Uma relação impecável

Cavaco, que há umas semanas falava nas décadas de austeridade que ainda temos pela frente, lembrou-se ontem que afinal é preciso abrir janelas de esperança. Parece um nadinha contraditório, mas não é. É verdade que os comentadores já não se atropelam para ver quem faz a melhor tradução do que Cavaco quer dizer nas entrelinhas, mas desta vez não é necessário o contributo desses especialistas, esta é muito fácil de traduzir. Quando o Governo falava em mais cortes, Cavaco falava da necessidade de austeridade por muitos e muitos anos, agora que o Governo está a ser acusado de anunciar medidas eleitoralistas, Cavaco diz que é preciso abrir janelas de esperança. Bate tudo certo. Portanto, se o primeiro-ministro fala do aumento do salário mínimo e o ministro da Economia diz que esse aumento só ocorrerá lá mais para o fim do ano ou princípio do próximo, ou seja daqui a um ano, não é eleitoralismo, nem é estar a gozar com a cara dos milhares que recebem essa miséria de salário, é abrir uma janela de esperança. Se Portas anuncia que o IRS deve começar a “inverter a trajectória de agravamento”, nesta legislatura, só mentes muito perversas podem ver aqui eleitoralismo, é óbvio que Portas está apenas a abrir uma mais uma janela. E, seguindo sempre este princípio, podem anunciar o que quiserem. Até podem anunciar que um dia, nas próximas décadas, hão-de ter uma ideia acerca do rumo que o País deve seguir.

Bem-vindos ao pós-25 de Abril

O Presidente Cavaco Silva nunca usou o cravo. E agora se percebe porquê. Porque antes do 25 de Abril foi salazarista. Embora tanto deva ao regime que resultou da Revolução dos Cravos. Mas só agora se compreende e a dois anos do fim do seu mandato e protetor de um Governo, que em boa parte pensa como ele, a verdade vem ao de cima. Como sempre.

Mário Soares, Abril de 2014

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Até muito recentemente, teria sido impossível ver um ex-Presidente da República a criticar o Presidente da República. Que eu saiba, mas corrijam-me se estiver enganado, nunca António de Spínola, Costa Gomes, Ramalho Eanes e Jorge Sampaio o fizeram. Mesmo no caso de Soares, e tão próximo como 2009, não vimos nenhuma reacção sua à “Inventona de Belém”, suprema ocasião para verbalizar o que achasse por bem verbalizar face ao maior escândalo ocorrido na Presidência e, num certo e democrático sentido, no regime.

Nos últimos dois anos, pelo menos, Soares tem aparecido num crescendo de ataques à outrance contra Cavaco. A citação acima corresponde a um zénite depois do qual não se imagina o que mais se poderá ir buscar antes de se chegar a acusações do foro criminal. Eis que um ex-Presidente da República, que ficará na História como um dos principais responsáveis pela instauração da democracia em Portugal, carimba o Presidente da República, e também o Governo, como “salazarista“.

Ainda antes de se discutir a justiça da adjectivação – aliás, sem carência de lá chegar – importa questionar: que significa a palavra? Seja lá o que for adentro das suas potencialidades semânticas, o denominador comum a qualquer dos seus usos terá de remeter sempre para um quadro em que o poder político limite e anule drasticamente as liberdades próprias de um Estado de direito democrático e onde se exerça perseguição política. Assim, catalogar alguém como salazarista corresponde a um dos piores insultos que se podem fazer a quem se considere democrata. Esse insulto será tão mais agravado quão maior for o estatuto de democrata daquele que o profere. Não é a mesma coisa ser chamado de salazarista por um comuna que, no fundo, odeia a liberdade quando exercida fora da sede do partido ou pelo “pai da democracia portuguesa”.

Para medir o extraordinário deste episódio, basta vasculhar a propaganda e discursos do PCP à procura da associação que Soares acaba de fazer. A confiar na Internet, o máximo a que se chegou foi a “ruralismo salazarista“, o que não é carne nem peixe, mais batata e em puré. Aliás, o PCP adora o papel de guarda-florestal das instituições da República a que a direita igualmente adora reduzir a agremiação dos ultraconservadores vermelhos, pelo que jamais se permitiria esses ultrajes soaristas à “figura” do Presidente da República. Mangas revolucionárias arregaçadas dentro do casaco, mas gravatinha sempre colocadinha para colaborar na moralização sistémica.

Então, temos que um ex-Presidente da República já se sente à vontade para escrever num jornal que considera ser o Presidente da República um representante do salazarismo. Será esta originalidade mediática suficiente para declararmos inaugurado o pós-25 de Abril? Não. O que nos garante termos atravessado o Rubicão em direcção um novo período na História de Portugal encontra-se nos efeitos que as palavras de Soares tiveram: nenhuns. Nada de nada de nadinha de nada aconteceu, ou vai acontecer, em consequência de uma das pessoas mais importantes do regime ter dito da outra pessoa mais importante do regime que esta defende os valores contra os quais se fez o 25 de Abril.

Minhas senhoras e meus senhores, democratas e salazaristas, bem-vindos a um tempo em que o 25 de Abril só parece ter um homem de 89 anos para o defender.

Perguntas estafadas a um PM estafado

Que pensa o PM sobre o crescimento sustentável do país?

O que pensa o PM sobre a evolução da dívida pública?

Qual a tal da saída que o PM defende?

Em 2016 teremos desoneração de pensões e salários, é? Que acaso ser depois das eleições, certo?

O que se vai passar em relação à tabela salarial única?

Os funcionários públicos não merecem informação de confiança?

A tabela nova não é para todos, pelo que percebemos. Haverá mais despedimentos?

Como serão exatamente feitos os cortes definitivos nas pensões?

O que quer dizer não teremos mais cortes e dizer ao mesmo tempo que haverá outra via?

Os 1400 milhões de cortes – parece que 1000 milhões têm a ver com os consumos intermédios (MF), tudo num ano, ao contrário da “loucura “ dos últimos 3 anos – são o quê?

O PM pensa que os portugueses não sabem que muito está por anunciar?

Tenho uma vaga ideia de estar a viver em Abril. Maio é o mês que vem aí. Para quando discutir o plano pós-troica?

Quantas pessoas conhece o PM que tenham saído do RSI por terem contas bancárias de mais de 100 mil euros? Ou alinha na ofensa mentirosa do seu vice?

O salário mínimo é um desígnio nacional num país onde se trabalha continuando-se pobre ou é uma conversa partidária?

Se o é, por quem nos toma?

Em que planeta pode Passos afirmar que os cortes brutais nos serviços públicos não tiveram efeitos na respetiva eficácia?

 

Entrevista de ontem: é que nem isso, meus amigos

Antes da entrevista a Passos, muita gente por esta blogosfera mais astuta e divertida imaginou o que seriam as perguntas do J.G.Ferreira e as respostas de Pedro. Umas eram perguntas que já incorporavam a resposta, incluindo-se muitas delas na categoria de perguntas retóricas, outras punham o jornalista numa posição muito ousada no que toca a números, obrigando o entrevistado a apresentar-se como ser humano com alma e preocupações sociais, outras ainda eram do género de poderem ser feitas.

Nada disso. Foi ainda pior. JGF enveredou por um caminho a que se pode chamar de “não entrevista”. Tratou-se de uma converseta e de uma converseta acanhada por parte de quem se devia mostrar profissional, e chocha, totalmente chocha, dirigida por um homem que até costuma aparecer nas televisões com análises categóricas e declarações bombásticas, tão ousadas quanto afuniladas. Dei por mim a cochilar. Não só as perguntas não foram minimamente incisivas, como também não abordaram sequer as grandes questões do momento: a tal saída limpa ou suja e as hesitações/insegurança de M. Luís Albuquerque, o pós-Troika, os chamados “consensos”, a Europa, os desempregados, os emigrantes que a ministra das Finanças diz que voltam, a bancarrota atual em contraponto com a alegada bancarrota passada, o Manifesto dos 74, a dívida, as comemorações do 25 de abril, as reformas estruturais, enfim, um número abundante de assuntos, que não se esgota nestes mencionados, e que ficaram de fora e não deviam ter ficado, se aquilo pretendesse ser uma entrevista a um chefe de governo num momento crucial do programa de resgate. E mesmo nos assuntos falados, como os das pensões, dos cortes e das “gorduras”, o entrevistador pareceu ficar satisfeito com as respostas totalmente vagas e impreparadas que obteve do barítono seu ídolo. Assim não. Isto não é sério.

Para a próxima, será melhor pôr o homem a cantar. Para não dizer nada, seria, quiçá, mais agradável. E o jornalista, que também não quer incomodar, poderia apenas deleitar-se a ouvi-lo e, no fim, bater as palmas que ontem se refreou de bater.

Escravos e mansos

Não há registo de revoltas de escravos na Grécia clássica, uma sociedade esclavagista. Como explicação possível, aponta-se para a diversidade étnica dos escravos presentes nas cidades gregas, todos eles estrangeiros. Não só estavam separados pela língua de origem mas ainda por diferenças corporais e culturais segregadoras. Algo parecido poderá reconhecer-se no Portugal do Pedro&Paulo.

Uma larguíssima parte da sociedade portuguesa aderiu sôfrega à fantasia milenar de haver um homem muito mau, diabólico, na origem dos problemas da comunidade. Este grupo reúne pessoas de direita que prezam o individualismo e se estão a marimbar para o vizinho, quanto mais para o Estado social, e pessoas de esquerda que sonham com uma qualquer forma de ditadura onde se possam começar a marimbar para o vizinho. Mas, maioritariamente, este grupo era constituído por uma juliana de fanáticos, broncos e avariados dos cornos. Sejamos claros: ter ido votar em Passos ou Portas em Junho de 2011 só porque não se gramava Sócrates coloca fatalmente essa alma numa qualquer das categorias acima indicadas. Porque era óbvio que quem andava a mentir com a boca toda não estava a preparar coisa boa, e PSD e CDS mentiram quanto e como puderam até às eleições.

Passos merece encómios pelo facto de não ter perdido um segundo após o agarramento do pote. Em modo blitzkrieg (tradução: “além-troika”), as primeiras medidas que tomou puseram radicalmente em causa o que tinha jurado ao eleitorado. Daí para a frente foi sempre a aviar. Sempre a empobrecer o País e sempre a mentir aos cidadãos. Como explicar, então, que a essa sucessão de escabrosas traições ao seu mandato eleitoral, e de degradação da função de estadista, se tenha seguido um crescendo de apatia cívica e irrelevância da oposição? Quando comparamos os protestos contra os Governos de Sócrates com os que se fizeram contra o actual Governo a lição parece ser a de que os portugueses gostam mesmo é daqueles que os maltratam e ainda gozam por cima.

Vários factores parecem contribuir decisivamente para o marasmo. Talvez o mais importante deles seja o que aconteceu ao PS, nas mãos de um cúmplice da estratégia da direita – afinal, análoga à sua para tomar conta do partido. Depois, temos a tragédia da esquerda, um coio de sectários e alucinados que prefere a lamúria impotente a ter de agir para o maior, ou mais urgente, bem comum. Junta-se a iliteracia política que é ainda uma herança do salazarismo, causa principal do absentismo cívico ao centro. Soma-se a fuga de centenas de milhares no auge da sua vitalidade. Acrescenta-se a praga do desemprego e as patologias que gera. E acabamos nos tais fanáticos, broncos e avariados dos cornos a lerem religiosamente o seu Correio da Manhã.

Mudam-se os tempos, muda-se a geografia, mas os escravos continuarão sem se revoltarem caso continuem incapazes de encontrar o que os una. Caso continuem estrangeiros na cidade.

É para chegar a este estado que eles andam a destruir o Estado

Em nome da sustentabilidade, algumas Misericórdias e Instituições de Solidariedade Social contornam a ordem da lista de entrada nos lares e deixam passar à frente quem tem reformas mais altas. Responsáveis negam perversão do sistema, antes um meio de evitar falências e conseguir acolher mais utentes de pensões baixas

Os reformados com uma pensão alta têm mais facilidade em encontrar um lugar num lar da Misericórdia e de outras Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), onde a lista de espera chega a ser de vários anos. Há provedores que contornam a ordem de inscrição na lista das vagas dos seus lares e permitem que um idoso de pensão choruda passe à frente de quem apresente uma situação económica fragilizada.

A situação é conhecida e até incentivada pelo presidente da União das Misericórdias, Manuel Lemos, em nome da sustentabilidade daquelas instituições do sector solidário, a que o Estado delegou quase tudo (73%) do que em Portugal se faz a nível de proteção social a idosos, crianças e deficientes, pagando por essa "delegação" de funções cerca de 1,3 mil milhões de euros.

Reformados ricos passam à frente na lista das IPSS

Revolution through evolution

Surprising truth about obsessive-compulsive thinking
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Hepatitis C treatment cures over 90 percent of patients with cirrhosis
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Study Finds Jail Time a Rarity for Domestic Violence Perpetrators
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Genes increase the stress of social disadvantage for some children
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Guns aren’t the only things killing cops
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Hereditary trauma: Inheritance of traumas and how they may be mediated
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Research Says Regular Exercise May Slow Aging Process in Humans

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Além do mais, um bocado burros

O “tangas” que é candidato pelo CDS ao Parlamento Europeu resolveu desafiar o líder do PS a esclarecer publicamente se o partido apoia um candidato socialista/social-democrata à Comissão Europeia – o alemão Martin Schulz – que é contra a mutualização da dívida pública, sendo o PS a favor. Convém lembrar a Nuno Melo que o candidato apoiado pelo CDS-PP e o PSD, partidos que se declaram contra essa mutualização, porque acham que os portugueses (os outros, que não eles) devem cumprir penitência pelos seus pecados – é Jean-Claude Juncker, um homem que, em 2012 se declarava um entusiasta das euro-obrigações e apenas recentemente (apoio da direita alemã a quanto obrigas?) mudou de opinião, embora não radicalmente. Declara-se agora “prudente”. Prudente, mas não contra.

Portanto, sendo este um tema fraturante na Europa e sujeito a evolução (evolução essa a que nenhum candidato se pode dizer imune, nem o da esquerda), o melhor era este fala-barato deixar-se de populismos e explicar aos eleitores portugueses por que razão é contra, se é que é essa a sua posição. Mas, se não é, devia dar-se conta de que vai apoiar um candidato que, neste momento, o é. Seria mesmo melhor falar de vinhos.

Nesta terrinha coitadinha

Durão Barroso quis à força falar do BPN. A única intenção do que contou foi a de difamar Constâncio, mais nada se aproveita e mais nada faz sentido na sua declaração. Depois desse número artístico, o ex-governador do Banco de Portugal desmentiu Durão, um ex-primeiro ministro desafiou Barroso a contar o que alega saber do caso e que ainda não revelou e um ex-Presidente da República pediu para que a Procuradoria-Geral da República chame o presidente da Comissão Europeia à sua responsabilidade judicial dada a gravidade das insinuações que decidiu espalhar.

Que fez Barroso perante esta reacção? Resolveu elogiar o Estado Novo. Que fez Cavaco? Resolveu elogiar Barroso. Que fez Passos? Resolveu elogiar-se a si próprio.

Isto parece tudo um teatro do absurdo que suscita a alienação como resposta defensiva, mas essa complacência, essa inércia, essa impotência só dura enquanto nos mantivermos esquecidos de que a actual direita portuguesa depende de um estado geral de irracionalidade para se manter no poder. Porque foi assim que lá chegaram, atacando a lógica à bomba e mentindo à descarada como nunca se tinha visto, nem se concebia ser possível ver, nesta terrinha coitadinha.

O bloco central é o moinho de vento do Rui Tavares

Se o LIVRE tiver força, se for uma surpresa nas europeias, há uma mensagem importante, desde logo para o PS - e para toda a esquerda -, no que diz respeito às legislativas, isto é, de que passa a existir um interlocutor sério também nessa eleição. Podemos impedir um Governo de bloco central, que colocaria a Constituição em risco.

Rui Tavares

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Que querem estas palavras dizer? Que quer dizer “passa a existir um interlocutor sério“? Que quer dizer “sério“? Qual a necessidade de estar a falar das legislativas, ainda por cima em modo hiperoptimista se não for alucinado, quando nem sequer se passou pelo teste das europeias? Por que razão, para o Rui Tavares, o maior problema que Portugal hoje enfrenta é a possibilidade de um Governo de bloco central cuja composição e projecto são absolutamente desconhecidos nesta altura? De que riscos constitucionais está a falar? Se acha que o PS é um partido que poderá ser agente, ou mero cúmplice, desse profetizado vil ataque à Constituição, porque se oferece como interlocutor para tão desgraçada organização política? Ou estará o Rui Tavares já num estado de louçãnica soberba que o leva conceber-se como o único ser à face da política nacional capaz de salvar o PS de si próprio e, en passant, refundar a esquerda à volta da sua purificada pessoa?

37 anos de contra-revolução, diz o PCP

Quatro partidos chumbam voto de saudação do PCP ao 25 de Abril no parlamento dos Açores

"A pátria portuguesa vive um dos mais graves e dolorosos períodos da sua longa história de mais de oito séculos, seguramente, o mais difícil desde o fim dos negros tempos do fascismo. Um período que entra claramente em conflito com o que Abril representou de conquista, transformação, realização e avanço", afirmou o deputado comunista Aníbal Pires.

Para o PCP, há hoje "uma inaceitável intervenção externa que agride a inalienável soberania" nacional, assim como um programa de ajustamento da troika, negociado por PS, PSD e CDS-PP, que é "um verdadeiro guião para uma nova ditadura, empenhada em aumentar a exploração dos trabalhadores e obliterar os seus direitos, ferindo as liberdades" dos portugueses e "empobrecendo o país de forma deliberada e criminosa".

"A crise nacional é determinada fundamentalmente pelas consequências das políticas de direita levadas a cabo ao longo de mais de 37 anos", considerou Aníbal Pires, apontando que a "contra-revolução" começou com o primeiro Governo de Mário Soares e foi depois continuada por todos os executivos que se seguiram.

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O PCP acha que vivemos num regime de direita desde 1976. Talvez por cansaço ou adaptação, resolveram juntar-se à festa e tudo fizeram, a partir de Setembro de 2009, para que essa direita tivesse o poder absoluto. Quão mais à direita, disseram os deputados do PCP nos idos de Março de 2011, melhor. Tudo bem, o PCP é que tem os livros onde se ensina cientificamente o que é a História e por que ínvios caminhos ela deve ir em ordem a conseguirmos dar cabo do canastro à burguesia. Fica só por explicar o berreiro e o choradinho que o PCP faz sempre que se tenta alterar o que a direita foi alcançando para os trabalhadores e cidadãos portugueses ao longo de 37 anos.

O materialismo dialéctico é só para os carolas, daí ser tão difícil entrar nesse clube de iluminados – e ainda mais difícil sair.

José Rodrigues dos Santos, o cabeça de porcelana

O segundo embate entre José Rodrigues dos Santos e Sócrates foi surpreendente, e fica como mais um momento inusitado para a história da televisão portuguesa. A anomalia, porque é de uma falha que se trata, consistiu no estado emocional do jornalista. JRS estava fragilizado e essa fraqueza gerou uma acréscimo de tensão que superou e perverteu o grau de tensão da primeira conversa; altura em que o especialista em sopa de peixe se julgava num plano de superioridade, qual caçador preparado para abater a presa imobilizada à sua frente. O que estará na origem dessa alteração na confiança terá de ser a opinião publicada a favor de Sócrates, onde se disse que JRS apareceu mal informado, ou deformado, e que levou um bailarico.

Todavia, a tensão não explica tudo, nem sequer o principal do episódio. A evidência mostra um JRS, de facto, muito mal informado ou, então, deformado sem conserto possível – quiçá ambas as situações. Porque o remoque tomado como insulto, em que Sócrates parte de uma citação da auto-apologia publicada por JRS no Facebook, ocorre após longos minutos em que o jornalista manifestou uma desesperante incapacidade para perceber o fulcro da questão: o Banco de Portugal não detectou no BPN, sim, o que não podia detectar apenas recorrendo aos seus meios de investigação e não tendo indicações de que existiria uma contabilidade paralela, algo que careceu de uma carta anónima para então se abrir um processo criminal. Até essa data, o Banco de Portugal terá feito tudo o que estava ao seu alcance face às informações disponíveis. Mesmo que possa ter havido alguma falha na supervisão a esse respeito, matéria para uma discussão legítima, tal não equivale à acusação que a direita (e a esquerda!) faz de modo falacioso e com uma agenda política obscena. Ora, JRS apareceu frente a Sócrates de forma completamente acrítica a repetir o sofisma que punha Constâncio a olhar para a fraude do BPN que hoje conhecemos e a nada fazer. Realmente, caso essa tanga tivesse um grama de verosimilhança, seria um escândalo de proporções homéricas. Só que não tem, como as explicações dadas em comissão de inquérito, a escolha de Constâncio para o BCE e a declaração dos ex-responsáveis do Banco de Portugal atestam para além de qualquer dúvida. Este foi o contexto em que um exasperado Sócrates teve de chamar os bois pelos nomes, não havendo lugar a terceira opção: ou JRS era uma cassete ou era estúpido.

Já no programa anterior tínhamos visto um braço-de-ferro a respeito da 1º conferência de imprensa da Troika, onde JRS por diversas vezes garantiu que nessa ocasião, logo a abrir as festividades, a estranja validou a tese de os Governos de Sócrates terem andado a “desorçamentar” e a “fazer engenharia contabilística” – ou seja, a Troika teria lido um comunicado escrito pelo Relvas. Para JRS isso tinha sido dito “preto no branco”, para Sócrates nem coisa parecida sequer havia sido pensada. Esta divergência não era de somenos nem sobre um assunto menor. Acontece que existe num qualquer computador com acesso à Internet a possibilidade de rever essa conferência na íntegra. Por que razão o jornalista não trouxe para o seu segundo programa as provas branco no preto do que afirmou 15 dias antes à boca cheia e assim enforcar Sócrates à hora do jantar, o rei dos mentirosos? E admitindo que a sua interpretação foi feita de boa-fé, como aceitar que o seu cérebro não o tenha avisado de que, a ter sido como diz que foi, então a Troika estaria a intervir directamente no processo eleitoral em curso, para além de igualmente com declarações desse género estar a desmentir todas as entidades europeias com responsabilidades de supervisão das contas nacionais que nunca tal tinham declarado até então? Que pensar de quem assim (não) pensa nem se dá ao respeito nem respeita a deontologia da sua profissão e ainda menos respeito mostra pela audiência que é suposto servir a troco de dinheiro?

Acontece que JRS é estúpido. Ouvir uma figura grada da televisão, que acumula com ser escritor famoso, a usar a expressão “tem a haver” (minuto 13) é constatar que se está perante um estúpido. Sócrates deverá deixar de se meter com ele com as boquinhas rapazolas que foi largando, como se estivesse num duelo entre iguais ou fossem dois comparsas à compita, e passar a tratá-lo com o cuidado que a sua condição tão frágil exige.

Rangel diz que a Europa não é um bazar, mas ele próprio anda por cá a vender tapetes voadores

Defendendo que, na Europa, não adianta fazer barulho porque não se está num bazar (quem disse?), Paulo Rangel quer convencer os leitores do Público, pelo menos, de que, mais do que regatear, o que importa é a credibilidade com que um governo se apresenta perante os seus pares europeus mais poderosos. Sabemos dos muitos aspetos envolvidos no conceito de credibilidade. Mas, claro está, à medida que a leitura do texto avança e tendo nós a realidade como referência, percebemos que «credibilidade» mais não significa aqui do que obediência e subserviência, e «bazar» um local onde as pessoas se comportam de maneira desrespeitadora da autoridade. Enfim.

Preparando muito cedo o refogado para o prato final (o elogio empolgado ao seu chefe Passos Coelho, considerando-o um portento e uma referência na Europa, não vale rir), eis o que diz na abertura:

Há uma corrente de opinião que está convencida — ou, pelo menos, procura convencer-nos de que a capacidade de afirmação de um país ou de uma posição na União Europeia depende muito da “ambição”, do “músculo” e da “vozearia” com que se apresenta uma dada pretensão. Essa corrente sustenta que só é possível adquirir uma posição de vantagem na Europa, se se definirem metas muito ambiciosas (sempre a raiar a utopia e o lirismo) e, naturalmente, se se gritar, berrar, espernear e bater o pé nas negociações subsequentes. Ao contrário, o activo mais importante — o verdadeiro trunfo — no processo permanente de negociação da construção europeia é a credibilidade. A credibilidade dos objectivos ou propósitos assumidos e a viabilidade das soluções avançadas para os atingir. É justamente a capacidade de persuadir os nossos parceiros e, bem assim, as instituições europeias de que as finalidades a prosseguir são atingíveis e de que os meios a utilizar são adequados e realistas que pode impor uma “agenda portuguesa” no quadro europeu. Naturalmente, essa credibilidade da posição apresentada depende também da credibilidade dos protagonistas e, designadamente, da consistência da sua experiência anterior e do seu discurso político.”

Para além de escolhas duvidosas de vocabulário, como “metas muito ambiciosas” (a que se refere?), e do verbo “persuadir”, que é, com estes protagonistas, um contrassenso e um abuso da nossa paciência, esta tese assenta num gigantesco equívoco: o pressuposto de que este governo teria uma visão da austeridade para o país diferente (para menor) da Alemanha e da Troika e de que em algum momento do seu mandato teria tido consciência de que algo não estava a resultar ou alguma noção sequer de que os interesses dos credores não são, nem podem ser, os nossos. Não tem, nunca teve e jamais terá. Por isso, a mera ideia de que o Governo de Passos e Gaspar/Albuquerque teria a ideia de que algo merecia ser negociado, alguma coisa a contrapor ou sequer a propor aos credores em favor de Portugal é, para todos nós, imunes à banha da cobra, pura e simplesmente inconcebível e totalmente contraditório com o observado.

Assim sendo, a Europa um bazar, compreendemos que, para eles, nunca o seja. Rangel arrepia-se com a própria imagem, de tão incivilizada que é. Ou melhor, desrespeitadora. O problema, ó Rangel, é que nem bazar nem local natural de negociação. Para vocês, é simplesmente um local de vassalagem.

A vigarice da venda de gato por lebre domina boa parte do texto, fazendo este, afinal, jus a práticas que Rangel aparenta desprezar e das quais acusa os outros. Nessa toada, não abdica, evidentemente, do filão que lhes traz mais proveitos eleitorais: a invocação da descida das taxas de juro no último ano – atribuída à tal “credibilidade” (não é que se está mesmo a ver?) e nunca a fatores mais óbvios como a situação internacional dos mercados, os interesses dos investidores ou a ação do BCE. Está visto que, à partida, é muito fácil para o PSD iludir os ouvintes menos bem informados sobre as causas, os detalhes e a evolução de uma crise como esta. É assim que o trauliteiro Rangel vende a “mercadoria”: Sócrates levou o país à bancarrota porque fazia obras megalómanas e dívidas estratosféricas, Passos chegou e pôs ordem na casa e, com a sua credibilidade, pôs as taxas de juro a deslizar por ali abaixo que foi uma beleza. Como já disse, o negócio deste senhor é vender tapetes e ainda mais agora que luta pela renovação de um contrato.

Mas também sabe cozinhar. No final, eis o prato enjoativamente amanteigado que serve a Passos e a Barroso:

Neste conselho, só um primeiro-ministro mostrou abertamente uma discordância profunda da visão de Angela Merkel sobre a união bancária e esse primeiro-ministro foi o português. A posição portuguesa — coincidente com os esforços da Comissão — passou a ser uma referência para a discussão que havia de seguir-se e, em particular, para o Parlamento Europeu. Não houve debate no PPE que não tivesse como referencial a visão de Passos Coelho. Como é sabido, acabou por haver um entendimento e a solução final é francamente melhor do que aquela de Dezembro.”

Portugal não é um país pequeno

Os ministros Crato e Cristas resolveram mandar afixar no dia 2 de Abril em todas as salas de aulas de todas as escolas do país ‒ pontualmente às 10h 30, como na tropa ‒ um mapa intitulado “Portugal é mar”, que mostra que o país poderá vir a ter 40 vezes mais mar do que terra, se for aceite a proposta de alargamento da plataforma continental portuguesa entregue nas Nações Unidas em 2009 pelo governo de Sócrates. A ideia de mandar afixar nas escolas estes 44.780 mapas (!) é a de sensibilizar os “públicos-alvo”, vulgo alunos, para a importância que o mar tem para os portugueses.

Portugal é mar

Estamos perante o acontecimento nacional de maior transcendência desde que Vasco da Gama chegou à Índia e Cavaco foi dormir às Selvagens. Agora só falta fazer qualquer coisa pelo nosso imenso território marítimo, como explorá-lo, estudá-lo, protegê-lo, vigiá-lo e tirar de lá algum proveito. Fica para a próxima.

O mapa em que aparentemente se inspiraram os actuais governantes, da autoria do capitão Henrique Galvão, que mais tarde se zangou com Salazar, era este aqui abaixo, que foi produzido em 1934. Reparem que o capitão se esqueceu de Cabinda, onde só nos anos 60 se descobriu petróleo.

Portugal não é um país pequeno - Henrique Galvão - 1934

O basófias do capitão Galvão pretendia mostrar que o território do Império Colonial Português era superior ao do conjunto da Espanha, França, Inglaterra, Itália e Alemanha. À luz dos acontecimentos posteriores, não se pode dizer que isso nos tenha sido muito útil. Mais valia ter aparecido petróleo em Benavente ou no Algarve.

O arquitecto Paulo Moreira, que tem trabalhado no Porto e em Luanda, teceu em 2011 um comentário muito actual e bem-humorado ao mapa de Galvão, que aqui fica.

Angola não é um país pequeno - Paulo Moreira, 2011

 

Salário mínimo: finalmente. Europeias a quanto o obrigas

Desde que esta legislatura começou assisti a um consenso na concertação social entre trabalhadores e patrões: o aumento do salário mínimo.

Mas Passos Coelho afirmava que a medida mais sensata era “exatamente a oposta e que “não era do interesse de ninguém”.

Aumentar o salário mínimo por lei era, cito de memória, um “presente envenenado”.

Em 2011 o salário mínimo foi travado. Não há dúvida. Estamos em 485 euros.

Só que entretanto há 21% de trabalhadores a ganharem a selvajaria que representa o valor 485 euros.

A austeridade idiota deste governo que acredita também na competitividade gerada por baixos salários obriga, há muito, a que se suba o poder de compra dos trabalhadores, porque mesmo que a já desmontada tese de menos salário é igual a mais competitividade fosse verdadeira, é injusto permitir-se que se viva a sobreviver.

Há momentos de decisão política difícil, gosto de pensar que ninguém sorri a impedir um pouco mais de dignidade às pessoas, mas dá-se a infeliz certeza de que estamos perante um governo que resiste à justiça por ideologia aconselhada de pensamento único.

Passos acordou agora para o aumento do salário mínimo.

Sim, mesmo por lei, é evidente que aplicado ao setor público serve de padrão ao setor privado. Passos, como o comum dos mortais, sabia disto quando vociferava contra o que agora defende.

Aprendeu alguma coisa com o desastre da sua escola?

Não.

É tempo de eleições.