Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Universos paralelos

Que espectáculo maravilhoso aquele que teria sido montado na comunicação social caso algo remota e vagamente parecido com o bacanal da “Lista Vip”, e o que ela trouxe à luz de assustador, tivesse acontecido num dos Governos de Sócrates. O maremoto de indignação da legião do ódio, em coro com os grupos de cantares da esquerda pura e verdadeira, duraria meses e seria uma visão homérica.

Haverá algum partido em Portugal preocupado com isto?

"Até quando, até quando se pode prender pessoas para investigar", questionou Basílio Horta, numa intervenção no encerramento da conferência "Administração Pública. Fortalecer, Simplificar, Digitalizar", organizada pelo PS, no Centro Cultura Olga Cadaval, em Sintra.

Sublinhando que se trata de "uma matéria que tem a ver com cada um de nós, porque aquilo que a gente vê nas costas dos outros é a nossa própria cara", o autarca sustentou que em causa estão direitos fundamentais.

"Não podemos ver pessoas presas sem culpa formada meses e meses e meses. Seja quem for, não é possível e a reforma da Justiça tem de olhar para isto seriamente porque é a defesa de direitos fundamentais das pessoas e o PS aí tem a raiz da sua própria fundação", disse Basílio Horta, eleito como independente nas listas do PS para presidente da Câmara de Sintra nas últimas autárquicas.

Fonte

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As declarações universais e europeias dos direitos e liberdades individuais e a Constituição da República não se cansam de proclamar que a prisão preventiva é excepcional. A regra é a liberdade até à condenação definitiva. Não há maneira de tais princípios entrarem na cabeça de quem decide. Dá a ideia que funcionam exactamente ao contrário. O último reduto da defesa das garantias e liberdades, acaba por virar o reduto da repressão.

Os requisitos ou pressupostos que permitem a prisão preventiva são “avaliados” genericamente. Seria muito importante saber que “perigos concretos”, que “perturbação do inquérito”, que “continuação da actividade criminosa”, que “perturbação da ordem pública” demonstrava o processo para que um adolescente de 16 anos ficasse preventivamente preso cerca de um ano. Os processos, sobretudo os penais, não são um monte de papéis mais ou menos organizados. Neles flui a vida e a liberdade das pessoas visadas. Tanto indício sólido que conduziu a uma absolvição!

Seria importante analisar em pormenor a situação processual de tantos outros presos preventivamente. Numa auditoria externa ao Ministério da Justiça. Saber se as ordens de prisão se sustentam em factos, ou mera afirmação formal das regras dos códigos aplicáveis. Enquanto se não decidir com a consciência que exige a liberdade do cidadão, haveremos de ter a sensação, às vezes a certeza, de que a prisão preventiva foi decretada de ânimo leve. Sem solidez. Com imensos prejuízos para o cidadão preso e para a Justiça. Ninguém tem dúvidas disso.

Fonte

Revolution through evolution

Imagination beats practice in boosting visual search performance
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When citizens disobey: New study suggests people use ‘constructive noncompliance’ to enact change
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Natural sounds improve mood and productivity
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People with similar views closely mirror each other’s speech patterns
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Awe may promote altruistic behavior
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Do you see ‘the self’ in your brain or your heart? Decision-making differs
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Cold weather kills far more people than hot weather
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As causas da bancarrota intelectual

As causas próximas da bancarrota foram três: a governação irresponsável e perdulária de Sócrates (que já fora o menino querido da direita de 2005 a 2008), a recusa do apoio alemão consubstanciado no chumbo do PEC IV, que obtivera o acordo de Merkel, e os efeitos do disparo dos juros resultado da situação gerada pela Alemanha ao suscitar uma “crise das dívidas soberanas”, tendo como alvo a Grécia. À data do PEC IV, a Alemanha já se apercebera dos efeitos em dominó da “crise das dívidas soberanas” e temia o contágio para a Espanha e a França. Por isso, foi complacente com Sócrates e ficou furiosa com o PSD e Passos Coelho quando este chumbou o PEC IV. Os “mercados” fizeram o resto e a bancarrota era inevitável.

Pacheco

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Não se percebe para quem é que o Pacheco escreve, se para o eleitorado da direita, ou do centro, ou até do PS. Se calhar, apenas para o grupo de fãs. No que não nos enganaremos é se dissermos que escreve para si próprio. Isso explicará um parágrafo como este que cito.

À mistura com factos e evidências que são inquestionáveis, o artigo onde este sofisma aparece contém outras pérolas, como a tentativa de branqueamento do maior logro alguma vez registado em democracia: a traição que uma direita decadente fez em 2011 só para chegar ao poder. Não há mistério em que o marmeleiro mantenha a sua visão sectária, pois abandoná-la implicaria concomitantemente ter de abandonar a sua paixão por Sócrates. E esse funesto destino ele levará para a cova.

Ora, o vice-rei do comentário político afiança que Sócrates teve uma governação “irresponsável” e “perdulária”. É uma escolha lexical que revela a intenção moral no julgamento em causa. Porém, precisamente pelo investimento emocional que se está a fazer nessa acusação, onde está a demonstração? Onde estão os dados e as contas, os contextos e as circunstâncias, as lógicas e os objectivos, as causas e os resultados? Porque será que não se encontra no texto qualquer dado que sustente este pressuposto? Será difícil apresentar com objectividade um caso de governação “irresponsável” e “perdulária”, seja ele qual for e onde for neste mundo? Se estivermos a lidar com alguém que lhe baste ter módica honestidade intelectual, a demonstração sairá instantaneamente. Não aparecendo, estamos a lidar com pulhas.

Tendo repetido pela enésima vez que está apaixonado por Sócrates, daí odiá-lo de morte e para a vida, ficava com um berbicacho entre mãos: como explicar que Merkel, assim como o BCE e a Comissão Europeia, tenha feito tudo o que pôde para que Portugal aprovasse o PEC IV e não optasse pelo suicídio do resgate? Resolveu tratando os leitores como borregos e reduziu a situação a um infantilismo esquizóide. Segundo o Pacheco, Merkel tinha a mesma consideração por Sócrates que ele tem. Mas, com medo de umas cenas na Europa, não o tratou como o bandido merecia. E prontos, ‘tá despachado mais um naco de brilhante análise política paga principescamente.

Quase todo o debate político em Portugal, onde se inclui aquele que o PS de Seguro promoveu (salvo as honrosas excepções individuais na bancada e no partido), é uma torrente sectária que depende da desonestidade intelectual para se manter à tona. O PS de Costa ainda não encontrou antídoto para a calamidade de termos o espaço público envenenado por uma alergia às competências intelectuais.

Compravas pão a este padeiro?

Jerónimo de Sousa: Ferreira Leite e Sócrates “são farinha do mesmo saco” 22 agosto 2009

Jerónimo critica PS e PSD: «São farinha do mesmo saco» 15 de Maio de 2010

O secretário-geral do PCP encerrou este domingo o VIII Congresso Regional dos comunistas da Madeira com um ataque ao “inusitado romance” entre Alberto João Jardim e José Sócrates, um entendimento que faria “chorar as pedras da calçada” se os protagonistas não fossem “farinha do mesmo saco”. 30 de Maio de 2010

Jerónimo de Sousa, aludindo às últimas eleições, em que o povo, cansado de Sócrates e da sua política, optou pela suposta alternativa do PSD, recordou os avisos então feitos pelo PCP e que diziam ser falsa essa alternativa, que «PSD, tal como o CDS, identificam-se com o programa da troika. São farinha do mesmo saco». 11 de Agosto de 2011

Jerónimo diz que “um e outro [PSD e PS] são farinha do mesmo saco, são siameses na política e nas decisões que querem tomar 4 de Maio de 2014

“O que confirmam os programas de uns e outros, PS, PSD e CDS, é que são farinha do mesmo saco”, apontou Jerónimo 17 de Maio de 2015

Jerónimo diz que PS e PSD encenam “divergências e desacordos” e que “são farinha do mesmo saco” 22 de Maio de 2015

O PS em avaliação

Ontem recebi um esclarecimento sobre a posição do PS em relação à avaliação dos professores. Nele fui informado de que a recusa do PS versa apenas sobre o actual modelo, responsabilidade deste Governo, e não pressupõe a intenção de acabar com a avaliação como instrumento de aferição de competências e capacidades. Também me foi dito que não há qualquer desacordo entre o espírito reformista de Maria de Lurdes Rodrigues e o de António Costa em matérias de Educação. Bem pelo contrário. Assim, quando o programa estiver fechado lá se poderão encontrar as propostas que contextualizam e explicitam a notícia que ontem comentei.

Aproveito para dizer à meia dúzia de incautos que ainda me confunda com algum militante ou simpatizante socialista que existe uma coisa chamada ps.pt e que muitos dos principais dirigentes do PS têm presença assídua na comunicação social, para além de também estarem acessíveis nas redes sociais. É nessas fontes que se deve procurar informação autorizada e de qualidade a respeito do PS, não numa pobre alma penada que assina “Valupi”.

Por mim, e apesar do esclarecimento que agradeço e tomo como absolutamente verídico, penso hoje o que pensava ontem. Há uma intenção explícita em Costa de mostrar que com ele os professores podem ficar descansados. São muitas e boas, em termos de cálculo eleitoral, as razões para ir transmitindo a mensagem do enterro do machado de guerra. Uma enorme fatia do professorado sentiu-se traída pelo PS, seu partido de filiação ou proximidade, com a coragem mostrada por Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues no conflito épico à volta de uma tentativa de introduzir qualidade pedagógica na escola pública. Os resultados estratosféricos do BE em 2009 não têm outra origem. Com Costa, como ele tem dito bastas vezes, tal nunca teria acontecido. Foi um “erro”, sentencia sem se comprometer no detalhe do que, afinal, lhe surge como “errado”.

O tema dos erros é patético quando falamos de governantes. Que será isso de um Governo que não tenha cometido erros? Existe algures? Existiu alguma vez? A discussão, se for levada a sério, salta imediatamente para o campo do absurdo. Governar um Estado será das actividades mais complexas a que um ser humano se pode entregar. E essa complexidade não pára de crescer, acompanhando o aumento da complexidade em todas as outras áreas da experiência humana. Se a NASA erra, conseguindo o feito de enviar um satélite para Marte com um conflito de sistemas de medição (métrico e imperial), quem é que estará imune ao erro? Acaso se saberá a percentagem de erros médicos? Não é assunto que tenha popularidade, talvez porque os números são de causar pânico. E quanto aos erros dos juízes, haverá por aí alguma estatística à mão? Vamos deixar os erros militares de lado, a começar pelo “fogo amigo”, e olhemos para os políticos que governam em democracias. Pretender que eles escapassem às inevitáveis críticas de terem “errado” é sintoma de coma profundo.

A notícia que ontem comentei aí está na sua objectividade. No seu texto em passo algum se faz referência a qualquer intento do PS em avaliar os professores, seja lá de que forma for. O que nele se garante é que um futuro Governo socialista irá interromper o actual processo. E depois logo se vê o que virá em sua substituição. Haverá 4 anos para pensar nisso com calma, é esse o subtexto da notícia.

O PS e os professores terão ficado muito agradados com a notícia. Tal qual como saiu. Arrepio-me e parto para a avaliação do eleitoralismo com que, até esta altura do campeonato, se está a falar de Educação pelos responsáveis socialistas.

Amor ao próximo e justiça

O cronista e candidato a cómico João Miguel Tavares é conhecido pelo ódio de morte que dedica a Sócrates há vários anos, ódio que pratica entusiasticamente com a tecla ou perante microfones e câmaras de televisão. Este homem é também conhecido pelo seu catolicismo. Ora, é este homem  que, a propósito do que escreveu Daniel Oliveira (discutível) sobre a mãe do rapaz que assassinou um amigo em Salvaterra de Magos, vem cristamente falar na superioridade do «amor pelo outro» em relação ao amor pelos nossos.

Eis a palavra do cronista:

A forma mais elevada de vida em sociedade não se conquista através da exigência de mais amor pelos nossos (que é coisa que não costuma faltar), mas de mais amor pelos outros — daí o interesse da mensagem cristã, mesmo para quem é ateu, desde que tenha superado os tiques mata-frades. Ela é um convite para sair do nosso reduto em direcção ao outro, ainda que esse outro não nos seja próximo — melhor: sobretudo se ele não nos for próximo.”

Fonte: Público

Bonitas palavras. Se me admiro? Não. É extremamente simples e agradável fazer declarações de amor «ao outro». O «outro» é todo o mundo e ninguém. É um conceito suficientemente vago, no qual, por estranho que pareça, não parece ser possível incluir «todos os outros» – refiro-me a adversários políticos, delinquentes, malcheirosos, presos preventivos sem acusação, etc., ao contrário do que pretendia um tal Jesus Cristo, ou quem, em hora bondosa e pragmática, o inventou.

Mas não exageremos. Não se pode pedir a um cristão que ame todos os outros. Algum ódio é, pelos vistos, admissível. E quando? Ora, quando for justo. (E, em alguns casos, a justiça fazemo-la nós.)

Ainda Tavares:

Se Daniel Oliveira  ficou horrorizado por uma mãe declarar o abandono do seu filho  […], eu fiquei  sobretudo comovido ao vê-la  escrever: “Preferia mil vezes que  [o meu filho] estivesse no lugar  do Felipe.” Perante uma frase tão forte quanto esta, há quem possa  ver nela uma “mãe que arrepia”.  Mas eu vejo sobretudo uma mãe  que se recusa a colocar o seu  coração à frente do sentimento de  justiça — e isso, no mundo em que  vivemos, é tanto mais raro quanto  digno de admiração.”

Aplicando isto do «coração» ao próximo, será sempre a justiça a prevalecer e inspirar os julgamentos de Tavares, por maioria de razão. Ah, o soberano juiz JMT! Sócrates, se não matou ninguém, leva com pedras por ter sido corrupto. Decidiu e concretiza Tavares. Com a bênção de deus. Eis o «amor ao outro».

A moral cristã é muito viscosa. Nunca é demais elogiar quem preferiu criar Estados de direito. É sempre de lamentar quem não os faz respeitar.

Costa, o protector dos coitadinhos dos profs

PS admite suspender prova de avaliação dos professores

Não terei esse problema, pois não votarei PS nas próximas legislativas, mas imagino que uma boa parte daqueles 1.568.168 bravos que em 2011 deram a sua cruzinha aos socialistas não ache graça nenhuma a este eleitoralismo tão básico e tão nefasto.

Caso tal se confirme e esse propósito apareça inscrito no programa, ainda mais extraordinária ficará a memória de Maria de Lurdes Rodrigues, verdadeiro oásis de exigência republicana para com a escola pública.

Cercados

Está publicado um capítulo do livro “Cercado“: A queda de Sócrates começou aqui. As escutas do curso mal explicado. É uma leitura instrutiva para o estudo de Sócrates enquanto fenómeno, sem paralelo conhecido em Portugal, de obsessão, exploração e manipulação por profissionais da imprensa e da política.

O texto abre com a descrição da trip egóica do António Caldeira, um fulano que se imaginava a despistar uma legião de agentes secretos ao serviço do super-criminoso Sócrates. Tempos maravilhosos. Injecções de adrenalina. O coração a recuperar a frescura dos 12 anos e aquela certeza de que os “Os Cinco” existiam em carne e osso algures na Inglaterra.

Seguem-se as peripécias conhecidas, desde o lançamento da calúnia no blogue do Caldeira até ao seu relançamento pelo Público de um Zé Manel em modo vendetta, contadas por Fernando Esteves num estilo Corín Tellado a merecer justo aplauso. É sempre de elogiar quando um autor veste a farda do vendedor de atoalhados na Feira da Malveira e se mostra orgulhoso com a obra feita. Basta dar um único exemplo:

Se o ódio e a irritação fossem material inflamável, Lisboa ardia nesta manhã, no preciso micromilésimo de segundo em que Sócrates olha para a peça assinada por Felner. Tanta conversa, tanto tempo, tanta pressão, frenesim e excitação para nada. O texto sai – e o socialista explode.

Não estamos perante a excepção mas face à norma. Todo o capítulo – donde, todo o livro, e esteja lá o que estiver – obedece a esta lógica sensacionalista e delirante onde o autor repete ad nauseam a sua visão caricatural de um Sócrates iracundo, tiranete e falho de carácter. Nas declarações que tem feito na promoção livro, este Esteves não se preocupa em esconder ao que vem: trata-se de garantir que Sócrates está politicamente morto. Haja ou não haja condenação na Justiça, a obra aí fica para que ninguém possa alegar desconhecer a natureza do monstro. Entretanto, se fizer uns cobres com a pulhice, também não virá daí grande mal ao mundo.

Ricardo Costa apresentou o livro no seu lançamento. Não faço ideia do que disse. Sei que o seu endosso a mais este produto da indústria da calúnia ilustra à saciedade, e à sociedade, como estamos cercados pela decadência.

Dona Teodora, Dona Teodora…

Se o Conselho de Finanças Públicas não tem mandato nem ferramentas para se pronunciar sobre os programas dos partidos (e é evidente que não tem, como, aliás, foi declarado numa primeira reação), e muito menos, neste caso, sobre um estudo encomendado por um partido, por que razão «bota a senhora faladura»? E, já que fala nisso, que interessam medidas do lado «da oferta», se não houver procura, hem? E, também já agora, por que terá a economia crescido um pouco no último ano? Não terá nada a ver com a reposição de um pouco do poder de compra? E o crescimento da economia é bom ou é mau para as finanças públicas?

Além disso, esta sua frase tem muito que se lhe diga e carece de aprofundamento, mas parece que não há mandato:

Para o CFP, foi precisamente por Portugal “ter levado longe demais o estímulo orçamental à procura” que Portugal “perdeu competitividade e capacidade autónoma de financiamento da dívida, predominantemente externa”.

Já que a senhora considera não dever pronunciar-se sobre este tipo de estudos, importar-se-ia de «não se pronunciar» sobre TODAS as medidas previstas no estudo? Obrigada.

Teodora Cardoso respondeu à maioria

O Conselho das Finanças Públicas recusou-se a avaliar programas de partidos.

De facto, só a imbecilidade reinante no PSD e a presunção imbecil de que a política do governo é a única salvação possível podem explicar a proposta imbecilóide de submeter os programas da oposição ao parecer de um conselho técnico “independente”. As aspas nesta última palavra têm a ver com o facto de a “independência” do Conselho das Finanças Públicas ser assegurada… pelo Orçamento de Estado e a nomeação dos seus membros ser feita… pelo governo. Isto está muito candidamente declarado na respectiva lei e é assumido muito a sério pelos dirigentes do CFP e, claro, pelo governo.

Estatutariamente, o CFP não recebe ordens do governo ou da Assembleia da República. Está muito certo. Di-lo a lei e é o mínimo que se pode esperar de um organismo que se ufana de ser “independente” – embora talvez seja sobretudo inútil – e que além do mais é pago com o dinheiro de todos nós.

Mas querer atirar para um organismo desses, útil ou inútil, tarefas que são da primordial competência da política (dos partidos, da Assembleia da República, dos governantes, etc.) é o mesmo que pretender violar a lei, é querer travestir os técnicos de políticos e querer, no fundo, acabar com qualquer laivo de independência, com ou sem aspas, do CFP. É tentar iludir as pessoas com argumentos sofísticos de autoridade (argumentum ad verecundiam ou magister dixit), é fazer troça da democracia, é não perceber um corno do que é a política – é, enfim, ser-se imbecil, trapaceiro, incompetente e demagogo, coisa que só lembrava a esta maioria.

Revolution through evolution

European banks as vulnerable now as before crash
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Bathroom Graffiti: From phallic doodles and insults to humor, satire and supportive messages
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Rats will try to save other rats from drowning
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No laughing matter: Some perfectionists have a dark side
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Seven in 10 take early pension payout
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Brains of smokers who quit successfully might be wired for success
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Playing games can shift attitudes, study shows
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Com provas dadas como estas, estaremos de facto «arrumados»

Os socialistas que não pensem em voltar ao governo “agora que arrumámos a casa e pagámos as dívidas“, disse ontem Passos Coelho sem se rir. E acrescentou: “Nós temos provas dadas“.

Fonte: Público

Ora bem, começando pelas lides domésticas, alegadamente tão bem executadas, não é difícil perceber o significado de «arrumar a casa» para o PSD: distribuir pelos amigos os lugares nas administrações das empresas públicas privatizadas; venda a preço de amigo de muitas empresas do Estado, como recentemente o Oceanário. Ocupação descarada do aparelho de Estado pelo máximo de «boys» e «girls» do PSD e do CDS, a verdadeira e gloriosa ida ao pote. É isto. Neste sentido, compreendido por 70% do eleitorado, a casa está claramente arrumadíssima. E tudo a brilhar (só que é do gel – do cabelo e das unhas).

Quanto às dívidas que pagaram: a que dívidas se estarão a referir? Às que resultaram do aumento vertiginoso dos juros a partir de 2010, deixada a especulação à solta enquanto se punia ou para punir a Grécia? Às que resultaram do aumento dos encargos sociais do Estado devido às falências sucessivas de empresas após 2009 ­­- pelas quais o Governo na altura não foi minimanente responsável? Será às dívidas contraídas, a taxas de juro reduzidíssimas, junto do BEI, nomeadamente para modernizar as escolas, no âmbito do plano europeu de relançamento da economia, um plano aprovado pela UE e que visava contariar os efeitos da crise financeira na economia? Ou será às dívidas geradas pelas obras faraónicas que nunca ninguém viu, como TGVs, portos, palácios, etc.? Entretanto, com tantos pagamentos heróicos e exemplares, por que razão aumentou a dívida pública mais 30% em 4 anos? Que contas são estas? Que dívida contraíram de que acusavam os outros e que vão ter de ser outros a pagar?

Finalmente, que «provas dadas» serão aquelas? Provas de que as crises internacionais se acalmam e que o BCE travou finalmente a especulação em torno das dívidas soberanas, e isto para todos os países do euro? Provas de que o preço do petróleo por vezes baixa no mercado internacional e de que estamos a beneficiar de uma dessas fases? Provas de que, quando se presta vassalagem a Berlim, o país passa por estar muito bem e no bom caminho, apesar de ser tudo, estruturalmente, mentira? (Repare-se como, no caso grego, o país estava oficialmente no caminho da recuperação há quatro meses, quando o governo era bem visto por Berlim. Depois, passou a estar em situação calamitosa…) Provas de que a falta de vontade negocial resulta na maior fuga de jovens da história do país, acarretando sérios prejuízos demográficos e de sustentabilidade das pensões? Provas dadas de quê? De que se é capaz de criar pobres em pleno século XXI e de secar os bolsos da classe média com aumentos enormes de impostos, acusando-a de gastos excessivos no passado, quando a crise que nos afetou se deveu aos desvarios financeiros da banca?

Mas Passos e o acólito Portas, alçados ao poder por via das mentiras mais desbragadas de que há memória, têm razão: as provas estão dadas. E são de dois tipos: ou más demais ou prova da respetiva irrelevância.

Mais vale tarde

Não é preciso “ser do PS”, “gostar do PS” e “votar PS” para reconhecer a importância crucial do PS no regime democrático nascido com o fim da ditadura e com a vitória sobre a nova ditadura que se preparava. Essa importância é tão grande que o sistema partidário se organiza implícita e mesmo explicitamente como um jogo de todos contra um. E neste “todos” devemos incluir o próprio PS, que parece ter nos últimos anos adquirido uma pulsão autodestrutiva.

A temática dos “erros” da governação socialista entre 2005 e 2011 é o terreno onde essa pulsão é mais insidiosa e donde se geram vastas consequências. Aparentemente, o tema é banal, pois desde que há política que as oposições fazem campanha apontando os erros dos governantes que pretendem substituir, sejam os tais erros agitados factos ou mentiras. Esses erros, na sua concepção mais benévola, serão ideológicos, correspondendo à competição entre diferentes formas de organizar a sociedade e compreender o mundo. Este é o domínio da ideologia, e poderíamos ficar felizes e contentes se o debate entre partidos e políticos não saísse dos seus limites. Porém, a dinâmica agónica da disputa política invariavelmente leva as oposições a estenderem a mesma acusação para os domínios morais e pessoais, quando não para os legais (como tem feito a direita portuguesa desde 2008 e continua a fazer na “Operação Marquês”). Trata-se do lado mais nefando da prática política, sem qualquer antídoto conhecido para além do exemplo individual.

O que confere um carácter crucial à temática dos erros dos Governos socráticos, e isto 4 anos após a sua saída do poder, é a questão relativa às causas da crise política que levou ao resgate de emergência em 2011. O assunto surge espectacularmente ridículo por ser óbvio o logro que ocorreu quando direita e esquerda se uniram para chumbar uma solução que evitaria no momento a perda da soberania e a chegada ao poder de uma direita decadente e punitiva. Nenhuma das razões invocadas ao tempo por essa coligação negativa tem hoje qualquer legitimidade, os resultados mostrando o contrário do que apregoaram ser o melhor para o País e para os portugueses. Então, como é possível que PSD e CDS tenham desde princípios de 2012 passado a massacrar o PS diariamente com a cassete da culpa pela “bancarrota”, que não existiu, e pelo “Memorando”, que foi alterado para pior por Passos e Portas sem o PS sequer ter sido informado? E como é que a esquerda pura e verdadeira foi reflectindo sobre o seu fundamental contributo para estes 4 anos de empobrecimento material e moral?

É chegados aqui que temos de nos voltar para o PS. Este é o partido que elegeu como sucedâneo de Sócrates uma patética figura que não só se recusou a ser aquilo que exigia sonsamente aos outros, transparente, como ainda por cima levou o partido para uma cumplicidade cada vez mais obscena com os carrascos que enganaram radicalmente o eleitorado e traíram o interesse nacional. Afastado do poleiro por quem promete reconduzir o PS à sua tradição republicana de coragem e liberdade, estranhamente, bizarramente, perplexamente, mostra não ter na sua agenda o ponto relativo à justiça por fazer sobre o que se passou nos idos de Março de 2011. E, concomitantemente, tem-se ficado por críticas vagas e pífias à governação socialista da qual chegou a fazer parte. Resultado: aquela massa enorme de eleitores flutuantes, mais os indecisos, mais os que estão sujeitos à pressão mediática de sentido único, tendem a identificar-se com os infantilismos para broncos que a direita serve caudalosamente e que Passos assume com bandeira principal do seu discurso e pose: os socialistas são loucos e/ou corruptos, deram cabo disto com dinheiro esbanjado em pobres e alcatrão, nós salvámos Portugal porque os xuxas nem o Memorando teriam conseguido cumprir, e agora temos de evitar que os loucos e/ou corruptos voltem senão vai ser o caos.

Correia de Campos fez um pequenino exercício do que deveria ser uma táctica colectiva do partido:

O PS não deve enjeitar responsabilidades passadas. Por ela pagou o afastamento do poder, muitas acusações injustas e esquecimentos oportunistas. Foi forçado a assistir à omissão de que até 2008 se recuperou crescimento e reformou a administração, a universidade e a ciência, a Educação, a Saúde e a Segurança Social. Criaram-se fileiras produtivas ligadas à energia de que agora o país colhe frutos. Investiu-se pesadamente na refinação, na indústria papeleira e na aeronáutica, que hoje ufanam os que delas descriam. Prosseguiu uma silenciosa revolução da agricultura que mudou padrões, empresários, exportação e criou a base para a auto-sustentação financeira do respectivo produto. Tal como a formação profissional, a modernização do secundário contra ventos e marés do sindicalismo de sector, abençoado pela direita. E sobretudo a formação superior com doutoramentos, projectos e parcerias internacionais que nos emparelham com o que de melhor se faz. Também se cometeram erros, que os detratores se não cansam de ampliar. Talvez se tenha deixado prolongar a crença nos equilíbrios automáticos e na solidariedade europeia. Fiámo-nos na sorte e não corremos quando devíamos. Acreditou-se que o grande capital doméstico tinha o mesmo patriotismo que os peões da lide, que a ganância era estigma reservado aos milionários americanos e que o mundo se havia de recompor num patamar sempre superior. Admitiu-se, tempo de mais, a solidão governativa como sinónimo de eficácia na acção.

Fonte

Cada um desses “erros” enunciados por Campos carece de mais explicitação, e análise, e crítica, e debate, claro. Uns concordarão, outros não, inteligente e inevitavelmente. Mas ao se discutirem os “erros” adentro da esfera de responsabilidade política do PS está-se a desmontar a retórica para borregos da direita e a oferecer ao eleitorado uma alternativa intelectual que pode ser o que está a faltar a muitos para uma decisão. Seja qual for o ponto de vista, o PS tem todo o interesse em retirar aos adversários o monopólio do discurso sobre “erros”, “bancarrota” e “memorando”. E já vai muito tarde, se é que chegará a ir.

Exactissimamente

A questão é esta: Marcelo Rebelo de Sousa representa, ao mais alto nível, um discurso que quer passar por análise ou comentário políticos, mas de onde a política foi completamente evacuada. Ele assimilou completamente a política quer à luta pelo poder, quer ao exercício e ao objecto desse poder. Para ele, toda a política é uma questão de tácticas e estratégias, de fintas e simulações. E ganha o que for mais cretino. É desta matéria que são feitas as suas prelecções, enquanto animador do crochet televisivo. E, nesse posto, ele é “o professor”, isto é, aquele que ocupa o lugar da verdade e detém o saber do expert. Esta ideia de uma inteligência que sabe da coisa política e se dirige às pessoas que não sabem, e que por isso lhe fazem perguntas para obter a resposta oracular, é uma negação da política. Na melhor das hipóteses, aquilo de que Marcelo Rebelo de Sousa fala pertence à ordem da polícia (ele próprio transformou-se num cartoon de polícia sinaleiro) e não à ordem da política, para nos referirmos a uma oposição já clássica. Esta noção de polícia deve ser entendida não no sentido da repressão, mas da lógica puramente gestionária que ordena a sociedade por funções, lugares e títulos a ocupar. Ora, um cartoon pode chegar até a Presidente da República (não seria, aliás, o primeiro), mas não serve para iniciar qualquer conversa ou diálogo que tenha como tarefa repolitizar o espaço político. Em relação ao que Marcelo Rebelo de Sousa diz e opina não importa discordar, estar mais à direita ou mais à esquerda, ou convidá-lo para o espectáculo pluralista do conflito das opiniões. É de outra coisa que se trata, se a tarefa é também a de impedir a cretinização comunicativa e opinativa. Essa coisa chama-se “diferendo” e significa um desentendimento de base.

António Guerreiro

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Daniel Oliveira, copiando a turbamulta que ganha do belo a escrevinhar para a indústria da calúnia, teve também de enfiar Sócrates num texto a respeito de António Costa e do seu incompreensível SMS enviado a João Vieira Pereira. Assim:

Não se passa a fronteira que Sócrates passou, quando tentou usar o Estado para perseguir um canal de televisão que não lhe era simpático.

Fonte

Ai Sócrates tentou usar o Estado para perseguir um canal de televisão? E esse canal limitava-se a “não ser simpático”?… Mas isso é fascinante! Como foi que fez? Isto é, que sabe o Daniel acerca dessa ignomínia, quiçá crime? O canal foi, de facto, perseguido? Se não o foi por qualquer razão, o Daniel estará em condições de garantir que o seria não fora esse percalço? E onde se está a basear para as suas conclusões? Será em escutas ilícitas de conversas privadas?

Quando a Prisa entrou no capital da TVI, em 2005, Marques Mendes veio de imediato denunciar que o PS estaria a querer controlar essa televisão através do PSOE. Em 2007, quando Pina Moura entrou na Administração da Media Capital, o PSD veio de imediato falar de “descaramento total” e de “tomada de controlo” da TVI pelo PS. Em 2008, a TVI iniciava uma campanha de assassinato de carácter e de calúnias contra Sócrates sem antecedentes conhecidos em Portugal tal a sua logística e aparato mediático, a qual durou até às eleições de 2009. Que se teria então passado sem o domínio do PS na linha editorial da TVI durante esse ano eleitoral? Provavelmente, o casal Moniz teria seguido uma das sugestões dos magistrados que se divertem no Facebook a malhar em Sócrates e lançaria um reality show onde os concorrentes teriam de matar militantes e dirigentes socialistas no Largo do Rato, mas perdendo pontos caso acertassem na porteira.

Quando o Grupo Lena, o tal que só corrompe socialistas, anunciou que ia lançar um projecto de imprensa, correu logo o boato de que vinha aí o jornal dos xuxas. E finalmente, convenhamos. Estávamos em princípios de 2009, a construtora que andava a encher um primeiro-ministro de dinheiro através da Suiça teria o maior interesse em que ele continuasse no poder para que a copiosa corrupção não abrandasse. O jornal ajudaria nessa missão, era limpinho e clássico. Ora, se bem o pensaram, bizarramente o fizeram, pois foram entregar o serviço ao Martim Avillez Figueiredo. A nojeira resultante até meteu perseguições a bloguers que ousavam apelar ao voto no PS ou que, meramente, não odiavam o engenheiro. Não admira que o Grupo Lena ande a passar por dificuldades financeiras, dado o desvario da sua estratégia.

Entretanto, um dos maiores grupos de comunicação portugueses é pertença do militante número 1 do PSD. A Cofina detém o Correio da Manhã. A Controlinveste tem o DN, o qual sob a direcção de João Marcelino foi instrumental para a subida ao poder de Passos Coelho. O Sol é um tablóide de direita. E o Grupo Renascença não se coíbe de apoiar os mesmos de sempre (pista: não apoiam esquerdistas, cruz-credo!). Quanto à RTP, é pedir ao Pacheco as cronometragens dos telejornais da hora de almoço para se conferir que o PS também nunca se safou por aí. Esta paisagem explica muito, se não for tudo, da apatia cívica com que se aceita a degradação do Estado de direito no processo de entregar a uma direita decadente o poder total: Parlamento, Governo, Presidência, Justiça e comunicação social.

O Daniel não parece muito preocupado com isso. Com tentativas do Sócrates para não sei quê, sim, isso é foleiro e não podemos esquecer tanta maldade. Agora, ter ricalhaços da oligarquia que curtem pagar a malta baril da esquerda para teclarem umas cenas ou para serem filmados na converseta de café? ‘Tá-se bem. E viva a liberdade de imprensa.

O nosso querido pulha

O The Economist tem uma Intelligence Unit. No Country Report de Janeiro de 2015, dedicado a Portugal, por várias vezes os inteligentes reunidos para descreverem e avaliarem a situação portuguesa referem que um dos factores cruciais para os resultados das eleições legislativas deste ano consiste na prisão de Sócrates. Tal circunstância explicará a dificuldade, e previsível impossibilidade, do PS em ter uma maioria absoluta nas intenções de voto, afirmam. O que há de notável nesta reflexão é o facto de aparecer completamente desapaixonada, resultando apenas de uma ponderação objectiva por especialistas estrangeiros em economia, política e sociologia.

Acontece que a previsão feita em Janeiro a pecar será por defeito. Como o dia de hoje confirma, sem necessidade alguma de confirmação, na prisão de Sócrates o que volta a estar em causa é mais um caso de espionagem política, para além do choque moral da situação. Estar a escutar Sócrates desde 2013 levaria inevitavelmente a recolher material que aludiria a inúmeros agentes polítícos, fossem do PS, de outros partidos, do Governo e da Presidência, pelo menos. E saber que essa captação fatalmente teria impacto público – portanto, também político, para mais em ano duplamente eleitoral – caso fosse utilizada nesse intento não é algo que concebamos ter escapado aos neurónios dos responsáveis judiciais do processo. Então, que foi feito para proteger as pessoas, as instituições e a democracia de uma possível violação dos direitos de privacidade de Sócrates e terceiros? Alguma coisa? E ninguém se importa, é isso? Nem sequer o PS?

Esta direita, com a conivência complacente e divertida da esquerda, tem apostado as suas principais cartas na judicialização da política e na onda populista que aí cresce selvagem. Andaram a exigir que ex-governantes fossem julgados por terem tomado certas decisões políticas que não configuram qualquer ilegalidade, apenas divergência de opinião. Andaram a explorar as escutas feitas no “Face Oculta”, daí partindo para o ataque aberto a magistrados que defenderam a Lei. Com a prisão de Sócrates, e a chafurdice permitida pelo processo judicial às escâncaras e a soldo, vivem um momento de glória e êxtase. O emporcalhamento do PS, de Costa e da sua equipa está garantido de cada vez que se alimentar a cultura da calúnia reinante e o ódio ao bode expiatório do regime.

Dir-se-á, com supino bom senso, que tal desfecho seria obrigatório – dada a natureza humana. A política, repetem alguns com voz cansada, é isto e só isto, a eterna luta pelo poder, a impiedade para com os adversários. Pode ser que sim. E pode ser que não. Mas que seja o que cada um de nós quiser para si. Acaso queremos viver com um pulha dentro de nós? Será essa uma das mais importantes decisões políticas a tomar por quem se sinta cidadão.

E disse isto sem se rir? Não, aí é que está o problema

Passos Coelho disse ontem, aparentemente bem disposto, que, na aplicação da sua terapia ao país, não importou atentar à dor causada nem aos efeitos colaterais. Havia um doente e ele dispôs-se a curá-lo. Ele, reparem bem. E acha que o curou.

Ora bem, alguma observações:

  1. Mesmo que o homem fosse médico e não curandeiro, ele há médicos e médicos. Muitos erram ou são pouco interessados, pouco sensíveis, ou, pura e simplesmente, não são bons profissionais. Não me parece que, só por se intitular médico, alguém tenha que ser considerado um génio. Nem todas as terapias são adequadas. Algumas provocam até alergias graves, quando não lesões irreversíveis. Será este o caso. Fazer crer que não há outros médicos nem outros «tratamentos» é próprio dos incompetentes, dos ignorantes, dos ditadores e dos vigaristas.

  1. E, para começar, Portugal estava doente? A «doença» era o défice excessivo provocado pelo combate a uma crise de consequências imprevisíveis? Essa é que era a doença? Ainda por cima, induzida pela UE? É que o medicamento foi apontado exclusivamente a esse «mal».

  1. Mas, mesmo que se queira manter a metáfora do doente, Portugal estava doente ou puseram-no doente? É que a origem de um mal é o mais importante do ponto de vista da terapia.

  1. Se as causas do mau estado em que as finanças públicas se encontraram a dada altura se prenderam principalmente com uma crise internacional gigantesca, com a pertença ao clube da moeda única e, sobretudo, à recusa, em 2011, de uma «terapia» menos invasiva, que espécie de cura foi o empobrecimento do país, a sua desqualificação e a fuga da sua população jovem? O que melhorou por efeito direto da terapia aplicada? A redução do défice à custa da violência social pode ser considerada uma cura? Para se seguir o quê? Uma não vida?

  1. Portugal nunca foi uma potência económica europeia, sendo totalmente dependente da situação de outros países mais próximos e/ou mais ricos. Também nunca investiu devidamente na educação e qualificação da população, nem na reconversão industrial. Quem ouve falar estes idiotas, dir-se-ia que, subitamente, estamos na rampa de partida para nos tornarmos um Reino Unido do sudoeste. Entre 2005 e 2009 houve um governo que, paralelamente ao rigor financeiro, pretendeu colmatar as lacunas de qualificação, educação e de investimento em ciência e na modernização infraestrutural, puxando pelo melhor que o país tinha. Para esta espécie de charlatães, agora em campanha eleitoral, foram apostas inúteis. Bom, bom é manter o país na cauda da Europa, de onde nunca deveria ter ambicionado sair. E ajoelhado, para ser premiado pela sua docilidade. Uma cura e peras!