Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Fui paga para dizer isto

Se as quintas-feiras de Cavaco foram desconfianças, avisos de cátedra, discordâncias e sensações de deslealdade permanentes, imaginem as do Sócrates, obrigado a aturar com compostura, ali sentada à sua frente, a criatura mais sinistra, rancorosa, dissimulada, invejosa e mau-carácter da nossa democracia, que, todos os dias, incluindo às quintas, urdia planos para o derrubar, desejando obter dele informações privilegiadas para aperfeiçoar as tramóias?

Para quem queria discrição e alegava independência, Domingues está completamente mediatizado e politizado e pelos piores motivos

O PSD e o CDS andam destrambelhados com a boa execução orçamental e os dados da economia e entraram em delírio, mas este lado do país felizmente ainda não perdeu a noção da realidade. O senhor António Domingues (ele, a sua equipa ou só a sua equipa, pouco interessa, porque havia solidariedade nessa questão) não queria apresentar as declarações de rendimentos e de património ao Tribunal Constitucional enquanto administrador do banco público. Não queria. Não queria, ouviram?! Com isso, criou um problema ao Governo. Para o tentar resolver, a esse e ao problema do salário, o Governo aceitou alterar o estatuto do gestor público, na convicção de que tal bastaria para a dispensa pretendida. O Presidente da República fez saber que a lei 4/83 continuaria a aplicar-se apesar da alteração do dito estatuto. Domingues sabia da posição de Marcelo. Domingues sabia também da contestação política que poderia surgir no Parlamento. Quando percebeu as vicissitudes da democracia e a impossibilidade de o ministro das Finanças satisfazer o seu pedido (como se dependesse só dele), demitiu-se, foi-se embora. Não gostou, não comeu. Assunto encerrado.

Mas afinal não. Ao passar a Lobo Xavier as mensagens de telemóvel trocadas com o Ministro, António Domingues entra claramente na luta político-partidária à qual o julgávamos alheio. E fá-lo porquê? Porque, como alega Xavier, não gostou de ouvir o ministro dizer que não existia acordo algum com ele sobre a dispensa das obrigações para com o TC? Mas, esperem aí, tendo em conta o que se disse acima, esse acordo, a existir, alguma vez poderia ser firme e irreversível? Um acordo por SMS? Então e o Presidente, então e a Assembleia? Então – ironia das ironias – e o jogo político dos seus amigos PSDs e CDSs? A vitimização de Domingues é absolutamente ridícula!

Nesta história, falta ainda perceber se Domingues se foi queixar ao amigo do BPI para se vingar – e de quem, senhores? – ou se foi Lobo Xavier que viu ali uma boa oportunidade para fazer chicana política e tentar fragilizar o Governo. Resta saber. Mas a nova comissão de inquérito não deixará de lhe exigir a troca de mensagens que ele, administrador de um banco privado, efectuou com o então administrador e depois ex-administrador do banco público.  Estamos a assistir à génese de um atoleiro da direita.

Lumpenimbecilidade

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As alimárias, para lá do eventual interesse sociológico que possam ter para presentes ou futuros investigadores, entraram em 2017 a manter a alucinação de que o Jacinto Lucas Pires recorre ao pseudónimo “Valupi” para dizer umas parvoeiras num blogue perdido no cu da Internet. Trata-se de um boato desmiolado que foi lançado em 2008, e aqui estão estes broncos mergulhados nele nove anos depois.

As alimárias projectam nos seus odiozinhos de estimação as regras de conduta que observam à sua volta, entre os pares, a sua malta. Logo, se alguém aparece a defender uma ideia que estranham, esse confronto com a alteridade, essa crise cognitiva, resolve-se imediatamente recorrendo à mesmidade: “O que tu queres sei eu! Vendido!”

É deste chiqueiro mental e moral que, no passado como no presente, Pacheco Pereira e Alberto Gonçalves alimentam a pulhice que vendem por excelente preço. Nisso, estas duas vedetas da indústria da calúnia são por igual caixas de Petri da direita portuguesa.

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Como diz que disse?

O primeiro-ministro, António Costa, escusou-se hoje a comentar novos dados em torno da Caixa Geral de Depósitos (CGD) e das comunicações entre o ministro das Finanças e o antigo presidente do banco, dizendo que o assunto "acabou" na segunda-feira.

"O quê, ainda andam com esse assunto? Ainda não ouviram o senhor Presidente da República? Isso já acabou tudo na segunda-feira", disse Costa, questionado sobre a matéria à margem de uma iniciativa em Oeiras.


Fonte

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Costa perdeu uma não só excelente como necessária oportunidade para se afirmar como primeiro-ministro e como líder político neste desfecho da crise cujo pretexto foi a CGD. Em vez disso, foge à sua responsabilidade governamental e entrega à Presidência da República o comando institucional e moral do Governo. Ou seja, assistimos com este episódio de Centeno ir de castigo a Belém e depois vergastar-se em público à confirmação de estarmos num regime presidencialista de facto.

O modo chocarreiro como reage às perguntas dos jornalistas, dirigindo-se na ocasião aos próprios jornalistas tomados como grupo social em vez de se dirigir ao Soberano, é grave. E tão mais grave quanto não sabemos de ninguém no Governo ou no PS que esteja em condições de lhe explicar porquê.

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Perguntas simples

Existe alguma declaração ou documento público que possa ser atribuído a Sócrates, sequer a alguém que lhe fosse ou seja pessoal ou politicamente próximo, a respeito de supostas conversas privadas com outros responsáveis políticos, sejam eles quem forem?

Alguém consegue explicar o silêncio de Sócrates a respeito da reunião secreta que teve com Passos dias antes de uma cimeira europeia nos princípios de Março de 2011, e sobre o que nela ficou dito ou acordado, a qual Passos e Relvas começaram por esconder e deturpar para poderem abrir uma crise política catastrófica em conluio com Cavaco, e explorarem mediaticamente a mentira de que o Governo não tinha avisado o líder da oposição a respeito do acordo com a Europa que teria evitado o resgate de emergência, para deste modo afundarem o País ao chumbar o PEC IV e forçarem eleições antecipadas?

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O António Domingues ficou furioso ao ponto de andar a passar SMS privadas ao Lobo Xavier?

Em defesa de Mário Centeno

A António Domingues e aos restantes novos administradores da Caixa deu-lhes para não quererem apresentar a sua declaração de rendimentos e de património ao Tribunal Constitucional por não gostarem que os jornais fizessem parangonas com a sua situação patrimonial. Podia dar-lhes para pior, como gerir a caixa a partir das torres giratórias do Dubai. Felizmente, queriam apenas discrição. De certo modo, e conhecendo os jornais, compreendo-os. É também sabido que já estavam obrigados por lei a apresentar as ditas declarações ao Banco de Portugal. E acresce que, segundo li, o TC pode, de facto, decidir não tornar públicas as declarações entregues, a serem entregues. Por conseguinte, a exigência da nova equipa, embora bizarra e atrevida, merecia, pelo menos, ser analisada, estudada e equacionada. Não creio que devesse ser imediatamente rejeitada, tanto mais que não brotam do chão, com a chuva, trezentos gestores competentes para o banco público em Portugal.

Agora, para sermos francos, a demora no estudo das soluções mais adequadas para o problema, assim como, a partir de certo momento, o protelar do seu fatal desfecho, não era prejudicial, antes pelo contrário, ao bom desenrolar das negociações com Bruxelas, para “quem” o pormenor das declarações era irrelevante, ridículo ou desconhecido.

Assim, não me surpreende que o ministro das Finanças, com outros problemas bem mais importantes para resolver lá fora, como o da autorização e o das condições e implicações da recapitalização do banco público, e a necessidade de entretanto apresentar e garantir uma equipa competente, entendesse que poderia satisfazer aquela exigência de alguma maneira. E mais, que, se não conseguisse, conseguiria outras coisas bem mais importantes entretanto em Bruxelas. Parece-me que foi o que aconteceu.

Onde está, neste contexto, o problema de Centeno tentar manter a equipa até garantir em Bruxelas uma luz verde para uma capitalização pública que não afectasse o défice? Onde está o problema de trocar SMS com o dr. Domingues dando-lhe a entender que a sua exigência poderia vir a ser resolvida (se é que foi isto que aconteceu)? Quer isto dizer que o iria ser? Não, não quer. É essa a relatividade de uma prova como uma conversa telefónica ou uma mensagem. Não conhecemos a intenção por trás das palavras. Tratava-se de uma negociação. A resposta final, aliás, nem dependia do ministro! Por outro lado, a equipa de Domingues sabia ou não sabia dos entraves e até da opinião do Presidente? É claro que sabia. Mas manteve-se até ao fim do ano! Seria, portanto, melhor não se meter em vinganças parvas. Mudar de advogados ou de ambições seria bem mais sensato e decente.

Muito mal, Marcelo!

A nota do presidente da República sobre o caso Centeno, divulgada pela presidência segunda-feira à noite, é a primeira gafe grave de Marcelo desde que chegou a Belém. E dizer gafe é pouco, porque são várias e não são só meras gafes.

Em cinco pontos singelos, o presidente da República começou por revelar que Centeno pôs o seu lugar à disposição do primeiro-ministro – o que não lhe competia a ele, presidente, revelar. Aludiu depois a uma alegada falha de comunicação entre o ministro das Finanças e o gestor Domingues – o que não lhe competia a ele, presidente, relatar. Queixou-se de forma velada de que alguém (Centeno ou Costa?) interpretou indevidamente as “posições do presidente” sobre o assunto da Caixa – deixando para o público a tarefa de interpretar o significado dessa queixa enigmática e de perceber a quem ela se refere. Declarou enfim que, depois de ouvir o primeiro-ministro, o qual lhe disse manter a sua confiança em Centeno, ele presidente “aceitou tal posição”, atendendo ao “interesse nacional, em termos de estabilidade financeira” – sem que se perceba porque é que um presidente tem de aceitar ou não aceitar a confiança do chefe do governo num dado ministro.

Temos, pois, que o presidente Marcelo parece mesmo querer continuar a sua antiga actividade de comentador político, de preferência fazendo revelações apimentadas e inconfidências de bastidores. O mais grave de tudo é o dislate final, que lhe foi já apontado pelo deputado socialista Porfírio Silva e pelo constitucionalista Vital Moreira. Com efeito, os ministros não carecem da confiança política do presidente da República, muito menos da sua “aceitação”, termo que implica um poder que a Constituição não lhe dá. Acrescente-se que também a confiança do primeiro-ministro num ministro não carece da “aceitação” do presidente da República.

Se o presidente quiser, pode formular, perante o primeiro-ministro, todas as dúvidas que entender sobre a permanência ou não de um ministro no governo. Vir exprimir essas dúvidas para a praça pública é insólito e até pode ser estúpido, ainda que não seja propriamente inconstitucional. Absolutamente estúpido e profundamente errado é vir declarar publicamente que “aceita” ou não “aceita” determinado ministro, coisa que definitivamente não lhe compete. Se o presidente está descontente com o governo e se não lhe chegam as reuniões com o primeiro-ministro para fazer as suas pressões ou ameaças, então só tem um caminho constitucional, se não quiser estar quieto e calado: dissolver a Assembleia e convocar eleições.

Já se percebeu que Centeno foi trapalhão nas negociações com Domingues e que lhe faltou alguma prudência, o que certamente advém da sua total inexperiência na política. Outra coisa é a histeria da direita, inconsolável com os resultados positivos do primeiro ano de governação de Costa e Centeno e ansiosa que se fale de outra coisa. Mas eis que Marcelo resolve ceder à histeria raivosa e vem dar uma no cravo, outra na ferradura, para assim se justificar e sacudir o capote perante o execrável laranjal – necessidade que até agora não tinha sentido. Muito mal, senhor presidente!

Os sms do Centeno devem ser mesmo suculentos

Que a direita, e a comunicação social, já agora, não esteja muito interessada em discutir os números revelados pelo INE, relativos ao crescimento da economia, ou às previsões de Bruxelas, percebe-se. São números muito chatinhos para quem dizia que só havia um caminho para nos levar a bom porto.

Mas e o novo aeroporto? Então o Governo quer avançar com essa obra e a direita só quer saber dos sms do Centeno? Mas isso não era uma daquelas loucuras do Sócrates, uma obra megalómana e totalmente desnecessária?

Mas por que alimenta o governo a chicana destes decadentes?

António Domingues demitiu-se há mais de dois meses. Teve as suas razões – uma delas porque o que exigiu não foi possível passar no Parlamento, apesar de o Governo lhe ter dito que satisfaria a sua exigência de mudança do estatuto do gestor público (pela via legal, claro), compromisso que cumpriu, eventualmente prevendo, ou garantindo-lhe, consequências improváveis. António Domingues foi à sua vida, seguramente lamentando que a política se tenha metido no seu caminho, como se o banco público lhe pudesse ser oferecido como privado de bandeja. Foi embora e parece-me que em boa hora.

O ministro Mário Centeno esteve, durante uns meses, entalado entre a urgência de dar uma administração independente, competente e credível à CGD – ao mesmo tempo que negociava com Bruxelas as condições da recapitalização-, e as exigências dos novos gestores, que exageraram na noção da sua imprescindibilidade.

Esclarecida e mais do que esclarecida está também a questão de o PSD e o CDS mais não quererem do que criar confusão com aspetos secundários e ultrapassados, insistir numa tecla por não terem mais nenhuma, tocá-la com mais força de cada vez que ouvem as boas notícias da economia e das contas públicas. É isto e nada mais do que isto. Como se as discussões entre Centeno e Domingues tivessem de ser fáceis e 100% do domínio público!

Mas agora, senhores, agora o assunto está encerrado. Já chega, já percebemos, a Caixa já seguiu em frente, basta!

António Costa e Mário Centeno deviam acabar com isto. O que é que Mário Centeno ainda tem que responder mais? E se o PSD está a querer fazer chantagem com a demissão do ministro para aprovar futuras medidas, tornem-na pública e, se for caso disso, vamos para eleições ou proponham-nas ao presidente e ele, se não as entender como benéficas, que venha pôr ordem na desmiolada direita. Não foi bem o que fez.

Lembro que esta oposição está constituída pelo maior grupo de aldrabões que jamais passou por um governo democrático em Portugal, daqueles mesmo aldrabões em assuntos importantes, que chegaram ao poder com base em mentiras e que nenhum pudor tiveram em continuar a mentir em várias etapas da governação, e que nenhum deles foi demitido. São pessoal mais do que rodado em jogadas oportunistas e irresponsáveis. Portanto, olhando para as sondagens, o melhor é mesmo mandá-los bugiar. Neste momento, só eles próprios se gramam e mais ninguém tem paciência para o espectáculo que dão.

Revolution through evolution

No link between immigration and increased crime, four decades of evidence finds
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Truth that isn’t spoken can be just as bad as lies that are spoken
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Men and Women Are Not That Different with Respect to Age Preferences of Sexual Partners
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Psychology explains how to win an Oscar
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Hard shell, healthy kernel: Nuts can inhibit the growth of cancer cells
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Exercise for Anyone, Anytime: Researchers Find Brief, Intense Stair Climbing Is a Practical Way to Boost Fitness
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Why Are Men Overlooking the Benefits of Marriage?
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Continuar a lerRevolution through evolution

A direita está possessa (com o Marcelo)

A direita está crescentemente fula com o Marcelo. Mal contém a sua raiva. A explosão de fúria de Coelho poderá estar para breve. Falta só a pastilhinha de menta dos Monty Python, de que há tempos aqui falei, para se dar o cataclismo gástrico do chefe da oposição, farto de engolir toda a bicharada marcelina. Até agora ele tem apenas deixado cair uns pingos de fel, umas coisitas lamurientas, mas começam a surgir no seu entourage reações não só de enfado (“o presidente anda com o governo ao colo”), como até de frontal repúdio das declarações de Marcelo – entre estas a recente defesa de Centeno no idiota “caso” da CGD. Marcelo não se ficou por aí, qualificou também de absurda a eventualidade de demissão do ministro das Finanças. Ora esta demissão é presentemente o objectivo n.º 2 do partido coelhista. O objectivo n.º 1 é desde 2015, e continuará a ser, a queda do governo de Costa, peditório para o qual Marcelo  tem notoriamente recusado dar. O objectivo n.º 3 parece ser a desestabilização permanente da Caixa, com vista à futura privatização das ruínas do banco público, outro assunto em que Marcelo já tem aparecido a desancar o coelhismo. E mais objectivos parece não ter o partido coelhista, porque os golpes de Estado estão fora de moda.

Na entrevista de ontem ao El País, Marcelo dá mais um chuto no cu da firma Coelho, Montenegro e Cª, ao afirmar sem complexos que o governo de Costa “superou as expectativas iniciais”, e que isso, “para Portugal, foi positivo”. Coelho, o discípulo dilecto do conspirador Cavaco, deve ter tido terríveis pesadelos a noite passada.

O presidente, sobre cuja pessoa nunca tive, no passado, grande opinião, tem-me surpreendido notavelmente, devo confessá-lo. Não só dou a mão à palmatória, como lhe darei o meu voto em 2021, se tudo continuar como até agora e Marcelo mantiver a presente linha de conduta.

Tentando entender o que move o actual presidente nesta atitude de lealdade institucional para com o governo socialista apoiado pelo Bloco e o PCP, começo por constatar que Marcelo assumiu de facto o seu cargo, desde o início, com um espírito genuinamente presidencial – unir, construir pontes, sarar feridas, como constata o El País. Mas isto não é explicação e não vai fundo. As boas intenções declaradas de um político são muitas vezes traídas pela sua prática.

No passado, como dirigente partidário e líder da oposição, Marcelo tinha falhado, lembram-se? Pelo menos, os pêpêdês correram rapidamente com ele. Antes já tinha falhado como candidato da direita unida à câmara de Lisboa. Como presidente da República, triunfalmente eleito meses depois de uma derrota eleitoral da direita nas legislativas de Outubro de 2015 (39% da direita contra mais de 50% do conjunto da esquerda), Marcelo está a triunfar crescentemente. É o que diz a sua alta cota de popularidade em todas as sondagens. Recorde-se que Marcelo iniciou esta carreira triunfante como candidato auto-proposto contra a vontade do Coelho. Ou seja: no seu partido ou como candidato dos partidos da direita, Marcelo falhou, mas na sua carreira individual, incluindo a de comentador político, Marcelo conseguiu singrar e triunfar. Foi a popularidade individual que angariou como comentador político, pisando, aliás, alguns calos à direita, que lhe deu a capacidade de impor a sua candidatura presidencial aos partidos de direita. É novamente a popularidade individual que mantém o presidente Marcelo em níveis de aprovação muito superiores aos da votação que conseguiu nas eleições presidenciais.

O presidente Marcelo não deve nada ao seu partido – partido, aliás, que ajudou a fundar em 1974, com Sá Carneiro e Balsemão, quando os tristes Coelho e Montenegro ainda mijavam na cama. Marcelo não deve nada aos partidos de direita, que não tiveram outro remédio senão apoiá-lo nas presidenciais de Janeiro de 2016. A sua legitimidade vem-lhe directa e unicamente do eleitorado. O que os partidos da direita esperavam dele eram apenas sonhos húmidos, vãs esperanças, porque o candidato não teve que passar por quaisquer negociações prévias com o Coelho ou a Cristas.

Já pensaram o que seria Marcelo como presidente da República se a direita fosse maioritária na AR? Se a actual solução governativa e a actual composição do parlamento parecem ser muito favoráveis ao intervencionismo e até ao protagonismo político de Marcelo, no caso de um parlamento maioritário de direita e de um governo Coelho-Cristas, que papel sobraria para o presidente? Desconfio que ele não ficaria caladinho em Belém e que procuraria a todo o custo intervir, mas estou convencido que tal presidência seria uma grande seca para Marcelo. Na actual situação é que me parece que ele se dá bem, pois cabe-lhe muitas vezes o papel de fiel da balança. E, sobretudo, porque não tem de aturar os fedelhos sectários e histéricos que hoje mandam no seu partido.

O vibrador da direita

Ler a caixa de comentários à crónica do Alberto Gonçalves no Observador é testemunhar o grau de excitação e a qualidade orgasmática que (ainda) faltava à direita atingir naquele jornal digital (blogue é outro nome que se lhe pode dar; outro ainda é blogue de avençados) . Pazinhos, paguem-lhe bem, não o deixem fugir mesmo (sim, confirma-se que este é o medo de alguns comentadores). A vossa alegria sofreria rude golpe e seria uma pena. Pão e circo (e por que não sessões de pornografia!) são fundamentais para as hostes deprimidas da direita.

A quem, por questões de saúde, se recusar a ir ler, não posso deixar de informar que o tema que inspira e acompanha a vibração é o seguinte: quem defende governos de centro-esquerda é pago para o fazer. Quem defende governos de direita ou extrema-direita fá-lo por convicção e amor.

O que diria Jesus Cristo?

Esta visita papal, agendada para Maio, intriga-me. Portugal deve ser um dos países mais católicos do Mundo, contudo o papa Francisco embirrou que só visitará Fátima, só quer ver a Senhora. É estranho, pelo menos para mim, que aquele que diz representar Deus na Terra só queira visitar uma… estátua. No fundo, está a borrifar-se para todas as outras senhoras e senhores que, não podendo estar em Fátima nesse dia, gostariam de o ver em Lisboa, por exemplo. E muitos não podem porque os preços pedidos por um quarto em Fátima por esses dias são, como dizer, obscenos.

Quando visitei Fátima pela primeira vez fiquei chocada. Aquilo parecia mais uma feira do que um local sagrado. Se calhar, o negócio tem estado fraquito e esta visita é só para dar-lhe um empurrãozinho.

Mas isto sou eu que não sou nada católica.

E se Ricardo Salgado tiver razão?

Não sei onde nem como Luís Rosa obteve toda a informação contida nesta sua peça no Observador sobre as declarações de Ricardo Salgado no interrogatório no DCIAP. Mas, tomando como referência o Correio da Manhã, o tema “Hélder Bataglia (e Álvaro Sobrinho) vs. Ricardo Salgado” e a Operação Marquês até não parece mal tratado de todo. A história da relação de Hélder Bataglia com o GES, descrita por Salgado, faz sentido. O “arranjinho” de Bataglia com o Ministério Público também se compreende melhor à luz das declarações de Salgado aqui reveladas.

Se Bataglia mentiu para se safar, como também aventa Miguel Sousa Tavares ali em baixo, como e de quê acusar Sócrates?

Vale a pena ler.

“Assunto encerrado” e que vigore o absurdo e o desacordo

Quem for ler o que diz a Wikipedia sobre o Acordo Ortográfico de 1990, e julgo que o que lá se diz está correcto, fica com uma ideia de irreversibilidade do Tratado Internacional que o estabelece. De facto, ainda que o processo tenha sido demorado, a verdade é que os vários países, começando por Portugal e pelo Brasil, foram-no ratificando ao longo do tempo, já só faltando Angola. Nada a fazer, portanto, dir-me-ão. Está em vigor, queira isso dizer o que queira. Mas «nada a fazer» é, neste caso, uma expressão demasiado assustadora para ser aceite. Estarão as próximas gerações condenadas a não fazer distinção entre «para» (imperativo e presente de «parar») e «para» (preposição)? A não saber onde pôr os hífenes, se em «cor de laranja», se em «cor de rosa», se em «cor de chumbo» ou em «cor de burro a fugir»? A sentirem-se intrigadas por «concessão» (ou «recessão») não ser o mesmo que «conceção» («receção») e pelo facto de a segunda palavra ter o «e» aberto? Estas e outras aberrações e dificuldades não fazem qualquer sentido. Não fazem para os brasileiros, que se borrifam, pois não têm que escrever os vocábulos da forma agora imposta neste lado do Atlântico, e sobretudo não fazem para nós, que os escrevíamos como os brasileiros.

No blogue Causa Nossa, a propósito da recente tentativa de revisão do acordo, Vital Moreira diz que ainda bem que o Governo veio dar o assunto por encerrado. Bom, diplomaticamente, cabe a Augusto Santos Silva dizer que o acordo está em vigor e tem que ser respeitado, havendo apenas que esperar pela sua ratificação por todos os signatários. No entanto, se bem entendo, não fecha a porta a uma revisão (DN: “O Acordo Ortográfico está em vigor em Portugal, é um acordo internacional que obriga o Estado português”, referiu o ministro, acrescentando que “evidentemente que nada está isento nem de crítica nem de possibilidade de melhoria“.). Logo, o assunto pode felizmente não estar encerrado, ao contrário do que é dito.

Em Portugal, poder-se-á dizer que o AO90 vigora, mas o facto é que não é amado. Só os organismos públicos (e os professores, mas excluindo muitos universitários) o cumprem, ou tentam cumprir, e muitas vezes mal e com dúvidas. Se isto não é razão para pôr as autoridades a refletir sobre o que está mal e a admitir que se questione a irrevogabilidade do acordo internacional, pelo menos na parte que nos toca, não sei o que poderá ser.

Esta afirmação de Vital Moreira que passo a citar tem muito que se lhe diga:

A língua portuguesa é um património plurinacional dos países que a compartilham, de que Portugal nem sequer é o maior dos condóminos“.

Isto equivale a dizer que o Brasil, o país da CPLP com maior número de habitantes e de falantes, ditará sempre as regras de futuro do português, por ser o “condómino” de maior peso, limitando-se a ouvir os outros por uma questão de boa educação e a conceder-lhes uma migalhas da sua própria grafia. Um absurdo. Sendo a língua a mesma na sua estrutura gramatical e vocabulário de base, é impossível não reconhecer a cada comunidade de falantes o direito de a ir enriquecendo e utilizando de acordo com lógicas e contextos próprios, coisa que, aliás, reconhecemos aos brasileiros. As harmonizações, a fazerem-se, só deveriam ser fruto de uma necessidade comum, que não parece existir, pelo menos no que respeita à maior parte dos vocábulos abrangidos.

Os assuntos da língua já não se decretam autoritariamente em Lisboa” – acrescenta ainda Vital Moreira.

Então? Foi o Brasil ou Cabo Verde que nos propuseram a queda das consoantes mudas? Difícil de acreditar. Impossível.

Dizem-nos que havia também um objectivo económico (venda mais fácil de livros de Portugal nos outros países), mas, segundo leio, também esse não se está a concretizar. Não houve diferença.

Importante mesmo é que, se o objectivo principal invocado era harmonizar e simplificar a ortografia, esse objectivo gorou-se logo à partida, pois, para além das muitas grafias facultativas, em muitos casos até se verifica o oposto de uma harmonização – fica diferente o que dantes era igual.

Voltemos a Vital Moreira: “Primeiro, tendo endossado o AO de 1990 (como se relembra nesta excelente comunicação), a ACL (Academia de Ciências de Lisboa) carece de qualquer legitimidade para, passados estes anos todos, vir questionar a autoridade e legitimidade científica do Acordo.”

Esta crítica só aparentemente é certeira, porque, se o acordo não está a cumprir os objectivos visados nem está a ser aplicado por uma parte dos países membros, estamos de facto perante um problema, eventualmente imprevisto, cuja solução não pode ser a ignorância do mesmo ou a pretensão de que tudo está a correr às mil maravilhas. Não está e há razões para que a própria Academia dê a mão à palmatória.

Segundo, antes de propor qualquer “aperfeiçoamento” do AO, a ACL deveria apresentar essa iniciativa na sede própria da CPLP, que é a Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP).”

Muito certo, nada obsta a que isso aconteça, mas o facto de dentro de Portugal andar uma grande embrulhada à volta do acordo, merecendo este até o desacordo de quem o propôs, é a prova provada de que o seu principal promotor deve primeiro definir o que quer.

Enfim, eu que até já escrevi em conformidade com o AO durante algum tempo por a tal ser profissionalmente obrigada e, fora da profissão, ter entrado em modo “piloto automático”, deixei-me agora disso, pois verifico que o acordo emperra de facto em alterações absurdas, que, em Portugal pelo menos, dificultam em vez de facilitarem a pronúncia e a compreensão.

Portanto, senhores do IILP, reúnam-se por favor e quanto antes melhor. Mas Portugal deveria apresentar uma proposta internamente consensual. Facilita que muitos defensores do acordo reconheçam haver nele absurdos.

 

Não é vergonha, é espanto

Nem o Ministério Público, nem o Conselho Superior do Ministério Público, nem um Tribunal da Relação consideraram as declarações de Ventinhas merecedoras de qualquer consequência disciplinar ou judicial. O CSMP chega a debochar:

“As declarações foram proferidas num contexto de tensão verbal muito expressiva, como resposta a uma entrevista em que a integridade do Ministério Público foi posta em causa. Mesmo que se possam considerar excessivas não decorre daí relevância disciplinar.”

Temos um critério vago, psicologista e relativista ao serviço da manipulação do mais forte: “contexto de tensão verbal muito expressiva”. Temos a vitimização corporativa e corporativista: “entrevista em que a integridade do Ministério Público foi posta em causa”. Temos o recurso ao oxímoro como exibição de impunidade: “Mesmo que se possam considerar excessivas não decorre daí relevância disciplinar”. Excessivo em relação a quê? E se o que o CSMP considera excessivo não tem relevância disciplinar, o que é que a terá? Só o muito-bué-da-muito-mesmo-muito-excessivo-e-que-já-não-dá-para-esconder-de-ninguém-e-ai-jasus-que-nos-mijamos-a-rir-mas-desta-é-que-temos-mesmo-de-agir-disciplinarmente-mas-é-só-uma-vez-sem-exemplo-desculpem-lá-coleguinhas?

António Manuel Ferreira Ventinhas, dada a sua formação e a sua profissão, e com a agravante de representar como dirigente um órgão colectivo da classe, não tem qualquer atenuante para as calúnias que agravadamente proferiu perante órgãos de comunicação social. É exactamente ao contrário. Exactamente ao contrário. Exactamente ao contrário. Discussão pública deste episódio? Alguém poderá dar nem que seja meio exemplo de um colunista de vão de escada? A elite política, jornalística e social não quer gastar sequer uma caloria com o assunto. [errata]

Episódio congénere, mas num certo plano ainda mais preocupante e vexante, aquele que só o Observador noticiou: Poder político decisivo no arquivamento de investigação a Carlos Alexandre. O meio é a mensagem, escreveu um bacano canadiano, e no caso o meio tem todo o interesse em passar a seguinte mensagem: Costa protegeu Carlos Alexandre de Sócrates. De facto, a notícia relata esta cena inacreditável: Vítor Faria, membro indicado pelo PS para o Conselho Superior da Magistratura e referido como próximo de Costa, não participou na votação à tarde alegando ter de ir para um jantar de Natal fora de Lisboa. O que nos leva a perguntar, terá sido a votação marcada especialmente para essa data e hora tão em cima de jantares de Natal imperdíveis e lá longe como o caraças? Outro membro indicado pelo PS, Serafim Pedro Madeira Froufe, igualmente se baldou, talvez porque tivesse de ir passear o cão e já não dava para voltar a tempo da votação. Resultado: o inquérito disciplinar a Carlos Alexandre foi arquivado por 8 votos a favor e 7 contra. Como teriam votado estas duas figuras? Não sabemos, mas sabemos que a sua ausência se tornou parte decisiva do desfecho.

Esta história não tem só um ponto de muito interesse, tem pelo menos três, um deles o do silêncio da restante comunicação social. O outro é aquele que está consubstanciado no número 7. Sete especialistas, sete responsáveis pela avaliação de juízes, assumiram a necessidade de sancionar disciplinarmente Carlos Alexandre. O mesmo Carlos Alexandre que voltou a recusar a promoção a desembargador em Janeiro, preferindo continuar no DCIAP. Sendo isto lícito, é isto normal? É isto benéfico para os interesses da própria Justiça e do serviço que é suposto prestar aos cidadãos? E a parte em que há uma indústria da calúnia liderada pela Cofina, onde este juiz é tratado como super-herói populista contra certos políticos tratados como corruptos sem sequer haver acusação judicial contra eles, indústria onde se exploram crimes cometidos no seio da própria Justiça, não merecerá um poucochinho de atenção de uma qualquer entidade estatal, judicial, parlamentar ou governamental? Ainda não é óbvio o suficiente que existe uma simbiose entre este juiz e aquele tipo de imprensa, instituindo na prática um tipo de chantagem que leva a esta perversidade de termos Carlos Alexandre há 13 anos no DCIAP? É que a mensagem, diariamente repetida no esgoto a céu aberto, consiste nisto: quem quiser que este juiz dê o lugar a um seu colega no DCIAP torna-se cúmplice dos corruptos que ele tem perseguido e metido na choldra. E, portanto, o juiz que o substituir sem a sua aprovação, quiçá selecção, não passará de um juiz corrupto ali posto para proteger os criminosos de colarinho branco.

Não existir um partido, com ou sem presença parlamentar, que tenha os problemas da Justiça como sua prioridade é para mim um espantoso monumento à fragilidade cultural e menoridade cívica deste grupo de pessoas num jardim à beira-mar plantadas.