutos de original e preciosa educação cívica ao juntar uma das mais verrinosas e chicaneiras personalidades políticas com uma ex-jornalista que quase ninguém conhece (não me lembro de a ter ouvido ou lido antes, pelo menos). Para quem tiver o mínimo interesse em aprender a lidar com um fanático sem um pingo de honestidade intelectual recomendo este debate registado em vídeo. Não importa que Melo mantenha a pose até ao fim e se recuse a pensar no que lhe estão a dizer, repetindo a cassete contra o BE e a sigla LGBT, importa é a capacidade de Gouveia para expor as suas informações objectivas e ideias relevantes de forma clara para um público generalista. A sua segurança, descontração e domínio verbal foi quase sempre exemplar. À sua frente, o descendente dos Teixeira Coelho de Melo, antigos Senhores do Morgado da Falperra, reforçou a sua candidatura a um futuro ingresso no Chega.

Chamo a atenção para a parte, no final, em que o bestial deputado europeu se mostra baralhado com a possibilidade de se falar de cidadania e desenvolvimento a partir da ciência e do que nela se vai abrindo como investigação com implicações sociais, culturais e, portanto, políticas. A sua dificuldade nasce de ser profundamente inculto sobre matérias científicas em geral, e sobre ciências sociais em particular. Não está sozinho, diga-se em abono da verdade, é um traço transversal à direita política e jornalística.

Outro aspecto altamente valioso desta reunião consiste no confronto de dois catolicismos. Um, hipócrita e instrumental, de reles fancaria. O outro, genuíno, bondoso, cidadão. Helena Ferro de Gouveia, ao contar que as suas filhas tiveram educação sexual numa escola católica, está a dar uma imagem da comunidade religiosa com que se identifica que os próprios responsáveis religiosos máximos e intermédios não conseguem dar. Está a dar uma imagem da humanidade essencial do seu credo e da sua fé. Uma humanidade onde cabem todos, crentes e não crentes, mas onde não cabe Nuno Melo por se ter autoexcluído com medo de deixar de gostar de mulheres e passar a gostar de pessoas (sic e sick).