O Estado da Nação assim o exige

Creio que o dr. Relvas devia apresentar-se no Ministério da Educação em ordem a pôr a sua formação académica ao serviço da recuperação das aulas perdidas e demais apoios aos alunos vitimizados pela revolução liberal em curso. Poucas tarefas há que sejam mais nobres do que o ensino e uma figura que tanto já deu a Portugal em áreas tão diversas – que vão desde a aeronáutica aos ranchos folclóricos, chegando às mentiras no Parlamento a respeito da intimidade com espiões e às chantagens sobre jornais e jornalistas, passando pela facilitação de negócios e ofensas soezes a familiares de adversários políticos – pode dar aqui e agora um exemplo mobilizador para resolver, ou aliviar, a crise na Educação. Aliás, se há ambiente vocacionado para a procura do conhecimento permanente, esse é o espaço pedagógico.

Relvas, volta para a escola.

O ministro Pires

No dia 14 do corrente, António Pires de Lima foi à Comissão Parlamentar de Economia. Perto do final das quase 3 horas que durou a sessão, aparentando estar em plena posse de funções públicas e cognitivas numa sala da Assembleia da República, lembrou-se de partilhar com o País o que pensava enquanto ministro acerca do presente e do passado da PT. E que era isto:

- Os problemas actuais da PT foram causados no passado.

- Esse passado começa com os Governos de Sócrates e termina com os Governos de Sócrates.

- Nesse passado, os Governos de Sócrates interferiam na PT, daí os problemas actuais.

- Nesse passado, o Governo de Sócrates usou a Golden share para impedir que a Sonae comprasse a PT.

- Nesse passado, o Governo de Sócrates obrigou a PT a fundir-se com a Oi, daí os problemas actuais.

- Ah! E também nesse passado, o Governo de Sócrates meteu uns malandros no BCP que deram cabo daquilo.

Estas declarações geraram a resposta de Paulo Campos que este vídeo documenta:

Paulo Campos é o tal ex-secretário de Estado de Sócrates que desviou centenas de milhões de euros para empresas amigas envolvidas nas PPP, tal como o Correio da Manhã e a Ana Gomes conseguirão provar assim que o entenderem. Por sua vez, Pires de Lima é filho desse outro Pires de Lima que aproveitou uma ida ao Crespo, em 2010, para tratar o primeiro-ministro da altura como um “aldrabão de feira”. Last but not least, o Pires de Lima filho, nesta sessão da comissão parlamentar, também se referiu ao ambiente de feira para carimbar a reacção dos deputados do PS que o ouviam, algo que o presidente da comissão, Pedro Pinto do PSD, repetiu com gosto. Estamos assim entre aldrabões e feirantes, embora não necessariamente por esta ordem.

Campos falou de factos. Os factos mostram que o ministro da Economia, na Assembleia da República, mentiu de forma grosseira a respeito de acontecimentos indiscutíveis. Com base nessas mentiras, lançou suspeitas, difamações e calúnias. E ainda terminou o exercício de emporcalhamento do seu estatuto, do seu papel e dos seus deveres com o ar de satisfação que as imagens registam. Obrigado a responder à exposição da sua indecorosa violação da decência, começa por revelar ao mundo que “os factos são factos“. E depois repetiu a dose, incapaz de assumir qualquer responsabilização pelos seus actos oficiais e públicos.

Repare-se como esta figura caricata, dada como potencial candidato a suceder a Portas e vista como uma jóia de competência política nos depauperados recursos humanos do CDS, encheu a boca com a “moral” e a “ética” para mais uma dose de velhacarias paga pelo Estado e acaba exibindo-se como o familiar aldrabão de feira do imaginário paterno. Aliás, seria lindo vê-lo a discursar livremente sobre o que considera ser a moral e a ética, mas os deuses nunca nos concederão essa benesse, tenho a certeza.

Falar da decadência da direita é falar disto. Um discurso que não passa da repetição do que de mais básico existe na cultura política oligárquica, a qual é uma praxis violenta que ambiciona sempre a destruição do adversário. Não o podendo fazer com armas, faz-se pela mentira. Um ministro da Economia que dá mais importância à celebração da sua pessoa do que ao conhecimento acerca do uso de uma Golden share, que precisa de citar entrevistas facciosas, que recorre à desonestidade intelectual inane do “toda a gente sabe” é, verdade seja dita, um ministro pires.

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Apêndice 1

Pires de Lima termina a sua intervenção fazendo um elogio a Mariana Mortágua a propósito da discussão sobre a PT. Que se terá passado? Que levou a pulhice a louvar o que resta da “esquerda grande”? Explica-se sem esforço: Mortágua disse que no tempo de Sócrates havia interferências na PT. Não explicou quais, nem como, apenas repetiu a cartilha da direita. E ganhou um rebuçado.

Apêndice 2

No Política Mesmo, no mesmo dia, Paulo Magalhães preparava-se para encerrar o bloco com Santos Silva dizendo que já não tinham tempo para falar das “interferências governativas na PT” aquando dos Governos de Sócrates, mas que o fariam numa outra oportunidade. Santos Silva não deixou passar essa insinuação dada como facto e de imediato explanou o sentido de haver uma Golden share e de como ela servia tanto para dar alcance estratégico internacional como para controlar desvios numa empresa com a dimensão e valor da PT na altura. Era a perda da Golden share, deixando a empresa totalmente nas mãos dos accionistas, que teria dado origem à sua implosão adentro da implosão do império BES.

O que este episódio revela é a promiscuidade entre jornalistas e as agendas políticas avulsas, pois Paulo Magalhães é um profissional que mantém regular equidade e pose sóbria mas que aqui aparece a espalhar uma ideia que serve apenas um dos lados do combate político. Fazer jornalismo é outra coisa.

Revolution through evolution

Partisan lenses: Beauty lies in your political affiliation

Is reheated pasta less fattening?

Cadavers beat computers for learning anatomy

Myth-conceptions: How myths about the brain are hampering teaching

Price Check: Cost Doesn’t Signal Quality

How to Solve the Nation’s Math Crisis? Tap into Everyday Examples of Calculus in the World Around Us

Uncertain Reward More Motivating Than Sure Thing, Study Finds

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Três em um

O projecto de revolução, perdão, o projecto de resolução que o PCP apresentou há dias no parlamento, a que se chamou “três em um” e que, como previsto, foi chumbado por quatro quintos dos deputados, advogava, sob a forma de eufemismos, três grupos de medidas.

Primeiro, a “renegociação da dívida”, que propunha basicamente o não pagamento de “pelo menos” metade do montante da dívida do Estado e a descida dos juros da dívida restante em “pelo menos” 75%, alvitrando ainda que fosse suspenso todo o pagamento da dívida enquanto a sua “renegociação” não fosse concluída (tal como nas greves, enquanto não há acordo).

Segundo, sob o lema da “libertação do país da moeda única” e da recuperação da “soberania monetária”, propunham os comunistas que se iniciassem os preparativos para a saída do euro e, logicamente, o saudoso regresso ao escudo, crismado “nova moeda”, com medidas complementares como o controlo do comércio externo, o controlo administrativo dos preços para debelar a inflação, o “combate à fuga de capitais” e uma interessante conversão de toda a dívida nacional, incluindo a privada, para a nova moeda nacional (esperando talvez que, desvalorizando esta, diminuiria a dívida em euros ou dólares…).

Em terceiro lugar, os comunistas propunham a “recuperação do controlo público da banca comercial e de outras instituições financeiras”, ou seja, um remake perfeito do 11 de Março de 1975 para todo o sector financeiro, começando logo pela intervenção “de emergência” do Estado nos bancos em dificuldades (isto é, em todos).

O Bloco de Esquerda apoiou a primeira e a terceira medidas, abstendo-se na segunda, isto é, o regresso ao escudo, por alguma razão misteriosa.

O projecto de resolução comunista NÃO propunha nem a ressurreição de Vasco Gonçalves, nem a recriação do Conselho da Revolução, nem a reanimação da Aliança Povo-MFA, nem a nacionalização da comunicação social.

Um projecto moderado, portanto.

Cadê o fact-checking?

A primeira vez que a imprensa portuguesa se apressou a fazer um fact-checking deveu-se à entrevista de Sócrates que marcou o seu regresso às lides políticas, agora como comentador. Percebe-se porquê: Sócrates foi sempre um ódio de estimação dos jornalistas, fosse por razões ideológicas tanto de direita como de esquerda – recorde-se o circo de extremistas e fanáticos que rodeava Moura Guedes na TVI no auge da exploração do Freeport, a extrema-direita abraçada à extrema-esquerda nas batidas nocturnas de archote e chicote na mão -, fosse por agendas partidárias, fosse por reacções primárias nascidas da inveja, da soberba, do rancor ou do complexo de inferioridade.

Então, nesses idos de 2013, o regresso de Sócrates correspondia ao regresso do maior mentiroso da História de Portugal. Seria canja apanhá-lo, pois a campanha de assassinato de carácter desenvolvida contra ele postulava que o homem era um mentiroso patológico. Um mentiroso patológico que, por isso mesmo, seria corrupto sem carência de provas e, portanto, tinha levado o País à bancarrota por ser corrupto e mentiroso. Um louco. Esta cassete tocou sem parar, em toda a comunicação social, durante anos – e anos de uma crise de que quase já não havia memória viva de outra equiparável na sua dimensão.

Pois bem, quais foram as mentiras de Sócrates? Tendo em conta que este blogue sempre atraiu taralhoucos e broncos em número avultado, os quais chegam aqui com informação de qualidade acerca das maldades desse génio do mal, peço o favor de as listarem. Prometo que lhes darei destaque integral após concluirmos a recolha.

O objectivo é compararmos factos. Por exemplo, é um facto que Pedro Passos Coelho mentiu quanto pôde na campanha eleitoral. Por exemplo, é um facto que o Governo de Pedro&Paulo mente sempre que se desculpa com o Memorando, o tal documento que pecava por não ir tão longe como o Governo estava disposto a ir no empobrecimento e o tal acordo que foi sendo alterado a cada revisão com a Troika e já sem qualquer negociação com o PS. Por exemplo, é um facto que nem a comunicação social nem o Presidente da República censuram o Governo e os partidos que o apoiam por tantas e tão desvairadas mentiras. Estes são alguns factos, entre muitos outros, a respeito do grau, da extensão e da gravidade do uso da mentira pelo actual poder político, Belém incluído.

Tu, taralhouco, que te deitas e acordas a pensar no Sócrates. Tu, bronco, que achas que Portugal teve de pedir um resgate de emergência por causa do TGV e do aeroporto. Tu, pulha, que só tens espaço livre no bestunto para calúnias. Digam lá. Quais foram as mentiras do monstro?

Chegaste aos 50? Os juízes portugueses decidem que te deves remeter à castidade

Juízes defendem em acórdão que sexo já não é importante aos 50

Uma profunda e larga experiência de vida é fundamental para o exercício pleno da magistratura. Mas quando a experiência individual dos juízes colide com a experiência dos sujeitos das suas decisões em dimensões tão idiossincráticas como aquelas relativas ao “bunga bunga”, ou até a coisas sem qualquer importância como a realização do afecto e a manutenção ou recuperação da saúde mental, então, se calhar, às tantas, os juízes deveriam ser julgados por crimes contra o amor e a liberdade.

Paula Teixeira da Cruz, um exemplo a seguir

A Ministra da Justiça fez a maior reforma dos últimos duzentos anos. Em resultado dessa homérica obra, a Justiça portuguesa recuou dois mil anos. Os processos pura e simplesmente desapareceram do mapa à escala nacional. Que fazer a seguir? Uma ministra normal, sem o estofo desta, teria pedido a demissão, e só depois pediria desculpas. Mas isso seria uma atitude típica do tempo em que reinava a impunidade. Pelo que Paula Teixeira da Cruz começou por pedir desculpas e depois resolveu impor a si mesma o maior castigo imaginável para tamanha irresponsabilidade: pedir a um socrático que a viesse salvar. E ele veio, e ele retirou a Justiça do caos.

Agora só falta aplicar a mesma solução nas restantes áreas governativas, começando pela Educação de forma a evitar que apenas no terceiro período todas as escolas tenham todos os professores. Ao contrário do que disse essa espécie de Presidente da República, problemas como estes não são “recorrentes“. Problemas como estes que conhecemos em 2014 são originais e pressupõem um uso da matemática que transcende a racionalidade humana. São o fruto da “revolução liberal” que veio para acabar de vez com o Estado, e cuja doutrina um dia – um dia! – ainda fará escola numa universidade em Cabo Verde.

Teatro experimental

Foram precisos três anos e um flagrante desastre técnico/concetual, mas com consequências mais vastas, na Educação para um membro deste governo vir reconhecer o «experimentalismo» da sua política. Reconheceu-o Nuno Crato no seu pelouro, mas muitos outros ministros deveriam reconhecê-lo também e depois desaparecer, como não fez Nuno Crato. O experimentalismo deste ministro, porém, não se limita ao sistema de colocação de professores. O caos que este enorme erro gera é imediato e visível, mas o caos e o retrocesso a mais longo prazo gerado por um sistema educativo exclusivo, elitista e desigualitário não são mensuráveis para já. Só por isso pode o restante experimentalismo de Crato não ser reconhecido pelo próprio. Mas nem por isso deixa de o ser. A aura de matemático é a máscara com que se apresenta.

 

O experimentalismo não é, como disse, exclusivo do ministério da Educação, pelo que as vítimas não se limitam aos professores e aos alunos. Experimentalismo é mesmo a prática dominante entre os principais ministros deste governo, começando pelos das Finanças. Durante dois anos, Gaspar não fez outra coisa senão experimentar modelos que estudara em teoria. As consequências foram tão desastrosas e irreversíveis que o homem, na segunda ocasião, zarpou para longe, de onde agora emite opiniões sobre medidas de combate a crises que não passam forçosamente por «brutais» aumentos de impostos. Na prática, reconhece agora que praticou o «experimentalismo». Deixou, porém, sucessora. Até ser chamada pelo FMI, ou na mira de que tal aconteça, Maria Luís insistirá no modelo experimental. Não conhece outro nem quer conhecer. Este é mais fácil, mais cómodo, mais pacífico para a relação com os germânicos de Bruxelas e, para ela, quiçá mais compensador. Porque o faz? Porque pode. Como o vende? Com uma cara séria.

Na Justiça, experimentam-se reformas e suportes informáticos sem qualquer consideração pelos direitos dos cidadãos. Este experimentalismo não foi ainda reconhecido, apesar de estar à vista. E é leviano e irresponsável, como a própria ministra, apesar do ar duro com que se nos apresenta. A incompetência e a irresponsabilidade também se vendem com um semblante cerrado e um cabelo de um loiro dorido.

Experimentalismo é também o que Passos anda a fazer desde que tomou posse. Experimentou ser primeiro-ministro. A experiência está a sair-nos caríssima. Experimentou ser sério, mas logo após o anúncio da subida da TSU, foi divertir-se para um espetáculo musical. Experimentou também, por exemplo, dar dignidade a Miguel Relvas, mas, não a tendo ele próprio, a outra face da moeda, a tarefa revelou-se impossível. Impossível para Relvas, não para ele, que era o ator principal. Quanto à forma, e à tecnoforma, como continua a vender a sua imaginária dignidade e gravidade, o leitor saberá a resposta. Os figurantes Lomba e Maduro, suas escolhas já a peça começara, vieram reforçar a farsa, com o número burlesco dos «briefings». O ridículo levou um deles a desaparecer pelo buraco do ponto sem que mais ninguém o visse. O problema é que o público, regra geral, não ri, está fechado na sala e vão-lhe sendo cobrados impostos a cada número.

Estado: dá para não tomares conta de nós?

As notícias confirmam que o OE concretizou o sonho de Leal da Costa, o membro do Governo mais perigoso em termos de desfiguração do conceito de liberdade.

Leal da Costa tinha avisado que queria tomar conta de nós. Não gosta de “produtos nocivos”, como aqueles que levam “muito” açúcar ou sal, donde taxa-los mais para que o indivíduo aprenda à força a ser saudável.

Também os “cigarros” e o “fumo”, onde sabiamente inclui os cigarros eletrónicos, levam com uma taxa acrescida.

Neste último caso, sabendo – imagino – Leal da Costa – que não há fumo, mas vapor, que o mesmo vapor não tem quaisquer efeitos prejudiciais para terceiros, que desde 2008 até agora ficou demonstrado que nada sustenta efeitos negativos para os utilizadores (a não ser a tristeza de se deixar de fumar) a causa da punição fiscal só pode residir na ideia totalitária de que o Estado deve modelar os comportamentos dos cidadãos.

Esta ideia foi de resto ventilada pelo presidente da ordem dos médicos e não houve qualquer sobressalto cívico, nada, zero, perante a frase que nega a essência do estado de direito. Esta dita a frase contrária: “o Estado não pode modelar o comportamento dos cidadãos”.

Entre argumentos como “não dês esse exemplo, cidadão” e “não vaporizes ao pé dos outros porque chateia, mesmo não sendo fumo”, esquecem-se que isto da liberdade passa por uma dose de incómodo, pelo que o perfume infernal de uma colega não é juridicamente “incómodo relevante” para o Estado escolher o cheirinho de cada um. Também não me apetece, assim de repente, educar crianças alheias, mas sei que são estes e outros argumentos que se juntam num monstruoso não-conceito de liberdade para taxar e para proibir o que o Estado decide que é mau para mim.

O problema é sabermos onde isto acaba. Não posso ser viciada em açúcar ou sal ou nicotina (que nos cigarros eletrónicos é inofensiva).

E amanhã? Será que esta direita que não sabe o que é o indivíduo vai aderir a gente parecida por este mundo fora que já está a estudar os efeitos da “obesidade passiva” com vista a limitar (ai, o exemplo) os direitos dos gordos desagradáveis?

Sei que o caminho para a liberdade e o caminho para a abolição dela têm um ponto em comum: pequenos passos.

Isto não é irrelevante. Trata-se de saúde e de liberdade.

Imagino um Stuart MIll ou um Berlin às voltas no túmulo, este último que numa frase disse tudo: “libertar o homem de si próprio é menorizar o homem”.

O laranjal ficou apavorado

Mendo Castro Henriques é um ilustre desconhecido para a enorme maioria dos portugueses, apesar de já ter aparecido na TV em diferentes ocasiões. Recentemente, o seu nome ganhou notoriedade por ser um dos fundadores do Nós, Cidadãos, movimento que pretende concorrer às próximas legislativas e ao qual aparecem já associados os nomes de Rui Rangel e José Cid. Na edição do Prós & Contras, de 29 de Setembro, a sua intervenção deixou muito incomodado Luís Montenegro.

Castro Henriques reclama estar a representar os interesses daqueles que saíram à rua em 15 de Setembro de 2012 numa das maiores manifestações de sempre em Portugal. Trata-se de uma pretensão demagógica, dado que a multidão juntava interesses muito dispersos e até radicalmente contraditórios. Mas a desmesura da sua ambição tem credibilidade suficiente para ser uma bandeira eleitoralmente viável se reconhecermos que nesse dia foram os tradicionais eleitores do PSD e CDS os que contribuíram decisivamente para a grandiosidade surpreendente do evento. E essa heterogeneidade ideológica e social dos participantes explica tanto a dificuldade da opinião profissional no seu diagnóstico e prognóstico como explica a ausência de qualquer efeito político desse protesto nacional para além da parte gaga acerca da TSU. Pois aqui está uma tentativa de aproveitamento dessa mobilização civil, por mais improvável que seja o seu sucesso. O que é que assustou o Montenegro?

Um discurso que diga o óbvio, isso de estarmos piores do que com o último Governo de Sócrates e isso de os testas-de-ferro dos mercados terem afundado o País por oportunismo e incompetência, deixa o Montenegro a sorrir se vier da esquerda – e deixa-o apavorado se vier da direita. É esse o potencial de Nós, Cidadãos, o qual se dirige directamente à base tradicional do PSD e do CDS com a pergunta: querem continuar a suportar estes trafulhas que nos vão ao bolso? Este posicionamento também compete com Marinho e Pinto em alguns dos temas e promessas, embora se distinga pela elevação intelectual e pelo enraizamento profundo nas preocupações da classe média. Onde a base de apoio do ex-bastonário é um albergue espanhol nivelado por baixo, Castro Henriques apresenta-se como um membro de uma sociedade civil produtora de riqueza a quem repugna o populismo circense do Marinho e Pinto.

Não admira, pois, que o Montenegro tenha reagido procurando descredibilizar o mensageiro. Com a sua displicência (que me encanta, por ser paradigmática da qualidade política dos quadros do PSD), começa por mostrar que nem sequer percebeu o que ouviu e termina a impedir que Castro Henriques lhe consiga responder. É um profissional de uma certa forma de fazer política a que a direita decadente está reduzida. Caso o Nós, Cidadãos consiga que António Capucho assuma uma posição liderante e combativa, ele que neste momento odeia os “liberais” que nos desgovernam e trazendo a sua gravitas de exemplar cavaquista, os danos no PSD têm o potencial para serem históricos.

Ig Nobel da Economia para Cavaco

Para este ano já vai tarde, mas o ainda pesidente de todos os putugueses merecia o Ig Nobel da Economia de 2014.

Cavaco desmentiu hoje todos aqueles que andam a dizer (como o seu primeiro ministro e a sua ministra das Finanças) que eventuais perdas da CGD na venda do Novo Banco se reflectiriam indirectamente nos contribuintes, dado que a CGD é propriedade do Estado. “Totalmente errado” – disse o economista de Boliqueime, que  é mais coelhista que o Coelho. Para Cavaco, a CGD, apesar de detida pelo accionista único Estado, está metida no mundo mercantil, daí que as suas perdas pela participação no fundo de resolução do BES não se repercutam nos contribuintes, mas apenas nos lucros ou prejuízos da CGD resultantes da sua acção “mercantil”.

Genial! Mas a CGD não é do Estado, ó estúpido?

Parece, de facto, que para este avantesma a CGD já é privada…

A gente séria não brinca em serviço

A propósito deste artigo do João Galamba – Mistérios do Espírito Santo -, o qual é apenas mais um entre vários a apontar para o mesmo, venho manifestar o meu espanto por ainda não ter lido nem ouvido qualquer referência ao que se passou em Portugal no dia 31 de Julho (pelo menos, que pode ter começado a 30, ou antes, sei lá). E que foi isto: corria à boca fechada e ao sms aberto que o BES iria ser nacionalizado no dia seguinte. Como ainda me lembrava dos boatos sobre a nacionalização do BCP, em 2010, admiti que pudesse ser um fenómeno igual. Afinal, o poder político e financeiro português tinha dado as mais explícitas garantias acerca da solidez do banco.

Se a informação me chegou e eu nem sequer tenho conta no BES, com certeza terá chegado a toda a gente interessada muito antes. Muuuuuuuuuito antes. As transacções que se fizeram nesse período, de acordo com o que já foi tornado público, ficam como a prova provada do que se quis que acontecesse.

Os professores gostam de ser tratados como gado

Há quem defenda que um dos maiores erros de Sócrates foi a forma como lidou com os professores, e é um facto que estes contribuíram, e muito, para criar uma imagem negativa do Governo anterior. O primeiro-ministro era arrogante, a ministra era sinistra e as escolas eram vítimas de asfixia, razões mais do que suficientes para que os professores estivessem permanentemente em luta e de luto. Mas à luz do que se tem passado nestes três últimos fatídicos anos, percebemos que Sócrates e a sua ministra da Educação nada poderiam ter feito para impedirem o ódio dos professores. Se não fosse a avaliação teria sido outro motivo qualquer a manter acesa a verdadeira guerra que abriram contra o anterior Governo. Os professores, sem tugirem nem mugirem, foram completamente manipulados e usados como arma por um sindicato e pelo seu líder que, como é mais do que óbvio, esteve, e continua a estar, muito mais empenhado em defender os interesses do seu partido do que os interesses da classe que diz defender. E o principal interesse do seu partido era, e é, combater o PS e derrubar os seus Governos. E os professores deixaram-se usar como arma para que Mário Nogueira levasse a cabo essa missão. Aparentemente, não estão arrependidos. Apesar do verdadeiro caos que está instalado nas escolas, não estranham a apatia de Mário Nogueira, não há queixas de arrogância por parte do actual Governo ou de os professores não estarem a ser tratados com a dignidade que merecem, nem ninguém está de luto pelo fim da escola pública. Pelo menos, não há razões para que se realizem as manifestações de 200 mil professores com que brindaram o Governo anterior. Estão suspensas. Guardadas para o ministro da Educação do próximo Governo socialista, seja ele quem for e faça ele o que fizer.

À série

Kemal
Pamuk
2010-11-12_Julian Fellowes_1ª-2ª-3ª épocas

Só vi esta série no começo de 2014. As três primeiras temporadas de rajada. Os elogios em que fui tropeçando desde que surgiu eram unanimemente hiperbólicos. Num período de glória televisiva, com as séries a ultrapassarem o cinema em relevância social e cultural, o entusiasmo gerado por este produto britânico despertava as mais altas expectativas.

Episódio 3 da 1ª temporada. A Condessa de Grantham quer muito casar a filha mais velha. Com esse fim, convida o filho de um marquês a passar uns dias lá em casa. O filho do marquês aceita e anuncia que levará consigo Kemal Pamuk, um diplomata turco filho de um dos ministros do Sultão. A Condessa de Grantham decide que a filha casadoira deverá acompanhar as visitas numa caçada. Kemal Pamuk revela-se um adónis que perturba assaz favoravelmente Lady Mary, a filha casadoira. Tão perturbada fica que despacha o guardião parental e vai para a caçada como presa indefesa. Kemal não perde essa oportunidade e a meio da coisa, depois de uma valente galopada, propõe-lhe que sigam por um atalho. O atalho implica saltarem para dentro de uma poça de lama, ficando ambos muito sujos. A metáfora não podia ser mais explícita, aqueles dois estavam doidinhos para fazerem porcarias mesmo porcalhonas. Ao voltarem a Downton Abbey, Kemal, o turco, arrasa com sucesso igual no sexo oposto como no sexo não oposto. A primeira vítima do seu fascínio bi-erótico é um dos criados, o qual não perde tempo e na primeira vez que se encontra no quarto da visita para a servir trata de lhe mostrar que o serviço pode ser completíssimo. Kemal recusa, tem gostos diferentes mas um plano parecido. Plano esse que passa por aproveitar a sua primeira noite sob a hospitalidade da nobre família Crawley para se enfiar no quarto da filha casadoira. Se bem o pensou, melhor o executou. Lá chegado, explica ao que vai. Vai fazer-lhe uma certa coisa com a pilinha que, garante, não porá em risco a sua virgindade. Lady Mary poderá casar com um otário qualquer sem temer o escândalo, desenvolve Kemal. Basta usar a imaginação. Um único obstáculo ainda se ergue entre a pilinha do turco e uma parte não nomeada da intimidade virginal da Lady. É a interrogação final: “Vai doer?” Que nada, responde o diplomata. Essa agora, o que é que isso importa. O que é preciso é estupidez e descontracção natural. Resposta convincente, a avaliar pela abundante troca salivar a que dá origem. Corta para Lady Mary a receber uma descasca da Condessa madrugada adentro. O cabrão do Pamuk tinha patinado durante o acto. Esse garboso e atlético jovem terá ido longe de mais no esforço despendido a dar largas à imaginação. E a filha casadoira de uma das mais ilustres linhagens de sangue inglês ficava determinantemente proibida de andar a levar no rabo do corpo diplomático turco.

Este terceiro episódio consolidou a minha crença de estar perante uma versão actualizada de Upstairs, Downstairs (A Família Belamy). Jamais nos anos 70 teria sido possível tratar na TV a sexualidade desta forma tão libertina e tão pícara. Tirando isso, o modelo narrativo era exactamente igual ao da série de saudosa memória. As venturas e desventuras dos amos e criadagem numa casa da aristocracia londrina no princípio do século XX, a ideologia niveladora e conservadora, onde há heróis e vilões em ambas as classes e onde faz sentido haver classes, a simetria entre os códigos monárquicos e a hierarquia do trabalho proletário. Tudo igual, tudo telenovelesco. Mas com homossexuais assumidos, sexo anal em miúdas virgens e cavalos. De facto, prometia.

O que veio a seguir reposicionou a história entre o Kemal e a Lady, e gradual mas inexoravelmente transportou-me para a conclusão de ser Downton Abbey não só uma das mais pirosas séries que alguma vez vi como um exercício de escrita televisiva a pedir intervenção terapêutica de psicanalistas. As personagens revelaram-se todas, sem excepção, como unidimensionais, sem profundidade nem complexidade. Essa insuportável leveza de ser é agravada pela vacuidade das suas acções que nunca ultrapassam o simplismo, o infantilismo ou o artificialismo. Não admira que as personagens possam aparecer ou desaparecer sem qualquer nexo que acrescente unidade à história. À medida que começamos a descodificar o arbítrio criativo que impera na cabeça do autor e guionista da série, os episódios passam a ser cada vez mais hilariantes. E claustrofóbicos.

Há uma moral nesta palhaçada: os muito ricos sofrem muito e merecem receber a compaixão dos pobres. O resto é paisagem; e o mundo interior de uma sopeira milionária chamada Julian Fellowes.

Montenegro, tem vergonha

Luís Montenegro referiu-se ao vencedor das primárias no PS para candidato a primeiro-ministro logo no início da sua intervenção, a propósito do programa de resgate aplicado em Portugal: «Não, doutor António Costa, este não é o programa do Governo, foi o programa que os senhores negociaram».

Em seguida, o líder parlamentar do PSD citou uma afirmação que o secretário-geral cessante dos socialistas, António José Seguro, dirigiu a António Costa durante a campanha para as primárias no PS: «Tu eras o número dois da direção do PS e nunca te ouvi nada contra o memorando».

«2009, o ano em que se subiram salários e se baixaram impostos para no ano seguinte pagarmos tudo a dobrar. 2009, o ano em que o défice ficou 400% acima do que era previsto. 2009, o ano da satisfação e da coerência do doutor António Costa e do PS», declarou o líder parlamentar do PSD.

PSD associa Costa à governação de Sócrates e ao programa de resgate

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Para se usar Sócrates como argumento ad terrorem é preciso deturpar, mentir e omitir num registo de absoluta impunidade. É o que faz o PSD, mas também Cavaco, desde 2008 de forma sistemática. E espanta, pelo menos a mim, a inépcia do PS face a tão básica táctica da direita. Já o marasmo do PCP e do BE não surpreende, dado fantasiarem ganhos do permanente exercício de baixa política contra os socialistas.

Luís Montenegro estava no Parlamento e no PSD em 2008, 2009, 2010 e 2011. Vamos admitir que não sofre de amnésia. Excluindo essa hipótese, como explicar que este homem nos fale como se o PSD em 2008 tivesse sido contra o aumento dos funcionários públicos, como se o PSD em 2009 não tivesse pedido a baixa dos impostos, como se o PSD em 2010 não tivesse andado a clamar pela vinda do FMI e como se o PSD em 2011 não tivesse afundado o País e declarado que o Memorando era quase igual ao seu programa, só pecando por não ir tão longe no empobrecimento como Passos, Relvas, Gaspar e Portas queriam ir e foram mesmo?

Acima e antes de tudo, como pode Montenegro ser um dos agentes da maior fraude eleitoralista da democracia portuguesa, enganando os eleitores numa escala colossal, e ainda ter o topete de emporcalhar o debate na Assembleia da República de cada vez que fala em Sócrates, no PS e no Memorando?

Espero que o novo PS encontre rapidamente uma resposta adequada a esta decadência que atrofia e degrada a qualidade da nossa democracia e respectiva governação. Até porque não é difícil, basta querer.